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terça-feira, junho 09, 2020

Adaptabilidade/flexibilidade e tipologia habitacional – Infohabitar # 733

Ligação direta (clicar) para:  725 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada - 38 temas e mais de 100 autores.

Infohabitar, Ano XVI, n.º 733

 

Adaptabilidade/flexibilidade e tipologia habitacional – Infohabitar # 733

Por António Baptista Coelho (texto e imagens)

09Notas prévias:
Caros leitores da Infohabitar, estimados amigos,
Esperando que estejam todos de saúde e, novamente, com um muito especial abraço de força e de confiança no futuro aos muitos amigos e leitores desse grande País Irmão, que estão ainda a viver uma fase complicada da epidemia.
Continuamos um “retorno” a uma abordagem relativamente sistematizada dos espaços domésticos, feito tendo por base alguns artigos já aqui editados e que foram e serão, naturalmente, extensamente revistos, desenvolvidos e “recomentados”, para esta ocasião editorial.
Este relativo “retorno” – relativo, porque o tema dos mundos domésticos esteve, está e estará sempre presente na Infohabitar – justifica-se, entre outras razões, pelo evidente e novo protagonismo que esses nossos espaços de vida assumiram nas longas semanas do nosso confinamento; um relevo que importa sentir em profundidade e aproveitar em tudo aquilo que possa contribuir para uma adequada e bem ponderada revisão programática, quantitativa, qualitativa e objetivada dos nossos mundos domésticos mais privados, “pessoais” e familiares.
Esperando que estes artigos agradem aos nossos estimados leitores e lembrando-se, sempre, que serão muito bem-vindas eventuais ideias comentadas a propósito destes artigos e mesmo propostas de novos artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com ao meu cuidado),
despeço-me, até à próxima semana, com saudações calorosas e desejos de muita força e de boa saúde,
Lisboa, Encarnação, em 8 de junho de 2020
António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar


Adaptabilidade/flexibilidade e tipologia habitacional – Infohabitar # 733

António Baptista Coelho


Tipos de adaptabilidade e flexibilidade habitacional

A adaptabilidade da habitação a diversos modos de vida e usos domésticos ou específicos, colocada ao serviço de diversos tipos de agregados familiares e de diversas apropriações funcionais e pormenorizadas, é, cada vez mais, um aspecto fundamental a considerar na concepção dos espaços domésticos, tal como foi apontado em artigo anterior desta revista, mediante a referência à opinião de diversos autores, que salientaram a importância de deixarmos de privilegiar organizações domésticas rígidas e excessivamente hierarquizadas, favorecendo-se, sim, os caminhos marcados por espaços habitacionais mais apropriáveis e potencialmente mutantes:
  • seja pela capacidade “passiva” de adaptabilidade e conversão de espaços a diversos usos, proporcionada pela própria organização e dimensionamento gerais de uma habitação;
  • seja na flexibilização oferecida aos seus respetivos conteúdos funcionais e de mobiliário/decoração (nos mesmos espaços-base);
  • seja pelas condições de adaptabilidade relacional disponibilizadas, em termos de localizações e relações que proporcionem e incentivem diversos usos;
  • seja pelo potencial de adaptabilidade física (“hardware”) específica que igualmente ofereçam, designadamente, através da junção e subdividão de espaços e compartimentos, já existentes – numa opção que terá sempre de ser extremamente bem prevista no sentido de se respeitar, na íntegra,a segurança estrutural do respetivo edifício;
  • seja pela dinamização do equipamento evolutivo de alguns espaços e compartimentos;

  • seja mesmo pela capacidade de expansão real que seja proporcionada para novos compartimentos – uma solução naturalmente mais adequada a soluções habitacionais unifamiliares.



Fig. 01: adaptabilidade/flexibilidade dos espaços habitacionais - espaço "x" ocupação "a"
Nesta perspetiva e evidentemente nunca será possível, nem tal seria desejável, prever, na fase de projecto de Arquitectura, a (quase) totalidade de opções de ocupação e apropriação dos espaços domésticos; mas, no entanto, não tenhamos qualquer dúvida que é essencial que, na fase de projecto os espaços e subespaços da habitação sejam tornados versáteis para um máximo de apropriações e ocupações e nunca para usos quase-únicos, como por vezes, ou mesmo muitas vezes, acontece, designadamente, nos espaços limitados da habitação de interesse social.
E não tenhamos dúvida de que o espaço disponível influencia a versatilidade dos respetivos usos e ocupações, mas não é condição única, nem talvez a mais importante, para a referida e desejada adaptabilidade doméstica; e quase sempre tal versatilidade é ganha pela sábia agregação de múltiplos microespaços versatilmente habilitados para múltiplas “microatividades”, até quase simultâneas.

 

Relação entre família e habitação

No entanto, para além desta múltipla perspectiva da adaptabilidade e flexibilidade habitacional, que está globalmente ligada às amplas matérias da apropriação dos espaços domésticos, outra linha de reflexão é importante na opção por diversas formas de organização dos mesmos espaços; trata-se da caracterização do perfil da habitação na sua relação com as características etárias e gregárias dos seus habitantes.
E nesta perspectiva vários autores apontam um leque global de soluções integradas do que se pode referir como “tipologias família-habitação”, tal como em seguida se regista de forma sintética.


Fig. 02: adaptabilidade/flexibilidade dos espaços habitacionais - espaço "x" possibilidade de ocupação "b".


Estúdios individuais e para casais

Estúdios mínimos para jovens longe de casa e pessoas sós, idosas ou não; estúdios estes com equipamentos domésticos muito funcionais e completos, ou reduzidos a um mínimo razoável, que pode ser pré-instalado, e dispondo de um quarto de dormir em zona que possa ser adequadamente separada do resto da casa, ou, em alternativa, nela integrada de forma a criar um espaço amplo.
Segundo Alexander, a habitação para uma pessoa só deve ser um espaço com grande capacidade de individualização/apropriação, podendo caracterizar-se por um amplo espaço central e multifuncional, rodeado por recantos ou subespaços com diversas atribuições funcionais (1); e um espaço doméstico entre cerca de 30 e 40m² pode servir, razoavelmente bem, uma solução deste tipo.
Naturalmente que este tipo de solução pode ser adaptada, com alguma facilidade, ao uso por casais (jovens ou idosos), que aceitem este tipo de condições domésticas marcadas por algum “minimalismo” ou alguma informalidade e/ou versatilidade da organização e do recheio doméstico. 
E salienta-se que esta opção minimalista é basicamente distinta de uma opção informal em termos da capacidade de apropriação e ocupação dos respetivos espaços domésticos, sendo a primeira potencialmente mais uniforme e despojada espacialmente e a segunda eventualmente mais orgânica e multiforme - outras submatérias que nos levariam longe nestas reflexões.




Fig. 03: adaptabilidade/flexibilidade dos espaços habitacionais - espaço "x" ocupação "c".


Soluções habitacionais para pessoas sós

Citando, julga-se, a propósito, um estudo realizado pela Taylor University of York (2), apontam-se, agora, diversos subtipos de soluções habitacionais para pessoas sós e para casais:
·          "unidade auto-suficiente", provida de porta de acesso, cozinha, casa de banho completa – uma habitação pode ser uma unidade de alojamento ou conter várias unidades desse tipo; (3)
·         "unidade compartilhada", onde vivem várias pessoas, cada uma com um "espaço particular", mas compartilhando uma zona de estar, cozinha e casa de banho completa;
·         "espaço particular", quarto individual dentro de um alojamento compartilhado, usado essencialmente como espaço para dormir, mas também como zona de estar e para guardar bens pessoais;
·         "quarto completo", como o "espaço particular", mas com pequena zona de estar mais desenvolvida e incluindo lavabo e pequena cozinha; há que compartilhar a retrete e o banho;
·         "espaço comum ou colectivo, compartilhado", que pode incluir casa de banho, cozinha, estar, arrumações;
·         e, finalmente, uma evolução do "espaço particular", anexando-lhe instalações sanitárias que podem ser mínima e/ou pequena zona de estar, que pode resumir-se a um espaço para um pequeno sofá e uma mesa de trabalho (esta opção foi desenvolvida pelo autor deste trabalho).


Pequenas habitações

Subindo, agora, um pouco na “escala” do dimensionamento doméstico, mas mantendo-nos no âmbito de soluções especialmente adequadas para pessoas sozinhas, casais e outros pequenos agregados familiares, apontam-se, em seguida, as sugestões de diversos autores nesta matéria.
Desenvolvimento de pequenas habitações para jovens longe de casa, pessoas sós, idosas ou não, ou casais sem filhos em coabitação; estúdios estes com equipamentos domésticos que podem ser mais ou menos elaborados e completos, nomeadamente, para se disponibilizarem espaços para a instalação de mobiliário patrimonial ou, contrariamente, oferecendo os espaços já mobilados.
Segundo Claude Lamure esta solução deverá dispor de um quarto de dormir relativamente isolado do resto da casa, que seja suficientemente espaçoso para integrar duas camas individuais e certas zonas específicas (ex., sofá perto de janela).
A habitação deve ser globalmente espaçosa e ter circulações facilitadas, tanto entre cozinha e sala, como entre a sala e o quarto (pensa-se na funcionalidade do uso por idosos). (4)
Referem John Noble e Barbara Adams que este tipo de solução será muito útil a idosos pouco activos, que assim poderão dispor de pequenos fogos "super-funcionais" e razoavelmente espaçosos que lhes poupem e facilitem o trabalho doméstico e as próprias deslocações interiores. (5)

Pequena habitação para um casal

Num estudo espanhol considera-se que a habitação para um casal (habitação com quarto comum) será muito semelhante à habitação para uma pessoa só, designadamente, no caso de um casal de jovens adultos; pois no caso de se tratar de um casal de jovens ou de idosos, serão recomendáveis zonas mais amplas e diferenciadas. (6)
Claude Lamure aponta que as pequenas habitações realizadas especificamente para favorecerem a vida doméstica de casais, num quadro privilegiadamente informal de uso da habitação, devem favorecer os espaços "super-funcionais" para os trabalhos domésticos, a abundância de diversos tipos de arrumações, feitas de raiz, a possibilidade de desenvolvimento de recantos individuais para estudo/trabalho profissional e caracterizarem-se por um franco relacionamento geral entre espaços, que assegure, designadamente, a vigilância natural e simplificada de crianças pequenas. (7)

Grandes habitações multigeracionais e multifuncionais

Tal como aponta Lamure interessa também referir aqui o interesse do desenvolvimento de grandes habitações, razoavelmente espaçosas, para famílias "maduras" com diversos filhos de diferentes idades, com um quarto relativamente autónomo que pode servir para um filho mais velho, para escritório ou para um parente idoso, e, ainda, com um quarto de casal acentuadamente isolado do resto da casa. (8)
Defendem John Noble e Barbara Adams que as habitações deste tipo poderão desejavelmente ligar-se espaços exteriores privados no caso de famílias com crianças. (9)
E os mesmos autores referem que este tipo de solução servirá também casais idosos e activos continuando nas habitações onde criaram os filhos e onde, posteriormente, terão espaços adequados às numerosas actividades a que se dedicam em casa. (10)
Mas salienta-se que a relação entre espaços interiores e exteriores de uma dada habitação é algo que deve merecer uma redobrada e contínua atenção, devendo existir, sempre, uma possibilidade, nem que seja mínima, de “estar lá fora”, mas “em casa”; possibilidade esta que deverá, em muitas situações ser “exponencialmente” dilatada a uma possibilidade de “viver lá fora” grande parte do tempo, realizando inúmeras atividades.  

Espaços e serviços domésticos comuns

Vale a pena salientar que se considera muito adequada a associação entre os estúdios e as pequenas habitações e um potencial e diversificado leque de espaços e serviços comuns; condição esta que naturalmente será menos interessante no caso das grandes habitações, ou, especificamente, das habitações com um elevado número de quartos (ex., acima do T3).
No entanto a ideia que se julga mais adequada é que deverá haver, cada vez mais, uma maior possibilidade de escolha das soluções de habitar, quer em termos de carácter tipológico geral, quer em termos de espaços domésticos e comuns disponíveis, quer em termos de serviços domésticos, e outros, disponibilizados ou facilitados; e depois poderemos escolher o que preferimos.

Serviços comuns e domiciliários e equipamentos coletivos de proximidade

De certa forma até é possível considerar a possibilidade de haver um desenvolvimento de serviços domiciliários com um amplo leque funcional e sedeados fora dos edifícios servidos, disponibilizando o seu apoio/serviço a diversas unidades habitacionais.
E um aspeto que aqui deve ser bem considerado é a vantagem que tem uma gestão autonomizada e bem equilibrada destes possíveis pequenos complexos de espaços e serviços comuns e/ou de apoio domiciliário; sendo aqui muito interessante a reflexão que há a fazer sobre a relação deste tipo de “complexos” com algumas das velhas e com novas valências de equipamentos coletivos com faceta residencial.
Em tudo isto há que referir que a potencial diversidade de oferta de espaços e serviços comuns e domiciliários pode a ajudar a diversificar e apurar o leque de opções domésticas e residenciais disponíveis, considerando-se esta matéria de grande interesse, face à grande diversificação dos modos de vida, e  ao evidente e significativo crescimento dos pequenos agregados familiares e das pessoas idosas vivendo sós e necessitando de diversos serviços de apoio.
E não podemos deixar de sublinhar que a Infohabitar integra um tema editorial específico dedicado ao que se designou como habitações colaborativas intergeracionais, ou habitações adaptáveis e intergeracionais promovidas, naturalmente, através de iniciativas cooperativas ligadas à habitação de interesse social; e este foco numa intergeracionalidade participativa é também um foco na grande diversidade de usos da habitação que devem ser proporcionados, básica e diretamente, pelos espaços domésticos e indiretamente pelo próprio e respetivo edifício habitacional e mesmo pela respetiva vizinhança próxima residencial.

Notas:

(1) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", p. 356.
(2) Direccion General de Arquitectura y Vivienda; Ministerio de Obras Publicas y Urbanismo (MOPU), "Individuo y Vivienda", p. 86.
(3) Por exemplo dois quartos individuais, para duas pessoas que vivem juntas, mas cada uma com o seu espaço privado e independente ("LAT", "Living Apart Together") - Direccion General de Arquitectura y Vivienda; Ministerio de Obras Publicas y Urbanismo (MOPU), "Individuo y Vivienda", p. 79.
(4) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 15.
(5) John Noble; Barbara Adams, "Housing. Home in its Setting", p. 514.
(6) Direccion General de Arquitectura y Vivienda; Ministerio de Obras Publicas y Urbanismo (MOPU), "Individuo y Vivienda", p. 46.
(7) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 15.
(8) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 15.
(9) John Noble; Barbara Adams, "Housing. Home in its Setting", p. 514.
(10) John Noble; Barbara Adams, "Housing. Home in its Setting", p. 514.



Uma primeira versão, menos desenvolvida, deste artigo foi publicada no número 473 da Infohabitar, em 23 de Fevereiro de 2014.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.
(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Infohabitar, Ano XVI, n.º 733

Adaptabilidade/flexibilidade e tipologia habitacional – Infohabitar # 733

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.


Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

terça-feira, junho 02, 2020

Sobre uma habitação mais adaptável – Infohabitar # 732


Em memória bem viva de José Paulo Goulart de Bettencourt



Infohabitar, Ano XVI, n.º 732

Sobre uma habitação mais adaptável – Infohabitar # 732

Por António Baptista Coelho (texto e imagens)

Notas prévias:
Caros leitores da Infohabitar, estimados amigos,
Esperando que estejam todos de saúde e, novamente, com um muito especial abraço de força e de confiança no futuro aos muitos amigos e leitores desse grande País Irmão, que estão agora a atravessar uma fase complicada da epidemia.
Continuamos um “retorno” a uma abordagem relativamente sistematizada dos espaços domésticos, feito tendo por base alguns artigos já aqui editados e que foram e serão, naturalmente, extensamente revistos, desenvolvidos e “recomentados”, para esta ocasião editorial.
Este relativo “retorno” – relativo, porque o tema dos mundos domésticos esteve, está e estará sempre presente na Infohabitar – justifica-se, entre outras razões, pelo evidente e novo protagonismo que esses nossos espaços de vida assumiram nas longas semanas do nosso confinamento; um relevo que importa sentir em profundidade e aproveitar em tudo aquilo que possa contribuir para uma adequada e bem ponderada revisão programática, quantitativa, qualitativa e objetivada dos nossos mundos domésticos mais privados, “pessoais” e familiares.
Esperando que estes artigos agradem aos nossos estimados leitores e lembrando-se, sempre, que serão muito bem-vindas eventuais ideias comentadas a propósito destes artigos e mesmo propostas de novos artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com ao meu cuidado),
despeço-me, até à próxima semana, com saudações calorosas e desejos de muita força e de boa saúde,
Lisboa, Encarnação, em 1 de junho de 2020
António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar


Sobre uma habitação mais adaptável – Infohabitar # 732

António Baptista Coelho


Continuando a apresentar e comentar reflexões de projectistas e estudiosos sobre aspetos considerados estruturantes nas opções de organização dos espaços domésticos, ficamos em seguida com Amos Rapoport e, depois, com Christopher Alexander, entre opiniões de outros autores, privilegiando-se uma perspetiva que tenta aprofundar a grande diversidade de soluções potencialmente disponibilizadas, que integram uma verdadeira dimensão de adaptabilidade habitacional, e que, assim, propiciam uma vida doméstica mais adequada, agradável e estimulante.

Habitação e modos de vida

Amos Rapoport evidencia três factores a ter em conta naquela que ele considera dever ser uma aproximação muito cuidadosa e funcionalmente “aberta” a uma solução doméstica que sirva, o melhor possível, determinados modos de vida familiares: (1)
A negrito/bold evidenciam-se as indicações de Rapoport e de outros autores.
·        o afastamento cultural existente e a "capacidade de comunicação" que possa ser criada entre habitante e projectista [capacidade esta que parece ser potenciada através da acção de certos promotores como é evidentemente o caso das cooperativas de habitação, que desde sempre consideraram a participação dos, e a boa informação aos, futuros habitantes como um processo essencial no acesso à habitação];
·        a significativa variedade de subculturas que estão, actualmente, em mutação rápida (designadamente, por desenraizamento cultural e imigração para as grandes cidades) [e aqui poderemos acrescentar que actualmente vivemos um período em que essa grande diversidade de modos e desejos de habitar ficou e ficará extremamente evidenciada];
·        e a existência, em cada grupo sociocultural, de muitos níveis de aculturação e mesmo de mutação sociocultural.

Diversidade no habitar – diversas soluções domésticas e de vizinhança

É ainda Rapoport que evidencia o que considera ser a principal medida de adequação entre habitação e família, ou entre habitação e características socioculturais, que é, para aquele estudioso, a oferta de uma ampla capacidade de escolha ao futuro morador, seja do tipo específico de habitação, seja do tipo geral de solução habitacional.
E se a escolha do tipo geral de habitação, designadamente, entre soluções uni e multifamiliares é bastante difícil, essencialmente por razões financeiras e de localização, então o “universo” das soluções multifamiliares poderia e deveria obviar a esta falta de diversidade de oferta, disponibilizando um amplo leque de formas de habitar com variedade de caraterísticas específicas e de relacionamento com o exterior; o que infelizmente não acontece.
Trata-se, portanto, de uma espécie de capacidade de adaptação prévia, por possibilidade de escolha e aqui importa comentar que o mercado, infelizmente, nem disponibiliza, habitualmente, variedade de soluções habitacionais de vizinhança e de formas de associação em edifícios, nem mesmo variedade de soluções domésticas, o que seria muito mais simples.
Mas, não! O mercado, por regra, oferece o mesmo “produto” do 1º ao 7º andar. Há excepções, começa a haver excepções, mas por ora elas pouco ultrapassam a barreira da produção dita de luxo, ou então da promoção de interesse social, quando bem qualificada e informada.

 

Habitação adaptável

Há que evidenciar aqui que as matérias da adaptabilidade doméstica são de extrema importância no sentido de uma maior apropriação da casa pelos seus habitantes e de favorecimento de soluções domésticas mais duráveis e adequáveis em termos de natural conversão funcional e de ambiente doméstico geral – por exemplo, uma casa que se transforme com facilidade de uma solução com um assinalável peso de áreas de quartos, para uma outra marcada por uma expressiva sequência de áreas de estar.
A adaptabilidade doméstica foi aprofundada, ainda não há muitos anos, num livro editado pela Livraria do LNEC, intitulado “Habitação evolutiva e adaptável” (ITA 9), e importa aqui referir que ela é fundamental:
  •  quer no sentido de se proporcionar aos moradores uma expressiva capacidade de apropriação do seu espaço doméstico;
  •  quer no sentido de se compatibilizar a organização da habitação e dos seus aspectos específicos de ordem construtiva, funcional (relações entre espaços), dimensional, ocupacional (capacidade de acolhimento de mobiliário) e ambiental (localização, dimensão e características de abertura de vãos exteriores).



Fig. 01: livro editado pela Livraria do LNEC, intitulado “Habitação evolutiva e adaptável” (ITA 9).

Habitação apropriável e habitação natural e agradavelmente mutante

A primeira perspectiva, acima referida, evidencia a importância que tem o potencial de capacidade de apropriação de uma habitação por parte de quem a habita. Trata-se, naturalmente, de um aspecto de enorme importância para o desenvolvimento da adequação habitacional e de um sentimento de verdadeira satisfação com o habitar, e tem expressão directa na possibilidade que a casa deve oferecer para o desenrolar de uma importante dinâmica de mudança periódica nos arranjos domésticos:
  •  seja por conversões funcionais e de mobiliário, mais frequentes, simples e passivas (simples mudanças nas disposições de conjuntos de mobiliário e outros elementos de composição e decoração);
  •  seja por conversões funcionais e de mobiliário associadas a eventuais junções e subdivisões de compartimentos.
Um exemplo extremo deste tipo de solução é dado por Sven Thiberg (Sven Thiberg, Ed., "Housing Research and Design in Sweden", p. 139), quando se refere ao compartimento tradicional da casa japonesa, que muda, funcionalmente, através de mudanças de peças de mobiliário muito simples; e,  mesmo na nossa cultura, bastará recuarmos à Idade Média para encontrarmos soluções semelhantes.

E há que sublinhar que a referida dinâmica de mudança periódica nos arranjos domésticos obriga a uma organização e a um dimensionamento muito cuidados dos espaços domésticos e a uma espaciosidade razoável porque seja ou claramente acima dos mínimos regulamentares, ou próxima de tais mínimos mas compensada por uma excelente solução de organização e configuração domésticas – um excelente projecto de Arquitectura, portanto.




Fig. 02: o atual espaço de trabalho do autor destas linhas, que resultou do aproveitamento de uma velha mesa de jogo, arrumada num canto de um compartimento razoavelmente espaçoso e bem localizado na contiguidade de uma varanda; a relativa exiguidade do espaço é em boa parte compensada pela sua excelente localização em termos de conforto ambiental (luz natural, ventilação natural, boa orientação solar a Sul, contiguidade com o exterior privado.
Neste “recanto” doméstico é possível conciliar um razoável leque de atividades de trabalho e de lazer (ex., leitura e audição de música), criando-se condições adequadas para a privacidade e um membro da família e para as suas necessidades de relativo isolamento (trabalho, lazer); condições estas que podem ser replicadas em outros compartimentos da habitação para outros membros do agregado, com excelentes resultados em termos de adequação ao trabalho individual e a gostos específicos de vivência doméstica e, reservando-se, assim, naturalmente, os espaços domésticos mais sociabilizantes para o convívio doméstico.
E tudo isto mediante pequenos, mas muito judiciosos, incrementos às áreas e, muito especialmente, às dimensões domésticas consideradas mínimas, excelentes previsões em termos das diversas dimensões do conforto ambiental doméstico e, naturalmente, um excelente projecto de Arquitectura, que estrutura e organiza a habitação de um modo claramente e “passivamente” adaptável a essas diversas apropriações e atividades.
O projecto de Arquitectura deste edifício multifamiliar é dos anos de 1960, com autoria dos arquitectos Artur Pires Martins e Cândido Palma de Melo.

 Junção e subdividão de compartimentos

A segunda perspectiva, acima referida, as conversões funcionais e de mobiliário associadas a eventuais junções e subdivisões de compartimentos, tem tem idênticas influências na capacidade de apropriação e de identidade que a habitação deve oferecer e liga-se:
·         Quer à evolução da família que aí resida (crescimento e decrescimento);
·         Quer à mudança nas necessidades e nos gostos domésticos; por exemplo, à medida que a família original envelhece e cresce haverá mais necessidade de mais espaço de circulação e de desafogo funcional e, eventualmente, um maior gosto numa especialização de zonas de estar.
·         E esta perspectiva de junção e subdividão de compartimentos é servida:
·         quer por simples aspetos de pormenorização, extremamente fáceis de prever, como é o caso da distribuição estratégica de tomadas de telecomunicações ao longo da casa, proporcionando variadas utilizações e versáteis mudanças de usos dos mesmos compartimentos;
·         quer por aspectos estruturantes na organização da habitação, mas que podem proporcionar uma sua riquíssima versatilidade de uso, como é caso de uma parte do espaço doméstico poder ser usado como espaço total ou relativamente autónomo, desde que disponha, ou possa vir a dispor, sem obras significativas, de acesso próprio e de instalações mínimas de cozinha e sanitárias.(2)
  

Adaptabilidade doméstica e adequação a modos de vida

A adaptabilidade da habitação a diversos modos de vida, caracterizando diversos tipos de agregados familiares e, até, diversas apropriações funcionais específicas, é, cada vez mais, um aspecto fundamental a considerar na concepção dos espaços domésticos, pois assim se podem servir melhor um leque crescente de modos de vida e de usos da habitação, que decorre, tal como sintetizei num anterior livro editado pela livraria do LNEC (“Do bairro e da vizinhança à habitação” – ITA 2):
  • de uma diversidade de horários de trabalho;
  • da ausência, frequente, dos habitantes no seu domicílio, durante os dias úteis;
  • de um nível gradualmente mais elevado de acesso à cultura e à informação;
  • da mobilidade dos agregados implicada por uma tendência, provavelmente crescente, de mobilidade nos postos de trabalho;
  • da recuperação do uso da casa, também, como sítio de trabalho(s);
  • do crescente uso da casa como sítio privilegiado de exercício de actividades de lazer e de “segundas actividades”, tendencialmente cada vez mais numerosas, temporalmente cada vez mais prolongadas e frequentemente bastantes exigentes em termos de condições específicas de concretização;
  • e da tendência fortemente crescente de existência de modos de vida e de tipos de agregados familiares socioculturalmente diferenciados, e aos quais é essencial proporcionar respostas domésticas expressivamente adequadas, seja diretamente, seja através de fáceis condições de conversão – construtivamente simples e baratas e bem adequadas nos respetivos aspetos de manutenção.
Naturalmente que todo este tipo de previsões, quando associado a habitações destinadas a grupos sociais com reduzidas e médias condições económicas não pode implicar uma inflação de espaços específicos e uma exagerada previsão dimensional, sendo, portanto, vital que a habitação incorpore excelentes condições de adaptabilidade passiva e de convertibilidade; condições estas que devem merecer uma especial atenção em termos de segurança estrutural do edifício sempre que estejam associadas à ligação entre compartimentos, sendo muito recomendável uma evidenciada marcação e informação dos elementos construtivos que não podem ser intervencionados.

Notas:
(1) Amos Rapoport, "Housing Ecology", p. 149.
(2) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", p. 637.


Uma primeira versão, menos desenvolvida, deste artigo foi publicada no número 472 da Infohabitar, em 17 de Fevereiro de 2014.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.
(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Infohabitar, Ano XVI, n.º 732

Sobre a importância da diversidade na organização habitacional – Infohabitar # 732

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.


Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).



terça-feira, maio 26, 2020

Sobre a importância da diversidade na organização habitacional – Infohabitar # 731


Ligação direta (clicar) para:  725 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada - 38 temas e mais de 100 autores.


Infohabitar, Ano XVI, n.º 731

Sobre a importância da diversidade na organização habitacional – Infohabitar # 731

Por António Baptista Coelho (texto e imagens)


Notas prévias:
Caros leitores da Infohabitar e estimados amigos,
Esperando que estejam todos de saúde, e com um muito especial abraço de força, de confiança no futuro e de saudade aos muitos amigos e leitores desse grande País Irmão.
Continuamos um “retorno” a uma abordagem relativamente sistematizada dos espaços domésticos, feito tendo por base alguns artigos já aqui editados e que foram e serão, naturalmente, extensamente revistos, desenvolvidos e “recomentados”, para esta ocasião editorial.
Este relativo “retorno” – relativo, porque o tema dos mundos domésticos esteve, está e estará sempre presente na Infohabitar – justifica-se, entre outras razões, pelo evidente e novo protagonismo que esses nossos espaços de vida assumiram nas longas semanas do nosso confinamento; um relevo que importa sentir em profundidade e aproveitar em tudo aquilo que possa contribuir para uma adequada e bem ponderada revisão programática, quantitativa, qualitativa e objetivada dos nossos mundos domésticos mais privados, “pessoais” e familiares.
Esperando que estes artigos agradem aos nossos estimados leitores e lembrando-se, sempre, que serão muito bem-vindas eventuais ideias comentadas a propósito destes artigos e mesmo propostas de novos artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com ao meu cuidado),
despeço-me, até à próxima semana, com saudações calorosas e desejos de boa saúde,
Lisboa, Encarnação, em 25 de maio de 2020
António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar


 PS: e, já agora, atentem que já ultrapassámos as 1.200.000 consultas - page-views

Sobre a importância da diversidade na organização habitacional – Infohabitar # 731


Mais do que tudo o que, em seguida, se aponte sobre as matérias associáveis à organização doméstica e à sua influência numa expressiva satisfação dos habitantes, na fruição doméstica há aspetos ligados ao que podemos considerar como referidos à diversidade na organização dos espaços domésticos que importa sublinhar por se considerarem determinantes num tal resultado.

Organização espacial habitacional e qualidade arquitetónica

O primeiro aspeto é que a qualidade da organização espacial e da pormenorização se ligue, intimamente, a uma adequada ideia de habitar e de viver a casa, por outras palavras é fundamental que a função siga a forma, não perdendo, naturalmente, eficácia, porque nós habitantes vivemos as casas, intensa e profundamente e, portanto, a forma interior das casas tem de ser algo fortemente coerente e equilibrado; matéria que importa vir a desenvolver posteriormente.
Para já, no entanto, interessa apontar que o próprio sentido de diversificação de usos e apropriações domésticas pode e deve estar “embebido” na organização global da habitação; e tal objetivo é razoavelmente simples de considerar, se visualizarmos espaços de vivência doméstica rigidamente estruturadores de determinadas formas de habitar, porque dimensionalmente “estritos”/mínimos e super-hierarquizados: considerando-se, naturalmente, que habitações formal e funcionalmente diversificadas serão caracterizadas pela antítese de tais “qualidades”.

Adaptabilidade habitacional passiva

Um outro aspeto a ter em conta, quando se visa a diversificação básica do espaço doméstico habitacional, é a enorme importância que tem a adaptabilidade passiva numa habitação, uma condição que lhe permite satisfazer um significativo leque de funções nos mesmos espaços e, tão importante como isso, um amplo leque de ocupações específicas por mobiliário em cada espaço.
Esta adaptabilidade passiva, que é motor de uma apropriação extremamente ativa, baseia-se em condições que estão associadas, quer a uma organização e/ou estruturação doméstica significativamente neutral, embora bem afirmada, quer a condições de espaciosidade e de dimensionamento cuidadas; e tanto mais cuidadas quanto menor for a quantidade de espaço que esteja disponível – o que obriga a um grande cuidado por exemplo quando tratamos de habitação de interesse social; e não tenhamos quaisquer dúvidas de que, muitas vezes, alguns, poucos centímetros suplementares, desde que judiciosamente planeados, podem dinamizar exponencialmente o potencial de adaptabilidade de um dado espaço doméstico, enquanto o sentido de abertura de uma porta e a relação entre vão e a parede contígua podem ser, igualmente, motivos de maximização de uma adaptabilidade natural.

Funcionalidade habitacional

Outro aspeto tem a ver com a maximização das condições funcionais associadas a instalações e equipamentos, à capacidade de arrumação e a uma grande facilidade de execução das tarefas domésticas mais intensas e mais exigentes, como é o caso da preparação de refeições, do tratamento de roupas e da limpeza doméstica.
Realmente é hoje em dia fundamental que todo este leque de condições seja garantido de uma forma maximizada e não há desculpa para que isso não aconteça pois todas essas funções estão já exaustivamente estudadas e existem documentos claros que as elucidam.
De certa forma trata-se de “concentrar” e de super-funcionalizar todas as tarefas domésticas relativamente obrigatórias; mas atenção, que não podemos deixar de as tratar como expressivamente realizadas em ambiente doméstico confortável, potencialmente bem apropriadas e claramente submetidas a um sentido global “de casa”; e, alternativamente, até, “embebidas” de modo a que nos possamos delas esquecer, se assim o quisermos.
Mas não tenhamos dúvida de que se quisermos ter habitações potencialmente adaptáveis a múltiplos gostos e formas de habitar, há que servir muito bem o respetivo funcionamento doméstico em tudo aquilo que, afinal, é comum a todas as formas de habitar; caso contrário as exigências funcionais irão, frequentemente, “transbordar” e invadir, gradualmente, toda a habitação, deixando muito pouco espaço e poucas condições para a podermos marcar com os nossos sonhos e com as nossas opções em termos de modos de vida.

Acessibilidade habitacional

Ainda outro aspeto desta reflexão sobre como potencial a diversidade organizacional doméstica, decorre em boa parte das considerações que acabaram de ser apontadas e tem a ver com a disponibilização de condições globais de acessibilidade no interior da habitação, tema este sobre o qual há também já muito dos elementos de apoio técnico necessários; e, afinal, a funcionalidade essencial para pessoas com dificuldade na movimentação é sempre uma funcionalidade acrescida para aqueles que não têm tais limitações, uma matéria frequentemente esquecida quando se trada deste assunto.
E só quem nunca habitou espaços domésticos bem qualificados por acessibilidades alternativas do exterior ao interior doméstico e até no próprio interior doméstico poderá duvidar do interesse desta consideração; o potencial em termos de diversidade de acessos atribui a uma habitação uma qualidade especial, quase uma dimensão especial, bem distinta de acessibilidades únicas e rigidamente hierarquizadas.

Importância da organização habitacional

Salienta-se, ainda, que os primeiros dois aspetos, que foram apontados neste artigo, englobam, claramente, os últimos, pois é, afinal, de uma organização espacial bem estruturada e adaptável que pode resultar uma casa adequada, e sobre isto basta dizer que há muitas casas realmente adequadas que cumprem essas duas primeiras condições e não as últimas.
Afinal, e tal como se tem apontado, a função não é tudo, acaba mesmo por ser muito pouco, designadamente, quando estamos em presença de uma boa Arquitetura habitacional, mas se pudermos respeitar um cuidadoso leque de objetivos funcionais é, naturalmente, preferível,  e será mesmo essencial quando se trate de uma habitação nova.
E, já agora, e a propósito, quando estamos em presença de uma “velha” habitação, arquitectonicamente positiva e organizacional e funcionalmente bem marcada – por vezes verdadeiramente “única” a este nível – toda esta reflexão deve ser bem matizada pela essencial oferta de um modo bem próprio de habitar, que pode ser proporcionado e verdadeiramente habilitado, apenas, por aquele espaço doméstico e não por outro; e é interessante constatar que, muitas vezes, é a partir deste ponto de partida primeiro formal e só depois funcional e muito próprio que resultam modos de habitar privados e familiares diversificados, ricos e “únicos”.


Fig. 01: considerar a “Habitação” como espaço distinto e sempre (re)imaginável, logo diversificado e diversificável em múltiplas dimensões de apropriação.

Habitação como espaço distinto e imaginável


Lembrando um dos muitos essenciais pensamentos de de Christian Norberg-Schulz, sobre um habitar tão humano como arquitectónico, afinal, a casa não é um refúgio funcional, um "não lugar" uniforme, mas exige um espaço distinto e [verdadeiramente] uma cena que se possa imaginar. (1)
Evidentemente que uma tal capacidade de imaginação está na base da diversidade habitacional, quer como base de habilitação para essa capacidade de sonhar, no sentido de construir pequenos mundos imaginados, quer como resultado final enriquecedor e fio condutor para a continuidade de tais sonhos.
E esse espaço "distinto e imaginável", portanto, base de algum sonho de como se deseja habitar, tem já uma longa história a registar, pois já passaram mais de 10.000 anos dsde o início de uma sua construção mais premeditada em termos de espaços e ambientes comésticos, e sobre estes tantos anos de evolução, que como em tantas outras áreas tiveram uma enorme dinâmica no passado Século XX , podemos citar uma síntese de Claude Lamure, que aponta ter acontecido uma diferenciação progressiva do espaço, e uma evolução genérica de um único compartimento multifuncional até ambientes muito compartimentados e funcionalmente especializados, ou mesmo espacializados (podemos nós comentar). (2)
E não é possível deixar de comentar que tal evolução é, em si própria, um verdadeiro fluxo de diversificação habitacional; sendo que de uma estafada cartilha (uni)funcional – podemos ainda considerar – poderemos agora avançar para uma expressiva e relativa microfuncionalização e para uma cuidada mas bem assumida diversificação plurifuncional doméstica.

Da unidade à diferenciação do espaço habitacional

Será, portanto, desta base funcional, de um espaço doméstico único, amplo e indiferenciado, onde aconteciam todas as funções e outras matérias domésticas nas pequenas casas de terra de Çatal Huiuk, na actual Turquia, há cerca de 10.000 anos, que fomos evoluindo, consoante as nossas culturas, as nossas paisagens de habitar e os nossos meios financeiros e outros, até à enorme casa altamente diferenciada nos mais diversos tipos de compartimentos e outros espaços domésticos e para-domésticos, tecnológicos e “inteligentes”, que se diz terem integrado uma grande casa que Bill Gates desenvolveu para seu uso pessoal, há já alguns anos.
Mas esta evolução traz-nos, hoje, também a redescoberta de um certo novo sentido de amplo espaço pouco diferenciado ou muito comunicante que carateriza, por exemplo, a recente corrente dos lofts habitacionais, que acabam, afinal, por recriar o tal espaço único, mas agora com uma enorme amplitude de volume de ar interior e com todas as mais recentes tecnologias.
E o evidente “segredo” será tentar tais qualidades de grande diversificação e multiplicação formal e funcional doméstica em espaços dimensionalmente delimitados;  não tenhamos quaisquer dúvidas de que tal passo só é possível através de uma grande, de uma excelente arquitectura habitacional!

Influência da habitação no habitante

Esta é uma matéria à qual iremos tentar voltar e aprofundar, um dia, porque ela o merece, mas a ideia desta referência, da influência direta e indireta da casa sobre o seu habitante – nesta entrada temática às matérias dos aspectos domésticos que poderão ser mais indutores de verdadeira diversificação, adequação e satisfação residencial, tem a ver com a ideia, que defendemos, de a organização doméstica, ou o caráter da organização doméstica e, naturalmente, depois, a sua própria espacialização, constituírem matéria crucial:
. quer numa forte adequação a modos de vida;
. quer na construção de uma caraterização residencial e doméstica expressivamente influenciadora – determinante nessa influência que se julga que a casca do caracol tem sobre o caracol humano (lembrando-se uma noção lançada por Amália Rodriques ao referir-se à sua casa).
E neste jogo de relações a ideia, que se julga poder ficar como base de sequenciais reflexões, é que os aspetos funcionais têm a sua importância, mas há muito mais para lá, ou ao lado, dos aspetos estritamente funcionais; e  por isto se dá, aqui, algum desenvolvimento a estas matérias.

Organização doméstica: opções básicas

Claude Lamure oferece-nos algumas linhas de reflexão nesta perspectiva de preocupações com uma organização doméstica verdadeiramente satisfatória e consequentemente diversificada e/ou diversificadora, e diz-nos que: (3)
. "podemos distinguir, frequentemente, espaços que agrupam diversos compartimentos e que se diferenciam de formas várias" (ex., várias funções, características mais conviviais ou mais íntimas, etc.);
. que "inversamente, num mesmo compartimento, diversos espaços ou cantos/recantos podem ser caraterizados por diversos critérios: apropriação por este ou aquele membro da família, tipo de actividade, ou de decoração".
. e que, "mais globalmente, as zonas bem diferenciáveis são aquelas que são acústica e visualmente isoláveis".
Ora temos, assim, um caminho que parece ser agradavelmente simples e coerente numa estruturação de espaços domésticos: zonas mais, ou menos, conviviais ou “sociais”, possibilidade de desenvolver subespaços caracterizados, dentro de outros espaços maiores, e eleição dos isolamentos visual e acústico como elementos fundamentais na criação de diferentes zonas domésticas.
Seguindo-se, assim, um filão organizativo muito mais de conforto ambiental, do que “simplesmente” funcional; e poderemos, até, incluir a funcionalidade num alargado e adequado sentido de conforto.


 Fig. 02: as opções de organização de uma habitação jogam-se em múltiplos aspetos dimensionais, relacionais, de conforto ambiental e de funcionalidades; e as opções de organização de uma habitação têm de ser, também, opções formais de criação de determinados “ambientes” domésticos.

Várias opiniões sobre as opções de organização da habitação

A ideia que fica é que, sinteticamente, estará, talvez, quase tudo nessa reflexão de Lamure.
No entanto, nestas matérias tão sensíveis, que muito têm a ver com os aspetos específicos de cada intervenção e de cada ideia de habitar a cidade, a vizinhança e o edifícios, haverá muito a ganhar com a integração de outras reflexões de outros projectistas e estudiosos nestas matérias e por isso, a seguir, se integram e comentam, com grande brevidade, algumas outras ideias sobre a organização dos mundos domésticos, numa ordem que tenta dar relevo aos aspetos julgados mais importantes no objetivo de aproximação a uma casa que possa ajudar a uma vida doméstica mais adequada, porque diversificada, agradável e estimulante.

Da casa que estrutura formas de habitar à casa adaptável

E, assim, se evidencia a questão básica de uma ideia de casa que é gerada por quem a projecta e que pode entrar em conflito, e frequentemente entra, com a ideia de casa do próprio habitante, e neste balanço entre ideias de casa, e na opinião de Harald Deilmann (4), quem projecta pode seguir duas vias distintas:
. ou comunica ao habitante as suas ideias de "habitabilidade" de uma forma positiva e convincente, clarificando o interesse de certas soluções, eventualmente, menos frequentes e salientando a mais-valia de uma solução mais caracterizada e plena de identidade;
. ou avança numa estratégia de adaptabilidade doméstica dos espaços previstos a um amplo leque de modos de vida e de usos da habitação, adaptabilidade esta que pode jogar quer numa ideia de neutralidade organizativa (espaços com condições dimensionais e de acessibilidade adequadas a diversos usos), quer em soluções ativas de ligação e de separação entre diversos espaços, quer, naturalmente, numa aliança entre estes dois tipos de soluções.

Opções domésticas e adequação aos modos de vida

E nesta matéria da adaptabilidade doméstica Claude Lamure, interpretando vários trabalhos franceses e, nomeadamente, os sempre incontornáveis estudos de Chombart de Lauwe sobre a adaptabilidade das habitações aos modos de vida, propõe um conjunto de possibilidades que as habitações, podem/devem oferecer às famílias ("Adaptation du Logement à la Vie Familiale", pp. 43 e 44): (5)
(i) de arranjo e apropriação de um espaço que seja suficiente;
(ii) de independência de grupos humanos no interior das habitações;
(iii) de uma graduação da privacidade no interior de cada alojamento;
(iv) de repouso e descontracção;
(v) de separação operacional das funções;
(vi) de atenuação das limitações materiais;
(vii) de prestígio (social);
(viii) de adaptabilidade da estrutura do fogo e dos seus arranjos às estruturas familiares;
(ix) e de relações sociais exteriores.

Em próximas edições desta série apresentaremos e comentaremos outras reflexões de outros projectistas e estudiosos nestas matérias, sobre aspetos considerados estruturantes nas opções de organização dos espaços domésticos, numa perspetiva que tenta aprofundar a grande diversidade de soluções que se oferecem e que propiciam uma vida doméstica mais adequada, agradável e estimulante.

Notas:
(1) Christian Norberg-Schulz, "Habiter", p. 105.
(2) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 106.
(3) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 105.
(4) Harald Deilmann; J. Kirschenmann; H. Pfeiffer, "The Dw elling / Dwelling-types, Building-types", p. 32.
(5) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", pp. 43 e 44.


Uma primeira versão, bastante menos desenvolvida, deste artigo foi publicada no número 471 da Infohabitar, em 9 de Fevereiro de 2014.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.
(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Infohabitar, Ano XVI, n.º 731

Sobre a importância da diversidade na organização habitacional – Infohabitar # 731


Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.


Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).