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terça-feira, fevereiro 12, 2019

674 - Tipologia dos pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados - Infohabitar 674

Infohabitar, Ano XV, n.º 674
Tipologia dos pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados - Infohabitar 674
Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”
por António Baptista Coelho (texto e imagens)
Sobre uma habitação feita mais por sítios específicos do que por espaços ditos de/para actividades e funções domésticas.
Aproveitando para lembrar, entre outros autores Arquitectos, o grande Christopher Alexander e a sua incontornável “linguagem de padrões”, que tanto influenciou tanta gente e é tão poucas vezes citada ou referenciada, podemos referir que uma habitação, um mundo doméstico que, para o ser, tem de integrar, potencialmente, os vários mundos domésticos específicos dos respectivos habitantes, mais o respectivo agregado comum e convivial, muito mais do que um “simples” complexo funcional – e ainda assim o número de funções é extenso – deveria ser constituído e constituível por uma potencial e muito extensa diversidade de “cantos”, “recantos” e “sítios” adequados a uma enorme variedade de misturas funcionais e apropriações pessoais e de grupo específicas e dinâmicas.
Sobre a previsão destes tipo de “cantos”, “recantos” e “sítios”  domésticos, que são, em boa parte, os grandes responsáveis pela criação de um grande mundo pessoal e familiar, destacam-se alguns aspectos muito variados e, designadamente, de agradabilidade e de conforto ambiental, de adaptabilidade, de funcionalidade com sentido lato e de adequada, rica e apropriável pormenorização arquitectónica, que, em seguida, muito brevemente se apontam – não exaustivamente (trata-se de um texto naturalmente dinâmico).

Pequena tipologia dos pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados

Nota preliminar

Depois de se ter desenvolvido um quadro de caracterização e qualificação do que pode e deve ser a grande diversidade de pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados, considerando-se, designadamente, os seguintes aspectos:
. relação com as janelas domésticas,
. relação com as vistas,
. criatividade volumétrica e pormenorizada,
. usos reais,
. aspectos de segurança,
. relação com o conforto,
. relação com a natureza,
. relação com a acessibilidade,
. e equilíbrio de aéreas domésticas interiores e exteriores,
Avança-se, em seguida, para o que se pode designar como de uma pequena tipologia desses pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados, sublinhando-se alguns tipos mais correntes destes espaços e apontando-se, em cada caso, algumas das suas características consideradas mais significativas.

Fig. 01: importância dos espaços exteriores privados

Realidade e importância da grande diversidade tipológica dos pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados

Antes de avançar numa reflexão exploratória sobre o grande leque tipológico que caracteriza, de facto, a extensa família de pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados, importa referir:
(i) que esta diversidade é extremamente ampla e dificilmente “capturável” neste e em qualquer outro elenco tipológico, pois remete, basicamente, para a dimensão da criatividade do projecto e, portanto, para a fundamentada e potencialmente muito rica imaginação do respectivo projectista;
(ii) que esta mesma extensa e imaginativa diversidade, aplicada aos pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados, pode e deve ser elemento crucial e estruturador de uma grande variedade de tipologias de habitações, de edifícios habitacionais e mistos e mesmo de vizinhanças habitacionais e mistas;
(iii) que esta diversidade é ferramenta privilegiada no desenvolvimento de soluções de vizinhança próxima e de edifícios caracterizadamente privatizadas e/ou conviviais; e recomenda-se, vivamente, sibre esta matéria a consulta da essencial obra de Serge Chermayeff e Christopher Alexander, intitulada “Community and Privacy: Toward a New Architecture of Humanism”; onde fica evidenciado o papel dos pequenos e médios espaços privados exteriores na configuração volumétrica de tipologias de vizinhança, edicadas e de habitações bem marcadas por tais aspectos de comunidade/convívio e privacidade;
(iv) que esta diversidade tipos de pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados, assumindo o também referido potencial gerador de variadas tipologias de vizinhança, edifícios e fogos, o faça no fundamental respeito das melhores condições de integração local e de respeito e valorização da respectiva paisagem urbana e natural;
(v) e, finalmente, que este mesmo potencial de grande diversidade de tipos de pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados, se prolonga e é desmultiplicada por uma respectiva grande diversidade de espaços e elementos pormenorizados, sendo, globalmente, este grande potencial de diversidade – dimensional, visual, funcional, etc. – no desenvolvimento de  exteriores e interiores/exteriores privados, elemento fulcral da capacidade de apropriação que cada habitação pode e deve proporcionar aos seus habitantes específicos e mesmo a grupos de habitantes agregados em vizinhanças específicas e bem caracterizadas.

Fig. 02: variedade de espaços exteriores privados

Proposta introdutória para uma pequena tipologia dos pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados (os títulos optados no texto são seguidos das suas designações mais correntes)

Sítios-floreira

Floreiras

Provavelmente, a menor tipologia que pode ser considerada como integrando esta família dos pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados, é a que poderá designar-se como “sítios-floreira”; espaços mínima ou razoavelmente dimensionados e pormenorizados no sentido de poderem integrar plantas, directamente, ou em vasos.
Os sítios-floreira têm, naturalmente, inúmeras configurações, mas, quando adequadamente projectados, integrando a imagem pública dos respectivos edifícios, são, sempre, elementos muito enriquecedores dessa imagem, gerando-se, frequentemente, soluções com expressivo carácter doméstico e/ou de integração entre natureza e edifício/construção.
Frequentemente os sítios-floreira associam-se aos sítios-varanda e aos sítios-alpendre na criação e configuração pormenorizada de várias subzonas de estar e com diversas funcionalidades; sendo, ainda, elementos protagonistas e muito expressivos nas respectivas imagens exteriores conjuntas.
Aspectos fundamentais e que têm de estar sempre presentes na concepção destes “sítios-floreira” são: a sua funcionalidade em termos do crescimento de plantas; a sua adequada impermeabilização, tendo em conta as regas frequentes; e a segurança contra queda no uso/manutenção corrente das plantas aí existentes – aspectos estes que condicionam totalmente a sua viabilidade.  



Fig. 03: variedade de tipos de varandas.

Sítios-varanda

Varandas

Os sítios-varanda para o serem ou são pequenos espaços, pouco mais do que janelas de sacada onde se pode ir lá fora, por exemplo para ver a rua, em plenitude, ou então devem ser sítios onde se pode estar sentado, em sossego e a conviver; espaços intermediários entre estas duas situações-limite e onde não é possível "estar" são realmente pouco úteis.
Os sítios-varanda podem ter inúmeras configurações, sendo estas, estruturantes das respectivas soluções domésticas e edificadas, quando estamos a considerar uma adequada solução de Arquitectura; pois nunca será de mais sublinhar que uma varanda não é um “adereço” que se junta ao projecto do edifício, é algo que o integra plenamente e que pode ser, mesmo, elemento fundamental da sua caracterização pública.
Globalmente e como é bem sabido há duas grandes “famílias” de varandas: as mais abertas e talvez possamos dizer convexas e abertas à paisagem, porque nela entrando; e as mais fechadas e talvez possamos dizer côncavas e “retiradas” da paisagem, porque entrando no corpo do edifício, habitualmente designadas de “balcões”; isto, embora, esta designação de “balcão”, também se possa referir a um tratamento mais aberto ou mais fechado da relação/separação entre o espaço habitável da varanda e o espaço “vazio”/paisagístico que lhe é contíguo.
Os usos possíveis das varandas são múltiplos, mas naturalmente favorecendo o estar e o lazer no exterior ou em espaços de transição interior/exterior; e mesmo as questões de conforto ambiental poderão ter adequado tratamento, caso se opte por uma adequada valorização de um uso intenso e prolongado do exterior doméstico proporcionado pelas varandas.
Um aspecto frequentemente mal considerado no desenvolvimento de varandas domésticas, refere-se à respectiva solução de fenestração não permitindo adequadas condições de uso integrado da varanda e do compartimento doméstico contíguo.
Outro aspecto frequentemente mal considerado no desenvolvimento de varandas domésticas, refere-se à sua reduzida contribuição para o conforto ambiental da respectiva habitação (ex., ventilação natural, sombreamento, aproveitamento solar passivo, etc.)
Ainda outro aspecto que é muito sensível no desenvolvimento de varandas domésticas, refere-se à sua frequente vandalização, através de instalação de marquises inexistentes no projecto original e, por regra, aplicadas sem qualquer harmonização em cada edifício e, também por regra, totalmente dissonantes e destruidoras da respectiva imagem pública.  
Finalmente e rematando esta pequena reflexão sobre os sítios-varanda sublinha-se a essencial/vital questão da solução de relação/separação entre o espaço habitável da varanda e o espaço “vazio”/paisagístico que lhe é contíguo, em termos de segurança contra quedas, designadamente, de crianças; uma matéria que se liga, designadamente, com a configuração pormenorizada de guardas (ex., altura, espaçamento de elementos verticais, ausência de elementos que possibilitem o escalamento, etc.) e que exige atenção específica e urgente.
Mas esta matéria dos sítios-varanda é, naturalmente, merecedora de outros desenvolvimentos.

Sítios-jardim de Inverno

Jardim de Inverno

Os sítios-jardim de Inverno correspondem, essencialmente, ao que tem de ser um adequado desenvolvimento, de raiz, de grandes marquises envidraçadas e bem estruturadas em termos de ventilação natural e protecção da radiação solar, de modo a que para além de proporcionarem a criação de pequenos jardins de Inverno, muito adequados a diversas actividades domésticas possam ser utilizadas numa estratégia de aproveitamento passivo da energia solar, em termos da climatização da restante habitação, considerando as condições de conforto de Verão e de Inverno.

Sítios-alpendre

Alpendres

Os sítios-alpendre correspondem, habitualmente, aos espaços que poderiam ser de amplas varandas, mas prolongando ou sequenciando os espaços domésticos térreos de edifícios unifamiliares.
Neste sentido eles integram, naturalmente, todos os conteúdos funcionais e imagéticos das grandes varandas domésticas e, designadamente, daquelas mais “profundas” e imbricadas na orgânica do respectivos lar, mas juntando-lhes factores de espaciosidade, adaptabilidade e liberdade de usos que se ligam à sua posição térrea e num espaço privado frequente e relativamente amplo, podendo haver, assim, aqui, integração de outros usos mais complexos de associar em varandas (ex., grelhadores, diversificados espaços de estar, etc.).
Um outro aspecto que importa ter em conta no adequado desenvolvimento dos sítios-alpendre é a sua relação ambivalente ou multilateral, tanto com o interior doméstico, como com a continuidade do espaço exterior privado; qualidade esta que é, habitualmente, garante de um adequado projecto global e que vive, naturalmente, tanto de aspectos globais de estruturação, como de uma adequada e sensível pormenorização.
Ainda um outro aspecto crucial no desenvolvimento dos sítios-alpendre é, naturalmente, o seu expressivo protagonismo na criação de excelentes espaços de transição entre interior e exterior.

Pequenos pátios interiores ou "poços" de luz natural

Pátios interiores

 Os pequenos pátios interiores ou "poços" de luz natural são elementos polarizadores e estratégicos na organização de uma habitação, levando luz natural inopinadamente a sítios onde ela não é expectável e criando verdadeiras atmosferas em que a respectiva interiorização é ainda acentuada por essas pontuais e marcantes presenças da realidade exterior; numa marcação que pode ser acentuada por plantas que povoem esses pequenos pátios interiores.
Mais do que lugares, estes pequenos pátios interiores criam lugares domésticos nas suas envolventes e por contraste nos compartimentos que pontuam e perfuram.

Sítios-pátio

Pátios

Os sítios-pátio, podem e devem ser verdadeiros compartimentos domésticos exteriores, plena e intensamente vividos durante boa parte do dia e do ano, proporcionando uma qualidade vivência únicas, seja nos seus próprios espaços, seja nas suas envolventes.
Podem ser mais ou menos naturalizados e pouco têm a ver com a sua posição no edifício pois podem integrar-se tanto junto ao nível térreo, estruturando e expandindo os respectivo embasamentos em zonas muradas e com acessos alternativos ao espaço público, como podem desenvolver-se nos pisos sobre este nível térreo em soluções muito encerradas ou parcilamente abertas em terraços, e também nos níveis superiores junto à cobertura.
Os sítios-pátio são elementos fundamentais na aproximação das habitações em edifícios multifamiliares a uma caracterização unifamiliar; associando-se vantagens de uma e outra tipologia e proporcionando-se grande diversidade de soluções edificadas formais e funcionais.
Podem por vezes caracterizar expressivamente tipologias densas e de baixa altura proporcionando como que uma geminação entre bandas edificadas e bandas de pátios expressivamente murados (muros altos e atraentes).

Sítios-jardim ou sítios-horta

Jardins e hortas

Os sítios-jardim podem ser considerados, quer como uma opção a desenvolver nos sítios-pátio, quer como soluções específicas de jardins privados marcando essencialmente as envolventes dos pisos térreos, ou, mediante condições especiais, em outros níveis dos edifícios.
Os sítios-jardim são também elementos fundamentais na aproximação das habitações em edifícios multifamiliares a uma caracterização unifamiliar; associando-se vantagens de uma e outra tipologia e proporcionando-se grande diversidade de soluções edificadas formais e funcionais.
Quanto aos jardins/hortas ou mesmo a espaços exclusivamente dedicados à horticultura, importa considerar que a sua visibilidade pública deverá ser especialmente cuidada, em termos da sua localização e tipo de vedação, podendo optar-se, mesmo por muros ou outras vedações visualmente bem cuidadas e opacas até à altura da vista pedonal contígua; uma solução que procura equilibrar e reservar vistas sobre espaços hortícolas que poderão estar, frequentemente, com aparência menos agradável. No entanto pode haver mesmo interesse estratégico em proporcionar continuidades de vistas sobre sequências significativas de talhões de pequenas hortas com uso privado, constituindo estas vistas elementos protagonistas de desejáveis extensos percursos pedonais estruturadores de vizinhanças.

Sítios-arrumação

Arrumações

Os sítios-arrumação no exterior são, por um lado, frequentemente, responsáveis pela funcionalidade desse mesmo exterior, no sentido de lhe proporcionarem a arrumação rápida de uma grande diversidade de elementos de apoio ao recreio, lazer e a trabalhos vários (desde passatempos mais “sujos” aos frequentes trabalhos de jardinagem e horticultura); e, são, também, infeliz e frequentemente, responsáveis pelo desenvolvimento de imagens e ambientes muito desagradáveis, porque expressivamente desarrumados e tantas vezes dissonantes, isto sempre que não há o cuidado de assegurar uma prévia e adequada harmonização das suas arquitecturas pormenorizadas – que podem ter, frequentemente, um carácter relativamente provisório (ex., construções em madeira), mas que nem por isso devem deixar de ser marcadas por uma adequada integração e dignidade de imagens.    

“Sítios-porta” e “sítios-vedação”

Portas e vedações

Talvez não fosse necessário fazer, aqui, esta referência específica aos “sítios-porta” e aos “sítios-vedação”, quando se aborda esta matéria dos pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados, isto porque a respectiva pormenorização deveria ser algo extremamente cuidado no respectivo projecto de arquitectura.
No entanto, porque tal por vezes não acontece, dando-se um pouco a ideia (errada) que é matéria pouco importante para ser adequadamente considerada, aqui se regista esta necessidade, lembrando-se que a sua boa e bem pormenorizada Arquitectura será responsável por grande parte do impacto visual térreo, diariamente sentido pelos respectivos habitantes, e lembrando-se, ainda, que há aqui que harmonizar aspectos expressivamente distintos e, portanto complexos na sua integração, como são as questões de: segurança, vista exterior mais pública, vista interior mais doméstica, privacidade em determinadas zonas e convivialidade noutras, aberturas visuais mais profundas ou mais fechadas do interior sobre o exterior, e relacionamentos entre natureza e interior doméstico.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XV, n.º 674
Tipologia dos pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados - Infohabitar 674
Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar,– Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

domingo, junho 22, 2008

202 - OS JARDINS E O HABITAR (II) – artigo de António Baptista Coelho e textos da da London Tree Officers Association - Infohabitar 202

 - Infohabitar 202
Este constitui o segundo de uma série de artigos sobre jardins urbanos, uma série que se deseja longa, embora, naturalmente, não contínua, na sua sequência editorial.

Importa referir que esta série já estava há muito tempo na mente de muitos daqueles que têm cooperado nesta excelente aventura editorial, que é o Infohabitar, e que se pretende que ela seja partilhada por vários autores e por diversas perspectivas de abordagem à essencial importância dos pequenos e grandes jardins urbanos nas cidades de sempre e, especialmente, nas cidades de hoje.


Salienta-se, ainda, o grande interesse do documento da London Tree Officers Association, que se traduziu e comentou, sintética e informalmente neste artigo, e, desde já, se chama a atenção dos leitores para a consulta do excelente site desta organização, onde será possível ler o documento na sua versão original, assim como consultar outros documentos com muito interesse e oportunidade nestas temáticas.






Fig.01



OS JARDINS E O HABITAR (II)

– sobre as árvores protagonistas do jardim e da cidade; inclui uma tradução comentada de um documento da London Tree Officers Association, ltoa.org.uk


António Baptista Coelho



Este segundo artigo sobre os jardins urbanos tinha, “obrigatoriamente”, de ser desenvolvido em torno do tema da árvore, da árvore urbana, protagonista, quer no seu papel urbano específico, em que ombreia, praticamente, em sentido específico, com o edificado, em termos de escala e de imagem urbana, quer no seu múltiplo papel ambiental, paisagístico e económico. Mas esta especificação da matéria dos jardins urbanos não significa que, em futuros artigos desta série, este mesmo autor, ou outros autores, aqui no Infohabitar, não volte ao fundamental tema do enquadramento da importância e do papel do jardim urbano de hoje, na cidade de hoje.


Já no primeiro artigo desta série se citou Franco Purini, num texto (Franco Purini, "La Arquitectura Didactica" p. 151) em que este autor refere que "uma casa não é uma casa se um jardim, verdadeiro ou imaginário, não a rodeia ou a penetra. Sempre a casa e a terra: a casa como terra. Na fragilidade da erva esconde-se a mesma lei que assegura a força da viga de madeira. Os mesmos elementos formam o pó e a pedra. O jardim é, então, a paisagem de qualquer casa: paisagem interior, no miolo cerrado dos tecidos urbanos, paisagem verdadeira na vastidão do campo".





Fig. 02


Ora, imagine-se que em vez de “casa” se escreve “cidade”, e então teríamos, uma ideia como esta: uma cidade não é uma verdadeira cidade sem jardins, verdadeiros ou imaginários, que a rodeiam e a penetrem, sempre a cidade habitada também como terra, porque “na fragilidade da erva esconde-se a mesma lei que assegura a força da viga de madeira”, porque “os mesmos elementos formam o pó e a pedra”, e, assim o jardim urbano poderá ser paisagem de qualquer cidade, uma paisagem mais interior, “no miolo cerrado dos tecidos urbanos”, como disse Purini, e/ou “paisagem verdadeira na vastidão do campo", como também ele referiu.


E visualizemos onde toda esta força do jardim urbano tem o seu principal núcleo, o seu principal protagonista, e ninguém terá qualquer dúvida que a resposta é a árvore (urbana), a “floresta” que se tornou urbana, e uma força serena que se sente mesmo, por ausência premeditada, naquelas zonas de jardins sem árvores e naqueles espaços urbanos, quase sem árvores, onde a natureza se resume em pequenas floreiras em janelas e em algumas laranjeiras, que como pequenos oásis, sempre inesperados e sempre bem-vindos.


A árvore é, não só, um verdadeiro jardim vertical e concentrado, o que corresponde a um elemento estratégico no ordenamento das cidades sempre “sem espaço” para aquilo que, realmente, é preciso, um verdadeiro jardim vertical sempre sede de biodiversidade e de amenização ambiental, mas a árvore é sempre, também, um efectivo elemento formal de “desenho” da paisagem urbana, veículo de escala humana e de suavização e de agradável contraponto com a escala e a expressão do edificado.


Mas para se jogar em duas dimensões citadinas tão importantes, como são a ambiental/microclimática e do “bom desenho” da paisagem urbana, é preciso saber-se trabalhar, realmente, com tais dimensões, não são, realmente, “coisas”, para curiosos, e entende-se isto quando vivemos, por exemplo, boas ruas arborizadas e cidades marcadas, humanizadas e ambientalmente suavizadas por excelentes parque urbanos intensa e agradavelmente arborizados, como acontece no excelente exemplo das Caldas da Rainha.






Fig. 03


E não é demais interiorizar a importância que têm e terão essas duas dimensões no actual e futuro movimento das megacidades, movimento este ao qual se terá, urgentemente, de associar um importante movimento de recriação dos ambientes naturais, de forma intensificada e concentrada, pontuando essas mega-malhas urbanas e proporcionando que nelas continuemos a ter um vital contacto com a nossa origem natural.


Hoje em dia, a falta de espaço bem localizado e o custo implicado pela construção e manutenção de um jardim poderá levar ao desenvolvimento de espaços que recuperam características passadas, como é o caso do sentido de encerramento exterior e de profusão de dados sensoriais naturais que tanta falta fazem a pessoas muito desenraizadas da natureza.


Realmente, trata-se de produzir o máximo efeito num espaço limitado e para isso já existem caminhos abertos e exemplos concretos, como é o caso dos jardins desenhados, no Brasil, por Burle Marx, inspirados na pintura e na botânica moderna, desenvolvidos considerando vários pontos de vista, a clarificação de planos simples e linhas sóbrias e a diluição dos limites (aparentando um espaço sem fim, numa zona restrita), sendo os usos definidos para cada reduzida porção de espaço, escultoricamente organizada.






Fig. 04


E em Lisboa, por exemplo, entre outros, infelizmente, poucos casos a referir positivamente, temos o excepcional exemplo dos Jardins da Gulbenkian, na sua perspectiva de oferta de pequenas viagens por bosques variados e densos, para nos dar a saborear o interesse que hoje tem, e que sempre teve, o contacto íntimo com a natureza bem dentro da cidade densa; e neste efeito de “bosque” cerrado e misterioso é, naturalmente, fundamental o papel das árvores e arbustos.


De certa forma é muito importante que as cidades de hoje ofereçam uma espécie de pequenos oásis de reconciliação ambiental, paisagística e formal com a natureza e, designadamente, com a floresta primordial, e nesta oferta os jardins urbanos, caracterizados por expressivas árvores “urbanas” são fundamentais elementos protagonistas.


Faz-se, em seguida, uma ampla citação e uma tradução informal e muito pouco comentada (cada tema é seguido de um breve comentário) sobre a multifacetada e fundamental importância das árvores, em textos retirados de um excelente folheto de divulgação disponibilizado pela London Tree Officers Association, ltoa.org.uk , cujo site vivamente se recomenda e onde é possível fazer o download de outros elementos com grande interesse como é o caso de um utilíssimo método de avaliação das árvores (Capital Asset Value for Amenity Trees, CAVAT), que integra os seguintes tipos de factores: valor básico (unitário e relativo ao tamanho); valor de localização e de usufruto (localização, população utente e acessibilidade); valor funcional; valor ajustado (factores ambientais positivos e negativos); e valor total associado a esperança de vida.

Desde já se sublinha que este Capital Asset Value for Amenity Trees é, realmente, um instrumento de trabalho de enorme valor pois equaciona numa perspectiva integrada de valor económico, social e cultural a presença das árvores, que, tantas vezes, são ainda tratadas, entre nós, como se fossem elementos que surgem instantaneamente num dado local, e como elementos que se tiram e põem com a simplicidade e a eventual leviandade que poderá caracterizar a instalação e a remoção de um painel publicitário ou de um terminal de Multibanco, e, realmente, para além de se tratar de algo vivo e único, é algo com história/tempo, que nunca se poderá, verdadeiramente, reconstituir e que para compensar exigirá, quase sempre, um muito complexo e pesado investimento.




Fig. 05


Quase-citando, assim, o excelente folheto da London Tree Officers Association as árvores têm os seguintes três grandes grupos de vantagens: relativas à saúde e ao de bem-estar; sociais e ambientais; e económicas.



Vantagens das árvores em termos de aspectos de saúde e de bem-estar:


As árvores reduzem risco de cancro na pele através do sombreamento em relação à radiação ultravioleta”; e hoje em dia esta problemática está bem na ordem do dia e se queremos estimular a circulação pedonal devemos proteger os peões.


Os níveis de stress e de doença são, frequentemente, mais baixos na presença de árvores, porque estas proporcionam descontracção psicológica e um sentido de bem-estar, suavizando o ambiente urbano”; este é um sentimento que sentimos, frequentemente, nos locais urbanos agradavelmente arborizados e que temos, por vezes, dificuldade em descrever e atenção para o grande interesse deste efeito, por exemplo, em zonas residenciais e onde se pretenda o desenvolvimento do lazer urbano.


“As árvores contribuem para níveis reduzidos de ruído e de poeiras”; ora é conhecida, por um lado, a importância que tem o sossego acústico na satisfação com o uso do espaço urbano e habitacional, assim como é também conhecida a má influência das poeiras no nosso bem-estar e saúde.


À medida que as árvores se desenvolvem e envelhecem elas proporcionam carácter e sentido de lugar e de permanência, enquanto libertam cheiros e aromas que provocam uma resposta emocional positiva”; temos aqui, fortemente, a matéria de que se faz boa parte dos bons projectos de arquitectura urbana e residencial, portanto, fica evidenciada a importância das árvores numa concepção arquitectónica com um amplo e verdadeiro sentido exigencial.


Vantagens das árvores em termos de influência no clima (“mudança climática) e microclima (clima local):


As árvores, para além de absorverem dióxido de carbono (o principal gás gerador do efeito de estufa), e de produzirem oxigénio, filtram, absorvem e reduzem os gases poluidores, incluindo o ozono, dióxido de enxofre, monóxido de carbono e dióxido de nitrogénio”; sendo assim, a conclusão que se impõe é que a plantação de novas árvores e o cuidar bem das que existem, globalmente, mas também especialmente nas grandes zonas urbanas, deveria ser uma das principais medidas na batalha pela melhoria ambiental do nosso planeta, até porque se a nossa sociedade é cada vez mais urbana há que reforçar urgentemente um equilíbrio global com mais elementos naturais, como são as árvores, e matizando, muito mais, as próprias zonas urbanas com verde urbano, no qual as árvores têm um papel protagonista.


As árvores trabalham todo o ano e continuamente para nós, suavizando, localmente, picos extremos de temperaturas – refrescando no Verão e aquecendo no Inverno”; trata-se, então, de um sinal de inteligência e de estratégia o utilizarmos, intensamente, um meio com tão grande capacidade de eficácia ambiental.


Árvores com copas grandes e de grandes folhas acolhem a chuva, amortecendo a progressão da água entre o céu e o solo, ajudando a reduzir o risco de enxurradas”; trata-se, novamente, de uma vantagem com evidentes e múltiplas consequências positivas em grandes meios urbanos, associando o referido papel de moderação ambiental com um directo papel em termos de melhoria da infraestruturação.




Vantagens das árvores em termos aspectos sociais e ambientais:


Pontos focais comunitários que incluam árvores proporcionam amenidade, valia estética e continuidade histórica”; as palavras falam por si, e todos sabemos que falam verdade, só que por vezes até parece que a história pouco vale nas nossas paisagens citadinas e rurais.


As árvores proporcionam, nas suas zonas de integração, um apreciável acréscimo de amenidades às famílias e às comunidades”; sempre assim foi, a floresta sempre foi geradora de variados meios e sempre o homem se fixou nas suas margens, gozando-a como riqueza intrínseca e como riqueza de paisagem.


As árvores marcam a mudança das estações do ano com alterações nas folhas e mudanças na floração”; e é fundamental que o ciclo das estações seja sentido por todos e especialmente pelos urbanitas, que por vezes tão longe estão dos ciclos naturais, e o próprio passar do tempo é também fundamental como percepção individual e social, e além de tudo isto há o espectáculo sensorial das estações e do tempo ameno ou das intempéries que tão directamente é sentido na companhia das árvores.


As árvores oferecem habitats para um amplo leque de espécies de vida bravia – pequenas e grandes – ao longo de todo o ano”; cada árvore, para além de ser uma pequena “fábrica” química positiva, produtora de oxigénio, como acima se lembrou, é também um pequeno mundo que alberga um amplo leque de elementos da flora e da fauna, as árvores são, assim, elementos fundamentais no apoio à biodiversidade, com uma utilidade que alia aspectos intrínsecos de manutenção das espécies, com aspectos igualmente importantes de espectáculo biológico oferecido aos urbanitas.



Vantagens das árvores em termos de aspectos económicos:


A presença de árvores pode fazer aumentar o valor de propriedades residenciais e comerciais entre 5% e 18%, enquanto o valor do terreno não infraestruturado, que integre árvores adultas, pode aumentar até cerca de 27%”; são números que fazem pensar, e talvez que nestes números esteja, espera-se, o princípio do fim de tantos crimes contra tantas velhas e excelentes árvores, e vale a pena pensarmos que estes números apenas concretizam aspectos de verdadeira valia paisagística local.


Quando as árvores são plantadas estrategicamente podem reduzir emissões de combustível fóssil, através da redução dos custos de combustível para aquecimento e arrefecimento dos edifícios”; sem comentários, mas é provavelmente uma das medidas ambientais mais fácil de implementar, desde que o seja com eficácia técnica ampla, pois também há sempre o risco de só se ver uma parte da verdade e começarmos a plantar árvores sem as enquadrar num adequado equilíbrio ambiental e paisagístico, que está ligado a cada região, a cada local e a cada microclima.


As árvores proporcionam a criação de emprego nos mais variados ramos de actividade (ex., jardinagem)”; trata-se de uma constatação evidente, mas podemos juntar que na jardinagem, por exemplo, é possível conciliar meios humanos muito qualificados com outros menos qualificados o que é também um excelente recurso social em termos de emprego e de ocupação.


As árvores proporcionam uma fonte sustentada de “composto”, feito de folhas, assim como biocombustível produzido de aparas de madeira”; é também uma afirmação que não precisa de comentários, mas tal como vãos as coisas, até parece muito racional que nenhuma via de racionalidade energética e de poupança de recursos deva ser esquecida, e esta é uma via que tem também uma importante visibilidade local em termos didácticos e de boas-práticas.





Fig. 06


Para concluir regista-se que não é, com certeza, por acaso, que algumas das maiores cidades do mundo, como Tóquio e Nova Iorque, se têm privilegiado a plantação e o cuidado no tratamento das grandes árvores urbanas, com um enfoque especial nas Ginkgo biloba, consideradas das mais velhas árvores que existem, daquelas que podem atingir maior longevidade e parece que daquelas que melhor se adaptam ao meio urbano poluído e melhor podem contribuir para a sua melhoria ambiental. Não é, com certeza, caso único, e nesta matéria é naturalmente fundamental estarmos com as “nossas” árvores, aquelas mais adaptadas aos nossos climas e microclimas e aquelas que, tradicionalmente, têm contribuído para a caracterização das nossas cidades, vilas e aldeias, mas é, sem dúvida, muito importante e urgente o desenvolvimento, aprofundamento e/ou divulgação de estudos desse género sobre as nossas árvores urbanas, assim como terminar, de vez, com o desrespeito para com a árvore, que ainda caracteriza muitas situações correntes na nossa sociedade.


E já há, felizmente, alguns bons sinais nestas matérias, aqui bem ilustrados com o muito recente transplante de algumas grandes árvores, na sequência das obras, em desenvolvimento, para a construção da nova estação de Metro da Encarnação, em Lisboa, de que se juntam, em seguida, duas imagens.






Fig. 07






Fig. 08


Editado por José Baptista Coelho

Lisboa, Encarnação – Olivais Norte
22 de Junho de 2008

segunda-feira, maio 12, 2008

196 - SOBRE OS JARDINS E O HABITAR (I) – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 196

 - Infohabitar 196


SOBRE OS JARDINS E O HABITAR (I)NOTAS INICIAIS E UM PRIMEIRO ENQUADRAMENTO

António Baptista Coelho

Este constitui o primeiro de uma série de artigos sobre jardins, uma série que se deseja longa, embora, naturalmente, não contínua, na sua sequência editorial.
Importa referir que esta série já estava há muito tempo na mente de muitos daqueles que têm cooperado nesta excelente aventura editorial, que é o Infohabitar, e que se pretende que ela seja partilhada por vários autores e por diversas perspectivas de abordagem à essencial importância dos pequenos e grandes jardins urbanos nas cidades de sempre e, especialmente, nas cidades de hoje.



Fig. 01: uma alameda do grande jardim urbano no centro das Caldas da Rainha.

Vamos, então, começar por algumas notas genéricas sobre a natureza do jardim e a natureza no jardim, passando, depois, para uma pequeníssima referência à sua história, considerando o jardim que é feito pelo homem e terminando este primeiro artigo sobre “os jardins e o habitar” com uma primeira perspectiva de leque tipológico.

Desde já se sublinha que em próximos artigos e para além de um sequencial desenvolvimento temático noutras matérias associadas ao tema do jardim e do habitar, iremos, muito provavelmente, retomar alguns destes aspectos de “história”, de natureza/carácter e de proposta tipológica, seja na sequência de outros articulistas, seja pela opção pela apresentação de alguns casos concretos, seja pela descoberta de outras fontes igualmente interessantes e geradoras de comentários específicos.

Também se avisam os especialistas na matéria que este e outros artigos que irei aqui desenvolver nesta matéria são textos realizados apenas por um amador de jardins urbanos, textos estes que, como verão, utilizam, frequentemente, a citação de verdadeiros especialistas e de teóricos do urbano e do habitar.

Dito isto dá vontade de afirmar, claramente, essa minha posição de amador de jardins urbanos, desde sempre, desde que tenho lembranças sobre passear na cidade ou nas beiras da cidade, desde então, sempre me lembro dos jardins, ainda que pequenos, ainda que plenos de “rodriguinhos”, ainda que sintetizados em filas de árvores, ainda que lembrados em vasos sobre peitoris e soleiras. E é engraçado esta associação que faço, afinal, entre espaço urbano e “jardim”, uma união que, provavelmente, tem a virtude de fazer realçar em partes do edificado e do natural o que de melhor elas têm em termos de imagens, de relações entre imagens, de pormenores humanizadores e de elementos conjuntamente protagonistas na criação de espaços de vida.



Fig. 02: um “jardim” numa varanda da Av. da Igreja em Lisboa.

Diz Purini que “o jardim é um tema censurado, e por muitas razões, pela moderna cultura arquitectónica... lugar do imprevisível, do fantástico, do mistério, o jardim representa a instabilidade e a contínua metamorfose do mundo (1) ..."; tenho a noção que realmente o jardim tem sido um pouco um tema censurado, talvez por isso mesmo, por ser “lugar do imprevisível, do fantástico, do mistério” numa sociedade que, acima de tudo, dá importância à estabilidade, ao conhecido, ao previsível, ao normalizado e ao que é corrente e inteiramente partilhado por todos em contínuas vagas de consumo, e, além disto, o jardim é realmente o espaço nuclear que pode caracterizar os espaços urbanos do vagar, da introspecção, do diálogo calmo e da observação da natureza numa sociedade em que o tempo de cada dia não chega, frequentemente, nem só para aquelas actividades consideradas essenciais.

Tal como refere Sidónio Pardal (2), os jardins urbanos começaram por ser espaços de encontro social e elementos representativos da cidade, mas hoje em dia eles respondem também a outras necessidades, entre as quais se destaca o contacto com a natureza, que é proporcionado a citadinos bem enraizados e habitando, frequentemente, edifícios em altura (que são reinos de interioridade).

O jardim deve, assim, responder a essa ausência de contactos naturais, proporcionando frequentes possibilidades de uso (porque estando próximos das habitações), em condições básicas de sossego e quietude.



Fig. 03: o jardim e a quietude; simbolizado por um conjunto escultórico do grande jardim urbano no centro das Caldas da Rainha

E antes de fazer aqui uma primeira brevíssima incursão pela história dos jardins gostaria de salientar, exactamente, a importância que os jardins têm e podem ter – muito mais se forem adequadamente disponibilizados – na oferta dessas condições, verdadeiramente “básicas” de sossego e de quietude, considerando a nossa sociedade actual do desassossego e da inquietação, e ainda a partir do mesmo comentário de Sidónio Pardal, nesta caso sobre a importância do jardim como contacto com a natureza proporcionado aos citadinos, uma natureza que se caracteriza naturalmente por essa quietude, que praticamente nos envolve e nos protege de um tecido urbano que, por vezes, está ali a “rugir” a dois passos do sítio onde estamos, sob a copa das árvores, quero aqui contar uma pequeníssima história passada comigo há cerca de 45 anos, mais ano menos ano.

Vivi, então, no Barreiro durante talvez um par de anos, quando muito, trata-se de uma das minhas primeiras colecções de memórias, e portanto não poderei precisar melhor a duração dessa vivência, no entanto, sei que vivia numa rua urbana com forte continuidade no centro mais antigo do Barreiro, num rés-do-chão que ele próprio tinha um pequeno jardim, isto é um estreito canteiro de sardinheiras, julgo, que rodeava um pequeno espaço cimentado, talvez com 4x3m: mas era um jardim óptimo para brincar sempre que não chovia ou estava frio demais.

Mas este jardim quase nada era comparado com o “parque” que existia talvez a 100 metros da porta do prédio e que era “o jardim” do Barreiro de então. Digo “o parque” porque se tratava de um sítio que sempre que lá ia me espantava e me deliciava pela sua dimensão, diversidade de arbustos e árvores e outros efeitos fantásticos como uma ponte sobre um lago onde julgo que havia peixes. Não quero aqui alargar-me nestas considerações para ser o mais possível fiel a uma memória já muito longínqua, mas quero aqui afiançar que a ideia que tenho daquele sítio, é que era um sítio maravilhoso e que parecia não ter fim, até porque de cada vez que lá ia via coisas novas.

Dá para lembrar o que disse Purini sobre o jardim como lugar do imprevisível, do fantástico, do mistério e da contínua metamorfose do mundo. E já agora vos digo que, quando voltei ao Barreiro passados talvez vinte anos e fui até ao “parque” não quis realmente acreditar que ele pudesse ser tão pequeno, como era; mas afinal, para mim e para todas as outras crianças que nele andaram e andam, ele foi, realmente, um grande e estimulante mundo do fantástico, da descoberta e também da tal quietude, que serve bem o soltar da imaginação bem no interior de um meio urbano.



Fig. 04: o Jardim da Gulbenkian, em Lisboa, também parece sempre muito maior do que é, verdadeiramente, e a recente intervenção de Gonçalo Ribeiro Telles ainda o tornou “maior”.

E Purini oferece-nos uma excelente síntese sobre a importância e a caracterização/natureza da relação entre o jardim e o habitar ou o habitar e o jardim, julgo ser a ordem arbitrária: "Uma casa não é uma casa se um jardim, verdadeiro ou imaginário, não a rodeia ou a penetra. Sempre a casa e a terra: a casa como terra. Na fragilidade da erva esconde-se a mesma lei que assegura a força da viga de madeira. Os mesmos elementos formam o pó e a pedra. O jardim é, então, a paisagem de qualquer casa: paisagem interior, no miolo cerrado dos tecidos urbanos, paisagem verdadeira na vastidão do campo" (3).

Aproveitando um excelente e incontornável grande livro do paisagista Michael Laurie (4) façamos, agora, um pequeníssimo passeio pelo conceito amplo do jardim ao longo da história; passeio este feito com base na referida obra de Laurie, que, vivamente, se recomenda para todos aqueles que se interessam pelos modos de fazer uma cidade mais humana e culturalmente mais válida.

Comecemos pelavra inglesa para jardim: "garden" = gar (proteger/defender) + eden (prazer/deleite) = recinto para prazer e deleite.

Na origem do jardim esteve o talhão agrícola com os seus canais de rega, pequenos bosques a intervalos regulares, muros de vedação, plantas com sentidos simbólicos e aromas característicos.

Já no Egipto se usavam "latadas" e tanques em jardins murados, mais tarde o ordenamento do jardim passou a estilizar o ordenamento agrícola segundo esquemas simbólicos, relacionando-se ainda mais fortemente jardim e edifício.

Esta evolução tem um expoente no "Éden" + átrio romano = pátio ajardinado e refrescado por brisas passando sobre superfícies de água.

O jardim medieval, fechado e escondido, liga-se muito aos segredos da ervanária com fins medicinais, mas também ao horto com árvores de fruto, flores, fontes, zonas calcetadas, arbustos podados e tanques com peixes, numa amálgama privada que é fonte de prazeres sensuais (íntima, bela e com um forte sentido artesanal).



Fig. 5: O jardim medieval, fechado e escondido, liga-se muito aos segredos da ervanária com fins medicinais, mas também ao horto com árvores de fruto, flores, fontes … (o claustro de Alcobaça).

O Renascimento liga a casa ao jardim por espaços intermédios, que são prolongamentos arquitectónicos na paisagem, desde balcões e arcadas a extensões de escadarias e terraços que constroem um desenho global e humanizam a natureza exterior.

Mais tarde o jardim romântico vai imitar a paisagem, baseando-se na observação da natureza e "dramatizando-a" pelo recurso a princípios pictóricos (é o "pitoresco"); é a regularidade do edifício contrastando, harmoniosamente, com a irregularidade estudada do exterior povoado por "episódios" e "objectos".

Hoje em dia, a falta de espaço bem localizado e o custo implicado pela construção e manutenção de um jardim poderá levar ao desenvolvimento de espaços que recuperam características passadas, como é o caso do sentido de encerramento exterior e de profusão de dados sensoriais naturais que tanta falta fazem a pessoas muito desenraizadas da natureza.



Fig. 6: o Jardim das Amoreiras, onde se sente um estimulante equilíbrio e mesmo uma estimulante fusão entre a forma edificada e a forma natural, proporcionando-se o contacto com a natureza em plena zona urbana densificada.

Realmente, trata-se de produzir o máximo efeito num espaço limitado e para isso já existem caminhos abertos e exemplos concretos, como é o caso dos jardins desenhados, no Brasil, por Burle Marx, inspirados na pintura e na botânica moderna, desenvolvidos considerando vários pontos de vista, a clarificação de planos simples e linhas sóbrias e a diluição dos limites (aparentando um espaço sem fim, numa zona restrita), sendo os usos definidos para cada reduzida porção de espaço, escultoricamente organizada.

Termina-se aqui esta primeira e muito sumária viagem pela história do jardim, realizada, como se salientou, com base num excelente livro de Michael Laurie.

Quando iniciei esta série sobre os jardins pensei em avançar, desde já, com algumas notas sobre tipologias de espaços ajardinados urbanos, no entanto, julgo que será melhor, para já, ficarmos por aqui e será então num próximo artigo da série que avançaremos nesse sentido.

Notas:

(1) Franco Purini, "La Arquitectura Didactica", p. 231.
(2) Sidónio Pardal; P. Correia; M. Costa Lobo, "Normas Urbanísticas, Vol. II", p. 117.
(3) Franco Purini, "La Arquitectura Didactica" p. 151.
(4) Michael Laurie, "Introducción a la Arquitectura del Paisaje".

Editado por José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte
11 de Maio de 2008