Mostrar mensagens com a etiqueta balcões. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta balcões. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, fevereiro 12, 2019

674 - Tipologia dos pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados - Infohabitar 674

Infohabitar, Ano XV, n.º 674
Tipologia dos pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados - Infohabitar 674
Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”
por António Baptista Coelho (texto e imagens)
Sobre uma habitação feita mais por sítios específicos do que por espaços ditos de/para actividades e funções domésticas.
Aproveitando para lembrar, entre outros autores Arquitectos, o grande Christopher Alexander e a sua incontornável “linguagem de padrões”, que tanto influenciou tanta gente e é tão poucas vezes citada ou referenciada, podemos referir que uma habitação, um mundo doméstico que, para o ser, tem de integrar, potencialmente, os vários mundos domésticos específicos dos respectivos habitantes, mais o respectivo agregado comum e convivial, muito mais do que um “simples” complexo funcional – e ainda assim o número de funções é extenso – deveria ser constituído e constituível por uma potencial e muito extensa diversidade de “cantos”, “recantos” e “sítios” adequados a uma enorme variedade de misturas funcionais e apropriações pessoais e de grupo específicas e dinâmicas.
Sobre a previsão destes tipo de “cantos”, “recantos” e “sítios”  domésticos, que são, em boa parte, os grandes responsáveis pela criação de um grande mundo pessoal e familiar, destacam-se alguns aspectos muito variados e, designadamente, de agradabilidade e de conforto ambiental, de adaptabilidade, de funcionalidade com sentido lato e de adequada, rica e apropriável pormenorização arquitectónica, que, em seguida, muito brevemente se apontam – não exaustivamente (trata-se de um texto naturalmente dinâmico).

Pequena tipologia dos pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados

Nota preliminar

Depois de se ter desenvolvido um quadro de caracterização e qualificação do que pode e deve ser a grande diversidade de pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados, considerando-se, designadamente, os seguintes aspectos:
. relação com as janelas domésticas,
. relação com as vistas,
. criatividade volumétrica e pormenorizada,
. usos reais,
. aspectos de segurança,
. relação com o conforto,
. relação com a natureza,
. relação com a acessibilidade,
. e equilíbrio de aéreas domésticas interiores e exteriores,
Avança-se, em seguida, para o que se pode designar como de uma pequena tipologia desses pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados, sublinhando-se alguns tipos mais correntes destes espaços e apontando-se, em cada caso, algumas das suas características consideradas mais significativas.

Fig. 01: importância dos espaços exteriores privados

Realidade e importância da grande diversidade tipológica dos pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados

Antes de avançar numa reflexão exploratória sobre o grande leque tipológico que caracteriza, de facto, a extensa família de pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados, importa referir:
(i) que esta diversidade é extremamente ampla e dificilmente “capturável” neste e em qualquer outro elenco tipológico, pois remete, basicamente, para a dimensão da criatividade do projecto e, portanto, para a fundamentada e potencialmente muito rica imaginação do respectivo projectista;
(ii) que esta mesma extensa e imaginativa diversidade, aplicada aos pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados, pode e deve ser elemento crucial e estruturador de uma grande variedade de tipologias de habitações, de edifícios habitacionais e mistos e mesmo de vizinhanças habitacionais e mistas;
(iii) que esta diversidade é ferramenta privilegiada no desenvolvimento de soluções de vizinhança próxima e de edifícios caracterizadamente privatizadas e/ou conviviais; e recomenda-se, vivamente, sibre esta matéria a consulta da essencial obra de Serge Chermayeff e Christopher Alexander, intitulada “Community and Privacy: Toward a New Architecture of Humanism”; onde fica evidenciado o papel dos pequenos e médios espaços privados exteriores na configuração volumétrica de tipologias de vizinhança, edicadas e de habitações bem marcadas por tais aspectos de comunidade/convívio e privacidade;
(iv) que esta diversidade tipos de pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados, assumindo o também referido potencial gerador de variadas tipologias de vizinhança, edifícios e fogos, o faça no fundamental respeito das melhores condições de integração local e de respeito e valorização da respectiva paisagem urbana e natural;
(v) e, finalmente, que este mesmo potencial de grande diversidade de tipos de pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados, se prolonga e é desmultiplicada por uma respectiva grande diversidade de espaços e elementos pormenorizados, sendo, globalmente, este grande potencial de diversidade – dimensional, visual, funcional, etc. – no desenvolvimento de  exteriores e interiores/exteriores privados, elemento fulcral da capacidade de apropriação que cada habitação pode e deve proporcionar aos seus habitantes específicos e mesmo a grupos de habitantes agregados em vizinhanças específicas e bem caracterizadas.

Fig. 02: variedade de espaços exteriores privados

Proposta introdutória para uma pequena tipologia dos pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados (os títulos optados no texto são seguidos das suas designações mais correntes)

Sítios-floreira

Floreiras

Provavelmente, a menor tipologia que pode ser considerada como integrando esta família dos pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados, é a que poderá designar-se como “sítios-floreira”; espaços mínima ou razoavelmente dimensionados e pormenorizados no sentido de poderem integrar plantas, directamente, ou em vasos.
Os sítios-floreira têm, naturalmente, inúmeras configurações, mas, quando adequadamente projectados, integrando a imagem pública dos respectivos edifícios, são, sempre, elementos muito enriquecedores dessa imagem, gerando-se, frequentemente, soluções com expressivo carácter doméstico e/ou de integração entre natureza e edifício/construção.
Frequentemente os sítios-floreira associam-se aos sítios-varanda e aos sítios-alpendre na criação e configuração pormenorizada de várias subzonas de estar e com diversas funcionalidades; sendo, ainda, elementos protagonistas e muito expressivos nas respectivas imagens exteriores conjuntas.
Aspectos fundamentais e que têm de estar sempre presentes na concepção destes “sítios-floreira” são: a sua funcionalidade em termos do crescimento de plantas; a sua adequada impermeabilização, tendo em conta as regas frequentes; e a segurança contra queda no uso/manutenção corrente das plantas aí existentes – aspectos estes que condicionam totalmente a sua viabilidade.  



Fig. 03: variedade de tipos de varandas.

Sítios-varanda

Varandas

Os sítios-varanda para o serem ou são pequenos espaços, pouco mais do que janelas de sacada onde se pode ir lá fora, por exemplo para ver a rua, em plenitude, ou então devem ser sítios onde se pode estar sentado, em sossego e a conviver; espaços intermediários entre estas duas situações-limite e onde não é possível "estar" são realmente pouco úteis.
Os sítios-varanda podem ter inúmeras configurações, sendo estas, estruturantes das respectivas soluções domésticas e edificadas, quando estamos a considerar uma adequada solução de Arquitectura; pois nunca será de mais sublinhar que uma varanda não é um “adereço” que se junta ao projecto do edifício, é algo que o integra plenamente e que pode ser, mesmo, elemento fundamental da sua caracterização pública.
Globalmente e como é bem sabido há duas grandes “famílias” de varandas: as mais abertas e talvez possamos dizer convexas e abertas à paisagem, porque nela entrando; e as mais fechadas e talvez possamos dizer côncavas e “retiradas” da paisagem, porque entrando no corpo do edifício, habitualmente designadas de “balcões”; isto, embora, esta designação de “balcão”, também se possa referir a um tratamento mais aberto ou mais fechado da relação/separação entre o espaço habitável da varanda e o espaço “vazio”/paisagístico que lhe é contíguo.
Os usos possíveis das varandas são múltiplos, mas naturalmente favorecendo o estar e o lazer no exterior ou em espaços de transição interior/exterior; e mesmo as questões de conforto ambiental poderão ter adequado tratamento, caso se opte por uma adequada valorização de um uso intenso e prolongado do exterior doméstico proporcionado pelas varandas.
Um aspecto frequentemente mal considerado no desenvolvimento de varandas domésticas, refere-se à respectiva solução de fenestração não permitindo adequadas condições de uso integrado da varanda e do compartimento doméstico contíguo.
Outro aspecto frequentemente mal considerado no desenvolvimento de varandas domésticas, refere-se à sua reduzida contribuição para o conforto ambiental da respectiva habitação (ex., ventilação natural, sombreamento, aproveitamento solar passivo, etc.)
Ainda outro aspecto que é muito sensível no desenvolvimento de varandas domésticas, refere-se à sua frequente vandalização, através de instalação de marquises inexistentes no projecto original e, por regra, aplicadas sem qualquer harmonização em cada edifício e, também por regra, totalmente dissonantes e destruidoras da respectiva imagem pública.  
Finalmente e rematando esta pequena reflexão sobre os sítios-varanda sublinha-se a essencial/vital questão da solução de relação/separação entre o espaço habitável da varanda e o espaço “vazio”/paisagístico que lhe é contíguo, em termos de segurança contra quedas, designadamente, de crianças; uma matéria que se liga, designadamente, com a configuração pormenorizada de guardas (ex., altura, espaçamento de elementos verticais, ausência de elementos que possibilitem o escalamento, etc.) e que exige atenção específica e urgente.
Mas esta matéria dos sítios-varanda é, naturalmente, merecedora de outros desenvolvimentos.

Sítios-jardim de Inverno

Jardim de Inverno

Os sítios-jardim de Inverno correspondem, essencialmente, ao que tem de ser um adequado desenvolvimento, de raiz, de grandes marquises envidraçadas e bem estruturadas em termos de ventilação natural e protecção da radiação solar, de modo a que para além de proporcionarem a criação de pequenos jardins de Inverno, muito adequados a diversas actividades domésticas possam ser utilizadas numa estratégia de aproveitamento passivo da energia solar, em termos da climatização da restante habitação, considerando as condições de conforto de Verão e de Inverno.

Sítios-alpendre

Alpendres

Os sítios-alpendre correspondem, habitualmente, aos espaços que poderiam ser de amplas varandas, mas prolongando ou sequenciando os espaços domésticos térreos de edifícios unifamiliares.
Neste sentido eles integram, naturalmente, todos os conteúdos funcionais e imagéticos das grandes varandas domésticas e, designadamente, daquelas mais “profundas” e imbricadas na orgânica do respectivos lar, mas juntando-lhes factores de espaciosidade, adaptabilidade e liberdade de usos que se ligam à sua posição térrea e num espaço privado frequente e relativamente amplo, podendo haver, assim, aqui, integração de outros usos mais complexos de associar em varandas (ex., grelhadores, diversificados espaços de estar, etc.).
Um outro aspecto que importa ter em conta no adequado desenvolvimento dos sítios-alpendre é a sua relação ambivalente ou multilateral, tanto com o interior doméstico, como com a continuidade do espaço exterior privado; qualidade esta que é, habitualmente, garante de um adequado projecto global e que vive, naturalmente, tanto de aspectos globais de estruturação, como de uma adequada e sensível pormenorização.
Ainda um outro aspecto crucial no desenvolvimento dos sítios-alpendre é, naturalmente, o seu expressivo protagonismo na criação de excelentes espaços de transição entre interior e exterior.

Pequenos pátios interiores ou "poços" de luz natural

Pátios interiores

 Os pequenos pátios interiores ou "poços" de luz natural são elementos polarizadores e estratégicos na organização de uma habitação, levando luz natural inopinadamente a sítios onde ela não é expectável e criando verdadeiras atmosferas em que a respectiva interiorização é ainda acentuada por essas pontuais e marcantes presenças da realidade exterior; numa marcação que pode ser acentuada por plantas que povoem esses pequenos pátios interiores.
Mais do que lugares, estes pequenos pátios interiores criam lugares domésticos nas suas envolventes e por contraste nos compartimentos que pontuam e perfuram.

Sítios-pátio

Pátios

Os sítios-pátio, podem e devem ser verdadeiros compartimentos domésticos exteriores, plena e intensamente vividos durante boa parte do dia e do ano, proporcionando uma qualidade vivência únicas, seja nos seus próprios espaços, seja nas suas envolventes.
Podem ser mais ou menos naturalizados e pouco têm a ver com a sua posição no edifício pois podem integrar-se tanto junto ao nível térreo, estruturando e expandindo os respectivo embasamentos em zonas muradas e com acessos alternativos ao espaço público, como podem desenvolver-se nos pisos sobre este nível térreo em soluções muito encerradas ou parcilamente abertas em terraços, e também nos níveis superiores junto à cobertura.
Os sítios-pátio são elementos fundamentais na aproximação das habitações em edifícios multifamiliares a uma caracterização unifamiliar; associando-se vantagens de uma e outra tipologia e proporcionando-se grande diversidade de soluções edificadas formais e funcionais.
Podem por vezes caracterizar expressivamente tipologias densas e de baixa altura proporcionando como que uma geminação entre bandas edificadas e bandas de pátios expressivamente murados (muros altos e atraentes).

Sítios-jardim ou sítios-horta

Jardins e hortas

Os sítios-jardim podem ser considerados, quer como uma opção a desenvolver nos sítios-pátio, quer como soluções específicas de jardins privados marcando essencialmente as envolventes dos pisos térreos, ou, mediante condições especiais, em outros níveis dos edifícios.
Os sítios-jardim são também elementos fundamentais na aproximação das habitações em edifícios multifamiliares a uma caracterização unifamiliar; associando-se vantagens de uma e outra tipologia e proporcionando-se grande diversidade de soluções edificadas formais e funcionais.
Quanto aos jardins/hortas ou mesmo a espaços exclusivamente dedicados à horticultura, importa considerar que a sua visibilidade pública deverá ser especialmente cuidada, em termos da sua localização e tipo de vedação, podendo optar-se, mesmo por muros ou outras vedações visualmente bem cuidadas e opacas até à altura da vista pedonal contígua; uma solução que procura equilibrar e reservar vistas sobre espaços hortícolas que poderão estar, frequentemente, com aparência menos agradável. No entanto pode haver mesmo interesse estratégico em proporcionar continuidades de vistas sobre sequências significativas de talhões de pequenas hortas com uso privado, constituindo estas vistas elementos protagonistas de desejáveis extensos percursos pedonais estruturadores de vizinhanças.

Sítios-arrumação

Arrumações

Os sítios-arrumação no exterior são, por um lado, frequentemente, responsáveis pela funcionalidade desse mesmo exterior, no sentido de lhe proporcionarem a arrumação rápida de uma grande diversidade de elementos de apoio ao recreio, lazer e a trabalhos vários (desde passatempos mais “sujos” aos frequentes trabalhos de jardinagem e horticultura); e, são, também, infeliz e frequentemente, responsáveis pelo desenvolvimento de imagens e ambientes muito desagradáveis, porque expressivamente desarrumados e tantas vezes dissonantes, isto sempre que não há o cuidado de assegurar uma prévia e adequada harmonização das suas arquitecturas pormenorizadas – que podem ter, frequentemente, um carácter relativamente provisório (ex., construções em madeira), mas que nem por isso devem deixar de ser marcadas por uma adequada integração e dignidade de imagens.    

“Sítios-porta” e “sítios-vedação”

Portas e vedações

Talvez não fosse necessário fazer, aqui, esta referência específica aos “sítios-porta” e aos “sítios-vedação”, quando se aborda esta matéria dos pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados, isto porque a respectiva pormenorização deveria ser algo extremamente cuidado no respectivo projecto de arquitectura.
No entanto, porque tal por vezes não acontece, dando-se um pouco a ideia (errada) que é matéria pouco importante para ser adequadamente considerada, aqui se regista esta necessidade, lembrando-se que a sua boa e bem pormenorizada Arquitectura será responsável por grande parte do impacto visual térreo, diariamente sentido pelos respectivos habitantes, e lembrando-se, ainda, que há aqui que harmonizar aspectos expressivamente distintos e, portanto complexos na sua integração, como são as questões de: segurança, vista exterior mais pública, vista interior mais doméstica, privacidade em determinadas zonas e convivialidade noutras, aberturas visuais mais profundas ou mais fechadas do interior sobre o exterior, e relacionamentos entre natureza e interior doméstico.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XV, n.º 674
Tipologia dos pequenos espaços exteriores e interiores/exteriores privados - Infohabitar 674
Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar,– Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, novembro 20, 2017

Espaços exteriores privados - Infohabitar 619

Infohabitar, Ano XIII, n.º 619
Espaços exteriores privados: novo artigo e links para outros 5 artigos sobre o tema
por António Baptista Coelho


São os seguintes os cinco (5) artigos disponibilizados sobre a temática dos “espaços exteriores privados” (basta clicar sobre cada um para aceder ao respectivo texto):

        Importância dos pequenos espaços exteriores privados

        Repensar os espaços exteriores privados

        Motivar o uso dos espaços exteriores privados

        Problemas, apropriação e caracterização do exteriores privado

        Inovar no exterior privado

(novo artigo)

As temáticas associadas e associáveis à matéria geral da habitação e, designadamente, ligadas à matéria específica dos “espaços exteriores privados” são extremamente amplas, sensíveis e significantes e não queremos correr o risco de dar a ideia de as irmos tratar de forma exaustiva; iremos assim abordar, a propósito, alguns tópicos considerados talvez mais relevantes e/ou oportunos, hoje em dia, e deixar algumas reflexões e ideias como pistas para posteriores incursões teórico-práticas.

É interessante recordar que, por regra, a habitação esteve sempre associada a um espaço exterior, que era mais ou menos privatizado e onde decorriam muitas actividades directa e indirectamente domésticas, tendo sido o edifício multifamiliar a solução que tendeu a realizar a separação entre habitação e exterior privado, uma invenção, que embora tendo tido casos de referência em antigas cidades, como foi o caso da velha Roma ( com as insula/insulae que consistiam em grandes edifícios em andares, verdadeiros quarteirões que integravam apartamentos insalubres e inseguros no que se refere a incêndios) e talvez mesmo em outras civilizações da antiguidade, só teve, como é sabido, uma aplicação generalizada, extensiva e massiva a partir de finais do século XIX e especialmente ao longo do século XX, com destaque especial para os processos massivos de realojamento que marcaram a Europa na segunda metade do século passado.

Não iremos fazer aqui qualquer aprofundamento deste assunto, aliás bem sensível, interessante e rico, tendo sido objectivo deste breve apontamento focarmo-nos nessa separação entre habitação e espaço exterior privado térreo, e partir daqui para se anotar que a relação com o exterior privado se manteve, então, depois, no âmbito das soluções multifamiliares, em pátios/quintais relativamente reduzidos, varandas, balcões e terraços.

Fig.01: é extremamente interessante o potencial funcional e ambiental proporcionado por adequados espaços exteriores privados; neste caso uma varanda funda.


É um pouco óbvia esta reflexão, mas é interessante pois, como sabemos, esta “evolução” tipológica realizou-se não só por ser quase tão caro fazer varandas como fazer espaço interior doméstico, preferindo quase sempre os moradores e as entidades responsáveis por grandes processos de realojamento este último, mas também, por vezes, numa “evolução” de afastamento  da relação com o solo, que é quase uma negação das velhas tipologias habitacionais fortemente ligadas à terra e, frequentemente, de histórias pessoais e familiares marcadas por expressiva e prolongada pobreza.

E, no limite, “esta evolução” influenciou, frequentemente, a geração de espaços pseudo-urbanos  em que blocos de apartamentos sem varandas, ou com patéticas varandas, patologicamente repetidas, tantas vezes quase de cima abaixo dos edifícios, estavam e estão rodeados de espaços “ditos públicos”, expressivamente residuais, porque sem utilidade aparente e, tantas vezes, ao abandono ou equipados para usos que pouco ou nunca aí acontecerão. Naturalmente, que esta não será a regra geral, mas é, infelizmente situação muito frequente e que, por vezes, tem variações marcadas pelo desenvolvimento de espaços públicos exageradamente extensos e mal concebidos, obrigando a grandes despesas de manutenção.

Mas voltando ao tema-base desde artigo, os espaços exteriores privados, o que se retira desta última reflexão é que, com a aplicação massiva do edifício multifamiliar em altura, os espaços exteriores privados foram, por regra, extremamente reduzidos ou mesmo anulados, sendo, de certa forma, substituídos por espaços públicos que apenas em casos de referência, resultantes de excelentes práticas urbanas, terão de algum modo substituído ou compensado a significativa ausência desses exteriores privados; e entre nós Alvalade e Olivais Norte, mutuamente distintos, são excelentes casos de referência que nunca será demais visitar e estudar - embora Olivais Norte esteja, desde há anos, remetido a um inexplicável esquecimento em termos de manutenção básica.

Naturalmente que estamos aqui a “agudizar”, apenas um pouco, estas notas, exactamente, para tentarmos chegar a algumas ideias mais significativas e práticas, que passamos a apontar.

Em primeiro lugar salientam-se os muitos casos em que houve a total anulação de espaços exteriores privados, “arrumando-se” as pessoas em espaços domésticos patologicamente interiorizados em que nem é possível colocar um pé “fora de casa” (nem em simples e baratas pequenas varandas de assomar, aliás arquitectonicamente muito ricas), num contraste total e perigoso com uma tradição doméstica com cerca de 10.000 anos; e tal situação será mesmo patológica e potencialmente “explosiva”, quando a habitação é imposta ao morador e este acaba de sair de soluções habitacionais térreas e ligadas directamente ao exterior (ex., casos de realojamento em altura).

Em segundo lugar há que referir um conjunto de aspectos interligados:

- um certo desinteresse pelos espaços exteriores privados e em zonas climáticas em que eles são muito adequados durante um largo período do ano, como é o caso de Portugal;

- uma frequente ausência de adequação climática dos mesmos (ex., abertura de varandas a Norte);

- um, frequente, mau entendimento dos seus amplos potenciais em termos de apropriação pelos moradores, evitando-se, por exemplo, a criação de pequenos pátios/quintais privados térreos, porque há riscos da sua má utilização – e os riscos são reais, mas devem ser previstos, reduzidos e combatidos e não serem tomados como razão para não se desenvolverem estas excelentes soluções;

- uma frequente, para não dizer quase genérica, ausência de conhecimento sobre as importantes virtudes das varandas como “climatizadoras” dos compartimentos contíguos (sombreando-os e protegendo-os), sendo sabido que uma boa varanda, associada a uma boa estratégia de ventilação interior, pode ter um resultado, em termos de conforto ambiental, idêntico ou melhor do que uma solução de climatização mecânica;

- e, finalmente, mesmo uma cultura doméstica que subalterniza o exterior privado, não o mobilando e equipando e, frequentemente, fechando-o, tantas vezes com péssimas soluções de marquises, que prejudicam o conforto ambiental interior e destroem a arquitectura da fachada do edifício, e que, tantas vezes, são depois utilizadas como arrumações de trastes, visíveis do exterior.


Fig 02: e é igualmente muito interessante o potencial ambiental, genérico, em termos de conforto ambiental, mas também de caracterização arquitectónica e doméstica, que é proporcionado, ao interior da habitação, por adequados espaços exteriores privados; neste caso uma varanda funda. 


Um outro, muito importante, aspecto fundador e justificador do relevo que há que atribuir aos espaços exteriores privados é o seu papel directo como base de um estimulante leque de actividades domésticas, simultaneamente, com o seu importante papel, como “capa” simbólica e fisicamente protectora do interior doméstico, e como zonas/franjas ou “pontos” privilegiados de relação, de transição, de “passagem”, de encaminhamento ou enquadramento de vistas, e esta é, provavelmente, uma das principais matérias da Arquitectura – e é interessante considerar que bastaria este aspecto para justificar o interesse do desenvolvimento de espaços exteriores privados de transição entre interior doméstico e espaços de uso público.

Uma matéria que importa sublinhar é que numa sociedade cada vez mais marcada por actividades privadas e interiores, e por pessoas fechadas em si próprias e servidas por ofertas que estimulam essa “reclusão” (ex-, tv, TICs), tudo o que se possa disponibilizar no sentido de incentivar o contacto das pessoas com o exterior, através de estimulantes zonas e espaços de transição, é um caminho arquitectónico a privilegiar, pois assim se pode amenizar essa tendência, hoje tão forte, de termos muitas pessoas fechadas em suas casas e em si mesmas.

E a propósito dessa função de relação/transição entre interior e exterior que é fortemente assumida pelos espaços exteriores privados, é também interessante registar que é possível desenvolver vãos de janelas, cujas características sejam quase de estimulantes espaços “bolha”, que sendo basicamente interiores, são também ambientalmente exteriores; e entre estas soluções há que destacar as interessantes e entre nós tão pouco aplicadas bay-windows.

Um outro aspecto que pode ser servido por uma adequada concepção de espaços exteriores privados na contiguidade dos respectivos espaços domésticos, corresponde ao desenvolvimento de um leque conjugado de relacionamentos, mais fortes/próximos e mais ténues/afastados/profundos, entre os ambientes domésticos e os espaços de uso público contíguo; um processo que corresponde, naturalmente, a “boa arquitectura”, tal como muito do que aqui tem sido apontado,  e que nada tem a ver com a “robótica” repetição de inúmeras varandas, sobrepostas, perfeitamente iguais e mal concebidas (ex., será possível desenvolver uma gradação de relações entre espaço público e privado/interior, começando com profundos pátios/quintais, que passam, superiormente, a terraços, depois a varandas fundas, e ainda depois a varandas menos fundas, etc.).

Naturalmente, é fácil e estimulante imaginar que todos este processo de concepção espacial e construtiva pode e deve ser aliada com uma estratégia de integração de elementos naturais, conseguindo-se, “no limite”, soluções de extrema integração entre grandes massas de construção e grandes “capas” naturais, baseadas, tanto na envolvente de uso público, como nos espaços privados exteriores ou semi-interiores e mutuamente agregados, em altura e horizontalmente.

E nunca será excessivo salientar a importância que tem a relação com a natureza, designadamente, no que se refere a urbanitas cada vez mais ligados à cidade e a tecnologias desligadas da natureza; e neste aspecto os espaços exteriores privados podem e devem ser verdadeiros contentores de uma natureza “limitada”, mas vital em termos de saúde/bem-estar e de capacidade de apropriação pelos moradores – o verde doméstico é um dos principais aspectos de exercício de uma capacidade de apropriação e identificação com a sua habitação, e que, cumulativamente, pode melhorar muito a qualidade visual do respectivo edifício.

Ainda outro importante aspecto a ter em conta nesta matéria, refere-se à condição de a diversidade das soluções de espaços exteriores privados serem, muito provavelmente, uma das principais ferramentas do desenvolvimento da urgente diversificação tipológica habitacional e urbana, pois eles funcionam, entre outros aspectos, como verdadeiras “charneiras e capas” potencialmente transformadoras das tipologias habitacionais e urbanas, seja nos seus aspectos de conteúdo espaço-funcional próprios, seja nos seus mecanismos de agregação e integração mútua, seja nos seus aspectos de caracterização visual exterior e pública; e esta é daquelas matérias que justificará desenvolvimento em artigos próprios.

Uma tal diversificação tipológica pode produzir excelentes soluções de transição uni/multifamiliar, associáveis a unifamiliares densificados e a multifamiliares caracterizados por baixa/média altura e alta densidade; e em todos estes tipos de agregações os diversos tipos de espaços exteriores privados são elementos arquitectonicamente protagonistas (ex., pequenos quintais, pátios, terraços, balcões, varandas fundas, varandas salientes, varandas de assomar e cuidadosos vãos de janela).

E, naturalmente, todos este caminho conceptual tem relação directa com os actuais caminhos de densificação estratégica e de acentuação de uma adequada imagem urbana; mais uma matéria a desenvolver em futuros artigos.  
   
Ainda antes de concluir esta reflexão faz-se aqui referência à complexidade conceptual do desenvolvimento desta diversificada tipologia de agregados espaciais, uma complexidade que será, no entanto, suavizada, pela utilização dos actuais processos informatizados de projecto.

E para concluir, importa, assim, sublinhar a importância do desenvolvimento de pequenos e diversificados espaços exteriores privados, que há que repensar e redescobrir, nos seus usos tradicionais e em novos e estimulantes usos residenciais (ex, no Brasil é, actualmente, frequente a previsão de grandes/fundas varandas protegidas, naturalizadas e equipadas para a preparação e o tomar de refeições em grupo), sendo essencial garantir a sua boa apropriação, combatendo-se activamente os usos indevidos e inovando-se, seja nos próprios espaços e seus conteúdos espaço-funcionais, seja no seu protagonismo na criação de renovadas tipologias habitacionais e urbanas.

e a estas matérias relativas aos “espaços exteriores privados”, voltaremos (mas nos artigos acima disponibilizados encontrarão, desde já, um conjunto interessante de reflexões).

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIII, n.º 619
Espaços exteriores privados: 5 artigos sobre o tema e um novo texto
Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).


Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.