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quarta-feira, agosto 03, 2011

357 - A nova Bouça, no Porto - Casos de Referência dos primeiros 5 anos do Prémio IHRU – I - Infohabitar 357

Infohabitar, Ano VII, n.º 357

Nota editorial:


Com o presente artigo (Casos de Referência dos primeiros 5 anos do Prémio IHRU – I: a nova Bouça, no Porto) inicia-se uma nova série editorial no Infohabitar, que à semelhança de outras séries da nossa revista, terá uma edição alternada por outros artigos tematicamente autónomos ou também integrados em séries editoriais específicas.


Iremos editar “Casos de Referência dos primeiros 5 anos do Prémio IHRU” – Prémio Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana –, numa iniciativa que irá divulgar imagens e comentários técnicos de descrição e análise sumária de alguns dos candidatos às primeiras cinco edições daquele Prémio e que se fundamenta no interesse que sempre teve, tem e terá a divulgação de boas práticas de habitat (num sentido lato e verdadeiro de habitat), neste caso associadas a quatro grandes linhas de actividade específicas e que são, em seguida, apontadas:


(i) Promoção de novos conjuntos de habitação de interesse social - numa faceta de actividade em que o Estado e os seus parceiros têm de continuar activos, embora numa perspectiva mais delimitada e provavelmente cada vez mais atenta à adequação das soluções específicas aplicadas e sua qualidade arquitectónica.


(ii) Reabilitação de velhos edifícios e de conjuntos edificados, também com o objectivo específico de disponibilização de habitação de interesse social – um objectivo cujo interesse aqui se sublinha de forma bem evidenciada – ou de outras categorias habitacionais; estas acções de reabilitação habitacional estão e devem estar estrategicamente integradas em centros históricos e em outras malhas urbanas carentes de vitalização e melhoria física, numa faceta de actuação que, hoje em dia, assume importância estratégica e multifacetada, seja para os respectivos habitantes, seja para a cidade que se quer urgentemente mais e melhor habitada.


(iii) Reabilitação de velhos edifícios não-habitacionais para melhoria das suas condições de uso e de conforto no uso, considerando a manutenção das suas funcionalidades básicas ou a respectiva reconversão, total ou parcial, a novos usos; uma faceta de actuação também vital numa perspectiva de melhoria consolidada e durável da globalidade do tecido urbano.


(iv) (e finalmente) Reabilitação de espaços exteriores públicos ou de uso público, numa faceta de actuação com uma importância igualmente estratégica e ainda não devidamente considerada na sua urgência, no seu interesse e nas suas exigências específicas de projecto, obra e manutenção/gestão; afinal, será de uma adequada redinamização do uso dos nossos espaços públicos urbanos, em termos de frequência e intensidade de uso, que decorrerá boa parte da vitalização urbana dessas áreas e não bastam arranjos “de aspecto” para assegurar o êxito destas operações.


Em termos informativos refere-se que o Júri do Prémio IHRU integra representantes das seguintes instituições: Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, Laboratório Nacional de Engenharia Civil, Associação Portuguesa dos Arquitectos Paisagistas, Ordem dos Arquitectos e Ordem dos Engenheiros. Em 2007 e porque este Prémio constituiu uma edição única do Prémio INH/IHRU (o Instituto Nacional de Habitação deu lugar ao IHRU no decurso do Prémio), o Júri integrou, ainda, representantes ANMP, da AECOP, da ANEOP e da FENACHE.


Numa primeira reunião do Prémio IHRU é feita uma pré-selecção dos empreendimentos a visitar e é elaborado um programa de visitas. Na última reunião, efectuada após as deslocações aos empreendimentos seleccionados, e após a revisão comentada das respectivas visitas (imagens projectadas) e de uma natural e sistemática discussão técnica o Júri atribui os respectivos Prémios e Menções.


Mais se esclarece que os candidatos aos Prémio IHRU, um prémio exclusivamente honorífico, concorrem nas variantes Construção ou Reabilitação: sendo que na primeira variante (Construção), há várias vertentes/categorias de concurso - Promoção Municipal e Regional, Promoção Cooperativa e Promoção Privada – enquanto na variante Reabilitação há, actualmente (à data da escrita deste artigo), há também várias vertentes de concurso - Reabilitação Isolada de Imóveis, Reabilitação ou Qualificação de Espaço Público e Reabilitação Integrada de Conjuntos Urbanos.


Sublinha-se, no entanto e desde já, que a apresentação dos casos de referência de candidatos ao Prémio IHRU, que irá sendo assegurada pelo Infohabitar a partir desta sua edição n.º 357, não dará importância significativa a estas vertentes “oficiais” do Prémio, preferindo salientar as quatro grandes linhas de actividade específicas acima apontadas, bem como aspectos específicos e interessantes de cada intervenção e optando por divulgar de forma não sistemática, não exaustiva, temporalmente não ordenada, e “em pé de igualdade” entre casos que obtiveram Prémios, outros que mereceram Menções Honrosas e ainda outros que não tiveram destaque especial no Prémio, mas que o autor destas linhas considera serem também casos com muito interesse e que, portanto, terá utilidade a sua divulgação; pois, afinal, a própria divulgação de casos de referência muito diversificados tem uma utilidade própria e, como bem sabemos, a cidade não se faz apenas de exemplos excepcionais, mas também de casos de referência com aspectos específicos e meritórios cuja divulgação é importante.


E de certa forma o Prémio IHRU tem a sua existência específica, que se vai cumprindo anualmente, e aqui no Infohabitar estamos num outro contexto de divulgação bem distinto e naturalmente mais flexível, até porque os comentários que acompanham as imagens dos conjuntos, edifícios e espaços que irão sendo divulgados, são apenas e naturalmente da responsabilidade do autor do artigo – com a excepção referida às citações das respectivas actas do Júri e/ou dos textos de apresentação dos respectivos catálogos do Prémio (devidamente assinaladas), que são anualmente ditados pelo IHRU.

Salienta-se, finalmente, que será fortemente privilegiada uma componente de ilustração e de imagens dos casos de referência editados, reduzindo-se os textos de comentário e reflexão ao máximo e caracterizando-os por uma perspectiva informal “de visitante” interessado da respectiva intervenção; e que se convidam os respectivos autores, promotores e habitantes a complementarem e a comentarem as respectivas obras e/ou os próprios comentários do Infohabitar, através de simples envios via e-mail à edição do Infohabitar, que, depois e logo que seja possível integrará os respectivos textos e, eventuais, imagens, nos respectivos artigos, ou, e em alternativa (casos de contribuições com dimensão e interesse significativos), poderá decidir pela sua edição autonomizada, se o respectivo autor autorizar esta possibilidade.


Considerando-se que não decorreu, ainda, a cerimónia de entrega dos Prémios IHRU 2011, não serão editados no Infohabitar até essa data candidaturas respeitantes a este anos de 2011. Mais se refere que não houve uma preocupação específica com a ordem de apresentação dos casos, embora se tenha procurado privilegiar, numa primeira fase de edição, os conjuntos e obras já concretizados há mais tempo.António Baptista Coelho





Editor do Infohabitar


Casos de Referência dos primeiros 5 anos do Prémio IHRU – I: a nova Bouça, no Porto


António Baptista Coelho



Fig. 01


72 fogos na Bouça (128 fogos na totalidade), Porto, promovidos pela cooperativa Águas Férreas, C.R.L., construídos pela empresa FDO – Construções, S.A., com o projecto e a coordenação do arquitecto Álvaro Siza Vieira e do arquitecto António Madureira.




“Trata-se de um notável conjunto habitacional, referência de um período muito significativo do nosso passado recente, de que se realça o facto de ter sido reabilitado e concluído com a colaboração dos moradores de origem, trinta anos após a sua concepção e execução parcial.


A forma como se articulam o edificado e o espaço aberto, através da forma e exposição das fachadas que delimitam espaços ajardinados que se abrem à envolvente urbana, potencia a diversidade de usos, e permite também uma regulação climática.


É de grande relevância o tratamento exemplar da luz, nesta obra de grande beleza formal e actualidade.”

Foi uma citação integral do texto de apresentação do catálogo do Prémio INH/IHRU 19.ª Edição; salienta-se que este texto de apresentação integra a acta do júri do respectivo Prémio, tendo sido, portanto, elaborado, conjuntamente, pelo respectivo Júri.



Fig. 02

Um do aspectos que mais impressiona o visitante desta nova Bouça é a a sua presença como elemento de marcação e consistência urbana, definindo, com naturalidade, fins e inícios de percursos, e de percursos intensamente marcados pelo peão e/ou pelo peão transportado na excelente infraestrutura de acessibilidade e de “montra” urbana que é o Metro do Porto – que tem uma estação contígua/encostada à Bouça.


Nesta perspectiva acontece, neste conjunto renovado e finalmente completo, uma certa oferta à cidade de um “novo” conjunto residencial atraente e urbanisticamente marcante, enquanto a “nova” intervenção aproveita da cidade envolvente as relações urbanas estáveis e vitalizadas de uma malha consolidada.


Fig. 03

Naturalmente que nesta troca de benefícios há também que ter em conta a verdadeira valia cultural e histórica desta intervenção, que contribui, objectivamente, mais um pouco, para a importância desta cidade como sítio privilegiado da história da Arquitectura portuguesa e europeia (e este é um contributo que se deve fazer, assim, estrategicamente, pouco a pouco, mas sempre de uma forma activa); e, sem dúvida, para a sua caracterização como cidade-lugar específica e cidade de lugares específicos e com uma entidade/identidade positiva e estimulante.


Fig. 04


Um outro aspecto que importa considerar é a questão da humanização, uma humanização que se lê no desenho global, que se lê na escala global e apontada à própria escala humana, que está um pouco por todo o lado, e que se lê, afinal, nos caminhos de apropriação activa e passiva que marcam acessos comuns e entradas de habitações.


Fig. 05

Depois podemos focar a questão de estarmos em presença de uma pequena vizinhança alargada estimulantemente composta de diversas vizinhanças de proximidade com identidades específicas, bem associadas às diversas tipologias edificadas: temos acessos por galerias marcadas por canteiros alongados e floridos, mas também acessos privados directos entre espaço público e habitação em pequenos recessos agradavelmente domésticos, e ainda acessos directos por escadas privadas. E cada uma desta soluções se associa à sua própria vizinhança de proximidade, sempre total e agradavelmente aberta ao uso público.


Fig. 06

Falámos já das estratégica e afirmadas relações entre habitação e espaço público, ou mesmo entre habitação e cidade, mas convém referir aqui a inteligência de certas soluções de vãos de entrada nas habitações, onde se harmoniza a possibilidade de abertura de vista e de iluminação natural, com uma adequada previsão de encerramento e segurança.


Fig. 07

E finalmente, antes de se fazerem algumas notas sobre a operação de reabilitação, convém sublinhar a sabedoria da introdução de formas de organização domésticas talvez menos correntes, mas extremamente estimulantes no apoio a diversas formas de habitar a casa, num passo fundamental e que é urgente de diversificação da concepção residencial ao nível do multifamiliar; e assim temos, por exemplo, habitações, em dois níveis, sendo que no menos elevado se concentram espaços mais privados enquanto no superior as zonas mais sociais podem ser vividas de uma forma mais aberta e integrada, ou de formas mais destacadas e separadas, cabendo a escolha a quem habita.


Fig. 08


Não seria adequado passar sem referir, apenas como nota a lembrar numa visita que o leitor irá, sem dúvida, fazer à Bouça, a importância, a sobriedade urbana, a residencialidade e a escala humana que caracterizam a pormenorização deste conjunto.


Fig. 09

Tal como se referiu faz-se, agora, uma referência muito breve, mas fundamental, a tratar-se de uma iniciativa habitacional cooperativa associável ao incansável e meritório trabalho da Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE), e designadamente ao seu Presidente Guilherme Vilaverde; sendo que aqui a cooperativa Águas Férreas, que foi expressamente criada para o efeito de levar a bom termo a reabilitação profunda e a conclusão do projecto inicial de Siza Viera – com a introdução de 72 novas habitações -, conseguiu realizar este objectivo em tempo útil, associando a resolução dos problemas de quem habitava no conjunto, com a introdução de novas valências funcionais (ex., estacionamento colectivo) e com a reabilitação profunda dos edifícios existentes (anulação de crítica patologia construtiva, melhorias importantes em termos de conforto térmico - com isolamento pelo exterior e harmonização da imagem arquitectónica, mediante anulação de intervenções individuais consideradas excessivas e dissonantes).


Fig. 10

A iniciativa cooperativa, associada à acção municipal, assegurou toda esta intervenção com os habitantes originais a habitarem os seus fogos e estruturando a respectiva gestão dos condomínios, o que é um elemento-chave da viabilidade habitacional e urbana deste conjunto por muitos e bons anos.

Fig. 11


Notas finais:


- a intervenção de nova construção e de reabilitação da Bouça foi Prémio INH/IHRU 2007


- parte das imagens são do Aq.º José Clemente Ricon de Oliveira

- alguma eventual falta de qualidade das imagens editadas, fica a dever-se, essencialmente, a questões editoriais específicas.



Bibliografia:


PAMPULHA, Rogério; PEREIRA, Teresa; FORJAZ, Isabel - Prémio INH/IHRU 19.ª Edição. Lisboa, Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, 2007 (Dep. Legal 261148/07)

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.


Infohabitar, Ano VII, n.º 357


Casos de Referência dos primeiros 5 anos do Prémio IHRU - I : a nova Bouça no Porto
3 de Agosto de 2011

Editor: António Baptista Coelho

Edição de José Baptista Coelho

Lisboa, Encarnação - Olivais Norte


segunda-feira, abril 17, 2006

80 - Finalmente a conclusão da Bouça, de Siza Vieira, pela iniciativa cooperativa - Infohabitar 80


 - Infohabitar 80

Finalmente a conclusão da Bouça, de Siza Vieira, pela iniciativa cooperativa




O próximo dia 25 de Abril será marcado pela conclusão do famoso e agora totalmente renovado Bairro da Bouça, no Porto, situado entre a linha do caminho de ferro e a Rua da Boavista, projectado por Siza Vieira, com as primeiras ideias apontadas antes de Abril de 1974 e cuja arquitectura urbana e habitacional foi, depois do 25 de Abril de 74, desenvolvida no âmbito do plano de habitação de emergência SAAL (Serviço Ambulatório de Apoio Local), sendo então o conjunto previsto apenas parcialmente construído (1977), seja na parte habitacional, seja nos respectivos espaços públicos.


Em Abril de 2004, portanto há apenas dois anos, foram iniciadas as obras de regeneração urbana e habitacional do pequeno Bairro, que incluíram a profunda reabilitação construtiva e em termos de conforto ambiental dos 56 fogos preexistentes – acção esta feita com os moradores no local –, a conclusão do plano inicial com o desenvolvimento de 72 novas habitações, a criação de um estacionamento subterrâneo e todos os espaços públicos que irão dar coesão urbana à renovada intervenção.



Faz-se ainda um especial destaque a uma cuidadosa, sistemática e eficaz acção de gestão e enquadramento social de uma intervenção de elevada complexidade, seja pela mistura entre obras de requalificação e novas obras, seja pela harmonização de situações sociais e familiares extremamente diversificadas, seja pela necessária harmonização formal de inúmeras apropriações feitas pelos habitantes ao longo de quase trinta anos, seja ainda pelo objectivo de conciliar o controlo de custos, pois trata-se de uma obra financiada pelo INH, com o acabamento de uma obra charneira e marcante da arquitectura portuguesa do século XX e designadamente da história da habitação de interesse social em Portugal.



O perfil deste artigo é apenas alertar para este evento único, pois passados uns muito escassos dois anos após o início desta iniciativa, a Cooperativa Águas Férreas, especialmente constituída para o efeito pelas cooperativas CETA e Sete Bicas e pela Associação de Moradores da Bouça, marca o 25 de Abril de 2006, com a conclusão da Bouça de Siza Vieira.


Para este resultado muitos contribuíram, mas faz-se aqui uma referência especial, ao nível da obra, para o Arq. Álvaro.Siza.Vieira e o seu gabinete, e neste designadamente para o Arq. António.Madureira, na coordenação da obra para o Eng. José.Coimbra e no desenvolvimento da obra para a FDO Construções SA. Ao nível dos promotores têm de ser nomeados os incansáveis José.Ribeiro, Arnaldo.Lucas e Guilherme.Vilaverde, por parte das cooperativas, aos quais muito se deve, mas também deverá ser destacada a colaboração do INH, desde a primeira hora e designadamente o empenho do Director da Delegação no Porto, Defensor.de.Castro e do próprio Presidente do INH, Teixeira.Monteiro.
No próximo dia 25 de Abril de 2006, pela manhã e marcando este evento, o INH – Instituto Nacional de Habitação, e a FENACHE – Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica, decidiram promover, a partir das 10.00h, uma mesa de debate sobre as experiências do SAAL, que conta com a participação dos Arquitectos Álvaro.Siza.Vieira e Nuno.Portas.
O Grupo Habitar (GH) já esteve na Bouça, numa fase avançada da sua construção, em Maio de 2005 (juntam-se imagens dessa altura) e conta vir a fazer um artigo pormenorizado e ilustrado sobre este novo exemplo de inovação e de eficácia da cooperação habitacional, agora numa intervenção complexa de regeneração urbana e habitacional a custos controlados; para já ficam os sinceros e entusiastas parabéns do GH a todos os que para mais esta excelente obra cooperativa contribuíram.
António.Baptista.Coelho
Pres. Dir. Grupo.Habitar