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quinta-feira, outubro 01, 2015

552 - Dia mundial do Habitat - Cidades mais habitadas e passeáveis – Infohabitar n.º 552


Infohabitar, Ano XI, n.º 552

No dia 5 de outubro de 2015 comemora-se  o Dia Mundial do Habitat, data escolhida pela ONU para refletir sobre a situação das cidades; o tema deste ano tem a ver com a discussão sobre a importância das ruas e dos espaços públicos das cidades para o bem-estar e a qualidade de vida de seus moradores; o evento desenvolve-se durante todo o mês de outubro e culmina em 31 de outubro (Dia Mundial das Cidades)  com o tema “Cidades: Desenhadas para Conviver”.
Por estas razões a Infohabitar edita um artigo sobre as referidas temáticas e solicita contributos dos leitores no sentido de podermos aqui apoiar um fórum de discussão sobre este tema que é hoje vital.
E também neste sentido se anuncia que decorre nos dias 5 e 6 de outubro, na Cidade da Praia, Cabo Verde, um evento sobre estas matérias, integrado no Dia Mundial do Habitat, organizado pelo Instituto Nacional de Gestão do Território (INGT), do Ministério do Ambiente, Habitação e Ordenamento do Território, da República de Cabo Verde, em ligação com a Ordem dos Arquitectos de Cabo Verde.

  
Fig. 1

Cidades mais habitadas e passeáveis

António Baptista Coelho
Conteúdos:
  • Uma cidade mais habitada
  • Uma cidade feita de pequenas cidades e de ainda mais pequenas vizinhanças pedonais
  • Uma cidade atraente, do pormenor e do vagar
  • (Re)humanizar a cidade, torná-la mais amigável
  • Um espaço urbano reconciliado com o espaço natural
  • Cidade desejada, cidade percorrida, cidade segura
  • Percorrer a cidade


Fig. 2

Uma cidade mais habitada (mais viva e visualmente viva)

Na definição de “habitação”, da Enciclopédia Focus (1) pode ler-se, que a “realidade da concentração urbana, a evolução da estrutura e modos de vida da família na sociedade industrial obrigam a considerar a casa como célula do tecido urbano relacionada estreitamente com a localização e organização do recreio infantil, da educação, ocupações de tempos livres, abastecimentos e transportes quotidianos para as zonas de trabalho. A casa insere-se em núcleos residenciais de grandezas calculadas, onde se procura valorizar a comunicação entre grupos de moradores dispondo intencionalmente os edifícios em relação ao terreno, seu prolongamento natural, localizando os equipamentos de utilidade comum em relação com os percursos exteriores e os órgãos de distribuição dos grupos residenciais, e assegurando aos moradores, pelo isolamento acústico ou de vistas, uma menos ilusória intimidade. A escolha entre habitação colectiva em altura e a moradia de tipo unifamiliar não pode fazer-se independentemente das situações urbanísticas, mas, prevalecendo as razões que conduzem ao primeiro tipo, procuram-se actualmente soluções que permitam dispô-las em habitações densamente agrupadas, de prolongamentos privados em terraços ou pátios.”
É uma definição que fala por si, e sobre o que deveria ser uma cidade bem habitada.
Escreveu o Arq. Luis Fernández-Galiano (2) que “ o problema da habitação se tornou o problema da cidade” e clarifica esta afirmação referindo que “a habitação não é hoje um problema que precise de experimentações estéticas ou inovações estilísticas; é um problema urbano, da civitas ou da polis, o que quer dizer, um problema de cidadania e político.” E remata esta sua intervenção defendendo que precisamos de mais arquitectura; mas, acima de tudo, precisamos de mais cidade.”
Mas não precisamos de uma cidade qualquer, não precisamos de uma urbe maquinal, feita para o automóvel e para a estrita funcionalidade; dá vontade de dizer que já foi tempo desses tipos de objetivos, que tão negativamente foram perfilhados por um processo urbanizador quase sempre vazio de verdadeiros objetivos de qualidade de vida; e aliás havia sempre a desculpa, e ainda ela sobrevive teimosamente, de apenas podermos ter em conta as matérias objetivas, rejeitando-se, assim, o enorme peso da sensibilidade e da criatividade no fazer e no cíclico e necessário refazer das diversas partes da cidade.
Precisamos, sim, de uma cidade, e de um contínuo urbano diversificado, composto de espaços de uso público novamente amenizados pela escala humana e verdadeiramente adequados aos usos humanos de sempre e aos mais atuais; e nestes usos humanos a primeira linha tem de ser a dos usos do homem-peão e neste, há ainda que ter em devida conta o peão idoso e o peão criança.
Não se trata aqui de qualquer revivalismo superficial dos cenários da cidade pré-industrial, cujas ruas e pracetas eram diretamente marcadas pelas dimensões humanas, trata-se, sim de reconquistar um leque tipológico urbano tão rico e diversificado, como estrategicamente densificado e fazendo-o, reconciliarmo-nos também com um verdadeiro uso (uso direto, não intermediado por veículos) frequente e prolongado dos espaços públicos, num sentido estratégico e urgente de reuso da cidade “central” e/ou da cidade periférica cuidadosa e “pontual/sequencialmente” redensificada e revitalizada, que é hoje em dia vital para se inverter o abandono desses espaços em favor das grandes estruturas conviviais-comerciais quase sempre periféricas.
E em tudo isto importaria estudar melhor o que verdadeiramente motiva e atrai os habitantes para esse uso mais intenso do exterior urbano e dos espaços de uso público, e há já organizações com um trabalho extremamente meritório nesse sentido, como é, por exemplo, o caso do Project for Public Spaces - http://www.pps.org/ - e da Smart Growth - http://smartgrowth.org/  .
E neste sentido lembra-se um estudo do Centre Scientifique et Technique du Bâtiment (3) onde se concluiu que a imagem mental que os habitantes associam, frequentemente, a um ambiente especificamente designado “como urbano” é a imagem de uma pequena rua orgânica, ladeada de pequenas casas e muros altos e fortemente marcada pela vegetação; sem dúvida uma questão que nos pode e nos deve levar longe nesta temática sobre o viver uma cidade mais viva e expressivamente mais amenizada e passeável; mas esta temática específica terá de ficar em reserva para futuras reflexões, salientano-se aqui, essencialmente, a perspetiva do “diálogo” com o habitante no sentido de se entender melhor e de se respeitar, muito mais, aquilo que o motiva num uso direto (pedonal) dos espaços de uso público.


Fig. 3

Uma cidade feita de pequenas cidades e de ainda mais pequenas vizinhanças pedonais

E a pequena cidade-bairro tradicional, ou bem planeada, que contém, ainda, grande parte dos grupos socioculturais e etários, é sede natural de resistência à actual e bem conhecida tendência de desintegração física e social do tecido urbano. Uma resistência baseada nessa coesão, que gera a vitalidade e a diversidade das verdadeiras pequenas cidades de vizinhança, que são os verdadeiros responsáveis e pela sobrevivência da felicidade do viver na cidade.
Neste sentido é necessário privilegiar a caracterização e a diferenciação de partes da cidade, que têm de ser servidas por uma fundamentada, subtil e cuidadosa pormenorização, numa opção que negue, sistematicamente, as soluções marcadas pela rapidez, pelo stress, pela ausência de convívio e por uma dita “funcionalidade”, mais aparente do que real; aplicando-se soluções que convidem ao uso da cidade com prazer e em paz, com tempo e a pé.
Uma opção que está intimamente ligada à descoberta das muitas sequências urbanas que integram, naturalmente, a cidade do pormenor; e aqui estamos em pleno mundo da imagem urbana, matéria cuja importância exige abordagem específica e desenvolvida, tão arquitetónica como desejavelmente ligada às referidas preferências urbanas pormenorizadas dos habitantes.
E uma opção que naturalmente se liga à saúde, pela promoção da marcha e pela defesa do sossego e da acalmia dos tráfegos, que se liga à protecção ambiental e que oferece um número infinito de motivos de atenção, de paragem e de movimento, proporcionando, assim, muitos cenários espontâneos de convívio e de passeio – e aqui não se poe deixar de referir um recente estudo que aponta “só” 100 benefícios para a saúde do passear/andar a pé: http://readysetgold.net/100-benefits-of-walking/ .


Fig. 4

Uma cidade atraente, do pormenor e do vagar

Uma opção pela cidade do vagar, onde se pode e deve andar ao sabor de tantos motivos, entre verdadeiras “ilhas de paragem”, que são locais de contemplação e de sossego, de estada ou de percurso, de isolamento ou de convívio; e que deverão marcar, intensamente, seja as vizinhanças residenciais – que devem constituir uma último nível semi-público da cidade, também, elas verdadeiras pequenas cidades, mas caracterizadas pelo sossego e pela domesticidade -, seja os pólos urbanos onde se queira que o habitante e o visitante se detenham mais do que um momento, integrando-se assim, activa e efectivamente, na vida da cidade.
Mas só é possível desenvolver uma cidade do pormenor e do vagar usando-se ruas e pracetas como verdadeiras extensões do habitar, e, para tal, é necessário “domar a praga automóvel”, pois como referem Nunes da Silva e João Seixas (4), “domar a praga automóvel e transformar os subúrbios num local onde as pessoas se sintam bem são os principais desafios da actualidade no que respeita à qualidade de vida nas cidades” e “o desafio é criar cidades de proximidade e diversidade, onde as várias funções que compõem a urbe – habitação, comércio, serviços e lazer – convivem juntas nos diferentes bairros, em vez de estarem acantonadas em pontos distintos da cidade.”
Há, de facto, urgência em acções de re-humanização da cidade e de controlo da referida “praga automóvel”, e em tais acções há que privilegiar sequências de espaços públicos estimulantes e amigos do peão – não têm de ser privativas do peão, mas sim amigas do peão, sublinho; sequências que se iniciam, obrigatoriamente, nos recintos de vizinhança próxima residencial, e que nos devem poder levar pela cidade fora, através de praças, pracetas e ruas citadinas, que sejam verdadeiros compartimentos e corredores da cidade.


Fig. 5

(Re)humanizar a cidade, torná-la mais amigável

Trata-se, assim, de privilegiar uma cidade mais amigável, mais humana, podendo-se falar de uma ação de (re)humanização da cidade, mas neste sentido não devemos privilegiar, como já se sugeriu, um caminho de segregação simplista e “funcionalista” do automóvel privado, tal nunca funcionou de forma efetiva.
E nesta matéria um grande autor, Spiro Kostof (5), estudou a evolução das zonas mistas de peões e veículos que servem conjuntos residenciais, tendo apontado que “o mais importante aspecto do apoio ao peão ... liga-se ao desenho de vizinhanças residenciais ... através de um novo tipo de rua .. cuja principal função não é a circulação e o estacionamento automóvel, mas sim o andar a pé e o recreio; e continuou, especificando que uma tal rua, ou vizinhança de proximidade, tem de ser caracterizada por “elementos que a distingam claramente das restantes vias ... elementos de acalmia de tráfego de veículos; e inserção de verde urbano ... numa paisagem de rua (paisagem urbana) partilhada com o carro, mas desenhada em torno das necessidades e dos prazeres pedonais” (acabei de citar).
Há ainda que sublinhar que a recuperação da cidade para o cidadão deve ser o primeiro passo da reabilitação da cidade como espaço privilegiado e protector dos mais idosos e dos mais jovens, que são, afinal, aqueles habitantes que mais usam a cidade, que tanto podem dar de vida à cidade e aos quais a cidade tanto pode dar em termos de quadro de vida naturalmente formativo e de lazer.


Fig. 6

Um espaço urbano reconciliado com o espaço natural

Falando de prazeres pedonais e de re-humanização da cidade não seria aqui possível deixar de lembrar e de reforçar a enorme importância do verde urbano e especificamente o papel do jardim, em todas estas matérias; porque o jardim humaniza, pois aí se faz “uma síntese única:  Arquitectura pela composição, Escultura pela modelação do terreno, Pintura pela efeito cromático da vegetação, Música pelos ritmos da composição ... Poesia, teatro e mesmo dança”; disse-o René Pechère (6), num livro de síntese de uma longa prática paisagista.
Sobre as potencialidades do verde urbano há que salientar que ele é, por vezes, de difícil desenvolvimento (poluição, manutenção, vandalismo), mas que é muito importante pois proporciona muitos e bem diversos aspectos de bem-estar, e agradabilidade cultural, bem associáveis à humanização do habitar citadino, entre os quais se sublinham o conforto ambiental e a saúde física, a formação das crianças e o lazer dos idosos, e o fundamental agrado físico, psicológico e cultural pela possibilidade do contacto com o meio natural.
E sobre esta matéria disse Kenneth Frampton (7) que “a paisagem se tornou muito importante” e que se grande parte das ruas têm ambientes insuportáveis, a única coisa as vai poder humanizar “é o verde ... Só a paisagem pode fazer alguma coisa.”
E não tenhamos dúvidas de que a estruturação de uma rede pedonal de estadia e circulação tem de ser fundida/integrada com uma rede de espaços e elementos verdes urbanos, pelas mais diversas razões, muitas delas intuitivas, outras funcionais e outras culturais; e lembremos aquele “espaço urbano”, bem marcado pela vegetação e por um sentido orgânico, que parece ser desejado por tantos habitantes (referido acima a propósito de um estudo do CSTB).




Fig. 7

Cidade desejada, cidade percorrida, cidade segura

Em todas estas matérias, que mutuamente se articulam, sublinha-se que a cidade deve proporcionar ao seu cidadão e habitante um complemento funcional, relativamente à habitação, mas também um verdadeiro suplemento de alma, tal como aponta Jorge Silva Melo (8): “um café aqui, um apartamento em cima, a rua larga, o Tejo ao fundo, passeios, gente que se encontra, gente que se salva, que se reencontra …”
Afinal, a cidade precisa da vitalidade da habitação, que precisa da vida citadina para que o habitante possa ter verdadeira qualidade de vida urbana; e a vida citadina precisa de uma adequada continuidade de bons espaços públicos para se poder exercer. Dá vontade de sublinhar que às frequentes carências funcionais relativamente a condições de uso da cidade pelo habitante automobilizado, há que começar a juntar todo um amplo e crítico leque de condições de uso da cidade pelo peão; e o peão tem de ser favorecido relativamente ao condutor, pelas mais diversas razões, entre as quais as de segurança rodoviária.
E são impressionantes os números de sinistralidade por atropelamento em meios urbanos, e as vítimas são frequentemente idosos; e não se percebe a razão de tais ocorrências não serem devidamente salientadas; mas a falta de estacionamento continua a ser tema importante de debate …
E como estamos a abordar as questões de segurança no uso da cidade, então há que lembrar que zonas urbanas vivas e habitadas são muito mais seguras do que espaços urbanos desabitados e desvitalizados; o uso humano do espaço público é provavelmente o seu principal fator em termos de segurança, pois a visibilidade mútua e a proximidade de janelas e portas habitadas são os principais aspetos que inibem o mau uso do espaço público.



Percorrer a cidade

Como refere Herbert Girardet (9), “as cidades são locais humanos únicos”, “celebradas como modelos de desenvolvimento cultural” e que têm de ser obrigatoriamente muito bem desenhadas”; construídas, como refere o autor, “com uma escala de tempo longa” e no respeito de uma escala de desenho adequada, de uma natureza íntegra e numa perspectiva de relacionamento social e de verdadeira vizinhança. Um processo que tem de ser informado tal como defende Girardet, citando Lewis Mumford, pela compreensão da natureza da cidade histórica, isto se o objectivo for, de facto, o desenvolvimento “de um novo ( e verdadeiro) alicerce para a vida urbana.”
Falta talvez sublinhar que as novas intervenções na cidade central e na cidade periférica têm de ser, cada vez mais, de pequena escala, muito bem pormenorizadas e qualificadas no seu desenho de arquitectura e muito sensíveis aos respectivos habitantes e sítios de habitar; e nesta sensibilidade local há que privilegiar “o construir no construído”, na excelente e ampla perspectiva defendida por Francisco de Gracia (10), uma perspectiva humanizadora e de estimulante reconstrução de uma coesão (micro)urbana, que passa também por uma cuidadosa e vitalizada densificação, por uma atraente e motivadora imagem urbana e também por uma fundamentada inovação tipológica nos conjuntos de edifícios e espaços públicos.
Notas:
(1) Focus, Enciclopédia Internacional, Livraria Sá da Costa Editora, 1966, Lisboa, Almqvist & Wiksell, Estocolmo; Habitação (vol 3, pp. 57 e 58).
(2) N.º 97 da revista “Arquitectura Viva”, p. 20.
(3) Patrice Séchet, Jean-Didier Laforgue e Isolde Devalière, “L’Urbanité paysagère ou la perception des rapport ville-nature”, 1998.
(4) “Dar alma aos subúrbios e domar a praga automóvel”, artigo de Ana Henriques sobre intervenções dos investigadores Nunes da Silva (IST) e João Seixas (Universidade Autónoma de Barcelona); em Jornal Público de 4 de Fevereiro de 2005, p. 10.
(5) Spiro Kostof, “The City Assembled – The elements of urban form through history”, 2004 (1992), pp.240 a 242
(6) René Pechère, “Grammaire des Jardins – Secrets de métier”, 1995, (pp. 16 a 19).
(7) Ana Vaz Milheiro e Isabel Salema, “Entrevista com o crítico de arquitectura Kenneth Frampton - «Há um forte sentimento pela paisagem”, Público, 11 Julho 1998.
(8) Jorge Silva Melo, “Antes da vossa cidade”, em Jornal Público de 22 de Janeiro de 2005.
(9) “Criar Cidades Sustentáveis”, de Herbert Girardet, Edições Sempre-em-Pé.
(10) Francisco de Gracia, Construir en lo construido – la arquitectura como modificación. Madrid, Editorial Nerea, 1992.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Infohabitar, Ano XI, n.º 552
Dia mundial do Habitat - Cidades mais habitadas e passeáveis – Infohabitar n.º 552
Editor: António Baptista Coelho 
abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional e

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.


terça-feira, setembro 04, 2012

406 - Viver intensamente, também o exterior (artigo); e notícias do 2.º CIHEL - Infohabitar 406


Infohabitar N.º 406

Notícias do 2.º Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono – 2.º CIHEL.

As duas Chamadas de Comunicações decorreram com grande êxito até 1 julho de 2012, tendo sido submetidos um significativo total de 225 resumos de comunicações (182 na 1.ª Chamada e 43 na 2.ª).
A entrega de propostas de resumos/comunicações está, portanto, encerrada, aproximando-se a data de envio das comunicações completas, EXCLUSIVAMENTE, para o seguinte endereço eletrónico, Email: comunicacoes2cihel@lnec.pt

. Comunicação da análise/aceitação das propostas da 2.ª Chamada a partir de 14 de setembro de 2012 - será tentada a possível antecipação a esta data.
. Abertura das inscrições: data a definir em breve.
. Envio do texto das comunicações, resumo alargado e dados complementares até 22 de outubro de 2012.
. Selecção final e eventual solicitação de revisões das comunicações até 30 novembro de 2012.
. Entrega da revisão final (quando aplicável): até 15 dezembro de 2012.

Na presente edição do Infohabitar continua-se a publicação corrente da série habitar e viver melhor.

ARTIGO DA SEMANA - ARTIGO DA SEMANA - ARTIGO DA SEMANA

VIVER INTENSAMENTE, TAMBÉM O EXTERIOR
Artigo XVII, da série “habitar e viver melhor”

António Baptista Coelho

Segundo Ken Kern, "o processo de planificação da casa e do lugar deve ser conjunto, havendo a mesma consideração no desenho de cada metro quadrado de espaço interior e exterior", e o autor sintetiza esta ideia de uma forma magistral quando nos diz que"ajuda pensar na habitação e no local como um grupo coordenado de compartimentos interiores e exteriores" (1).

E é bem nesta perspectiva que Gordon Cullen lança a muito estimulante noção de "paisagem interior e compartimento exterior" (2), e parece estar aqui bem lançada a ideia de uma caracterização residencial desejavelmente interior e exterior; de certa forma uma ideia de um pequeno mundo residencial de cada um em sua casa e de pequenos mundos residenciais comuns.

É interessante pensar nesta matéria do viver intensamente, também o exterior, como uma extensão, natural, da ideia que, há alguns anos, incidiu sobre o exterior urbano, recomendando que ele fosse pormenorizado e equipado com todo o cuidado; uma ideia que esteve frequentemente associada aos muitos casos de inacabamento crítico de conjuntos urbanos e habitacionais de interesse social que aconteceram (e ainda acontecem) em Portugal, onde apenas se proporcionava “alojamento” em edifícios, esquecendo-se a componente verdadeiramente urbana do habitar, mas uma ideia que, na prática e realmente, deveria marcar todas as intervenções urbanas, associando-lhes uma componente de projecto “do negativo”, ou “do espaço entre” edifícios, que tem de ter a sua aprendizagem específica e fundamental na oferta urgente de espaços urbanos agradáveis para serem vividos – numa referência directa ao título e tema de um excelente livro que, sobre esta matéria, foi realizado por Michel de Sablet e que merece ser relido e redescoberto (3).



Fig.01: ruas de Alvalade, Lisboa; urbanismo de Faria da Costa.

E, julga-se a propósito, temos de considerar que mesmo esse objectivo “central/estratégico”de vivência plena e intensa do exterior está, entre nós, em Portugal, por regra, longe de ser atingido, quer por haver ainda muitos casos de conjuntos urbanos em que o espaço público tem o seu acabamento ou “arranjo” sistematicamente adiado, pelas mais diversas “razões”, quer por haver grandes confusões, para não dizer até ignorâncias, sobre as técnicas básicas e as soluções funcionais e formais realmente adequadas para um exterior público que tem de ser, obrigatoriamente, muito mais do que um elemento de enquadramento visual dos respectivos edifícios e/ou um espaço fundamentalmente rodoviário; e que só o sendo poderá transformar-se num exterior com claro potencial de uso.

E não é possível deixar aqui de apontar que provavelmente o principal fio condutor desse repensar urgente da importância e do papel do espaço urbano público e de uso público é a sua essencial continuidade física ao serviço dos peões, intimamente ligada à sua agradabilidade e vitalidade no uso e à sua atractividade e “imagibilidade”.

Considerando-se, assim, que o caminho não está percorrido, mas até já está traçado, é importante avançar aqui, um pouco mais, nesta matéria do viver intensamente, também o exterior, e recordemos que imediatamente antes desta matéria – em outros artigos desta série - pensámos, um pouco, nos jogos das entradas e no jogo urbano, assim como num certo jogo, no sentido lúdico e de satisfação directa, que o verde urbano traz, sem dúvida, a estes jogos, seja por mérito próprio, seja por um mérito de grande capacidade associativa com os outros elementos do jogo.



Fig.02: conjunto de realojamento na Travessa do Sargento Abílio, CM de Lisboa; projecto de Paulo Tormenta Pinto.

E pensando em tudo isto, e lembrando pequenos pedaços de cidade habitada que nos parecem felizes, pois são sítios onde o passeante errante se imagina a morar com agrado, a ideia principal que se destaca é que estamos a imaginar habitar aqueles espaços públicos específicos; e é assim que, mais do que “entrar” nas habitações que os rodeiam, imaginamo-nos a circular e a viver aqueles passeios, aquelas pracetas, aquelas esquinas e passagens e, finalmente, aquelas entradas e aquelas janelas, sempre numa relação forte e directa com aqueles espaços públicos onde existem, ainda que deficientemente, tais tipos de relações.

E esta reflexão só poderá parecer um lugar-comum, no sentido desta procura de se identificarem as principais matérias constituintes de um habitar mais adequado ou mesmo mais feliz, ou a quem não tenha, infelizmente, a sensibilidade para se imaginar viver ali, naquele agradável pedaço de bairro, naquela sossegada margem de cidade, naquela ilha de alguma paz, “perdida” no bulício urbano; ou então a quem não queira fazer um exercício simples que é imaginar a diferença que separa uma dessas situações, que nos atraem no sentido de nos levar, naturalmente, a imaginarmos poder ali viver, de tantas outras situações cujos cenários urbanos nos afastam e mesmo repugnam, ou pelos quais não sentimos qualquer tipo de simpatia ou empatia.



Fig. 03: Residencial Alexandre Mackenzie, para realojamento de parte da favela Nova Jaguaré, Prefeitura da Cidade de São Paulo / Secretaria Municipal de Habitação / Superintendência de Habitação Popular; projecto de Boldarini Arquitetura e Urbanismo - Marcos Boldarini e Sergio Faraulo (autores); paisagismo de Marcos Boldarini, Melissa Matsunaga e Simone Ikeda (autores).

E não tenhamos dúvida de que o que estamos, realmente, a apreciar e a visualizar é a perspectiva de como poderíamos viver aqueles espaços públicos, nas suas características específicas e nos seus relacionamentos, sempre “duplos”, com os caminhos ligados aos acessos às habitações e com aqueles que privilegiam as relações com a cidade mais central/viva.

Sendo assim, ficará, portanto, em evidência a importância que tem, para o nosso objectivo de sermos mais felizes com determinadas condições habitacionais, a possibilidade que podemos ter, ou que pensamos poder ter, de viver intensa e agradavelmente cada conjunto de espaços exteriores públicos que serve e integra cada agregado de habitações; e pensando assim somos quase levados a inverter prioridades em termos do investimento no habitar, o que evidentemente não é aconselhável; mas esta é, muito provavelmente, a razão que baseia o enorme impacto positivo que sempre têm acções de requalificação exterior, mesmo quando a Arquitectura da edificação tem claro sinal negativo, seja como pré-existência, seja como realidade não intervencionada.

Para concluir esta matéria da importância de se viver intensamente o exterior urbano, importa sublinhar dois aspectos: o primeiro é que este objectivo tem de incidir sobre toda a estratégia de melhor fazer o habitar e a cidade, não sendo assunto que se possa tratar num dado ítem conceptual mais específico ou confinado, pois liga-se a todo o processo de concepção urbana; e o segundo decorre disto mesmo e tem a ver com a urgente necessidade de uma renovada produção tipológica (i) do edificado (escala micro-urbana) e (ii) do espaço urbano a uma escala macro, que tem, obrigatoriamente, de dar uma nova e muito afirmada importância ao como é possível e extremamente oportuno e desejável estimular uma vida mais intensa do exterior urbano, ou dos espaços públicos e de uso público das nossas cidades e povoações – uma possibilidade que não convive com alianças fingidas entre velhas e negativas tipologias edificadas e reconversões “cegas” de espaços públicos, exigindo-se projectos realmente integrados e tipologicamente reinterpretados.

E lembrando-nos que vivemos o século das cidades e das mega-cidades, assim como o século das cidades informais, potencialmente tão marcadas por este tipo de intervenções, os referidos objectivos de vivência intensa e agradável do espaço urbano, recolhem, ainda, uma oportunidade e urgência muito acrescidas e que merecem posterior desenvolvimento.

Notas:
(1) Ken Kern, "La Casa Autoconstruida", p. 23.
(2) Gordon Cullen, "Paisagem Urbana", p. 30.
(3) Michel de Sablet, “Des espaces urbains agréables à vivre – Places, Rues, Squares et Jardins”, Editions du Moniteur, Paris, 1988.

Notas editoriais:
(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.
(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.
(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.



Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Infohabitar, Ano VIII, n.º 406
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte