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terça-feira, setembro 08, 2020

Inovar nos espaços exteriores privados – Infohabitar # 746

Ligação direta (clicar) para:  725 Artigos Interactivos, edição revista, ilustrada e comentada - 38 temas e mais de 100 autores.


Infohabitar, Ano XVI, n.º 746

Edição: terça-feira, 8 de setembro de 2020

 

Caros leitores da Infohabitar,

Continuando em um dos temas “centrais” da nossa revista: os espaços do habitar, vamos aprofundando, semana a semana, esta matéria, neste caso no âmbito dos espaços exteriores privados, matéria esta cuja importância esteve e está tão evidenciada em virtude do confinamento doméstico a que estivemos e ainda, em parte, estamos “obrigados”, no sentido de se procurar reduzir e, se possível, ajudar a estancar, a pandemia que sofremos.

Neste sentido, na presente semana iremos, “apenas”, iniciar uma reflexão sobrte a importância da inovaçãoo na conceção dos espaços exteriores privados.

E aproveita-se a oportunidade para voltar a sublinhar a importância que continua a ter o distanciamento social, conseguido sempre que possível através do teletrabalho e todas as medidas de proteção própria e dos outros, que são muito favorecidas com o uso sistemático, maximizado e cuidadoso de máscara e a continuidade dos cuidados de higiene.

Esta renovada viagem pelos espaços do habitar está a ser e continuará a ser feita, nas próximas semanas.

Lembra-se, finalmente, que serão sempre muito bem-vindas eventuais ideias comentadas a propósito dos artigos aqui editados e propostas de novos artigos (a enviar para abc.infohabitar@gmail.com ao meu cuidado),

despeço-me, até à próxima semana, com saudações calorosas e desejos de muita força e de boa saúde,    

Lisboa, Encarnação, em 7 de setembro de 2020

António Baptista Coelho

Editor da Infohabitar

 

Inovar nos espaços exteriores privados Infohabitar # 746

António Baptista Coelho

Textos e fotografias


 

Introdução sobre a inovação no exterior privado

Nos últimos artigos já se abordaram muitos aspectos associados a esta matéria dos novos caminhos no desenvolvimento de espaços exteriores privativos.

Importa, no entanto, fazer aqui mais algumas notas específicas para algumas matérias que estão actualmente na primeira linha da atenção pública e por isso iremos comentar, brevemente, alguns aspectos que articulam o desenvolvimento de espaços exteriores privados diversificados, multiformes e multifuncionais com as temáticas que se julgam bem atuais, da pormenorização da densificação urbana, da intensificação da naturalização do espaço urbano e da integração doméstica de marquises/estufas – matérias estas abordadas no livro do LNEC, intitulado “Do bairro e da vizinhança à habitação”.


Brevíssimas notas sobre o pátio residencial

Segundo Claude Lamure, o pátio faz aumentar a densidade e a intimidade do habitat unifamiliar proporcionando uma utilização múltipla (desde trabalhos ligados ao serviço doméstico, até horticultura e jardinagem limitadas e funções de estar e recreio); segundo o autor, as respectivas áreas mínimas variam entre 30 e 40m², devendo crescer sensivelmente nas habitações com maior número de quartos, caso contrário, defende o autor, produzem-se conflitos entre recreio de crianças e outras actividades (1).

Podemos e devemos ampliar esta reflexão sobre a integração de pátios residenciais considerando-os no quadro de edifícios multifamiliares de baixa e mesmo média altura, formalmente bem desenvolvidos, designadamente, no sentido de se ampliar e reforçar visualmente a relação destes edifícios com o solo envolvente e fazendo com que tais pátios possam servir pisos térreos e mesmo pisos em 1.º andar e reconsiderando, mesmo, o seu dimensionamento e as suas características de vedação.

Os resultados atingidos teráo a ver com imagens conjugadas de pátios, terraços e balcões fundos, promovendo-se, quer uma aparente redução de escala dos respetivos edifícios – que ficarão muito mais associados à escala humana – quer uma sua habilitação para um leque de atividades muito mais amplo do que aquele habitualmente possível em multifamiliares.


Fig. 01:  pátio privado de habitação unifamiliar e/ou de habitação integrada em piso térreo de edifício multifamiliar; neste caso a opção por vedações altas em madeira proporciona proteção de vistas e um ambiente exterior expressivamente naturalizado - exterior de habitações do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Henrik Haremst.

Exterior privado construindo exterior público aliciante

O estar exterior exige, simultaneamente, insolação, abrigo dos ventos dominantes e uma ponderada e graduável intimidade ; devidamente ponderada, porque, por exemplo, os idosos apreciam, por vezes, vistas diretas sobre atividades e boa perceção de alguma animação no exterior de uso público.

A graduação da intimidade pode realizar-se, simplesmente, pela opção entre diferentes tipos e alturas de vedações, desde que com imagens públicas prévia e adequadamente coordenadas em termos de imagem urbana; diferentes tipos de sebes e de vedações podem proporcionar essas condições, para além de estimularem o convívio natural entre vizinhos ocupados na sua manutenção.

Um outro processo simples de se conseguir essa diferenciação é a existência de uma marcada diferença de nível entre o espaço público e os terraços ou pátios privados contíguos; num jogo de níveis/desníveis que pode ser bem aproveitado pelo desenvolvimento de tipologias residenciais intermédias – entre edifícios uni e multifamiliares –, que proporcionem a maximização do contato direto entre margens de espaços privados (interiores, exteriores e de relação interior/exterior) e espaços exteriores de uso público.

Naturalmente que um projecto urbano e habitacional densificado, designadamente, através de uma abundante introdução de balcões fundos, terraços, pátios e pequenos quintais privados, exige um extremo cuidado de pormenorização, sendo possíveis estimulantes misturas tipológicas uni e multifamiliares, assim como a conjugação entre diversas tipologias habitacionais nos mesmos edifícios; desde já se sublinha que tais opções de conceção só estarão ao alcance de uma arquitetura muito qualificada – caso contrário correremos muitos riscos –, mas são soluções extremamente aliciantes pela aliança que nos oferecem entre privacidade e apropriação de cada “mundo” privado – onde por exemplo se entre através de um pequeno pátio murado e privativo – e potenciais agregações densificadas e orgânicas ou racionalizadas de elevados números de habitações, num acentuar de um “mundo” público também muito estimulante e, potencialmente, muito diversificado.

E não podemos deixar de referir que tais opções de projeto acabam por se “aproximar”, pelo menos em termos visuais, das ideias que basearam a conceção dos primeiros núcleos urbanos, marcados por conjuntos imbricados de edificações e de espaços de uso público “entremeando-as”.


Exterior privado como verdadeira “segunda dimensão” da vivência residencial e doméstica

Esta consideração decorre de inúmeras reflexões que têm sido feitas nos últimos textos que abordam a importância do exterior privado, pois não tenhamos qualquer dúvida que a existência de um exterior privado verdadeiramente positivo e afirmado, bem concebido, visualmente atraente e multifuncionalmente apetecível, é um fator que qualifica uma dada habitação, proporcionando-lhe como que uma dupla “capacidade dimensional”, seja no apoio direto a atividades interiores e ao seu conforto ambiental, seja pelo propiciar de um leque específico de outras atividades, até, eventual e agradavelmente “paralelas” às mais interiores; e evidentemente que tal condição é tanto mais efetiva quanto mais adequadas forem as condições climáticas gerais e específicas desses exteriores privados, sendo que no nosso País temos excelentes condições de conforto ambiental exterior em muitas regiões e durante boa parte do ano.


Exterior privado e dinamização do convívio vicinal

Um aspeto que se considera ser de grande importância e que é, frequentemente, esquecido, refere-se à positiva influência que tem o desenvolvimento de assinaláveis continuidades de pequenos quintais, pátios e balcões privados, na promoção de condições propícias ao desenvolvimento do convívio vicinal em espaços de uso público contíguos a esses pequenos  espaços privados.

Tal possibilidade proporciona resultados bem interessantes, designadamente, no que se refere ao estímulo das relações vicinais e mesmo de um certo sentido e identidade local – por exemplo marcando espaços de uso público mas com sentido comunitário e vicinal contíguos aos espaços exteriores privados -, mas deve ser desenvolvida com grandes cuidados, seja no sentido da proteção de vistas pelo menos  em parte dos exteriores privados, seja no que se refere à maximizaçãoo do controlo visual dos usos nos respetivos exteriores públicos contíguos


Intensificação do exterior privado e reforço do verde urbano

Quanto ao potencial de intensa naturalização do espaço urbano, por introdução de multifacetados elementos de verde urbano, numa estratégia de fixação de carbono, amenização climática, redução de poluição, melhoria multifacetada do bem-estar e da saúde dos habitantes, apoio à apropriação dos diversos espaços e suavização do ambiente citadino, numa sintética referência às múltiplas vantagens do verde urbano, essa intensa naturalização encontra nos espaços exteriores privativos e comuns os seus locais de eleição, desde as estreitas jardinetas frontais, aos profundos quintais traseiros, às floreiras nas fachadas e às filas de vasos e floreiras em varandas, terraços e pátios; e isto para não falar nas coberturas “verdes”.

Tal como se apontou, há alguns anos, no livro do LNEC intitulado “Do bairro e da vizinhança à habitação”, são muito variadas as formas que podem assumir as plantas nos edifícios (ex., floreiras mais ou menos salientes, pequenos jardins de cobertura, trepadeiras, vasos evidenciados, caramanchões, pérgulas protegendo zonas exteriores, etc.), e, naturalmente, os respectivos conteúdos de expressão, que contribuem para as imagens gerais dos edifícios onde se integram, são, pelo menos tão variados e sempre muito ricos, porque relativamente livres (uma planta nunca é igual a outra, quanto muito é idêntica).

De certo esta matéria corresponde a uma composição de arquitetura urbana com duas variáveis básicas:

·      tipo de dispositivo de suporte da vegetação;

·      e características formais e vegetativas das plantas usadas.

Um interessante exemplo desta variedade de soluções é proporcionado pelas "floreiras interiores" ("internal closed window boxes") (2), que parecem ser capazes de produzir uma belíssima conjugação de planos contíguos, marcando a profundidade dos vãos; e uma atraente e estimulante sensação de continuidade entre verde “interior” e exterior.

Fig. 02: um projecto urbano e habitacional densificado, designadamente, através da introdução de pátios privados, exige um extremo cuidado de pormenorização, sendo possíveis estimulantes misturas tipológicas uni e multifamiliares; e neste caso uma rica pormenorização em termos de um verde “de uso público”, em boa parte assegurado pelo verde privado e com caraterísticas tridimensionais (superfícies de solo, superfícies de paredes e mesmo teto arbóreo) - exterior de habitações do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Greger Dahlström.


O interesse da natureza no meio urbano

É muito interessante verificar o importante efeito bilateral que podem ter, com alguma facilidade, as floreiras que rematam espaços exteriores privados e elevados:

·      pelo lado privado, e ao nível das respectivas habitações, aumentam a segurança da varanda, "loggia" ou terraço e diminuem ou anulam possíveis efeitos de vertigem, para além de terem uma imagem envolvente que simula a contiguidade com um jardim (nas vistas a partir do interior do fogo);

·      pelo lado público vicinal, fazem descer a vegetação sobre a rua, humanizando-a, em escala e em conteúdo residencial de proximidade;

·      enquanto pelo lado público com mais escala urbana podem caraterizar vizinhanças e pequenos bairros como marcadamente naturalizados;

·      e, globalmente, e em conjunto com os restantes elementos do verde urbano, contribuem para um adequado conforto ambiental nos espaços privados e públicos contíguos.

Tal como refere Cliff Tandy (3) "as plantas de interior (e as situadas no limiar exterior/interior) têm as seguintes funções: relacionar espaços interiores; ligar espaços interiores e exteriores; proporcionar privacidade, filtros e barreiras visuais; demarcar fronteiras; e complementar ou contrastar, formal, textural e cromaticamente materiais, superfícies e objectos contíguos ou próximos."

Há, portanto, um enorme leque de soluções de integração do verde nos edifícios habitacionais e suas envolventes. Não é, evidentemente, “obrigatória” uma tal integração, e a sua ausência também é, por vezes, motivo de excelência urbana, mas não é possível fingir-se que não existem tais possibilidades e que uma tal integração do verde nos edifícios habitacionais e suas envolventes tem inúmeras vantagens, tal como acima se salientou.

Fig. 03: o interesse, privado e público, da natureza no meio urbano, uma matéria que tem muito a desenvolver  - exterior de habitações do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Kai Wartiainem, Ingrid Reppen.


Varandas envidraçadas

Considerando, agora, o espaço “interior” doméstico, e apostando, agora, no aproveitamento de todas as opções possíveis em termos de espaço exterior/interior doméstico, abordam-se alguns dos bons aspetos que podem ser cumpridos por espaços de varanda envidraçados, evidentemente, bem planeadas como tal, ao nível do projeto inicial, talvez um pouco na tradição dos “jardins de Inverno”, embora a escala reduzida.

segundo Luc Bourdeau (4), a existência de uma varanda envidraçada profunda, concebida de raiz como estufa/solário, é um elemento que contribui para a poupança energética no aquecimento da habitação, durante o tempo frio, e além disto está provado que fomenta a criação de plantas em casa e, cumulativamente, proporciona a prática de diversas actividades (como por exemplo, tomar refeições, repousar, realizar passatempos, trabalhar), num espaço exterior/interior, e portanto, em agradável contacto com o exterior ambiental, paisagístico e urbano; e salienta-se, ainda, que uma parte significativa destas actividades continuam a ser praticadas também, na estufa/solário, durante o Inverno, garantindo-se, assim, uma continuidade de relacionamentos com o exterior.

Para o bom funcionamento das estufas/solários ao longo de todo o ano, considerando a sua contribuição para uma boa temperatura interior, é necessário que nelas existam vãos exteriores e dispositivos de sombreamento reguláveis, e que sejam mantidos vãos envidraçados e controláveis entre elas e os compartimentos contíguos; o que permitirá aos habitantes a escolha, diária, entre o aproveitamento do calor acumulado na estufa, ou o seu bloqueio nesse espaço, seguido de simples operações de ventilação que o rejeitem para o exterior.

Comenta-se, ainda, que esta opção de falar das varandas envidraçada ou estufas como espaços exteriores privativos é, naturalmente, discutível, pois elas são, exactamente, espaços de limiar e de transição entre exterior e interior.

Breves notas conclusivas

E conclui-se, neste conjunto de textos, esta matéria dos espaços exteriores privados, referindo-se que quem nunca teve o privilégio de habitar um jardim privado, ainda que pequeno, mas bem orientado e dimensionado, ou uma ampla varanda bem desenhada, dimensionada e orientada – recebendo o sol matinal e fresca ao final da tarde -, não sabe realmente as vantagens em termos de ambiente e de vivência que tais espaços do habitar nos proporcionam; uma matéria a desenvolver, sem dúvida, e que ficou, infelizmente, bem evidenciada com a crise que vivemos, designadamente, pela exigência de um confinamento doméstico, que é bem diferente quando tais espaços exteriores privados existem.

 

Notas

(1) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 210.

(2) Cliff Tandy (Ed.), "Handbook of Urban Landscape", p. 256.

(3) Cliff Tandy (Ed.), "Handbook of Urban Landscape", p. 252.

(4) Luc Bourdeau, "Satisfaction and Behavior of the Occupants of Buildings with Sunspaces, Influence on the Energy Savings", p. 107.


 

Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:

As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.

Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.

A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.

Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.

 

O presente artigo corresponde a uma edição ampliada, modificada e revista do artigo que foi editado na Infohabitar, em 20/03/2016, com o n.º 574.

 

 

Notas editoriais:

(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.

(ii) No mesmo sentido, de natural responsabilização dos autores dos artigos, a utilização de quaisquer elementos de ilustração dos mesmos artigos, como , por exemplo, fotografias, desenhos, gráficos, etc., é, igualmente, da exclusiva responsabilidade dos respetivos autores – que deverão referir as respetivas fontes e obter as necessárias autorizações.

(iii) Para se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Infohabitar, Ano XVI, n.º 746


Inovar nos espaços exteriores privados Infohabitar # 746


Infohabitar

Editor: António Baptista Coelho

Arquitecto/ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa –, doutor em Arquitectura/FAUP – Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto –, Investigador Principal com Habilitação em Arquitectura e Urbanismo no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em Lisboa.

 

abc.infohabitar@gmail.com

abc@lnec.pt

 

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE).

terça-feira, fevereiro 12, 2019

674 - Tipologia dos pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados - Infohabitar 674

Infohabitar, Ano XV, n.º 674
Tipologia dos pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados - Infohabitar 674
Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”
por António Baptista Coelho (texto e imagens)
Sobre uma habitação feita mais por sítios específicos do que por espaços ditos de/para actividades e funções domésticas.
Aproveitando para lembrar, entre outros autores Arquitectos, o grande Christopher Alexander e a sua incontornável “linguagem de padrões”, que tanto influenciou tanta gente e é tão poucas vezes citada ou referenciada, podemos referir que uma habitação, um mundo doméstico que, para o ser, tem de integrar, potencialmente, os vários mundos domésticos específicos dos respectivos habitantes, mais o respectivo agregado comum e convivial, muito mais do que um “simples” complexo funcional – e ainda assim o número de funções é extenso – deveria ser constituído e constituível por uma potencial e muito extensa diversidade de “cantos”, “recantos” e “sítios” adequados a uma enorme variedade de misturas funcionais e apropriações pessoais e de grupo específicas e dinâmicas.
Sobre a previsão destes tipo de “cantos”, “recantos” e “sítios”  domésticos, que são, em boa parte, os grandes responsáveis pela criação de um grande mundo pessoal e familiar, destacam-se alguns aspectos muito variados e, designadamente, de agradabilidade e de conforto ambiental, de adaptabilidade, de funcionalidade com sentido lato e de adequada, rica e apropriável pormenorização arquitectónica, que, em seguida, muito brevemente se apontam – não exaustivamente (trata-se de um texto naturalmente dinâmico).

Pequena tipologia dos pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados

Nota preliminar

Depois de se ter desenvolvido um quadro de caracterização e qualificação do que pode e deve ser a grande diversidade de pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados, considerando-se, designadamente, os seguintes aspectos:
. relação com as janelas domésticas,
. relação com as vistas,
. criatividade volumétrica e pormenorizada,
. usos reais,
. aspectos de segurança,
. relação com o conforto,
. relação com a natureza,
. relação com a acessibilidade,
. e equilíbrio de aéreas domésticas interiores e exteriores,
Avança-se, em seguida, para o que se pode designar como de uma pequena tipologia desses pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados, sublinhando-se alguns tipos mais correntes destes espaços e apontando-se, em cada caso, algumas das suas características consideradas mais significativas.

Fig. 01: importância dos espaços exteriores privados

Realidade e importância da grande diversidade tipológica dos pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados

Antes de avançar numa reflexão exploratória sobre o grande leque tipológico que caracteriza, de facto, a extensa família de pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados, importa referir:
(i) que esta diversidade é extremamente ampla e dificilmente “capturável” neste e em qualquer outro elenco tipológico, pois remete, basicamente, para a dimensão da criatividade do projecto e, portanto, para a fundamentada e potencialmente muito rica imaginação do respectivo projectista;
(ii) que esta mesma extensa e imaginativa diversidade, aplicada aos pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados, pode e deve ser elemento crucial e estruturador de uma grande variedade de tipologias de habitações, de edifícios habitacionais e mistos e mesmo de vizinhanças habitacionais e mistas;
(iii) que esta diversidade é ferramenta privilegiada no desenvolvimento de soluções de vizinhança próxima e de edifícios caracterizadamente privatizadas e/ou conviviais; e recomenda-se, vivamente, sibre esta matéria a consulta da essencial obra de Serge Chermayeff e Christopher Alexander, intitulada “Community and Privacy: Toward a New Architecture of Humanism”; onde fica evidenciado o papel dos pequenos e médios espaços privados exteriores na configuração volumétrica de tipologias de vizinhança, edicadas e de habitações bem marcadas por tais aspectos de comunidade/convívio e privacidade;
(iv) que esta diversidade tipos de pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados, assumindo o também referido potencial gerador de variadas tipologias de vizinhança, edifícios e fogos, o faça no fundamental respeito das melhores condições de integração local e de respeito e valorização da respectiva paisagem urbana e natural;
(v) e, finalmente, que este mesmo potencial de grande diversidade de tipos de pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados, se prolonga e é desmultiplicada por uma respectiva grande diversidade de espaços e elementos pormenorizados, sendo, globalmente, este grande potencial de diversidade – dimensional, visual, funcional, etc. – no desenvolvimento de  exteriores e interiores/exteriores privados, elemento fulcral da capacidade de apropriação que cada habitação pode e deve proporcionar aos seus habitantes específicos e mesmo a grupos de habitantes agregados em vizinhanças específicas e bem caracterizadas.

Fig. 02: variedade de espaços exteriores privados

Proposta introdutória para uma pequena tipologia dos pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados (os títulos optados no texto são seguidos das suas designações mais correntes)

Sítios-floreira

Floreiras

Provavelmente, a menor tipologia que pode ser considerada como integrando esta família dos pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados, é a que poderá designar-se como “sítios-floreira”; espaços mínima ou razoavelmente dimensionados e pormenorizados no sentido de poderem integrar plantas, directamente, ou em vasos.
Os sítios-floreira têm, naturalmente, inúmeras configurações, mas, quando adequadamente projectados, integrando a imagem pública dos respectivos edifícios, são, sempre, elementos muito enriquecedores dessa imagem, gerando-se, frequentemente, soluções com expressivo carácter doméstico e/ou de integração entre natureza e edifício/construção.
Frequentemente os sítios-floreira associam-se aos sítios-varanda e aos sítios-alpendre na criação e configuração pormenorizada de várias subzonas de estar e com diversas funcionalidades; sendo, ainda, elementos protagonistas e muito expressivos nas respectivas imagens exteriores conjuntas.
Aspectos fundamentais e que têm de estar sempre presentes na concepção destes “sítios-floreira” são: a sua funcionalidade em termos do crescimento de plantas; a sua adequada impermeabilização, tendo em conta as regas frequentes; e a segurança contra queda no uso/manutenção corrente das plantas aí existentes – aspectos estes que condicionam totalmente a sua viabilidade.  



Fig. 03: variedade de tipos de varandas.

Sítios-varanda

Varandas

Os sítios-varanda para o serem ou são pequenos espaços, pouco mais do que janelas de sacada onde se pode ir lá fora, por exemplo para ver a rua, em plenitude, ou então devem ser sítios onde se pode estar sentado, em sossego e a conviver; espaços intermediários entre estas duas situações-limite e onde não é possível "estar" são realmente pouco úteis.
Os sítios-varanda podem ter inúmeras configurações, sendo estas, estruturantes das respectivas soluções domésticas e edificadas, quando estamos a considerar uma adequada solução de Arquitectura; pois nunca será de mais sublinhar que uma varanda não é um “adereço” que se junta ao projecto do edifício, é algo que o integra plenamente e que pode ser, mesmo, elemento fundamental da sua caracterização pública.
Globalmente e como é bem sabido há duas grandes “famílias” de varandas: as mais abertas e talvez possamos dizer convexas e abertas à paisagem, porque nela entrando; e as mais fechadas e talvez possamos dizer côncavas e “retiradas” da paisagem, porque entrando no corpo do edifício, habitualmente designadas de “balcões”; isto, embora, esta designação de “balcão”, também se possa referir a um tratamento mais aberto ou mais fechado da relação/separação entre o espaço habitável da varanda e o espaço “vazio”/paisagístico que lhe é contíguo.
Os usos possíveis das varandas são múltiplos, mas naturalmente favorecendo o estar e o lazer no exterior ou em espaços de transição interior/exterior; e mesmo as questões de conforto ambiental poderão ter adequado tratamento, caso se opte por uma adequada valorização de um uso intenso e prolongado do exterior doméstico proporcionado pelas varandas.
Um aspecto frequentemente mal considerado no desenvolvimento de varandas domésticas, refere-se à respectiva solução de fenestração não permitindo adequadas condições de uso integrado da varanda e do compartimento doméstico contíguo.
Outro aspecto frequentemente mal considerado no desenvolvimento de varandas domésticas, refere-se à sua reduzida contribuição para o conforto ambiental da respectiva habitação (ex., ventilação natural, sombreamento, aproveitamento solar passivo, etc.)
Ainda outro aspecto que é muito sensível no desenvolvimento de varandas domésticas, refere-se à sua frequente vandalização, através de instalação de marquises inexistentes no projecto original e, por regra, aplicadas sem qualquer harmonização em cada edifício e, também por regra, totalmente dissonantes e destruidoras da respectiva imagem pública.  
Finalmente e rematando esta pequena reflexão sobre os sítios-varanda sublinha-se a essencial/vital questão da solução de relação/separação entre o espaço habitável da varanda e o espaço “vazio”/paisagístico que lhe é contíguo, em termos de segurança contra quedas, designadamente, de crianças; uma matéria que se liga, designadamente, com a configuração pormenorizada de guardas (ex., altura, espaçamento de elementos verticais, ausência de elementos que possibilitem o escalamento, etc.) e que exige atenção específica e urgente.
Mas esta matéria dos sítios-varanda é, naturalmente, merecedora de outros desenvolvimentos.

Sítios-jardim de Inverno

Jardim de Inverno

Os sítios-jardim de Inverno correspondem, essencialmente, ao que tem de ser um adequado desenvolvimento, de raiz, de grandes marquises envidraçadas e bem estruturadas em termos de ventilação natural e protecção da radiação solar, de modo a que para além de proporcionarem a criação de pequenos jardins de Inverno, muito adequados a diversas actividades domésticas possam ser utilizadas numa estratégia de aproveitamento passivo da energia solar, em termos da climatização da restante habitação, considerando as condições de conforto de Verão e de Inverno.

Sítios-alpendre

Alpendres

Os sítios-alpendre correspondem, habitualmente, aos espaços que poderiam ser de amplas varandas, mas prolongando ou sequenciando os espaços domésticos térreos de edifícios unifamiliares.
Neste sentido eles integram, naturalmente, todos os conteúdos funcionais e imagéticos das grandes varandas domésticas e, designadamente, daquelas mais “profundas” e imbricadas na orgânica do respectivos lar, mas juntando-lhes factores de espaciosidade, adaptabilidade e liberdade de usos que se ligam à sua posição térrea e num espaço privado frequente e relativamente amplo, podendo haver, assim, aqui, integração de outros usos mais complexos de associar em varandas (ex., grelhadores, diversificados espaços de estar, etc.).
Um outro aspecto que importa ter em conta no adequado desenvolvimento dos sítios-alpendre é a sua relação ambivalente ou multilateral, tanto com o interior doméstico, como com a continuidade do espaço exterior privado; qualidade esta que é, habitualmente, garante de um adequado projecto global e que vive, naturalmente, tanto de aspectos globais de estruturação, como de uma adequada e sensível pormenorização.
Ainda um outro aspecto crucial no desenvolvimento dos sítios-alpendre é, naturalmente, o seu expressivo protagonismo na criação de excelentes espaços de transição entre interior e exterior.

Pequenos pátios interiores ou "poços" de luz natural

Pátios interiores

 Os pequenos pátios interiores ou "poços" de luz natural são elementos polarizadores e estratégicos na organização de uma habitação, levando luz natural inopinadamente a sítios onde ela não é expectável e criando verdadeiras atmosferas em que a respectiva interiorização é ainda acentuada por essas pontuais e marcantes presenças da realidade exterior; numa marcação que pode ser acentuada por plantas que povoem esses pequenos pátios interiores.
Mais do que lugares, estes pequenos pátios interiores criam lugares domésticos nas suas envolventes e por contraste nos compartimentos que pontuam e perfuram.

Sítios-pátio

Pátios

Os sítios-pátio, podem e devem ser verdadeiros compartimentos domésticos exteriores, plena e intensamente vividos durante boa parte do dia e do ano, proporcionando uma qualidade vivência únicas, seja nos seus próprios espaços, seja nas suas envolventes.
Podem ser mais ou menos naturalizados e pouco têm a ver com a sua posição no edifício pois podem integrar-se tanto junto ao nível térreo, estruturando e expandindo os respectivo embasamentos em zonas muradas e com acessos alternativos ao espaço público, como podem desenvolver-se nos pisos sobre este nível térreo em soluções muito encerradas ou parcilamente abertas em terraços, e também nos níveis superiores junto à cobertura.
Os sítios-pátio são elementos fundamentais na aproximação das habitações em edifícios multifamiliares a uma caracterização unifamiliar; associando-se vantagens de uma e outra tipologia e proporcionando-se grande diversidade de soluções edificadas formais e funcionais.
Podem por vezes caracterizar expressivamente tipologias densas e de baixa altura proporcionando como que uma geminação entre bandas edificadas e bandas de pátios expressivamente murados (muros altos e atraentes).

Sítios-jardim ou sítios-horta

Jardins e hortas

Os sítios-jardim podem ser considerados, quer como uma opção a desenvolver nos sítios-pátio, quer como soluções específicas de jardins privados marcando essencialmente as envolventes dos pisos térreos, ou, mediante condições especiais, em outros níveis dos edifícios.
Os sítios-jardim são também elementos fundamentais na aproximação das habitações em edifícios multifamiliares a uma caracterização unifamiliar; associando-se vantagens de uma e outra tipologia e proporcionando-se grande diversidade de soluções edificadas formais e funcionais.
Quanto aos jardins/hortas ou mesmo a espaços exclusivamente dedicados à horticultura, importa considerar que a sua visibilidade pública deverá ser especialmente cuidada, em termos da sua localização e tipo de vedação, podendo optar-se, mesmo por muros ou outras vedações visualmente bem cuidadas e opacas até à altura da vista pedonal contígua; uma solução que procura equilibrar e reservar vistas sobre espaços hortícolas que poderão estar, frequentemente, com aparência menos agradável. No entanto pode haver mesmo interesse estratégico em proporcionar continuidades de vistas sobre sequências significativas de talhões de pequenas hortas com uso privado, constituindo estas vistas elementos protagonistas de desejáveis extensos percursos pedonais estruturadores de vizinhanças.

Sítios-arrumação

Arrumações

Os sítios-arrumação no exterior são, por um lado, frequentemente, responsáveis pela funcionalidade desse mesmo exterior, no sentido de lhe proporcionarem a arrumação rápida de uma grande diversidade de elementos de apoio ao recreio, lazer e a trabalhos vários (desde passatempos mais “sujos” aos frequentes trabalhos de jardinagem e horticultura); e, são, também, infeliz e frequentemente, responsáveis pelo desenvolvimento de imagens e ambientes muito desagradáveis, porque expressivamente desarrumados e tantas vezes dissonantes, isto sempre que não há o cuidado de assegurar uma prévia e adequada harmonização das suas arquitecturas pormenorizadas – que podem ter, frequentemente, um carácter relativamente provisório (ex., construções em madeira), mas que nem por isso devem deixar de ser marcadas por uma adequada integração e dignidade de imagens.    

“Sítios-porta” e “sítios-vedação”

Portas e vedações

Talvez não fosse necessário fazer, aqui, esta referência específica aos “sítios-porta” e aos “sítios-vedação”, quando se aborda esta matéria dos pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados, isto porque a respectiva pormenorização deveria ser algo extremamente cuidado no respectivo projecto de arquitectura.
No entanto, porque tal por vezes não acontece, dando-se um pouco a ideia (errada) que é matéria pouco importante para ser adequadamente considerada, aqui se regista esta necessidade, lembrando-se que a sua boa e bem pormenorizada Arquitectura será responsável por grande parte do impacto visual térreo, diariamente sentido pelos respectivos habitantes, e lembrando-se, ainda, que há aqui que harmonizar aspectos expressivamente distintos e, portanto complexos na sua integração, como são as questões de: segurança, vista exterior mais pública, vista interior mais doméstica, privacidade em determinadas zonas e convivialidade noutras, aberturas visuais mais profundas ou mais fechadas do interior sobre o exterior, e relacionamentos entre natureza e interior doméstico.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XV, n.º 674
Tipologia dos pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados - Infohabitar 674
Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar,– Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

terça-feira, fevereiro 05, 2019

673 - Pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados - Infohabitar 673

Infohabitar, Ano XV, n.º 673
Pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados - Infohabitar 673
Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”

por António Baptista Coelho (texto e desenhos)
Sobre uma habitação feita mais por sítios específicos do que por espaços ditos de/para actividades e funções domésticas.
Aproveitando para lembrar, entre outros autores Arquitectos, o grande Christopher Alexander e a sua incontornável “linguagem de padrões”, que tanto influenciou tanta gente e é tão poucas vezes citada ou referenciada, podemos referir que uma habitação, um mundo doméstico que, para o ser, tem de integrar, potencialmente, os vários mundos domésticos específicos dos respectivos habitantes, mais o respectivo agregado comum e convivial, muito mais do que um “simples” complexo funcional – e ainda assim o número de funções é extenso – deveria ser constituído e constituível por uma potencial e muito extensa diversidade de “cantos”, “recantos” e “sítios” adequados a uma enorme variedade de misturas funcionais e apropriações pessoais e de grupo específicas e dinâmicas.
Sobre a previsão destes tipo de “cantos”, “recantos” e “sítios”  domésticos, que são, em boa parte, os grandes responsáveis pela criação de um grande mundo pessoal e familiar, destacam-se alguns aspectos muito variados e, designadamente, de agradabilidade e de conforto ambiental, de adaptabilidade, de funcionalidade com sentido lato e de adequada, rica e apropriável pormenorização arquitectónica, que, em seguida, muito brevemente se apontam – não exaustivamente (trata-se de um texto naturalmente dinâmico).

Sobre os pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados – considerações estruturantes

Antes de passar a alguns, pouco, comentários específicos sobre a caracterização e a importância que podem ter alguns tipos de espaços privados exteriores e de relação interior/exterior, numa adequada vivência dos nossos espaços domésticos pessoais e familiares, importa abordá-los, resumidamente, de uma forma geral e introdutória àqueles comentários.
Em primeiro lugar um aviso, talvez desnecessário mas sempre útil, que não se irão apontar aqui aspectos sistemáticos de projecto destes espaços, mas sim considerá-los numa perspectiva de concepção muito aberta e estimulante de boas e renovadas formas de habitar os nossos espaços domésticos, sendo que a primeiríssima consideração a registar é que estes tipos de espaços de fruição directa do exterior e de afirmada (física) relação com o interior doméstico, têm de se constituir em verdadeiros elementos estruturantes dos respectivos projectos de Arquitecturas, marcando seja o carácter/qualificação dos seus interiores, seja o carácter/imagem da sua face pública. E tudo o que seja menos do que isto não deve chegar, pois será sempre referido a colagens, mais ou menos, postiças de tais elementos/espaços nas fachadas dos edifícios e no prolongamento “automático” dos respectivos interiores contíguos.
Tal condição é essencial e está provada/garantida em múltiplos testemunhos de grandes Mestres Arquitectos, que a ela se referem, sublinhando, por vezes, que a própria essência da Arquitectura é o “jogo” de relações entre espaços e, designadamente, entre espaços interiores, exteriores e de transição/graduação ou de aberturas visuais mútuas.
Naturalmente que esta condição será tanto mais importante, quanto mais “liberta” de condicionantes envolventes e de agregação estiver a solução arquitectónica residencial, sendo básica, por exemplo, na concepção de moradias unifamiliares isoladas; mas ela é, também, fundamental mesmo, por exemplo, como bem sabemos, em grandes edifícios multifamiliares integrados em centros urbanos densos, que podem basear boa parte do seu carácter arquitectónico próprio/único no manejar da sua vertente de, eventuais, “cascatas”, mais ou menos naturalizadas de grandes varandas domésticas.


Fig. 01: interpretação livre do conjunto residencial da Cooperativa UGTimo, no Zambujal - projecto do Arq.º José Alves Bicho 

Oito aspectos de concepção a ter em conta no desenvolvimento de pequenos espaços exteriores privados

Para além da consideração básica que acabou de ser apontada, existem, pelo menos, oito “famílias” de aspectos, igualmente estruturantes da concepção de pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior, que importa aqui registar, de forma sintética: 

Exterior privado e janelas domésticas

Parece óbvio, mas tantas vezes excelentes pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior têm a sua presença muito menorizada por soluções de vãos pouco adequadas em termos de más influências na funcionalidade dos espaços contíguos, pormenorização visual inadequada, pouca segurança contra intrusões, etc.
E tal condição é extremamente crítica, por exemplo, quando, por exemplo, se desenvolvem, de raiz, varandas envidraçadas; cuja caracterização arquitectónica pode variar entre a excelência e a extrema dissonância, mercê de soluções de vãos bem diferentes na sua pormenorização.

As vistas no exterior privado

Desenvolver qualquer pequeno espaços doméstico privados exterior ou de transição interior/exterior, implica programar e assegurar as respectivas estratégias de vistas: sobre o exterior público; sobre o interior privado, a partir deste último e através do exterior privado, etc.
E mesmo que tais vistas não existam ou seja muito condicionadas, como é, por exemplo, o caso de um pequeno pátio privativo, tais vistas têm de ser consideradas e devidamente trabalhadas, neste caso, no sentido de se proporcionar um interessante sentido intimista e protegido.  

A criatividade volumétrica e pormenorizada no exterior privado

A matéria, acima apontada, do papel estruturante que os pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior assumem na concepção arquitectónica residência, liga-se a um aspecto, talvez mais “fino” na sua consideração, referido à grande criatividade volumétrica, multilateral e pormenorizadamente diversificada que pode e deve ser proporcionada por tais espaços.
Uma condição bem evidente na diferença que existe, por exemplo, entre varandas muito abertas e balcões expressivamente mais encerrados ou resguardados, e, naturalmente, entre a grande variedade que é possível seja entre varandas – desde a pequeníssima varanda apenas de assomar, à mais profunda e orgânica varanda/sala – e entre a expressiva diversidade tipológica e volumétrica que é possível no desenvolvimento de pequenos pátios privados, mais ou menos encerrados, mais ou menos tratados como pátio construído ou como pequeno jardim.

Usos reais do exterior privado

Evidentemente que condição de proporcionarem, ou não, usos reais, é marcante na caracterização e na adequada viabilidade dos pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior.
Talvez basta apontar que um uso real pode ser “apenas” o proporcionar a possibilidade de “colocar os pés na rua”, de “estar cá fora”, em pequeníssimas varandas de assomar. Mas o uso real pode ser, por exemplo, proporcionar um variado conjunto de funções de estar, lazer e elaboração e toma de refeições  numa ampla e bem equipada varanda/sala. Talvez o que não faça qualquer sentido são as situações dimensionalmente “neutras” e inadequadas que proporcionem um pouco mais de espaço para estar “cá fora” em pé e nada mais, designadamente, quando em quadros habitacionais com controlo de custos.

Exterior privado e relação com aspectos de segurança

Não sendo, talvez, aqui o sítio para o desenvolvimento desta essencial matéria, que obriga a uma atenção específica e desenvolvida, não faria sentido não registar e sublinhar que a concepção global e pormenorizada dos espaços, equipamentos, elementos de pormenorização e soluções de manutenção dos pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior têm de cumprir exigentes condições de segurança no uso, designadamente, em espaços elevados e no que se refere ao risco de queda dos habitantes, com natural destaque para crianças e idosos.
Outro aspecto de segurança a considerar tem a ver com a defesa relativamente a intrusões em espaços exteriores privados térreos ou próximos do nível térreo, pois, não existindo tais condições, originam-se, frequentemente, iniciativas dos habitantes procurando solucionar esta situação, frequentemente inadequadas em termos funcionais e de imagem pública.

Exterior privado e relação com o conforto

Naturalmente que o desenvolvimento de pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior só faz sentido quando a respectiva orientação solar e eólica lhes proporcione adequadas condições de conforto ambiental; sendo que as respectivas condições de pormenorização poderão apoiar tais condições, designadamente, no seu controlo ao longo do dia e no decorrer das estações do ano.

Exterior privado e relação com a natureza

Evidentemente que os pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior são locais estratégicos de integração de elementos naturais em soluções muito diversificadas e perfeitamente integradas na solução arquitectónica global, conseguindo-se efeitos globais muito interessantes, por sequências de imagens, com dois sentidos, entre verde público e verde privado e obtendo-se um muito importante factor de apropriação residencial e doméstica, através de um verde privado que cada morador poderá “manejar” e recriar a seu gosto.

Exterior privado, relação com a acessibilidade e caracterização tipológica

Um aspecto de grande interesse na geração de variadas tipologias de edifícios residenciais de baixa altura e/ou de transição entre o uni e o multifamiliar e, também, de importante relação com variados gostos e hábitos residenciais refere-se à possibilidade de pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior proporcionarem acessos directos (devidamente controlados) entre os espaços privados e espaços públicos ou de uso público (ex., caminhos pedonais de vizinhança) ou entre espaços privados e espaços públicos (ex., galerias de acesso comum elevadas).

Fig. 02: interpretação livre de um conjunto residencial da Cooperativa COOHAFAL, Funchal, projecto coordenado pelo Arq.º João Francisco Caires.

Consideração complementar sobre o equilíbrio de aéreas domésticas interiores e exteriores

Tratando-se de uma matéria que, por si só, justificará cuidadosas reflexões, regista-se aqui, apenas, que não se considera poder-se concluir, basicamente, por uma tendência de anular os pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior, quando se desenvolvem habitações com áreas e custos controlados.
Considera-se que, pelas razões acima apontadas, o papel destes espaços é de grande importância na qualificação de uma adequada habitabilidade residencial, embora, naturalmente, existam situações onde, por exemplo, é preciso optar entre um interior um pouco menos exíguo e a disponibilização de uma varanda razoável. Mas há muitas soluções possíveis e importa sempre ter em conta que quando os edifícios são baixos e o exterior residencial público é agradável e convidativo, será possível reduzir “estrategicamente” o exterior privado.
Em próximas edições serão abordadas algumas tipologias de pequenos espaços domésticos privados exteriores ou de transição interior/exterior.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XV, n.º 673
Pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados - Infohabitar 673
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