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sexta-feira, outubro 05, 2007

160 - Raúl Hestnes Ferreira, Doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra - Infohabitar 160

  - Infohabitar 160




Raúl Hestnes Ferreira, Doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra


“(Hestnes Ferreira) – Aquela ideia da casa, muito ligada até aos românticos, e sei lá, ao Thoreau, o tipo que vai para a floresta, corta a árvore, arranja as pranchas, faz a sua casa e ali, ali é a sua casa, é uma ideia que continua, a estar presente, culturalmente ...

(Manuel Vicente) – Afinal uma casa é boa para uma família quando for boa para todas, não é? Mas isto não é o elogio do anónimo mas antes da extrema qualidade, a universalidade pela qualidade e não a universalidade pelo «éffacement», pelo apagar.

(Bravo Ferreira) – O neutro ... o neutro é chato em qualquer situação, é sempre cinzento...

(Manuel Vicente) – Do neutro ninguém se apropria... uma pessoa só se apropria daquilo que ama. Uma pessoa não pode amar uma coisa que não seja nada.

(Hestnes Ferreira) – E quando visitamos uma casa do século passado e ficamos deslumbrados com certo tipo de espaços e gostamos mesmo de ir para lá, isso é mesmo um sintoma de que aquilo transcendeu a família para quem foi feito, continua a sugerir e se calhar já foi utilizada de mil e uma formas, já teve mil e uma jarras diferentes em mil e uma mesas diferentes.
(Bravo Ferreira): restou-lhe sempre a qualidade, e essa é que está sempre.”

(Raul Hestnes Ferreira (HF), Manuel Vicente (MV) e Vicente Bravo Ferreira, “Conversa à roda de uma casa”, Arquitectura, n.º 129, 1974, pp. 36-40).

O arquitecto Raúl Hestnes Ferreira recebeu o grau de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra numa cerimónia que decorreu na manhã do dia 30 de Setembro, na Sala dos Capelos (Sala Grande dos Actos).

Este pequeno texto retirado de uma conversa de amigos quer saudar e homenagear um dos grandes arquitectos portugueses actuais e fazê-lo com um sentido de grupo e de alguma naturalidade. Afinal , não tenhamos dúvida de que a Arquitectura só ganha em termos de desenho enriquecido e de verdadeira humanidade com uma tal naturalidade e um tal sentido de grupo e de diálogo.





Pois, afinal, e tal como disse o próprio Raul Hestnes Ferreira (em1973): “De acordo com o que penso que seja a arquitectura, a formação profissional nada é se não for estruturada por uma perspectiva humanista que clarifique os aspectos técnicos dessa formação e lhes dê sentido...”E lembremos, também, que a Arquitectura só ganha com uma cuidada e sentida leitura de ideias como aquelas acima apontadas; desta forma vamos conseguindo cruzar palavras, desenhos e obras, e na carreira de Raúl Hestnes há, de facto excelentes palavras, muitas delas como professor de futuros arquitectos, belos desenhos e grandes obras de Arquitectura.

A propósito de palavras e de Arquitectura valem bem a pena os textos "proposta de atribuição do grau", da autoria do Prof. Arquitecto Alexandre Alves Costa e do Prof. Doutor Walter Rossa que fez o elogio do doutorado; textos estes disponíveis a partir do site: https://webonc.darq.uc.pt/weboncampus/event/dataNews.do?elementId=116

E sobre a vida e a carreira de projectista entre muitos outros textos é interessante começar pela síntese disponibilizada no site da RTP:
http://www.rtp.pt/index.php?article=300085&visual=16&rss=0

Em seguida reedita-se o artigo escrito por uma amiga de Raúl Hestnes Ferreira, a arquitecta paisagista Maria Celeste Ramos, a propósito de uma recente exposição sobre a obra de Raúl Hestnes, uma excelente exposição que esteve patente no seu ISCTE, cerca de Fevereiro de 2006, e que, quem sabe, possa vir a ser proximamente reeditada.

Com uma saudação muito sentida a Raúl Hestnes Ferreira
António Baptista Coelho
1 de Outubro de 2007


Uma imagem de Raúl Hestnes Ferreira no Júri do Prémio INH 2005, que integrou como representante da Ordem dos Arquitectos




Sem palavras de apresentação que não as de uma atenção muito afectiva para o precioso significado e a rara beleza e sinceridade das palavras, que se seguem, da amiga Maria.Celeste.Ramos, faz-se no Infohabitar uma primeira viagem de texto e imagens a propósito da belíssima exposição, actualmente em exibição no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), sobre a obra de Raúl.Hestnes.Ferreira, e já agora, quem não conheça, pode aproveitar para passear na muito rica e muito humana arquitectura exterior e interior do novo edifício do ISCTE, também concebido por Raúl.Hestnes e que constitui uma verdadeira continuidade da exposição; as imagens são de Pedro Romana Baptista Coelho
Amiga Celeste, o Infohabitar considera um privilégio editar as tuas palavras,
Antonio Baptista Coelho
FAZER CIDADE
A propósito da macro-exposição dos projectos do arqtº. Raúl.Hestnes.Ferreira no ISCTE que visitei a 7 de fevereiro de 2006, sinto necessidade de voltar atrás quando também eu trabalhei no GTH a desenhar espaços de jardim, integrada na equipe por onde passaram alguns grandes arquitectos-paisagistas e arquitectos de hoje que fizeram Cidade, tentando eu "acompanhá-los" ajardinando os "espaços" por eles concebidos e honrar os colegas mais velhos que por lá já tinham passado, o que abria para mim, ainda tão jovem, um mundo novo não apenas de trabalho mas também de "olhar" a cidade e de participar na sua construção pois que, do papel, se seguiu depressa a sua construção, tendo-me sido muito grato, ainda, abrir pela primeira vez grandes covas para plantar as árvores que ainda lá estão hoje tão velhas e sólidas como os edifícios, numa área de cidade de grande qualidade de vida e de ambiente urbano



Nesses anos 60 o país iniciava nova forma de fazer cidade em Olivais Norte e Sul, e Chelas, planeada e desenhada não só a outra escala de intervenção no espaço físico, mas com novo desenho de estruturação como se de "cidade nova" se tratasse, moderna nos desenhos de estrutura entre eles o "celular", como o de uma célula de ser vivo, que se introduzia quase "clandestinamente" na cidade antiga de desenho "tradicional", pese embora a diversidade que Lisboa pode oferecer e de que Alfama é sempre excepção mas contudo sempre dentro da mesma "regra” de construir habitar.
Que surpreendente para mim, "novata" nas coisas dos jardins e da cidade, e que passados tantos anos me é forçado reavivar, não por ser muito importante o meu trabalho, mas ter sido esta exposição que, mais uma vez, me faz repensar melhor cada "bocado" da cidade onde moro, com mais "um olhar" e um referencial que passa pelo olhar do meu envelhecer em paralelo com o da própria urbe e com contínuo feed-back como se eu me sentisse um bicho que olha o seu habitat de que muito depende "qualquer bicho."



Assim este recuo que faço permite-me não apenas avaliar a qualidade do que foi feito nesse tempo e que é hoje referência de qualidade urbana e de dinâmica da cidade, manifestada igualmente pela apropriação feita pelas várias gerações de habitantes que conquistaram a “sua cidade”, o “seu bairro”, o “seuhabitar” e o “seu viver.”
Estes 50 anos de cidade nova a que o tempo já deu "tempo histórico" desde o tempo do risco dos esquissos até à existência da árvore que dá, pela sua estatura, uma definição rigorosa do tempo de existência dessa realidade "tijolo-árvore-habitar" - tempo vivo na natureza das coisas e do lugar do homem.



Apetece-me assim fazer este percurso emocional, não apenas sobre este-bocado-de-cidade-também já velha, que faz contínuo edificado e contínuo Humano com a cidade histórica, integrando a natureza viva, mas relacionando-a com a evolução da cidade-velha à qual esta foi acrescentada permanecendo a matriz de urbanidade em que é visível a evolução da vida do betão-tijolo-árvore, mas que hoje poderá estar a ser posta em causa pois que a evolução da cidade mais velha foi transformada e transfigurada nem sempre da melhor forma sobretudo a partir dos anos 80 devido a novos factores de evolução que a cidade teve de integrar, não apenas em termos de crescimento demográfico que acompanhou a introdução do automóvel, tão abruptamente, que levou a transformações globais por vezes tão drásticas e brutais sobretudo nas grandes avenidas que de repente se transformaram em auto-estradas urbanas, desumanizando o viver, mas contudo realidade com que a cidade se teve de debater e tem que com ela viver e continuamente ajustar-se, mas sem no entanto ter ainda encontrado compromisso de qualidade




Não quero deambular muito mais por este tema em que o peão deixou de ter prioridade para a ceder ao automóvel que também não só transtornou os velhos transportes públicos tradicionais como o eléctrico , como obrigou ao "tapamento" dos belos pavimentos das ruas em paralelepípedos de granito para que não lhe caíssem os parafusos nem avariassem a suspensão, pavimento que era semi-permeável e sem quase despesa de conservação e certamente sem causar nenhuma poluição, como a que é hoje provocada pelos combustíveis fósseis utilizados como energia-motor, acrescida aos detritos derivados do desgaste do betuminoso com o atrito dos pneus que por sua vez se desgastam e tornaram a atmosfera irrespirável todos eles detritos cancerígenos, para além de ter alterado, irreversivelmente, o clima urbano que passou a ser mais quente e mais seco, até porque a chuva quando cai já não encontra os pequenos espaços das juntas das pedras a que estava habituada e ser bem recebida para bem da cidade e cidadãos e tudo se tornou negro e impermeável com estes modernos materiais também emanadores de CO2, acrescendo-se ainda a poluição do som, num acréscimo contínuo de desumanização da cidade que não encontra equilíbrio para a vida global e a modernidade.




Assim, a exposição de 45 anos de arquitectura de Hestnes Ferreira, inaugurada no ISCTE a 7 de Fevereiro de 2006, é importante não apenas pelos projectos que foram agora postos a público na sua essencialidade contando a sua história pessoal que se confunde com a profissional, mas porque este arquitecto e o seu trabalho já fazem parte da história da cidade, sendo que este preâmbulo só propõe equacionar a minha visão da cidade "desse tempo", que também vivi, para que possa, então, olhar a sua obra e sobre ela opinar, obra que não se pode separar nem da evolução do país nem da cidade, nem do tempo histórico e cultural, e mesmo económico, pois que se os anos 60 são de grande viragem e evolução, os anos 80 serão o início de tempo de grande degradação, hoje constatada não importa por que tipo de cidadão urbano, sabendo ou não o que quer que seja da história da cidade que habita
A sua obra é assim representativa e imbuída de factos da história do país durante a segunda metade do século passado de que os actos de fazer arquitectura fazem parte e que vieram também romper com a arquitectura "institucionalizada" e denominada de "português suave"



Esta é uma exposição de um homem e uma vida e da sua contribuição para o "construir-habitar", que já não seria no entanto a cidade de agora que exige ainda mais interdisciplinaridade do que há 50 anos atrás, porque a vida urbana se tornou muito mais complexa, tempo durante o qual também aumentou de forma quase inesperada a esperança de vida, a par das grandes mudanças sociais e de participação do cidadão permitindo que os habitantes invoquem o direito de pedir muito mais à cidade e, para tanto até bastará dizer que eu, cidadã do mesmo país, nele vivi para além da maioridade sem qualquer direito de cidadania pois que só me era concedido o direito social - e parcialmente jurídico - de existir .
Abrir a boca, ter opinião e emiti-la era como se se cometesse "pecado de querer existir como ser social e intelectual" e as consequências estavam logo ali - 50 anos bem interessantes, esses, que coincidem com o tempo em que o trabalho deste arquitecto foi executado e “fez cidade”, quase tantos quantos eu, e outros como eu, levaram a adquirir o direito de existir em plenitude social. Mas não estarei a sonhar com essa de plenitude social? Enganei-me com certeza.
Terminada esta espécie de enquadramento sociocultural, parece no entanto que hoje, importante ou vazia, a minha opinião pode não apenas ser emitida, como ouvida e, se não for, resta o "grito", porque já se pode "gritar".
Desta forma ao olhar cada projecto exposto, na sua imensa variedade formal recolhe-se esta quase incapacidade de não voltar atrás para melhor repensar o hoje e, só depois, mas em primeiro lugar, falar da sensação quase inquietante de "quantidade", como se fosse inesperado que um homem só conseguisse produzir o que foi nesta exposição dado apreciar por quantos a visitaram e foram muitos e serão com certeza muitos mais os que terão interesse em ver a "forma" como um homem viveu o seu tempo através do seu trabalho.




Já se escreveu neste blog/revista, no final do ano de 2005, sobre "o espírito do lugar", num artigo geminado. Que interessante é esta experiência de adesão intelectual, e afectiva, que faz alguém repegar uma ideia e geminar-lhe a sua num "contínuo-cultural" que une, retoma e segue, à semelhança do que é, afinal, a cidade, ela espelho dos habitantes, que permite construção de afectos adentro (e fora) das paredes duras de cada habitação.
Parecendo-me que habitar terá também essa dimensão de juntar o meu ao seu olhar a cidade e a ideia de ser o espaço dos homens e dos seus afectos e de lançar raízes não apenas estéticas e éticas, mas também afectivas e solidárias.
Cidade a Casa do Homem e o conforto de viver física e emocionalmente.



Olhar cada projecto de Hestnes Ferreira é desventrar-lhe não apenas a forma da sua geometria mas a intenção com que o "desenho" se apropriou das mãos, ou as mãos do desenho que se destinava a um lugar e a uma função específica
Olhar cada projecto e apreciar-lhe o desenho de geometrias quase arquetípicas tal que se diria que cada lugar as aceitaria sem "gemido" porque se lhe apõem humanizando-o e revivificando-o, dando-lhe "existência."
Espírito do lugar?
Espírito da intenção?
E que espírito teria porventura cada lugar de cada projecto?
Não teria sido algumas vezes o "espírito do projecto" que o deu ao lugar?
Se há lugares que não admitem que sejam "adulterados na sua essência" porque é essa a sua condição de "lugar", outros há que "esperam" que algo ou alguém lhes dê vida e identidade em diálogo inteligente homem-lugar e a sua obra.
Assim, obrigada Raúl por essa arquitectura de mão-cheia, que "sobrou" como exemplo de vida concreta e exponível para os teus colegas e para muitos outros, e que "fez cidade e vida de viver."
PS - não cheguei a falar sobre os projectos de Hestnes Ferreira, só falei de mim como pessoa urbana que foi crescendo e olhando a cidade durante esse tempo de trabalho em que foram sendo desenhados e construídos tais projectos pelo país espalhados e pergunto se não será necessário aprender, colectivamente, a LER o sentido e espírito de ser cidade com os espaços onde se tem de viver.
Lisboa e Bairro.de.Santo.Amaro, 11 de fevereiro de 2006
Celeste Ramos

sexta-feira, abril 13, 2007

134 - Cidades desejadas e seguras (I): o problema da habitação tornou-se o problema da cidade – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 134

 - Infohabitar 134

( palavras chave: cidade, segurança urbana, urbanismo, cidade habitada, fazer cidade com habitação, arquitectura cívica, humanização, vitalização, periferia, bairros inseguros, bairros perigosos)


Cidades desejadas e seguras (I):

o problema da habitação tornou-se o problema da cidade

António Baptista Coelho

O subtítulo deste artigo é uma frase do Arq.º Luis Fernández-Galiano, retirada de um dos seus excelentes editoriais na revista espanhola “Arquitectura Viva” (n.º 97), expressivamente intitulado, “Habitação sem cidade” (“Vivienda sin ciudad”). Foi aí que ele sintetizou, e muito bem, que “ o problema da habitação se tornou o problema da cidade.”

Fernández-Galiano explicou esta ideia, ao referir que ”durante o século XX, a transformação urbana provocada pela mecanização da agricultura e os fluxos migratórios do campo para a cidade provocaram o chamado «problema da habitação»... No princípio do século XXI, e no contexto do mundo desenvolvido, o alojamento não é já uma preocupação quantitativa ou sanitária, mas sim qualitativa e ambiental: garantidas as dimensões mínimas, a ventilação eficaz e a saudável insolação, a habitação contemporânea padece de mediocridade visual, programas rotineiros e envolventes anorécticas.”



E concluiu salientando que. “A habitação não é hoje um problema que precise de experimentações estéticas ou inovações estilísticas; é um problema urbano, da civitas ou da polis, o que quer dizer, um problema de cidadania e político. Precisamos de mais arquitectura; mas, acima de tudo, precisamos de mais cidade.”



Fig. 01

Aponta-se que o presente texto teve como motivação, mais directa, um excelente artigo saído em 7 de Abril de 2007, no semanário Expresso, sobre as condições de insegurança urbana num número significativo de “bairros sociais” e de outros bairros citadinos ou periféricos na Área Metropolitana de Lisboa; o artigo é de Valentina Marcelino e Jorge Simão e intitula-se “Alto risco na zona oriental - Número de bairros violentos sobe 50%”, e logo em destaque o artigo salienta: “Autoridades evitam a força face ao aumento do crime violento. Preferem estudar os bairros e criar vínculos”.

Importa referir, desde já, que a ideia que baseou o presente texto foi desenvolver, a partir de algumas ideias presentes naquele artigo, uma aproximação muito global e eficazmente informal aos aspectos de segurança e insegurança urbana. No entanto há que confessar que, à medida da elaboração foi este mesmo texto “fugindo” das matérias mais específicas da segurança urbana, às quais havemos de voltar em breve e de forma atenta e o mais possível completa, para uma perspectiva que encara a cidade como sítio que desejavelmente proporciona o espaço mais adequado e mais naturalmente protector das actividades humanas e designadamente daquelas que mais exigem em termos de adequadas condições de exercício; como será a possibilidade da fácil escolha entre o convívio e a privacidade e entre a animação e o sossego.

E diria mesmo que é este livre e agradável arbítrio, caldeado com a riqueza cultural, a diversidade da imagem urbana e a existência de empatia entre espaços urbanos habitados e os seus habitantes, que constituem um conjunto de condições de vida diária fortemente propiciadas por partes de cidades naturalmente seguras, porque agradavelmente envolventes, conviviais, vivas e apropriadas.



Fig. 02

Não é, no entanto, possível deixar de sublinhar, que, infelizmente, em Portugal, os aspectos quantitativos associáveis à qualidade do habitar e à qualidade da cidade não estão ainda resolvidos, seja porque os velhos problemas, como os “bairros de barracas” ainda persistem pontualmente, seja porque outros problemas estão aí bem presentes; alguns deles velhos, como a sobre-ocupação e a vetustez de partes do parque habitacional e outros novos e associados, por exemplo, seja à imigração, seja à “nova” pobreza urbana, que tem muitas facetas, mas onde se salientam os sem-abrigo. E como se verá, ainda que sinteticamente, muitos destes aspectos têm ligações fortes com as questões da cidade bem, ou mal, habitada, bem, ou mal, desenhada.

E talvez que a questão fundamental da cidade de hoje esteja aqui nestas questões do melhor ou pior habitar, portanto da maior ou menor vitalidade urbana – e atente-se que se fala de vida urbana não de bairros-dormitório –, e do melhor ou pior desenho do habitar – e sublinha-se que aqui desenho se refere à concepção arquitectónica num sentido verdadeiro, portanto amplo e bem fundamentado.

Um outro aspecto a ter em conta como base de todas estas reflexões é a questão de para quem se faz cidade e habitação. Uma questão que parece evidente, mas que perde essa evidência quando visitamos conjuntos ditos residenciais onde o automóvel é rei e onde, por vezes, existe um quase total divórcio entre o interior do conjunto e a sua envolvente “dita” urbana. São questões fundamentais estas e que devem ter resposta, pois assim como não se fazem habitações com as características de arquivos e arrumações industriais, porque aí vivem pessoas, com as suas necessidades e os seus hábitos; também o espaço público não pode ser feito para o veículo e para a simples passagem de infraestruturas, tem de ser feito com, pelo menos, dois objectivos fundamentais:

(i) O espaço público tem de ser feito para a pessoa a pé, para a pessoa a pé que precisa de ser devidamente apoiada em termos funcionais, acompanhada e motivada em termos urbanos, estrategicamente abrigada do sol a mais e da chuva, estrategicamente relacionada com as outras pessoas e com as actividades urbanas, e estrategicamente orientada e dotada de condições de visibilidade de segurança e de auto-controlo espacial – e atenção que o perfil do cidadão tem de ser pensado e realizado à escala da criança e do velho; caso contrário para quem é que se está a fazer cidade?



Fig. 03

(ii) E o espaço público tem também de ser feito para a cidade, para a cidade como construção comum e representativa da nossa cultura e aqui se irá exigir mais, mais desenho, mais qualidade, mais trabalho, mais imaginação, mais cuidado, pois a cidade é memória e será memória e ninguém pode viver sem memória ou com uma memória corrompida ou deturpada.



Fig. 04

Dito isto, afirma-se que construir um espaço público como esse, um espaço de vivência de uma cidade que seja como que uma grande casa, da qual gradualmente vamos conhecendo os mais pequenos recantos e os aspectos mais sugestivos e os pormenores mais subtis e marcantes, uma grande casa feita para uma grande diversidade de habitantes e de usos, é uma construção que exige uma elevada qualidade de concepção; e tal como referiu Charles Moore, em um dos seus textos, estamos ainda a procurar garantir a esta escala urbana habitada a qualidade que já atingimos no edifício isolado.; são, realmente, em muito maior número os “grandes” edifícios do que os “grandes” conjuntos urbanos, e são estes os grandes protagonistas da cena urbana, não tenhamos dúvidas.

Mas dá vontade de dizer e mesmo de repetir e de sublinhar que uma tal procura da qualidade à escala urbana habitada tem de começar a chegar, obrigatoriamente, hoje em dia, e de forma sistemática, a resultados claramente positivos, pois não é mais possível continuar a destruir tanto do que outrora foi bem feito e a construir tanto e tão mal feito, e designadamente a esta fundamental escala urbana vitalizadora de relações coesas de proximidade e de relações estruturantes de uma cidade viva.

Para tal é muito urgente e necessário que a arquitectura seja feita por arquitectos, mas tal condição não chega para o referido objectivo; há que exigir, também aos arquitectos, que a qualidade da sua arquitectura tenha verdadeira valia urbana e humana, há que exigir uma verdadeira qualidade de desenho pois queremos voltar a fazer cidade culturalmente fundamentada, humanizada e atraente, uma cidade que nos orgulhe e onde gostemos realmente de viver e conviver.



FIg. 05

Lembremos, agora, que o fazer cidade viva que apoie funcionalmente, estimule e proteja o peão é fazer cidade mais segura, seja nas questões ligadas à urgente negação das vias que são pistas de automóveis – e depois de o serem, então, marcam-se com sinais de controlo da velocidade e outras medidas de redução da mesma -, seja na criação de partes de cidade com continuidade urbana e de actividades, estruturadas por percursos agradáveis, memorizáveis, acompanhados por actividades e funções que vão polarizando as suas sequências de espaços.

E só assim teremos cidades que, física, funcional e ambientalmente, propiciem segurança urbana; uma segurança que mais do que sentida directamente, estará, naturalmente embebida num meio urbano que nos satisfaz e nos atrai e que, consequentemente, é factor de uso mais intenso do espaço público, sendo assim factor de convívio e de potencial de ajuda mútua – condições estas também fundamentais para a segurança urbana, mas antes disso, e na base disso, para a construção de uma verdadeira cidade do encontro e da comunidade.

Afinal, e tal como referiu Jane Jacobs (“Morte e vida das grandes cidades”, 1961), há que ter em conta que “a ordem pública não é mantida basicamente pela polícia... É mantida fundamentalmente pela rede intrincada de controlos e padrões de comportamento espontâneos… e o problema da insegurança não pode ser solucionado pela dispersão das pessoas... Numa rua movimentada consegue-se garantir segurança; numa rua deserta não…”

Que isto não seja entendido como a negação da importância dos serviços de segurança, mas estes mesmos serviços têm de avançar e têm avançado no sentido da acção de proximidade e do apoio específico e diário à qualidade de vida; temas a que voltaremos em próximos artigos e a propósito lembremos que já no referido artigo no Expresso se indicava que as “autoridades evitam a força ... Preferem estudar os bairros e criar vínculos.”



Fig. 06

É, sim, fundamental que as sábias e pioneiras palavras de Jane Jacobs sejam literalmente entendidas, como relevadoras da vital importância de uma cidade com continuidades urbanas e com regularidades urbanas “correntes”, como são (por exemplo) os enfiamentos e as sequências de ruas, as esquinas habitadas, as correntezas de edifícios com entradas bem ligadas à rua e bem assinaladas e apropriadas, as montras de lojas atraentes e regularmente distribuídas, as pracetas acolhedoras que integram pequenas esplanadas, as excelentes galerias comerciais que tornam os troços citadinos mais coesos, e, naturalmente, uma escala urbana que privilegie edifícios não muito altos nem muito grandes, capazes de proporcionarem muitos desses acontecimentos urbanos vitalizadores e muitas janelas de habitações não muito longe do que se passa na rua.



Fig. 07

Pelo contrário, se pensarmos na negação de muitos desses aspectos de forma e função urbana, deixamos de ter cidade com continuidades públicas, e até por vezes deixamos de ter ruas minimamente coesas, e deixamos de ter esquinas que marquem ritmos e funções de percursos, e assim, o pouco comércio que aí tentará sobreviver, pode ir morrendo, instalando-se uma espiral de desvitalização e de abandono do espaço de uso público; e aí, em “ruas” desertas, não é possível garantir segurança, e, mesmo antes disso, não é possível proporcionar conforto e gosto de habitar, porque antes da insegurança e em parte da sua génese está o desamor pelo espaço público e pelo sítio que se habita, afinal defendemos muito mais, ou só defendemos, aquilo de que gostamos, aquilo de que nos apropriamos.

Assim voltamos ao tema “nuclear” deste artigo: “o problema da habitação tornou-se o problema da cidade” e, muito provavelmente, o problema da insegurança no habitar tornou-se no problema da insegurança na cidade. Uma insegurança no habitar que radica também em condições de habitar e de vida urbana pouco humanizadas, pouco ligadas ao que a cidade pode e deve proporcionar de positivo e de diversidade funcional e cultural. E acresce, hoje em dia, a esta problemática que os principais problemas da cidade de hoje são os das megacidades, matéria pertinente que também fica para outros artigos, mas, sobre a qual, desde já, se sublinham as virtualidades das vizinhanças de proximidade e dos pequenos conjuntos urbanos como elementos de manutenção da escala humana e de dinamização estratégica e reforço da coesão, também, nas grandes urbes.



Fig. 08

Em toda esta matéria não devemos nunca considerar de forma menos atenta e adequada a questão real da insegurança, tal como ela é sentida, “na pele”, infelizmente, em tantos casos que, depois, surgem na comunicação social, por exemplo em artigos como o de Henrique Machado, no Correio da Manhã de 6 de Março de 2005, onde sob as palavras “Bairros de crime”, o jornalista refere que eles “fazem lembrar territórios sem lei, onde mandam os senhores do crime que trazem em pânico moradores que ainda resistem à marginalidade.”

E há, também, que reflectir sobre os parâmetros que baseiam a construção das listagens dos bairros “perigosos”, onde se conjugam, por exemplo (caso do estudo referido pelo artigo que saiu no Expresso), “condicionantes arquitectónicas e densidade populacional”, com “número de residentes com antecedentes criminais, número de casos de desordem pública, número de agressões a elementos policiais e número de casos de crimes praticados por residentes fora do bairro”. E há que reflcetir sobre estas matérias, porque se considera que, na base de tudo está, evidentemente, o desenho urbano e habitacional ou, frequentemente, o não-desenho – no sentido de concepção urbana integrada (neste caso desintegrada) – que marca tantos dormitórios suburbanos. E um não-desenho ao qual se associa uma não-cidade em termos sociais, porque socioculturalmente homogénea e desintegrada.

E aqui é já possível afirmar que seria muito acertado realizar um estudo prático deste universo da nossa vergonha urbana e para ele tentar e aplicar, de forma expedita, as melhores receitas para lhes aumentar urgentemente a qualidade de vida e naturalmente lhes reduzir a insegurança e a intolerância; e um tal estudo também ajudaria a não repetir e, provavelmente, a remediar os erros urbanísticos, como ainda vai acontecendo, embora menos frequentemente do que aconteceu, entre nós, designadamente, no período entre o início dos anos 70 e meados dos anos 80.

Há que dizer, de uma vez, que muitos conjuntos de edifícios onde muitas famílias e pessoas isoladas vivem, em periferias citadinas sem vida, não são mais do que “edificação habitacional”, não são nem cidades, nem partes de cidade, nem casas, nem partes de casas. São elementos humana, citadina e ambientalmente negativos com dimensão excessiva, são tipos de edifícios por vezes inteiramente inadequados a quem lá habita – quando são “tipos” de edifícios e não apenas construções com uso habitacional –, são espaços exteriores pouco acabados, mal acabados ou mesmo quase inexistentes em termos de funções e de forma pública, e são afinal sítios, que não são sítios, sem identidade e sem cidade, seja por falta de continuidade urbana, seja por falta de transportes públicos, seja por falta de desenho (concepção); seja, finalmente, por vezes, por falta de tudo isto, e, tantas vezes, numa má mistura física tornada realmente patológica, quando contém uma mistura social que nada tem da normal e rica diversidade sociocultural da cidade.

Lembram-se as impossíveis misturas habitacionais que só integram grupos socioculturais com diversos tipos de carências e de problemas de integração, como se uma verdadeira parte de cidade pudesse viver assim, truncada de parte do seu sangue. E se tudo aquilo que aqui não há é essencial para que a cidade se faça com habitantes e habitação, aqui não se faz cidade, e na ausência de cidade quem lá mora fecha-se em casa, o último reduto, enquanto as ruas “fazem lembrar territórios sem lei”.

Conclui-se, como se começou, com palavras de Luís Fernandez-Galiano: “A habitação ... é um problema urbano, da civitas ou da polis, isto quer dizer, de cidadania e político. Precisamos de mais arquitectura; mas acima de tudo precisamos de mais cidade.”



Fig. 09

Em próximos artigos desta série, estruturada pelo tema “o problema da habitação tornou-se o problema da cidade”, serão considerados, entre outros, os aspectos de urgência e de complexidade imbricados nestas matérias da negação social da “não-cidade” e da insegurança de que essa não-cidade é sítio próprio; e desde já se afirma que, evidentemente, o ambiente físico e arquitectónico é apenas um dos factores aqui em jogo, mas, no entanto, é em casas com paredes de “pedra e cal” e em ruas com correntezas de edifícios com janelas reais que se vive e se trabalha, e, portanto, será sempre do quadro físico que se terá de partir e ao quadro físico que se terá de chegar nesta urgente e pacífica batalha.

Ao contrário do que é já um hábito que se acarinha no Infohabitar, as imagens que ilustram o corpo deste artigo não foram especificamente identificadas, quer relativamente aos sítios “visitados”, quer relativamente aos respectivos autores projectistas. Pretendeu-se desta forma chamar mais a atenção para o fio de pensamentos no texto e menos para tais referências. No entanto escolheram-se, premeditadamente, apenas bons exemplos de habitação que faz cidade e de cidade viva e qualificada, portanto amada e tendencialmente segura, exemplos estes apurados em diversos bairros de Lisboa, entre os quais se destacam os sempre incontornáveis Alvalade e Campo de Ourique e os também sempre incontornáveis e mais recentes Tellheiras e o “velho” excelente Alto do Restelo da EPUL.



Fig. 10

Como se verá, em próximos artigos desta série sobre os tão imbricados problemas da habitação e da cidade, mais do que de uma tipologia habitacional e urbana específica, a qualidade do habitar uma cidade viva depende, numa primeira linha, da verdadeira e bem fundamentada qualificação do seu desenho, numa segunda linha, de preocupações específicas com aspectos de definição e responsabilização territorial e, em linhas paralelas, depende de se visar uma verdadeira parte de cidade convivial e com diversidade sociocultural, aspectos estes que, por sua vez, tem de interagir com a concepção da forma-função. Mas estes são aspectos que terão de ficar para próximos artigos.
Lisboa, Encarnação, 11 de Abril de 2006


Edição: José Baptista Coelho

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

70 - FAZER CIDADE – a exposição de Raúl.Hestnes.Ferreira no ISCTE, um artigo de Celeste Ramos - Infohabitar 70

 - Infohabitar 70

FAZER CIDADE – a exposição de Raúl Hestnes Ferreira no ISCTE

artigo de Celeste Ramos
imagens de Pedro Romana Baptista Coelho

Sem palavras de apresentação que não as de uma atenção muito afectiva para o precioso significado e a rara beleza e sinceridade das palavras, que se seguem, da amiga Maria.Celeste.Ramos, faz-se no Infohabitar uma primeira viagem de texto e imagens a propósito da belíssima exposição, actualmente em exibição no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), sobre a obra de Raúl Hestnes.Ferreira, e já agora, quem não conheça, pode aproveitar para passear na muito rica e muito humana arquitectura exterior e interior do novo edifício do ISCTE, também concebido por Raúl Hestnes e que constitui uma verdadeira continuidade da exposição; as imagens são de Pedro Romana Baptista Coelho.
Amiga Celeste, o Infohabitar considera um privilégio editar as tuas palavras,
Antonio Baptista Coelho
FAZER CIDADE
A propósito da macro-exposição dos projectos do arqtº. Raúl.Hestnes.Ferreira no ISCTE que visitei a 7 de fevereiro de 2006, sinto necessidade de voltar atrás quando também eu trabalhei no GTH a desenhar espaços de jardim, integrada na equipe por onde passaram alguns grandes arquitectos-paisagistas e arquitectos de hoje que fizeram Cidade, tentando eu "acompanhá-los" ajardinando os "espaços" por eles concebidos e honrar os colegas mais velhos que por lá já tinham passado, o que abria para mim, ainda tão jovem, um mundo novo não apenas de trabalho mas também de "olhar" a cidade e de participar na sua construção pois que, do papel, se seguiu depressa a sua construção, tendo-me sido muito grato, ainda, abrir pela primeira vez grandes covas para plantar as árvores que ainda lá estão hoje tão velhas e sólidas como os edifícios, numa área de cidade de grande qualidade de vida e de ambiente urbano



Nesses anos 60 o país iniciava nova forma de fazer cidade em Olivais Norte e Sul, e Chelas, planeada e desenhada não só a outra escala de intervenção no espaço físico, mas com novo desenho de estruturação como se de "cidade nova" se tratasse, moderna nos desenhos de estrutura entre eles o "celular", como o de uma célula de ser vivo, que se introduzia quase "clandestinamente" na cidade antiga de desenho "tradicional", pese embora a diversidade que Lisboa pode oferecer e de que Alfama é sempre excepção mas contudo sempre dentro da mesma "regra” de construir habitar.
Que surpreendente para mim, "novata" nas coisas dos jardins e da cidade, e que passados tantos anos me é forçado reavivar, não por ser muito importante o meu trabalho, mas ter sido esta exposição que, mais uma vez, me faz repensar melhor cada "bocado" da cidade onde moro, com mais "um olhar" e um referencial que passa pelo olhar do meu envelhecer em paralelo com o da própria urbe e com contínuo feed-back como se eu me sentisse um bicho que olha o seu habitat de que muito depende "qualquer bicho."



Assim este recuo que faço permite-me não apenas avaliar a qualidade do que foi feito nesse tempo e que é hoje referência de qualidade urbana e de dinâmica da cidade, manifestada igualmente pela apropriação feita pelas várias gerações de habitantes que conquistaram a “sua cidade”, o “seu bairro”, o “seuhabitar” e o “seu viver.”
Estes 50 anos de cidade nova a que o tempo já deu "tempo histórico" desde o tempo do risco dos esquissos até à existência da árvore que dá, pela sua estatura, uma definição rigorosa do tempo de existência dessa realidade "tijolo-árvore-habitar" - tempo vivo na natureza das coisas e do lugar do homem.



Apetece-me assim fazer este percurso emocional, não apenas sobre este-bocado-de-cidade-também já velha, que faz contínuo edificado e contínuo Humano com a cidade histórica, integrando a natureza viva, mas relacionando-a com a evolução da cidade-velha à qual esta foi acrescentada permanecendo a matriz de urbanidade em que é visível a evolução da vida do betão-tijolo-árvore, mas que hoje poderá estar a ser posta em causa pois que a evolução da cidade mais velha foi transformada e transfigurada nem sempre da melhor forma sobretudo a partir dos anos 80 devido a novos factores de evolução que a cidade teve de integrar, não apenas em termos de crescimento demográfico que acompanhou a introdução do automóvel, tão abruptamente, que levou a transformações globais por vezes tão drásticas e brutais sobretudo nas grandes avenidas que de repente se transformaram em auto-estradas urbanas, desumanizando o viver, mas contudo realidade com que a cidade se teve de debater e tem que com ela viver e continuamente ajustar-se, mas sem no entanto ter ainda encontrado compromisso de qualidade



Não quero deambular muito mais por este tema em que o peão deixou de ter prioridade para a ceder ao automóvel que também não só transtornou os velhos transportes públicos tradicionais como o eléctrico , como obrigou ao "tapamento" dos belos pavimentos das ruas em paralelepípedos de granito para que não lhe caíssem os parafusos nem avariassem a suspensão, pavimento que era semi-permeável e sem quase despesa de conservação e certamente sem causar nenhuma poluição, como a que é hoje provocada pelos combustíveis fósseis utilizados como energia-motor, acrescida aos detritos derivados do desgaste do betuminoso com o atrito dos pneus que por sua vez se desgastam e tornaram a atmosfera irrespirável todos eles detritos cancerígenos, para além de ter alterado, irreversivelmente, o clima urbano que passou a ser mais quente e mais seco, até porque a chuva quando cai já não encontra os pequenos espaços das juntas das pedras a que estava habituada e ser bem recebida para bem da cidade e cidadãos e tudo se tornou negro e impermeável com estes modernos materiais também emanadores de CO2, acrescendo-se ainda a poluição do som, num acréscimo contínuo de desumanização da cidade que não encontra equilíbrio para a vida global e a modernidade.



Assim, a exposição de 45 anos de arquitectura de Hestnes Ferreira, inaugurada no ISCTE a 7 de Fevereiro de 2006, é importante não apenas pelos projectos que foram agora postos a público na sua essencialidade contando a sua história pessoal que se confunde com a profissional, mas porque este arquitecto e o seu trabalho já fazem parte da história da cidade, sendo que este preâmbulo só propõe equacionar a minha visão da cidade "desse tempo", que também vivi, para que possa, então, olhar a sua obra e sobre ela opinar, obra que não se pode separar nem da evolução do país nem da cidade, nem do tempo histórico e cultural, e mesmo económico, pois que se os anos 60 são de grande viragem e evolução, os anos 80 serão o início de tempo de grande degradação, hoje constatada não importa por que tipo de cidadão urbano, sabendo ou não o que quer que seja da história da cidade que habita
A sua obra é assim representativa e imbuída de factos da história do país durante a segunda metade do século passado de que os actos de fazer arquitectura fazem parte e que vieram também romper com a arquitectura "institucionalizada" e denominada de "português suave"



Esta é uma exposição de um homem e uma vida e da sua contribuição para o "construir-habitar", que já não seria no entanto a cidade de agora que exige ainda mais interdisciplinaridade do que há 50 anos atrás, porque a vida urbana se tornou muito mais complexa, tempo durante o qual também aumentou de forma quase inesperada a esperança de vida, a par das grandes mudanças sociais e de participação do cidadão permitindo que os habitantes invoquem o direito de pedir muito mais à cidade e, para tanto até bastará dizer que eu, cidadã do mesmo país, nele vivi para além da maioridade sem qualquer direito de cidadania pois que só me era concedido o direito social - e parcialmente jurídico - de existir .
Abrir a boca, ter opinião e emiti-la era como se se cometesse "pecado de querer existir como ser social e intelectual" e as consequências estavam logo ali - 50 anos bem interessantes, esses, que coincidem com o tempo em que o trabalho deste arquitecto foi executado e “fez cidade”, quase tantos quantos eu, e outros como eu, levaram a adquirir o direito de existir em plenitude social. Mas não estarei a sonhar com essa de plenitude social? Enganei-me com certeza.
Terminada esta espécie de enquadramento sociocultural, parece no entanto que hoje, importante ou vazia, a minha opinião pode não apenas ser emitida, como ouvida e, se não for, resta o "grito", porque já se pode "gritar".
Desta forma ao olhar cada projecto exposto, na sua imensa variedade formal recolhe-se esta quase incapacidade de não voltar atrás para melhor repensar o hoje e, só depois, mas em primeiro lugar, falar da sensação quase inquietante de "quantidade", como se fosse inesperado que um homem só conseguisse produzir o que foi nesta exposição dado apreciar por quantos a visitaram e foram muitos e serão com certeza muitos mais os que terão interesse em ver a "forma" como um homem viveu o seu tempo através do seu trabalho.



Já se escreveu neste blog/revista, no final do ano de 2005, sobre "o espírito do lugar", num artigo geminado. Que interessante é esta experiência de adesão intelectual, e afectiva, que faz alguém repegar uma ideia e geminar-lhe a sua num "contínuo-cultural" que une, retoma e segue, à semelhança do que é, afinal, a cidade, ela espelho dos habitantes, que permite construção de afectos adentro (e fora) das paredes duras de cada habitação.
Parecendo-me que habitar terá também essa dimensão de juntar o meu ao seu olhar a cidade e a ideia de ser o espaço dos homens e dos seus afectos e de lançar raízes não apenas estéticas e éticas, mas também afectivas e solidárias.
Cidade a Casa do Homem e o conforto de viver física e emocionalmente.




Olhar cada projecto de Hestnes Ferreira é desventrar-lhe não apenas a forma da sua geometria mas a intenção com que o "desenho" se apropriou das mãos, ou as mãos do desenho que se destinava a um lugar e a uma função específica
Olhar cada projecto e apreciar-lhe o desenho de geometrias quase arquetípicas tal que se diria que cada lugar as aceitaria sem "gemido" porque se lhe apõem humanizando-o e revivificando-o, dando-lhe "existência."
Espírito do lugar?
Espírito da intenção?
E que espírito teria porventura cada lugar de cada projecto?
Não teria sido algumas vezes o "espírito do projecto" que o deu ao lugar?
Se há lugares que não admitem que sejam "adulterados na sua essência" porque é essa a sua condição de "lugar", outros há que "esperam" que algo ou alguém lhes dê vida e identidade em diálogo inteligente homem-lugar e a sua obra.
Assim, obrigada Raúl por essa arquitectura de mão-cheia, que "sobrou" como exemplo de vida concreta e exponível para os teus colegas e para muitos outros, e que "fez cidade e vida de viver."
PS - não cheguei a falar sobre os projectos de Hestnes Ferreira, só falei de mim como pessoa urbana que foi crescendo e olhando a cidade durante esse tempo de trabalho em que foram sendo desenhados e construídos tais projectos pelo país espalhados e pergunto se não será necessário aprender, colectivamente, a LER o sentido e espírito de ser cidade com os espaços onde se tem de viver.
Lisboa e Bairro.de.Santo.Amaro, 11 de fevereiro de 2006
Celeste Ramos

segunda-feira, abril 11, 2005

Mundos citadinos, mundos desconhecidos que é urgente conhecer melhor e fazer melhor – I - Infohabitar 19

 - Infohabitar 19

Mundos citadinos, mundos desconhecidos que é urgente conhecer melhor e fazer melhor – I


Este é o primeiro de uma série de textos curtos sobre o tema.
Estamos ainda a aprender a viver em grandes cidades e a importância da qualidade residencial e urbana, numa perspectiva verdadeira/ampla é algo que está longe de ter sido verdadeiramente assumida, seja pelos diversos responsáveis, seja pelos próprios habitantes e, entre uns e outros, pelos respectivos projectistas.
Muitos dos problemas que, hoje em dia, fazem as primeiras páginas dos jornais, como a insegurança urbana e a desocupação dos jovens e dos outros, apenas para referir dois entre tantos que contribuem para as actuais doenças citadinas, ou melhor será dizer sociais, pois cada vez mais o universo urbano é quase tudo, são problemas de uma sociedade urbana desequilibrada seja em termos sociais, seja em aspectos físicos e ambientais, e também culturais até num sentido mais restrito e bem aplicável.
Nesta primeira volta sobre o tema fico por um pensamento que foi há pouco tempo lançado pelo presidente do RIBA – a Ordem dos arquitectos inglesa – e que afirma que boas arquitecturas, sejam elas quais forem, fazem os seus habitantes felizes.
Há cerca de dois anos num excelente artigo/entrevista Alcino Soutinho afirmava que o belíssimo e tão humano edifício por ele projectado para a Câmara Municipal de Matosinhos era um edifício feliz; e com tal edifício feliz fez-se um pedaço feliz de cidade.
Ficamos então hoje neste contraponto entre edifícios e espaços urbanos felizes que fazem e, por vezes, refazem boas partes de cidades vivas e edifícios que fazem os seus habitantes felizes, seja em habitações que além de bem desenhadas proporcionam alegria e vontade de viver, seja em partes de cidade que estimulam o seu uso, que seduzem os seus utentes, que os trazem até à rua, de dia e de noite, fazendo cidade habitada e feliz.
Talvez seja este um dos segredos que há que compreender para lutar contra as tais doenças da cidade de hoje, afinal a única cidade que tivemos possibilidade de conhecer.
E para outro texto ficará a continuação destas ideias.

Lisboa, Encarnação, 11 de Abril de 2005

António Baptista Coelho