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domingo, junho 21, 2009

251 - Habitação de interesse social em Portugal: 1988 – 2005 - Infohabitar 251

Infohabitar, Ano V, n.º 251

Apresenta-se em seguida o livro, já disponível nas livrarias:

Habitação de interesse social em Portugal: 1988 – 2005de António Baptista Coelho e Pedro Baptista Coelho

Livros Horizonte


Fig. 00: capa do livro

Serão realizadas, em datas a definir, as respectivas apresentações públicas, em princípio, em Lisboa e no Porto (a divulgar aqui no Infohabitar), mas desde já se aponta o respectivo perfil em termos de conteúdos técnicos e o seu formato gráfico, marcado por centenas de imagens fotográficas a preto/branco (daí ter-se optado por uma ilustração deste texto também com imagens a preto/branco) e por idêntica quantidade de esquemas de plantas de pisos e de conjunto, caracterizadoras de cerca de 250 conjuntos de habitação de interesse social que se destacaram ao longo das 18 edições anuais do Prémio do Instituto Nacional de Habitação - e de que se dá uma pequena amostra em três das figuras que acompanham este texto.
Mais à frente apresenta-se boa parte do respectivo índice de modo a proporcionar-se uma apresentação pormenorizada do conteúdo do livro.


Fig. 01: exemplos das imagens utilizadas

Sintetizando-se o perfil e o conteúdo deste livro sublinha-se:

. Não ser ele uma história da habitação de interesse social portuguesa, mas constituir um registo desenvolvido do que de mais significativo foi feito nesse tipo de promoção durante cerca de 20 anos, e designadamente entre 1988 e 2005, numa amostragem de mais de 200 conjuntos habitacionais dos quais muitos premiados e mencionados no âmbito do Prémio do Instituto Nacional de Habitação, o Prémio INH, cujas 18 edições decorreram entre 1989 e 2006; o Prémio refere-se aos anos anteriores às suas edições, portanto à promoção habitacional de interesse social apoiada pelo Estado, em Portugal, entre 1988 e 2005.

. Não ser ele um simples relato da experiência dos anos do Prémio INH – um prémio honorífico anual que, entre 1989 e 2006, destacou o que de melhor se fez em Portugal no domínio da habitação a custos controlados (herdeira da “antiga” “habitação social”) –, mas sim um documento onde se tenta assegurar o registo dos principais aspectos da evolução da dinâmica processual deste Prémio, e especificamente da sua experiência única, técnica e prática, em termos formativos e informativos no apoio a uma melhor qualidade residencial; e nunca será de mais referir que há que registar, com a maior fidelidade possível, as boas experiências, pois só assim elas poderão ser, eventualmente, replicáveis, e só assim será possível aproveitar delas o essencial, afinal, assim é possível municiar a sociedade com o bom peso da experiência, que acresce, ser, neste caso do Prémio INH, uma experiência colectiva – de muitos projectistas, promotores, construtores e jurados – e multidisciplinar.

. Não ser ele um guia técnico dessa modalidade de habitação ou um roteiro de soluções de habitação com controlo de custos e de qualidade, mas constituir uma ampla amostragem ilustrada e comentada de muitas dezenas de soluções de referência, essencialmente em termos de arquitectura (do urbano à vizinhança e à habitação), mas também em variados outros aspectos, designadamente, construtivos, organizacionais, e de adequação social; e oferecer, também, informação sistematizada de um amplo leque de tipos de conjuntos residenciais, edifícios e fogos, integrados em muito diversificadas condições de localização.

. Não constituir ele um estudo sistematizado dos diversos aspectos a considerar na referida qualidade residencial, com um perfil amplo, mas consubstanciar uma aprendizagem teórica e prática, directamente resultante da formação dos autores, mas que recolhe e reinterpreta, naturalmente, inúmeras contribuições multidisciplinares para essa qualidade, do que se pode designar ter sido a “escola do Prémio INH”; contribuições essas cujas principais linhas de matéria se concentram na importância que para essa qualidade residencial têm, designadamente, os aspectos da relação mútua e efectiva entre interior e exterior residencial, da diversidade tipológica e da pequena escala, da verdadeira adequação aos habitantes, da qualificação arquitectónica e da adequação urbana e paisagística.

Tendo em conta um tal perfil temático considera-se que o presente trabalho poderá ter uma ampla utilidade que irá desde os interessados pela história e pelas histórias da habitação de interesse social portuguesa, aos projectistas de arquitectura e engenharia, aos promotores de habitação, aos autarcas e aos estudantes de arquitectura de engenharia e de ciências sociais, cumprindo-se afinal uma vocação informativa e formativa verdadeiramente multidisciplinar que esteve e está bem na base e na prática do Prémio INH, como poderão constatar nas páginas deste livro.

A escolha que se fez da apresentação, ano a ano, das 18 edições do Prémio INH corresponde à ideia de se poder acumular num único documento seja uma informação significativa sobre quase duas décadas de diferentes modalidades de habitação de interesse social, seja uma sequência de pequenos eventos e aspectos que marcaram a própria dinâmica do Prémio INH, e que, gradualmente, o foram consolidando como uma continuada acção formativa e informativa.

Em termos das fontes usadas refere-se, numa primeira linha o conjunto dos 18 Catálogos do Prémio INH, anualmente editados, e outros elementos de divulgação de projectos desenvolvidos pelo INH (ex., Projectos de Referência), onde foram publicamente divulgadas muitas das soluções urbanas e habitacionais premiadas, mencionadas ou, pontualmente, apenas visitadas nos anos do Prémio, bem como os respectivos arquitectos coordenadores, promotores e construtores. Excepcionalmente, por não constarem dos respectivos Catálogos e devido ao interesse das respectivas soluções, foram utilizadas, como fontes de preparação dos esquemas de plantas urbanas e de habitações que ilustram este livro, fotografias de painéis enviados para apreciação no âmbito do Prémio INH, publicamente divulgados quando da exposição realizada na altura da atribuição anual dos Prémios e Menções; ainda mais excepcionalmente os referidos esquemas foram baseados em diversos elementos ilustrativos recolhidos quando da participação no Júri do Prémio.


Fig. 02: exemplos dos esquemas gráficos utilizados

Em termos gráficos, para uma melhor leitura e para uma maior uniformidade de apresentação das soluções que são comentadas neste trabalho, todas as respectivas plantas urbanas e de habitações, que são em seguida apresentadas foram integralmente redesenhadas e esquematizadas para este livro e são apresentadas, na maioria dos casos, aproximadamente, nas escalas 1/2000 (planta urbana esquemática, excepcionalmente a 1/5000) e 1/250 (plantas esquemáticas dos edifícios e fogos, excepcionalmente a 1/500), pois interessava, essencialmente, ilustrar intenções e aspectos concretos de projecto, aliás também referidos nos respectivos textos de comentário. Em alguns casos excepcionais usou-se 1/500 para as plantas dos edifícios e fogos e 1/1000 para as plantas urbanas.


Fig. 03: exemplos do conteúdo do livro

Sobre O Prémio INH: uma experiência única

Visitar longamente conjuntos residenciais integrando equipas multidisciplinares compostas por técnicos ligados à promoção habitacional nas suas diversas facetas é uma oportunidade enriquecedora.
Associar a tais visitas sessões de discussão das respectivas soluções urbanas, arquitectónicas, construtivas e processuais com os respectivos promotores, projectistas e construtores, aumenta muito significativamente o interesse destas acções.
Realizar tais visitas não de uma forma ocasional, mas sim numa sequência de casos representativos da promoção de habitação de interesse social realizada ao longo de um ano em Portugal, aumenta, novamente, o interesse da iniciativa e dos potenciais resultados de análise obtidos.
Participar numa iniciativa anual desse tipo, continuamente, ao longo de cerca de 18 anos constitui uma oportunidade única, que pode ser caracterizada como uma “escola” de aprendizagem mútua e de constante e actualizada informação.
Naturalmente, que a maior parte dos jurados do Prémio do Instituto Nacional de Habitação, Prémio INH, foram mudando, mas o perfil do Prémio associou tais mudanças à manutenção de um núcleo de jurados ao longo de todos os anos do Prémio e mesmo à manutenção de muitos jurados ao longo de vários anos consecutivos, ganhando-se, assim, um quadro analítico gradualmente mais amplo e referenciado, embora, naturalmente, a análise se tenha, em cada ano, circunscrito ao universo de candidatos da respectiva edição.
Por tudo isto e porque para além das mais de 600 acções formativas e informativas, realizadas entre o Júri do Prémio e os responsáveis por cada conjunto residencial, há que contar com as outras centenas de horas de discussão e de confronto, que aconteceram aproveitando-se as viagens feitas por todo o País, a caminho de todos os conjuntos candidatos; por tudo isto se fala aqui da “escola do Prémio INH”.


Fig. 04: publicações do INH sobre o Prémio e exemplos das inúmeras reuniões do Júri do Prémio

Índice do livro:
. Introdução: o que é este livro
. 1.ª Parte: o prémio INH e a maioridade da habitação de interesse social portuguesa”
O Prémio INH: uma experiência única: breves notas retrospectivas da habitação de interesse social portuguesa; a recente evolução da promoção de Habitação de interesse social; o prémio INH uma etapa na habitação de interesse social portuguesa
Algumas notas temáticas práticas, que visam o futuro

. 2.ª Parte: o Prémio INH ano a ano, conjuntos premiados, mencionados e a destacar”
1.º Ano, Pinh 1989 – o arrancar do processo com um prémio único e o evidenciar da qualidade cooperativa

Segue-se a estrutura utilizada na apresentação de cada edição anual, destacando-se que o grande desenvolvimento do livro se refere, naturalmente, à apresentação e análise dos conjuntos residenciais e urbanos que se destacaram em cada ano.

. Impressão geral
. Composição do Júri
. Processo de trabalho
. Candidaturas, prémios e menções
. Premiados e mencionados a lembrar
. Outros conjuntos, outras lições em 1989
. O que parece ficar

2.º Ano, PINH 1990 – o prémio consolida-se e as cooperativas destacam-se entre os três tipos de promoção
3.º Ano, PINH 1991 – continua evidenciada a qualidade cooperativa
4.º Ano, PINH 1992 – riqueza tipológica geral e melhoria na promoção municipal
5.º Ano, PINH 1993 – o reafirmar da qualidade da promoção cooperativa
6.º Ano, PINH 1994 – continuidade na inovação tipológica e na qualidade cooperativa
7.º Ano, PINH 1995 – notável subida da qualidade da promoção privada faz de 1995 um ano de algum equilíbrio qualitativo entre as três promoções
8.º Ano, PINH 1996 – casos cooperativos e municipais com qualidade arquitectónica
9.º Ano, PINH 1997 – novamente algum equilíbrio entre os três tipos de promoção, mas com destaque para a promoção privada
10.º Ano, PINH 1998 – desenvolvimento da promoção municipal directa e indirecta
11.º Ano, PINH 1999 – acentuar da diversidade e da qualidade da promoção municipal
12.º Ano, PINH 2000 – manutenção da qualidade municipal e inovação tipológica
13.º Ano, PINH 2001 – manutenção da qualidade e da adequação tipológica municipal, mas há também maus exemplos
14.º Ano, PINH 2002 – estimulante subida qualitativa da promoção privada proporciona um excelente equilíbrio qualitativo entre as três promoções
15.º Ano, PINH 2003 – um excelente ano para a promoção municipal em quantidade e em casos de referência diversificados
16.º Ano, PINH 2004 – continuidade do predomínio qualitativo municipal
17.º Ano, PINH 2005 – algum equilíbrio qualitativo entre as promoções
18.º Ano, PINH 2006 – um excelente ano para todas as promoções

3ª Parte: “prémio INH, processo de referência”. Aspectos essenciais do Prémio INH
. Sobre a composição do júri do PINH
. Sobre a metodologia do PINH
. Síntese dos critérios de análise do Prémio INH
. O PINH como uma grande amostra representativa
. O PINH como fórum de discussão e divulgação da qualidade residencial
. O Catálogo do PINH como elemento de divulgação da qualidade residencial
. Quase um ano de uma viagem única por bairros portugueses
. O prémio inh como testemunho da nova habitação de interesse social portuguesa”: bons projectos para boas obras; entre bons e maus caminhos; o que parece poder ficar do prémio inh

Anexos:
. Objectivos e regulamento do prémio INH
. Pequena bibliografia de enquadramento sobre habitação de interesse social portuguesa e qualidade arquitectónica

Livros Horizonte – ligação ao site da editora


Fig. 05: exemplos das imagens utilizadas


Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 20 de Junho de 2009
Infohabitar, Ano V, n.º 251
Edição de José Baptista Coelho

sexta-feira, outubro 05, 2007

160 - Raúl Hestnes Ferreira, Doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra - Infohabitar 160

  - Infohabitar 160




Raúl Hestnes Ferreira, Doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra


“(Hestnes Ferreira) – Aquela ideia da casa, muito ligada até aos românticos, e sei lá, ao Thoreau, o tipo que vai para a floresta, corta a árvore, arranja as pranchas, faz a sua casa e ali, ali é a sua casa, é uma ideia que continua, a estar presente, culturalmente ...

(Manuel Vicente) – Afinal uma casa é boa para uma família quando for boa para todas, não é? Mas isto não é o elogio do anónimo mas antes da extrema qualidade, a universalidade pela qualidade e não a universalidade pelo «éffacement», pelo apagar.

(Bravo Ferreira) – O neutro ... o neutro é chato em qualquer situação, é sempre cinzento...

(Manuel Vicente) – Do neutro ninguém se apropria... uma pessoa só se apropria daquilo que ama. Uma pessoa não pode amar uma coisa que não seja nada.

(Hestnes Ferreira) – E quando visitamos uma casa do século passado e ficamos deslumbrados com certo tipo de espaços e gostamos mesmo de ir para lá, isso é mesmo um sintoma de que aquilo transcendeu a família para quem foi feito, continua a sugerir e se calhar já foi utilizada de mil e uma formas, já teve mil e uma jarras diferentes em mil e uma mesas diferentes.
(Bravo Ferreira): restou-lhe sempre a qualidade, e essa é que está sempre.”

(Raul Hestnes Ferreira (HF), Manuel Vicente (MV) e Vicente Bravo Ferreira, “Conversa à roda de uma casa”, Arquitectura, n.º 129, 1974, pp. 36-40).

O arquitecto Raúl Hestnes Ferreira recebeu o grau de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra numa cerimónia que decorreu na manhã do dia 30 de Setembro, na Sala dos Capelos (Sala Grande dos Actos).

Este pequeno texto retirado de uma conversa de amigos quer saudar e homenagear um dos grandes arquitectos portugueses actuais e fazê-lo com um sentido de grupo e de alguma naturalidade. Afinal , não tenhamos dúvida de que a Arquitectura só ganha em termos de desenho enriquecido e de verdadeira humanidade com uma tal naturalidade e um tal sentido de grupo e de diálogo.





Pois, afinal, e tal como disse o próprio Raul Hestnes Ferreira (em1973): “De acordo com o que penso que seja a arquitectura, a formação profissional nada é se não for estruturada por uma perspectiva humanista que clarifique os aspectos técnicos dessa formação e lhes dê sentido...”E lembremos, também, que a Arquitectura só ganha com uma cuidada e sentida leitura de ideias como aquelas acima apontadas; desta forma vamos conseguindo cruzar palavras, desenhos e obras, e na carreira de Raúl Hestnes há, de facto excelentes palavras, muitas delas como professor de futuros arquitectos, belos desenhos e grandes obras de Arquitectura.

A propósito de palavras e de Arquitectura valem bem a pena os textos "proposta de atribuição do grau", da autoria do Prof. Arquitecto Alexandre Alves Costa e do Prof. Doutor Walter Rossa que fez o elogio do doutorado; textos estes disponíveis a partir do site: https://webonc.darq.uc.pt/weboncampus/event/dataNews.do?elementId=116

E sobre a vida e a carreira de projectista entre muitos outros textos é interessante começar pela síntese disponibilizada no site da RTP:
http://www.rtp.pt/index.php?article=300085&visual=16&rss=0

Em seguida reedita-se o artigo escrito por uma amiga de Raúl Hestnes Ferreira, a arquitecta paisagista Maria Celeste Ramos, a propósito de uma recente exposição sobre a obra de Raúl Hestnes, uma excelente exposição que esteve patente no seu ISCTE, cerca de Fevereiro de 2006, e que, quem sabe, possa vir a ser proximamente reeditada.

Com uma saudação muito sentida a Raúl Hestnes Ferreira
António Baptista Coelho
1 de Outubro de 2007


Uma imagem de Raúl Hestnes Ferreira no Júri do Prémio INH 2005, que integrou como representante da Ordem dos Arquitectos




Sem palavras de apresentação que não as de uma atenção muito afectiva para o precioso significado e a rara beleza e sinceridade das palavras, que se seguem, da amiga Maria.Celeste.Ramos, faz-se no Infohabitar uma primeira viagem de texto e imagens a propósito da belíssima exposição, actualmente em exibição no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), sobre a obra de Raúl.Hestnes.Ferreira, e já agora, quem não conheça, pode aproveitar para passear na muito rica e muito humana arquitectura exterior e interior do novo edifício do ISCTE, também concebido por Raúl.Hestnes e que constitui uma verdadeira continuidade da exposição; as imagens são de Pedro Romana Baptista Coelho
Amiga Celeste, o Infohabitar considera um privilégio editar as tuas palavras,
Antonio Baptista Coelho
FAZER CIDADE
A propósito da macro-exposição dos projectos do arqtº. Raúl.Hestnes.Ferreira no ISCTE que visitei a 7 de fevereiro de 2006, sinto necessidade de voltar atrás quando também eu trabalhei no GTH a desenhar espaços de jardim, integrada na equipe por onde passaram alguns grandes arquitectos-paisagistas e arquitectos de hoje que fizeram Cidade, tentando eu "acompanhá-los" ajardinando os "espaços" por eles concebidos e honrar os colegas mais velhos que por lá já tinham passado, o que abria para mim, ainda tão jovem, um mundo novo não apenas de trabalho mas também de "olhar" a cidade e de participar na sua construção pois que, do papel, se seguiu depressa a sua construção, tendo-me sido muito grato, ainda, abrir pela primeira vez grandes covas para plantar as árvores que ainda lá estão hoje tão velhas e sólidas como os edifícios, numa área de cidade de grande qualidade de vida e de ambiente urbano



Nesses anos 60 o país iniciava nova forma de fazer cidade em Olivais Norte e Sul, e Chelas, planeada e desenhada não só a outra escala de intervenção no espaço físico, mas com novo desenho de estruturação como se de "cidade nova" se tratasse, moderna nos desenhos de estrutura entre eles o "celular", como o de uma célula de ser vivo, que se introduzia quase "clandestinamente" na cidade antiga de desenho "tradicional", pese embora a diversidade que Lisboa pode oferecer e de que Alfama é sempre excepção mas contudo sempre dentro da mesma "regra” de construir habitar.
Que surpreendente para mim, "novata" nas coisas dos jardins e da cidade, e que passados tantos anos me é forçado reavivar, não por ser muito importante o meu trabalho, mas ter sido esta exposição que, mais uma vez, me faz repensar melhor cada "bocado" da cidade onde moro, com mais "um olhar" e um referencial que passa pelo olhar do meu envelhecer em paralelo com o da própria urbe e com contínuo feed-back como se eu me sentisse um bicho que olha o seu habitat de que muito depende "qualquer bicho."



Assim este recuo que faço permite-me não apenas avaliar a qualidade do que foi feito nesse tempo e que é hoje referência de qualidade urbana e de dinâmica da cidade, manifestada igualmente pela apropriação feita pelas várias gerações de habitantes que conquistaram a “sua cidade”, o “seu bairro”, o “seuhabitar” e o “seu viver.”
Estes 50 anos de cidade nova a que o tempo já deu "tempo histórico" desde o tempo do risco dos esquissos até à existência da árvore que dá, pela sua estatura, uma definição rigorosa do tempo de existência dessa realidade "tijolo-árvore-habitar" - tempo vivo na natureza das coisas e do lugar do homem.



Apetece-me assim fazer este percurso emocional, não apenas sobre este-bocado-de-cidade-também já velha, que faz contínuo edificado e contínuo Humano com a cidade histórica, integrando a natureza viva, mas relacionando-a com a evolução da cidade-velha à qual esta foi acrescentada permanecendo a matriz de urbanidade em que é visível a evolução da vida do betão-tijolo-árvore, mas que hoje poderá estar a ser posta em causa pois que a evolução da cidade mais velha foi transformada e transfigurada nem sempre da melhor forma sobretudo a partir dos anos 80 devido a novos factores de evolução que a cidade teve de integrar, não apenas em termos de crescimento demográfico que acompanhou a introdução do automóvel, tão abruptamente, que levou a transformações globais por vezes tão drásticas e brutais sobretudo nas grandes avenidas que de repente se transformaram em auto-estradas urbanas, desumanizando o viver, mas contudo realidade com que a cidade se teve de debater e tem que com ela viver e continuamente ajustar-se, mas sem no entanto ter ainda encontrado compromisso de qualidade




Não quero deambular muito mais por este tema em que o peão deixou de ter prioridade para a ceder ao automóvel que também não só transtornou os velhos transportes públicos tradicionais como o eléctrico , como obrigou ao "tapamento" dos belos pavimentos das ruas em paralelepípedos de granito para que não lhe caíssem os parafusos nem avariassem a suspensão, pavimento que era semi-permeável e sem quase despesa de conservação e certamente sem causar nenhuma poluição, como a que é hoje provocada pelos combustíveis fósseis utilizados como energia-motor, acrescida aos detritos derivados do desgaste do betuminoso com o atrito dos pneus que por sua vez se desgastam e tornaram a atmosfera irrespirável todos eles detritos cancerígenos, para além de ter alterado, irreversivelmente, o clima urbano que passou a ser mais quente e mais seco, até porque a chuva quando cai já não encontra os pequenos espaços das juntas das pedras a que estava habituada e ser bem recebida para bem da cidade e cidadãos e tudo se tornou negro e impermeável com estes modernos materiais também emanadores de CO2, acrescendo-se ainda a poluição do som, num acréscimo contínuo de desumanização da cidade que não encontra equilíbrio para a vida global e a modernidade.




Assim, a exposição de 45 anos de arquitectura de Hestnes Ferreira, inaugurada no ISCTE a 7 de Fevereiro de 2006, é importante não apenas pelos projectos que foram agora postos a público na sua essencialidade contando a sua história pessoal que se confunde com a profissional, mas porque este arquitecto e o seu trabalho já fazem parte da história da cidade, sendo que este preâmbulo só propõe equacionar a minha visão da cidade "desse tempo", que também vivi, para que possa, então, olhar a sua obra e sobre ela opinar, obra que não se pode separar nem da evolução do país nem da cidade, nem do tempo histórico e cultural, e mesmo económico, pois que se os anos 60 são de grande viragem e evolução, os anos 80 serão o início de tempo de grande degradação, hoje constatada não importa por que tipo de cidadão urbano, sabendo ou não o que quer que seja da história da cidade que habita
A sua obra é assim representativa e imbuída de factos da história do país durante a segunda metade do século passado de que os actos de fazer arquitectura fazem parte e que vieram também romper com a arquitectura "institucionalizada" e denominada de "português suave"



Esta é uma exposição de um homem e uma vida e da sua contribuição para o "construir-habitar", que já não seria no entanto a cidade de agora que exige ainda mais interdisciplinaridade do que há 50 anos atrás, porque a vida urbana se tornou muito mais complexa, tempo durante o qual também aumentou de forma quase inesperada a esperança de vida, a par das grandes mudanças sociais e de participação do cidadão permitindo que os habitantes invoquem o direito de pedir muito mais à cidade e, para tanto até bastará dizer que eu, cidadã do mesmo país, nele vivi para além da maioridade sem qualquer direito de cidadania pois que só me era concedido o direito social - e parcialmente jurídico - de existir .
Abrir a boca, ter opinião e emiti-la era como se se cometesse "pecado de querer existir como ser social e intelectual" e as consequências estavam logo ali - 50 anos bem interessantes, esses, que coincidem com o tempo em que o trabalho deste arquitecto foi executado e “fez cidade”, quase tantos quantos eu, e outros como eu, levaram a adquirir o direito de existir em plenitude social. Mas não estarei a sonhar com essa de plenitude social? Enganei-me com certeza.
Terminada esta espécie de enquadramento sociocultural, parece no entanto que hoje, importante ou vazia, a minha opinião pode não apenas ser emitida, como ouvida e, se não for, resta o "grito", porque já se pode "gritar".
Desta forma ao olhar cada projecto exposto, na sua imensa variedade formal recolhe-se esta quase incapacidade de não voltar atrás para melhor repensar o hoje e, só depois, mas em primeiro lugar, falar da sensação quase inquietante de "quantidade", como se fosse inesperado que um homem só conseguisse produzir o que foi nesta exposição dado apreciar por quantos a visitaram e foram muitos e serão com certeza muitos mais os que terão interesse em ver a "forma" como um homem viveu o seu tempo através do seu trabalho.




Já se escreveu neste blog/revista, no final do ano de 2005, sobre "o espírito do lugar", num artigo geminado. Que interessante é esta experiência de adesão intelectual, e afectiva, que faz alguém repegar uma ideia e geminar-lhe a sua num "contínuo-cultural" que une, retoma e segue, à semelhança do que é, afinal, a cidade, ela espelho dos habitantes, que permite construção de afectos adentro (e fora) das paredes duras de cada habitação.
Parecendo-me que habitar terá também essa dimensão de juntar o meu ao seu olhar a cidade e a ideia de ser o espaço dos homens e dos seus afectos e de lançar raízes não apenas estéticas e éticas, mas também afectivas e solidárias.
Cidade a Casa do Homem e o conforto de viver física e emocionalmente.



Olhar cada projecto de Hestnes Ferreira é desventrar-lhe não apenas a forma da sua geometria mas a intenção com que o "desenho" se apropriou das mãos, ou as mãos do desenho que se destinava a um lugar e a uma função específica
Olhar cada projecto e apreciar-lhe o desenho de geometrias quase arquetípicas tal que se diria que cada lugar as aceitaria sem "gemido" porque se lhe apõem humanizando-o e revivificando-o, dando-lhe "existência."
Espírito do lugar?
Espírito da intenção?
E que espírito teria porventura cada lugar de cada projecto?
Não teria sido algumas vezes o "espírito do projecto" que o deu ao lugar?
Se há lugares que não admitem que sejam "adulterados na sua essência" porque é essa a sua condição de "lugar", outros há que "esperam" que algo ou alguém lhes dê vida e identidade em diálogo inteligente homem-lugar e a sua obra.
Assim, obrigada Raúl por essa arquitectura de mão-cheia, que "sobrou" como exemplo de vida concreta e exponível para os teus colegas e para muitos outros, e que "fez cidade e vida de viver."
PS - não cheguei a falar sobre os projectos de Hestnes Ferreira, só falei de mim como pessoa urbana que foi crescendo e olhando a cidade durante esse tempo de trabalho em que foram sendo desenhados e construídos tais projectos pelo país espalhados e pergunto se não será necessário aprender, colectivamente, a LER o sentido e espírito de ser cidade com os espaços onde se tem de viver.
Lisboa e Bairro.de.Santo.Amaro, 11 de fevereiro de 2006
Celeste Ramos

sexta-feira, setembro 01, 2006

101 - Nova arquitectura em Aveiro, artigo de Pedro e António Baptista Coelho - Infohabitar 101

 - Infohabitar 101


Uma viagem pela nova arquitectura na Universidade de Aveiro – uma reportagem fotográfica informal


Pedro Romana Baptista Coelho

António Baptista Coelho


(Aveiro, Universidade de Aveiro, arquitectura recente, arquitectura portuguesa, Adalberto Dias, Alcino Soutinho, BernardoFerrão, Carrilho daGraça, Francisco Aires Mateus, Gonçalo Byrne, João Almeida, JoaquimOliveira, Manuel Aires Mateus, NunoPortas, PedroRamalho, SizaVieira, Eduardo Souto deMoura, Victor Carvalho, VítorFigueiredo)

Neste artigo, essencialmente fotográfico, não se pretende fazer qualquer análise arquitectónica do muito rico património arquitectónico que tem sido desenvolvido, ao longo de quase duas décadas, pela Universidade de Aveiro, nem realizar um levantamento minimamente exaustivo das obras que aí estão concretizadas.


Pretende-se, sim, contribuir para despertar ou redinamizar o interesse por este conjunto único de arquitecturas escolares, marcado por regras de desenho que se sentem, com agrado, mas igualmente por uma rica diversidade de imagens de arquitectura e por variadas facetas do desenho associadas à marcação e à caracterização pelas escalas humana e urbana.

E este objectivo de divulgação tem a ver, especificamente, com o evidenciar do grande interesse que terá, sem qualquer dúvida, para qualquer pessoa que tenha gosto pela arquitectura, do desenho à construção, ou pela arte e pela cultura, uma visita a este conjunto, que se poderá considerar único, de espaços urbanos e edifícios, que, de certa forma são sítios de habitar, são uma “pequena” cidade habitada, e onde também se incluem excelentes exemplos de arquitectura residencial.

E trata-se de uma proposta de visita que, associada, por exemplo, a um passeio pela sempre diferente e muito atraente zona central de Aveiro, pode assegurar um dia verdadeiramente memorável.

Façamos, assim, uma viagem fotográfica informal pela nova arquitectura na Universidade de Aveiro, estruturada numa sequência cronológica, quase sem palavras e numa muito racionada versão de cerca de uma imagem por obra, e, sublinha-se, não se referindo e mostrando todas as obras que interessa olhar com olhos de ver, nesta muito humanizada, envolvente e atraente cidade universitária; trata-se assim de uma mostra de imagens não exaustiva e que, como já se referiu, tem como principal objectivo despertar o interesse por aquilo que sem dúvida será uma excelente visita, não só para arquitectos, mas para todos aqueles que se interessem por uma cidade bem desenhada, e que, portanto, dá vontade de habitar.

Nota: as sintéticas referências às autorias dos projectos indicam, em cada caso, o(s) arquitecto(s) projectista(s) coordenador(es).




Fig. 00: Plano Geral do campus da Universidade de Aveiro, NunoPortas, 1988.

Fig. 01: depósito de água, Álvaro Siza Vieira, 1991.




Fig. 02: Departamento de Economia, Gestão e Engenharia Industrial, Pedro Ramalho e Luís Ramalho, 1992.




Fig. 03: Departamento de Engenharia Cerâmica e do Vidro, Alcino Soutinho, 1992.




Fig. 04: Departamento de Química, Alcino Soutinho, 1993.




Fig. 05: Departamento de Geociências, Eduardo Souto deMoura, 1993.




Fig. 06: Instituto de Engenharia Electrónica e Telemática de Aveiro, BernardoFerrão, 1994.




Fig. 07: Biblioteca, Serviços de Documentação, Sala de Exposições Hélène de Beauvoir, Álvaro Siza Vieira, 1995.




Fig. 08: Biblioteca, Serviços de Documentação, Sala de Exposições Hélène de Beauvoir, Álvaro Siza Vieira, 1995.




Fig. 09: Departamento de Engenharia Mecânica, Adalberto Dias, 1996.




Fig. 10: Residências de Estudantes, Adalberto Dias, 1990/1998.




Fig. 11: Edifício Central e da Reitoria, Gonçalo Byrne e Manuel Aires Mateus, 2000.




Fig. 12: Livraria e Sala de Exposições (com anfiteatro na cobertura), NunoPortas e JoaquimOliveira, 2000.




Fig. 13: Complexo Pedagógico, Científico e Tecnológico, Vítor Figueiredo, 2000.




Fig. 14: Ponte Pedonal sobre o esteiro de São Pedro, João Luís Carrilho daGraça, 2001.




Fig. 15: Refeitório do Crasto (1º plano), Manuel e Francisco Aires Mateus, e Casa do Estudante (2º plano), João Almeida e VictorCarvalho, 2001.




Fig. 16: Secção Autónoma de Engenharia Civil, JoaquimOliveira, 2004.


Elementos bibliográficos e de referência consultados e a consultar:
http://www.ua.pt/campus.asp
http://pt.wikipedia.org/wiki/Arquitectura_na_Universidade_de_Aveiro

FERNANDES, Fátima; CANNATÁ, “Michele, Arquitectura portuguesa contemporânea,- 1991-2001”, Porto, Asa Editores, 2001.
TOUSSAINT, Michel, “Arquitectura para o ensino superior”, Jornal Arquitectos, 126-127, Agosto/Setembro 1993.
TEIXEIRA, Manuel, “Construção universitária recente em Portugal”, Jornal Arquitectos, 126-127, Agosto/Setembro 1993.

Edição: José Baptista Coelho

domingo, fevereiro 26, 2006

71 - Infohabitar/reportagem: com Gonçalo Ribeiro Telles no Jardim da Gulbenkian, artigo de Pedro e António Baptista Coelho - Infohabitar 71

 - Infohabitar 71

Infohabitar/reportagem: com Gonçalo Ribeiro Telles no Jardim da Gulbenkian

Artigo de Pedro e António Baptista Coelho

Inicia-se um novo tipo de artigo no Infohabitar, com pequenas reportagens fotográficas, apenas minimamente comentadas sobre iniciativas do Grupo Habitar.

Esta primeira reportagem dá uma ideia apenas muito genérica do interesse e da participação que teve a 8.ª Visita Técnica do Grupo Habitar, ao Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian, na manhã do sábado 18 de Fevereiro e que contou com o fundamental enquadramento do seu principal projectista, o arquitecto paisagista, Professor Gonçalo.Ribeiro.Telles, com a essencial organização da Arq.ª Dora.Lampreia, da Direcção do Grupo Habitar, e com o gentil e eficaz apoio da própria Fundação Gulbenkian, que cedeu uma sala onde, antes da visita, o Prof. Ribeiro.Telles introduziu os participantes nas bases de desenvolvimento do mesmo Jardim, bem como num conjunto extremamente oportuno de considerações sobre a fundamental valia da preocupação com a paisagem urbana e natural, numa sociedade de hoje, infelizmente, muito pouco sensibilizada para os valores ambientais e culturais da paisagem.

Mas uma pequena e informal viagem sobre o conteúdo da aliciante palestra e da visita comentada que o Prof. Ribeiro.Telles teve a gentileza de nos oferecer irá ficar para um artigo de conteúdo, neste mesmo Infohabitar, que está já a ser preparado, com a cooperação de vários membros do Grupo Habitar.

Hoje e nesta pequena e informal reportagem iremos ficar apenas com algumas imagens dessa excelente manhã de 18 de Fevereiro de 2006, no Jardim Gulbenkian, na 8ª Sessão Técnica do Grupo Habitar, com Ribeiro.Telles, primeiro numa conversa sobre o jardim, os jardins e as cidades e, depois, num passeio pelos caminhos do jardim, com especial relevo nos seus espaços que foram objecto de profundas e muito ricas acções de reconfiguração e desenvolvimento de novos conteúdos ambientais e paisagísticos de grande proximidade, envolvência e diversidade, também com o traço de Gonçalo.Ribeiro.Telles.

Deseja-se um bom passeio do olhar e sugere-se uma visita real, pois também no Inverno o jardim tem encanto e este, especialmente, é sempre um oásis na cidade.



























Lisboa, Encarnação/Olivais.Norte, 26 de Fevereiro de 2006
Texto de António Baptista Coelho, fotografias de António Baptista Coelho e Pedro Baptista Coelho