quinta-feira, maio 10, 2007

139 - DIA DA MÃE – texto de Celeste Ramos - Infohabitar 139

 - Infohabitar 139

Celeste Ramos

Palavras-chave – celebração – herança cultural – religião – paganismo – história – consagração do dia da Mãe




"Poema à mãe"

Eugénio de Andrade *

No mais fundo de ti, eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou o retrato adormecido no fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras que há leitos onde o frio não se demora e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo são duras, mãe, e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas que apertava junto ao coração no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas, talvez não enchesses as horas de pesadelos...

Mas tu esqueceste muita coisa! Esqueceste que as minhas pernas cresceram, que todo o meu corpo cresceu, e até o meu coração ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -, às vezes ainda sou o menino que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração rosas tão brancas como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz: "Era uma vez uma princesa no meio de um laranjal..."

Mas - tu sabes! - a noite é enorme e todo o meu corpo cresceu...

Eu saí da moldura, dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe. Guardo a tua voz dentro de mim. E deixo-te as rosas...




Fig. 00


Todas as civilizações do mundo – mesmo as já extintas – mesmo as que foram separadas territorialmente por razões de guerra e de colonização, sempre tiveram a sua cultura específica de raiz, que poderiam ou não ter assimilado uma parte ou o todo da civilização invasora para além da natural evolução cultural proposta pelo tempo histórico.

E sempre cada civilização fazia honra aos deuses ou a um só deus, tinha uma religião única ou coabitava com outras, como é o caso deste tempo de modernidade e globalização que se inicia, podendo embora ter havido situações em que a religião tinha de ser vivida na clandestinidade como sucedeu com a religião cristã, no tempo da Roma Clássica, em que os cristãos se encontravam às escondidas dos romanos, nas Catacumbas, ou como mais tarde em Portugal, de religião católica apostólica romana com ligação ao Estado através da Concordata, mas de que a seu tempo o país político se desligou no pós 25 de Abril, que foi país de perseguição à religião judaica, ou como sucede ainda hoje na Irlanda ou na Índia de Ghandi ou nas civilizações pelo menos do leste mediterrânico, que são matéria de guerras prolongadas entre homens do mesmo país e cultura.

Parece assim estar provado que nos tempos modernos religião e política têm de continuar a separar-se para bem da vivência democrática e do desenvolvimento e prosperidade dos povos e das suas diferenças religiosas.

Ao fim de tantos milhares de anos de Civilização, a Religião continua a ser motivo de guerra seja a oriente seja a ocidente, e da qual governantes se apropriam politicamente para separar os povos ou grupos sociais em cada comunidade.

Mas diremos que, não importa em que religião, há certos “momentos”, outrora de ritual religioso, que se vão “paganizando”, na medida em que religião, tradição e paganismo se assimilam e se revelam apenas como acto cultural e tradicional; momentos que vêm da origem dos tempos e das manifestações do homem quanto à sua dimensão de sagrado.

O profano e o sagrado integram-se, fenómeno a que a própria Igreja se teve de render sob pena de perder muitos dos seus fiéis.

Por esta razão hoje muitas festas da Igreja continuam a poder celebrar-se separadamente dos cânones da religião até porque entendo que mesmo o “pagão”, que assim se denomina, tem alto grau de espiritualidade e sensibilidade sem se rotular especificadamente como devoto de qualquer religião.

E estão como exemplo a maioria das Festas e Romarias portuguesas, carregadas de história, de simbolismo e de religiosidade em ligação às vidas de trabalho na terra, no rio e no mar. E está também nesta situação o próprio Natal que se celebra em todas as casas portuguesas e no mundo.

Neste mês de Maio e da Celebração de Fátima se faz também a celebração do dia da Mãe que é igualmente festa religiosa e pagã e da qual, como de todas as outras, o comércio se apropriou incluindo-a já numa linha de turismo específica, curiosamente das mais antigas do mundo, a do turismo religioso ou turismo das peregrinações realizadas também por pessoas não religiosas que se deslocam por motivação cultural.



Fig. 01: Foto in http://www.spoil.pt/

A celebração do Dia da Mãe remonta à mitologia da Grécia Clássica com comemorações de primavera à deusa Rhea mulher de Cronos (o tempo), a mãe de todos os deuses, sendo que em Roma as festas eram dedicadas a Cybele, a deusa correspondente à deusa grega, mãe dos deuses romanos, festas que remontam a mais de 250 anos a.C.

Com o advento do cristianismo a celebração respeitava à Igreja Mãe e à sua força espiritual que se foi desenhando como celebração da mãe terrena e, ainda há poucos anos, o dia da mãe em Portugal era comemorado durante décadas em data fixa, dia 8 de Dezembro, dia de Nossa Sr.ª da Imaculada Conceição, dia santo e de feriado nacional, mas retomando só recentemente o tempo primaveril para ser celebrado; e este ano de 2007 o Dia da Mãe é a 6 de Maio, o primeiro domingo do mês.

Em Inglaterra o Dia da Mãe remonta ao séc. XVII e é celebrado no segundo domingo de Maio.

Nos Estados Unidos, se a ideia foi sugerida em 1872 por causa da crueldade da guerra e da morte de seus filhos mais jovens (e faz pensar na revolta das mães de Maio na Argentina do séc. XX), foi só no início do séc. XX e a partir de um caso particular de morte de sua mãe, que alguém do sexo feminino – mesmo em tempo em que a mulher “ainda não tinha voz” –, ao longo de 3 anos, conseguiu convencer políticos e religiosos e outras personalidades de influência, para determinar um dia nacional para celebrar como Dia da Mãe; com a particularidade de serem usados cravos brancos como homenagem a mães vivas e cravos vermelhos para as já desaparecidas, simbolizando o branco a pureza e o vermelho a força interior da mulher-mãe, promovendo por outro lado centragem em pensamento mais activo em data especial dedicada às mães do mundo; e tendo a acção sido tão bem sucedida que a partir de 1914 foi declarado o 2º domingo de Maio como o Dia da Mãe, a mesma data de Inglaterra.

Mais de um século depois perdeu-se a origem desta celebração mas o mais importante é que ela perdura para celebrar e lembrar a mãe-terrena que, para alguns, se confunde com a mãe-divina.

O Dia da Mãe é também designado o Dia do Amor




Fig. 02: 

MÃE - MIGUEL TORGA **


Mãe:Que desgraça na vida aconteceu,Que ficaste insensível e gelada?Que todo o teu perfil se endureceuNuma linha severa e desenhada?
Como as estátuas, que são gente nossaCansada de palavras e ternura,Assim tu me pareces no teu leito.Presença cinzelada em pedra dura,Que não tem coração dentro do peito.
Chamo aos gritos por ti - não me respondesBejo-te as mãos e o rosto - sinto frio.Ou és outra, ou me enganas, ou te escondesPor detrás do terror deste vazio.
Mãe:Abre os olhos ao menos, diz que sim!Diz que me vês ainda, que me queres.Que és a eterna mulher entre as mulheres.Que nem a morte te afastou de mim!






Fig. 03

Maria Celeste d’Oliveira Ramos
Lisboa Bairro de Santo Amaro
05 de Maio
Participação na ilustração por António Baptista Coelho

Fontes dos poemas:

* in http://openroad.blogs.sapo.pt/arquivo/407396.html
** in http://fumacas.weblog.com.pt/arquivo/103507.html


Sites de instituições portuguesas para apoio à maternidade:

http://www.ajudademae.com/

http://www.ajudadeberco.pt/

As imagens 00 e 03 são de ABC
Revisão para publicação por ABC em 2007-05-09
Editado por José Baptista Coelho em 2007-05-10

quinta-feira, maio 03, 2007

138 - Cidade e Habitação Apoiadas (I): Alguns aspectos de enquadramento – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 138

 - Infohabitar 138


Da Habitação Apoiada à Cidade e Habitação Apoiadas

António Baptista Coelho


Considerando-se que a integração física e social dos diversos grupos socioculturais e das diversas actividades que fazem cidade é provavelmente o melhor e o único caminho para a recuperação e para a redenção do bem viver (n)a cidade de hoje, que se quer seja a cidade de amanhã, talvez que um dos principais “mistérios” que há que resolver, no que se refere à constituição habitacional e urbana de novos bairros e novas partes de cidade, seja considerar-se que toda a habitação é apoiada, ou deve ser apoiada, pela cidade, nas múltiplas facetas habitacionais e urbanas, e que toda a cidade é apoiada, ou deve ser apoiada, pela habitação, também em todas essas facetas.

Pode parecer um lugar comum esta ideia, mas não o é, pois ao assumir-se este conceito, fica de pé uma noção essencial: é que todos nós precisamos de apoio habitacional e de apoio citadino, em variados níveis e em diversas modalidades, e tal apoio é provavelmente a razão de ser “primeira” e fundamental da cidade, pois foi por necessidade de tais apoios e pelo valor acrescido de tais apoios mútuos e do associado convívio que surgiu a vizinhança e a cidade das vizinhanças; e esta é uma verdade que importa sempre lembrar e sublinhar.



Fig. 01



Fig. 02



Fig. 01 e Fig. 02: Alfama, a habitação e a cidade aliadas.

Mas há uma outra verdade que importa salientar nesta ideia de habitação e cidade globalmente e diversificadamente apoiadas: é que ao assumir-se esta ideia, dela decorre uma fundamental capacidade integradora da cidade e das suas vizinhanças e, para além dela, fica evidente a ideia de que a diferença entre um cidadão “dito comum”, no pleno uso das suas capacidades físicas e psíquicas, que tem muitos apoios potenciais a encontrar na cidade e nas suas vizinhanças - por exemplo, convívio, cultura, lazer, funcionalidade, etc. - e um cidadão “especial”, por exemplo, com algumas deficiências nas suas capacidades físicas e psíquicas, e que tem outros e provavelmente mais complexos apoios potenciais a encontrar na cidade e nas suas vizinhanças – por exemplo, ajuda nos serviços domésticos, apoios específicos nas deslocações, serviços especializados de ginástica, etc. -, entre um e outro cidadão há, apenas, diferenças no leque e na intensidade dos apoios habitacionais e urbanos desejáveis por um e por outro, mas há em qualquer dos casos o sentido da fundamental importância de uma cidade e de uma habitação apoiadas ou até verdadeiramente apoiantes de um projecto de vida individual e de um projecto de vida social.

Como se disse não se julga ser esta noção um lugar comum, pois ela comporta em si interessantes caminhos de resolução dos graves problemas de desintegração social e urbana e, em si também incorpora ideias com alguma e bem consistente novidade em termos de uma habitação considerada como serviço individual, adaptável, positivamente continuado e mutante, marcado por fundamentais e equilibrados aspectos de privacidade, liberdade de vivência, vizinhança e sociabilidade.

Trata-se, assim, de uma ideia com grande sentido prático na sociedade actual e futura, tão caracterizada pelo individualismo e pelo consumismo “cego”, e que tanto serve aspectos de integração de grupos socioculturais específicos e problemáticos, como aspectos do modo de viver a habitação e a cidade de grandes grupos etários e/ou caracterizados por formas de viver específicas.
Afinal trata-se de encarar não só a habitação como um conjunto de serviços, mas a própria cidade também como um conjunto de serviços e, ao fazê-lo:
  • conjugar a possível ligação entre esses leques de serviços numa diversidade, teoricamente ilimitada, de misturas de serviços que dêem resposta a uma enorme diversidade de leques de procura;
  • enriquecer a cidade de conteúdos e de imagens;
  • e proporcionar, paralelamente, a activação de um significativo leque de novas e renovadas actividades económicas muitas delas com cariz local e marcadas pela mão de obra intensiva.
Nesta matéria há ainda um aspecto muito ligado à faceta da concepção da arquitectura urbana e do desenho pormenorizado de uma cidade bem qualificada e bem habitada, é que ao dissociar o serviço habitacional e o serviço citadino num grande leque de elementos constituintes e diversificadamente agregáveis estamos a aproximarmo-nos de uma “nova” e estimulante forma de geração de novas e bem fundamentadas soluções tipológicas habitacionais e urbanas, bem distinta da estafada, enfadonha e inadequada repetição sem sentido dos modelos tipológicos correntes, e frequentemente desintegrados, quando não desagregadores das suas zonas de implantação.



Fig. 03



Fig. 04

Fig. 03 e Fig. 04: (2002) promoção da Câmara Municipal do Funchal, no Funchal, oito habitações apoiadas (Habitação a Custo Controlado) do tipo T0 para idosos que vivem sozinhos; um projecto da Arq.ª Susana Fernandes em que também se realizou a reabilitação e a reconversão de uma antiga moradia.

Em próximos artigos sobre a “cidade e a habitação apoiadas” ou apoiantes serão abordados, pontualmente, assuntos específicos, por exemplo, ligados à habitação para pessoas com determinadas necessidades ou com determinadas fragilidades, no entanto o que se quer, desde já, salientar é que uma atitude que considera e que sublinha que todos precisamos de uma habitação e de uma cidade que nos apoie num variado leque de aspectos e serviços, é um excelente ponto de partida para se visar com eficácia, quer a integração social, quer a adaptabilidade e a melhor apropriação proporcionadas por diversos tipos de habitação em diversas localizações e quadros urbanos, quer a fundamental diversidade imagética e funcional dos referidos quadros urbanos.
Esta é a ideia fundamental, mas há, como se viu, muito trabalho a fazer em termos de estudo de tipologias e de tipos de misturas tipológicas considerando seja o tipo habitacional seja o tipo urbano. E trata-se de um trabalho extremamente aliciante.

Sobre a “Habitação apoiada” numa “cidade apoiada”


É essencial, porque é simultaneamente humano e estratégico, considerar a “Habitação Apoiada” (HA) como uma forma perfeitamente integrada e natural de habitação.
Lembremos a família alargada e a cidade das vizinhanças conviviais e solidárias e não tentemos reconstituir o que é difícil ou mesmo impossível de reconstituir, mas usemos as novas formas de actuar, as potencialidades actuais e naturalmente as tecnologias actuais no sentido de se tentar proporcionar aos mais sensíveis, aos mais carenciados e a todos aqueles em situações sociais críticas, um máximo de cuidados integrados de vivência e convivência. E a medida em que o fizermos será a medida em que conseguiremos reconstituir uma (so)ci(e)dade mais verdadeira e solidária; e não tenhamos dúvidas: desta forma e só desta forma teremos muito mais cidade, muito mais daquela cidade de que todos gostamos, mais atraente, mais rica em conteúdos e imagens, mais convivial, mais culta, mais segura.

De certa forma há que reconstituir a cidade da diversidade integrada e em tal desígnio é fundamental uma nova oferta de um serviço de habitação diversificado e integrado, feito de elementos físicos e sociais; e apenas a título exploratório podemos imaginar novos tipos de oferta, já “filtrados” pela obrigatória necessidade de padronização e que terão, sem qualquer dúvida, muito a ver e a dever a uma fundamentada capacidade de redescoberta e inovação tipológica, capacidade esta que deve criar resultados específicos considerando todos os factores arquitectónicos e socioculturais potencialmente mobilizáveis – o que é, sem dúvida, um muito amplo e riquíssimo campo de actuação da arquitectura, aqui super-apoiada em outras disciplinas interpretativas do modo de habitar e do gosto de habitar.

E, como se disse, e apenas a título de exemplo exploratório, poderemos ter:
  • condomínios com reforço de espaços e serviços comuns;
  • condomínios fortemente individualizados nos seus elementos constituintes e essencialmente com serviços comuns;
  • habitações funcionalmente capacitadas para a integração de várias pessoas ou casais vivendo com autonomia;
  • unidades residenciais funcional e ambientalmente aproximadas de unidades de hotelaria, embora marcadas por rígidos critérios de economia;
  • soluções mistas de associação entre soluções habitacionais relativamente correntes e pequenas unidades com características como aquelas antes apontadas;
  • etc., etc.


Fig. 05


Fig. 06

Fig. 05 e Fig. 06: (2006) Monte Espinho, um conjunto de Habitação a Custos Controlados da Câmara Municipal de Matosinhos, caracterizado por uma forte e diversificada aliança entre habitação e cidade – que se apoiam mutuamente; projecto da Arq.ª Paula Petiz.

Em tudo isto há que considerar, por um lado, aspectos básicos, designadamente, de segurança, de integração urbana e social, de apropriação, e de funcionalidade (pois há aspectos que, por si só, anulam o interesse social e humano de determinadas soluções) e, por outro lado, aspectos igualmente básicos de sustentabilidade socio-económica, pois não podemos suportar mais “elefantes brancos” que se revelem ineficazes ou soluções sem-saída a médio e longo prazos.

Notas finais sobre outros desenvolvimentos do tema da HA
Cabe aqui referir que o Grupo Habitar desenvolveu, durante 2006, variadas acções em diversos sítios do País, não directamente sobre a temática da “habitação apoiada”, mas sim sobre o crítico problema dos idosos na cidade envelhecida, uma questão que, como todos sabemos, tem uma ligação muito forte com as saídas que é necessário criar e diversificar seja para os cada vez mais e mais idosos idosos, seja para os cada vez mais idosos e desabitados centros urbanos.

E lembra-se aqui que na última sessão sobre esta temática, que teve lugar a 22 de Junho de 2006 no Instituto nacional de Habitação em Lisboa, e para além de uma excelente intervenção de enquadramento e clarificação dessa realidade do envelhecimento pelo colega Investigador do LNEC e sociólogo, Paulo Machado, a Dr.ª Isabel Lucena Dir. Técnica dos “Inválidos do Comércio”, apresentou ideias novas sobre como aprofundar o que se faz nessa meritória instituição, afinal, em termos de “habitação apoiada”, e o amigo e colega cooperativista Guilherme Vilaverde, Presidente da Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE), revelou um pouco do que começa a ser a iniciativa cooperativa nestes domínios; e digo “começa a ser”, porque acredito que as cooperativas terão muito a dizer no que pode e poderá ser uma excelente e sustentável realidade de uma “habitação apoiada”, que também apoie e se apoie n(a) cidade, uma “habitação apoiada” verdadeiramente motivadora e ao alcance de muitos.
Falta apenas dizer que esta articulação entre diversas modalidades de “habitação apoiada”, dirigidas para diversas necessidades em termos de serviço habitacional, é o caminho certo para se fazer boa habitação, diversificada, integrada, integradora, humanizada e vitalizadora da cidade e mesmo da sociedade.

Na próxima semana será editado um segundo artigo desta série sobre as temáticas da “habitação apoiada” que integrará um resumo informal de parte da conferência intitulada “Habitação apoiada - Casas individualizadas em alternativa às instituições de acolhimento, hospitais psiquiátricos, sem abrigo e outras situações de exclusão social”, promovida pela Associação para o Estudo e Integração Psicossocial (AEIPS), http://www.aeips.pt/, e que teve lugar em 14 de Março de 2007 na Fundação Calouste Gulbenkian, com apoios da própria FCG, da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e do British Council. Os elementos de conteúdo do artigo que aqui já se anuncia muito devem às seguintes duas intervenções que integraram a referida conferência da AEIPS: “Supported housing: Theory and research”, por Priscilla Ridgway, PhD – Yale University (EUA); e “Housing first: Ending homelessness and recovering lives for people to live independently”, por Sam Tsemberis, PhD – New York University.

Salienta-se ainda que a forma de abordagem adoptada nesta série de artigos sobre a “Habitação Apoiada/apoiante” numa “Cidade Apoiada/apoiante” será bastante informal, também, em termos da sequência de facetas do tema que foi adoptada.E fica aqui, assim, a promessa firme de se continuar a voltar no Infohabitar a estas matérias conjugadas da “habitação apoiada” e da “cidade apoiada”, em artigos que irão, provavelmente, tratar de uma “habitação apoiada” mais generalista, e dos aspectos qualitativos que a poderão caracterizar (ex., o espaço mínimo mas super-apropriável e muito adaptável, a ligação entre a maximização de serviços de apoio disponíveis e a maximização do ambiente residencial, etc.); e deixa-se já aqui o desafio à participação dos muitos leitores do Infohabitar e de muitas disciplinas neste tema integrador e urgente de uma “habitação apoiada” numa “cidade apoiada”; e para tal bastará enviarem as vossas contribuições e opiniões para a edição da nossa revista.

quinta-feira, abril 26, 2007

137 - ACESSIBILIDADES, MOBILIDADES E (IN)SUSTENTABILIDADES URBANAS: A CIDADANIA EM CAUSA – artigo de João Lutas Craveiro - Infohabitar 137

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ACESSIBILIDADES, MOBILIDADES E (IN)SUSTENTABILIDADES URBANAS: A CIDADANIA EM CAUSA

João Lutas Craveiro

(palavras chave: acessibilidades, mobilidades, sustentabilidade, participação, cidadania, problemas de Lisboa, Telheiras, CRIL, planeamento, urbanismo, João Lutas Craveiro, NESO, LNEC)

João Lutas Craveiro é Investigador Auxiliar do Núcleo de Ecologia Social (NESO) do Departamento de Edifícios do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, Docente Convidado da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa

Este artigo surge na sequência de uma oportunidade de reflexão, criada no Núcleo de Ecologia Social (NESO) do Departamento de Edifícios do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), a propósito das temáticas inscritas no Plano de Investigação Programada em curso naquele Laboratório Nacional.

Refiro-me ao aprofundamento de uma linha de investigação que tem privilegiado, no NESO do LNEC, a análise sobre as mudanças territoriais, os seus impactos ao nível das comunidades humanas, as pressões sobre os sistemas naturais e os processos de decisão a propósito de novas infra-estruturas. Evidencia-se nesta linha de investigação, justamente intitulada “Mudança social, território, recursos naturais e infra-estruturas de ambiente”, a necessidade do acompanhamento das mudanças territoriais e dos modos de fazer a cidade, sob a compreensão das mútuas dependências entre os ambientes natural e construído.

O presente artigo não pretende desenvolver, neste lugar, uma avaliação daquela linha de investigação, inscrita no Plano de Investigação Programada do LNEC (período 2005-2008). Pretende-se, neste fórum de intervenção e de debate, tão só explorar algumas questões de análise e apresentar uma grelha de leitura acerca das mudanças territoriais e dos modos de fazer a cidade.

Apresenta-se também um conjunto de reflexões (1) a propósito de dois casos de estudo que, durante o presente semestre, o NESO desenvolverá procurando discriminar um campo de pesquisa sobre as mudanças territoriais, envolvendo a sustentabilidade das comunidades urbanas.

Uma das marcas distintivas dos espaços urbanos é a mobilidade que solicita, constantemente, a construção de novas acessibilidades e infra-estruturas. Por sua vez, esta construção reforça e orienta os fluxos das deslocações massivas, transformando de forma inexorável os territórios e as suas identidades, dando lugar a pressões urbanísticas.

A expansão urbana em redor de Lisboa, desde os anos 50 do século passado, constitui um exemplo desta transformação brutal, alargando as áreas de residência na dependência do centro metropolitano e provocando um efeito uniformizador dos campos à volta de Lisboa amotinando as suas identidades: «Os antigos lugares fronteiriços a Lisboa foram tomados por formas de edificação e por populações que introduziram dinâmicas alheias à vida dos arrabaldes de uma cidade tradicional» (BAPTISTA, 2006: 59).

É este jogo dinâmico entre as acessibilidades e as mobilidades, escrutinando-se a cidade como um campo topológico de relações de poder e esclarecendo os processos de decisão política sobre o ordenamento do território, que se pretende focar com o desenvolvimento de dois casos de estudo. Estes dois casos de estudo suportam uma primeira abordagem exploratória à temática mais geral das mudanças dos territórios e da questão da sustentabilidade das comunidades urbanas.

O primeiro caso de estudo abrange uma zona que se pode considerar como uma área (sub)urbana qualificada, o Bairro de Telheiras (2), dentro da cidade de Lisboa, caracterizado por uma população rejuvenescida, enquadrada por elevados níveis de habilitações escolares e profissionais e que escolheu esta área de residência devido à sua qualidade arquitectónica, à exigência de conjugar a centralidade com a acessibilidade e, entre outros factores, à valorização do conforto e intimidade do lar com a distinção dos espaços exteriores (FERREIRA et al, 1990).

Por corresponder a projectos de intervenção urbanística diferenciados, e até antagónicos sob a eleição do espaço público e da amenidade ambiental, seleccionou-se no Bairro de Telheiras o caso da Quinta de Sant’Ana, objecto da construção de um Parque Urbano ladeado por uma nova estação de Metro (3) e por novas edificações. Este caso ilustra bem duas alternativas em jogo, extremando os argumentos urbanísticos (neste exemplo, a favor de novas urbanizações enquadradas por um Parque Urbano e servidas por novas acessibilidades e transportes públicos) dos argumentos naturalísticos (em defesa da sacralização da natureza e da funcionalidade dos espaços rurais como reserva de identidade e lugar de práticas colectivas de amanho da terra).

Estes argumentos encontram portadores institucionais privilegiados: o Metropolitano de Lisboa, a Empresa Pública de Urbanização de Lisboa (EPUL), empresa com responsabilidades de construção na zona de Telheiras e defensora do Parque Urbano, a Associação de Residentes de Telheiras e a Divisão de Projectos e Estruturas Verdes da Câmara Municipal de Lisboa com soluções sugerindo a criação de Hortas Pedagógicas, e de espaços verdes intervencionados pelos moradores, soluções então defendidas pelo Arquitecto Ribeiro Telles.

Os casos de estudo a desenvolver visam equacionar o modo da expansão urbana, aferindo a relação estreita entre a promoção de novas acessibilidades urbanas e o reforço das mobilidades, esclarecendo-se o sentido das alternativas em jogo e a dinâmica das identidades e das imagens dos lugares intervencionados para uma melhor compreensão dos processos de decisão sobre novas infra-estruturas urbanas e das dimensões da sustentabilidade das comunidades e do edificado.

Em relação ao primeiro caso de estudo, refira-se que está em jogo não apenas a oposição entre o ambiente natural e o ambiente construído mas também a questão das decisões políticas sobre o ordenamento do território e a respectiva componente da participação pública no domínio de uma cidadania que é cada vez mais pró-activa e que, por antecipação, procura escrutinar tecnicamente soluções que podem, na sua essência e objectivo, representar um novo modelo de relações de poder que alguns autores apelidam por governação [governance] (4).

As duas Figuras seguintes tipificam o regime de oposição entre ambiente natural e ambiente construído dando lugar a soluções alternativas que, na ausência de um consenso técnico e político, acabam por se excluírem mutuamente sob o prejuízo da negociação para a procura de soluções integradas. Neste caso, as valências dos argumentos urbanísticos e dos argumentos naturalísticos serviram propósitos de antagonismo tornando as soluções, primariamente defendidas, incompatíveis: «A Quinta de Sant’Ana é hoje o Jardim da Praça Central e do Metro, em que os elementos da quinta são meramente decorativos, o moinho e o poço só aparentemente são a origem da água (a água é da EPAL), a latada de vinha, pensada por Ribeiro Telles, é evocada por uma pérgula metálica, os lagos de fontes cibernéticas, de luzes e sons, incomodam os vizinhos com as variantes mecânicas bruscas, e as árvores de grande porte não se sustentam na camada de terra, que cobre os estacionamentos subterrâneos e a estação do Metro» (CONTUMÉLIAS, 2006: 139).

O que está em causa é, pois, a sustentabilidade do edificado e a equidade social dos processos de decisão política, sendo oportuno discriminar melhor o carácter de uma dissensão entre a cidade planeada e a cidade imaginada, e apropriada, pelos seus utilizadores.

Figura 1: Esquisso de projecto para «Espaço Verde em Telheiras/Escola de Jardinagem e Hortas Pedagógicas» (na Quinta de Sant’Ana) da Câmara Municipal de Lisboa.



Figura 2: Parque Urbano e edificado na Quinta de Sant’Ana (situação actual).
Foto do autor (2007)


O segundo caso de estudo elege uma zona residencial de características muito distintas da primeira, e que pode ser classificada como uma zona (sub)urbana desqualificada, originada por um fenómeno de suburbanização intensiva que se estendeu aos concelhos da primeira coroa em redor de Lisboa (é o caso da Amadora).

Esta coroa suburbana caracteriza-se pela elevada densidade do edificado, pelas deslocações massivas casa-emprego (deslocações para fora do concelho de residência), com uma duração relativa e considerável no tempo dos trajectos, pela sobrelotação dos alojamentos e pelos fracos níveis de conforto dos mesmos, para além da sobre-representação, ao nível profissional, de trabalhadores não qualificados do terciário (INE, 2004: 120-122).

Equaciona-se, também neste segundo caso, a envolver a zona de Alfornelos e envolvente, a equação acessibilidades-mobilidades e os seus efeitos no campo das identidades sociais e locais, sob a observação das transformações dos territórios. Neste caso, a construção da IC17, Circular Regional Interior de Lisboa (CRIL), sub-lanço Buraca-Pontinha (incluindo ligações a Benfica), acarreta impactes sociais negativos, pelo efeito-barreira e os níveis de ruído, por exemplo.

É certo que a conclusão da CRIL significa também uma oportunidade para uma melhor gestão das acessibilidades na área metropolitana de Lisboa, nomeadamente prevendo-se o alívio da 2ª Circular em cerca de 40 mil veículos, a redução de 20% do tráfego na Calçada de Carriche e de 4% de veículos pesados no interior da cidade de Lisboa. Em relação ao movimento de tráfego estimado, e em função da sua redistribuição, os impactes da construção da CRIL podem ser considerados positivos.(Quadro 1).



Quadro 1: Movimento de veículos estimado até ao ano de 2009


Fonte: MOPTC, 2006

Subsiste a questão dos impactes negativos, referindo-se aqui os de ordem social. No entanto, mesmo admitindo a mitigação dos impactes sociais negativos já referidos (efeito-barreira e ruído), pois encontram-se equacionadas soluções em túnel (5) e a promoção de medidas de reabilitação urbana (exemplo ilustrado na Figura 3), prevalece a discussão sobre o traçado (Buraca-Benfica) onde uma denominada Associação Cívica de Moradores de Alfornelos (reunidos com as comissões de moradores de Santa Cruz de Benfica e Damaia) apresenta alternativas que considera tecnicamente viáveis (Figura 4).

Figura 3: Exemplo de intervenções a desenvolver na zona da futura CRIL



Fonte: MOPTC, 2006


Figura 4: Dissensão sobre o traçado da CRIL


(A verde: traçado alternativo)
Fonte: Associação Cívica de Moradores de Alfornelos

Ora, assinalam-se algumas questões comuns que se destacam nestes dois casos aqui esquematizados: a dissensão social a propósito de Obras Públicas com base em diferentes percepções sobre a evolução dos territórios e a sua qualidade de vida, o relativo fracasso dos mecanismos da participação pública, que devem ter como missão sufragar, do ponto de vista social e técnico, as grandes Obras e (na ausência desse sufrágio) a consequente litigação ambiental.

Não se defende que as Obras Públicas devam merecer um absoluto consenso social e técnico, o que seria improvável em democracia, mas parece urgente repensar os mecanismos da participação pública, os períodos e os conteúdos da discussão (no diálogo entre técnicos e grupos de cidadãos) dos impactes sociais e ambientais suscitados pelas grandes Obras.

Parece também evidente que os recursos mobilizados por grupos de cidadãos apelam, cada vez mais, a uma legitimidade e racionalidade técnicas na análise dos projectos, o que pode constituir um elemento facilitador de futuros consensos mais alargados, dependendo dos momentos da discussão e da capacidade dos decisores (locais e nacionais) em antecipar os períodos de reflexão pública.

Convenhamos que há sempre um momento para decidir e para agir, e que as grandes Obras que servem o interesse público (já sujeitas a complexas etapas de avaliação e de licenciamento) não podem ficar reféns de interesses bairristas ou que invoquem o privilégio de um sítio em particular por sobre o interesse geral.

Os dois casos resumidos também indiciam as contradições dos protestos organizados sob a mobilização local: num caso parece estar em causa a preservação de uma quinta e de terrenos livres, para a promoção de um uso não urbano, no outro associações locais defendem exactamente uma alteração de traçado da rodovia, alteração essa que afecta as áreas não-urbanas e os terrenos livres, não se advogando aí a sua preservação para actividades de lazer ou utilidades marginais de matriz rural.

Os estudos a potenciar no âmbito dos estágios abertos pelo NESO visam, pois, discriminar um sistema de actores, decisores e stakeholders, a propósito das grandes Obras Públicas com particular incidência para a correlação entre a promoção de novas acessibilidades e o reforço das mobilidades, na área metropolitana de Lisboa. Deve atender-se, ainda, às relações entre as infra-estruturas ligadas aos transportes e a edificação de novas áreas urbanas, porventura marcadas por fortes mecanismos especulativos (NUNES DA SILVA, 2003: 419). Como se sabe, também, a expansão urbana de Lisboa deve muito às configurações das malhas rodoviárias e às redes de transportes (MATIAS FERREIRA, 1987).

Estes estudos constituem-se, assim, como estudos exploratórios para um guião de análise sobre as mudanças territoriais, as questões da cidadania e as identidades locais. Num nível mais epistemológico, os estudos colaboram para a identificação das relações entre a Engenharia e a Sociologia, sob a aferição da sustentabilidade do edificado (Figura 5). A dimensão tecnológica das intervenções e as condições territoriais implicadas no planeamento das mudanças acabam por interpelar, de forma incontornável, a Engenharia e a Sociologia (6).


Figura 5: Acessibilidades e Mobilidades, interpelações do território e da tecnologia



As mudanças dos territórios, os processos de decisão política e as avaliações técnicas, como também a questão das identidades sociais e a sodalidade (7) ou a formação de grupos de cidadãos, por interesses próprios e partilhados, renovam as questões da cidadania (8) e da sustentabilidade do edificado na medida em que questionam os modos de fazer a cidade impondo a integração entre os factores humanos, políticos, tecnológicos e territoriais.

A promoção das acessibilidades pode criar também, para além de novas mobilidades e ligações urbanas, novas fragmentações territoriais e desvalorizações de áreas de residência exacerbando as divisões sociais dos espaços urbanos (GRAFMEYER, 1994: 41).

Assim, um urbanismo residencial com a marca da sustentabilidade não pode dispensar, sobretudo nas zonas de interface urbano-rural ou centro-periferia, «a estruturação socioespacial dos espaços livres, o equilíbrio agrourbano […]» (BAPTISTA COELHO, 2006: 368) e o balanço necessário entre a tradição e a modernidade, o ambiente natural e o ambiente construído.


Notas:
(1) Agradece-se o contributo, para a reflexão que se tem vindo a consolidar no âmbito da linha de investigação referida, dos sociólogos Paulo Machado, Chefe de Núcleo, e Álvaro Pereira, bem como das frequentadoras dos estágios no NESO Dianne Ackermann, com formação em Sociologia e com ligação ao Instituto de Urbanismo de Grenoble (França), e Cátia Caseiro, finalista do curso de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa. Os estágios de Dianne Ackermann e Cátia Caseiro inserem-se no desenvolvimento dos casos de estudo que a seguir se enunciam.

(2) Os limites do Bairro de Telheiras podem ser «fechados» entre vias rápidas: 2ª Circular, Eixo Norte-Sul e Av. Padre Cruz (embora as referências a Telheiras possam ser mais «instáveis», estendendo-se quer para a Freguesia de Carnide quer, mais a sul, em direcção ao Campo Grande onde surgem construções identificadas como Telheiras). O caso de estudo situa-se no conflito que envolveu a expansão do Metro para Telheiras e a urbanização em redor da antiga Quinta de Sant’Ana (que contempla, hoje, a nova estação-terminal do Metro para essa zona, e um Parque Urbano).

(3) O Metropolitano expandiu-se até Telheiras, e as obras para a nova estação começaram no ano de 2000 subvertendo, então, o espaço rural denominado por Quinta de Sant’Ana. Não se advoga aqui a manutenção dos espaços rurais, independentemente das transformações urbanas, ou a sujeição dos espaços rurais a uma apropriação simbólica das suas referências, na satisfação de uma nostalgia das origens, mas tão só se apresenta um caso de estudo a potenciar discriminando-se as alternativas mais contrárias em jogo nos modos de fazer (e olhar) a cidade.

(4) No limite, é preciso distinguir entre governo e governação, citando-se James Rosenau (PUREZA, 2001: 241), pode defender-se que «governo sugere actividades que são apoiadas por autoridades formais, pelo poder político, enquanto governação se refere a actividades apoiadas em valores partilhados que podem derivar ou não de responsabilidades ditadas por via legal e formal e que não requerem inevitavelmente o apoio do poder político para superar as reservas e garantir o cumprimento». José Manuel Pureza (op. cit.) tem sido crítico desta concepção. Pessoalmente prefiro o termo empowerment (apoderamento) para traduzir a possibilidade de comunidades territorialmente emancipadas (CRAVEIRO et al, 2005) envolvendo novas dinâmicas de participação pública que não dispensam os requisitos da formalização institucional, antes os solicitam como um instrumento de reforço dos seus argumentos social e tecnicamente determinados.

(5) O estudo realizado pela COBA (datado de Setembro do ano de 2006), referente à avaliação ambiental das alterações do projecto inicial da CRIL (sublanço Buraca-Pontinha), aponta expressamente para soluções em túnel em trechos críticos, ou para a adopção de barreiras acústicas, nomeadamente do lado do Bairro de Santa Cruz.

(6) Não é por acaso que o NESO inscreveu no seu Plano de Investigação Programada, em curso, uma linha de investigação exclusivamente vocacionada para a relação entre as engenharias e as ciências sociais e humanas.

(7) Em Sociologia entende-se a sodalidade como a capacidade humana de constituir grupos, definidos como unidades de actividades (BAECHLER, 1995: 57). Não se deve confundir este termo com o termo comum das sociabilidades. O termo sociológico sodalidade é mais oportuno para a análise da formação de grupos, nomeadamente de grupos de pressão em contacto com o poder político, grupos considerados no seu estado organizado.

(8) O novo conceito de cidades sustentáveis requer, aliás, uma forma de planeamento que contemple a participação dos cidadãos, numa aproximação entre as abordagens top-down e as abordagens bottom-up (MUNIER, 2007: 53).


Bibliografia citada:
BAECHLER, Jean. Grupos e Sociabilidade, in Tratado de Sociologia, Ed. Asa, Porto, 1995: 57-95.

BAPTISTA COELHO, António. Habitação Humanizada, I&D, Programa de Investigação, Laboratório Nacional de Engenharia Civil, Lisboa, 2006.
BAPTISTA, Luís Vicente. Urbanização, Ruralidade e Suburbanidade: Conceitos e Realidades, in Relações Sociais e Espaço. Homenagem a Jean Remy. Ed. Colibri, CEOS, Investigações Sociológicas, Lisboa, 2006: 55-66.

CONTUMÉLIAS, Ana. Um Quadradinho Verde na Aldeia de Telheiras, Plátano Editora, Lisboa, 2006.

CRAVEIRO, João, MARTINS, Marta e ALMEIDA, Ana. Práticas e Processos de Empowerment; a análise das respostas ao Questionário. Nota Técnica 04/05-NESO, Laboratório Nacional de Engenharia Civil, Lisboa, 2005.

FERREIRA, António Fonseca, GUERRA, Isabel e PINTO, Teresa. L’usage et l’appropriation du logement a Telheiras, in Sociedade e Território, Ano 5, Setembro, 1990: 43-51.

GRAFMEYER, Yves. Sociologia urbana, Publicações Europa-América, Mem Martins, 1994.

INE, INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA. Tipologia Sócio-Económica da Área Metropolitana de Lisboa. INE, Lisboa, 2004.

MATIAS FERREIRA, Vítor. A Cidade de Lisboa: de Capital do Império a Centro da Metrópole, Ed. Dom Quixote, Lisboa, 1987.

MUNIER, Nolberto. Handbook of Urban Sustainability, Springer, Dordrecht, 2007.

NUNES DA SILVA, Fernando. Transportes e Acessibilidades, in Reformar Portugal, 17 Estratégias de Mudança, Oficina do Livro, Lisboa, 2003 [5ª edição]: 399-457.

PUREZA, José Manuel. Por um internacionalismo pós-vestefaliano, in Globalização, Fatalidade ou Utopia?, Edições Afrontamento, Porto, 2005: 233-254.

sexta-feira, abril 20, 2007

136 - O CÉU DE LISBOA – artigo de Celeste Ramos - Infohabitar 136

 - Infohabitar 136

O CÉU DE LISBOA


por Celeste Ramos
ilustrações/fotografias com participação de António Baptista Coelho

Convidam-se os leitores a apreciarem um novo texto de Celeste Ramos, um texto sobre “o céu de Lisboa”, ou será que não é sobre o céu da cidade, de qualquer cidade amada.
E depois deste texto, e da mesma boa amiga Celeste, um segundo texto se junta, um texto “segundo”, que não é necessário depois do primeiro, mas que será lido, por quem o quiser ler, desde que com um espírito aberto e receptivo, semelhante ao que foi necessário para o escrever.
E os leitores atentos entenderão o contraste entre o céu da cidade, que nos deixa pensar sem limites, e os limites que existem, cada vez mais, em muito do que ainda faz a verdadeira beleza do nosso mundo.

Foi um pequeno e livre comentário do editor,

ABC



O CÉU DE LISBOA

Às vezes tenho ideias felizes
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam…
Depois de escrever, leio …
Porque escrevi isto ?
Onde fui buscar isto ?
De onde me veio isto ? Isto é melhor do que eu …
Seremos nós neste tempo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos ??

(In: Álvaro de Campos, Edição Ática de 1958)



Fig. 00

Que tarde tão bela e tão luminosa tal que toda a gente deveria estar na rua – sim, na rua – a ver o dia, a ver a luz, a ver tudo o que o olhar pode olhar e "ver" para além do que é visto e se mostra. E a ver também as árvores e os pássaros se é que ainda há pássaros na cidade.

Ver e sentir e, podendo, comunicar com alguém o sentimento de banho de luz na tarde luminosa e fresca de Lisboa.

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras .
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, na verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta com várias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas
Quanto mais unificadamente diverso, dispersamente atento
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é tudo,
E fora d'Ele há só Ele, e tudo para ele é pouco

Cada alma é uma escada para Deus
É um corredor-Universo para Deus
Cada Alma é um rio correndo por margens de Externo
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno

Sursum corda! Erguei as almas! Toda a Matéria é Espírito



Fig. 01

Olhei para o chão e as pedrinhas dos passeios parecia que sorriam à luz daquele sol rasante iluminando-as e dando-lhe existência na forma, e cor, e luz e vida.


Olhei para as plantas, algumas que sabiam que algo se estava a passar e que iria acabar em breve, despedindo-se do nosso olhar com cor de oiro porque a morte não tem de ser só negro e tristeza porque o negro é a ausências de todas as cores que é também a cor do céu mais escuro e que agora até tem mais cores do que se pode calcular e inventar.

Olhei para a terra tão pouca e cada vez mais rara porque betão e betuminoso a invadem implacável e impunemente mesmo com os Polis que tudo re-qualificam impermeabilizando o inimaginável, mas terra que ainda a há na cidade, e tão castanha e refrescada pela chuva acabada de cair que dava perfume que parecia que respirava e falava com as plantas que segurava bem, porque lhes tinha permitido criar raízes para poderem ali ficar todo o tempo do mundo e serem vistas muitas vezes por muita gente se houver quem para elas goste de olhar e compreender como são vida e alegria da própria terra.



Fig. 02

Mas, e a luz ?
Estava sempre a mudar porque lá mais no alto aquelas nuvens que permitiam o sol e a luz, eram no entanto muito cinzentas e por vezes tão negras, mudando de formas constantemente a desafiar o rosa e o oiro que o sol insistia dar-lhes, como se o céu com os seus caprichos as fizessem dançar e também ouvir muito ao de leve algum diálogo, talvez musical, provocado pela atrito das partículas de água de que se formam e, nunca se sabe, se é sol se é borrasca, se é a maior das tempestades quando as partículas se agridem até faiscar.

No entanto que felizes ainda somos os que vivemos aqui enquanto tudo fizermos individual e colectivamente para que a fricção das partículas de chuva não venha nunca a provocar terríveis perturbações electromagnéticas no céu que fazem tudo desabar - só duas gotinhas de água a friccionar uma na outra, por diferença de temperatura, podem ser o início da pior das devastações e morte pois que sendo embora fenómenos naturais podem ser reforçados na sua violência e ocorrência pela mão humana e mesmo deslocalizados para lugares onde não pertenceria acontecer, como é o caso do país onde até a natureza foi sempre doce e pacífica, mas já não é.

E já não o é, pois que tendo o clima mudado e o país despovoado em benefício das áreas metropolitanas, continua-se a ignorar o constante des-ordenamento de todas as paisagens, mas também a vigilância de áreas remotas e sem habitantes, num eterno esquecimento da dinâmica dos territórios face ao uso humano ou às intempéries, normais ou acidentais, tornando-se assim o ordenamento mais e mais premente não importa em que espaço nacional; diríamos mesmo que a “velha” GNR que a cavalo percorria o país rural, faz falta ela ou outra instituição, que se ocupe de ver “o que se vai passando por aí”.

Mas que felizes podemos ser ainda se percebermos a parte que nos cabe de prevenir e conservar as situações que mantêm o clima que temos ainda, por mais ameaçadoras que já tenham sido algumas situações sobretudo nesta década do novo milénio e mesmo não tendo gravidade maior, o certo é que a nossa cidade começa também e assistir a fenómenos muito fora do que era habitual pois que já neva em Lisboa ou no litoral soalheiro e mesmo no Alentejo.



Fig. 03

Mas que felizes poderemos ser só de ir passear e olhar a luz de todo o ano, olhar a terra e as árvores, olhar as folhas em tempo de despedida mas que deixaram os frutos pendurados e a secar, olhando também para o chão de terra onde caem e logo se transformam em vida, olhar o cais e a água do rio que se entrega ao mar e a luz que dele também vem, e o vento, sim, o vento, a mostrar-se nas ramadas fazendo-o assobiar, e a mostrar-se também na água a ondular, o mesmo vento que faz mudar essas nuvens impacientes que correm pelo céu a anunciar, a anunciar, a anunciar-nos que terra e céu estão ligados e nós de permeio a tentar perceber o que tudo quererá dizer: olhar o chão, olhar o céu, olhar a vida de qualquer lugar.

Sinfonias da terra e céu desdobradas em tudo que a habita, como nós, os habitantes mais cruéis e distraídos das coisas desse eterno diálogo que é imperioso ouvir, ouvir, e não esquecer e escolher ouvir melodia, mas até quando?

Às vezes tenho ideias felizes
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam…

Mas ao mesmo tempo que deixo correr as ideias ia vendo, na SIC Notícias, das 02.30 às 03.OOh da madrugada de 23 setembro 2006 , e pela segunda vez em menos de um ano, um programa sobre os apanhadores de bivalves na ponta mais noroeste do Reino Unido, grande planície de areia de ilhotas e braços de mar e estuários, que logo que a maré começa a subir silenciosamente tudo inundando sem se dar por nada. Estes apanhadores de bivalves, chineses, ilegais, são explorados e arriscam a vida, diariamente, num ritmo de marés que em boa parte desconhecem, dormindo em pardieiros em Liverpool, sem direito a planos nem sonhos de vida, vivendo apenas um dia de cada vez; o que me faz lembrar os portugueses dos anos 60 ou os emigrados do Sahel de hoje, destes primeiros anos do III milénio d.C.

Afinal, cada um pode fazer o quê?? Cada um deverá fazer o quê?



Fig. 04

A minha cidade de céu de todas as cores e luz sem imitação, abriga ainda tanta vida mas também tanta indiferença pelo que se passa pelo mundo, e mesmo pelo que nela se passa, de feio e mesmo de belo porque quem toca a beleza quererá certamente partilhá-la.

Nada?? A impotência do homem comum como eu que só posso, ao menos, escrever sobre isso, e depois?? Depois nada!

Cada um por si, cada nação por si, só pode mesmo ser assim?

O céu cheio de nuvens carregadas de negro e chumbo, para uns a morte, para mim, hoje, a beleza incompleta e imperfeita porque não consigo olhar só uma face das coisas, que até vêm ter comigo sem as ter procurado a esta hora tão tardia.

Depois de escrever, leio …
Porque escrevi isto ?



Fig. 05

Porque fui ver a beleza da luz e das nuvens negras, e porque gostava de poder partilhar a grandeza do que vi mas que, entretanto, foi interceptada pelo que acontece, lá mais longe, onde nem nuvens havia, mas a morte reinava, não a das folhas das plantas, mas dos homens e dos seus sonhos que não tiveram tempo de sonhar.

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta com várias pessoas,

E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida

Quanto mais unificadamente diverso, dispersamente atento
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,

Sentir tudo de todas as maneiras
Sentir tudo excessivamente
Porque todas as coisas são na verdade excessivas

Mas mais completo serei pelo espaço fora

Sursum corda

E fica a Vida, a que persiste.


Texto segundo:



Fig. 06
In:www.dias-com-arvores-fevereiro 2007

Semente de sobreiro: na terra caiu uma semente que ninguém semeou, que dará uma grande e milenar árvore de onde o homem retirará grande riqueza mesmo sem ter de a regar ou adubar, no entanto sempre ameaçada pelo betão e betuminoso, mesmo sendo a árvore protegida por lei há mais tempo no país, mas que os “Polis” em vez de requalificar, abatem.

Olhar o céu, para quê??
Só o céu??
O que o céu dá vê-se cá em baixo no chão!
O país orgulha-se de ser o maior produtor de cortiça e, dela, a melhor para rolhas para o champanhe francês e apesar de ser o sobreiro a árvore há mais tempo protegida, é constante o abate de milhares de árvores, as que se sabe serem abatidas mas, pior, as que não se sabe porque é escandaloso as abater “ao sol”

Porém, esta árvore que nem de água quase precisa porque o que é “grande” muito dá e nada pede, precisa no entanto de um mínimo pois que não é “palmeira-de-oásis”

Acontece que com a generalização sem nenhum critério da eucaliptização do país desde o vale à montanha escarpada, desde o norte chuvoso ao sul seco, acontece que mesmo no norte onde por enquanto ainda chove, onde ainda há manchas de sobreiro no seu estado de floresta natural, nesta “primavera de 2007” quando as folhinhas novas a nascer deviam, como qualquer outra, ser de verde claro, já são amarelas, o sub bosque é pobre porque as plantas bravas do seu ecossistema já não aparecem, nem os pássaros, a atestar o empobrecimento do conjunto e a ausência de água no solo, dada a envolvente de eucaliptal que lhe retira a água que lhe pertenceria, que retira água e vida e desenvolvimento, anunciando assim a morte em directo do que em breve irá acontecer, talvez para justificar o seu “abate” por estarem velhos e podres, esta árvore mais do que centenária e fonte de silêncio e beleza e por fim de bens para as economias pois que sem natureza não há economia a prosperar e não consta que desertificando se encontre petróleo.

A ONU já revelou que em 2050 não haverá água potável para toda a população mundial e, em cada lugar da terra, a água potável é a maior riqueza pois que sem ela nem indústria haverá, mas apenas morte e, quem sabe se em breve a guerra entre os homens deixará de ser o petróleo, mas sim a ÁGUA? – veremos bem cedo que assim será.

E, para já, o aumento de preço da água canalizada aumenta a quantidade de água disponível? E será de direito a água de quem a pode ainda pagar? E será de direito esconder a quantidade que se perde nas canalizações de captação e distribuição? E será de direito o uso da água armazenada em barragens para desporto motorizado e poluente? Valerá perguntar o que são direitos e deveres de Cidadania? E se teremos de ter algum “ensino-especial” para os aprender e fazer aprender?

Valerá a pena?
Por mim, esta sabedoria ainda existe, mas apenas, nos analfabetos-ignorantes-rurais que vão morrendo e envelhecendo e com eles desaparecerá a ética e estética das paisagens que as universidades não sabem ensinar, para além de outros conhecimentos que a Cidade despreza.

Acabei!

Maria Celeste d'Oliveira Ramos
Lisboa - Bairro de Santo Amaro
Setembro 29 – 2006 + Fevereiro 11-2007 + Abril 04-2007 (COR)
Revisto e ilustrado para publicação no Infohabitar em 2007-04-06 (ABC)
Editado no Infohabitar em 2007-04-19 (JBC)