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quinta-feira, agosto 23, 2007

154 - Notas sobre a integração urbana e paisagística – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 154

  - Infohabitar 154


A importância da integração urbana e paisagística: a propósito de alguns casos de promoção municipal destacados no PRÉMIO INH/IHRU 2007



Na sequência da edição, aqui no Infohabitar, da acta de apreciação e designação de prémios e menções respeitantes ao PRÉMIO INH/IHRU 2007 – 19ª EDIÇÃO, cujos resultados foram conhecidos em 3 de Julho de 2007, em cerimónia que decorreu no auditório da Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, continua-se, hoje, nesta nossa revista, um percurso mais pormenorizado sobre o mesmo conjunto de soluções urbanas e residenciais.




Fig. 01: Vista do conjunto no Outeiro da Forca, Portalegre, 52 fogos promovidos pelo Município de Portalegre com o projecto do Atelier de Arquitectura Carlos Gonçalves.

Sublinham-se, desde já, três aspectos estruturantes nesta pequena sequência de artigos semanais a editar ao longo de Agosto de 2007:

.Trata-se de uma perspectiva de análise pessoal e “de trabalho”, desenvolvida pelo autor destas linhas no âmbito da sua participação no Júri do Prémio como representante do Laboratório Nacional de Engenharia Civil; e portanto uma perspectiva que não se tem de articular, plenamente, com a análise do Júri.

. Na sequência do que acabou de ser referido, optou-se por não referir quaisquer aspectos associados ao respectivo destaque no Prémio; e sublinha-se que a designação (ficha técnica), limita-se a repetir, praticamente na íntegra, a já divulgada na referida Acta do Júri e no respectivo Catálogo do Prémio.

. E, finalmente, aproveitou-se esta oportunidade para falar, apenas um pouco, sobre temas que se julga estarem na ordem do dia em termos de procura de boas soluções de habitar a casa e a cidade; e é sob o título dessas temáticas que se agrupam os conjuntos apresentados nesta pequena sequência de artigos.


Fig. 02: Uma vista de um dos 12 fogos distribuídos por Aguiã, Guilhadeses e Tabaçô promovidos pelo Município de Arcos de Valdevez, com projecto coordenado pelo arquitecto Carlos Machado.

Salientam-se, em seguida, os temas tratados nas passadas semanas e no presente artigo (tema sublinhado):

(i) Cooperativas de habitação, reabilitação e sustentabilidade ambiental e social.

(ii) Cooperativas de habitação e adequação de espaços de vizinhança e domésticos bem pormenorizados.

(iii) A importância da integração urbana e paisagística.

E, finalmente, aponta-se o tema a editar na próxima semana:

(iv) Sobre a relação entre soluções humanizadas, densificação e escala humana.



A importância da integração urbana e paisagística: a propósito de alguns casos de promoção municipal destacados no PRÉMIO INH/IHRU 2007

Nota: as soluções aqui apresentadas mereceram diversos destaques no PRÉMIO INH/IHRU 2007.


Fig. 03: Um aspecto representativo da dignidade urbana que marca o conjunto no Outeiro da Forca, promoção da C. M. de Portalegre.

Outeiro da Forca, Portalegre, 52 fogos


Conjunto no Outeiro da Forca, Portalegre, 52 fogos promovidos pelo Município de Portalegre e construídos pela empresa José Coutinho, S.A., com o projecto do Atelier de Arquitectura Carlos Gonçalves, Lda.


O conjunto promovido pela CM de Portalegre caracteriza-se por uma dupla qualidade geral:

. uma qualidade urbana, através da criação de uma verdadeira e já vitalizada vizinhança de proximidade pedonal;

. e uma qualidade edificada, mediante a criação de uma solução de edifício em que seja nos espaços comuns, seja nos espaços domésticos, temos a oportunidade de percorrer e viver sequências estimulantes em termos de formas, cor e luz natural.




Fig. 04: O alongado, atraente e vitalizado miolo pedonal de vizinhança do conjunto no Outeiro da Forca, Portalegre.


O alongado miolo pedonal de vizinhança, que serve um muito equilibrado número de cerca de 50 fogos, encontra-se bem vitalizado, seja pelas entradas dos edifícios, seja por equipamentos bem abertos para o contínuo pedonal e já em pleno funcionamento.




Fig. 05: As entradas dos edifícios podendo observar-se os espaços vazios que proporcionam excelentes condições de luz natural nos patins comuns e nas cozinhas.




No edifício há que salientar as soluções positivamente imaginativas que caracterizam os pequenos espaços comuns como expressivamente domésticos, plenos de alegria, de capacidade de apropriação e de envolventes matizes de cor e de luz natural.

Finalmente no interior doméstico destaques para os corredores muito mobiláveis e para as cozinhas plenas de luz natural – janelas em duas paredes exteriores – , que são verdadeiras pequenas salas de família.




Fig. 06: Os corredores muito mobiláveis.




Fig. 07: As cozinhas plenas de luz natural, que são verdadeiras pequenas salas de família.

O que se destaca talvez mais nesta solução é a rara e muito positiva sequência que se cria entre um exterior de quarteirão assumidamente público, um interior de quarteirão protegido e pedonalizado, marcado pela vizinhança de proximidade e bem vitalizado por equipamentos já activos, um interior de edifício cujos acessos têm estimulantes sequências espaciais, que se prolongam por variações de formas, de cor e de luz natural, que assumidamente dão presença forte e agradável a este pequeno mundo comum, e , finalmente, um espaço doméstico confortável e funcional.




Fig. 8: Um dos pequenos núcleos de um total de 12 fogos distribuídos por Aguiã, Guilhadeses e Tabaçô, promovidos pelo Município de Arcos de Valdevez.

Aguiã, Guilhadeses e Tabaçô, Arcos de Valdevez



12 fogos distribuídos por Aguiã, Guilhadeses e Tabaçô promovidos pelo Município de Arcos de Valdevez, construídos pela empresa Sociedade de Construções do Bico, Lda, sendo o projecto e a coordenação do arquitecto Carlos Machado.

Nestes pequenos núcleos de realojamento em Aguiã, Guilhadeses e Tabaçô, promovidos pelo município de Arcos de Valdevez, destaca-se a sensibilidade de se ter desenvolvido uma acção de integração paisagística, naturalmente, associada a uma forte adequação tipológica ao modo de vida, essencialmente rural, das famílias para as quais foram feitas as habitações.




Fig. 9: Micro-núcleos de realojamento em Aguiã, Guilhadeses e Tabaçô, promovidos pelo município de Arcos de Valdevez, numa sensível aproximação ao habitar rural, que também serve, naturalmente, a integração paisagística.

A ideia aqui cumprida é que sempre que assim é desejado se deve proporcionar que as famílias carentes de habitação possam habitar, em condições adequadas, os locais onde antes viviam em más condições. Um objectivo que é também de primeira linha relativamente à fundamental integração social dessas famílias.

Um outro aspecto também associado a estas importantes matérias da adequação tipológica tem a ver com uma solução de casa que joga numa forte complementaridade e continuidade entre espaços domésticos exteriores, interiores e de transição, o que fica bem evidenciado na sequência entre cozinha, alpendre de cozinha, quintal privado e telheiro de serviço neste mesmo quintal.


Fig. 10: Uma solução de casa que joga numa forte complementaridade e continuidade entre espaços domésticos exteriores, interiores e de transição.

Ainda nestas matérias de adequação humana da solução doméstica há que sublinhar o desenvolvimento térreo do fogo, sem desníveis, facilitando a vida diária de pessoas idosas, e o excelente desenvolvimento da grande cozinha de convívio.




Fig. 11: As excelentes cozinhas conviviais de Aguiã, Guilhadeses e Tabaçô; e na sua contiguidade há espaçosos alpendres multifuncionais.

Alguns breves comentários finais sobre o Prémio INH

Cinco aspectos merecem um destaque especial no remate da apresentação destes dois conjuntos municipais, destacados no PRÉMIO INH/IHRU 2007 e aqui abordados genericamente, embora numa perspectiva razoavelmente marcada pelo tema da integração urbana e paisagística:

(i) O primeiro aspecto põe em relevo a ligação que existe entre este assunto fortemente arquitectónico da integração urbana e paisagística e as matérias associadas ao desenvolvimento de vizinhanças de proximidade, e à excelente possibilidade de se fazerem casas realmente adequadas aos diversificados mundos familiares e pessoais dos muitos seus habitantes; matérias estas sumariamente apontadas na parte final do último artigo desta série.

(ii) O segundo aspecto refere-se à importância que tem o desenvolvimento de uma relação estreita/íntima, funcional e caracterizadamente coerente entre as soluções gerais de ocupação/integração topográfica, urbana e paisagística e as soluções gerais domésticas adoptadas; dá vontade de dizer que é desta apenas aparente “complexificação” que nascem, frequentemente, valores projectuais especiais e muito positivos.

(iii) O terceiro aspecto reduz-se a poucas palavras e tem a ver com a fundamental expressão da escala humana; pois é ela que acaba por ser, frequentemente, um importante agente de elementos de integração urbana e/ou paisagística. E é interessante apreciar-se os modos distintos mas igualmente efectivos com que se expressa a escala humana nos dois conjuntos que aqui foram apresentados.

(iv) O quarto aspecto reduz-se também a poucas palavras e refere-se ao continuar a privilegiar intervenções com pequenos números de fogos e naturalmente com números equilibrados de fogos e com misturas equilibradas e sustentáveis de fogos e de equipamentos vivos; a bem conhecida “pequena escala” geral.

(v) E, finalmente, o quinto aspecto, também muito ligado a todos os outros aqui apontados, e especialmente ao dessa “pequena escala”, que é o reafirmar da importância da dignidade residencial e urbana que tem de marcar as intervenções, uma dignidade crucial seja na desejada integração social, seja nos objectivos de integração urbana e paisagística aqui especificamente visados.

As fotografias são de António Baptista Coelho, excepto as imagens das habitações de Arcos de Valdevez, que são do Arq. José Clemente Ricon.

Casais de Baixo, Azambuja, 23 de Agosto de 2007
Editado por José Baptista Coelho, 23 de Agosto de 2007.

sexta-feira, agosto 17, 2007

153 - Cooperativas de habitação e adequação de espaços de vizinhança e domésticos – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 153

  - Infohabitar 153


Cooperativas de habitação e adequação de espaços de vizinhança e domésticos bem pormenorizados: a propósito de alguns casos do PRÉMIO INH/IHRU 2007


Na sequência da edição, aqui no Infohabitar, da acta de apreciação e designação de prémios e menções respeitantes ao PRÉMIO INH/IHRU 2007 – 19ª EDIÇÃO, cujos resultados foram conhecidos em 3 de Julho de 2007, em cerimónia que decorreu no auditório da Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, continua-se, hoje, nesta nossa revista, um percurso mais pormenorizado sobre o mesmo conjunto de soluções urbanas e residenciais.



Fig. 01: Vista geral do conjunto de 32 fogos em Talhô, Paços de Ferreira, promovidos pela cooperativa Habipaços, com projecto coordenado pelo . arquitecto Paulo Bettencourt.
Sublinham-se, desde já, três aspectos estruturantes nesta pequena sequência de artigos semanais a editar ao longo de Agosto de 2007:
  • Trata-se de uma perspectiva de análise pessoal e “de trabalho”, desenvolvida pelo autor destas linhas no âmbito da sua participação no Júri do Prémio como representante do Laboratório Nacional de Engenharia Civil; e portanto uma perspectiva que não se tem de articular, plenamente, com a análise do Júri.
  • Na sequência do que acabou de ser referido, optou-se por não referir quaisquer aspectos associados ao respectivo destaque no Prémio; e sublinha-se que a designação (ficha técnica), limita-se a repetir, praticamente na íntegra, a já divulgada na referida Acta do Júri e no respectivo Catálogo do Prémio.
  • E, finalmente, aproveitou-se esta oportunidade para falar, apenas um pouco, sobre temas que se julga estarem na ordem do dia em termos de procura de boas soluções de habitar a casa e a cidade; e é sob o título dessas temáticas que se agrupam os conjuntos apresentados nesta pequena sequência de artigos.

Fig. 02: Vista geral do conjunto de 21 fogos na Horta das Figueiras, Évora, promovidos pela cooperativa CHC, com projecto coordenado pelo arquitecto Nuno O Neill.

Salientam-se, em seguida, os temas tratados na passada semana e no presente artigo (tema sublinhado):

(i) Cooperativas de habitação, reabilitação e sustentabilidade ambiental e social.

(ii) Cooperativas de habitação e adequação de espaços de vizinhança e domésticos bem pormenorizados.

E apontam-se os dois temas a editar nas duas próximas e semanas:

(iii); a importância da integração urbana e paisagística;

(iv) e, finalmente, a relação entre soluções humanizadas, densificação e escala humana.

Cooperativas de habitação e adequação de espaços de vizinhança e domésticos bem pormenorizados: a propósito de alguns casos do PRÉMIO INH/IHRU 2007

As soluções hoje apresentadas e que mereceram destaque no PRÉMIO INH/IHRU 2007, são



Habipaços, Freamunde, Paços de Ferreira, 32 fogos


Conjunto em Talhô, Paços de Ferreira, 32 fogos promovidos pela cooperativa Habipaços, C.R.L., com apoio da C. M. de Paços de Ferreira, construção da empresa Manuel Roriz de Oliveira, S.A., e projecto e coordenação do arquitecto Paulo Bettencourt.



Fig. 03: A vizinhança de proximidade do conjunto de 32 fogos em Talhô, Paços de Ferreira.
O conjunto da Cooperativa Habipaços caracteriza-se por dois aspectos fundamentais:
  • uma grande unidade entre edifícios e espaços exteriores polarizadores, seja dos acessos aos fogos, seja de remate e enquadramento na envolvente do local de intervenção;
  • e uma assinalável funcionalidade na organização pedonal e de veículos dos residentes, estruturando-se, assim, uma vizinhança de proximidade que é, aliás, também marcada por uma imagem de grande dignidade.


Fig. 04: A solução de iluminação natural dos átrios dos elevadores em Talhô, Paços de Ferreira.


Fig. 05: A solução de iluminação natural dos átrios dos elevadores em Talhô, Paços de Ferreira; as vistas a partir do átrio sobre a vizinhança.


Ao nível do interior do edificado salienta-se a rara e sempre muito positiva solução de iluminação natural dos átrios dos elevadores, bem como o cuidado que foi aplicado na iluminação natural dos diversos compartimentos dos fogos.

Há ainda dois aspectos processuais que importa sublinhar nesta intervenção de HCC e que são:
  • a colaboração activa entre município, projectista, cooperativa promotora e construtor;
  • e estarmos em presença de uma colaboração que resultou no desenvolvimento de uma intervenção que é claramente marcada pela racionalidade, sobriedade, dignidade e qualidade construtiva.

Fig. 06: A vizinhança de proximidade do conjunto de 32 fogos em Talhô, Paços de Ferreira; uma vista a partir do interior do edifício.


CHC, Horta das Figueiras, Évora, 21 fogos


Conjunto na Horta das Figueiras, Évora, 21 fogos promovidos pela cooperativa CHC, C.R.L. numa parceria com a C. M. de Évora, construção da empresa Algomape, Lda, e com o projecto coordenado pelo arquitecto Nuno O Neill.




Fig. 07: A vizinhança de proximidade do conjunto de 21 fogos na Horta das Figueiras, Évora.

Trata-se de um conjunto em que se assinala a excelente aliança entre uma activa presença urbana e uma interessante solução residencial funcionalmente diversificada.

Há duas faces neste conjunto:
  • uma mais urbana e que integra uma pequena galeria comercial;
  • e outra mais residencial e marcada por uma pequena praceta agradavelmente arborizada.

Fig. 08: A grande contenção dos espaços comuns do conjunto de 21 fogos na Horta das Figueiras, Évora; todo o espaço útil é maximizado no interior dos fogos.

As soluções dos fogos são marcadas por uma forte economia espacial nos espaços comuns, para depois se investir o mais possível nas habitações, aliás, marcadas, alternativamente:
  • seja por claro aspectos de racionalidade espacial e de distribuição de funções, com destaque para uma ampla cozinha com varanda de serviço;
  • seja pela cuidadosa inovação na definição de uma zona de varanda/pátio que polariza vãos da cozinha, da sala e da zona de quartos, criando-se um interessante e fresco espaço de transição entre o interior doméstico e a rua, bem aproveitável para diversos usos.

Alguns breves comentários finais sobre o Prémio INH


Três aspectos merecem um destaque especial no remate da apresentação destes dois conjuntos cooperativos, destacados no PRÉMIO INH/IHRU 2007:

(i) O primeiro aspecto é processual e refere-se às evidentes sinergias conseguidas pela associação entre cooperativas de habitação e municípios, através do aproveitamento da capacidade específica da promoção cooperativa, quer na dinamização global das promoções habitacionais de verdadeiro interesse social, quer, especificamente, no contacto com os habitantes e na crucial gestão de continuidade e de proximidade, Desta forma é possível a municípios pouco “equipados” em termos técnicos ou com reduzida prática na promoção habitacional, o desenvolvimento de uma parceria eficaz com cooperativas com provas dadas nesses domínios, assegurando-se, como se referiu, não apenas a concretização de um conjunto habitacional e urbano com qualidade arquitectónica, mas também a gestão continuada e sustentada do mesmo conjunto, e uma gestão que poderá associar soluções de arrendamento de interesse social.

(ii) O segundo aspecto tem a ver com a sempre renovada importância do desenvolvimento de vizinhanças de proximidade, uma intenção fundamental e desde sempre muito ligada aos objectivos habitacionais cooperativos de proporcionar para além de uma casa, uma potencialidade de convívio e de alguma solidariedade através da formalização de uma tal configuração de vizinhança. Realmente, também se habita a rua ou a praceta que é a nossa, e que de certa forma faz uma agradável transição entre o mundo doméstico, de cada um e de cada família, e o mundo mais urbano e animado que também desejamos; e é interessante evidenciar que é neste nível de vizinhança de proximidade que se devem desfazer e anular, totalmente, todos e quaisquer resquícios que ainda sobrevivam em termos de discriminação por imagens habitualmente mais ligadas a habitação considerada “de baixo custo” ou “social”. Não faz qualquer sentido para as pessoas que habitam em, e que são vizinhos de, conjuntos de habitação de interesse social terem a noção de que as suas habitações ou as habitações vizinhas têm um qualquer estatuto “menorizado” relativamente às habitações envolventes; o respectivo custo e as respectivas áreas poderão ser menores, mas a sua imagem tem de ter toda a dignidade que a cidade exige, e só assim se irá fazendo integração física e social.

(iii) Finalmente, o terceiro aspecto, que apenas aqui se aponta, muito na globalidade, tem a ver com a possibilidade e a necessidade de se fazerem casas realmente adequadas aos diversificados mundos familiares e pessoais dos muitos seus habitantes; uma intenção que, afirma-se, pouco tem a ver com mais área e acabamentos mais luxuosos, mas sim, que se liga com mais arquitectura, mas informada e mais sensível, uma arquitectura que trate os espaços do edifício com verdadeiro pormenor, concentrando, racionalizando e “poupando” onde seja possível assim fazer, mas que verdadeiramente crie pequenos mundos domésticos, adaptáveis e ricos. E é interessante poder visitar casas muito racionalizadas e espacialmente contidas (por exemplo em condições mínimas nas escadas comuns), mas onde junto ao elevador é possível olhar o pequeno jardim de vizinhança, onde na sala há lugar para um recanto de trabalho, onde na cozinha há sítio para uma pequena mesa, e onde foi possível criar uma pequena varanda multifuncional. Está realmente “na hora” de se re-equacionarem funcionalidades e caracterizações domésticas.


As imagens da Cooperativa Habipaços são do Arq. José Clemente Ricon.

Casais de Baixo, Azambuja, 16 de Agosto de 2007
Editado por José Baptista Coelho, 17 de Agosto de 2007.

quinta-feira, agosto 09, 2007

152 - Cooperativas de habitação, reabilitação e sustentabilidade – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 152

  - Infohabitar 152

Cooperativas de habitação, reabilitação e sustentabilidade ambiental e social: a propósito de alguns casos do PRÉMIO INH/IHRU 2007



Depois de se ter editado, aqui no Infohabitar, há poucas semanas, a acta de apreciação e designação de prémios e menções respeitantes ao PRÉMIO INH/IHRU 2007 – 19ª EDIÇÃO, cujos resultados foram conhecidos em 3 de Julho de 2007, em cerimónia própria que decorreu no auditório da Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, inicia-se, hoje, nesta nossa revista, um percurso um pouco mais pormenorizado sobre o mesmo conjunto de soluções urbanas e residenciais.

Sublinham-se, desde já, três aspectos estruturantes nesta pequena sequência de artigos semanais que agora se inicia:

. Trata-se de uma perspectiva de análise pessoal e “de trabalho”, desenvolvida pelo autor destas linhas no âmbito da sua participação no Júri do Prémio como representante do Laboratório Nacional de Engenharia Civil; e portanto uma perspectiva que não se tem de articular, plenamente, com a análise do Júri.

. Na sequência do que acabou de ser referido, optou-se por não referir quaisquer aspectos associados ao respectivo destaque no Prémio; e sublinha-se que a designação (ficha técnica), limita-se a repetir, quase na íntegra, a já divulgada na referida Acta do Júri e no respectivo Catálogo do Prémio.

. E, finalmente, aproveitou-se esta oportunidade para falar, apenas um pouco, sobre temas que se julga estarem na ordem do dia em termos de procura de boas soluções de habitar a casa e a cidade; e é sob o título dessas temáticas que se agrupam os conjuntos apresentados.





Fig. 01: a nova Bouça.

Desde já se aponta que nas próximas semanas e na sequência deste artigo serão editados textos sobre outras temáticas, e designadamente sobre:

(i) a relação entre soluções humanizadas, densificação e escala humana;

(ii) a importância da integração urbana e paisagística;

(iii) e sobre o interesse do desenvolvimento de vizinhanças e mundos domésticos bem pormenorizados.

Cooperativas de habitação, reabilitação e sustentabilidade ambiental e social: a propósito de alguns casos do PRÉMIO INH/IHRU 2007



Fig. 2: a Ponte da Pedra, o primeiro conjunto cooperativo de habitação sustentável em Portugal.

No que se refere à promoção cooperativa no âmbito do Estatuto Fiscal Cooperativo, e porque se considera não ser possível ou desejável comparar uma complexa e exemplar acção de reabilitação urbana e da edificação de um conjunto com provado interesse cultural, urbano e residencial, com uma acção bem qualificada, também complexa e pioneira de associação ao habitar de tecnologias ligadas ao hoje fundamental objectivo de sustentabilidade ambiental; repete-se, porque se considera praticamente impossível tal comparação e porque em qualquer dos casos o resultado urbano, habitacional, construtivo e arquitectónico, é muito claramente positivo e de referência para próximas promoções, julga-se ser de total justiça o destaque de dois conjuntos que se salientaram, exactamente, nestes aspectos de reabilitação urbana e habitacional e de sustentabilidade ambiental.


Fig. 3: o conjunto da Chevis em Abraveses, uma excelente vizinhança de proximidade.

Num natural e fundamental alargamento do âmbito de uma adequada sustentabilidade também se faz um destaque especial a uma solução de vizinhança urbana e residencial que alia características de soluções multi e unifamiliares num desenho forte e positivamente marcado pela escala humana, De certa forma entramos aqui um pouco no que também deve ser um objectivo sempre presente, e que está de facto e desde sempre muito presente na promoção cooperativa, que se pode designar como “sustentabilidade social”.

E desde já se sublinha que um tal relevo dado à reabilitação e à sustentabilidade ambiental e social também evidencia o que poderá vir a resultar da ampliação das competências do actual IHRU - Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana –, relativamente às atribuições e aos excelentes caminhos seguidos pelo seu directo antecessor o INH.


Fig. 4: a Bouça.

Bairro da Bouça, Porto


72 fogos promovidos pela cooperativa Águas Férreas, C.R.L., construídos pela empresa FDO – Construções, S.A., com o projecto e a coordenação do arquitecto Álvaro Siza Vieira e do arquitecto António Madureira.

O futuro das cidades está em acções onde, como neste caso, se faz a reabilitação e a completação de pequenas partes da cidade, que assim são devolvidas à estima pública e à reforçada estima dos próprios habitantes.

Acções estas às quais, como é o caso, podem ser associadas melhorias profundas em termos do conforto ambiental preexistente (ex., conforto térmico), em termos de funcionalidade global (ex., estacionamento colectivo) e mesmo na melhoria estruturante dos espaços exteriores do conjunto relativamente ao papel que para eles se deseja, e que é realmente, duplo, ao serviço das diversas vizinhanças locais e ao serviço de todos aqueles que ao usarem a cidade usam também os caminhos e as pracetas deste pequeno bairro. Só assim se faz realmente cidade com habitação.
Fig. 5: Bouça.

É difícil resumir o que se pensa sobre esta intervenção em poucas palavras, mas registam-se sinteticamente algumas ideias:
(i) garantia de eficácia de uma acção de reabilitação e de preenchimento urbano com elevada complexidade e com as pessoas a morarem no local; harmonização de situações sociais preexistentes muito diversas, e muitas delas com elevada sensibilidade;
(ii) assumir e levar a bom termo a reabilitação e o acabamento de um bem conhecido projecto habitacional e urbano, considerado de elevada qualidade arquitectónica e verdadeiro testemunho de um período marcante da nossa história da habitação dita social;
(iii) associar a esta acção algumas novas valências específicas do pequeno bairro e outras que decorrem da sua proximidade a novas infraestruturas da cidade; não esquecer importantes aspectos de humanização como as árvores de arruamento e os grandes enfiamentos de sardinheiras que marcam as fachadas;
(iv) e fazer tudo isto com os moradores que lá estavam, para além da introdução de novas famílias, durante um período de obra racionalizado e no respeito dos custos da habitação com apoio do Estado.

Fig. 6: Bouça.

Para concluir é ainda necessário registar um outro aspecto de grande valia neste conjunto, que é ser ele exemplo construído e vivo do que tem de ser a regra no fazer e refazer a cidade de hoje, que é o construir no construído, em pequenos complementos, bem integrados, atraentes e apropriáveis, onde se disponibilizem tipologias diversificadas, que permitam às pessoas a escolha de como viver.
Fig. 7: Bouça.

E é de grande importância esta disponibilização de formas diversas de habitar a casa e a cidade, afastando-se o fantasma do modelo único de habitar e desenvolvendo-se tipologias que prolonguem o exterior público, mas também o exterior caracterizadamente comum e potencialmente convivial; tipologias criadoras de pequenas e orgânicas partes de cidade, bem acabadas e afectuosas (tema este a desenvolver) e tipologias verdadeiramente criadoras de verdadeiros pequenos mundos privados e domésticos (e também a este tema se voltará num próximo artigo); e para tudo isto é fundamental o bom desenho de arquitectura, aquele que pode, de facto, ajudar a dar mais felicidade às pessoas.

Fig. 8: a Ponte da Pedra.

Ponte da Pedra, Matosinhos


101 fogos promovidos pela NORBICETA, U.C.H., construídos pela empresa J. Gomes, S.A., com projecto coordenado pelo arquitecto António Carlos de Oliveira Coelho.

O futuro das cidades está também em acções onde, como neste caso, se faz uma transformação profunda de partes de território que estavam, anteriormente, marcadas pela poluição física e visual e por serem verdadeiras barreiras à desejada continuidade do tecido urbano.

Aqui, na Ponte da Pedra, depois da demolição de uma grande indústria poluente, um conjunto de cooperativas de habitação (Nortecoop, Sete Bicas e Ceta) promoveu um concurso de ideias, que visou desenvolver nesta parcela de território uma intervenção com muitos dos aspectos que caracterizam uma cidade viva, designadamente:

(i) recompor e intensificar a continuidade urbana;
(ii) privilegiar a relação com a malha urbana preexistente;
(iii) definir e acentuar vizinhanças de proximidade bem configuradas;
(iv) integrar verde urbano protagonista e elementos de equipamento e de arte urbana protagonistas.

Fig. 9: a Ponte da Pedra.

Estes aspectos de sustentabilidade urbana marcam a globalidade das duas fases desta intervenção na Ponte da Pedra, mas na sua segunda e última fase esta promoção introduziu também aspectos de sustentabilidade ambiental, no âmbito do projecto internacional da Comissão Europeia intitulado Sustainable Housing in Europe (SHE), que se integra no 5º Programa Quadro “Investigação e Desenvolvimento”, no programa "Energia, Ambiente e Desenvolvimento Sustentável”.

O Projecto SHE apoia a demonstração da viabilidade da produção de habitação sustentável na promoção residencial corrente, bem como a sua associação à participação dos habitantes ao longo do desenvolvimento do processo, condição esta que, como bem sabemos, está bem ligada à promoção cooperativa.

Na Ponte da Pedra aplicaram-se inovações, designadamente, nas seguintes matérias:
(i) construção mais amiga do ambiente no que se refere à gestão dos resíduos produzidos e à escolha dos materiais;
(ii) conforto térmico acrescido e claramente acima do exigido em termos regulamentares;
(iii) reformulação do ciclo de água e poupança de água potável; aquecimento de água com painéis solares;
(iv) melhoria das condições de conforto acústico; e melhoria das condições de ventilação doméstica.

E refere-se estar em curso a monitorização das potenciais poupanças obtidas com estas novas soluções.

Fig. 10: a Ponte da Pedra.

No exterior urbano é evidente uma ampla preocupação seja com a integração do verde urbano, seja com a presença física da água, que é excelente factor de amenização ambiental, seja com a introdução de arte urbana, numa excelente reaplicação da velha aliança entre arquitectura e arte citadina.

Finalmente há que sublinhar que tudo isto se fez , durante um período de obra racionalizado – a Norbiceta foi o primeiro conjunto acabado no âmbito do Projecto SHE – e dentro de custos que estão dentro dos limites da habitação com apoio do Estado.

Fig. 11: Abraveses.

Abraveses, Viseu


12 fogos promovidos pela cooperativa Chevis, C.R.L., construídos pela empresa Abrantina, S.A., com o projecto coordenado pelo arquitecto Francisco Simões.

A cidade também se faz e cada vez mais se deverá fazer de pequenos conjuntos como este, em que se evidenciam aspectos de boa integração urbana, escala humana, desenho racionalizado e atraente, associação entre as vantagens de uma reforçada agregação de fogos e a satisfação do desejo da vida numa tipologia unifamiliar, e capacidade de apropriação pelos moradores.

Tal como foi referido na visita do Júri tratou-se de criar na horizontal uma afirmada associação de fogos, possibilitando-se que depois os moradores desenvolvam equipamentos e acabamentos específicos, em cada fogo.

Fig. 12: Abraveses.

Sublinha-se ainda o interesse que tem a aqui bem aparente procura de diversificação tipológica, associada seja a uma forma urbana pública com presença sóbria mas estimulante, seja à agregação de um módulo habitacional simples e claro, mas que gera um conjunto agradavelmente orgânico, seja ao desenvolvimento de espaços exteriores comuns côncavos e potencialmente geradores de relações de vizinhança e de convívio.

Trata-se de uma solução de habitar que alia, verdadeiramente, um sentido urbano complementar, positivo e vitalizador, a uma imagem forte de escala humana, a uma perspectiva de adequado aproveitamento de um espaço urbano antes sobrante e a uma agradável, apropriável e espacialmente ampla solução de mundo doméstico.


Na semana que vem falaremos de escalas, de densidades e de imagens urbanas, também não esquecendo a escala humana.


Nota importante: as imagens da Bouça são do Arqº José Clemente Ricon.

Casais de Baixo, Azambuja, 8 de Agosto de 2007.
Editado por José Baptista Coelho, 9 de Agosto de 2007.