Mostrar mensagens com a etiqueta espaços da habitação. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta espaços da habitação. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, agosto 10, 2021

Entrar na habitação, o vestíbulo de entrada – Infohabitar # 786

Ligação direta (clicar) para:  760 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada em janeiro de 2021- 38 temas e mais de 100 autores 

Entrar na habitação; o vestíbulo de entrada – Infohabitar # 786

Infohabitar, Ano XVII, n.º 786

Edição: terça-feira, 10 de agosto de 2021

 

Artigo integrado na série editorial da Infohabitar “Habitar e viver melhor”

 

Caros leitores da nossa Infohabitar,

Depois de duas abordagens, uma ampla e desenvolvida e outra bem direcionada para o futuro, do que poderá e deverá ser a Nova Habitação de Interessa Social Portuguesa, retomamos a série editorial da Infohabitar especificamente dedicada a uma viagem sistemática pelos diversos espaços do habitar, que iniciámos na vizinhança, avançando, depois para os edifícios e seus espaços comuns (disponível no catálogo interativo da Infohabitar, no seu tema 6 intitulado Série habitar e viver melhor”) e “terminando” numa reflexão sobre os diversos tipos de organizações, opções e espaços domésticos; reflexão esta que aqui está a ser, e será, desenvolvida ainda durante um número significativo de outras semanas editoriais.

Lembra-se, novamente, que serão sempre muito bem-vindas eventuais ideias comentadas sobre os artigos aqui editados e propostas de novos artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com , ao meu cuidado).

Considerando a mais recente evolução da pandemia, sublinha-se, mais uma vez, a vital importância de não perdermos, agora, uma parte significativa do que ganhámos, dando-se agora tempo e cuidado até estarmos todos, em boa parte, imunizados; há que cumprir com rigor os protocolos de vacina (n.º de doses e períodos temporais posteriores às mesmas) e continuar com os cuidados de proteção próprios e dos outros, até esta presente vaga estar vencida.

Despeço-me, até à próxima semana, enviando saudações calorosas e desejos de força e de muito boa saúde para todos os caros leitores e seus familiares,    

Lisboa/Encarnação e Azambuja/Casais de Baixo, em 9 de agosto de 2021

António Baptista Coelho

Editor da Infohabitar


Entrar na habitação; o vestíbulo de entrada – Infohabitar # 786

António Baptista Coelho

(texto e imagens)


Resumo

Neste artigo, dedicado à temática do vestíbulo de entrada na habitação, faz-se, de início, uma introdução geral aos espaços domésticos, seguindo-se um enquadramento da temática do vestíbulo e dos aspectos considerados motivadores para o seu uso.

Depois abordam-se diversas opções de vestíbulo, as associações formais e funcionais e e os hábitos considerados interessantes nas soluções de vestíbulos domésticos e os problemas mais correntes que aí se detetam e as respetivas questões levantadas (dimensionais e outras)

Por fim aborda-se a temática do vestíbulo doméstico em termos de respetivas novidades, dúvidas e tendências (ex., trabalho em casa, uso por idosos).


Introdução geral aos espaços domésticos

Não se pode ter qualquer dúvida de que um excelente desenho da habitação, realizado considerando uma cuidadosa reflexão teórico-prática sobre os diversos tipos de organizações, opções e espaços domésticos, aliada, naturalmente, a uma adequada capacidade criativa arquitectónica, constitui uma combinação extremamente positiva e que é realmente capaz de associar a satisfação habitacional e o também essencial acrescentar à qualidade cultural e visual do respetivo quadro de integração urbano e paisagístico, e isto, deve dizer-se, sem uma relação direta com as questões ligadas às tão “famosas” áreas mínimas.

Há, no entanto que acrescentar a esta afirmação que uma tal fusão conceptual, de quase-mínimos de área com a referida ampla qualidade arquitectónica só é possível com “boa Arquitectura”! Sendo que essa “lógica” de condições mínimas de habitabilidade irá produzir, sempre, maus e muitas vezes péssimos resultados, quando trabalhada por uma Arquitectura menos qualificada; e não tenhamos qualquer dúvida de que os mínimos habitacionais serão quase sempre considerados como “regra” habitual no quadro de promoções habitacionais muitos marcads por critérios quantitativos e valerá pouco a pena lembrar que são apenas “mínimos” e que existem outras áreas “recomendáveis”, pois em muitas cabeças os mínimos são os dados a aplicar e quando associados a um mau desenho, produto de uma quase-ausência de reflexão sobre o habitar e de uma negativa criatividade, então o resultado seré mesmo muito pouco recomendável para quem aí irá habitar, para os seus vizinhos e para os seus espaços de integração – e a estas matérias iremos, num futuro próximo, dedicar atenção específica e ilustrada.

Continuando, então, a Série editorial sobre "habitar e viver melhor", na qual temos acompanhado uma sequência espacial desde a vizinhança de proximidade urbana e habitacional até ao edifício multifamiliar, e neste os seus espaços comuns, vamos, agora, falar com algum detalhe sobre os espaços que constituem os nossos “pequenos” mundos domésticos e privativos, refletindo sobre as diversas facetas que os qualificam.

Primeiro viajaremos pelos espaços domésticos comuns, isto é aqueles que são usados por todos os habitantes de uma dada casa ou apartamento numa base geral de uso partilhado e de alguma comunidade; posteriormente iremos até aos espaços domésticos privativos, portanto aqueles mais amigos de um uso individual, ou muito ligado ao casal e à família.

São os seguintes os espaços domésticos comuns a abordar, sequencialmente, em artigos desta subsérie: vestíbulo de entrada, lavabo, corredor e zonas de passagem, sala ou zona de estar, cozinha, áreas de serviço para arrumações, verdadeiras pequenas áreas de serviço, zona de refeições ou sala de jantar, casa de banho, varanda e outras zonas exteriores privadas elevadas como pátios e pequenos quintais, outros espaços comuns domésticos que integram a habitação, virtualidades domésticas do estacionamento em garagem, arrumações domésticas fora da habitação, outros espaços domésticos/privativos fora da habitação.

Ao longo de próximas semanas e mesmo alguns meses (porque esta série temática continuará a ser estrategicamente entremeada por outras matérias), iremos aqui desenvolver uma reflexão teórico-prática sobre os diversos conteúdos específicos em termos de organização, conteúdo formal e funcional, conteúdos, opções e inovações dos vários tipos de espaços domésticos, iniciando-se esta viagem, naturalmente, pelo vestíbulo doméstico.


Fig. 01: um espaço de entrada integrado na cozinha e ligado a uma zona exterior privada, proporcionando plena transparência nas respetivas relações visuais.

1. Enquadramento do vestíbulo e aspectos motivadores para o seu uso

No presente artigo serão abordados diversos aspetos a ter em conta no projeto de espaços de entrada habitacionais – aqui designados por vestíbulos, ou espaços vestibulares e referidos sinteticamente como “vestíbulos”.

Não se pretende desenvolver, neste artigo, uma reflexão sistemática sobre a concepção do vestíbulo e a sua relação com a estruturação global e pormenorizada do espaço doméstico; mas sim, apenas, uma aproximação relativamente informal (essencialmente no sentido de ser pouco hierarquizada em termos de apresentação) ao vestíbulo na sua constituição e no papel que desempenha na vivência do espaço de habitar mais privado.

Sumariamente e a modos de abertura desta reflexão importa registar considerar-se que esta tipologia espacial, este espaço de transição entre mundos privados e comuns ou mesmo quase públicos, que é o espaço onde se recorta a principal porta de entrada na habitação, tem sido apenas minimamente abordado e tratado, designadamente, nos seus aspetos simplesmente funcionais, do tipo: permitir entrar e sair, receber minimamente, usar e apoiar a arrumação de vestuário mais “pesado” e proteger as vistas do interior doméstico.

Provavelmente se há espaço doméstico onde os aspetos mais formais, de apropriação, de identidade e de apoio caloroso à vivência doméstica, têm um papel que, pelo menos, equilibra os respetivos e acima apontados aspetos funcionais é aqui no espaço vestibular.

E por isso e no limite podemos recriar, imaginativamente, um espaço de vestíbulo dimensionalmente mínimo, mas extremamente apurado e conseguido nos referidos aspetos formais e associáveis, enquanto podemos, também, imaginar um espaço de vestíbulo dimensionalmente muito generoso, mas inóspito e totalmente falhado nesses aspetos formais e de humanização.

Dito isto e usando referências a um excelente autor, vamos ao que se pode considerar como essencial numa zona de vestíbulo doméstico, no sentido de este constituir um espaço pelo menos razoavelmente motivador.

Segundo Sven Thiberg, a entrada pode subdividir-se em duas zonas:

-  sendo uma delas um vestíbulo de entrada apenas integrando a porta de entrada e equipamentos de apoio à entrada e à saída na habitação (não existindo outras portas nesta zona);

-  e sendo a outra zona um espaço em continuidade com o primeiro, mas servindo já, e fortemente, a circulação interior no fogo (1).

Desta forma e através destas duas subzonas e eventualmente microzonas poderá desenvolver-se como que uma dupla relação estratégica e simultânea, de separação e de ligação: seja simplesmente entre o “exterior” e o interior da habitação; seja entre este limiar que já é habitação, mas que se encontra, relativamente “desprotegido” e parcialmente devassado, porque está em contiguidade com o espaço comum ou público – e quando se abra a porta convém que ela se possa abrir amplamente em sinal de boas-vindas – e todos os outros espaços da habitação.

2. Opções de vestíbulo

Lembra-se, aqui, que uma definição habitual de vestíbulo se refere ao “espaço entre a via pública e a entrada dum edifício”, ao “espaço entre a porta dum edifício e a principal escadaria interior” e a “uma cavidade orgânica que serve de entrada a outra” (Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Francisco Torrinha, Porto, Domingos Barreira Editor, 1945).

Uma ideia que parece, assim, poder ficar é que o vestíbulo, ou espaço de entrada numa habitação, corresponde a um espaço de limiar e de transição entre o espaço público ou comum (no caso de se tratar de um edifício multifamiliar) e o espaço doméstico privado, embora este considerado também numa perspetiva de espaço doméstico mais comum – neste caso do conjunto das pessoas que vivem naquela habitação específica.

Seja qual for a forma, a dimensão e as características de maior ou menor encerramento ou de maior ou menor autonomia vivencial de um vestíbulo doméstico é essencial, para que haja satisfação no seu uso, que ele cumpra tais condições de conformação de um limiar multilateralmente relacionado; condições que têm a ver, essencialmente, com algum desafogo espacial próprio e com uma relação visual controlada com os restantes espaços da habitação e do espaço comum ou público que lhe dá acesso.

É, assim, importante que num vestíbulo doméstico seja possível receber alguém estranho à casa numa situação de porta aberta ou, até, eventualmente, entreaberta, sem haver a tendência natural a convidar essa pessoa a entrar, o que obrigará a condições adequadas e pelo menos minimamente agradáveis, em termos espaciais e ambientais, também nos próprios patins comuns ou de uso quase público.

E será interessante que seja possível convidar o visitante a entrar, mas recebendo-o, estritamente, no próprio vestíbulo, em condições adequadas e claramente agradáveis, uma situação que obrigará quer a um dimensionamento razoavelmente folgado deste espaço, quer a uma sua situação na habitação que, num caso destes, não provoque uma desagradável intrusão no espaço doméstico.

Associado a estes aspectos podemos considerar que o vestíbulo é um espaço onde devemos poder mostrar o que queremos mostrar da nossa residência, e, especificamente, os elementos de arranjo interior que mais apreciamos e que mais revelam a identidade que queremos revelar a quem nos visita; e para tal há que ter um mínimo de condições de espaciosidade e de autonomia de arranjo deste espaço relativamente ao resto da habitação.

Havendo espaço e ambiente para tais condições existirão, sem dúvida, condições de funcionalidade para apoio a diversas actividades associadas quer com o acesso ao nosso mundo doméstico, quer  com a saída, deste mundo, para a rua, que poderá/deverá, também, passar por adequados desenvolvimentos e acabamentos no espaço intermédio e comum do patim, da galeria e dos restantes espaços de uso comum do respetivo edifício. E é muito interessante este papel de intermediação, essencialmente doméstica, associado a um outro papel de intermediação comum ou colectiva.

O espaço de entrada pode ser também um espaço integrado com outro espaço da casa claramente afirmado, e é possível criarem-se conjugações extremamente interessantes, seja, mais facilmente em edifícios unifamiliares – em que o limite está muito na própria imaginação –, seja em apartamentos de multifamiliares onde é, realmente, possível desenvolver associações eficazes e estimulantes, por exemplo entre um espaço de cozinha convivial e a única entrada na habitação, ou entre uma entrada mais “de cerimónia” e um espaço de refeições mais cuidado, mas sempre desde que se respeite um exigente leque de condições de boa Arquitectura de interiores entre as quais as de conforto ambiental são fundamentais, por exemplo em termos de luz natural e de ventilação.

Desenvolvendo apenas um pouco mais esta possibilidade de integração entre vestíbulo e outro compartimento ou espaço de uso comum da habitação (por exemplo a sala de estar, ou um amplo corredor), importa registar ser esta possibilidade, naturalmente, muito sensível em termos de condições essenciais de privacidade e de conforto domésticos, sendo, portanto, essencial que as respetivas soluções garantam tais condições através de configurações e/ou dispositivos espaciais habitualmente associados a excelentes intervenções de Arquitectura; pois não é realmente fácil cumprir os referidos necessários e múltiplos equilíbrios em habitações com usos mais “abertos” – mas é possível e os exemplos concretos existem, sendo tudo uma questão de boa Arquitectura.

 


Fig. 02: A existência de luz natural n a entrada de uma habitação é sempre um aspeto de qualidade ampla (objectiva e subjectiva) no uso e na apropriação deste espaço e de todo o respetivo espaço doméstico.

 

3. Vestíbulo: associações e hábitos interessantes


Associações interessantes

Apontam-se em seguida e sem grandes preocupações de uma hierarquização de importâncias algumas associações qualitativas e alguns hábitos de uso considerados como especialmente adequados e interessantes nos espaços de vestíbulo doméstico.

A existência de luz e ventilação naturais no vestíbulo é uma das associações pouco frequentes, no caso de habitações em edifícios multifamiliares, mas sempre muito estimulantes na entrada de uma habitação.

Uma outra associação refere-se a uma equilibrada e bem regulada continuidade ambiental entre os átrios privados e os espaços públicos, comuns ou parcialmente privados que lhes dão acesso.

Quando a relação é feita, directamente, com o espaço exterior a entrada poderá ser decomposta numa zona de passagem que funciona como “quebra-vento”, conseguindo-se, tanto um melhor isolamento térmico e acústico do interior do fogo e a sua acrescida privatização, como uma maior funcionalidade/limpeza do interior doméstico; nesse espaço as pessoas limpam-se da sujidade que arrastam da rua, preparando-se para entrar num espaço mais protegido e íntimo.

Sentido expressivamente interiorizado/doméstico marcado num contraste claro e acentuado com a “exterioridade” do ambiente público ou comum contíguo; ou sentido de continuidade dessas condições ambientais essencialmente “exteriores”, através de luz natural marcando estrategicamente o átrio doméstico.

Carácter mais informal/casual do átrio, marcado por acabamentos duráveis e facilmente limpos e por um arranjo minimizado; ou carácter mais formal e mobilado do átrio, definindo que se está já em plena habitação, o que obriga a especiais cuidados.

E outras interessantes associações poderão, sem dúvida, enriquecer uma diversificada formalização e funcionalizaçãoo do átrio doméstico.

Hábitos interessantes

Nesta secção temática de abordagem do vestíbulo doméstico é interessante sublinhar a ocorrência de situações em que velhos hábitos de uso dos vestíbulos são reinventados em novas soluções de uso desses mesmos espaços.

Em termos de situações que eram habituais e que faziam algum ou muito sentido, designadamente, num habitar que se pderá designar como mais tradicional, salienta-se a possibilidade de se entrar quase directamente para uma zona de refeições mais formal, um pouco numa ideia de se ser recebido e de se passar, com naturalidade, para uma recepção à mesa, bem acompanhada e calorosa; e esta é uma possibilidade que pode ter interessantes aproveitamentos seja quando há áreas reduzidas, seja quando há um espaço exterior privativo na continuidade do vestíbulo.

E a nova e boa arquitectura habitacional usa este tipo de referencias tendo por exemplo criando uma entrada única na habitação que é feita diretamente para uma ampla cozinha e zona de convívio familiar (ex., de uma solução visitada em 2001, na BO01 em Malmo).

Ainda uma outra associação refere-se, naturalmente, a uma relativa continuidade entre o entrar em casa e o espaço de estar, situação que pode ter aproveitamentos espaciais estimulantes, mas que, no entanto, estará sempre associada à existência de um outro acesso à habitação, um acesso alternativo que propicie relações mais discretas e íntimas.

E entre uma e outra soluções e tendo em conta os habituais constrangimentos de áreas em habitação de interesse social podemos ter, por exemplo, uma zona de refeições formais pouco usada, porque existe uma outra microzona de refeições informais e que funciona, também, em termos funcionais (com poucos complementos específicos) e de evidenciação do seu ambiente formal, como zona de entrada na habitação.

4. Vestíbulo: problemas correntes e questões levantadas (dimensionais e outras)

Os problemas mais frequentes no desenvolvimento de soluções de vestíbulos domésticos estão ligados, habitualmente, à “falta de espaço” (ou podemos comentar, por vezes, à sua pior gestão/atribuição), questão esta também habitual e negativamente associada à condição de não se assumir e tratar, convenientemente, uma clara ausência de vestíbulo mais formal, obrigando-se as pessoas a manobras, quase "ridículas", quando entram e saem, aspectos estes que se tornam ainda mais críticos quando há visitas.

Associada, também habitualmente, a esta situação de má resolução e atribuição de zonas e microzonas domésticas, temos os problemas, frequentemente graves, da falta de privacidade que podem gerar a quase inutilização do uso de uma sala-comum para a qual abra, por exemplo, sem qualquer protecção visual, a porta da habitação.

E há que considerar que esta questão da privacidade é fundamental, no sentido de se procurar uma verdadeira satisfação doméstica, num bom equilíbrio entre privacidade e sociabilidade, pois quando não existe um espaço de vestíbulo que bloqueie vistas indesejadas sobre o interior doméstico não é só o “à vontade” da vivência na habitação que fica em risco, mas também a possibilidade do convívio, sempre pouco natural, porque sempre com um carácter quase “obrigatório”.

Numa outra perspectiva, mais ligada a aspetos de conforto ambiental (luz natural, ventilação, isolamento sonoro), os problemas mais habituais em vestíbulos domésticos também se ligam ao desenvolvimento de amplos espaços de entrada sem condições para poderem ser usados como espaços úteis (por exemplo, sem luz natural e sem uma configuração adequada), mas dispondo de um amplo dimensionamento e que acabam, assim, por constituir verdadeiras zonas "mortas", porque pouco usáveis em condições de conforto mínimo, e muitas vezes ocupando o que corresponde ao “centro estratégico” da habitação.

Estas condições de conforto ambiental e designadamente as associadas à ventilação (natural ou mecânica) estão também na ordem do dia considerando-se as desejáveis exigências de limpeza pessoal cuidadosa e de mudança de calçado e “roupa de rua”, que foram levantadas pela atual pandemia. Exigências estas que aplicadas a uma reconfiguração do espaço doméstico obrigariam, designadamente, e pelo menos a:

-  uma espaciosidade acrescida do vestíbulo, de modo a permitir mais funcionalidade naquelas operações;

-  a algum ou mesmo a total isolamento controlável entre o vestíbulo (ou um vestíbulo) e todos os outros espaços domésticos;

-  à existência de uma pequena casa de banho com duche na contiguidade do vestíbulo;

-  e naturalmente à previsão de condições específicas de ventilação servindo o vestíbulo.

A questão do dimensionamento da entrada tem muito a ver com as condições de espaciosidade disponíveis nos espaços comuns do edifício, pois são muito diferentes as condições proporcionadas por um pequeno “hall” privado servido por um grande patim comum com uma zona semi-privatizada contígua à porta do fogo, ou aquelas condições permitidas por um pequeno “hall” de entrada privado e contíguo a um espaço comum apertado e basicamente de passagem.

Em termos que podemos designar de “para-conviviais”, considera-se interessante que num vestíbulo se possa conversar guardando distâncias convenientes, entre os interlocutores, e que se possa abrir e fechar a porta, a partir do interior da habitação, facilitando a entrada a outra pessoa que transporte, por exemplo, um objecto volumoso.

Considera-se, assim, que o vestíbulo deve proporcionar um desafogo espacial equilibrado no apoio a um conjunto de acções de recepção e de passagem entre a habitação e o seu exterior, afectando-se ao mínimo a vida doméstica; havendo desafogo espacial o vestíbulo pode assumir funções específicas como mais um compartimento da habitação, mas para tal deve ter adequadas condições ambientais e de configuração, caso contrário acaba por ser um espaço quase “perdido”.

Faz-se notar e sublinha-se, mesmo, que algumas das reflexões aqui desenvolvidas serão um pouco antagónicas, e merecerão cuidado e discussão específicos, designadamente, no que se referere a aspetos de desejável continuidade entre o vestíbulo e a “sua” habitação e aos outros aspetos de estratégica organização do que se pode designar de “câmara de descontaminação”, marcando o acesso à habitação; uma tal discussão será um dia feita, mas evidentemente que há soluções de pormenorização de vãos interiores e de acessos alternativos que lhes dão resolução, enquanto também enriquecem e diversificam o ambiente interior doméstico.

5. Vestíbulo: novidades, dúvidas e tendências (ex., trabalho em casa; idosos, etc.)

Uma questão importante é que o vestíbulo proporcione a melhor visibilidade e o melhor controlo possível relativamente ao acesso à habitação, uma matéria que deverá ser aprofundada de modo a poder-se ter um máximo de visibilidade desde o interior da habitação, com a porta fechada, sobre a zona contígua e exterior à habitação e sobre a entrada comum no respetivo edifício com um máximo de visibilidade, com um mínimo de espaços onde seja possível a alguém esconder-se e com a maximização dos aspetos de garantia antivandalismo e de securização dos respetivos acessos; matéria esta que será tanto mais importante na concepção das respetivas soluções de arquitectura, quanto mais se considere a situação, cada vez mais frequente, de habitações onde vivem idosos, pessoas sós e pessoas condicionadas em termos de movimentação e percepção. E, muitas vezes, a melhor solução para estas matérias de um melhor relacionamento visual, físico e por tecnologias de informação/comunicação entre o interior da habitação e o  respetivo espaço comum e público diretamente contíguo ou próximo, nem é complicada, nem especialmente dispendiosa e proporciona um excelente sentimento de segurança e de paz no habitar.

Considerando-se o desenvolvimento, cada vez mais frequente, do trabalho profissional em casa, será de privilegiar a existência de vestíbulos bem separados do restante espaço doméstico com excepção de um compartimento ou de parte de um compartimento onde se possa desenrolar essa actividade; zonas estas que poderão ser, eventualmente, ainda mais autonomizadas da restante habitação, gozando, por exemplo, de um acesso autónomo e da relação directa com uma pequena casa de banho. E é interessante que uma tal possibilidade poderá permitir, em alternativa ou cumulativamente, o apoio ao desdobramento familiar (por exemplo, jovens ou idosos vivendo junto da restante família, mas com autonomia).

E é interessante lembrar que na era das tecnologias de informação pode ser que o vestíbulo doméstico possa ser ainda caracterizado por outros aspectos que façam sobressair a relação estimulante com a vizinhança e, indirectamente, com a cidade.

Finalmente, nesta reflexão, importa sublinhar que o vestíbulo doméstico deve ser um espaço de algumas funcionalidades e de um máximo de identidade(s), e deve ser também, verdadeiramente, um limiar, que nos privatize em nossa casa e que nos relacione estrategicamente com o seu exterior.

Notas:

 (1) Sven Thiberg(Ed.), "Housing Research and Design in Sweden", p. 164.

 

Notas editoriais ao artigo:

O presente artigo corresponde a uma edição muito ampliada e modificada do artigo que foi editado na Infohabitar, em 5/10/2014, com o n.º 503.

 

Notas editoriais gerais:

(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.

(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.

(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Entrar na habitação, o vestíbulo de entrada – Infohabitar # 786


Infohabitar

Editor: António Baptista Coelho

Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.

abc.infohabitar@gmail.com

abc@lnec.pt

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE).

terça-feira, julho 13, 2021

Uma introdução geral aos espaços domésticos comuns – Infohabitar # 783

 Ligação direta (clicar) para:  760 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada em janeiro de 2021- 38 temas e mais de 100 autores 

 

Uma introdução geral aos espaços domésticos comuns – Infohabitar # 783

Infohabitar, Ano XVII, n.º 783 

Edição: terça-feira, 13 de julho de 2021

Artigo integrado na série editorial da Infohabitar “Habitar e viver melhor” 

 

Caros leitores da nossa Infohabitar,

Continuamos a série editorial da Infohabitar especificamente dedicada a uma viagem sistemática pelos diversos espaços do habitar, que iniciámos na vizinhança, avançando, depois para os edifícios e seus espaços comuns (disponível no catálogo interativo da Infohabitar, no seu tema 6 intitulado Série habitar e viver melhor”) e “terminando” numa reflexão sobre os diversos tipos de organizações, opções e espaços domésticos; reflexão esta que aqui está a ser, e será proximamente, desenvolvida ainda durante mais algumas semanas editoriais aqui na nossa revista.

Lembra-se, novamente, que serão sempre muito bem-vindas eventuais ideias comentadas sobre os artigos aqui editados e propostas de novos artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com , ao meu cuidado).

Considerando a mais recente evolução da pandemia, sublinha-se, uma vez mais, a grande importância de não perdermos, agora, uma parte significativa do que ganhámos, dando-se agora tempo e cuidado até estarmos todos, em boa parte, imunizados e mesmo assim, como está a ficar evidente, continuarmos com um máximo de cuidados de proteção; há que cumprir com rigor os protocolos de vacina (n.º de doses e períodos temporais posteriores às mesmas) e continuar, mesmo assim, com os cuidados de proteção próprios e dos outros, até mais esta presente vaga estar vencida.

Despeço-me, até à próxima semana, enviando saudações calorosas e desejos de força e de muito boa saúde para todos os caros leitores e seus familiares,    

 

Lisboa/Encarnação e Azambuja/Casais de Baixo, em 12 de julho de 2021

António Baptista Coelho

Editor da Infohabitar


Uma introdução geral aos espaços domésticos comuns – Infohabitar # 783

António Baptista Coelho

(texto e imagem)


Resumo

Neste artigo, dedicado à temática geral e introdutória aos espaços comuns domésticos abordam-se, primeiro os espaços domésticos comuns na habitação e, depois, os espaços domésticos comuns fora da habitação.

Relativamente aos espaços domésticos comuns na habitação são abordados, sequencialmente, os seguintes tipos de espaços: vestíbulo de entrada; lavabo; corredor e zonas de passagem; sala ou zona de estar; cozinha; zona de refeições ou sala de jantar; casa(s) de banho; varanda e outras zonas exteriores privadas elevadas como pátios e pequenos quintais; áreas de serviço para arrumações; outros espaços de serviço doméstico; outros espaços domésticos comuns que integram a habitação

Relativamente aos espaços domésticos comuns fora da habitação são abordados, sequencialmente, os seguintes tipos de espaços: (virtualidades domésticas do) estacionamento em garagem; espaços de arrumação; e outros espaços domésticos fora da habitação.

Remata-se o artigo com algumas notas complementares e estrategicamente discutíveis sobre os espaços comuns domésticos.


1. Uma pequena introdução aos espaços comuns domésticos

Continuando esta Série editorial sobre "habitar e viver melhor", na qual temos acompanhado uma sequência espacial desde a vizinhança de proximidade urbana e habitacional até ao edifício multifamiliar, e neste os seus espaços comuns, vamos, agora, falar com algum detalhe sobre s espaços que constituem os nossos “pequenos” mundos domésticos e privativos, refletindo sobre as diversas facetas que os qualificam.

Primeiro viajaremos pelos espaços domésticos comuns, isto é aqueles que são usados por todos os habitantes de uma dada casa ou apartamento numa base geral de uso partilhado e de alguma comunidade, espaços estes que constituirão também, sempre, espaços de oferta a quem chega e que não seja morador, mas sem perder um sentido de intimidade, antes pelo contrário, valorizando-o numa forte relação com a marcação da identidade dos espaços que são nossos.

E é, desde já, importante considerar o interesse que tem e terá o visar dos espaços comuns domésticos sob perspectivas substancialmente distintas das habituais, rigidamente funcionalistas e hierarquizadas.

Depois iremos até aos espaços domésticos privativos, portanto aqueles mais amigos de um uso individual, ou muito ligado ao casal, e onde, também não há que excluir os outros, mas sim acolhê-los marcando, aqui, ainda mais fortemente, aspectos de identidade e de abrigo.

Aponta-se, ainda, que tal como tem vindo a ser feito nesta viagem pelos espaços de um habitar mais "amigo" e mais associado a um dia-a-dia verdadeiramente mais agradável e motivador, não iremos aqui cansar o leitor com listagens funcionais e dimensionais, que são afinal matéria-base dos técnicos que desenham o habitar, e matéria que já foi suficientemente tratada por muitos autores ao longo de mais de cinquenta anos; interessa-nos “o resto”, o “grande resto”, aquilo que faz as casas serem espaços únicos, espaços estimulantes, espaços curiosos, espaços fortemente apropriáveis, a tal “casca de caracol, mas aberta ao mundo”, nas palavras de Amália Rodrigues (quando de uma sua entrevista).

E sobre esta matéria e sobre esta perspectiva específica e a privilegiar de compartimentos, espaços e subespaços domésticos organizados e concebidos tendo por base muito mais do que os respetivos meros critérios espacio-funcionais aplicáveis, muito haverá a pensar e a apontar.

São os seguintes os tipos mais habituais de espaços domésticos comuns que, em seguida, neste artigo, apenas se sintetizam nos seus aspetos caraterizadores e geradores de novas ideias, e que, em próximos artigos desta série, iremos pormenorizar caso a caso, mas sempre nesta perspectiva (de adequada e diversificada caracterização e de fundamentada inovação):

-    Espaços domésticos comuns que integram a habitação: vestíbulo de entrada; lavabo; corredor e zonas de passagem; sala ou zona de estar; cozinha e zonas diretamente relacionadas; áreas de serviço para arrumações; zona de refeições ou sala de jantar; casa de banho; varanda e outras zonas exteriores privadas elevadas como pátios e pequenos quintais; outros espaços domésticos comuns que integram a habitação

-    Espaços domésticos comuns fora da habitação: espaços em garagem; espaços de arrumação; outros espaços domésticos fora da habitação.

2. Espaços domésticos comuns na habitação

São os espaços domésticos comuns que se encontram da porta da habitação para dentro e que, na prática, constituem o que podermos chamar o “esqueleto” estrutural e de maior vivência da mesma habitação.

2.1.Vestíbulo de entrada

A definição de vestíbulo refere-se ao “espaço entre a via pública e a entrada dum edifício”, ao “espaço entre a porta dum edifício e a principal escadaria interior” e a “uma cavidade orgânica que serve de entrada a outra” (Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Francisco Torrinha, Porto, Domingos Barreira Editor, 1945).

Uma ideia que pode ficar é que o vestíbulo, ou espaço de entrada numa habitação, corresponde a um espaço de limiar e de transição entre o espaço público ou comum (no caso de se tratar de um edifício multifamiliar) e o espaço doméstico privado.

Talvez que o vestíbulo de entrada possa ser, um pouco, antecipado na sua estrita contiguidade relativa ao respetivo espaço comum do edifício multifamiliar ou à respetiva contiguidade de espaço comum ou público exterior e térreo.
E talvez que entre o espaço interior doméstico e comum e o espaço comum do condomínio ou público, e tendo-se em conta as respetivas características arquitectónicas possa existir algum tipo de relacionamento e/ou “transparência” (naturalmente sempre devidamente condicionada).


Fig. 1: E talvez que entre o espaço interior doméstico e comum e o espaço comum do condomínio ou público, ... possa existir algum tipo de relacionamento e/ou “transparência” ...


2.2. Lavabo

O lavabo é uma pequena casa de banho de apoio, minimamente equipada em termos de equipamentos de banho e higiene pessoal, que serve, essencialmente, a zona mais social da casa e que, por isto, deve ter também objectivos de identidade e apropriação, marcando pela sua localização e pelo seu arranjo os cuidados de recepção.

Os usos do lavabo devem ser bem considerados, designadamente, em termos do equilíbrio que faça transparecer, no seu arranjo, no que se refere aos seus aspetos mais formais ou mais informais e funcionais; afinal o lavabo pode ser como que uma extensão da zona mais formal da habitação ou constituir-se, praticamente, num desdobramento funcional da principal casa de banho.

2.3. Corredor e zonas de passagem

Um dos aspectos que continua a ser estruturador de uma boa solução doméstica é que ela se caracterize por uma economia ponderada de circulações, conseguida através da mínima extensão e do aproveitamento máximo das circulações por corredor (por exemplo por dupla utilidade para circulação e para arrumações em roupeiros) e também mediante a mínima extensão e posicionamento estratégico das eventuais zonas de circulação obrigatória através de compartimentos mais sociais (por exemplo, quartos com acessos através de salas e cozinhas).

No entanto há excelentes habitações cuja caracterização e valia funcional e imagética muito ficam a dever a corredores razoavelmente extensos e muito funcionalmente marcados, por exemplo, pelo acesso que proporcionam a roupeiros embutidos e/ou pela disponibilidade de boas extensões de parede com boa capacidade para serem mobiliadas e variadamente apropriada (e.x, espelhos, quadros, luminárias, etc.); condições estas que têm , naturalmente, exigências dimensionais específicas em termos da largura do corredor.

2.4. Sala ou zona de estar

Há quem diga que o convívio familiar, a actividade que marca em primeira linha a sala de estar ou sala-comum, é uma actividade cada vez menos efectiva. Sinceramente não se partilha de tal ideia, que se julga estar na linha daquelas que face a um problema dele se afastam de forma a tentarem resolvê-lo por não lhe darem atenção.

Afinal, talvez que assim aconteça, em termos de redução do convívio familiar, porque a ascensão e a intensa dinamização das tecnologias de informação verdadeiramente pessoais e privativas (smartphones, tablets), se associou, em muitos casos, a situações espaciais e funcionais domésticas com reduzidas, mal configuradas e pouco apropriáveis zonas de estar, conviver e receber; e assim o resultado fica evidente: com cada um muito fechado no seu mundo de comunicações e app.

No entanto em situações gerais e mais frequentes as condições existentes na zona de sala em termos espaciais-funcionais proporcionam condições muito reduzidas e mesmo, muitas vezes, extremamente pobres no que se refere a multiplicidade funcional, capacidade de mobilar e de apropriação, eventual “repartição” em diversas subzonas de atividade e real apoio outras atividades menos diretamente ligadas às funções habituais do “estar”.

2.5. Cozinha

Cozinha para cozinhar ou para conviver? Uma pergunta que tem como resposta que numa casa é necessário haver um espaço de preparação de refeições, espaço este fundamentalmente funcional e marcado por um dado conjunto de instalações e equipamentos, mas que não deve justificar um dado compartimento, feito dimensionalmente à medida desse conjunto de instalações e equipamentos, como se estivéssemos a conceber uma cozinha de um restaurante doméstico onde, quase sempre, não há “empregados” cuja função é estar nessa cozinha laboratório a preparar as refeições de quem habita aquela casa.

O que se referiu para a zona de estar aplica-se também à consideração da zona doméstica que inclui o espaço dedicado à preparação de refeições, tendo-se em conta: (i) quer a variedade e inovação que marcam, hoje em dia e marcarão num futuro próximo, as próprias subactividades ligadas à preparação de refeições; (ii) quer o potencial de ligação que também hoje em dia e num futuro próximo marcam e marcarão a relação entre a preparação de refeições e um leque amplo de outras atividades domésticas, nas quais se destacam as ligadas ao convívio no fogo, aos restantes trabalhos especificamente domésticos (a famosa “lide doméstica”) e ainda, naturalmente, à atualmente “crítica” capacidade para apoio ao teletrabalho.

2.6. Zona de refeições ou sala de jantar

Numa civilização urbana marcada pela falta de tempo e de convívio, tudo o que se faça para privilegiar o encontro familiar é extremamente positivo; e como todos temos a noção que as refeições estimulam o encontro e o convívio, então não deve haver quaisquer dúvidas sobre o interesse de se privilegiarem condições domésticas estimulantes para a prática de refeições familiares potencialmente alargadas e conviviais; e tais condições terão a ver, por exemplo, com aspetos simples de dimensionamento, conforto ambiental (ex., contiguidade com janela bem orientada e com vista) e relacionamento multifuncional.

Neste sentido o claro e urgente incentivo ao adequado desenvolvimento de uma zona de refeições é um caminho a privilegiar, seja numa cozinha de convívio, numa sala de família com zona de cozinha ou numa zona de refeições específica (autonomizada ou articulada com a zona de estar); e ficará, sempre, para uma segunda linha de preocupações se tal zona é mais adequada a refeições formais ou informais, sendo a ideia, talvez mais adequada, que o “cenário” de enquadramento da preparação de refeições deve possuir uma agradável visualidade e localização no espaço doméstico.

E não tenhamos dúvida de que uma boa zona de refeições devidamente dimensionada e localizada, portanto caracterizada por uma razoável autonomia, é uma condição extremamente útil em termos do desempenho de outras atividades domésticas, como é o caso do estudo e do trabalho em casa.

2.7. Casa(s) de banho

Quando falamos de “casas de banho”, falamos dos espaços que incluem mais instalações de águas e esgotos embebidas na construção, mas faz muito pouco sentido, numa habitação que se deseja possa ser geradora de verdadeira satisfação, fazerem-se “instalações sanitárias”, ostensivamente marcadas pela funcionalidade, pela frieza ambiental e pela “objectividade” das respectiva “peças sanitárias”, consideradas tal como “peças de catálogo” em tamanho real (mais estritamente funcionais ou mais “design”), muito pouco conjugáveis com o desenvolvimento de um cuidado espaço doméstico, caloroso, apropriável e muito naturalmente versátil.

Naturalmente que uma tal intenção tem consequências importantes – também em termos de custos – porque para que tal aconteça é muito importante que, pelo menos,  a principal casa de banho tenha:

(i) relação direta com o exterior;

(ii) espaciosidade claramente acima de condições mínimas;

(iii) e capacidade para uma adequada apropriação.

E poderemos, também, equilibrar racionalidades e custos se, por exemplo, associarmos a um tal espaço equipamentos de tratamento de roupas.


2.8. Varanda e outras zonas exteriores privadas elevadas como pátios e pequenos quintais

O título deste tema não faz justiça à ideia que se tem sobre a importância potencial dos espaços exteriores privados, salientando-se que se considera que estes espaços podem ter uma importância estruturadora da própria organização da habitação, essencialmente no caso das habitações isoladas, mas igualmente em conjuntos habitacionais coesos e mesmo em edifícios multifamiliares em altura.

Trata-se de matéria que hoje em dia assumiu uma importância especial e sobre a qual importa lembrar que até agora a disponibilização de espaços exteriores privados tinha e tem de suplantar vários problemas, entre os quais: (i) ao nível térreo, a ideia de que qualquer pátio é um problema em termos de posterior má apropriação e imagem pública; (ii) ao nível elevado a ideia de que qualquer varanda, mesmo mínima, corresponde a um conjunto de metros quadrados diretamente subtraídos ao espaço interior doméstico; e (iii) ainda ao nível elevado a ideia de que uma varanda é algo autonomizável relativamente ao respetivo espaço interior e não, mas como deve evidentemente ser, uma potencial expansão das atividades interiores e até vice-versa.


2.9. Áreas de serviço para arrumações

A arrumação doméstica é, provavelmente, a função cuja importância tem sido menos evidenciada no conjunto das funções habitacionais, e é aquela cujo evidente teor “funcional”, dimensional e quantitativo, sendo muito claro e crítico, não pode fazer diminuir os respectivos aspectos qualitativos e de opções residenciais ambientais e de vivência.

Há que ter em conta que, habitualmente, a nova habitação não tem mesmo qualquer “infraestrutura” de apoio aos serviços domésticos e o exemplo disto é a anulação dos espaços de “despensa”, seja de cozinha, seja “geral”, e isto muitas vezes sem qualquer compensação por previsão de bons “roupeiros” embutidos e módulos de mobiliário fixo de cozinha especificamente dedicados à respetiva arrumação.


2.10. Outros espaços de serviço doméstico

        Habitualmente a lavandaria e rouparia doméstica está associada à cozinha e, eventualmente, a uma casa de banho mais ampla, mas há que manter total independência com os usos ligados à preparação de refeições.

2.11. Outros espaços domésticos comuns que integram a habitação

A inserção deste subitem tem como principal objetivo constituir como que uma reserva tipológica de previsão de “outros” espaços domésticos comuns, que não apenas os “habituais”, espaços estes bem conhecidos e associados a uma renovada “filosofia” de organização e de conteúdos domésticos, que seja bem distinta da respetiva e estafada faceta essencialmente “funcionalista” e rigidamente hierarquizada.

Trata-se, assim, de matéria que será devidamente ponderada e desenvolvida no respetivo artigo.

3. Espaços domésticos comuns fora da habitação

São os espaços domésticos comuns que se encontram da porta da habitação para fora e que, na prática, constituem elementos complementares de apoio à vida doméstica diária e não-diária das pessoas e das famílias, mas que podem, eventual e desejavelmente, em alguns casos, assumir funções específicas e alguma autonomia até de imagem (ex., garagem comum adequadamente tratada em termos de espaço de chegada e recepção, associando portanto, esta função à sua função básica de estacionamento protegido).

3.1. Virtualidades domésticas do estacionamento em garagem

Este título suscitará, naturalmente, dúvidas, mas a ideia é, simplesmente, que o estacionamento comum em garagem possa ser um espaço, pelo menos, minimamente agradável e com algum carácter doméstico e representativo, e deixe, assim, de ser uma espécie de “cave” residual, estritamente funcional, por vezes suja e frequentemente mal iluminada e com cheiros, por vezes, menos agradáveis através da qual entramos e saímos, quase sempre, no nosso edifício.

Em próximos artigos desta série iremos abordar cada uma das tipologias de espaços domésticos comuns, aqui apontadas, considerando diversos aspetos tais como: opções mais habituais; frequentes associações funcionais; hábitos interessantes e aspectos motivadores; principais problemas; novidades e tendências.

3.2. Espaços de arrumação

Importa sublinhar, a título inicial, que a disponibilização deste tipo de espaços de arrumação fora da habitação pode levantar alguns problemas, designadamente, em diversos aspetos de segurança (ex., usos por pessoas estranhas ao condomínio e acumulação de matérias e objetos que levantem risco de incêndio), situações estas que devem ter abordagem específica, pelo menos em termos de regulamentação ao nível dos respetivos condomínios.

No entanto é bem evidente que a disponibilização de espaços de arrumação privativos e fora da habitação é um aspeto muito positivo no que se refere a um apoio bastante direto à capacidade de arrumação doméstica, proporcionando, por exemplo, bases de arrumação “de bastidor”, capacidade de arrumação sazonal críticos e mesmo capacidade de arrumação especialmente significativa, quando existam condições adequadas de funcionalidade e espaciosidade nos respetivos espaços.

3.3. Outros espaços domésticos fora da habitação

A inserção deste subitem tem como principal objetivo constituir como que uma reserva tipológica de previsão de “outros” espaços privativos fora do fogo, que não apenas os “habituais” espaços de estacionamento e de arrumação; reserva esta que será devidamente ponderada e desenvolvida no respetivo artigo, abordando-se diversas soluções e até, no limite, num sentido de um seu significativo desenvolvimento, que corresponda, praticamente, ao caminhar para um outro equilíbrio tipológico no edifício, caracterizado por um menor peso da própria habitação relativamente a outros seus espaços privativos mas dela destacados.

Estes caminhos estão naturalmente associados a uma renovada “filosofia” de organização e de conteúdos domésticos, que seja bem distinta da respetiva e estafada faceta essencialmente “funcionalista” e rigidamente hierarquizada.

E evidentemente este tipo de desenvolvimentos tem também muito a ver com o atual exponencial acréscimo da prática do teletrabalho na habitação, portanto da prática de trabalho profissional em contexto doméstico; numa aposta que acabou por resgatar e tornar “instantaneamente” real, a sempre presente, desde há bastante tempo, tendência para o trabalho informatizado e á distância e para uma renovada estruturação dos tempos e espaços dedicados ao trabalho profissional.

4. Notas complementares a propósito dos espaços comuns domésticos

Os espaços comuns domésticos merecem, na sua globalidade, uma reflexão devidamente renovada, flexibilizada e capaz de se dirigir para a “oferta” de “novos” espaços e subespaços comuns domésticos, tendo-se bem presente que a capacidade de “comunidade” doméstica será sempre motor:

(i) não só da natural capacidade convivial privativa, que se julga, nunca ter sido devidamente considerada no “equilíbrio” entre privacidade e convivialidade;

(ii) mas também da multifuncionalidade e versatilidade que cada vez deve caracterizar, mais profundamente, o espaço global da habitação;

(iii) e finalmente do papel desta renovada geração espacial na produção de “novas” tipologias domésticas e mesmo de edifícios habitacionais e mistos.

 

Notas editoriais ao artigo:

O presente artigo corresponde a uma edição muito ampliada, modificada e revista do artigo que foi editado na Infohabitar, em 8/09/2014, com o n.º 499.

 

Notas editoriais gerais:

(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.

(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.

(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

 

Uma introdução geral aos espaços domésticos comuns – Infohabitar # 783

Infohabitar

Editor: António Baptista Coelho

Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.

abc.infohabitar@gmail.com

abc@lnec.pt

 

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE).