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terça-feira, junho 09, 2020

Adaptabilidade/flexibilidade e tipologia habitacional – Infohabitar # 733

Ligação direta (clicar) para:  725 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada - 38 temas e mais de 100 autores.

Infohabitar, Ano XVI, n.º 733

 

Adaptabilidade/flexibilidade e tipologia habitacional – Infohabitar # 733

Por António Baptista Coelho (texto e imagens)

09Notas prévias:
Caros leitores da Infohabitar, estimados amigos,
Esperando que estejam todos de saúde e, novamente, com um muito especial abraço de força e de confiança no futuro aos muitos amigos e leitores desse grande País Irmão, que estão ainda a viver uma fase complicada da epidemia.
Continuamos um “retorno” a uma abordagem relativamente sistematizada dos espaços domésticos, feito tendo por base alguns artigos já aqui editados e que foram e serão, naturalmente, extensamente revistos, desenvolvidos e “recomentados”, para esta ocasião editorial.
Este relativo “retorno” – relativo, porque o tema dos mundos domésticos esteve, está e estará sempre presente na Infohabitar – justifica-se, entre outras razões, pelo evidente e novo protagonismo que esses nossos espaços de vida assumiram nas longas semanas do nosso confinamento; um relevo que importa sentir em profundidade e aproveitar em tudo aquilo que possa contribuir para uma adequada e bem ponderada revisão programática, quantitativa, qualitativa e objetivada dos nossos mundos domésticos mais privados, “pessoais” e familiares.
Esperando que estes artigos agradem aos nossos estimados leitores e lembrando-se, sempre, que serão muito bem-vindas eventuais ideias comentadas a propósito destes artigos e mesmo propostas de novos artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com ao meu cuidado),
despeço-me, até à próxima semana, com saudações calorosas e desejos de muita força e de boa saúde,
Lisboa, Encarnação, em 8 de junho de 2020
António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar


Adaptabilidade/flexibilidade e tipologia habitacional – Infohabitar # 733

António Baptista Coelho


Tipos de adaptabilidade e flexibilidade habitacional

A adaptabilidade da habitação a diversos modos de vida e usos domésticos ou específicos, colocada ao serviço de diversos tipos de agregados familiares e de diversas apropriações funcionais e pormenorizadas, é, cada vez mais, um aspecto fundamental a considerar na concepção dos espaços domésticos, tal como foi apontado em artigo anterior desta revista, mediante a referência à opinião de diversos autores, que salientaram a importância de deixarmos de privilegiar organizações domésticas rígidas e excessivamente hierarquizadas, favorecendo-se, sim, os caminhos marcados por espaços habitacionais mais apropriáveis e potencialmente mutantes:
  • seja pela capacidade “passiva” de adaptabilidade e conversão de espaços a diversos usos, proporcionada pela própria organização e dimensionamento gerais de uma habitação;
  • seja na flexibilização oferecida aos seus respetivos conteúdos funcionais e de mobiliário/decoração (nos mesmos espaços-base);
  • seja pelas condições de adaptabilidade relacional disponibilizadas, em termos de localizações e relações que proporcionem e incentivem diversos usos;
  • seja pelo potencial de adaptabilidade física (“hardware”) específica que igualmente ofereçam, designadamente, através da junção e subdividão de espaços e compartimentos, já existentes – numa opção que terá sempre de ser extremamente bem prevista no sentido de se respeitar, na íntegra,a segurança estrutural do respetivo edifício;
  • seja pela dinamização do equipamento evolutivo de alguns espaços e compartimentos;

  • seja mesmo pela capacidade de expansão real que seja proporcionada para novos compartimentos – uma solução naturalmente mais adequada a soluções habitacionais unifamiliares.



Fig. 01: adaptabilidade/flexibilidade dos espaços habitacionais - espaço "x" ocupação "a"
Nesta perspetiva e evidentemente nunca será possível, nem tal seria desejável, prever, na fase de projecto de Arquitectura, a (quase) totalidade de opções de ocupação e apropriação dos espaços domésticos; mas, no entanto, não tenhamos qualquer dúvida que é essencial que, na fase de projecto os espaços e subespaços da habitação sejam tornados versáteis para um máximo de apropriações e ocupações e nunca para usos quase-únicos, como por vezes, ou mesmo muitas vezes, acontece, designadamente, nos espaços limitados da habitação de interesse social.
E não tenhamos dúvida de que o espaço disponível influencia a versatilidade dos respetivos usos e ocupações, mas não é condição única, nem talvez a mais importante, para a referida e desejada adaptabilidade doméstica; e quase sempre tal versatilidade é ganha pela sábia agregação de múltiplos microespaços versatilmente habilitados para múltiplas “microatividades”, até quase simultâneas.

 

Relação entre família e habitação

No entanto, para além desta múltipla perspectiva da adaptabilidade e flexibilidade habitacional, que está globalmente ligada às amplas matérias da apropriação dos espaços domésticos, outra linha de reflexão é importante na opção por diversas formas de organização dos mesmos espaços; trata-se da caracterização do perfil da habitação na sua relação com as características etárias e gregárias dos seus habitantes.
E nesta perspectiva vários autores apontam um leque global de soluções integradas do que se pode referir como “tipologias família-habitação”, tal como em seguida se regista de forma sintética.


Fig. 02: adaptabilidade/flexibilidade dos espaços habitacionais - espaço "x" possibilidade de ocupação "b".


Estúdios individuais e para casais

Estúdios mínimos para jovens longe de casa e pessoas sós, idosas ou não; estúdios estes com equipamentos domésticos muito funcionais e completos, ou reduzidos a um mínimo razoável, que pode ser pré-instalado, e dispondo de um quarto de dormir em zona que possa ser adequadamente separada do resto da casa, ou, em alternativa, nela integrada de forma a criar um espaço amplo.
Segundo Alexander, a habitação para uma pessoa só deve ser um espaço com grande capacidade de individualização/apropriação, podendo caracterizar-se por um amplo espaço central e multifuncional, rodeado por recantos ou subespaços com diversas atribuições funcionais (1); e um espaço doméstico entre cerca de 30 e 40m² pode servir, razoavelmente bem, uma solução deste tipo.
Naturalmente que este tipo de solução pode ser adaptada, com alguma facilidade, ao uso por casais (jovens ou idosos), que aceitem este tipo de condições domésticas marcadas por algum “minimalismo” ou alguma informalidade e/ou versatilidade da organização e do recheio doméstico. 
E salienta-se que esta opção minimalista é basicamente distinta de uma opção informal em termos da capacidade de apropriação e ocupação dos respetivos espaços domésticos, sendo a primeira potencialmente mais uniforme e despojada espacialmente e a segunda eventualmente mais orgânica e multiforme - outras submatérias que nos levariam longe nestas reflexões.




Fig. 03: adaptabilidade/flexibilidade dos espaços habitacionais - espaço "x" ocupação "c".


Soluções habitacionais para pessoas sós

Citando, julga-se, a propósito, um estudo realizado pela Taylor University of York (2), apontam-se, agora, diversos subtipos de soluções habitacionais para pessoas sós e para casais:
·          "unidade auto-suficiente", provida de porta de acesso, cozinha, casa de banho completa – uma habitação pode ser uma unidade de alojamento ou conter várias unidades desse tipo; (3)
·         "unidade compartilhada", onde vivem várias pessoas, cada uma com um "espaço particular", mas compartilhando uma zona de estar, cozinha e casa de banho completa;
·         "espaço particular", quarto individual dentro de um alojamento compartilhado, usado essencialmente como espaço para dormir, mas também como zona de estar e para guardar bens pessoais;
·         "quarto completo", como o "espaço particular", mas com pequena zona de estar mais desenvolvida e incluindo lavabo e pequena cozinha; há que compartilhar a retrete e o banho;
·         "espaço comum ou colectivo, compartilhado", que pode incluir casa de banho, cozinha, estar, arrumações;
·         e, finalmente, uma evolução do "espaço particular", anexando-lhe instalações sanitárias que podem ser mínima e/ou pequena zona de estar, que pode resumir-se a um espaço para um pequeno sofá e uma mesa de trabalho (esta opção foi desenvolvida pelo autor deste trabalho).


Pequenas habitações

Subindo, agora, um pouco na “escala” do dimensionamento doméstico, mas mantendo-nos no âmbito de soluções especialmente adequadas para pessoas sozinhas, casais e outros pequenos agregados familiares, apontam-se, em seguida, as sugestões de diversos autores nesta matéria.
Desenvolvimento de pequenas habitações para jovens longe de casa, pessoas sós, idosas ou não, ou casais sem filhos em coabitação; estúdios estes com equipamentos domésticos que podem ser mais ou menos elaborados e completos, nomeadamente, para se disponibilizarem espaços para a instalação de mobiliário patrimonial ou, contrariamente, oferecendo os espaços já mobilados.
Segundo Claude Lamure esta solução deverá dispor de um quarto de dormir relativamente isolado do resto da casa, que seja suficientemente espaçoso para integrar duas camas individuais e certas zonas específicas (ex., sofá perto de janela).
A habitação deve ser globalmente espaçosa e ter circulações facilitadas, tanto entre cozinha e sala, como entre a sala e o quarto (pensa-se na funcionalidade do uso por idosos). (4)
Referem John Noble e Barbara Adams que este tipo de solução será muito útil a idosos pouco activos, que assim poderão dispor de pequenos fogos "super-funcionais" e razoavelmente espaçosos que lhes poupem e facilitem o trabalho doméstico e as próprias deslocações interiores. (5)

Pequena habitação para um casal

Num estudo espanhol considera-se que a habitação para um casal (habitação com quarto comum) será muito semelhante à habitação para uma pessoa só, designadamente, no caso de um casal de jovens adultos; pois no caso de se tratar de um casal de jovens ou de idosos, serão recomendáveis zonas mais amplas e diferenciadas. (6)
Claude Lamure aponta que as pequenas habitações realizadas especificamente para favorecerem a vida doméstica de casais, num quadro privilegiadamente informal de uso da habitação, devem favorecer os espaços "super-funcionais" para os trabalhos domésticos, a abundância de diversos tipos de arrumações, feitas de raiz, a possibilidade de desenvolvimento de recantos individuais para estudo/trabalho profissional e caracterizarem-se por um franco relacionamento geral entre espaços, que assegure, designadamente, a vigilância natural e simplificada de crianças pequenas. (7)

Grandes habitações multigeracionais e multifuncionais

Tal como aponta Lamure interessa também referir aqui o interesse do desenvolvimento de grandes habitações, razoavelmente espaçosas, para famílias "maduras" com diversos filhos de diferentes idades, com um quarto relativamente autónomo que pode servir para um filho mais velho, para escritório ou para um parente idoso, e, ainda, com um quarto de casal acentuadamente isolado do resto da casa. (8)
Defendem John Noble e Barbara Adams que as habitações deste tipo poderão desejavelmente ligar-se espaços exteriores privados no caso de famílias com crianças. (9)
E os mesmos autores referem que este tipo de solução servirá também casais idosos e activos continuando nas habitações onde criaram os filhos e onde, posteriormente, terão espaços adequados às numerosas actividades a que se dedicam em casa. (10)
Mas salienta-se que a relação entre espaços interiores e exteriores de uma dada habitação é algo que deve merecer uma redobrada e contínua atenção, devendo existir, sempre, uma possibilidade, nem que seja mínima, de “estar lá fora”, mas “em casa”; possibilidade esta que deverá, em muitas situações ser “exponencialmente” dilatada a uma possibilidade de “viver lá fora” grande parte do tempo, realizando inúmeras atividades.  

Espaços e serviços domésticos comuns

Vale a pena salientar que se considera muito adequada a associação entre os estúdios e as pequenas habitações e um potencial e diversificado leque de espaços e serviços comuns; condição esta que naturalmente será menos interessante no caso das grandes habitações, ou, especificamente, das habitações com um elevado número de quartos (ex., acima do T3).
No entanto a ideia que se julga mais adequada é que deverá haver, cada vez mais, uma maior possibilidade de escolha das soluções de habitar, quer em termos de carácter tipológico geral, quer em termos de espaços domésticos e comuns disponíveis, quer em termos de serviços domésticos, e outros, disponibilizados ou facilitados; e depois poderemos escolher o que preferimos.

Serviços comuns e domiciliários e equipamentos coletivos de proximidade

De certa forma até é possível considerar a possibilidade de haver um desenvolvimento de serviços domiciliários com um amplo leque funcional e sedeados fora dos edifícios servidos, disponibilizando o seu apoio/serviço a diversas unidades habitacionais.
E um aspeto que aqui deve ser bem considerado é a vantagem que tem uma gestão autonomizada e bem equilibrada destes possíveis pequenos complexos de espaços e serviços comuns e/ou de apoio domiciliário; sendo aqui muito interessante a reflexão que há a fazer sobre a relação deste tipo de “complexos” com algumas das velhas e com novas valências de equipamentos coletivos com faceta residencial.
Em tudo isto há que referir que a potencial diversidade de oferta de espaços e serviços comuns e domiciliários pode a ajudar a diversificar e apurar o leque de opções domésticas e residenciais disponíveis, considerando-se esta matéria de grande interesse, face à grande diversificação dos modos de vida, e  ao evidente e significativo crescimento dos pequenos agregados familiares e das pessoas idosas vivendo sós e necessitando de diversos serviços de apoio.
E não podemos deixar de sublinhar que a Infohabitar integra um tema editorial específico dedicado ao que se designou como habitações colaborativas intergeracionais, ou habitações adaptáveis e intergeracionais promovidas, naturalmente, através de iniciativas cooperativas ligadas à habitação de interesse social; e este foco numa intergeracionalidade participativa é também um foco na grande diversidade de usos da habitação que devem ser proporcionados, básica e diretamente, pelos espaços domésticos e indiretamente pelo próprio e respetivo edifício habitacional e mesmo pela respetiva vizinhança próxima residencial.

Notas:

(1) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", p. 356.
(2) Direccion General de Arquitectura y Vivienda; Ministerio de Obras Publicas y Urbanismo (MOPU), "Individuo y Vivienda", p. 86.
(3) Por exemplo dois quartos individuais, para duas pessoas que vivem juntas, mas cada uma com o seu espaço privado e independente ("LAT", "Living Apart Together") - Direccion General de Arquitectura y Vivienda; Ministerio de Obras Publicas y Urbanismo (MOPU), "Individuo y Vivienda", p. 79.
(4) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 15.
(5) John Noble; Barbara Adams, "Housing. Home in its Setting", p. 514.
(6) Direccion General de Arquitectura y Vivienda; Ministerio de Obras Publicas y Urbanismo (MOPU), "Individuo y Vivienda", p. 46.
(7) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 15.
(8) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 15.
(9) John Noble; Barbara Adams, "Housing. Home in its Setting", p. 514.
(10) John Noble; Barbara Adams, "Housing. Home in its Setting", p. 514.



Uma primeira versão, menos desenvolvida, deste artigo foi publicada no número 473 da Infohabitar, em 23 de Fevereiro de 2014.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.
(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Infohabitar, Ano XVI, n.º 733

Adaptabilidade/flexibilidade e tipologia habitacional – Infohabitar # 733

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.


Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

terça-feira, setembro 24, 2019

703 - Adequação, diversidade e inovação nas soluções de habitar; da casa à cidade – Infohabitar 703

Infohabitar, Ano XV, n.º 703     

Notas prévias editoriais importantes:

(i) Com a presente edição inicia-se uma temática editorial nova/renovada, que é especificamente dirigida para a reflexão sobre novas formas de habitar, com destaque para soluções habitacionais e urbanas intergeracionais e participadas.

(ii) Alguns problemas críticos de visualização das imagens de muitos dos artigos da Infohabitar (mais antigos/primeiros anos editoriais), que nos são alheios, têm vindo a ser, sistematicamente, resolvidos.

 

Adequação, diversidade e inovação nas soluções de habitar; da casa à cidade – Infohabitar 703

por António Baptista Coelho (texto e imagens)


“A esta cidade sempre chegarás.”

Em “A cidade”, de Konstandinos Kavafis

Há que considerar que os estudos sobre áreas e outros aspectos mais objectivos estão hoje estabilizados, enquanto o caminho da resolução de grandes problemas que se mantêm, por exemplo os da habitação para minorias e do contínuo abandono do uso do espaço público, tem de passar também por outros objectivos qualitativos menos mensuráveis, mas igualmente vitais.

“Há certas qualidades que podem ser consideradas essenciais em todos os géneros de casas: sossego, encantamento, simplicidade, largueza de vistas, vivacidade e sobriedade, sentido de protecção e abrigo, expressiva economia na manutenção, harmonia com a envolvente natural e a vizinhança, ausência de lugares escuros e ao abandono, conforto e uniformidade de temperatura, e a possibilidade de cada casa poder ser o adequado quadro doméstico dos seus habitantes. Ricos e pobres, uns e outros, apreciarão estas qualidades” (Voysey C. F. A “The English Home” 1911). 


Fig. 01: no conjunto do Telheiro, uma promoção de Habitação a Custos Controlados da C.M. de Matosinhos, um projecto coordenado pelo Arq. Manuel Correia Fernandes (2002), desenvolveu-se uma tipologia unifamiliar em bandas contínuas, com pátios/quintais privados posteriores, uma tipologia que associa muito do carácter do unifamiliar a uma fortíssima presença urbana unitária e regeneradora.

ENQUADRAMENTO SOBRE O HABITAR

Este texto sobre o potencial de inovação e de adequação no habitar foi iniciado no já longínquo mês de Março de 1999, a propósito de um debate/seminário de reflexão já então realizado no âmbito do movimento cooperativo e designadamente pela Nova Habitação Cooperativa (NHC).
O referido texto foi então e em parte “recuperado”, passados cerca de oito anos; fizeram-se alguns comentários e algumas reflexões, juntaram-se muitos outros aspectos, mas a matéria antes desenvolvida mantém toda a actualidade.
Um tal potencial de inovação e adequação habitacional deve privilegiar:
· casas e edifícios adaptáveis a famílias muito diversas e a indivíduos com múltiplos gostos próprios;
· e vizinhanças residenciais exteriores que estimulem os valores do convívio, hoje tão esquecidos, aliando-os, designadamente, a objectivos de recreio e desporto.
Nada disto é impossível ou caro, é sim exigente em termos de projecto – incluindo-se o respectivo enquadramento e diálogo técnico por parte do respectivo promotor.

 
Fig. 02: no conjunto de Habitação a Custo Controlado da Gala, promovido por uma empresa com o apoio da C. M da Figueira da Foz com projecto coordenado pelos Arquitectos Duarte Nuno Simões, Nuno Simões e Joana Barbosa (2005), concretizou-se uma tipologia multifamiliar com acessos directos ao exterior (directamente ao espaço exterior ajardinado ou indirectamente através de galeria/varanda), cuja caracterização tem muito a ver com a imagem e a funcionalidade de uma agregação de unifamiliares.

ADEQUAÇÃO, DIVERSIDADE E INOVAÇÃO NO MEIO URBANO

Continua a notar-se nos espaços públicos uma crítica dificuldade ao nível da sua essencial qualificação, desde o projecto urbano e paisagístico a uma adequada execução e equipamento, visando a sua durabilidade e o estímulo a uma ampla diversidade de actividades exteriores.
O que importa salientar é que, hoje em dia, não há um conhecimento verdadeiramente adequado e muito menos sedimentado sobre como fazer, por exemplo, uma praceta ou rua residencial, verdadeiramente amigável e apropriável. Os conhecimentos estão, a este nível, mais dirigidos, designadamente, para os aspectos funcionais do tráfego de veículos; e estamos agora a ultrapassar esta estrita e fictícia funcionalidade numa perspectiva de simples defesa da segurança pedonal, falta-nos todo um caminho de humanização de conteúdos funcionais e de imagens; e é neste caminho que se encontrarão muitas das virtualidades em termos de novas ou renovadas soluções tipológicas.
Em todas estas matérias é fundamental tornar o exterior residencial útil, portanto equipado, apelativo, portanto adequadamente projectado e executado e, também, naturalmente convivial, porque afinal o convívio na vizinhança é motivo e consequência de muitas actividades exteriores, desde o recreio infantil, ao desporto e ao simples, mas fundamental, lazer.
Um último aspecto, a este nível, refere-se à exigência de uma perfeita e contínua manutenção do espaço público, condição extremamente favorecida pelas referidas condições de uso intenso e de sentido efectivo de vizinhança.
Solidificando tais conclusões esquemáticas há que considerar que, muitas vezes, os terrenos disponíveis já têm pseudo-projectos definidos e que, frequentemente, os sítios possíveis não são os melhores (ex. vizinhanças complexas, terrenos pouco regulares). No entanto, em muitos casos o refazer qualificado de um projecto, quando tal é possível e quando essa revisão abrange o espaço público de vizinhança, é uma medida essencial para a qualidade final.
Há aqui, portanto, uma nova chamada de atenção para a necessidade de se poder intervir à escala urbana da vizinhança, não apenas através de edifícios, mais ou menos isolados, mas também através de um afirmado espaço público de lazer, recreio e convívio que tem de ligar os edifícios; múltiplos exemplos de excelente qualidade residencial cooperativa devem-se a esta aliança entre um excelente projecto e uma excelente vizinhança de proximidade.
E há aspectos muito interessantes de conjugação entre exigências económicas de rentabilização de estaleiro e obra (com grupos entre 100 e 150 fogos) e de números preferenciais de vizinhos considerando-se o estímulo natural do convívio, com grupos preferenciais entre cerca de 60 a 120 fogos, servidos por agradáveis e úteis espaços públicos residenciais numa aposta na pequena dimensão, o conhecido “small is beautiful”; faz-se notar que cerca de 60 fogos é um número que proporciona boas condições para a criação de pequenos “grupos de recreio” infantil com idades idênticas.
O “small is beautiful” liga-se obrigatoriamente a uma cuidadosa pormenorização das vizinhanças de proximidade (espaços comuns e espaços públicos), porque os espaços exteriores de vizinhança são espaços muito próximos do nosso olhar directo e do olhar a partir das habitações e estamos a abordar escalas comuns e públicas com exigências fortíssimas, entre as quais se destaca o privilegiar da global funcionalidade e da convivialidade natural, a introdução do “verde urbano” e a clara definição de zonas de influência/gestão.
Importa privilegiar edifícios geradores de ruas equipadas enquanto no interior dos quarteirões permitem humanizados espaços públicos de convívio e recreio, numa eficaz aliança com os sempre estimulantes pátios privados (servindo os pisos mais baixos, e não apenas o R/C), proporcionando ainda extensões térreas privativas bem enquadradas (ex. para espaços conviviais dos condomínios como salas de jogos), e proporcionando, ainda, eventualmente, o aproveitamento inferior como garagem comum. Este tipo de espaços é também ideal para se desenvolver um arranjo "natural" dos espaços exteriores: com menos asfalto e zonas impermeáveis, com grande variedade de plantas povoando fachadas varandas e terraços e criando um microclima muito favorável em zonas urbanas.
Deixa-se à reflexão o interesse de se privilegiarem, sempre que possível, espaços exteriores de vizinhança ligados aos edifícios residenciais, assim como a sua caracterização considerada mais desejável em termos de: acesso público, medianamente condicionado ou totalmente condicionado; tipo de arranjo global, que pode ser mais ajardinado ou menos ajardinado; tipo de conteúdos em termos de actividades recreativas que podem ser mais dirigidas para crianças, para jovens e adultos e para seniores e que podem ou não privilegiar elementos de apoio a actividades desportivas; e tipos de conteúdos em termos de equipamentos de vizinhança de apoio à vida urbana (nos seus ritmos diários e ocasionais). 


Fig. 03: no conjunto de habitação a Custos Controlados do Monte Espinho, promovido pela C. M. de Matosinhos, com projecto coordenado pela Arq.ª Paula Petiz (2005), criaram-se pequenos multifamiliares com quatro fogos - uma tipologia intermediária - em que todos eles têm acesso directo ao exterior, mas os fogos térreos possuem um pequeno quintal ajardinável, sendo os fogos superiores em duplex; desta forma e para além da adequação ao vários usos e desejos de habitar. cria-se uma imagem urbana intensa e contínua não se abdicando da caracterização unifamiliar.

TIPOS DE EDIFÍCIOS E DE CONJUNTOS DE EDIFÍCIOS

Vamos então a uma viagem muito rápida por um conjunto de aspectos de adequação que podem ser proporcionados por diversos tipos de edifícios e de conjuntos de edifícios, e para sermos claros vamos tratar, primeiro, de algumas escolhas de ordem geral (por exemplo entre tipos distintos de habitação) e, depois, de alguns aspectos de pormenor que, no entanto, podem fazer grande diferença no resultado final.
Opções gerais
(atente-se que muitas opções podem ser determinadas por razões de custos, por regulamentação local ou por condições locais específicas)

1 - Unifamiliares isolados (moradia isolada):

em lote espaçoso; ou em lote funcional (lote constituído por um conjunto bem definido de diversas áreas funcionais).

2 - Unifamiliar geminado

(consegue-se frequentemente a imagem de uma grande moradia): em lote espaçoso; ou em lote funcional.

3 - Unifamiliares em bandas curtas

(consegue-se, por vezes, a imagem de grande moradia); com, ou sem, pátios frontais; e com, ou sem, quintais posteriores curtos ou alongados.


4 - Unifamiliares em bandas longas;

 com, ou sem, pátios frontais; e com, ou sem, quintais posteriores curtos ou alongados.

5 - Unifamiliares em bandas longas e costas com costas;

 com, ou sem, pátios frontais; e com, ou sem, quintais posteriores curtos ou pátios posteriores.

6 - Tipologias de transição entre a moradia e o multifamiliar;

 proporcionam, por exemplo, desde pequenas jardinetas representativas, a pátios murados e terraços de lazer nos pisos mais elevados. É uma tipologia extremamente versátil podendo variar entre as seguintes imagens-limite:
. pequeníssimo “prédio” esquerdo/direito;
. grande “moradia” que agrega diversas habitações cada uma com um acesso próprio e bem identificado e cada uma com características espaciais e funcionais próprias.
As tipologias residenciais de transição uni/multifamiliar (ex., bi, tri e tetrafamiliares), quando bem projectadas:
(i) podem aliar muitas das vantagens de apropriação e de relativa “independência” dos unifamiliares;
(ii) podem densificar estrategicamente o espaço urbano, animando-o localmente e proporcionando intervenções economicamente equilibradas (desde que o projecto seja especialmente bem desenvolvido);
(iii) proporcionam uma enorme variedade de soluções, o que as torna muito adequadas para as cada vez mais necessárias operções de preenchimento urbano – um aspecto que, mais uma vez, põe em relevo o apuro de projecto que é aqui necessário;
(iv) e podem aliar importantes potencialidades conviviais (no espaço público assim recriado) e funcionais (disponibilizar necessidades locais em equipamento) à manutenção do carácter unifamiliar.
Os pequenos multifamiliares ainda proporcionam a sua associação em bandas urbanas de modo a que um número significativo dos respectivo fogos possam ter quintais, pátios e grandes terraços privativos.

7 - Multifamiliares com acesso por patim tipo esquerdo/direito sem elevador (até 3 pisos).

8 - Multifamiliares tipo esquerdo/direito com elevador.

10 - Multifamiliares com ou sem elevador (até 3 pisos) e com mais de dois fogos por nível;

 acesso por patim amplo ou por galeria: interior curta ou longa; exterior curta ou longa.

11 - Multifamiliares com elevador e com mais de dois fogos por nível;

 acesso por patim amplo ou por galeria galeria: interior curta ou longa; exterior curta ou longa.

12 - Multifamiliares caracterizados por soluções específicas de espaços comuns,

 por exemplo, dos tipos: jardim envolvente; grande átrio interior ou pátio exterior; galeria larga como se fosse rua elevada; ...

13 - Edifícios de habitação com um perfil específico e designadamente para séniores;

 multifamiliar relativamente corrente, mas com habitações especialmente desenhadas para pessoas sós ou casais de “meia idade” com significativas exigências de áreas e equipamentos.

14 - Edifício de habitação colectiva ou habitação/hotel

 que disponibilize um determinado menu de serviços e que integre fogos tendencialmente pequenos.

15 - Solução idêntica à anterior mas privilegiando, especificamente, fogos pequenos (ex., T0 e T1) para pessoas sós e casais,

 destinados ou não a grupos etários específicos; sugere-se uma mistura etária mas estruturada por regras de conduta exigentes em termos de usos e ruídos.

16 - Residência assistida em termos de cuidados sociais e/ou de saúde,

 que poderá chegar a ter opções específicas de verdadeiro hospital de rectaguarda.

17 - Multifamiliares caracterizados por soluções específicas de espaços privados exteriores,

 por exemplo, dos tipos: grandes terraços; pequenos jardins elevados (“suspensos”).
18 - ... e, naturalmente, é bem possível alargar e aprofundar e diversificar ainda mais esta listagem, embora pareça ser útil a proposta de quadros tipológicos como este aqui proposto ...
Desde já se refere que muito mais do que optar, caso a caso, por esta ou aquela solução geral, importa produzir soluções “mistas” que sirvam bem seja a diversidade da procura e as necessidades do mercado, seja as características e as exigências e carências de cada local e tendo em conta os problemas potenciais que se podem identificar em cada solução e em cada mistura de soluções – e há já experimentações cooperativas nestas áreas que é possível ter em conta.
Na criação de soluções “mistas” será sempre mais crítica a associação de residências assistidas com cuidados de saúde, seja pelos custos associados, seja pela sensível relação que este tipo de assistência irá ter com os restantes núcleos habitacionais não assisitidos e que estejam próximos. Nesta perspectiva uma resposta poderá ser uma associação mais autonomizada e urbana entre diversos edifícios com distintas valências.
Altura do edifício (alguns elementos de reflexão, numa aliança entre uso e custo):
. 1 piso, custo elevado
. de 2 até 4 pisos o custo diminui, atingindo um mínimo absoluto para 4 pisos; as crianças dos três primeiros pisos de edifícios altos são as que vão muito mais frequentemente brincar à rua.
. de 4 para 5 pisos o custo cresce muito (instalação de elevador);
. Acima de seis pisos as crianças são afectadas por perderem a percepção da proximidade do solo; nestes casos a varanda é um elemento que ganha importância como espaço de contacto com o exterior.
. de 5 até 8 pisos o custo diminui, novamente, atingindo um novo valor favorável para 8 pisos.
. de 8 para 9 pisos o custo cresce muito (instalação de equipamentos específicos, nomeadamente, para segurança contra risco de incêndio); é de notar que em Portugal este patamar será porventura um pouco mais elevado, pensando-se na altura máxima de 28.00m para uso de escadas de bombeiros - indicação esta que carece de confirmação técnica;
. de 9 até 12 pisos o custo diminui ligeiramente, atingindo um novo valor relativamente favorável para 12 pisos;
a partir de 12 pisos o custo "dispara" rapidamente.

Opções de pormenor :
(algumas notas muito informais)
Unifamiliares ou pequenos multifamiliares em conjugações densas e orgânicas têm imagens ricas, têm vantagens da agregação numa comunidade alargada e convivial e mantêm todas as principais características do unifamiliar, designadamente no que se refere ao acesso independente ao espaço público, à disponibilização de espaços exteriores privativos e à eventual possibilidade de garagens de estacionamento em boxes privativas – aspectos muito valorizados.
Em qualquer opção é possível e desejável privilegiar a melhoria de todas as condições onde seja possível actuar ao nível dos espaços comuns dos multifamiliares: luz natural; ventilação; marcação e apropriação de zonas e paredes específicas; criação de alguns pequenos recantos funcionais; ajardinamento. Sublinha-se que todas estas condições são possíveis mesmo num edifício maximizado em termos de economia.
As opções por tipos de acesso (escadas, galerias, elevadores) têm muito a ver com a qualidade visual e de uso que pode caracterizar esses acessos (ex., há degraus de escada que são muito confortáveis para subir, há galerias exteriores que são verdeiras varandas, há elevadores e patins de elevadores muito atraentes).
Há grande potencialidade – em termos de atractividade de vista exterior do edifício e de usos proporcionados – na aplicação de diversificadas soluções de espaços exteriores e semi-exteriores privativos ou comuns: varandas fundas ou só de assomar, terraços murados ou abertos, pátios murados ou abertos, jardinetas e pequenos jardins. E importa referir que muitas destas soluções são aplicáveis em edifícios multifamiliares.
Bandas densas de pequenos edifícios criando ruas, pracetas e quarteirões, fazem cidade animada, por um lado, enquanto no interior dos quarteirões é possível criar todo um mundo residencial intimista com carácter comum e/ou com carácter privado, em cada fogo.
Em qualquer escolha tipológica é sempre possível uma opção “suplementar” e de certa forma “paralela” por uma solução mais naturalizada, com mais verde urbano, ou mais “mineral”. 


Fig. 04: no exemplo que aqui se ilustra, um pequeno conjunto/quarteirão habitacional em Malmö, desenvolvido no âmbito da exposição habitacional e urbana Bo01, o quintal/jardim comum, na zona posterior do edifício multifamiliar, serve também uma pequena banda de unifamiliares; e há aqui todo um leque de possibilidades de associação seja entre tipologias bem distintas, como é o caso, seja entre formas de habitar e apoios e complementos habitacionais (ex., os mais diversos tipso de serviços comuns e de complmenetos habitacionais, como por exempo quartos para uma utilização eventual). É no entanto fundamental que a eventual oferta de serviços comuns diversificados não corresponda a uma efectiva menorização dos espaços domésticos; e são possíveis excelentes equilíbrios.

TIPOS DE ESPAÇOS E DE SERVIÇOS COMUNS HABITACIONAIS

Passamos, agora, às soluções práticas de auto-organização de habitantes oferecendo todo um conjunto de serviços e actividades que são difíceis, caras ou mesmo quase impossíveis de proporcionar exclusivamente a cada fogo.

A dimensão, o carácter e o equipamento dos espaços comuns 

variará consoante os objectivos de cada solução. Uma variação que, a título de exemplos relativamente extremo, poderá referir-se:
(i) seja a uma sala ou conjunto de zonas de estar/convívio/jogos do condomínio, e que poderá, eventualmente, até assumir um carácter de "casa comum" multifuncional. (ex. sala de convívio equipada, por ex. com bar/TV panorâmica/jogos de mesa/bilhar/ténis de mesa, recintos de desporto, jardim, etc.), mas sempre numa total distinção relativamente ao espaço dos fogos, que poderão ter uma distribuição e acesso “clássicos”.
(ii) seja a uma solução do tipo átrio comum muito amplo para o qual abrem todos os níveis dos respectivos fogos, criando-se um carácter de grande unidade; uma solução que poderá ter virtualidades ao nível dos aspectos de conforto ambiental.

Em termos de serviços comuns

poderão ser centralizados certos serviços de apoio prestados por pessoal próprio (exº recepção, segurança geral e controlo de acessos, manutenção corrente), bem como os contactos actualizados com variados e eficazes serviços exteriores (exº manutenção geral e especializada, emergência, apoio doméstico). Sobre estes aspectos será talvez preferível prever, sempre, apenas aquilo que possa ter viabilidade real, reforçando a imagem e o carácter funcional do agrupamento "em torno" dessas actividades e serviços; poderá ser, por exemplo, apenas um hall comum com serviço de portaria e um jardim bem arranjado.
Considerando que estas soluções têm, frequentemente,

objectivos de estímulo à convivialidade

e que esta matéria é de grande sensibilidade, desenvolvem-se algumas reflexões complementares:
(i) Soluções visando objectivamente o incentivo ao convívio em espaços públicos ou comuns poderão iniciar-se nos grupos de recreio de crianças e jovens em exteriores com condições motivadoras de variadas actividades, desde o recreio livre ao recreio estimulado por equipamentos.
(ii) Nos níveis etários superiores o convívio poderá desenvolver-se: (i) em consequência de um acompanhamento de crianças pequenas ao parque infantil (ii) a partir de actividades desportivas comuns, e (iii), naturalmente, com a apetência para a continuidade de hábitos diários de pequenos períodos de estadia e permanência em espaços bem situados relativamente às principais zonas de acessibilidade.
(iii) A ideia-base éque não se deverá tentar suscitar directamente o convívio como objectivo específico, mas sim favorecê-lo no desenrolar de um grande leque de actividades, estas sim objectivamente estimuladas/apoiadas.

Relativamente às 

soluções de habitação realmente colectiva

considera-se que elas deverão disponibilizar serviços e espaços comuns suplementares ou complementares das actividades em cada habitação, mas sempre como opção livre e muito dirigida para serviços de apoio eventuais, caracterizando-se os espaços comuns, fundamentalmente, por um papel representativo e convivial, ou contando-se com serviços de apoio completos e eventualmente opcionais e abertos a não residentes. Uma pequena nota sobre estas últimas soluções colectivas; sublinha que que elas terão naturalmente tanto mais sentido, quanto mais integradas nas restantes soluções.

Fig. 05: ainda no âmbito da referida exposição em Malmö, em 2001, apresenta-se uma imagem relativa ao interior profusamente ajardinado de um peqeno quarteirão residencial cujo projecto teve uma forte contribuição do Arq. Charles Moore e e em que há um evidente reforço da presença de cada fogo no "colectivo" edificado, mas propondo-se, simultaneamente, uma solução geral caracterizada pela possibilidade de intensas vistas mútuas entre fogos e entre estes e o jardim comum.

 

ELEMENTOS DE INOVAÇÃO NO MULTIFAMILIAR

A inovação no edifício multifamiliar liga-se, frequentemente, à aliança entre as vantagens dos pequenos edifícios residenciais, isto é, entradas separadas e privadas, organizações domésticas variadas, soluções de fachada diversificadas e áreas exteriores de lazer muito ligadas ao edifício, e as vantagens do multifamiliar, como são o carácter urbano, as áreas comuns, a economia das soluções e a possibilidade de integração com actividades não habitacionais vitalizadoras e geradoras de convívio.
É possível pensar em muitos elementos funcionais, tais como, por exemplo, pequeno ginásio, terraço comum, quartos de reserva, sítios de jogo infantil, festas e reuniões privadas, local de estar agradável e bem equipado etc.; mas há que basear tais ideias numa adequada localização centralizada e bem acessível destes espaços, no seu apropriado equipamento, na sua total compatibilização com a habitação e na sua adequada programação, organização e gestão diária; numa perspectiva que deve prever a possibilidade de um mau funcionamento da comunidade ou grupo de condóminos.

Anotam-se, em seguida, informalmente, alguns tópicos de

inovação no multifamiliar:

. Desenvolver a adaptabilidade doméstica passiva, designadamente, através de: espaços multifuncionais; e de contiguidades geradoras de fusões e subdivisões entre compartimentos.
. Desenvolver a adaptabilidade doméstica activa, designadamente, através de: diversidade de oferta de soluções de fogos nas mesmas localizações; oferta de fogos “feitos à medida”; oferta de soluções com serviços (água, esgotos, gás) fixos e compartimentação flexível.
. Variar alturas e profundidades conjugando fogos grandes e pequenos (simplex e duplex), áreas comuns variadas, espaços profissionais e comerciais e variados tipos de acessos comuns e eventualmente privativos.
. Desenvolver melhorias ambientais, funcionais e de estadia muito significativas em escadas, patins e galerias de acesso, tornando-os propícios ao convívio natural.
. Privilegiar sotãos e mansardas habitacionais, diversificando-se os espaços domésticos (ex. fogos duplex, zonas com pés direitos altos, estúdios) e assegurando-se a constante manutenção das coberturas.
. Disponibilizar locais para uso profissional fora dos fogos, assumindo neste caso uma perspectiva de adequada funcionalidade em termos de espaço de escritório com usos multifuncionais.
. Disponibilizar locais para uso profissional dentro dos fogos,caracterizando-os com um mínimo de funcionalidade e autonomia funcional – aspecto este que deverá ter reflexos nos espaços comuns.
. Desenvolver soluções edificadas específicas caracterizadas por combinações de fogos, espaços de trabalho e espaços para actividades de lazer.
. Desenvolver combinações variadas entre: escadas interiores, escadas exteriores, elevadores, galerias exteriores, galerias quase ruas e varandas de acesso.
. Privilegiar a variedade de espaços exteriores privativos (desde a varanda de assomar ao grande terraço ajardinado e ao pátio ou grande quintal térreo).
. Assumir cada nível e mesmo cada fogo com um equilibrado, mas afirmado, potencial de diversidade espacial e funcional, mas numa perspectiva que respeite a economia de custos.



Fig. 06: o multifamiliar é um campo muito amplo para uma inovação fundamentada e que, de facto, proporcione um grande leque de opções de "como viver", de "como habitar"; e neste conjunto em Hamburgo projectados pelos Arq.os Czerner und Czerner (2001), de certa forma avançou-se na geminação de dois edifícios através da cobertura e extenso equipamento residencial (ex., mesas e cadeiras, e até sofás) do respectivo espaço intermediário.

 

UNIFAMILIARES INOVADORES

A inovação no unifamiliar liga-se essencialmente a quatro aspectos organizativos gerais:
(i) A forma de agregação dos fogos; pois afinal o limite será a imaginação do projectista e a fronteira de custos.
(ii) Os serviços e equipamentos comuns que sejam eventualmente disponibilizados; pois não é por se tratar de uma solução unifamiliar que não pode ser associada, por exemplo, a um completo e funcionalmente diversificado pólo convivial e de equipamentos de vizinhança; e esta é uma condição pouco interiorizada embora se refira a uma situaão possível e muito adequada, designadamente, às características da promoção cooperativa (há exemplos funcionais em Portugal).
Nesta perspectiva há que salientar o interesse que tem, por exemplo, a aliança entre um conjunto coeso de pequenos unifamiliares térreos e um pólo de equipamentos de vizinhança funcionalmente diversificado; e atente-se na adequação que uma tal solução oferece, por exemplo, para uma vizinhança de casais de isosos e idosos que vivam sozinhos, que, assim, de certa forma possam finalmente concretizar um eventual sonho de uma “casa” relativamente isolada, ganhando, simultaneamente, um funcional leque de serviços e de espaços comuns (onde por exemplo poderão fazer, com facilidade, festas e reuniões famíliares).
(iii) A expressiva grande diversidade de soluções de desenvolvimento de espaços privados interiores, exteriores e de transição exterior/interior que são possíveis; naturalmente a liberdade a este nível organizativo é muito maior do que no multifamiliar e muita dessa liberdade nem corresponderá a críticos aumentos de custo.


Nota final editorial: este artigo constitui a reedição revista do artigo Infohabitar n.º 169, editado em 16 de Novembro de 2007.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XV, n.º 703

Xxxx e qualidade arquitectónica interior – Infohabitar 703


Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
Arquitecto/ESBAL, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no LNEC –
Laboratório Nacional de Engenharia Civil, em Lisboa



Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).