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sexta-feira, outubro 19, 2007

162 - Promoção da Qualidade do Habitar, Coimbra 11 de Outubro de 2007 - Infohabitar 162

  - Infohabitar 162

Promoção da qualidade do habitar


O Grupo Habitar (GH) e o Gabinete para o Centro Histórico (GCH) da Câmara Municipal de Coimbra asseguraram na passada tarde do dia 11 de Outubro de 2007, na Sala Polivalente da Casa Municipal da Cultura um encontro técnico sobre o tema “promoção da qualidade do habitar”.

Este encontro integrou o programa da "Quinzena Portuguesa da Habitação" desenvolvida no âmbito da Presidência Portuguesa da UE com o apoio da Secretaria de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades e Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU), e o enquadramento do CECODHAS.P/ Comité Português de Coordenação da Habitação Social e seus associados.

Neste nosso Infohabitar e desde a passada semana já está disponível uma das intervenções deste encontro onde se aborda a matéria da promoção da qualidade do habitar, hoje em dia, nesta nossa Europa, ainda no início do século XXI é que pondera um pouco, de forma sintética, sobre aspectos, uns mais quantitativos e outros mais qualitativos, uns mais globais e temáticos e outros mais práticos, mas todos bem ligados à “qualidade do habitar”.

Esta semana e bem na tradição do Grupo Habitar, que quer sempre acrescentar/registar mais um pouco relativamente ao que se vai discutindo e sublinhando em sessões e visitas técnicas, faz-se um apontamento, que é sempre pessoal, de algumas das matérias e ideias que foram apresentadas e discutidas neste encontro técnico, aproveitando-se para acompanhar com algumas imagens do mesmo encontro – algumas destas imagens foram gentilmente facultadas pelo Gabinete para o Centro Histórico (GCH) da Câmara Municipal de Coimbra.



Fig. 01

Desde já se sublinha que, em seguida, não se faz nenhum relato circunstanciado do que foi dito pelos diferentes intervenientes, mas somente um “passar a limpo” de notas tiradas na altura, mas naturalmente “filtradas” por quem as ouviu e apontou; procurou-se, naturalmente e no entanto, a maior fidelidade às opiniões expressas nas diversas intervenções e, por facilidade de trabalho, associaram-se às intervenções muitos aspectos que decorreram dos amplos períodos de debate que marcaram a conclusão dos dois períodos de trabalho em que se dividiu o Encontro/Workshop.

Pelas imperfeições, faltas de fidelidade ao que foi referido e esquecimento de aspectos considerados importantes pelos autores, este relator informal apresenta, desde já, as devidas desculpas e, evidentemente, coloca esta revista, à disposição dos mesmos para uma adequado esclarecimento e desenvolvimento destas e de outras ideias. Ao longo do texto que se segue e entre aspas procurou-se sublinhar algumas opiniões e ideias específicas que foram expressas pelos intervenientes; e desde se apresentam a estes intervenientes as devidas desculpas pelas imperfeições e inexactidões que caracterizam estas notas, bem como pelo seu carácter sintético que, de forma alguma, é fiel ao discurso corrido e bem articulado que caracterizou as suas intervenções.


A sessão foi aberta com a intervenção do Dr. Carlos Encarnação, Presidente da Câmara Municipal de Coimbra.

Fig. 02


O Dr. Carlos Encarnação sublinhou que tudo o que se refere ao habitar tem a sua atenção pessoal e que nesta matéria se destaca actualmente a questão da reabilitação, para a qual defendeu que o Estado tem que desenvolver um leque completo de mecanismos de apoio, também do ponto de vista fiscal e associados, designadamente, ao acto de reabilitação voluntária.

Salientou também a grande importância que para ele têm os aspectos de desenvolvimento de um adequado conforto ambiental e de uma adequada dignidade nas condições de habitabilidade. E afinal “é no Centro Histórico que está o grande tesouro da cidade de Coimbra” e o “grande objectivo é a rebilitação do Centro Histórico”, uma tarefa muito grande que o Governo tem de apoiar num registo de melhoria e de continuidade de medidas de apoio, e com um mínimo de demoras legislativas.

Seguiram-se as palavras do Eng. Defensor de Castro, Director da Delegação no Porto do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, que representou a Secretaria de Estado do Ordenamento do Território e Cidades.

A sequência de intervenções temáticas foi iniciada com a intervenção do Presidente da Direcção do Grupo Habitar e Chefe do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, intervenção esta que está já disponível no Infohabitar desde 11 de Outubro e que se refere a um panorama global, mas objectivo, sobre uma série de aspectos a ter em conta na qualidade do habitar, neste novo século nesta nossa Europa.


Fig. 03

A promoção da qualidade do habitar, na perspectiva da investigação e do projecto foi o tema apresentado pelo Professor Arq. Manuel Correia Fernandes, da FAUP, Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto e membro fundador do Grupo Habitar.

Manuel Correia Fernandes sublinhou que “a primeira reinvidicação do homem é ter espaço”; o ter mais espaço é um desejo que se mantém inciso no adn de todos nós, mas o espaço não é o mesmo para todos nós e em todo o mundo, pois a “casa refúgio” pode ter 50m2 desde que, por exemplo, a 20 minutos a pé existam diversos elementos citadinos; o que leva a considerar o que poderão ser/ter uns tais 20 minutos a pé aqui em Portugal, em diversos locais do País, em outras zonas da Europa (ex., na Dinamarca), e na África, por exemplo.

Referiu a possibilidade de se estar a assistir, actualmente, a um possível retorno da referência à necessidade de “um habitar para o grande número”, um conceito que ele prefere ao de “habitação social”.

Defende que os tempos mudaram, as coisas mudaram, as pessoas mudaram, e é assim importante mudar, também, o conceito de “um habitar para o grande número”, acrescentando-se novas noções qualitativas à “velha” quantidade, e portanto ultrapassando os aspectos essencialmente quantitativos de uma qualidade do habitar que sempre esteve muito associada ao que se passava na casa de cada um, acrescentando-se/sublinhando-se, designadamente, a crucial noção de se habitar, de facto, a rua, o bairro e a cidade.

Porque “a rede que sustenta o espaço do habitar é um contínuo”, e este contínuo está hoje em risco. Porque há aspectos que devem ser considerados e lidados com grande cuidado e efectividade (diria eu também afectividade), e entre os quais se destacam as matérias da segurança e da felicidade, segurança e felicidade que fazem sociabilidade e que estão ou devem estar na rua da cidade; e foi lá que ele também viveu a sua infância e juventude (assim como tantos de nós).

E Correia Fernandes lembrou o comentário de um habitante de Beirute, quando esta cidade se transformou em cenário de guerra e de insegurança, e que dizia que “hoje as crianças aprendem na rua porque a escola já não existe.”

Mas hoje a praça foi em grande parte substituída pela rotunda, o mar pelo resort, o quarteirão e o bairro pelo condomínio.

E, hoje, outras culturas chegam até nós o que leva à necessidade de disponibilização de diferentes espaços adequados a diferentes necessidades.

E “as novas tipologias estão constrangidas por morfologias estáticas” que não proporcionam saídas; um aspecto que, pessoalmente, considero crítico.

E assim assiste-se a a “uma nova guetização das cidades”, que, pelo contrário, deveriam “abrir espaços à/para a diferença”, pois “precisamos de novos paradigmas ... precisamos de voltar á estaca zero” numa activa recusa de uma sociedade consumidora excessivamente massificada num contexto aparente de plena liberdade.

E entre tais novos paradigmas salienta-se a fraternidade, e aqui há que questionar se a rua é ou não é o espaço mais paradigmático da cidade; e é preciso rever conceitos de concepção, de desenho e de uso desse espaço “que é o que faz passar da casa para a sociedade”. “E continuamos a desenhar a rua para os automóveis e, no entanto, a afirmar que a rua é para as pessoas.”

E aqui não resisto a citar um pequeno texto de Allan Jacobs inserido numa recente newsletter do PPS – Project for Public Spaces:

“If we can develop and design streets so that they are wonderful, fulfilling places to be – community-building places, attractive for all people – then we will have successfully designed abou tone-third of the city directly and will have had na immense impact on the rest.”


Fig. 04

A promoção da qualidade do habitar, na perspectiva da investigação e da construção foi a matéria desenvolvida pelo Eng. José Teixeira Trigo, especialista do LNEC e membro de honra do Grupo Habitar.

José Teixeira Trigo sublinhou a importância que tem a satisfação das exigências do cliente/utilizador na promoção da qualidade do habitar.
Defendeu que tudo deve confluir em tal sentido: da experiência, ao ensino, à investigação e ao projecto ligados à obra nova e à reabilitação. E há também um aspecto essencial que é a verdadeira identificação e caracterização dos utilizadores, assim como do período de utilização.

E aqui há uma noção do habitar “como um bem construído” que convém mudar para um conceito de bem associado ao serviço de habitação ou ao serviço do habitar, resultando num produto (que terá muito pouco a ver, digo eu, com um produto de consumo).

Como é que vamos propiciar que este bem preste o serviço mais adequado? É nesta questão que se situa a matéria da busca pela qualidade do habitar, que há que tratar não como objecto, mas como serviço. Por exemplo “ao nível municipal há que assegurar que as habitações existentes numa dada povoação prestam o serviço social que delas se espera”.

Trata-se, assim, não apenas de “construir” mas de satisfazer expectativas legítimas: do utente/cliente; dos trabalhadores associados ao sector; e dos responsáveis pelo sector (ex., os sócios accionistas no caso de se tratar de uma empresa). No caso do habitar há que satisfazer as expectativas dos habitantes (utilizadores), dos proprietários e da sociedade (da vizinhança e do bairro) – interesses que se expressam em períodos entre 10 a 30 anos. E nesta matéria sublinha-se que as pessoas com mais reduzido nível económico são as que mais são agredidas no pensar “apenas” as suas necessidades consideradas, essencialmente, como aquelas necessidades mais directas.

E nas escolhas que há que fazer por vezes tem de haver coragem para demolir partes do existente para que o que fica tenha uma qualidade adequada, “para que o resto, possa ter qualidade” ou converter realidades em novas realidades (ex., fogos que se agregam e geram novos fogos).

Afinal é preciso que algo mude para que o essencial e fundamental se possa manter, e há que realizar alianças estratégicas entre a ciência, a tecnologia e a sociedade, diversificando respostas e tendo naturalmente presente que a casa nada tem a ver, por exemplo, com um telemóvel que dura dois anos, é algo que estará cá pelo menos 50.

Nesta matéria é necessário alargar o conceito de ciências bem para além das consideradas exactas, e bem dentro das matérias humanas, de gestão, jurídicas, etc. E nesta matéria há que ter muito cuidado com o modo como se fazem leis, tantas vezes num divórcio da prática e sem acompanhamento da sua aplicação.

Considerando a realidade das nossas cidades Teixeira Trigo defende que houve uma densificação constante do casco histórico das mesmas ao longo dos séculos XIX e XX ; e, consequentemente, há problemas específicos de acessibilidade, segurança contra risco de incêndio e salubridade que têm de ser encarados, considerando que cada caso é um caso e que, por exemplo, há casos de intervenções em determinadas ruas que são inviáveis a não ser num quadro mais vasto – opinião que foi também partilhada por Manuel Correia Fernandes.

E Correia Fernandes também referiu que há também o próprio “direito à ruína”, pois há edifícios que podem ter um excelente papel urbano como ruínas.

Seguiu-se um debate e um pequeno intervalo.



Fig. 05

A segunda parte da sessão foi iniciada com o tema da promoção da qualidade do habitar na perspectiva do projecto de arquitectura e da investigação, tema abordado pelo Professor Arq. Paulo Tormenta Pinto, Presidente do Departamento de Arquitectura e Urbanismo do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa e membro fundador do Grupo Habitar.

Paulo Tormenta Pinto apresentou um caso concreto no Montijo de reabilitação e total reconversão interior de três pequenas casas, numa acção realizada com um orçamento muto contido, “num olhar renovado sobre a fotografia” e numa acção sobriamente exemplar que tem lugar “nos recônditos da cidade” da “cidade que herdamos”; uma cidade marcada pela especulação e pela cidade periférica.

Tormenta Pinto também sublinhou que a reabilitação não se esgota na reabilitação habitacional, pois faltam na cidade histórica espaços para integrar elementos urbanos que são necessários à cidade e aos cidadãos, e nestes aos grupos de cidadãos mais sensíveis como os idosos e as crianças.

Referiu ainda que importa estudar o impacto da reabilitação na vida moderna, percebendo-se, por exemplo, o que é o habitar dos idosos nos seus sítios de vida, nas suas dificuldades em termos de acessibilidades e de movimentação, em casas espacialmente exíguas e mal equipadas e em zonas, por exemplo, sem Centros de Dia e com reduzidas acessibilidades e sem espaços para introdução de novos equipamentos.


Fig. 06

Seguiu-se a intervenção sobre a temática da promoção da qualidade do habitar, na perspectiva municipal de vitalização dos centros urbanos, uma intervenção que coube ao Eng. Sidónio Simões, Director do Gabinete para o Centro Histórico (GCH) da Câmara Municipal de Coimbra – Gabinete este que foi o principal parceiro do GH na organização desta sessão técnica.

Sidónio Simões falou sobre a acção diária do GCH da CM de Coimbra, sublinhando a vontade de se contribuir para acabar “com a fúria construtiva”. Têm sido muito pragmáticos, têm usado a ficha do NRAU, feita pelo LNEC, privilegiaram a consolidação do edificado (coberturas e paredes), feita pela CM, mas que depois induz investimentos por parte dos proprietários.
Referiu também a grande importância que tem o poder usar uml eque de boas soluções práticas e salientou a importância da ventilação e da qualidade do ar quando se trata de espaços domésticos e públicos frequentemente exíguos.
Sobre as tipologias salientou que os pequenos T0 e T1 não são adequados para fixar famílias.

Globalmente defendeu que os custos da reabilitação dos centros históricos podem ser reflectidos na comercialização de fogos sem lucros,isto numa primeira fase de actuação. Procurando-se a aproximação a fases seguintes em que os centros históricos possam entrar numa lógica de valorização (como já acontece em muitas cidades europeias como por exemplo Pádua).

Relativamente ao espaço para equipamentos uma acção integrada no âmbito de uma estrutura do tipo SRU poderia ser uma solução, procurando-se a escala do quarteirão para este tipo de actuação (como acontece por exemplo em Toulouse e em Paris).

Em todas estas matérias e considerando que, realmente, a decadência leva à criminalidade, o Estado acabará por poupar em acessibilidades, em segurança pública e em recursos, se optar por um claro poio à reabilitação urbana, pois se calhar a política da reabilitação é a mais transversal actualmente.

Reabilitar é: não gastar novo solo; é reduzir emissão de gases em acessos diários a partir e para a periferia; é melhor gestão de recursos, pois basicamente fundações e paredes estão já lá; é dinamizar turismo; é potenciar adesão ao transporte público; é apoiar a revitalização do comércio tradicional; e é aumentar a segurança natural no espaço urbano. E Sidónio Simões propõe a ideia de 25% de apoios a fundo perdido para a reabilitação; pois os custos da reabilitação dos centros urbanos acabam por ser globalmente menores do que os custos associados à construção nas periferias. E sublinhou que em Coimbra há já acções integradas (ex., Pantufinhas/pequenos veículos de transporte público gratuitos, com Parques auto localizados).

Na frente do licenciamento municipal foi sublinhado que no GCH se aprecia um projecto no Centro Histórico mais rapidamente do que na periferia da cidade, através de um coordenador que acompanha tora a tramitação do respectivo processo. E assegura-se a coordenação de todas as obras no Centro Histórico, em termos globais, pois ele só aceita 12 estaleiros em simultâneo.


Fig. 07

Seguiu-se a intervenção sobre a temática da promoção da qualidade do habitar, na perspectiva da iniciativa empresarial, uma intervenção assegurada pelo Dr. Luís Ferreira da Silva, membro da Direcção da AECOPS, Associação de Empresas de Construção e Obras Públicas e membro fundador do Grupo Habitar.

Luís Ferreira da Silva sublinhou que a reabilitação é um processo complexo, designadamente, no próprio desenvolvimento das obras, uma situação que está, felizmente, cada vez mais simples e associada a menores custos, através de novos materiais e sistemas de construção.

Relativamente ao habitar em geral defende que continua a haver discrepâncias entre o que é frequentemente oferecido em termos de condições habitacionais e o que as pessoas desejam – por exemplo ao nível da espaciosidade.
A questão das acessibilidades em termos da articulação entre automóvel privado e transportes públicos é algo que está ainda bastante mal resolvido, sendo crítica nos cascos históricos.

Luís Ferreira da Silva também sublinhou que a crise que afecta a construção nova e periférica leva a um potencial de descida de preços na habitação, condição esta que ainda mais afecta a oferta de habitar reabilitado em zonas históricas. E a isto ainda acresce uma tendência dos locais de trabalho saírem das zonas urbanas.

Os impostos afectam muito fortemente a construção de habitação e se juntarmos o preço do terreno então é fácil encontrar situações em que estes dois factores ultrapassam claramente o custo de construção. A especulação acontece essencialmente no passar de solos rústicos a urbanos e muito pouco em solos urbanos.

A sustentabilidade tem de ser: económica; humana/social; ambiental; funcional; e urbana, relativamente aos potenciais impactos nas áreas vizinhas. E, finalmente, em termos de novas formas de habitar há aspectos a considerar, po exemplo ter em atenção matérias funcionais fundamentais (ex., tratamento de roupa), envidraçados generosos, ventilação adequada, acessibilidade, etc.



Fig. 08


A promoção da qualidade do habitar na perspectiva da iniciativa cooperativa foi o tema da intervenção de Guilherme Vilaverde, Presidente da FENACHE, Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica e membro fundador do Grupo Habitar.

Guilherme Vilaverde fez uma viagem sobre a realidade da cooperação habitacional portuguesa, no âmbito das cooperativas filiadas na FENACHE, apontando os muitos fogos feitos e em desenvolvimento. A Federação conta com 72 cooperativas e realizou 160.000 fogos para 600.000 pessoas, portanto cerca de 6% da população; as cooperativas integradas na FENACHE contam, actualmente, com cerca de 50.000 inscritos, que aguardam novos programas habitacionais.

Sublinhou que, em cada cooperativa, os membros participam e definem soluções de habitar com a respectiva Direcção e seus técnicos relativamente à promoção em que estão inscritos e visando-se um serviço habitacional completo e alargado a equipamentos sociais e serviços, incluindo ainda actividades que valorizam a vivência habitacional, designadamente, nas matérias do convívio e da cultura.

Sublinhou também o carácter não lucrativo do movimento cooperativo habitacional e as suas múltiplas potencialidades cívicas, bem como todo o leque de serviços habitacionais e urbanos que têm sido oferecidos pelas cooperativas de habitação.

Referiu ainda o recente esforço do movimento cooperativo nas áreas da sustentabilidade ambiental e da reabilitação urbana e habitacional, neste caso aliada à completação e regeneração de um símbolo da história da arquitectura habitacional de interesse social, em Portugal, o conjunto da Bouça com projecto de Siza Vieira. Mas também sublinhou as grandes dificuldades que as cooperativas têm atravessado para tentar harmonizar este caminho da reabilitação com o do fundamental controlo de custos.

E partilhou a opinião de Sidónio Simões relativamente a uma contabilização de vantagens associadas à intervenção na cidade histórica, uma contabilização que deve levar á conclusão sobre o verdadeiro investimento que o Estado pode e deve fazer se apoiar especificamente a reabilitação em Centros Históricos.

Seguiu-se um debate alargado.



Fig. 09

O encerramento dos trabalhos foi assegurado pelo Dr. Paulo Atouguia Aveiro, Presidente do CECODHAS P , Comité Português de Coordenação da Habitação Social e Presidente dos Investimentos Habitacionais da Madeira (IHM).

Paulo Atouguia referiu, entre outras ideias, que ao promoverem-se encontros sobre a qualidade do habitar não se deve esquecer a quantidade de habitação que é ainda necessária, porque o mercado não conseguiu resolver as carências de habitação de interesse social; e sublinhou também que há que equilibrar as carências quantitativas com uma fundamental qualidade, não mais se aceitando situações como as que estão hoje evidentes em “habitação social” apenas com cerca de 30 anos e que, provavelmente, acabará por ser demolida; pois “o que for feito tem de ser bem feito”.


Termina-se este relato informal com os necessários agradecimentos públicos:

- ao Dr. Carlos Encarnação, Presidente da C. M de Coimbra, ao Eng. Defensor de Castro Director da Delegação no Porto do IHRU, ao Eng. Sidónio Simões, Director do GCH da C.M. de Coimbra, ao Dr. Paulo Atouguia Aveiro, Presidente do CECODHAS P, e dos Investimentos Habitacionais da Madeira (IHM), à Drª Luísa Ganho do GCH e ao Dr. António Mesquita do IHRU;

- e a cinco membros fundadores do Grupo Habitar, que refiro na ordem das suas intervenções: o Arq. Manuel Correia Fernandes, professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, o Eng. José Teixeira Trigo, ilustre especialista do LNEC, o Arq. Paulo Tormenta Pinto, Presidente do Departamento de Arquitectura e Urbanismo do ISCTE, o Dr. Luís Ferreira da Silva, membro da Direcção da AECOPS, Associação de Empresas de Construção e Obras Públicas e Guilherme Vilaverde, Presidente da FENACHE, Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica.

Sem todos eles não teria sido possível a excelente tarde de debate vivo que aconteceu em Coimbra.

quinta-feira, junho 14, 2007

144 - Palestra de Teixeira Trigo no LNEC – notas de António Baptista Coelho - Infohabitar 144

 - Infohabitar 144


50 Anos de Engenharia – Reflexões sobre Ética e Qualidade

Notas sobre a “aula” de José Teixeira Trigo


Engenheiro Civil, Investigador Coordenador do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, na Sala 1 do LNEC, em 29 de Maio de 2007.
Os apontamentos que se seguem, são apenas isso: “apontamentos” pessoais relativos à palestra de Teixeira Trigo, acima devidamente registada.
Naturalmente que estes apontamentos foram “passados a limpo” e corrigidos no sentido de não conterem, em princípio, grandes desvios do discurso proferido, uma correcção feita com base em notas do próprio Teixeira Trigo, que gentilmente as disponibilizou. No entanto, sublinha-se que se procurou realizar uma “leitura” pessoal do que foi ouvido na “aula”, esperando-se que o próprio Teixeita Trigo possa vir a rever as suas notas para então dispormos da versão integral da sua última “lição” no LNEC, como funcionário desta casa, mas também da primeira “lição” das muitas que dará neste seu início de uma nova etapa do seu logo e rico percurso de vida e de ensino.



Fig. 01
Logo de início Teixeira Trigo referiu que não pretendia fazer uma ligação entre as principais experiências da sua vida e os aspectos de ética de qualidade, escolhidos como tema-base desta palestra, um tema que sublinhou ter também abordado em outras suas intervenções no LNEC e na Universidade Lusófona.

Destacou que considera que a actividade humana se pode desenvolver no quadro de três tipos de conceitos e objectivos: a lógica, que referiu ser muito cara à engenharia, a estética, e a ética.
Mas por se tratar da actividade humana e devido à natureza específica de cada uma desta matérias, desde sempre houve “zonas cinzentas”, por exemplo na ética e Trigo destacou que é fundamental desenvolver uma preocupação crescente com o que está bem ou mal, sendo cada vez mais necessária a introdução de princípios éticos na engenharia; pois, como referiu, “ a actividade de engenharia é de confiança pública.”

Referiu haver princípios e valores estáveis, que servem e deverão sempre servir de referência e que se devem associar, naturalmente, aos códigos de conduta profissionais. Valores que o marcaram, na sua formação, desde pequeno e até à Faculdade de Engenharia, no Porto. E Trigo salientou entre tais valores imutáveis, em primeiro lugar, a protecção da vida humana, e, depois, a protecção da saúde e, finalmente, a protecção dos bens.



Fig. 02
Mas, de forma distinta destes valores de referência, noutros aspectos Trigo considera que tem havido significativas mudanças, tendo salientado os seguintes:

- Relativamente ao conforto e ao bem-estar, cuja interpretação tem variado com o tempo, havendo um crescendo de matérias associadas.

- No que se refere à preocupação para com o património edificado, que Trigo sublinha ser recente, tendo exemplificado com o que foi a destruição da Alta de Coimbra, feita à luz de princípios urbanísticos da época e com a frequente demolição de construções que valem pelo seu conjunto.

- Nas matérias relativas à protecção e à defesa do património ambiental, uma matéria também recente, com cerca de 20 anos; o que fica evidenciado pelo estudo dos códigos de conduta da engenharia e do número de referências a esta a e outras matérias que constam das diversas versões, por exemplo, do Estatuto da OE (entre 1982 e 1998 as referências ao ambiente passaram de uma para sete).

- No que se refere à temática/problemática da qualidade de vida, que tem sido objecto de recentes e significativas evoluções, embora Trigo também sublinhe que já da “Utopia” de Thomas More (Século XVI) constem preocupações com a vida terrena; e portanto não foi este um tema “descoberto” no século XIX.

- No que se refere a aspectos que estão muito ligados a especificidades culturais e regionais, e nesta matéria e a título de exemplo, Trigo lembrou a oconceito de corrupção, que considera ainda muito integrado e assumido de forma menos correcta em algumas sociedades, que a terão de ultrapassar para conseguirem um adequado desenvolvimento.



Fig. 03
Finalmente, e ainda nesta sequência de reflexões sobre conceitos que têm sofrido alguma mutação e que são estruturalmente dinâmicos, embora, também, em boa parte sempre marcados por essenciais preocupações de boa-prática, e desejavelmente dos referidos aspectos de lógica, estética e ética (perdoe-se esta pequena consideração do autor destas linhas), Teixeira Trigo avançou no conceito de qualidade, um dos temas centrais da “aula”, e relativamente ao qual Trigo sublinhou dever ser assumido, considerando-se diversos aspectos e designadamente:

- que a definição de necessidades é algo distinta da satisfação das expectativas de clientes e utilizadores;

- que são também bem distintos os conceitos de cliente e de utilizador;

- que se tende a considerar que são os técnicos que têm a sabedoria para discernirem sobre o que as pessoas realmente precisam, uma situação relativamente à qual Trigo sugere que haja o máximo de cuidado;

- e, finalmente, que há que atender a grandes diferenças nos contornos e conteúdos da procura e da definição da qualidade na sua aplicação aos diferentes sectores da produção, destacando aqui, a título de exemplo, que nestas matérias e no sector da produção automóvel tudo está perfeitamente claro e rigorosamente especificado, situação esta que julga não ser directa (ou mesmo desejavelmente) aplicável noutros sectores – o autor destas linhas julga ter sido este o sentido da intervenção de Teixeira Trigo nesta matéria específica.



Fig. 04
Ainda sobre o conceito de qualidade Teixeira Trigo referiu que a garantia da mesma é actualmente um dos grandes objectivos da sociedade, condição esta que, importa salientar, ultrapassa, claramente, o “simples” cumprimento de determinados aspectos de qualidade.

Depois o conferencista desenvolveu uma súmula da sua vida nas suas fases de formação e nas suas diversas facetas profissionais e formativas.
Não se irá fazer aqui qualquer síntese desta parte da intervenção mas não se resiste a referir um episódio, ainda liceal, sublinhado por Trigo relativamente a uma sua participação, com os colegas da turma, na discussão de fichas/verbetes correspondentes à elaboração, por alguns dos seus professores de então, da primeira edição do dicionário de português da Porto Editora; e refere-se este episódio pois julga-se que ele testemunha muito do espírito colaborativo e basicamente aberto que caracteriza Teixeira Trigo, sempre disponível para um forum em que, a partir da releitura e da eventual reinterpretação de matérias mais ou menos conhecidas, se possam gerar novas pistas e perspecticas de interpretação das respectivas situações.



Fig. 05
Depois de uma breve resenha biográfica, falou das obras que mais o marcaram e a propósito delas referiu os arquitectos com quem trabalhou; numa paixão pela arquitectura que nele bem conhecemos.
Falou da sua longa e fértil carreira no LNEC e, sequencialmente, no IST, nos mestrados em que participou, e, por fim, na coordenação da Engenharia da Universidade Lusófona.
Destacou na sua vida no LNEC, o trabalho na Marca de Qualidade LNEC e o seu mandato de três anos como Presidente do Conselho Científico do LNEC, sublinhando ter, nesta qualidade, tentado estruturar a respectiva funcionalidade ao serviço, entre outros aspectos, do enquadramento e do apoio aos mais jovens investigadores e de uma perspectiva de renovação e de futuro.

Antes de iniciar a fase conclusiva da sua “aula” Teixeita Trigo referiu, a propósito da preparação que fez para esta sessão, uma “meia-hora” de um bem recente sábado, em que, em pouco tempo, se confrontou: com um autocarro em claro excesso de velocidade e que ostentava a conformidade com dterminadas regras de qualidade; com um marco de correio em grande parte vandalizado e que não proporcionava qualquer indicação de horário de recolha da correspondência (e sugeriu serem os CTT uma instituição daquelas que mais deviam/podiam garantir uma certa e crucial permanência de valores cívicos); com um condutor a estacionar o carro no passeio, obrigando-o a ir pela estrada e tendo lugar de estacionamento logo ali; e, finalmente, ao abrir o jornal ter-se deparado com uma afirmação em que se referia que mais do que o bom senso o que importava era cumprir a lei.



Fig. 06
São pistas que Trigo associa, directa e indirectamente, aos problemas que hoje em dia se colocam na sociedade, que a irão marcar, fortemente, nos tempos mais próximos e que têm de merecer respostas positivas e eficazes; e a propósito desses exemplos Teixeira Trigo reflectiu, mais um pouco, com a plateia sobre temas aos quais irá, sem dúvida, voltar em próximas intervenções.

Depois, e a propósito de algumas citações (a propósito), o palestrante, bem à sua maneira prática e natural, foi deixando mais algumas ideias que considera de ter em conta seja no LNEC, seja no quadro social em que, tal como acredita Trigo, o LNEC deverá continuar a ter um lugar de primeira linha.

Em seguida, o autor desta síntese das ideias expressas pelo palestrante, limita-se, praticamente, a uma transcrição das citações por ele feitas, na ordem em que foram feitas, embora quase sempre uma transcrição parcial, mas que se quer sempre significativa em termos das ideias assim lançadas.



Fig. 07
De Armando Lencastre referiu que “a Engenharia é a Ciência-Arte, que apoiada na Matemática e na Física, mas também no bom-senso, resolve problemas relacionados com o bem-estar em favor da dignidade das pessoas.”

De João Lobo Antunes a ideia de que “quando as pessoas não confiam umas nas outras só cooperam sob sistemas de regras e regulamentos formais ...”

De Marçal Grilo, e do Encontro Nacional sobre Qualidade e Inovação na Construção, no LNEC em 2006, a ideia de que os sistemas de qualidade se destinam a suprir a falta de cultura de qualidade, substituindo-se a boa prática por bons procedimentos.

De José Manuel Moreira e do Congresso Nacional de Estruturas de 2002, a noção de que “a qualidade das obras só é sustentável se apoiada na qualidade humana de pessoas capazes de sonhar e projectar obras úteis e belas; mas também de acompanhar a sua realização, com competência, técnica e ética ...”

De Ferry Borges o entendimento de que “os princípios da moral e da justiça, expresos sob a forma de ética, devem sobrepor-se e condicionar as formulações utilitaristas.”

E novamente de Armando Lencastre e das suas “Memórias Profissionais – Meio Século ao Serviço da Engenharia”, a seguinte escala de classificação ética:
- “no baixo nível ético estariam os que se orientam por razões egocêntricas;
- menos baixo seria o nível dos que já reconhecem os interesses das empresas em que trabalham;
- mais elevado seria o daqueles que juntam aos valores anteriores os interesses da sociedade em que se inserem;
- o mérito máximo seria dos que subordinasse toda a sua actividade ao aumento da dignidade da pessoa humana.”

E, finalmente, de Einstein, e no que se refere ao conteúdo do ensino, a noção de que não chega ensinar a alguém uma especialidade, pois são igualmente necessários valores essenciais, designadamente, de beleza e de moral.



Fig. 08
Os vários Prémios obtidos por Teixeira Trigo ao longo da sua longa prática profissional, que pretende agora retomar, foram apontados, sumariamente, e numa pespectiva que sublinhou a importância que, para ele, teve e tem o trabalho em equipas multidisciplinares e muito qualificadas, em que muito se discute, da construção aos acabamentos, e até ao próprio desenho da arquitectura; pois através da discussão pode-se aprender a ver melhor determinadas realidades e consegue-se, sempre, aprender, um pouco mais, de outras disciplinas que confluem em objectivos comuns de construção da cidade (reflexão desenvolvida pelo autor a partir deste ponto da intervenção de Trigo).

E a satisfação com que Trigo se refere a muitas das suas obras liga-se, objectivamente, aos seguintes aspectos de projecto e obra: qualidade das equipas; dimensão dos problemas; resultado no que se refere a qualidade estética; e reconhecimento pela sociedade.

Um outro tema apontado foi a importância da análise das construções sob forma exigencial. Da habitação á cidade, a partir da definição de critérios de análise – ex., durabilidade , estética, economia, durabilidade – e considerando que cada tipologia de edifícios tem exigências específicas - ex., habitação, escolas, universidades, hotéis, equipamentos sociais, centros comerciais, templos, rodovias, ferrovias, captação de águas, etc.. E importa sublinhar que este leque tipológico, com terminologias próprias, foi também caminho de Teixeira Trigo nas suas diversas facetas profissionais, colaborando na tradução em regras dos ensinamentos que a experiência vai permitindo acumular; mas, como sugeriu o palestrante, nem tudo pode/deve ser passado de uma forma directa entre a prática e a forma legal, forma esta que, depois, tem tendência a ficar “congelada em Diário da República”.



Fig. 09
Teixeira Trigo apontou ainda, sumariamente, as múltiplas ferramentas utilizadas no processo de aplicação da Marca de Qualidade LNEC, reflectindo um pouco sobre a imprtância deste processo e sobre as suas complexidades, que decorrem, em boa parte, considera ele, de se visar, ma Marca e em outros processos de controlo da qualidade, um mecanismo de controlo de todas as intervenções na obra, situação que se revela, habitualmente, pouco agradável para todos os intervenientes; e apontou que se aceita razoavelmente bem a revisão de um qualquer trabalho desde que não se apontem erros específicos. E estes erros, sublinha Trigo, são quase sempre decorrentes de deficiências quanto a definições de prazos, ausência de acompanhamento e deficiente definição de responsabilidades.

Trigo terminou com um pequeno apontamento de problemas actuais em que destaca o aumento do peso do estado e o excesso de normas, que considera constituir factor propício para mais ocasiões de corrupção.

As preocupações que aponta visam os centros das nosssas cidades e os espaços exteriores públicos, que considera em “estado de decrepitude”, exceptuando-se de tal estado as pessoas que os habitam.



Fig. 10
E deixa o desafio da racionalidade e da capacidade de actuar com lógica e com rapidez, considerando que em alguns casos há que avançar para demolições parciais ou totais. Uma racionalidade que Trigo defende dever ser marcada pela clareza, pela capacidade de discernimento e pelo reforçado desenvolvimento da formação, pois Teixeira Trigo diz não estar nada preocupado com o excesso de formação no sector da construção, seja no respectivo aprofundamento seja em número de pessoas formadas. Trigo diz que “não há formação excessiva, pode haver é formação enviezada e inadequada às necessidades da sociedade.”

Como se referiu no início deste texto ele não é um relato fiel da “aula” de Teixeira Trigo no LNEC a 29 de Maio de 2007, e sublinho que o termo “aula” pedi-o de empréstimo ao seu velho amigo e parceiro de trabalhos Teotónio Pereira, que assim a designou. Este texto contém, apenas, aquilo que ouvi da sua “aula” e não há melhor receita para fixar o que se ouve do que a escrita; e também por isso o fiz.
Mas para conhecer o verdadeiro “texto” de mais esta excelente “aula” de Teixeira Trigo teremos de esperar que ele passe a limpo as suas notas, cuja consulta, que se agradece, foi essencial para o enquadramento destes apontamentos pessoais.

Lisboa, Encarnação/Olivais Norte, 14 de Junho de 2007-06-04
Notas e imagens de ABC
Edição de José Romana Baptista Coelho

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

69 - Hestnes.Ferreira, Teotónio.Pereira e Teixeira.Trigo: sessão do Grupo Habitar com o Instituto Nacional de Habitação - Infohabitar 69

 - Infohabitar 69

Hestnes Ferreira, Teotónio Pereira e Teixeira Trigo: sessão do Grupo Habitar com o Instituto Nacional de Habitação


(habitação, bairros, casa, casa popular, habitação social, habitação social em Portugal, construção, espaços da casa, Bairro de Alvalade, Olivais Norte, Beja, Cooperativa Lar para Todos, SAAL, INH)

Notas breves sobre o “Encontro sobre prática profissional em projectos e reflexão para o futuro na promoção de habitação”,

com Raúl Hestnes Ferreira, Nuno Teotónio Pereira e José Teixeira Trigo
Artigo de António.Baptista.Coelho
O Instituto Nacional de Habitação (INH) e o Grupo Habitar (GH) – Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional promoveram em Lisboa, em 24 de Janeiro de 2006, no Auditório do Edifício Sede do INH, um “Encontro sobre prática profissional em projectos e reflexão para o futuro na promoção de habitação”, no qual os Arquitectos Nuno.Teotónio.Pereira e Raúl.Hestnes.Ferreira e o Engenheiro José.Teixeira.Trigo abordaram essa temática, sublinhando nela os temas que consideram com importância actual, naturalmente associados às suas longas e meritórias experiências como projectistas nas amplas áreas do habitar.
A ideia, concretizada neste encontro, moderado pelo Arquitecto Vasco.Folha e que constituiu também a 4ª Sessão Técnica do Grupo Habitar, foi proporcionar um tempo de reflexão sobre a prática profissional de três projectistas essenciais na intervenção no domínio da habitação de interesse social em Portugal ao longo de um período temporal significativo. Pensou-se proporcionar essa reflexão partindo de uma apresentação individual de cada um dos três projectistas convidados, em que cada um dissesse o que considera mais interessante e oportuno, no que se refere ao projecto e construção de habitação, e/ou ao projecto e construção de habitação de interesse social e e/ou ao projecto e construção do habitar em termos globais.
Em forma de notas articuladas, mas sem intenção de ser exaustivo relativamente a tanto do que foi dito na tarde do dia 24 de Janeiro apontam-se, em seguida, e seguindo a ordem das intervenções (escolhida devido a aspectos práticos ligados a meios de projecção de imagens), alguns dos aspectos então referidos, bem ligados ao título da sessão, e que, como muitos entenderão têm uma enorme riqueza no que se refere à reflexão sobre o projecto, a construção e a gestão do habitar.
Raúl.Hestnes.Ferreira falou-nos sobre os aspectos que podem ser identificados como fundamentais no habitar a casa, falou-nos sobre as raízes do habitar e sobre os essenciais espaços domésticos polarizadores da vida em comum e em família.

01: arquitectura popular
Iniciou a sua galeria de imagens com a planta de uma casa simples de Rio de Onor, retirada da “Arquitectura Popular Portuguesa” e falou sobre o projecto e a sua ponderação, sobre os espaços domésticos mais correntes e sobre outros recantos, que são os principais obreiros do habitar interior, como foi o caso da entrada desnivelada que criava um espaço de transição na entrada do escritório da casa que projectou para o seu pai.
Falou-nos com exemplos ilustrados sobre o estar junto ao fogo e à televisão que reúnem as pessoas à sua volta, mas antes disso falou-nos do viver simples junto ao chão e em torno do fogo, da mesa como espaço familiar e unificador de actividades, lembrando hábitos orientais de usar a mesa para um grande leque de actividades, num encadeamento natural de usos, utentes e horários, e também nos falou do grande quarto/sala com uma ampla mesa de Jorge Luís Borges, onde ele trabalhava, recebia, conversava, vivia.
Continuando a reflectir sobre estas matérias dos espaços domésticos essenciais e envolventes e a propósito da pequena casa de férias de Francisco Keil do Amaral, Hestnes Ferreira disse-nos que era uma casa muito amigável, uma casa pequena mas que reflectia e envolvia o modo muito informal/simples, humano e caloroso que caracterizava o modo diário de viver daquela família, dando-lhe um bom suporte, até naquela mesa estrategicamente situada sob a janela e sobre a vista exterior.
Passou depois para as sempre novas questões do dia/noite doméstico, uma forma interessante de colocar uma eventual distinção de duas zonas, que serão provavelmente tanto dia/noite como, por exemplo, comuns/privadas; e aqui defendeu opções de adaptabilidade, em que através de uma adequada concepção estrutural e de um cuidadoso dimensionamento, se possa alterar a disposição das zonas de dormir e de estar, entre outras.

02: Fonsecas e Calçada, década de 70 (séc. xx)
Sobre o exterior urbano e relativamente ao Bairro das Fonsecas.Calçada, em Lisboa, referiu que os fogos tiveram uma relação directa com a génese da forma edificada, proporcionando flexibilidade na sua integração e que a tipologia de acessos foi influenciada, no esquerdo/direito predominante, por uma opção dos próprios habitantes, que foram convidados pelos projectistas a visitarem (nos Olivais, Lisboa) uma outra bem diversa forma de circulação comum através de galerias, e seguidamente a expressarem a sua tipologia preferida, que, como se deduz, foi o esquerdo/direito; que aliás é bem matizado por pequenas galerias/varandas de distribuição nos cantos interiores dos edifícios. Sobre este bairro Hestnes Ferreira chamou ainda a atenção para a sobriedade da sua envolvente, que contrasta com pequenos interiores de quarteirão mais diversificados. E, quanto aos fogos, salientou que se ouviram os moradores, projectando-se organizações habituais.

03: Unidade João Barbeiro, década de 80 (séc. xx)
Sobre a diversificada experiência residencial em Beja – a Unidade João.Barbeiro e a Cooperativa Lar Para Todos – começou por salientar a importância da harmonização construtiva em sede de projecto e numa relação aberta com a obra, e com as potenciais e específicas qualidades de execução que aí muitas vezes se detectam e que têm a ver, por exemplo, com capacidades técnicas concretas de determinadas empresas e mesmo de determinados operários.
Depois falou da caracterização pública e também comum do grande pátio da Unidade João Barbeiro, do modo como, a partir dele, se pode aceder com naturalidade aos fogos, motivando-se o convívio, e da forma como o conjunto se integra solidamente na sua envolvente directa através de uma base de betão em que se integram galerias públicas comerciais, harmonizando-se, assim, um espaço de vizinhança assumido e eficaz com a tal sobriedade urbana, já acima apontada.

04: Cooperativa Lar Para Todos, década de 80 (séc. xx)
Relativamente à Cooperativa Lar Para Todos referiu, no exterior, os pátios alongados sempre que possível vitalizados pelos acessos directos a fogos térreos, e salientou o investimento ambiental e caracterizador que foi desenvolvido nos amplos espaços comuns de cada edifício (com distribuição esquerdo/direito), trespassados e matizados pela luz natural de cima abaixo e em cada entrada dos fogos. Nestes espaços procurou-se realizar uma agradável e muito graduada transição com a rua, estimular o convívio possível e proporcionar uma cuidadosa transparência da vida dos fogos (nesta caso através de um pano de tijolo de vidro no hall).
Finalmente, ao nível dos fogos, há uma clara e muito estimulante inovação na criação de um amplo espaço familiar de cozinha/refeições, mas também a rara possibilidade de toda a continuidade entre esse espaço, a entrada e a sala, poder ser vivido praticamente como um único grande espaço.
E fica aqui um desafio para quem não conheça estas obras habitacionais excelentes, se deslocar a Beja e as percorrer com vagar; uma óptima visita, não tenham dúvidas.
Depois de uma intervenção marcada, como se pode perceber, por alguns dos fundamentos da concepção habitacional, Nuno.Teotónio.Pereira privilegiou-nos com uma pequena história vivida do projecto e da promoção da habitação apoiada em Portugal, desde o princípio dos anos quarenta do século passado até à actualidade. E basta saber que um dos primeiros “Bairros Sociais”, o do Arco do Cego, em Lisboa, foi concluído no início dos anos trinta, embora com outros tenha sido iniciado em 1918, para entender a amplitude e o significado da história viva a que tivemos oportunidade de assistir.

05: Alvalade, década de 40 (séc. xx)
No final dos anos quarenta Teotónio.Pereira e Costa.Martins fazem assessoria a Miguel.Jacobetty na construção das células sociais do bairro de Alvalade em Lisboa (em que se destacou o construtor António.Veiga), uma malha urbana e residencial, que constituiu um verdadeiro e um dos únicos planos integrados feitos entre nós e cujo plano urbano foi desenvolvido por Faria.da.Costa. Integrado desde o nível do planeamento da intervenção, ao seu conteúdo físico e ao seu conteúdo social; mas também integrado no que se refere à conjugação em obra de um máximo de inovações tecnológicas e construtivas no sentido de se aliar qualidade e rapidez de construção. Ficam para o presente e o futuro as fundamentais aprendizagens com os positivos segredos e avanços que em Alvalade se conquistaram para o grande objectivo de fazer cidade viva com habitação humanizada e através de uma obra multidisciplinarmente participada e que visava o futuro.
Falou depois dos seus vinte e dois anos de trabalho de projecto e promoção ligado aos conjuntos habitacionais e urbanos da Federação das Caixas de Previdência, salientando os aspectos de organização central e regional dos que então eram os poucos arquitectos portugueses ligados a esta importante tarefa, e de como foi conciliando o trabalho na Federação, com a actividade de projectista e com a participação em iniciativas internacionais que então despontaram sobre as temáticas do habitar – por exemplo a União Internacional dos Arquitectos (UIA) tinha uma comissão especial para o habitat.
Entre muitos outros aspectos referidos, destaca-se uma grande exposição do Inquilinato Cooperativo, organizada pela então pujante Associação dos Inquilinos Lisbonenses e associada a uma exposição na Sociedade Nacional de Belas Artes e naturalmente, chegados a 1960, o desenrolar de uma década que Teotónio considera ter sido fundamental para a habitação e para a habitação apoiada em Portugal.

06: Olivais Norte, década de 60 (séc. xx)
E aqui se destaca, novamente, um bairro, neste caso Olivais Norte, em Lisboa, fundado num excelente plano urbano de Sommer.Ribeiro e Falcão.e.Cunha, com intervenção de J. Rafael.Botelho (ex., todos os edifícios foram implantados e projectados considerando a geometria da insolação, de forma a usar ao máximo a energia solar passiva), e onde se integraram tipologias edificadas/habitacionais muito variadas, realizadas por entidades muito diferentes, e destinadas a grupos sociais muito diversos, marcando-se em Olivais Norte uma grande diferença relativamente ao que até aí tinha sido a regra de fazer uma espécie de “aldeias na cidade”.
Podemos considerar que todos estes aspectos, para além da fundamental construção simultânea dos variados tipos de edifícios para os diversos grupos sociais, configuram uma promoção pioneira numa ampla perspectiva de sustentabilidade – e em Alvalade também se podem identificar muitos ensinamentos nesta matéria.
Na apresentação de Nuno.Teotónio sobre Olivais Norte teve de ficar, quem sabe, para uma outra sessão, um fundamental passeio comentado pelas torres habitacionais, cujo projecto foi por si desenvolvido com António.Pinto.de.Freitas e Nuno.Portas, ligadas a uma primeira atribuição de um Prémio Valmor a habitação multifamiliar e dita “social”, e em que se privilegiou a largueza, o conforto e a dignidade dos espaços comuns (marcados em cada piso por uma peça de arte); mas também nos edifícios mais baixos de Olivais Norte se inovou, sustentadamente, como hoje é possível ver, antecipando-se o átrio do edifício num espaço exterior convivial.

07: Olivais Norte, década de 60 (séc. xx)
Nuno Teotónio salientou também que a experiência muito positivamente qualificada dos Olivais ficou a dever-se à acção, que considerou exemplar, do Gabinete Técnico de Habitação (GTH) da Câmara Municipal de Lisboa, numa actividade de contratação de projectistas com reconhecida competência, mas com a obrigação de associarem um jovem arquitecto em cada equipa. E a propósito foi também destacada a importância da estreita cooperação técnica sempre prosseguida com engenheiros altamente qualificados e sensíveis aos aspectos da arquitectura, e aqui houve a referência específica a Ruy Gomes, mas também poderia ter havido a outros nomes de engenheiros, tal como o próprio José.Teixeira.Trigo, que aliás colaborou com Teotónio e com Hestnes em variadas obras.
Chegou depois, naturalmente, ao pós 25 de Abril com as experiência do SAAL e de outras iniciativa de participação com a população no projecto do seu habitar mais urbano ou mais rural, que levou à noção, já antes sentida no contacto com aos primeiros avanços da ligação entre a arquitectura do habitar e a sociologia – onde se destacam os contactos com Paul Chombart de Lauwe – de que as pessoas tendem a desejar casas como “toda a gente tem”; talvez, digo eu, caiba ao arquitecto a função de advogado da inovação quando esta parece ser valiosa.
E sobre esta matéria ficou claro, aquilo que Teotónio considera ter sido uma evolução entre os projectos dos Olivais com galerias em que chegou a haver realmente convívio, tal como era o objectivo do projecto (ex., visível numa imagem de habitantes preparando refeições na galeria comum), e a transformação dessa galeria comum convivial, numa galeria que se queria rua, por exemplo, no bairro da EPUL no Restelo, Lisboa, voltando-se depois, novamente, ao esquerdo/direito (mais corrente), mas no entanto integrando pequenos edifícios multifamiliares bem agarrados à terra e com quintais privados nos mais recentes bairros em Oeiras, projectados por Nuno Teotónio e Pedro Botelho, um dos quais foi Prémio INH.
Das experiências mais próximas Teotónio destacou duas intervenções distintas, uma delas ligada a uma Bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian que lhe permitiu estudar e publicar, em colaboração com a sua mulher Irene Buarque, um livro sobre os prédios e as vilas de Lisboa, hoje infelizmente esgotado; enquanto no projecto e entre outros destacam-se, tal como foi acima referido, dois bairros de habitação apoiada, construídos em Oeiras – Laveiras e Alto da Loba – e projectados em conjunto com Pedro Botelho, que foram sumariamente apontados na sessão, mas que merecem toda uma atenção específica, pelo seu interesse urbano, doméstico e humano e pelas suas positivas novidades, em termos de uso do solo, escala e misturas funcionais.

08: Alto da Loba, década de 90 (séc. xx)
O desafio atrás feito para uma visita é aqui renovado, neste caso, designadamente, aos edifícios referidos em Olivais Norte (Lisboa); um tempo bem aproveitado por quem decida assim actuar.
Chegou a vez de José.Teixeira.Trigo, que concentrou a atenção da sua intervenção em três temas principais: as questões ligadas às anomalias da construção, os problemas associados às anomalias de uso, e o enunciar de recomendações para a respectiva correcção prática.
Teixeira.Trigo praticamente sublinhou, como ponto de partida das suas palavras, o muito que se aprende com a patologia construtiva e com a fiscalização de empreitadas, considerando que entre o que era o mundo da construção e o que é hoje, uma das mudanças mais significativas são os intervenientes no projecto e na obra: há cada vez mais projectos, os projectos são cada vez mais complexos, as apreciações e os intervenientes no processo de elaboração e aprovação dos projectos constituem uma sequência cada vez mais complicada, e do lado de quem constrói o empreiteiro geral quase desaparece, num enorme leque de subempreiteiros, remetendo-se essencialmente a uma função de controlo de custos.
E ironizou referindo as figuras de tantos “responsáveis”, afirmando, depois, que conhece as funções dos profissionais e que não entende bem o que será a “profissão” de “responsável.”
Salientou, em seguida, que tudo isto, em termos de complexidade, tem ainda de viver, seja com a cada vez mais significativa introdução da inovação arquitectónica e construtiva, seja com a crescente dinamização do próprio processo da obra. Trigo.concordou com Teotónio considerando “os Olivais (Lisboa) a época de ouro da nossa construção”, no edificado e nos espaços públicos, e demonstrou esta afirmação lembrando que grande parte dos betuminosos e pavimentos exteriores dos Olivais são ainda os originais.
Desenvolveu, em seguida, algumas considerações sintéticas sobre a matéria regulamentar, e sublinhou que considera haver falta de coerência e de compatibilidade na regulamentação; um problema que, defende, marca todo o processo que se inicia na elaboração dos diversos regulamentos até à própria regulamentação da construção.
Finalmente centrou-se na matéria da formação e especificamente na formação nas ciências da construção, salientando que hoje em dia há uma falta, cada vez maior, de pessoas que possam/saibam fazer sínteses de projecto e construção adequadas.
Usou como exemplos concretos quer a fundamental harmonização entre as estruturas de betão armado, que se deformam com o passar do tempo, e os panos de alvenaria (cada vez mais rígidos), quer a execução das coberturas em terraço, que exigem a união de esforços de um amplo leque de intervenções especializadas. E concluiu esta matéria reforçando a necessidade de se privilegiarem urgentemente as visões de conjunto nos processos construtivos.
Relativamente aos problemas levantados pelo uso sublinhou as graves situações que têm sido identificadas no que se refere à vital temática da ventilação doméstica, onde defende existir um grave problema de falta de coerência entre as diversas soluções mais usadas e as formas de uso da casas e dos seus elementos funcionais – desde as janelas quase estanques aos exaustores que, por vezes, levam a que o sistema de ventilação previsto funcione ao contrário.

09: Olivais Norte, painel de azulejos de Lima de Freitas, década de 60 (séc. xx)
Teixeira.Trigo rematou a sua intervenção com um pequeno conjunto de recomendações:
- Acabar com a regulamentação dispersa, mediante uma concentração regulamentar que seja o mais coerente possível com a nossa prática de construção.
- Introduzir e privilegiar na prática profissional sínteses construtivas, de segurança, económicas e processuais.
- Assegurar o aperfeiçoamento e o aprofundamento das ciências da construção.
- Valorizar o saber no sector da construção.
Seguiu-se um animado debate em que foram tratados variados assuntos aqui apenas telegraficamente apontados:
- As tipologias com galerias comuns de acesso são hoje pouco adequadas pois hoje “não é esse o espírito”, há um reforço do individualismo da casa, uma espécie de “enriquecimento” do papel da casa de cada um.
- Os ritmos e modos de vida mudam e talvez o uso das galerias seja ainda possível no que se refere às crianças, mas no que se refere aos adultos é difícil aí a convivialidade até porque são espaços socialmente muito controlados.
- Os fogos de hoje têm reduzida capacidade de aceitação de famílias sem serem as famílias “tipo” e isto prejudica, por exemplo, a capacidade de integração dos nossos idosos.
- Os projectos habitacionais têm de visar mais do que uma geração.
- A dúvida sobre se, hoje em dia, o grande público está a ter respostas adequadas a um desejável desígnio sobre a temática do habitar, tal como houve no passado – por exemplo para os dias de hoje seria bem oportuno um desígnio sobre a sustentabilidade/”durabilidade”.
- A importância de se fazer uma formação no projecto e na construção em vários níveis e com ritmo/continuidade.
- A importância que deveria ter a oferta de diversidade e de flexibilidade no habitar, estimulando-se a mudança de casa e diversas formas de “ter” casa.
O debate teve, de certa forma, o seu remate natural com duas curtas intervenções.
A primeira, de Hestnes.Ferreira, em que ele referiu ter havido uma época em que se acreditou que a arquitectura poderia mudar o mundo; hoje sabe-se que a arquitectura pode contribuir para tornar o mundo um pouco melhor, mas há que medir todas as circunstâncias neste processo e tentar, sempre, fazer um pouco melhor.
A segunda, de Teixeira.Monteiro, Presidente do INH, em que foi defendida a enorme importância que tem a aprendizagem com a experiência, e nesta aprendizagem o papel que têm sessões deste tipo, onde são identificados temas e linhas de aprofundamento a desenvolver, mas também a verdadeira escola que pode constituir um continuado processo de visitas técnicas realizadas em diálogo com os vários intervenientes na promoção de habitação, como é o caso do processo seguido anualmente no Prémio INH.
Conclui-se este artigo informal de registo das matérias tratadas na 4ª sessão do GH, realizada em estreita colaboração com o INH, com três citações e uma dedicatória, que foram lidas no início da sessão:
A primeira citação é de Le Corbusier que diz não acreditar “que todas as arquitecturas que falem à alma sejam sempre o produto de indivíduos. Um homem aqui, outro ali, percebe, compreende, toma uma decisão e procede para actuar, para criar. E como resultado uma solução emerge, proporcionando que outros homens encontrem os seus próprios caminhos.”
A segunda é de Robert Stern e nela ele sublinha que “a arquitectura não pode desenvolver-se enquanto os arquitectos acreditarem que se encontram diante de uma tábua rasa, enquanto acreditarem que o edifício individual é essencialmente o produto do talento individual e da personalidade individual. A arquitectura é uma síntese de valores tradicionais e de circunstâncias imediatas.”
A última é de Fernando.Távora e diz-nos que “projectar, planear e desenhar devem significar encontrar a forma justa, a forma correcta... projectar, planear, desenhar não deverão traduzir-se para o arquitecto na criação de formas vazias de sentido” e que além da especialização o arquitecto deve aplicar na sua actividade “um profundo e indispensável humanismo.”
E falando de humanismo, termino com a dedicatória desta sessão e deste artigo a um querido companheiro e dirigente cooperativista, fundador da minha cooperativa a NHC – Nova Habitação Cooperativa, que sempre esteve presente e que hoje continua connosco em espírito e em obras, o Dr. José.Barreiros.Mateus.
Lisboa e Encarnação/Olivais.Norte, em 8 de Fevereiro de 2006
António Baptista Coelho