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terça-feira, setembro 04, 2012

406 - Viver intensamente, também o exterior (artigo); e notícias do 2.º CIHEL - Infohabitar 406


Infohabitar N.º 406

Notícias do 2.º Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono – 2.º CIHEL.

As duas Chamadas de Comunicações decorreram com grande êxito até 1 julho de 2012, tendo sido submetidos um significativo total de 225 resumos de comunicações (182 na 1.ª Chamada e 43 na 2.ª).
A entrega de propostas de resumos/comunicações está, portanto, encerrada, aproximando-se a data de envio das comunicações completas, EXCLUSIVAMENTE, para o seguinte endereço eletrónico, Email: comunicacoes2cihel@lnec.pt

. Comunicação da análise/aceitação das propostas da 2.ª Chamada a partir de 14 de setembro de 2012 - será tentada a possível antecipação a esta data.
. Abertura das inscrições: data a definir em breve.
. Envio do texto das comunicações, resumo alargado e dados complementares até 22 de outubro de 2012.
. Selecção final e eventual solicitação de revisões das comunicações até 30 novembro de 2012.
. Entrega da revisão final (quando aplicável): até 15 dezembro de 2012.

Na presente edição do Infohabitar continua-se a publicação corrente da série habitar e viver melhor.

ARTIGO DA SEMANA - ARTIGO DA SEMANA - ARTIGO DA SEMANA

VIVER INTENSAMENTE, TAMBÉM O EXTERIOR
Artigo XVII, da série “habitar e viver melhor”

António Baptista Coelho

Segundo Ken Kern, "o processo de planificação da casa e do lugar deve ser conjunto, havendo a mesma consideração no desenho de cada metro quadrado de espaço interior e exterior", e o autor sintetiza esta ideia de uma forma magistral quando nos diz que"ajuda pensar na habitação e no local como um grupo coordenado de compartimentos interiores e exteriores" (1).

E é bem nesta perspectiva que Gordon Cullen lança a muito estimulante noção de "paisagem interior e compartimento exterior" (2), e parece estar aqui bem lançada a ideia de uma caracterização residencial desejavelmente interior e exterior; de certa forma uma ideia de um pequeno mundo residencial de cada um em sua casa e de pequenos mundos residenciais comuns.

É interessante pensar nesta matéria do viver intensamente, também o exterior, como uma extensão, natural, da ideia que, há alguns anos, incidiu sobre o exterior urbano, recomendando que ele fosse pormenorizado e equipado com todo o cuidado; uma ideia que esteve frequentemente associada aos muitos casos de inacabamento crítico de conjuntos urbanos e habitacionais de interesse social que aconteceram (e ainda acontecem) em Portugal, onde apenas se proporcionava “alojamento” em edifícios, esquecendo-se a componente verdadeiramente urbana do habitar, mas uma ideia que, na prática e realmente, deveria marcar todas as intervenções urbanas, associando-lhes uma componente de projecto “do negativo”, ou “do espaço entre” edifícios, que tem de ter a sua aprendizagem específica e fundamental na oferta urgente de espaços urbanos agradáveis para serem vividos – numa referência directa ao título e tema de um excelente livro que, sobre esta matéria, foi realizado por Michel de Sablet e que merece ser relido e redescoberto (3).



Fig.01: ruas de Alvalade, Lisboa; urbanismo de Faria da Costa.

E, julga-se a propósito, temos de considerar que mesmo esse objectivo “central/estratégico”de vivência plena e intensa do exterior está, entre nós, em Portugal, por regra, longe de ser atingido, quer por haver ainda muitos casos de conjuntos urbanos em que o espaço público tem o seu acabamento ou “arranjo” sistematicamente adiado, pelas mais diversas “razões”, quer por haver grandes confusões, para não dizer até ignorâncias, sobre as técnicas básicas e as soluções funcionais e formais realmente adequadas para um exterior público que tem de ser, obrigatoriamente, muito mais do que um elemento de enquadramento visual dos respectivos edifícios e/ou um espaço fundamentalmente rodoviário; e que só o sendo poderá transformar-se num exterior com claro potencial de uso.

E não é possível deixar aqui de apontar que provavelmente o principal fio condutor desse repensar urgente da importância e do papel do espaço urbano público e de uso público é a sua essencial continuidade física ao serviço dos peões, intimamente ligada à sua agradabilidade e vitalidade no uso e à sua atractividade e “imagibilidade”.

Considerando-se, assim, que o caminho não está percorrido, mas até já está traçado, é importante avançar aqui, um pouco mais, nesta matéria do viver intensamente, também o exterior, e recordemos que imediatamente antes desta matéria – em outros artigos desta série - pensámos, um pouco, nos jogos das entradas e no jogo urbano, assim como num certo jogo, no sentido lúdico e de satisfação directa, que o verde urbano traz, sem dúvida, a estes jogos, seja por mérito próprio, seja por um mérito de grande capacidade associativa com os outros elementos do jogo.



Fig.02: conjunto de realojamento na Travessa do Sargento Abílio, CM de Lisboa; projecto de Paulo Tormenta Pinto.

E pensando em tudo isto, e lembrando pequenos pedaços de cidade habitada que nos parecem felizes, pois são sítios onde o passeante errante se imagina a morar com agrado, a ideia principal que se destaca é que estamos a imaginar habitar aqueles espaços públicos específicos; e é assim que, mais do que “entrar” nas habitações que os rodeiam, imaginamo-nos a circular e a viver aqueles passeios, aquelas pracetas, aquelas esquinas e passagens e, finalmente, aquelas entradas e aquelas janelas, sempre numa relação forte e directa com aqueles espaços públicos onde existem, ainda que deficientemente, tais tipos de relações.

E esta reflexão só poderá parecer um lugar-comum, no sentido desta procura de se identificarem as principais matérias constituintes de um habitar mais adequado ou mesmo mais feliz, ou a quem não tenha, infelizmente, a sensibilidade para se imaginar viver ali, naquele agradável pedaço de bairro, naquela sossegada margem de cidade, naquela ilha de alguma paz, “perdida” no bulício urbano; ou então a quem não queira fazer um exercício simples que é imaginar a diferença que separa uma dessas situações, que nos atraem no sentido de nos levar, naturalmente, a imaginarmos poder ali viver, de tantas outras situações cujos cenários urbanos nos afastam e mesmo repugnam, ou pelos quais não sentimos qualquer tipo de simpatia ou empatia.



Fig. 03: Residencial Alexandre Mackenzie, para realojamento de parte da favela Nova Jaguaré, Prefeitura da Cidade de São Paulo / Secretaria Municipal de Habitação / Superintendência de Habitação Popular; projecto de Boldarini Arquitetura e Urbanismo - Marcos Boldarini e Sergio Faraulo (autores); paisagismo de Marcos Boldarini, Melissa Matsunaga e Simone Ikeda (autores).

E não tenhamos dúvida de que o que estamos, realmente, a apreciar e a visualizar é a perspectiva de como poderíamos viver aqueles espaços públicos, nas suas características específicas e nos seus relacionamentos, sempre “duplos”, com os caminhos ligados aos acessos às habitações e com aqueles que privilegiam as relações com a cidade mais central/viva.

Sendo assim, ficará, portanto, em evidência a importância que tem, para o nosso objectivo de sermos mais felizes com determinadas condições habitacionais, a possibilidade que podemos ter, ou que pensamos poder ter, de viver intensa e agradavelmente cada conjunto de espaços exteriores públicos que serve e integra cada agregado de habitações; e pensando assim somos quase levados a inverter prioridades em termos do investimento no habitar, o que evidentemente não é aconselhável; mas esta é, muito provavelmente, a razão que baseia o enorme impacto positivo que sempre têm acções de requalificação exterior, mesmo quando a Arquitectura da edificação tem claro sinal negativo, seja como pré-existência, seja como realidade não intervencionada.

Para concluir esta matéria da importância de se viver intensamente o exterior urbano, importa sublinhar dois aspectos: o primeiro é que este objectivo tem de incidir sobre toda a estratégia de melhor fazer o habitar e a cidade, não sendo assunto que se possa tratar num dado ítem conceptual mais específico ou confinado, pois liga-se a todo o processo de concepção urbana; e o segundo decorre disto mesmo e tem a ver com a urgente necessidade de uma renovada produção tipológica (i) do edificado (escala micro-urbana) e (ii) do espaço urbano a uma escala macro, que tem, obrigatoriamente, de dar uma nova e muito afirmada importância ao como é possível e extremamente oportuno e desejável estimular uma vida mais intensa do exterior urbano, ou dos espaços públicos e de uso público das nossas cidades e povoações – uma possibilidade que não convive com alianças fingidas entre velhas e negativas tipologias edificadas e reconversões “cegas” de espaços públicos, exigindo-se projectos realmente integrados e tipologicamente reinterpretados.

E lembrando-nos que vivemos o século das cidades e das mega-cidades, assim como o século das cidades informais, potencialmente tão marcadas por este tipo de intervenções, os referidos objectivos de vivência intensa e agradável do espaço urbano, recolhem, ainda, uma oportunidade e urgência muito acrescidas e que merecem posterior desenvolvimento.

Notas:
(1) Ken Kern, "La Casa Autoconstruida", p. 23.
(2) Gordon Cullen, "Paisagem Urbana", p. 30.
(3) Michel de Sablet, “Des espaces urbains agréables à vivre – Places, Rues, Squares et Jardins”, Editions du Moniteur, Paris, 1988.

Notas editoriais:
(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.
(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.
(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.



Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Infohabitar, Ano VIII, n.º 406
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte

domingo, março 18, 2012

385 - Micro investimento e sustentabilidade urbana - artigo de Paulo Tormenta Pinto e Alexandre Bastos; a 14ª Visita Técnica do Grupo Habitar; e conferências no ISCTE - IUL sobre a Arquitectura e os Gabinetes Coloniais de Urbanização - Infohabitar 385

Infohabitar, Ano VIII, n.º 385

Nota editorial:

A presente edição do Infohabitar integra, sequencialmente:

(i) a confirmada divulgação da 14.ª Visita Técnica do Grupo Habitar a uma intervenção habitacional de reabilitação de uma casa na Rua Humberto Sousa na Cidade do Montijo, obra realizada sob uma forte contenção orçamental, “através de um gesto cirúrgico que derivou de uma leitura atenta da morfologia urbana do Bairro dos Pescadores”; encontro pelas 11h 30 da Sexta-feira dia 23 de Março de 2012 na referida morada.

(ii) e um artigo do Prof. Arq.º Paulo Tormenta Pinto e do Dr. Alexandre Antunes Bastos intitulado "Micro investimento e sustentabilidade urbana - regeneração de pequenas parcelas habitacionais na cidade do Montijo", que enquadra e desenvolve a temática da referida visita.

Relembra-se que a convocatória para a 12.ª Assembleia-geral do Grupo Habitar está disponível no n.º 384 do Infohabitar - a assembleia decorrerá em 30 de Março de 2012 em Matosinhos na Sede da Cooperativa As Sete Bicas pelas 15h.00, Rua António Porto, n.º 42, 4460-353 Senhora da Hora, Matosinhos.

E aproveita-se para divulgar, no final desta edição, o programa das conferências no ISCTE-IUL nos próximos dias 21 e 22 de Março, sob o tema geral "OS GABINETES COLONIAIS DE URBANIZAÇÃO - CULTURA E PRÁTICA ARQUITECTÓNICA", que irão decorrer em ligação com a exposição «Luís Possolo. Um Arquitecto do Gabinete de Urbanização do Ultramar» - integrando o projecto de investigação com o título acima referido, patrocinado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia sob a referência PTDC/AURAQI/104964/2008: uma parceria entre o Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), o Arquivo Histórico Ultramarino e o ISCTE-IUL.

Com as melhores saudações
António Baptista Coelho
Editor do Infohabitar
abc@lnec.pt

14.ª Visita Técnica do GH - Casa na Rua Humberto Sousa, 42, Montijo

Visita Técnica à intervenção de reabilitação de uma casa na Rua Humberto Sousa na Cidade do Montijo. Esta iniciativa do GH corresponderá à sua 14.ª Visita Técnica, e os interessados ficam já convocados para o encontro no n.º 42 da Rua Humberto Sousa, perto da zona centra do Montijo, pelas 11h 30 min da Sexta-feira dia 23 de Março de 2012 - ver localização que se anexa (imagem Google Maps, Fig. 00). Por uma questão de organização solicita-se que os interessados em estarem presentes comuniquem com o editor do Infohabitar para o seu mail ou para o seu tel. 914631004.

Casa na Rua Humberto Sousa, 42 – Montijo
O projecto de reabilitação de uma casa na Rua Humberto Sousa na Cidade do Montijo foi realizado sob uma forte contenção orçamental. O projecto compreende um programa habitacional vocacionado para o arrendamento. A intervenção foi realizada através de um gesto cirúrgico que derivou de uma leitura atenta da morfologia urbana do Bairro dos Pescadores. Com o objectivo de criar iluminação e ventilação no espaço habitável, foi rasgado um pátio que estrutura o ingresso na casa. Este longilíneo vazio é caracterizado pela expressão da cortiça, que garante a eficiência térmica da habitação intervencionada, bem como da casa adjacente. O interior da casa é caracterizado por elementos arquitectónicos soltos que configuram e definem espaços: a chaminé, o balcão da cozinha, a escada, ou a mezanine. A pequena dimensão da casa transforma-se com o jogo de profundidades permitindo ver sempre algo mais nas sucessões de planos e texturas.

Ficha técnica:
Arquitectura – Paulo Tormenta Pinto
Equipa Projectista – Rosa Maria Bastos, Ivone Gonçalves e Pedro Baptista Coelho
Especialidades e Construção – Construções Vale da Rosa, Lda
Data de Projecto/Obra – 2011/2012
Localidade – Rua Humberto Sousa, Montijo



Fig.00: localização da 14.ª Visita Técnica; fonte Google Maps


Micro investimento e sustentabilidade urbana - regeneração de pequenas parcelas habitacionais na cidade do Montijo (1)

Paulo Tormenta Pinto (2) e Alexandre Antunes Bastos (3)

Palavras chave: Micro investimento, sustentabilidade, regeneração

1.Introdução
Numa conjuntura de estagnação do processo expansionista da urbanização em torno das principais áreas metropolitanas, verifica-se um abrandamento do optimismo desenfreado da construção de novos edifícios habitacionais. Esta estagnação está também relacionada com uma limitação da procura resultante da recente contenção no acesso ao crédito, imposto pela actual crise económica/financeira.

Têm sido os centros urbanos das principais cidades que têm merecido maior atenção das políticas públicas ao nível dos incentivos para o restauro, conservação e reabilitação do edificado, muitas vezes sem grande sucesso em matérias de renovação social. Um maior investimento e atenção nos centros urbanos tem deixado de parte uma enorme periferia, território que na contemporaneidade não poderá jamais ser vista com menor importância. Apesar de uma certa dimensão difusa, os territórios urbanizados em torno dos centros urbanos, sobretudo a partir da década de 70, apresentam-se hoje em dia com um enorme potencial de investimento. Neste processo deve considerar-se um crescente aumento dos níveis culturais da população associados a um menor índice de especulação.

Num cenário com este enquadramento encontrou-se um nicho de oportunidade para empreender um projecto de micro investimento que visa essencialmente a aquisição por valores reduzidos e consequente reabilitação de construções em áreas pouco especuladas, colocando-as, após rigorosos e cuidados projectos de arquitectura, no mercado do arrendamento.

Serão apresentados 3 casos de intervenção na cidade do Montijo, na margem Sul do Tejo. Nestas intervenções, para além da percepção do modelo financeiro associado às intervenções, será também possível verificar-se que, apesar da autonomia dos projectos, introduzem estes, no seu conjunto, uma possibilidade de mapear um tecido urbano que se encontra debilitado, encontrando-se uma possibilidade de regeneração também ao nível social, a qual é fundamental para a vitalidade das cidades e para a sua sustentabilidade nos mais diversos planos.

2. Situação actual do país e do sector imobiliário
A recente crise financeira, trouxe à tona uma urgente mudança de rumo do mercado imobiliário. Para Portugal grande parte do fundamento da crise corresponde à dívida externa do país para financiar o crédito à habitação. O endividamento do país e das famílias, implicou um abrandamento da procura, potenciando um olhar renovado sobre o papel do arrendamento. Em 2006, através do Novo Regime do Arrendamento Urbano (NRAU), o governo procurou introduzir um mecanismo de actualização das rendas urbanas habitacionais, promovendo o aumento da oferta de habitações para arrendar e o reequilíbrio de poderes entre proprietários e inquilinos, procurando assim relançar a confiança no mercado do arrendamento.

A necessária mudança de paradigma vem impor reflexões profundas sobre o modo como poderá existir investimento no sector imobiliário e da construção civil, sendo que as recentes medidas de austeridade introduzidas no contexto da actual crise das dívidas soberanas, agravam ainda mais a situação. Devendo, por outro lado consciencializar-se que apesar da crise económica a população se apresenta, devido ao acesso que detém à informação, com padrões elevados na procura. A somar a tudo isto novos enquadramentos sociais, superam as tradicionais famílias, para as quais desde sempre foram pensadas as políticas de habitação. Sendo muito evidente que o cenário em vivemos pressupõe um entendimento renovado e uma aposta em produtos que possam responder ao actual momento.

Do ponto de vista do empreendedor, abrem-se diversas possibilidades resultantes da combinação coerente da oferta e procura: por um lado, a situação económico-financeira de crise que tem inviabilizado o acesso ao crédito bancário para aquisição de habitação própria forçando a emergência do adormecido mercado do arrendamento, por outro, a aposta nos pequenos projectos em dimensão mas adequados às novas realidades sociais e familiares, projectos com características multicelulares e multiplicativos e que possibilitam dosear o risco do empreendedor a um esforço suportável e incremental. Por fim, a disponibilidade do parque habitacional, verdadeiro património vivo, contudo carente de intervenção regeneradora. O investidor atento e com uma visão essencialmente racional sobre qualquer oportunidade que possa surgir, aliado à visão do empreendedor com uma perspectiva de longo prazo de criação de valor, isto é de geração de riqueza, pode assim conjugar e converter factores à partida aparentemente adversos em recriação de valor com taxas de rentabilidade motivadoras e assente num coeficiente de risco moderado, mas alinhado na busca de objectivos de crescimento e valorização.

3. Sustentabilidade urbana e social
Com uma regeneração urbana integradora, conseguem criar-se mecanismos para uma sustentabilidade social. Sendo a construção civil a principal área produtiva do país, não poderá esta afastar-se em demasia da própria realidade nacional. Considerando o grosso da economia constituído por pequenas empresas, será justamente nessa franja que podem existir condimentos para dinamizar o empreendedorismo. Neste enquadramento as áreas criativas têm um papel de grande relevância, uma vez que estimulam a inovação, que no caso concreto da construção civil significa estimular o desenvolvimento tecnológico.

Será em grande medida pela via criativa que se poderão também desenvolver perspectivas que permitam reenquadrar o desígnio do espaço urbano, sobretudo nos locais em maior perda. Para tal é necessário uma fixação da população de faixas etárias mais novas. População essa que dispõe de instrumentos que lhes permitem aceder à informação, promovendo níveis elevados de exigência, muitas vezes incompatíveis com os seus recursos. Esta realidade pode comprovar-se, não só, através do aumento progressivo dos níveis de escolaridade, como também das facilidades disponibilizadas pelo mundo virtual.

4. Micro investimento
O micro investimento nas áreas do imobiliário, pode ser visto como catalisador da abertura de novas oportunidades de negócio, sobretudo na área da reabilitação urbana. Ao inverso de uma política de centralização devem as sociedades reabilitação urbanas (SRU) funcionarem como gestoras de risco de um conjunto de pequenos investidores, actuando com um leque diversificado de técnicos projectistas.

Uma acção com estas características carece de uma economia de escala, com facilidades de intervenção a serem dadas pelas autarquias e com baixo risco de investimento. A grande questão do ponto de vista urbano passa pelo entendimento da diversidade como maior valia e como via natural para intervir em áreas que, na maior parte dos casos, também emergiram a partir da própria dissemelhança.

A aprovação, por parte do Governo, referente ao novo regime de reabilitação urbana poderá dar um impulso positivo neste tipo de projectos. Começam pois a estar reunidas condições para a criação de um ambiente mais favorável à reabilitação e regeneração urbana sustentável, através de sinais que transparecem pela conjugação de um regime de estímulo fiscal e financeiro.

Embora este diploma (Novo Regime Jurídico de reabilitação Urbana – Decreto-Lei nº 307/2009, de 23 de Outubro) tenha delineado de forma muito genérica e programática as novas possibilidades de participação dos proprietários e investidores privados, através da diversificação dos modelos existentes de gestão e financiamento, poderá ser o princípio da criação e utilização de fundos de investimento imobiliário dirigidos à reabilitação urbana.

Veículos de investimento desta natureza, poderão configurar uma oportunidade para a iniciativa privada participar em operações de regeneração, nomeadamente através da subscrição de unidades de participação por via de entrega de prédios ou fracções a reabilitar, beneficiando de um conjunto de vantagens de que não aproveitariam caso optassem por reabilitar directamente os seus activos.

Por outro lado e estritamente na óptica do investidor/empreendedor, coloca-se sistematicamente a questão se a reabilitação urbana, será uma oportunidade de negócio verdadeiramente atraente numa lógica de micro investimento. A resposta é claramente positiva, sendo a análise criteriosa e cuidadosa das oportunidades de reabilitação urbana, factor chave de sucesso. A localização do imóvel destaca-se como característica crucial, devendo a sua pesquisa ser mais selectiva no caso de núcleos urbanos de cidades da periferia. São também da maior importância para quantificar o investimento e o retorno associado, questões como: a dimensão das parcelas, o tipo de intervenção e a existência, ou não de inquilinos (antes das obras).

5. Análise de casos
A cidade do Montijo teve, no decurso do século XX, uma transformação distinta de outros concelhos a Sul da área metropolitana de Lisboa. Concelhos como o Barreiro, Seixal, ou Almada foram muito consumidos por processo de industrialização, sobretudo nas áreas da transformação química, da siderurgia e da construção naval que, ainda na primeira metade do século passado, ali se instaram.

O caso do Montijo é distinto, uma vez que manteve em funcionamento como principal sector o da agricultura e pecuária, sendo a suinicultura, a produção hortícola, vinícola e florícola as suas principais fontes de riqueza. Também uma indústria transformadora tem sido relevante para o concelho, designadamente ao nível do abate e transformação de carne e de preparação e transformação de cortiça.

Estes sectores obtiveram grande expressão no concelho devido à sua localização geoestratégica às suas características ecológicas e climatéricas. Qualquer uma destas actividades adquiriu uma abrangência que ultrapassou em muito as fronteiras regionais e ainda hoje são o principal motor empresarial do concelho, sendo responsáveis pela absorção de uma importante parcela do emprego local (4), neste antigo entreposto da cidade Lisboa. Esta especificidade em termos económicos, manteve dentro de parâmetros muito controlados toda a transformação do centro urbano do Montijo, até quase ao final do século XX.

O grande surto transformador vem a surgir com a construção da segunda travessia do Tejo, a Ponte Vasco da Gama, a propósito da Exposição Universal de Lisboa em 1998, que criará novas oportunidades em termos especulativos, alterando as relações de convivência no interior do concelho. A ponte Vasco da Gama, ligando a zona norte de Lisboa ao Montijo, bem como a conclusão de importantes eixos rodoviários, colocaram o Montijo no centro do principal corredor rodoviário nacional, permitindo um acesso facilitado às principais cidades do país, às principais infra-estruturas portuárias e aeroportuárias e a Espanha. O seu posicionamento estratégico sai assim reforçado e tendo-se mostrado determinante na captação de novos investimentos, de novos projectos, muitos deles de grande dimensão, dando lugar a uma reconfiguração do tecido empresarial local, cada vez mais ligado a actividades comerciais e de serviços e com um peso decrescente do sector primário (5). Esta abertura de novas oportunidades corresponde, por outro lado a uma certa depressão da população residente que se manteve no centro, a qual se apresenta envelhecida. Se por um lado o surto transformador se referencia no momento mais optimista da integração portuguesa na Comunidade Económica Europeia, (comemorado em 1998, com a Exposição de Lisboa), por outro e paradoxalmente representa uma brusca mudança estratégica em termos económicos, já que se implementam novas políticas na área da agricultura que vêm a redireccionar este sector produtivo, enfraquecendo as estruturas existentes, diante do avanço da oportunidade de edificação de um novo círculo urbano.

O impacte deste crescimento do perímetro urbano, vem aproximar a própria estrutura edificada, maioritariamente constituída por parcelas de pequena dimensão, acaba por não conseguir impor-se como alternativa às construções modernas que em pouco tempo ocuparam a periferia do concelho em sucessivos condomínios, que se estruturam muito mais na dependência metropolitana do que na continuidade do centro urbano da cidade. As relações comerciais passam, inclusivamente a depender de um centro comercial, o Forum-Montijo, que congrega várias valências comercias em grande superfície, situando-se na confluência das infra-estruturas viárias delineadas a partir da Ponte Vasco da Gama.

É contudo no centro mais deprimido do Montijo que se implementaram os três casos de estudo que apresentamos, todos eles situados na área próxima à Avenida dos Pescadores, num núcleo urbano próximo do braço do Tejo que banha a cidade. Os projectos, sem uma relação directa entre si, estabelecem no seu conjunto um mapeamento regenerador. Todas as intervenções são realizadas com base numa contenção muito grande do custo de obra, não tendo nos caos já intervencionados ultrapassado o limite dos 30.000 euros. Destinando-se todas as casas ao mercado do arrendamento na ordem dos 400 euros/mês.




Fig. 1 Vista aérea da Cidade de Montijo com indicação das intervenções

O primeiro caso situa-se no interior de uma vila operária, denominada de Pátio do Padeiro. A acção incidiu sobre três unidades desse pátio, em fracções de aproximadamente 20 m2, dispondo as unidades de uma cobertura com uma única água. No momento de intervenção as casas apresentavam-se em ruína, correspondendo a intervenção a uma limpeza integral do seu miolo interior e manutenção da estrutura periférica constituída por paredes estruturantes de alvenaria ordinária de pedra. Os projectos para as três casas foram realizados segundo a mesma matriz, onde se procurou ampliar a área disponível através do aproveitamento da totalidade do volume das casas. Neste sentido introduziu-se uma mezanine aberta sobre o piso de entrada. A estrutura interna das casas desenvolve-se em torno de uma parede temática. É na relação com esta parede temática que se comprimem as áreas de serviço das casas (cozinha e casa de banho), sendo também em torno desta parede que se desenvolvem tensões de escala que possibilitam uma diversidade de perspectivas que de modo artificioso ampliam o espaço. A parede temática adquire a expressão da tela de fundo de um fotografo, a relevância de um cenário teatral. Uma das casas, devido à sua área foi tratada com ligeiras adaptações. Esta casa dispõe de duas paredes paralelas que se espelham, permitindo com o seu tematismo organizar, segundo uma falsa simetria, todo o espaço habitacional. Ao nível do exterior manteve-se a intervenção anónima, construindo um diálogo de continuidade com a vila existente.



Fig.2 Plantas Cortes e Alçados das casas 2 e 3 do Beco do Padeiro



Fig.3 Detalhe de casa no Beco do Padeiro (foto de FG+SG)

O segundo caso corresponde à intervenção em duas casas na Rua João Gama Lobo. Esta operação, teve como objectivo a reabilitação de um edifício de dois pisos. Como ponto de partida, foi realizada uma demolição da compartimentação interior existente e foi realizada uma reparação na estrutura, das paredes periféricas portantes e do pavimento de madeira do 1º piso, foi ainda refeita toda a estrutura da cobertura. A nova compartimentação das casas assenta numa base de separação, entre uma área mais funcional (onde se situam: quarto, instalação sanitária e cozinha) e a área de sala comum. A separação consiste numa divisão longitudinal do perímetro das casas. A escassez de área das casas implicou que a mediação entre estas duas áreas se realizasse por meio de um desnível, de 0,40m, evitando-se, deste modo quaisquer espaços de transição. Na casa do piso térreo tirou-se ainda partido de uma pequeno pátio que permite prolongar a casa. No piso 1 é a altura do pé direito, coincidente com a configuração interior da cobertura que caracteriza a casa. Ao nível exterior, tomou-se a opção de limpar a fachada de qualquer ornamento, aceitando-se mesmo o impacte das infra-estruturas apoiadas na híbrida pintura branca que agora qualifica o edifício.



Fig. 4 Planta e cortes das casas na Rua Gama Lobo


Fig. 5 Vista de casa na Rua Gama Lobo (foto de FG+SG)

O terceiro caso que apresentamos refere-se a uma intervenção de reabilitação de uma casa existente na Rua Humberto de Sousa. A intervenção foi realizada através de um gesto cirúrgico que derivou de uma leitura atenta da morfologia urbana do Bairro dos Pescadores. Com o objectivo de criar iluminação e ventilação no espaço habitável, foi rasgado um pátio que estrutura o ingresso na casa. Este longilíneo vazio é caracterizado pela expressão da cortiça, que garante a eficiência térmica da habitação intervencionada, bem como da casa adjacente. O interior da casa é caracterizado por elementos arquitectónicos soltos que configuram e definem espaços: a chaminé, o balcão da cozinha, a escada, ou a mezanine. Uma vez mais o miolo da casa existente é demolido, dando lugar a uma organização fluida, tirando-se partido do volume disponível. Com a introdução da cortiça preconizou-se o conforto do pátio e da qualidade térmica da própria casa. A pequena dimensão da casa transformou-se com o jogo de profundidades que se instalou permitindo ver sempre algo mais nas sucessões de planos e texturas.



Fig. 6 Plantas e Cortes da Casa na Rua Humberto Sousa


Fig. 7 Vista da casa na Rua Humberto Sousa (foto de PTP)

6. Conclusão
O processo de investimento em reabilitação urbana, caracteriza-se por grande complexidade, instabilidade e impacto no longo prazo, sendo o risco e a incerteza variáveis a considerar cuidadosamente. O momento actual exige uma atenção especial do sobre as possibilidades de mercado ao nível da construção civil, deste modo a reabilitação urbana surge como o campo mais possível de investimento no momento contemporâneo.

A exploração de territórios que à partida se encontram afastados dos centros mais dinâmicos criam núcleos de regeneração também ao nível social, já que permitem, tal como no caso do Montijo, inverter uma certa depressão existente em áreas com estas características. Neste contexto, o mercado do arrendamento apresenta-se como fundamental para absorver, com rendas de baixo custo, o resultado de todas estas acções.

Um tipo de acção baseada em investimentos de pequena dimensão carece de uma economia de escala. Para tornar possível a criação de escala torna-se necessário apostar na criação de um fundo que possa congregar pequenos investidores. É também necessário que a vertente infra-estrutural e de espaço público das cidades se constitua como prioridade das autarquias, garantindo que as acções no edificado possam ter suporte na sua relação com o meio envolvente.

Bibliografia,
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BAPTISTA COELHO, António – 1984-2004, 20 anos a Promover a Construção de Habitação Social, edição do Instituto Nacional de Habitação e Laboratório Nacional de Engenharia Civil, Lisboa 2006;
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DAMODARAN, Aswath (1996) Investment Valuation, Wiley Frontiers in Finance, 1996;
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HORNE, James C. Van Financial Management and Policy, Prentice-Hall, 1992;
PEYRARD, Josette, Gestão Financeira com exercícios, Dom Quixote, 1992;
WESTON, J. Fred e COPELAND, Thomas E. (1992) Managerial Finance, Dryden, 1992
Pordata Base de Dados Portugal Contemporâneo, Fundação Manuel dos Santos, www.pordata

Fichas técnica dos casos de estudo:

3 Casas no Pátio do Padeiro, Montijo
Arquitectura – Paulo Tormenta Pinto
Colaboração – Rosa Maria Bastos, Gonçalo Lencastre e Tânia Campos
Especialidades e Construção – Somassa, Lda.
Data de Projecto/Obra – 2005/2006

2 Casas na Rua João Gama Lobo, Montijo
Arquitectura – Paulo Tormenta Pinto
Colaboração - Rosa Maria Bastos
Especialidades e Construção – Construções Vale da Rosa, Lda.
Data de Projecto/Obra – 2009

Casa na Rua Humberto Sousa, Montijo
Arquitectura – Paulo Tormenta Pinto
Colaboração – Rosa Maria Bastos, Ivone Gonçalves e Pedro Baptista Coelho
Especialidades e Construção – Construções Vale da Rosa, Lda
Data de Projecto/Obra – 2011/2012

Notas:
(1) Versão reduzida e trazida em Português de “Micro investment and urban sustainability – regeneneration of small residential plots in the city of Montijo” apresentado em Gira Conference, ocorrido no ISCTE-IUL/Lisboa, de 9 a 10 de Setembro de 2010
(2) Paulo Tormenta Pinto, Arquitecto, Professor do Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), Investigador do DINÂMIA’CET-IUL, e CIAAM. Membro do Grupo Habitar.
(3) Alexandre Bastos, Gestor, Mestre em Economia, Sogenave, Sa
(4) Dados da Câmara Municipal do Montijo
(5) Idem


OS GABINETES COLONIAIS DE URBANIZAÇÃO - CULTURA E PRÁTICA ARQUITECTÓNICA
08/21/22 DE MARÇO ISCTE - IUL

Instituto Universitário de Lisboa Av. das Forças Armadas, 1649-026 Lisboa
Investigadora Responsável: Ana Vaz Milheiro, Referência FCT: PTDC/AURAQI/104964/2008

08.03.12 (10h30-12h00)
SESSÃO EXTRAORDINÁRIA
Paulo Varela Gomes – Arquitectura portuguesa no Oriente
Edifício 1 Auditório 2

SEMINÁRIO E EXPOSIÇÃO DA OBRA DE LUIZ POSSOLO Edifício 2 Sala: B104, Galeria de exposições

21.03.12 (9h30-17h00)
ABERTURA
Vasco Rato (Director do Departamento), Ana Vaz Milheiro (IR), Paulo Tormenta Pinto (CIAAM), Pedro Costa (Dinâmia_CET)

INSTITUIÇÕES PROFISSIONAIS
João Santos Vieira e Tiago Lourenço – Detecção remota: o Sistema de Informação para o Património Arquitectónico e a inventariação de património construído de matriz portuguesa no mundo, IHRU
Ana Cannas, Maria Manuela Portugal e Pedro Coutinho – Reconstituição de arquivos de obras públicas da lusofonia e o AHU/IICT, AHU/IICT
Margarida Lages – IPAD

CONFERÊNCIA
Margarida Sousa Lobo – Planos urbanos em Portugal durante o Estado Novo

ALMOÇO LIVRE

EXPERIÊNCIAS PROFISSIONAIS
Eduardo Costa Dias – Guiné-Bissau
Fernão Lopes Simões de Carvalho – Angola
Manuel Vicente – Goa e Macau
José Luís Saldanha – Luiz Possolo – Retrato biográfico de um arquitecto do Gabinete de Urbanização do Ultramar

ABERTURA DA EXPOSIÇÃO
(Porto de Honra)

22.03.12 (9h00-16h00)
INVESTIGADORES – LINHAS DE INVESTIGAÇÃO
Isabel Boavida (Caso de Timor)
João Afonso (Legislação)
Jorge Figueira (Formação internacional)
Vasco Rato (Clima e arquitectura tropical)
José Luís Saldanha (Luiz Possolo)
Paulo Tormenta Pinto (Planos urbanos e território)
Ana Vaz Milheiro (Cultura de projecto dos Gabinetes)

ALMOÇO LIVRE

CONFERÊNCIA
Alexandre Alves Costa – Arquitectura portuguesa no mundo
Café de encerramento

Notas editoriais:
(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.
(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.
(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.



Infohabitar - Ano VIII - N.º 385 - 18 de Março de 2012
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte

quinta-feira, setembro 22, 2011

362 - Sobre a humanização do habitar: algumas notas gerais - Também a propósito de uma sessão sobre o tema, no LNEC, em 29 de Setembro de 2011 - Infohabitar 362

Infohabitar, Ano VII, n.º 362

Caro leitor/a do Infohabitar

Gostaria que pudesse ler este novo artigo da nossa revista com o espírito livre, de quem passa os olhos por uma ideia: “a humanização do habitar” (habitar com um sentido amplo e verdadeiro de espaço desejavelmente habitável); que lhe será, mais ou menos, conhecida e com a qual terá, em princípio, mais ou menos, relações, seja em termos de vivência própria como habitante, seja em termos de prática profissional, seja em termos de caminhos específicos e próprios de reflexão e de estudo teórico-prático sobre o tema e/ou sobre temáticas próximas dessa “humanização do habitar”.

Peço-lhe, assim, que faça a leitura do texto que se segue desta forma, relegando o tema em subtítulo do artigo – a divulgação da sessão técnica sobre a mesma temática, que remata o texto, sob a forma de anexo – para uma atenção autonomizada e prática que acontecerá, ou não, conforme haja interesse e disponibilidade para participar connosco, no LNEC, durante a manhã do próximo dia 29 de Setembro (uma Quinta-feira), na referida sessão técnica, relativamente à qual se deixa no entanto e desde já o link para respectivo programa: http://www.lnec.pt/congressos/eventos/pdfs/STE02.pdf

Lisboa, Grupo Habitar e NAU do LNEC, em 22 de Setembro de 2011
António Baptista Coelho
Editor do Infohabitar, Dir. do Grupo Habitar (GH) Chefe do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU) do LNEC



Fig. 01

Sobre a humanização do habitar: algumas notas gerais
A propósito de uma sessão sobre o tema, no LNEC, em 29 de Setembro
António Baptista Coelho




O desenvolvimento de um habitação humanizada, com o sentido amplo de um habitar positivamente marcado pelo homem e positivamente influenciador da sua vida individual, gregária e cívica, deveria ser uma exigência básica numa sociedade que preze o seu passado e vise um futuro com valia solidária e cultural. Neste sentido e neste artigo apontam-se as seguintes áreas temáticas: as escalas e os tempos do habitar; as humanidades e o habitar; como habitar cidades mais amigas (segurança e convivialidade); a relação com a história e as tipologias do habitar; a importância do bom desenho do habitar; a integração física e social do habitar; e a importância de um sentido amplo, adequado e interrelacionado de natureza, cidade e lugar habitados.



Fig. 02


Escalas e tempos do habitar
A habitação que está também na rua e está também na praça, e as deve marcar subtilmente, e se não estiver é porque não se está a habitar a cidade e não se estando a habitar a cidade estão a criar-se problemas que, tal como uma doença não tratada, irá piorar e mesmo quando remediada, depois de se ter desenvolvido de forma crítica, deixa, frequentemente, sequelas graves.


O habitar tem de ser cumprido como um verdadeiro programa existencial e afinal até onde ele não deve ir como espaço cuidado e humanizado?

“O habitar não está limitado só ao habitat, ao universo doméstico ... O conforto este termo franglês que designa ... estar bem num sítio é um objectivo tão pertinente para o habitat como para a escola, a biblioteca, a oficina ou o ginásio ... espera-se ... que a cidade seja habitável … que o peão encontre mais do que um passeio obstruído para deambular..., que seja um espaço onde o ancião possa dispor de um banco para retomar o fôlego, a criança de um caminho protegido para ir para a escola ou a casa de outros jovens… esta habitabilidade pensada para corpos frágeis não estaria completa se a sua disposição não tivesse em conta a qualidade dos espaços atravessados, sequência de imagens percebidas ao ritmo do caminhar” (Daniel Pinson, 1996, p.96). (1)
Tal como refere Joaquín Arnau (2000) (2) “a dialética da Cidade e da Casa é a do todo e das partes. A questão do que surgiu primeiro, na história da Arquitectura, é totalmente irrelevante. Seja como for, as casas fazem parte da cidade, que totaliza o seu sentido… Em qualquer casa, no entanto, há uma certa vocação de cidade. Não é concebível uma casa isolada. Fisicamente pode ser; economicamente, não… Se a casa não é peça de cidade e subsiste .. a casa é a cidade... Peça de cidade ou pequena cidade em si mesma, cidadela, a casa traz consigo a qualidade urbana. E a Arquitectura, através da casa, urbaniza a paisagem... A cidade, como diz Alberti, é uma casa grande.”

Falámos das escalas como níveis, como camadas sobrepostas, mas, naturalmente, a escala é também desenho específico e seja numa acepção literal seja numa mais lata é realmente um conceito fundamental no espaço arquitectónico.
É assim mesmo o habitar. É e tem de ser cumprido como um verdadeiro programa existencial, como se fossem três habitar(es) interactuantes e complementares:
. público– nos espaços da cidade e destes aos espaços íntimos mas abertos das vizinhanças
. razoavelmente colectivo – nos espaços íntimos mas abertos das vizinhanças e destes até à entrada das nossas casas
. e privado, nos espaços da casa.
Lembrando o sempre essencial Norberg-Schulz pode-se dizer que para habitar em plenitude é necessário que se proporcione uma adequada capacidade de habitar como “programa existencial”, nestas três “dimensões” ou escalas e/ou tempos.


Fig. 03


Humanidades e habitar
As afinidades e as pontes entre o habitar e as humanidades; pois afinal, como salienta Eduardo Prado Coelho: “Há alguma coisa nessa actividade, que é o filosofar, que tem alguma afinidade com o caminhar” (3). E podemos nós dizer que o caminhar tem tudo a ver com o habitar, com o habitar a cidade e a vizinhança onde vivemos.
E naturalmente que o habitar se tem de ligar a uma constante e diversificada reflexão sobre os conceitos fundamentais da (re)invenção do abrigo e da definição e apropriação de espaços delimitados e protectores.
A temática da habitação humanizada é aqui tratada, sob esta faceta da relação com as humanidades, a partir do ponto de vista e com as ferramentas da arquitectura; no entanto, o que se pode considerar como uma limitação tem de ser compensado pela consideração da verdadeira importância de todo um leque disciplinar de outras ciências humanas; e a arquitectura também o é.

Mas como tratar estas matérias sem nos especializarmos em Antropologia, Engenharia(s), Filologia, Filosofia, História, Geografia, Medicina/saúde, Sociologia e Psicologia? Naturalmente teremos de encontrar os “postos avançados” dessas áreas de conhecimento que estabeleçam contactos privilegiados com as áreas da arquitectura do habitar, nesta perspectiva da humanização do mesmo habitar, que aqui nos motiva. Teremos assim de encontrar e estudar alguns desses autores/obras, e indicar esses caminhos, mas também devemos identificar nas matérias que são da arquitectura e do urbanismo, mais ligadas ao habitar, aqueles arquitectos e urbanistas, que mais têm seguido ou que mais se têm aproximado (d)esses caminhos. Esta é uma dupla estratégia capaz de assegurar a fundamental criação de pontos de encontro entre a humanização da arquitectura do habitar, pelos arquitectos, e o aprofundamento de um habitar humanizado e culturalmente bem qualificado, pelas outras disciplinas ligadas à matéria.

Afinal e tal como disse Fernando Gil (1993) (4): “Aquilo a que hoje se chama pluridisciplinaridade não é uma metodologia, é a única metodologia possível para se perceber seja o que for. E essa é a razão pela qual é necessário estar-se aberto para fora de um certo limite.”



Fig. 04



Habitar cidades amigas
Há que ultrapassar muitas das situações que hoje em dia fazem das zonas urbanas sítios inóspitos e passar a considerar as cidades como sistemas desejavelmente amigos dos humanos e designadamente daqueles mais sensíveis e desprotegidos, focando-se, especialmente, a atenção de quem tem responsabilidades nesta matéria em aspectos de apoio à acessibilidade ampla e à segurança nos espaços públicos, mas tendo-se devidamente em conta, e com idêntico rigor, que as cidades e os seus diversos espaços urbanos devem ser também amigáveis e estimulantes em termos de convívio e de riqueza cultural, e assim elas também se tornam mais amigas dos seus habitantes e visitantes.

Há assim que privilegiar uma aproximação estratégica à satisfação residencial e urbana num quadro amplo de consideração do habitar a casa, o bairro e a cidade, considerando a presença e a importância dos grupos de habitantes mais sensíveis. Deste modo chegamos ao objectivo operacional de fazer cidades e bairros amigos das crianças e dos idosos e para isso é importante conhecer o melhor possível as soluções urbanas que têm sido usadas com algum êxito nesse sentido (5).

Junta-se, em seguida, uma citação do pediatra Mário Cordeiro e do arquitecto Tiago Queiroz , que integra um excelente texto integrado no n.º 4 dos Cadernos Edifícios do LNEC (6).
“... Actualmente, o conceito de cidade e a sua prática sofreram algumas disrupções, distorções e desvios, criando novos e intensos problemas, no cerne do qual estão os sistemas de transportes, a poluição, a perda de identidades e de sentimentos de pertença, e a descaracterização do espaço público, designadamente a «perda da rua» enquanto espaço lúdico, relacional e estético.”
Por um lado é essencial que cada um, na sua vizinhança e no seu bairro se sinta rodeado por um espaço globalmente seguro, amigável e afectuoso, que se desenvolva em continuidade. Por outro lado é essencial que o critério de amigabilidade do espaço citadino habitável seja respeitador daqueles mais sensíveis a meios urbanos agrestes e perigosos. Logo, fica bem claro que os espaços urbanos e residenciais têm de ser desenvolvidos considerando-se os grupos sociais que mais carecem de protecção e de enquadramento, e nestes as crianças e os idosos sobressaem claramente.

Finalmente não pode haver dúvidas sobre a oportunidade de se pensar aqui na questão da cidade como universo de base do espaço habitável que se deseja humanizado e especialmente atraente e motivador. É a cidade/povoação, num sentido amplo e consistente, que nos interessa como quadro da humanização do habitar, pois só a cidade, e de certa forma no seu todo, pode e deve oferecer quadros globais que harmonizem o sossego, a segurança e a apropriação nos bairros e nas vizinhanças com a animação, a agradabilidade e a riqueza de um verdadeiro tecido urbano; e sublinha-se que se usa e usará aqui a designação de “cidade” com o significado de espaço urbano coeso e vivo;


Fig. 05
História(s) e tipologias do habitar

O objectivo visado quando se aponta, aqui, o caminho do estudo prático da história e das histórias das tipologias e soluções do habitar, como ferramenta de melhoria da sua mais positiva humanização nos dias de hoje, baseia-se no interesse que sempre terá uma tipologia formal e funcionalmente rica, que seja historicamente consistente, caracterizada por uma perspectiva por um lado extremamente ligada à prática dos habitares e dos sítios habitados, e, por outro lado, muito “construtiva ou orgânica”, solta de preconceitos, mas que integra a experiência da história do habitar.
E nunca nos devíamos esquecer da importância do registo do que foi bem feito e mal feito e do respectivo potencial de replicação e adequação, nunca faz sentido é actuarmos como se para trás de nós existisse uma tábua rasa de experiências e de reflexões; e, afinal, "tudo o que sei aprendi com o meu semelhante, desde o mais humilde ao mais sábio" – Júlio Resende (1917 – 201, também numa pequeníssima homenagem à sua pessoa e obra, um texto citado do site da Antena 2, no dia da sua morte).

De certa forma há aqui que sublinhar que à questão tipológica se atribui uma importância fulcral na conquista de um habitar humanizado e arquitectonicamente valioso, desde que a “velha” questão tipologia seja agora considerada e seguida numa perspectiva por um lado extremamente ligada à prática – constatação da vida das gentes nas soluções habitacionais que foram sendo inventadas – e por outro muito construtiva ou orgânica e extremamente solta de preconceitos, mas muito fiel à história e à tradição dos habitares humanos.

Nesta matéria das tipologias habitacionais as “Lições de Arquitectura” de Hertzberger (1991) (7) são fundamentais, pois ele nelas traça uma linha sequencial e bem articulada de concepção dos espaços residenciais extremamente ligada à pormenorização coerente e fundamentada da casa, do edifício e da rua/zona de proximidade, privilegiando a humanização do habitar e sublinhando aspectos verdadeiramente “construtores” de tipologias e de variações tipológicas residenciais, e designadamente:os espaços de acesso aos fogos; as vistas estratégicas sobre o exterior e sobre o interior; os espaços comuns como zonas de algum recreio ; os edifícios integrando uma estimulante variedade de acessos privados e/ou geminados, em diversos níveis e configurações; e os espaços do tipo “rua de convivência”, considerados e pormenorizados como verdadeiras “salas de estar comunitárias”
Há aqui, portanto, um léxico de “pequenos” elementos de composição do habitar que podem ser os verdadeiros protagonistas da composição de variadíssimas tipologias de habitar – e atente-se no sublinhado –, como se dos fogos e de uma sua aturada pormenorização passássemos, por exemplo, para a rua, a praceta, o pequeno quarteirão, sem uma nota de importância especial para o edifício, e note-se a carga de relação com o habitante, com a casa habitada, com o sítio “super-humanizado” que é esta casa, que desta forma se atinge.

Fica, assim, de pé, uma ideia concretizadora de um reforço da importância dos espaços privados – a casa – e públicos – a rua, a praceta, por exemplo – e de uma, eventual, possibilidade de maior apagamento do edifício, como “obra” isolada e, quem sabe, mais protagonista, bem como dos espaços colectivos desse edifício, a não ser que estes tenham condições de assumir um verdadeiro protagonismo formal e funcional, que seja considerado importante numa dada situação/solução urbana específica.
Tudo isto tem e terá, naturalmente, muito a ver com as novas formas de habitar (e as novas formas de cidade/bairro): por exemplo a habitação assistida, o trabalho habitado; a casa escritório. E em tudo isto se sublinha a grande importância da adaptabilidade, do conforto , da densidade e da verdadeira adequação a diversas situações, desejos e necessidades habitacionais; e há ainda o verdadeiro suplemento de alma e reserva de apoio à concepção, proporcionada pelas cidades e casas da imaginação e da ficção.
Provavelmente o “segredo” do melhor habitar casas e sítios de trabalho está em incentivar a permanência funcional e o mais possível agradável e estimulante das pessoas em todos esses sítios, fazendo-os, de certa forma, entrar numa positiva concorrência pela permanência/uso humanos; e na imagem apresenta-se, como exemplo desta possibilidade, um gabinete de trabalho bem habitado/habitável.


Fig. 06

Desenho do habitar

O habitar projectado tem de ser não apenas funcional, confortável e adequado a cada situação, mas também formal e ambientalmente estimulante, numa perspectiva associada ao que podemos designar de formas e espaços verdadeiramente convidativos (a tal forma convidativa defendida por Hertzberger) e, por que não dizê-lo, formas e espaços verdadeiramente hospitaleiros, no sentido de nos receberem e tratarem bem, convidando-nos a usá-los de forma intensa e prolongada.

Seja uma sala bem dimensionada e com janelas agradáveis, seja um recanto de estar numa praceta pública, seja uma rua que é tão acessível como agradável e útil; em tudo isto, para além de ter de haver variados tipos de exigências, tem de haver bom desenho, bom desenho no sentido de uma boa concepção urbana e do habitar, um desenho que seja capaz de nos oferecer as formas que têm mais afinidade para com as pessoas, e para connosco, os seus habitantes; e evidentemente isto não é nada fácil: pois se até fazer as formas de uma casa para uma família é difícil, então desenhar muitas habitações e espaço público para muitos, obriga a um elevado grau de exigência projectual, designadamente, em termos formais.
Tal como diz Herman Hertzberger nas suas Lições de Arquitectura (1991): (8)
E ainda Hertzberger nas suas Lições de Arquitectura (p.193) citando Aldo van Eyck (1962): “Faça de cada coisa um lugar, faça de cada casa e de cada cidade uma porção de lugares, pois uma casa é uma cidade em miniatura e uma cidade é uma casa enorme. O espaço deve ser articulado para criar lugares… quanto mais articulação houver, menor será a unidade espacial, e, quantos mais centros de atenção existirem, mais o efeito total será individualizante.”

Para o aprofundamento da qualidade do desenho, da caracterização e da criação de uma paisagem urbana pormenorizada, é fundamental recordar (1971) (9), Gordon Cullen, quando este nos diz que:
“Será possível manipular todos os matizes de escala e estilo, de materiais e cor, de carácter e individualidade e, justapondo-os, criar algo que seja verdadeiramente proveitoso para a colectividade” (p.12).
Que:
“As estatísticas são coisas abstractas; ao ser transportadas para planos e depois os planos convertidos em edifícios, o resultado carece de vida. O resultado não será mais do que um diagrama tridimensional, no qual se exige que a pessoa humana viva” (p.12).
Que:
“O conformismo mata, aniquila; a diferenciação, pelo contrário, é fonte de vida ... E tudo é unificado pelo fogo e pela vitalidade da imaginação humana, e assim torna-se possível fazer habitações para homens” (p.13).
E que:
“A questão essencial é que na opinião do público o planeamento oficial é frio, técnico e estéril, enquanto que na minha opinião uma boa planificação não é senão uma rua ampla e direita, com árvores de copa recortada dos dois lados... e basta! E tudo é bem diverso. A composição de um conjunto urbano é potencialmente uma das mais emotivas e variadas fontes de prazer” (p.15).

E num último desenvolvimento desta linha de pensamento, referido aos novos urbanistas - Andres Duany (2003) (10) - podemos considerar o desenho urbano como verdadeira arte cívica, o que é, sem dúvida, uma perspectiva com grande interesse.

Fig. 07


Habitar integrado: ou para ser humanizado o habitar tem de ser integrado
A velha e sempre fundamental reflexão sobre a integração encontra sítio estratégico neste leque temático que nos aproxima de uma humanização do habitar, pois sublinhamos aqui a importância que têm os diversos temas ligados à importância do reforço da integração cívica e social, da integração física e paisagística e naturalmente da integração funcional e de actividades.
Uma tripla recomendação de integração social, física e funcional dirigida para o desenvolvimento de um habitar urbano mais humanizado, e que privilegia intervenções de vitalização e de construir no construído, seja na perspectiva de uma cidade mais habitada, seja na fundamental opção de requalificação do espaço urbano e paisagístico.

Teremos assim intervenções urbanas e habitacionais mais integradas porque mais pequenas, humanizadas e embebidas nos espaços preexistentes, mas temos também um espaço urbano que precisa de micro-intervenções mutuamente conjugadas e ao serviço da continuidade urbana.
A integração, numa fundamental perspectiva geral, que vai, por exemplo, do mais puro desenho urbano de pormenor às mais funcionais preocupações com a vida diária e de convivência de tráfegos, passando pelos complexos objectivos de “acalmia” e de positiva mesclagem de grupos sociais, é uma matéria com grande diversidade de facetas, designadamente, em termos físicos, socioculturais e de dinamização de actividades.
E salienta-se que para a formalização coerente e fundamentada da arquitectura é extremamente importante este “jogo” da integração entre fogos, edifícios, espaços públicos e equipamentos.
A integração física, social e de actividades é assim uma temática totalmente ligada aos aspectos da forma da arquitectura urbana e da densidade, bem como aos associados aspectos dos respectivos conteúdos em actividades, e uma temática que está na ordem do dia, no sentido em que precisamos de aprender a fazer, bem, ruas e quarteirões citadinos, cujas formas, densidades e misturas sociais e funcionais garantam uma verdadeira sustentabilidade em termos de equilíbrio social e funcional e no que se refere a uma adequada e harmonizada animação urbana, bem ligada à essencial agradabilidade e sossego residencial, e, naturalmente, a uma adequada humanização da própria imagem urbana do conjunto, bem como da sua respectiva pormenorização; pormenorização esta que deve estar claramente ao serviço dos referidos objectivos de integração.

A ideia que fica é que, por um lado, não se tem dado o devido valor aos aspectos integrados e de muito elevada sensibilidade e complexidade física, social e funcional, implicados nas intervenções urbanas e microurbanas, e que, por outro lado, quando estas acções são consideradas a sua abordagem é frequentemente parcial ou segmentada, no que se refere aos aspectos apontados (de ordem física e formal, social e funcional), havendo alguma tendência para se dar um natural relevo seja aos aspectos mais formais, seja aos aspectos mais sociais, seja aos aspectos mais funcionais, consoante a perspectiva técnica que é mais responsável por cada estudo; por outro lado, e quando se actua em condições físicas e sociais sensíveis há muito pouco hábito de, posteriormente, se fazer uma análise cuidadosa dos resultados obtidos.
Tudo isto se refere ao não-desenvolvimento de uma intervenção integrada, em termos formais, sociais e funcionais e sublinha-se, que desta forma, pouco se poderá avançar na matéria do “construir no construído” ou do (re)habitar e revitalizar a cidade, uma matéria muito complexa, e que só tem saídas possíveis no manejar essa mesma complexidade numa perspectiva de integrações muito cuidadosas, contínuas e sequenciais de pessoas, formas e funções, construindo-se no construído e aprendendo-se, gradualmente, com as práticas.


Fig. 08

Natureza, cidade e lugar habitados
Sob este título procura-se desenvolver uma reflexão sobre a importância de uma perspectiva ecológica e humana ampla em termos do desenvolvimento de um habitar, que considere a importância do lugar, como sítio específico e com caracterização específica, cuja identidade também se afirma na relação com a cidade, as paisagens e a própria natureza, que é em boa parte protagonizada pelo verde urbano.
Poderemos ter, assim, aspectos de humanização do habitar que resultam de cuidados específicos de relação com as paisagens urbana e natural, com o verde urbano e com o evidenciar do carácter próprio que pode ter cada lugar; naturalmente que tudo isto fica embebido nas questões da paisagem, mas importa ter em conta o peso cultural e vivencial específico do verde urbano e do espírito de cada lugar; e tudo isto contribui, claramente, para a luta essencial que tem de se travar contra a massificação e o anonimato das imagens urbanas.

“É fundamental, para fazer mexer a cidade, que nos instrumentos de planificação e de planeamento estratégico quer de escala menor, se inclua a noção de paisagem, que é cada vez mais importante... o arquitecto deveria ter na sua formação esta percepção, porque a paisagem é cada vez mais uma questão de arquitectura e uma questão de cidade. A noção de paisagem urbana é fundamental.” Gonçalo Byrne (2004) (11)
Aborda-se, assim, uma perspectiva ecológica e humana ampla, que considera e articula a actual grande importância que tem – e deve recuperar – o lugar, como sítio “único”, com identidade específica, e a também actual grande importância da protecção e do protagonismo da natureza e do verde urbano.
Trata-se também de iniciar a reconciliação da cidade com a paisagem, um objectivo muito importante para a cidade de hoje e crucial para a grande cidade de hoje.

O arquitecto moderno deve, assim, “contribuir para um novo ordenamento e uma nova e significativa unidade entre a paisagem e a obra do homem”, palavras sábias e antecipadoras de Norberg-Schulz, já em 1968,
A ideia geral é que a integração, tratada atrás, é fundamental na introdução de uma coerência contextual e paisagística ligada à urgente melhoria do nosso ambiente construído e natural, enquanto a caracterização, que é agora considerada, embora incorpore matérias associadas a exigências de qualidade do ambiente e da construção, como é a matéria da ecologia do habitar, incorpora outras matérias de caracterização profunda do habitar, designadamente, em termos de escala humana e de natureza cultural, que obrigam a um aprofundado esforço de sistematização, a realizar, nomeadamente, através do estudo de casos de referência.
Afinal é difícil e é mesmo arriscado defender que os espaços de habitar ganham com uma sua adequada caracterização como sítios “únicos” e marcados por uma expressiva humanização ou relação com a presença e os testemunhos humanos, mas que, na prática, uma tal caracterização resulta em termos de atractividade e de papel urbano, é um facto que tem de ser devidamente evidenciado.

Notas finais:
Salienta-se ao leitor interessado que chegou até esta parte final do artigo, que estas temáticas que integram a ampla e interessante matéria da habitação humanizada, se integram na área científica da Arquitectura e do Urbanismo, tendo sido estudadas no âmbito de um ainda recent programa de investigação do LNEC que foi desenvolvido para ser apresentado no âmbito de uma candidatura à prestação de provas públicas a realizar para obtenção do título de habilitado para o exercício de funções de coordenação científica; o que aconteceu há poucos anos na Biblioteca do LNEC no quadro de um amplo júri multidisciplinar.
Mais se refere que o leitor encontrará este estudo integralmente publicado pela Livraria do LNEC, que é, em seguida, referida:

COELHO, António Baptista - Habitação Humanizada, Lisboa, LNEC, Tese e Programas de Investigação TPI n.º 46. Lisboa: LNEC, 2007. 574 p., 121 fig.
Este livro inclui uma síntese dos conhecimentos existentes sobre o tema, apresenta e comenta as matérias que já têm sido tratadas na temática, faz uma introdução à importância de uma decidida aproximação à humanização do habitar, considerando-se desejo, teoria e realidade e tenta apontar, sistematicamente, os problemas em aberto; sendo depois desenvolvidos, em sete capítulos, sete “temas ou projectos” de estudo que integram a grande área temática da habitação humanizada, cada um deles, naturalmente, estruturado com alguma autonomia e com uma ampla base bibliográfica própria – e foram estes sete temas que foram apontados de forma muito sintética no presente artigo.
Caso o leitor queira optar, estrategicamente, apenas, pela introdução ao tema, ela é desenvolvida numa outra publicação da Livraria do LNEC que é, também, em seguida, referida:

COELHO, António Baptista - Habitação Humanizada: Uma apresentação geral, Lisboa, LNEC, Memória n.º 836, Lisboa: LNEC, 2007 (a edição foi em 2008). 40 p., 19 fig.
É ainda possível ler sobre estas temáticas nas duas publicações que são em seguida referidas:

COELHO, António Baptista - Entre casa e cidade, a humanização do habitar. dafne editora, opúsculos - Pequenas Construções Literárias sobre Arquitectura, opúsculo 18, Porto, Julho 2009, issn1646–5253, www.dafne.com.pt/pdf_upload/opusculo_18.pdf

COELHO, António Baptista (coord.) – Cadernos Edifícios n.º 4 – Humanização e vitalização do espaço público. Lisboa, LNEC, Outubro de 2005 (Março 2006), 268 pág.

Neste artigo não serão feitas quaisquer reflexões mais ou menos integradas sobre o conjunto destas matérias associadas à humanização do habitar e do espaço urbano; elas terão de ficar para outras oportunidades, provavelmente, mais “calmas”, seja por ter passado mais algum tempo sobre o desenvolvimento deste estudo, seja por se ter tido a possibilidade de cruzar e integrar mais dados teóricos e práticos sobre estas temáticas, considerando, designadamente, experiências práticas de habitar e de cidade fora de Portugal, seja no universo lusófono, seja no europeu.
No entanto a ideia que fica é que se tratou aqui de um amplo novelo qualitativo que é fundamental ter em conta para se fazer melhor uma cidade mais habitada e agradável e para se fazer um melhor habitar, mais adequado e mais humano.


Notas do artigo
(1) Daniel Pinson, “Arquitectura e modernidade” , trad. Filipe Duarte, 2000 (1996).
(2) Joaquín Arnau, “72 Voces para un Diccionario de Arquitectura Teórica”, Madrid, Celeste Edicones, 2000, pp 20 a 26.
(3) Eduardo Prado Coelho, “O inabsorvível”, Público - opinião, 17 Janeiro 2004
(4) Fernando Gil ao Expresso de 10/12/93.
(5) Francis Tibbalds, “Making People-Friendly Towns, Londres”, 2000 (1992).
(6) Mário Cordeiro e Tiago Queiroz, “A cidade, a criança e a saúde, contributos para uma mudança de paradigmas”, Lisboa e LNEC, Cadernos Edifícios n.º4, “Humanização e vitalização dos espaços público”, Março de 2006.
(7) Herman Hertzberger, “Lições de Arquitetura”, trad. Eduardo Lima Machado, 1996 (1991).
(8) Herman Hertzberger, “Lições de Arquitetura”, 1996 (1991).
(9) Gordon Cullen, “El Paisaje Urbano – Tratado de estética urbanística”, Barcelona, 1977 (1971).
(10) Andres Duany, Elizabeth Plater-Zyberck e Robert Alminana, “New Civic Art : Elements of Town Planning”, 2003.
(11) Inês Moreira dos Santos e Rui Barreiros Duarte (entrevistadores), “Estruturas de mudança - entrevista com Gonçalo Byrne”, Arquitectura e Vida, n.º 49, 2004, p. 51.


ANEXO:
SESSÃO TÉCNICA EDIFÍCIOS – Humanização do habitar:
Caminhos para uma habitação e um habitar mais humanizados,
no LNEC, dia 29 de Setembro de 2011
Edita-se o link para respectivo programa e indicação de condições de inscrição: http://www.lnec.pt/congressos/eventos/pdfs/STE02.pdf
A sessão que decorrerá na manhã do próximo dia 29 de Setembro de 2011 no Centro de Congressos do LNEC será dirigida para a temática da humanização do habitar, numa perspectiva – já anteriormente sublinhada – que considera a própria cidade como espaço de habitar, o que nos leva a um outro título da sessão, que poderia ser, também, "cidade habitada e humanizada", talvez até mais a ideia que baseia esta sessão, embora se vá dirigir alguma atenção específica ao desenvolvimento de conjuntos habitacionais de interesse social e de realojamento adequadamente humanizados e bem integrados.
Na prática parece que começa a não haver qualquer dúvida de que uma tal humanização, tanto em termos de uma qualificada aproximação a uma escala humana funcional e de imagens, como em termos de um claro potencial de apropriação e de diálogo activo entre habitantes e responsáveis pelo conteúdo/forma urbana de partes das nossas cidades, são aspectos básicos para uma maior segurança/bem-estar e mesmo prazer na vivência dos espaços urbanos.


A concepção dos espaços habitacionais tem de ser, por um lado, razoavelmente objectiva, mas deve também considerar o desenvolvimento de soluções residenciais marcadas pelo homem e pelo espírito humano. Essa primeira linha de um habitar “quantitativamente” positivo (dimensionamento e programação funcional), tem sido desenvolvida no LNEC e designadamente no seu Núcleo de Arquitectura e Urbanismo desde há mais de 40 anos. A segunda linha de aspectos, considerados menos objectivos, da qualidade habitacional liga-se, por um lado, ao respeito pelo ambiente/paisagem e, por outro, aos aspectos emocionais, identificadores e humanizadores que devem marcar o habitar humano, numa perspectiva que na sociedade de hoje, repetitiva e anónima, é cada vez mais pertinente.
O estudo dos aspectos que podem caracterizar uma habitação humanizada foi desenvolvido no âmbito de um programa de investigação realizado no Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU) do LNEC, há poucos anos e editado pela Livraria do Laboratório. O desenvolvimento desse estudo considerou um amplo leque de temáticas, que se procurou estruturar nas seguintes matérias: as escalas e os tempos do habitar; as humanidades e o habitar; como habitar cidades mais amigas (segurança e convivialidade); a relação com a história e as tipologias do habitar; a importância do bom desenho do habitar; a integração física e social do habitar; e a importância de um sentido amplo, adequado e interrelacionado de natureza, cidade e lugar habitados.
Naturalmente que para este desenvolvimento do tema da humanização do habitar contribuiu, de forma muito equitativa, quer a ampla base teórica e documental que temos vindo a estruturar no NAU do LNEC, desde há dezenas de anos, quer o conhecimento aprofundado sobre casos concretos de promoção habitacional em Portugal que temos tido o privilégio de ir desenvolvendo também ao longo do último quarto de século – destacando-se aqui o conhecimento sobre a promoção de habitação de interesse social (municipal, cooperativa e privada). Este conhecimento permite, por um lado, debater e sustentar pela prática os desenvolvimentos mais teóricos e proporciona um rico manancial de casos práticos de referência em termos de expressiva humanização do habitar e do espaço urbano.


Programa geral da Sessão:
(1.ª Parte) Numa primeira parte da sessão serão abordadas, pelo Arq.º António Baptista Coelho, as seguintes temáticas: as escalas e os tempos do habitar; as humanidades e o habitar; como habitar cidades mais amigas (segurança e convivialidade); a relação com a história e as tipologias do habitar; a importância do bom desenho do habitar; a integração física e social do habitar; e a importância de um sentido amplo, adequado e interrelacionado de natureza, cidade e lugar habitados.
(2.ª Parte) Numa segunda parte da sessão – após um pequeno intervalo – serão apresentados e comentados alguns casos práticos de referência em termos de expressiva humanização do habitar, tendo por base o conhecimento de muitos anos de promoção de habitação de interesse social.
(3.ª Parte) Em seguida, sociólogo João Lutas Craveiro comentará o tema numa visão integrada do «habitar» como «habitat» humano, salientando, provavelmente, aspectos de relação entre ambiente, território, qualidade de vida e bem-estar das populações. Finalmente, o Arq.º Paulo Tormenta Pinto comentará, provavelmente, numa perspectiva de sensibilidade de escalas e integração, algumas obras suas, designadamente um conjunto de habitação de interesse social que foi premiado e uma recente intervenção num bairro considerado “crítico”.
(4.ª Parte) A sessão será encerrada com um período para questões e debate.


Esta Sessão Técnica terá lugar no Centro de Congressos do LNEC, na manhã da Quinta-feira dia 29 de Setembro de 2011 entre as 9:30 e as 13:00 h (podendo prolongar-se, eventualmente até às13.30 h.
Docência:
Doutor Arq.º António Baptista Coelho, Investigador Principal com Habilitação do LNEC/DED/ Núcleo de Arquitectura e Urbanismo.
Prof. doutor João Lutas Craveiro, Investigador Auxiliar do LNEC/DED/ Núcleo de Ecologia Social.
Prof. doutor Arq.º Paulo Tormenta Pinto, Professor Auxiliar do Departamento de Arquitectura e Urbanismo, ISCTE-IUL.


E volta a editar-se o link para respectivo programa e indicação de condições de inscrição: http://www.lnec.pt/congressos/eventos/pdfs/STE02.pdf


Notas editoriais:
- Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.
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Infohabitar, Ano VII, n.º 362
22 de Setembro de 2011
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte