Mostrar mensagens com a etiqueta instituto nacional de habitação. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta instituto nacional de habitação. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, junho 07, 2007

143 - 20 anos de habitação social portuguesa – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 143

 - Infohabitar 143


INH, vinte anos de habitação de interesse social em Portugal, de 1984 a 2004


Nota prévia
Numa referência destacada à recente transformação do Instituto Nacional de Habitação (INH) em Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), entidade esta que se saúda e à qual se desejam os melhores êxitos e as maiores felicidades, apresenta-se, em seguida, com um mínimo de alterações, o texto que baseou a intervenção do autor na sessão de apresentação do livro, intitulado “INH, 1984-2004, 20 anos a promover a construção de habitação social”, que teve lugar em Lisboa, na Torre do Tombo, em 26 de Maio de 2006. Este estudo, que foi editado pelo INH e desenvolvido pelo LNEC, em estreita colaboração com um amplo conjunto de técnicos do INH, integra uma síntese técnica da actividade de promoção de habitação levada a cabo pelo INH durante os seus primeiros 20 anos de funcionamento (de 1984 a 2004), num período total de actividade que atingiu os 23 anos em Maio de 2007.





Fig. 00: um dos conjuntos destacados no último Prémio INH, de 2006; uma promoção privada na Gala, Figueira da Foz, 81 fogos; projectistas Arq. Duarte Nuno Simões, Arq. Nuno Simões, Arq.ª Joana Barbosa e Eng. Pinto Martins.

Perfil geral do estudoSalienta-se, em primeiro lugar, que a razão porque se optou por um leque bastante amplo de casos, é que houve uma noção comum de que é bem diferente fazer um conjunto habitacional, por exemplo, numa cidade importante, ou fazê-lo numa zona afastada e por vezes tecnicamente menos equipada. Não é que se considere que tudo o que se apresenta seja de referência arquitectónica, mas há a certeza de que tudo o que se apresenta neste livro configura uma qualidade habitacional com um sinal claramente positivo e que corresponde a uma boa evolução da habitação de interesse social em Portugal.
Procurou-se, assim, fazer um livro útil, de registo comentado da diversificada experiência na habitação a custos controlados (HCC) entre 1984 e 2004, sem se esquecer o que aconteceu antes, em Portugal, nesta matéria da habitação de interesse social, pois para haver presente e futuro, tem de haver passado.





Fig. 01: Bairro Social do Arco do Cego, Lisboa, iniciado em 1918 (e com um muito longo período de construção), projecto dos arquitectos Edmundo Tavares e Frederico Machado; um dos primeiros “bairros sociais” portugueses e com uma dimensão importante (quase 500 fogos).

Estrutura do estudo : a promoção apoiada pelo INH na pequena história da habitação de interesse social portuguesa
O trabalho é iniciado com a fundamental referência aos projectistas coordenadores, promotores e construtores dos mais de 250 conjuntos residenciais que representam, neste livro, a promoção financiada e apoiada pelo INH nos seus vinte anos de actividade, entre 1984 e 2004.

Depois da apresentação e do enquadramento geral do tema, desenvolvem-se algumas reflexões sobre o conceito de habitação com qualidade e custos controlados e sobre o interesse do registo das boas práticas.

Faz-se, em seguida, a apresentação sintética de vinte anos de actividade do Instituto Nacional de Habitação (INH).
Depois procede-se a uma abordagem técnica resumida da promoção de habitação de interesse social, em Portugal, no período entre 1918 e 1984, que antecedeu a criação do INH, privilegiando-se, quer o apontar da sequência das instituições e organismos que têm sido responsáveis, em Portugal, pela promoção de habitação de interesse social, quer algumas reflexões gerais sobre os respectivos resultados, designadamente, quanto à aliança entre qualidade arquitectónica e satisfação residencial.

Em seguida apresenta-se o Prémio INH, através da apresentação da sua metodologia, baseada no contacto directo com as habitações habitadas e em reuniões de discussão e análise com a presença do júri e dos promotores, projectistas e construtores – foram feitas, até 2006, 568 acções deste tipo – e na caracterização do seu papel, considerado positivo e significativo, na dinamização das boas práticas habitacionais, seguindo-se uma pequena “viagem” pela evolução dos diversos tipos de promoção de HCC ao longo das várias edições do Prémio.

Finalmente desenvolve-se, em três grandes capítulos – cada um deles referido a um dos tipos de promoção de HCC (municipal, cooperativa e privada) – a apresentação, ano a ano, ao longo de vinte anos de actividade do INH, de mais de 250 casos individualizados da promoção habitacional financiada e apoiada pelo Instituto, salientando-se os respectivos projectistas, promotores e construtores, e sintetizando-se, para cada uma das promoções, as respectivas características urbanas e arquitectónicas residenciais, acompanhadas por imagens fotográficas e alguns elementos dos respectivos projectos.

Optou-se por uma apresentação ampla e com sinal positivo, de uma grande diversidade de situações e tipologias urbanas e arquitectónicas e, também, por uma estruturação anual, que integra as três modalidades de promoção (municipal, cooperativa e privada). Esta opção baseia-se, essencialmente, em ter-se privilegiado um tipo de livro com carácter intermédio entre o manual técnico e a apresentação de maior divulgação, de forma a poder-se obter, assim, um máximo de utilidade na sua utilização.

Como remate do trabalho faz-se o apontamento de algumas notas conclusivas ligadas ao que se julga poder ser a sua utilidade e o seu potencial no desenvolvimento de estudos práticos e aprofundados sobre a aliança que as tipologias de arquitectura urbana podem e devem proporcionar entre a qualidade do respectivo desenho doméstico e urbano e a satisfação residencial e cívica dos respectivos habitantes.




Fig. 02: o Bairro de Ramalde, no Porto, cerca de 1955, uma obra do Arq. Fernando Távora e “a primeira referência às propostas do movimento moderno no âmbito da habitação económica”, nas palavras do Arq. Francisco Barata.

Não há presente, nem futuro, sem passado

É infelizmente corrente começar ciclicamente tudo ou quase tudo de novo, mesmo que a experiência acumulada tenha um claro sentido positivo. Mas, como já se disse aqui, não há presente, nem futuro, sem passado. E para haver passado tem de haver registos, análises e divulgações do que foi feito.
não há futuro sem memória viva. Não há, realmente, futuro sem memória, nem há futuro sem uma memória viva, portanto estruturada e ponderada.

Não é admissível continuarmos a pensar tudo de novo quando se desenvolve uma nova intervenção residencial, isto não devia ser possível quando tanto já foi feito em termos de habitação e urbanismo com interesse social, em Portugal – num período de cerca de 85 anos – e nos mais de 100 anos de habitação social na Europa.

A história da habitação de interesse social é feita, naturalmente, de progressos e retrocessos, e a utilidade, de primeira linha, de uma ferramenta de divulgação, como este livro, é mostrar claramente, a quem queira ver, que é possível fazer habitação com controlo geral de áreas e de custos, e com um positivo controlo da sua qualidade arquitectónica; e, mais do que isto, que é possível fazê-lo, sem quaisquer tipos de estigmas negativos em termos de imagem urbana, conteúdo funcional e solução tipológica; ver para crer...

Naturalmente, quem conheça a evolução das três linhas de promoção de HCC – municipal, cooperativa e privada –, percebe, ao longo do correr das páginas deste livro, a flutuação da qualidade e da quantidade dos diversos tipos de promoção; mas quem conhece esta história conhece-lhe a sua evidente qualidade global crescente, que é o que importa aqui e agora salientar.

Alguns aspectos que caracterizaram os três tipos de promoção de HCC:

A grande diferença entre a intensa actividade e qualidade da promoção das Cooperativas de Habitação Económica, que marcou claramente o primeiro decénio e o início do segundo decénio de funcionamento do INH, mas que, a partir daí, foi reduzindo gradualmente essa mesma actividade no domínio da HCC. Condição esta muito empobrecedora da diversidade da oferta habitacional e que muito prejudica a fundamental miscigenação social e física em cada conjunto residencial; e há aqui que sublinhar que se houvesse uma análise pormenorizada dos cuidados de gestão e manutenção posterior à ocupação, esta promoção ficaria ainda mais em evidência.

O gradual mas claro crescendo de qualidade da promoção municipal, provavelmente associado ao gradual equipamento técnico dos municípios; e é de assinalar a grande qualidade e a verdadeira marca de exemplaridade que tem caracterizado, nos últimos 10 anos esta promoção municipal; um pouco herdeira da exemplaridade da promoção cooperativa dos primeiros 10 anos.

Quanto à promoção privada bastará dizer que ela também foi responsável por algumas das melhores soluções desenvolvidas, nos últimos vinte anos, embora num reduzido número de casos.

E o desenvolvimento de grandes quantidades de fogos para realojamento de pessoas que viviam em barracas, realizado no âmbito do PER, que marcou o segundo decénio da promoção de HCC e que provocou retornos pontuais, mas negativos, de grandes concentrações. Sobre esta problemática há que destacar que não deveria ser possível repetir maus exemplos, que todos sabemos irão reflectir-se em muito negativas consequências sociais para as populações realojadas e para as de acolhimento e, afinal, há casos de municípios que fizeram muito bem, intervenções de pequenas escala e bem integradas, mas também fizeram mal, conjuntos massificados e inadequados aos seus habitantes.




Fig. 03: as belíssimas primeiras fases da EPUL no Restelo, Lisboa (de 1973 a 1985); projecto urbano dos arquitectos Nuno Portas e Teotónio Pereira e do paisagista Gonçalo Ribeiro Telles; projecto de edifícios dos arquitectos Teotónio Pereira, Pedro Botelho e João Paciência.


Aprender com as boas práticas e disseminar as boas práticas habitacionais

Falemos então da relação directa entre esta publicação e algumas das actividades desenvolvidas pelo INH, entre as quais se destacam:

A realização de fóruns e acções de formação, acções estas em que houve muito frequentemente a colaboração activa de investigadores do LNEC e, ultimamente, do Grupo Habitar.

A Promoção de um prémio anual, que chegou já à 18ª edição e que se caracteriza por visitas a todos os conjuntos candidatos, incluindo-se sessões de apresentação, discussão e análise local das opções escolhidas; actividade formativa e informativa que já está próxima de chegar às seis centenas de acções locais.

E a edição anual do catálogo do Prémio, revestida de um importante carácter técnico, e complementada pela muito útil publicação dos chamados Casos de Referência, também já com muitos casos editados; iniciativas estas coordenadas pelo Arq. Rogério Pampulha;

Refiro estas iniciativas do INH, porque tenho a convicção que o trabalho que hoje se apresenta constitui uma peça de remate, que complementa estas várias actividades.

Quando iniciei a elaboração do livro pensei que uma das suas principais utilidades seria ajudar a que fosse mais difícil poderem desenvolver-se retrocessos em termos de uma habitação de interesse social que se deseja funcional e culturalmente qualificada. O que quero dizer com isto é que uma informação sistematizada como a que está agora disponível, neste livro, na mão de projectistas e de responsáveis pelo desenvolvimento habitacional, constitui uma ferramenta que, para além do útil aspecto do apontamento de caminhos e de ideias, ajuda a consolidar a noção de que “a fasquia” da qualidade residencial global da habitação de interesse social chegou já a um nível relativamente elevado, e que há uma grande diversidade de modelos residenciais e urbanos possíveis.

Combatem-se assim dois fantasmas negativos que sempre assombraram cada nova promoção de interesse social: a ideia de que este tipo de iniciativa tem de ter uma imagem global específica e, tantas vezes, negativamente discriminada; e a ideia de que a habitação de interesse social tem de se cingir a um leque tipológico reduzido e pouco imaginativo.

Julgo que este é um papel essencial deste livro, se estiver presente em muitas mesas de trabalho e for verdadeiramente usado, como se deseja, por muitos colegas; e já agora aproveito para dizer mais alguma coisa neste sentido, é que o leque de soluções apresentadas pode também servir, em todo o país, como mais uma referência para a promoção habitacional da iniciativa privada, numa perspectiva em que fará pouco sentido que esta habitação possa oferecer resultados construídos com uma qualidade global inferior à patente nos muitos casos apresentados de HCC.

Outra utilidade deste livro é servir de elemento de intercâmbio e de disseminação de experiências seja dentro do espaço lusófono seja na UE, seja com os países geográfica e culturalmente ligados a Portugal; é possível aprofundar agora uma tal troca de experiências, pois passa a haver uma ferramenta ilustrada e bilingue, e todos ganharemos com essa divulgação; chega de viver de costas voltadas e chega de repetir experiências, quando podemos saltar etapas, pois os casos residenciais são específicos, mas têm frequentemente, importantes aspectos comuns.





Fig. 04: no Prémio INH, ao longo de 18 edições, realizaram-se centenas de reuniões de debate e de crítica como esta na inagem, que reuniram, em cada local e após a visita a cada conjunto residencial e urbano, os membros do Júri do Prémio (júri multidisciplinar) com os respectivos projectistas, promotores e construtores, numa inestimável acção de formação/informação e disseminação de experiências.

Ensinamentos da Habitação de Interesse Social

Nesta matéria da experiência, a história da habitação social na Europa e em Portugal deu-nos soluções inovadoras, designadamente ao nível do habitar humanizado, num rico filão de arquitectura residencial e urbana, cujas potencialidades foram ainda pouco exploradas. Exemplifica-se isto com um exemplo concreto:

No início da promoção de interesse social em Portugal, no lisboeta Bairro Social do Arco do Cego, lançado em 1918, foram desenvolvidas bandas super-densificadas de pequenos unifamiliares agrupados costas com costas e em ruas contínuas, que, hoje em dia, passados que são cerca de oitenta e cinco anos, continuam a ter uma extraordinária procura; diga-se que é por causa do sítio, com certeza que também é, mas as áreas das casas são bem reduzidas – as típicas da “habitação social” – e não há garagens, nem outros “luxos”.

Hoje em dia, alguns conjuntos de habitação de interesse social que marcaram a história desta promoção começam a ser considerados como marcos culturais da sociedade e da cidade.

Afinal, e considerando a grande variedade e qualidade das soluções de habitação apoiada que se conhecem na Europa é possível defender, tal como referem Giovanni Ottolini e Vera De Prizio, que “a reduzida qualidade funcional e de desenho de muitos edifícios habitacionais não depende de razões de custo, mas de carências de projecto e de estereótipos de produção.” (1)
E podemos citar Monique Eleb, quando esta refere que “o alojamento de luxo não oferece hoje em dia um modelo de habitar e isto acontece há decénios”, e, tal como diz a autora, “as diferenças entre habitações de luxo e sociais têm menos a ver com aspectos de estruturação e distribuição e mais com a localização, expressão das fachadas ou utilização de certos materiais.”(2) – e eu diria que esta é uma frase-chave, apenas lhe junto a importância que tem o adequado desenvolvimento e equipamento do espaço exterior; uma árdua batalha que foi travada e em boa parte já ganha pelo INH.

Tal como o Arq.º George Ferguson, presidente do Royal Institute of British Architects (RIBA), referiu, há pouco tempo, “uma escola melhor desenhada leva a um melhor ensino, e uma casa e um escritório melhor desenhados resultam em pessoas mais felizes.”(3)
Se assim for, e considerando conjuntos habitacionais frequentemente dedicados a pessoas socialmente desfavorecidas, é natural que a promoção de habitação de interesse social, possa assumir um papel de relevo como ferramenta de apoio ao desenvolvimento pessoal e social dessas pessoas e das respectivas vizinhanças e comunidades locais.

Tem, assim, de ficar bem claro que viver numa obra de boa arquitectura residencial é uma experiência que influencia muito positivamente toda a nossa vida; um tema hoje bem actual quando se está, finalmente, no caminho certo da arquitectura para os arquitectos. Trata-se de um facto conhecido, mas parece que tem sido ainda pouco interiorizado pela própria sociedade, em termos da importância que tem no que se refere à evolução de soluções formais e funcionais em ligação, por um lado, com a história da cultura e do sequencial enriquecimento do nosso património urbano, e por outro, com os aspectos da satisfação das necessidades e desejos de uma grande diversidade de grupos socioculturais.

Não irei avançar mais nesta matéria, quero apenas alertar para a importância que tem poder-se numa boa arquitectura, uma condição que é, realmente, indutora de alegria. Nesta perspectiva faz-se no livro uma rápida síntese da sequência de soluções que marcaram a história da habitação de interesse social portuguesa, destacando-se, naturalmente, o desenvolvimento de soluções arquitectónicas bem qualificadas e humanizadas, como é o caso:

- do ainda hoje inovador grande bairro de Alvalade, em Lisboa, caracterizado por ser um conjunto integrado de habitação para vários grupos sociais e de equipamentos colectivos e serviços dos mais diversos tipos, mas bem harmonizados, uma verdadeira cidade viva e atraente, marcada por uma arquitectura urbana bem pormenorizada;

- e como é também o caso do mais amplo e completo exemplo residencial modernista que existe em Portugal, o bairro de Olivais Norte, também em Lisboa, com a sua aliança entre qualidade arquitectónica e satisfação residencial; e sublinhe-se que o urbanismo de Olivais Norte respeita regras, bem actuais, de biodiversidade, durabilidade, coerência urbana e natural, favorecimento da insolação e da ventilação natural nos fogos, integração do tráfego de peões e veículos, e harmonizada integração de diversos grupos sociais.

Um conjunto de aspectos todos ligados à, tão actual, sustentabilidade urbana e residencial.




Fig. 05: o conjunto urbano com 330 habitações do Alto da Loba, em Paço de Arcos, promovido pela Câmara Municipal de Oeiras em 1993, com projecto dos arquitectos Nuno Teotónio Pereira e Pedro Botelho.

Lançar algumas reflexões sobre a habitação de interesse social

Apontam-se, agora, muito brevemente, algumas questões fundamentais, colocadas por ilustres projectistas do habitar; começo por Charles Moore:

“A casa deveria constituir o centro do universo para aqueles que a partilham. Resolver o puzzle para o centro do universo de uma única família é uma tarefa complicada, cheia de sensibilidades particulares, gostos pessoais e necessidades específicas, para não falar em orçamentos. Mas articular dezenas, ou até centenas destes centros, conjuntamente, para serem habitados por pessoas cujas identidades geralmente não são conhecidas e que estão em constante mutação, aproxima-se de uma situação sem esperança de resolução... Muita da nossa prática tem sido neste mundo ténue, tentando desenvolver a perspectiva na qual as formas físicas e os espaços podem produzir um sentido de lugar, e tentando desenvolver um quadro no qual os próprios habitantes proporcionam boa parte da energia para o acto do habitar.” (4)

E é ainda Moore que nos diz: “Estou contra as atitudes que fazem de edifícios com potencial para comunicar com os seus habitantes, edifícios mudos. Estou contra a rápida homogeneização do lugar. Acredito que este silêncio é imposto pelo fazer edifícios sem cuidado, e multiplicando uma tal falta de cuidado sem qualquer preocupação. O resultado foi que os edifícios, quando tornados mudos, ficaram tão desinteressantes, que os habitantes deixaram de tomar atenção neles, deixaram de se preocupar com eles.”(5)

Uma questão que foi também abordada numa conversa editada, há já alguns anos, na revista Arquitectura, e em que se faz uma aproximação à aparente naturalidade e simplicidade da boa arquitectura doméstica:
(dizia Hestnes Ferreira) – “Aquela ideia da casa, muito ligada até aos românticos, e sei lá, ao Thoreau, o tipo que vai para a floresta, corta a árvore, arranja as pranchas, faz a sua casa e ali, ali é a sua casa; é uma ideia que continua, a estar presente, culturalmente ...
(dizia Manuel Vicente) – Afinal uma casa é boa para uma família quando for boa para todas, não é? Mas isto não é o elogio do anónimo mas antes da extrema qualidade, a universalidade pela qualidade e não a universalidade pelo «éffacement», pelo apagar.
(dizia Bravo Ferreira) – O neutro ... o neutro é chato em qualquer situação, é sempre cinzento...
(dizia Manuel Vicente) – Do neutro ninguém se apropria... uma pessoa só se apropria daquilo que ama. Uma pessoa não pode amar uma coisa que não seja nada.
(dizia Hestnes Ferreira) – E quando visitamos uma casa do século passado e ficamos deslumbrados com certo tipo de espaços e gostamos mesmo de ir para lá, isso é mesmo um sintoma de que aquilo transcendeu a família para quem foi feito, continua a sugerir e se calhar já foi utilizada de mil e uma formas, já teve mil e uma jarras diferentes em mil e uma mesas diferentes.
(e concluía Bravo Ferreira): restou-lhe sempre a qualidade, e essa é que está sempre.” (6)

E, finalmente, nesta matéria, lembremos Távora (em “Da organização do espaço” ):
“Projectar, planear, desenhar devem significar encontrar a forma justa, a forma correcta... projectar, planear, desenhar não deverão traduzir-se para o arquitecto na criação de formas vazias de sentido...” (p. 74).
“Para além da sua preparação especializada – e porque ele é homem antes de arquitecto – que ele procure conhecer não apenas os problemas dos seus mais directos colaboradores, mas os do homem em geral. Que a par de um intenso e necessário especialismo ele coloque um profundo e indispensável humanismo. Que seja assim o arquitecto – homem entre os homens – organizador do espaço – criador de felicidade” (p. 75).

Acabei de citar; e sublinho esta renovada referência à criação de felicidade com a arquitectura.



Fig. 06: o estimulante e bem pormenorizado conjunto de 72 fogos promovidos pela Cooperativa de Habitação e Construção de Cedofeita (HABECE), em 1994, projecto dos arquitectos João Pestana, Chaves de Almeida e Fernando Neves.


Notas sobre o futuro da “habitação de interesse social

Avancemos agora com algumas notas, muito breves, sobre o futuro da habitação de interesse social e comecemos com o que se julga ter sido já conseguido; apontam-se seis aspectos:

1. Assumir-se o espaço exterior como espaço do habitar, que merece, portanto, acabamento, equipamento e manutenção; uma conquista difícil do INH, ao longo da sua vida, mas já bem conseguida, embora ainda mereça aprofundamento.

2. A muito rica diversidade e adequação local, que marcou, por todo o país, as muitas promoções de HCC apoiadas pelo INH e desenvolvidas por municípios, cooperativas e empresas; embora o verdadeiro fantasma do projecto-tipo ainda, por vezes e pontualmente, subsista ou renasça.

3. O desenvolvimento em todos os tipos de promoção de HCC de um número significativo de verdadeiros casos residenciais e urbanos globalmente exemplares, em que se alia qualidade arquitectónica, construtiva e apropriação pelos moradores.

4. A tendência crescente, embora ainda pouco marcada, de desenvolvimento de soluções bem caracterizadas, integradas e valorizadoras dos respectivos sítios; uma tendência que é preciso reforçar.

5. A dimensão tendencialmente reduzida dos conjuntos, muitos deles até cerca de 50 a 100 fogos, portanto favoravelmente integráveis; embora aqui haja ainda que lutar contra as críticas fugas à regra, marcadas pela concentração social e ainda por projectos-tipo sem justificação.

6. E um sexto aspecto que se liga à pequena dimensão e que é a positiva tendência de aproximação às características socioculturais dos habitantes, aliada à descoberta das virtudes de uma diversificada mistura de tipos de habitações e de grupos de habitantes.

Sobre o que há para fazer, sublinha-se o seguinte comentário de Nuno Teotónio: “há poucas décadas atrás praticava-se na habitação social uma arquitectura de ponta, que enfrentava os problemas com soluções inovadoras” (7); ... e, sobre isto, e avançando mais um pouco, partilha-se a opinião de Francesc Peremiquel, relativamente à actual escassez de inovação tipológica residencial, que deveria ser baseada no desejável repensar de funcionalidades domésticas e de relacionamentos urbanos (8).

Devem, assim, ser aprofundados aspectos, tais como: a caracterização dos modos de vida de diferentes grupos populacionais, a definição de programas gerais e específicos de exigências, a análise de soluções habitacionais aplicadas que tenham tido sucesso ou insucesso, e a caracterização pormenorizada de diferentes tipologias e agrupamentos habitacionais, por exemplo, no que se refere aos aspectos do convívio, da adequação à família e ao indivíduo e da gestão.

A este nível salienta-se ainda a urgência de se realizarem estudos práticos sobre o que pode ser o habitar dos grupos sociais mais fragilizados e a questão da adequada caracterização das pequenas tipologias, numa perspectiva que vise a sua efectiva integração na cidade.

Ao nível urbano há que privilegiar os agrupamentos de vizinhança, pois se no edifício habitacional muito já foi desenvolvido, na programação dos equipamentos colectivos e espaços públicos de vizinhança é vital um trabalho ponderado sobre que elementos de programa a considerar e em que relações preferenciais, diversificando misturas tipológicas de fogos, edifícios e espaços públicos. E sublinhe-se que se pensa quer em intervenções de raiz, quer em intervenções de regeneração urbana.

Pode dizer-se que muito de tudo isto tem a ver com um jogo de agregação tipológica com sentido amplo, que privilegia o micro-urbanismo e alguma inovação na conjugação entre células habitacionais – inovação esta muito ligada à adaptabilidade doméstica e aos possíveis serviços comuns; mas um jogo que tem de ter, simultaneamente, dois “clientes” a satisfazer: o habitante e a cidade, o bem-estar e a cultura.

E assim pode dizer-se que, hoje em dia, estudar a habitação de interesse social deve ser estudar a cidade e o modo como fazer cidade viva pois, como disse Manuel Correia Fernandes, “o modo mais natural de fazer cidade é (fazê-la) com habitação. E Correia Fernandes sublinha que “cidade sem habitação não faz sentido. E quando faz, é certo estarmos a falar de cidades «únicas» e talvez nem sequer estejamos a falar da cidade dos homens. Não são essas cidades que agora nos interessam. As que nos interessam são as cidades onde vivem os homens e onde podemos ler a sua história” (9) - acabei de citar.

E fazer cidade viva é saber construir no construído e fazer cidade socialmente integrada, imitando alguns dos aspectos que caracterizaram, tal como nos diz Teotónio Pereira, “os verdadeiros sucessos neste domínio que constituíram os bairros de Alvalade e dos Olivais em Lisboa; nestes casos, os programas de realojamento foram concretizados de uma forma integrada em áreas que foram objecto de outro tipo de promoção também da iniciativa do Estado e mesmo de promoção privada ... e cooperativa... Porque é aqui que se joga o futuro das zonas urbanas das áreas metropolitanas: ou se fazem planos integradores dos diversos estratos da população, através de modos de promoção variados, ou irá acentuar-se a segregação social do espaço urbano com todas as consequências perversas que daí decorrem.” (10)



Fig. 07: um pormenor do muito humanizado pequeno Bairro do Telheiro, em S. Mamede de Infesta, uma promoção da Câmara Municipal de Matosinhos, em 2002, com projecto do Arq. Manuel Correia Fernandes.

A importância de humanizar a habitação

E chegamos, por fim, ao centro da questão, que é a humanização da habitação, pois tal como escreve, Joaquín Arnau: “A substância dos hábitos constitui a habitação. E a habitação é a função que propicia e decanta a Arquitectura. Como a visão na Pintura, a audição na Música, a leitura na Poesia ou o movimento na Dança, a habitação afina-se, magnifica-se e resplandece com a Arquitectura. Que é o esplendor da habitação. Diferente de outros hábitos, como os de ver ou ouvir, complexos mas concentrados num só dos sentidos, o hábito de habitar liga-se a todos eles. Na pluralidade das sensações, a Arquitectura assemelha-se ao Teatro. A habitação é assim o propósito principal da Arquitectura: a sua tese.” (11)

E continua Claire Cooper Marcus: "A casa pode ser um quarto ou uma habitação completa... e também pode ser um estado de espírito. Sentir-se em casa é sentir-se confortável, à-vontade, relaxado, rodeado, talvez, por aqueles que realmente nos percebem e se preocupam connosco... Para o homem-santo errante, estar em casa pode ser estar em qualquer parte do mundo, em quaisquer condições. Mas para a maioria de todos nós, seres humanos menos evoluídos, a existência de uma habitação permanente, onde nos possamos enraizar é, tanto uma componente necessária de segurança física, como uma expressão psicológica muito significante de quem nós somos." (12)

E a casa não pára na soleira, há que habitar o espaço público respeitando a sua natureza específica, tal como é apontada por Gonçalo Byrne: “A grande diferença da cidade para o edifício é que a cidade é uma obra que gera espaços compartilhados onde as pessoas estão condenadas a encontrar-se; é o espaço público. O facto de ser compartilhada justifica a gestão democrática, ou seja, a gestão que não exclui.“ (13)

E sobre o espaço público, sobre a sua importância e estimulante complexidade, apenas uma pequena frase de Eduardo Prado Coelho, que nos diz que: “- Há alguma coisa nessa actividade, que é o filosofar, que tem alguma afinidade com o caminhar …” (14)



Fig. 08: o conjunto de 91 habitações promovido pela Câmara Municipal de Lisboa na Travessa do Sargento Abílio, no Calhariz de Benfica, em 2001, com projecto do Arq. Paulo Tormenta Pinto.


Remates sobre a HCC portuguesa

Vou agora concluir. Muito se fez, em Portugal, ao longo dos últimos 22 anos de promoção de habitação de interesse social e antes deste período, desde os primeiros decénios do século XX, e é urgente estudar e aproveitar essas experiências, divulgando-se as boas práticas, aprofundando-se o conhecimento sobre as características e as potencialidades das diversas tipologias urbanas e residenciais, assegurando-se o desenvolvimento dos aspectos positivos, reduzindo-se ao máximo os negativos, e tudo se fazendo para que, cada vez mais, não haja retornos pontuais a erros passados, tais como os da concentração e segregação social e da monotonia e da tristeza de imagens.

Este livro é mais um passo nesta linha de estudos práticos, que importa prosseguir numa perspectiva de aprendizagem continuada, servida por um registo eficaz, por uma abertura ao diálogo e à cooperação multidisciplinar e pela referida divulgação alargada e comentada das boas práticas.

O INH e futuramente a instituição que lhe sucederá, o IHRU, podem contar com o LNEC, com o amplo leque disciplinar do seu Departamento de Edifícios e com o seu Núcleo de Arquitectura e Urbanismo para apoiar o desenvolvimento dos trabalhos sobre habitação apoiada em Portugal, tal como aconteceu no passado, um passado que vai já, longe, até à actividade das “Habitações Económicas.”

E nesta problemática é fundamental visar três aspectos-chave:

– Perceber que “a boa arquitectura dignifica quem a concebe e promove, dignifica o lugar onde se implanta, e dignifica os seus moradores” – nas palavras de Duarte Nuno Simões (intervenção na entrega dos Prémios INH 2000).

– Considerar a habitação como um problema urbano, cívico e político, pois, nestas matérias do habitar, e tal como refere Luís Fernández–Galiano, “precisamos de mais arquitectura, mas, sobretudo, precisamos de mais cidade.” (15)

– E precisamos de mais cidade viva e culturalmente válida e de soluções de habitar que sejam, tal como defende Teotónio Pereira, “instrumentos de igualdade de direitos de cidadania” (16), e precisamos de seguir o conselho de de George Patrix e “introduzir, nos programas habitacionais, valores sensíveis às aspirações do homem, ... ultrapassando o razoável e o funcional... voltando a dar um rosto humano ao espaço construído ... voltando a dar uma dimensão poética ao nosso ambiente envolvente” (Design et Environnement, 1973, p.165).

Termina-se com uma referência a esta última dimensão, num poema do madeirense José António Gonçalves:

“O arquitecto é um ser que caminha sobre a espuma das paisagens
e vive encantado pelas sombras que sobrevivem à flor da relva exactamente
no lugar onde as outras pessoas nunca passam
perguntam os mestres no cruzamento das traves onde
descansa o arquitecto
curiosamente maravilhados pelo silêncio
que se desprende das paredes
consumindo a casa toda a partir do traço exacto
que descai do tecto
em direcção ao corpo
da terra...
eis o arquitecto debruçado sobre a mesa com a aflição
dos guerreiros ...
o arquitecto é o abismo que atormenta o sonho”



Fig. 09: um dos conjuntos destacados no último Prémio INH, de 2006; uma promoção da Câmara Municipal de Matosinhos, em Matosinhos, 108 fogos projectados pela Arq.ª Paula Petiz.

Notas:
(1) Giovanni Ottolini e Vera De Prizio, “La casa attrezzata - qualità dell'abitare e rapporti di integrazione fra arredamento e architettura”, 1993.
(2) Monique Eleb, Anne Marie Chatelet, “Urbanité, sociabilité et intimité des logements d’aujourd’hui”, 1997, p.17.
(3) Artigo de Rita Jordão Silva no Jornal Público de 29 de Novembro de 2004, citando George Ferfuson, Presidente do Royal Institute of British Architects na inauguração da nova galeria do Victoria and Albert Museum, dedicada a uma exposição permanente de arquitectura, num significativo retorno ao passado pois até 1909, e tal como se refere no artigo, “a arquitectura era a alma do Victoria and Albert Museum”.
(4) Oscar Riera Ojeda e Lucas H. Guerra, “Moore Ruble Yudell – Houses & Housing”, 1994, p. 12.
(5) Idem, Ibid.
(6) Raul Hestnes Ferreira (HF), Manuel Vicente (MV) e Vicente Bravo Ferreira, “Conversa à roda de uma casa”, Arquitectura, n.º 129, 1974, pp. 36-40.
(7) Nuno Teotónio Pereira – Escritos (1947 – 1996, selecção), p. 252.
(8) Francesc Peremiguel – Mètodes, instruments i tècniques pel projecte residencial, em Habitatge: innovació i projecte.
(9) Manuel Correia Fernandes – Anos 80 As Cooperativas de Habitação e o Desenho da Cidade, a Senhora da Hora em Matosinhos, p. 1.
(10) Nuno Teotónio Pereira – Tempos, Lugares, Pessoas, p. 38.
(11) Joaquín Arnau – 72 Voces para un Dicionario de Arquitectura Teorica, p. 99.
(12) Claire Cooper Marcus, "Self-identity and the Home", em "Housing: Symbol, Structure, Site", ed. Lisa Taylor
(13) Inês Moreira dos Santos e Rui Barreiros Duarte (entrevistadores), “Estruturas de mudança - entrevista com Gonçalo Byrne”, Arquitectura e Vida, n.º 49, 2004, p. 51.
(14) Eduardo Prado Coelho, “O inabsorvível”, Público - opinião, 17 Janeiro 2004
(15) Luís Fernández–Galiano, Editorial de “Arquitectura Viva”,” nº 97, 2004.
(16) Nuno Teotónio Pereira – Escritos (1947 – 1996, selecção), p. 252.

Editado por: José Baptista Coelho

quinta-feira, maio 31, 2007

142 - Arquitectura da habitação social portuguesa recente – resenha de Sheila Walbe Ornstein - Infohabitar 142

 - Infohabitar 142

Nota editorial:

Numa singela e informal referência à muito próxima transformação do Instituto Nacional de Habitação (INH) em Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), entidade esta à qual se desejam as maiores felicidades, edita-se no Infohabitar uma resenha referida a um livro recente (editado em 2006 e apenas disponível através de solicitação específica dirigida ao INH), que integra uma síntese técnica da actividade de promoção de habitação levada a cabo pelo INH durante os seus primeiros 20 anos de funcionamento, entre 1984 e 2004, num período total de actividade que atingiu os 23 anos em Maio de 2007.

A resenha que se apresenta, em seguida, foi recentemente editada no portal de arquitectura Vitruvius, um excelente “
periódico online mensal, técnico-científico, com artigos sobre arquitetura, urbanismo, arte e cultura”, que, aliás, é já há bastante tempo devidamente divulgado no Infohabitar – na margem da revista e sob o título geral “Blogs e Sites com interesse para «o Habitar»”.

O endereço electrónico geral do portal Vitruvius é :
http://www.vitruvius.com.br/


O endereço electrónico da secção de resenhas do referido portal é: http://www.vitruvius.com.br/resenhas/resenhas.asp
A referida resenha é assinada por uma boa amiga e colaboradora do
Infohabitar, a Profª. Arq.ª Sheila Walbe Ornstein, que foi contactada no sentido desta edição, que, com o seu consentimento, foi um pouco modificada relativamente à versão original, designadamente, no que se refere à integração de um maior número de figuras.

Sheila Walbe Ornstein, é arquitecta e urbanista, professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP) e pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Especialista em Avaliação Pós-Ocupação (APO) do Ambiente Construído e nas Relações Ambiente Construído – Comportamento Humano (RACs).

A edição do Infohabitar



Fig. 00: capa do livro “INH, 1984-2004 – 20 anos a promover a construção de habitação social”

Uma retrospectiva do que há de melhor na arquitetura da habitação social portuguesa recente, Resenha de Sheila Walbe Ornstein – elaborada para o portal Vitruvius


O Instituto Nacional de Habitação (INH) e o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) de Portugal, nos brindam com esta impecável publicação sobre a produção habitacional de caráter social promovida nos últimos 20 anos em Portugal, incluindo Açores e Ilha de Madeira. Até o momento, tinha-se bom conhecimento sobre as características e as qualidades da arquitetura habitacional de interesse social promovida no país na primeira metade do século XX, passando pelo período de ditadura, apresentando uma boa “arquitetura habitacional moderna popular” nos chamados “anos verdes”.

Todavia, em que pese os meritórios esforços do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU) do LNEC neste sentido, não havia ainda uma obra que revelasse de modo integrado, organizado e crítico, muitas das boas práticas de projeto, construção e uso existentes no país, sobretudo no período de abertura democrática, em que Portugal passa a fazer parte da Comunidade Européia. O trabalho incansável do arquiteto e pesquisador do LNEC, Dr. António Baptista Coelho, autor desta publicação, fez com que a organização e a sistematização desta produção, para efeito de divulgação aos estudiosos, se tornasse uma realidade. Coelho, discípulo de Nuno Portas e de Reis Cabrita, é o atual chefe do NAU-LNEC e profundo conhecedor dos espaços domésticos, suas qualidades arquitetônicas, suas relações com o espaço urbano. Sua tese de doutorado, defendida na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, configura-se em testemunha documental desta manifestação (1).

O livro 1984-2004 – 20 anos a promover a construção de habitação social

trata-se na verdade de uma publicação comemorativa dos 20 anos de criação do INH o qual tem entre suas atribuições “ preparar o plano nacional de habitação e os planos anuais e plurianuais de investimento no setor” talvez assemelhado ao nosso extinto Banco Nacional da Habitação (BNH). Investe recursos próprios em ações voltadas à promoção de habitações de interesse social (ou Habitações a Custos Controlado HCC, como são chamadas) nas modalidades municipais, cooperativas e empresas privadas. Nesta linha de financiamento, promoveu entre 1984 e 2004 mais de 126 mil unidades, sendo cerca de 47% para aluguéis e o restante para venda. Também apóia, desde 1993, Programas de Realojamento (o atual PER), os quais totalizaram no mesmo período, aproximadamente 60 mil unidades habitacionais.


Fig. 01: promoção da Cooperativa Coophecave, em Castro Verde; 224 fogos, 1991 (e anos anteriores); projectistas coordenadores Arq. Nuno Portas, Arq.ª Manuela Fazenda e Arq.ª Isabel Plácido (Investigadora do NAU).
A obra ora resenhada, embora datada, inicia-se com uma reflexão crítica sobre a promoção e a produção da habitação de interesse social em Portugal, no século XX, antes da criação do INH, destacando, por exemplo, as práticas das Câmaras Municipais de Lisboa e do Porto, tais como – dentre outros inúmeros exemplos – no caso de Lisboa, o Bairro Social de Alvalade e os Olivais Norte ou no caso do Porto, o Ramalde ou o Bom Sucesso.

Posteriormente, o livro descreve a iniciativa louvável do chamado “Prêmio INH”, realizado desde 1989, cujo júri é constituído por especialistas – arquitetos e engenheiros – no tema, é realizado anualmente e tem como critérios, definidos na página 84:

“ – A salvaguarda e valorização da qualidade da paisagem global;

– O modelo e a integração urbanística com a compreensão da aptidão dos espaços e dos valores naturais e culturais existentes;

– A imagem e a organização arquitetónica;

– As técnicas e a racionalidade construtiva, integrando valores de caracterização local e aplicando soluções, tecnologias e materiais amigos do ambiente que reduzem o consumo de energia;

– A compatibilização das instalações e equipamentos;

– A integração quando for caso disso, de equipamento de exterior de desporto e de lazer atendendo a todas as classes etárias;

– A apropriação pelos utilizadores (usuários, no Brasil), quer no interior quer no exterior dos edifícios.”

O arquiteto Baptista Coelho, tem participado ativamente das atividades do Prêmio INH, o qual se caracteriza não apenas como uma premiação “tradicional” para projetos de arquitetura, mas envolve análises de projeto e visitas ao conjunto construído e em uso, quando o júri tem a oportunidade do contato com os projetistas coordenadores, os promotores, os construtores e representantes de moradores.

Tais procedimentos aproximam esta modalidade de premiação, da Avaliação Pós-Ocupação (APO) pois não prescinde do contato com a realidade física e com os usuários finais. Certamente, as preocupações com a qualidade arquitetônica e o rigor quanto à obrigatoriedade da correta inserção do conjunto habitacional na malha urbana e dos acabamentos definitivos dos espaços públicos integrados ao conjunto de HCCs, Coelho incorporou dos resultados das pesquisas sobre habitação social realizadas no NAU-LNEC (2).

À experiência do NAU-LNEC (3) pode-se somar as pesquisas aplicadas em APO e os estudos voltados à análise de projetos arquitetônicos e seus aspectos funcionais a partir da sintaxe espacial, promovidos pelo Departamento de Engenharia Civil e Arquitetura do Instituto Técnico de Lisboa (4) e os checklists associados a escalas de valores, desenvolvidos pelo Centro Português de Design (5).


Fig. 02: promoção da Câmara Municipal de Matosinhos; 376 fogos, em Guifões, Sendim, 1998; projectista coordenador Arq. Luís Miranda.
O INH convida todos os anos os agentes envolvidos com a HCC cujos empreendimentos foram concluídos naquele ano, a se candidatarem e a Premiação ocorre no ano subseqüente.

No período 1989 a 2004 foram visitados por júris com esta finalidade mais de 500 conjuntos habitacionais, representando, conforme destaca Coelho, cerca de 30% da promoção financiada em cada ano.

Os premiados – muitos deles passíveis de leitura na publicação em questão, a partir de fichas técnicas contendo plantas, cortes, fotos dos empreendimentos e detalhes – podem ser apreciados nas publicações específicas realizadas anualmente pelo INH. Estas apreciações comparativas e de certo modo, competitivas, incluindo as análises e os comentários críticos dos membros do júri, têm auxiliado no incremento dos atributos arquitetônicos e urbanísticos dos empreendimentos que se sucedem, voltados à “nova” habitação social portuguesa.

A fotografia que encabeça esta resenha e todas as outras que a ilustram são exemplos destes conjuntos de HCCs recentemente apoiados pelo Estado português e visualizados em profusão no trabalho de Coelho.

O livro termina, apoiado em boa bibliografia sobre habitação social recente em Portugal e outros países europeus e também com um texto que demonstra de que forma as pesquisas aplicadas realizadas desde a década de 60 no hoje NAU-LNEC puderam impactar efetivamente a concepção, o projeto, a construção e o uso de HCCs, no caso português. Neste capítulo são abordados tópicos importantes como a “qualidade arquitetônica e a satisfação residencial”, as “ tipologias, modos de vida e variedade de programas de vizinhança próxima” e por fim, como “qualificar e humanizar a habitação”.

Nesta obra, um verdadeiro guia sobre as práticas da habitação portuguesa, a ser utilizado como livro texto em disciplinas de graduação e de pós-graduação em escolas de arquitetura e urbanismo, voltadas ao estudo da habitação social e também por profissionais que atuam nestes tipos de empreendimentos, pode-se perceber uma verdadeira preocupação com a moradia digna e que atende as necessidades dos seus usuários.


Fig. 03: promoção da Cooperativa NHC, Nova Habitação Cooperativa, no Plano Integrado do Zambujal, Amadora; 68 fogos, 2003; projectista coordenador Arq. Carlos Carvalho.
É possível se verificar in situ o uso de critérios tais como: escala humana, inserção na malha urbana, harmonia entre elementos urbanísticos, paisagísticos e arquitetônicos, diversidade de unidades habitacionais (1 a 4 dormitórios, no mesmo bloco, em função do tamanho da família ocupante), respeito aos aspectos culturais e aos modos de vida dos moradores, diversidades de blocos de edifícios – em fita, mais horizontalizados ou mais verticalizados, contemplando uso comercial no térreo ou equipamentos sociais como escolas, pequenos serviços etc- gerando paisagens diferenciadas e dinâmicas. Impressiona ainda o grande número de arquitetos, construtores e de promotores cooperativados, municipais e privados envolvidos neste processo (listados ao final do volume) o que pode sugerir uma ampla participação de agentes diferenciados da construção civil portuguesa.

Evidentemente o livro publicado pelo INH não deve ser entendido pelos estudiosos como uma receita sem equívocos para a solução definitiva da questão habitacional, mas certamente oferece pistas consistentes neste sentido. Ou seja, merece um olhar reflexivo e atento à luz das experiências brasileiras recentes voltadas a habitação social, no que tange aos seus aspectos positivos e aos seus aspectos negativos.

Por último, sem tirar o brilho desta portentosa edição e desde já pensando numa próxima, que virá, sugiro a inclusão de alguns mapas de Portugal localizando por tipo de promoção, quantidade de unidades habitacionais e, talvez por tipologia, os conjuntos nos distintos municípios.

Notas
(1) COELHO, António Baptista. Qualidade Arquitectónica Residencial. Rumos e factores de análise. Lisboa, Portugal: Laboratório Nacional de Engenharia Civil, 2000. 475p. [Informação Técnica Arquitectura ITA 8].

(2) COELHO, António Baptista; PEDRO, João Branco. Do Bairro e da Vizinhança à Habitação. Tipologias e caracterização dos níveis físicos residenciais. Lisboa, Laboratório Nacional de Engenharia Civil, 1998. [Informação Técnica Arquitectura ITA 2].

(3) É oportuno recomendar a consulta ao http://infohabitar.blogspot.com/ denominado Infohabitar – A Revista do Grupo Habitar, gerenciada pela APPQH – Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional, gerenciado por Baptista Coelho. Nele é possível encontrar textos e imagens abrangendo não só o tema da habitação social portuguesa, mas também um amplo debate sobre a requalificação dos espaços urbanos, notadamente aqueles centrais e de valor histórico.

(4) HEITOR, Teresa Valsassina. A vulnerabilidade do espaço em Chelas. Uma abordagem sintáctica. Porto, Fundação Calouste Gulbenkian / Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 2001.

(5) Centro Português de Design. Do Projeto ao Objecto. Manual de boas práticas de mobiliário urbano em centros históricos. Lisboa, Portugal, Centro Português de Design, 2005, 2ª edição.

Notas editoriais:
Como foi devidamente salientado, no início desta edição, esta resenha foi elaborada para o Portal Vitruvius, e editada neste Portal, em Maio de 2006, com as seguintes referências:

- Resenha 166 / Maio 2007
- Livro resenhado:COELHO, António Baptista. 1984-2004. 20 anos a promover a construção da habitação social. Edição comemorativa do INH – Instituto Nacional de Habitação. Lisboa, INH / Laboratório Nacional de Engenharia Civil, 2006. 455 páginas, 21,0 x 29,7 cm, ilustrado, capa dura, bilíngüe português – inglês. Depósito legal: 242704/06 .

Para consulta directa da mesma resenha junta-se o respectivo link:
http://www.vitruvius.com.br/resenhas/textos/resenha166.asp


As figuras que acompanham o texto foram escolhidas pela edição do Infohabitar e apenas se destinam a ilustrar o texto de uma forma muito genérica e aleatória.

Próxima edição do Infohabitar:
Na próxima edição do nosso Infohabitar e ainda numa referência à transformação do Instituto Nacional de Habitação (INH) em Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), será editado o artigo intitulado “Vinte anos de habitação de interesse social em Portugal, de 1984 a 2004”, elaborado com base na intervenção de apresentação do livro com título idêntico, editado pelo INH e desenvolvido pelo LNEC em estreita colaboração com um amplo conjunto de técnicos do INH; a referida apresentação teve lugar em Lisboa, na Torre do Tombo, em 26 de Maio de 2006.

Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 31 de Maio de 2007
Edição de José Romana Baptista Coelho

domingo, julho 09, 2006

92 - Outros destaques no Prémio INH 2006 - Infohabitar 92

 - Infohabitar 92

Outros destaques no Prémio INH 2006

António Baptista Coelho

(INH, Prémio, habitação, habitação social, urbanismo, conjuntos residenciais, exemplos)
No presente artigo do Infohabitar editam-se algumas breves apreciações sobre outros conjuntos residenciais e urbanos candidatos na 18ª edição do Prémio INH, em 2006 e que na opinião do autor deste artigo, também merecem significativos destaques aqui no Infohabitar, essencialmente na área da arquitectura e do urbanismo, de forma a que determinados aspectos positivos de experiências residenciais e urbanas de habitação de interesse social não fiquem sem registo.
Depois destas notas e, de certa forma, também como conclusão desta longa série de artigos sobre o Prémio INH 2006, tecem-se mais alguns comentários sobre a riquíssima experiência do Prémio, apontando-se um leque de conclusões práticas, muito centradas nos aspectos ligados ao tipo preferencial de dimensão da intervenção residencial, conclusões estas julgadas úteis, na área de uma promoção habitacional de interesse social que faça com a cidade viva e humanizada um compromisso solene e de futuro.
Nota: os projectistas referidos, neste e nos artigos precedentes, são os projectistas coordenadores dos respectivos empreendimentos, tal como foram indicados nas candidaturas ao Prémio INH.


O Prémio INH 2006, mais alguns destaques entre os concorrentes.

Promoção cooperativa (Habitação a Custos Controlados):

- GUIMARÃESCOOPE Cooperativa de Habitação C.R.L., construtor, NVE – Engenharias, Lda. Guimarães, Fermentões, 16 fogos, Arq.ª Maria Fernanda Martins.





Neste conjunto salienta-se a grande qualidade patente no desenvolvimento espacial e no acabamento dos espaços domésticos, com destaques para as excelentes cozinhas e para o bom dimensionamento das circulações.



Promoção cooperativa (Estatuto Fiscal Cooperativo):

- MAIACOOPE Cooperativa de Habitação C.R.L., construtor, Mozinho, Construção Civil e Obras públicas S.A. – Maia, Gueifães, R. 5 Out, 28 fogos, Arq.ª Sandra Couto.




Este empreendimento, cujas características urbanas estão, ainda, em desenvolvimento, salienta-se, desde já, pelos excelentes acabamentos, bem visíveis nos seus alçados. Interiormente, e para além dos excelentes acabamentos, destaca-se a interessante solução espacial aplicada na varanda, que sendo comum à sala e à cozinha aproveita mais profundidade útil na zona que “prolonga” a sala, e também se refere a muito versátil solução de sala em dois espaços, ligados por gola e por porta de correr, que proporciona uma grande diversidade de apropriações.



Promoção municipal:

- C. M. de CasteloBranco – C.Branco, Bº Horta d`Alva, 32fogos, Arq.º CassianoNeves e Arq.º Gonçalo MarçalGrilo, construtor Contrope Lda.





Neste conjunto destaca-se o aspecto depurado e racional patente no desenho dos alçados, racionalidade esta que também é positivamente aplicada na organização dos fogos, e o cuidado investido na manutenção das árvores preexistentes.

- C. M. doPorto –Porto, Parceria e Antunes, 54fogos, Arq. Cancelliere & Costa, construtor Constructora SanJose, S.A.





Este é um belo conjunto ao nível dos aspectos urbanos e de integração local pormenorizada, aplicando-se uma interessante solução de grande garagem comum, apenas semi-enterrada, e que se conjuga com as pequenas “alas” residenciais, criando agradáveis pequenas vizinhanças de proximidade, muito apropriadas a usos pedonais. O desenho de arquitectura é exteriormente depurado e muito atraente e foram visitadas excelentes soluções domésticas, em termos de equilíbrio de espaços e de capacidade de apropriação. Não é possível deixar de sublinhar que é esta a opção mais correcta de introduzir no centro da cidade pequenos conjuntos de habitação de interesse social caracterizados por uma grande capacidade de integração local e por um desenho de arquitectura muito atraente.




Promoção privada – Contratos de Desenvolvimento de Habitação:

- EFIMÓVEIS Imobiliária S.A., construtor, EDINORTE Edificações Nortenhas S.A. – SantoTirso, S. Martinho doCampo, Lugarde Leiras do Ribeiro, 72fogos, Arq.º J.Bragança e Arq.º M.Marques.





Este é um excelente conjunto, seja pela sua escala (equilibrado número de fogos) e imagem gerais, seja pela qualidade evidente da sua construção, seja pela atractividade de alguns dos seus pormenores, importantes para a sua apropriação pelos moradores – “pormenores” de grande escala como o atraente jardim público frontal e de pequena escala marcando as entradas dos edifícios – , seja pela excelente ideia que foi criar uma verdadeira vizinhança de proximidade e de convivialidade, desenvolvendo uma espécie de grande “L” edificado, um agradável espaço urbano côncavo, vitalizado pelos acessos aos edifícios e dinamizado por um pequeno “café”, que rapidamente se tornará o pólo de vitalidade desta vizinhança. Nos edifícios salientam-se as agradáveis escadas comuns e nos fogos um merecido destaque para a dotação com pequenos terraços das habitações menos elevadas.




- EFIMÓVEIS Imobiliária S.A., construtor, Ferreira Construções S.A. – Gondomar, RioTinto,Areias, 94fogos, Arq.º J.Bragança e Arq.º M.Marques.




Sublinha-se neste conjunto a muito interessante praceta residencial, com grande utilidade para recreio e desporto e bem hierarquizada e separada da via contígua, proporcionando-se, assim, melhores condições de segurança e uma agradável marcação da respectiva vizinhança de proximidade.




- Construtora.do Távora Lda. – Trancoso, Bº, Sr.ª dosAflitos, 11fogos, Arq.º Aires Almeida e Arq.ª Sofia Jacob





Neste conjunto fazem-se três merecidos destaques, um deles para uma imagem global na envolvente muito bem harmonizada com uma predominância local de edifícios unifamiliares, outro, no edifício, para a funcional relação entre cada fogo e a sua respectiva garagem privativa, e o último, ao nível doméstico, para a agradável e funcional organização da habitação, marcada por belíssimas cozinhas, verdadeiras salas de família, pelo seu espaço e pelos seus acabamentos – condição esta que pode possibilitar o uso da “sala-comum” apenas como sala de estar.




- EUROHORIZONTE Lda., construtor, FDO- Construções S.A. – Aveiro, Aradas, Magustão, 63fogos, Arq. Jorge Matias.






Neste conjunto destaca-se a atraente imagem geral, marcada pelas agradáveis entradas dos edifícios, que marcam ritmicamente um longo e amplo passeio arborizado. Refere-se também, a nível urbano, o cuidado investido no equipamento de recreio e desporto, e, a nível doméstico, o desenho dos vãos e as amplas cozinhas.





- EUROHORIZONTE Lda., construtor, FDO- Construções S.A. – Trofa, S.Martinho Bougado - Mosteiró, 85fogos, Arq.º Ricardo Alarcão.






Sublinha-se a agradável imagem geral, marcada por uma volumetria orgânica desenvolvida por um amplo conjunto de elementos, desde os edifícios, a muretes e a grandes e contínuas floreiras bem associadas aos edifícios; e tudo isto numa atraente relação com as árvores de arruamento, plantadas já com a dimensão certa. Outros destaques seja para a generosidade, tão adequada, de uma grande amplitude de espaços de recreio e desporto bem equipados, seja para a solução funcional de estacionamentos cobertos sob os edifícios, aproveitando os desníveis do terreno.

- HABIMARANTE Sociedade de Construções S.A. – Cabeceiras de Basto, Arco.de Baúlhe, 21 fogos, Arq.º Hugo Maia.





Destacam-se especialmente quatro aspectos neste conjunto: a coragem de se continuar a usar uma tipologia em galeria exterior que tem os seus problemas, mas também tem as suas vantagens; a variedade de tipos de fogos; a excelente zona de estacionamento e de garagem que marca todo o amplo espaço inferior do conjunto, uma solução que transformou uma parte do problema de implantação numa solução funcionalmente vantajosa; e a integração com a habitação de um equipamento colectivo de apoio infantil (julgo que do tipo “Actividades de Tempos Livres”).

- Hagen Imobiliária S.A., construtor, Sociedade de Construção Hagen, S.A.– Sines, Qt. dosPassarinhos, 128fogos, Arq. MiguelRocha e Arq. Miguel Saraiva.





Este é também um agradável conjunto que merece um destaque muito específico e amplo: relativamente à imagem urbana geral, marcada pela atractividade e dignidade; ao nível das excelentes pracetas pedonais com uma agradável escala geral e um interessante equipamento; relativamente a soluções pouco frequentes, mas muito interessantes, de articulação de vias de acesso com “impasses” residenciais muito bem pedonalizados (este aspecto é visível em uma das imagens); ao nível de soluções de edifícios em que se desenvolvem pequenas galerias comuns interiores de distribuição, mas com iluminação natural; e finalmente, quanto aos fogos, destaca-se a muito agradável distribuição doméstica, a associação entre arrumações e definição de espaços e privacidades, e a definição de espaçosas cozinhas e salas (concentrando-se, aqui, um máximo de área).





Algumas, sempre poucas, notas conclusivas

O Júri do Prémio embora anualmente renovado, garantiu a manutenção de um núcleo de aspectos de observação e análise, que asseguraram, genericamente, o acompanhamento da mais recente habitação de interesse social em Portugal, possibilitando, assim, uma muito útil e interessante noção da evolução qualitativa dessa habitação e das suas diversas modalidades de promoção ao longo de quase duas décadas.
Mas um aspecto deve ser aqui salientado, pois é, de certa forma, uma conquista deste período de promoção habitacional com o apoio do INH, que, embora não se possa considerar, ainda, como reflexo de uma guerra ganha, é uma conquista muito significativa no apoio a uma habitação de interesse social bem integrada, física e socialmente, e ligada a uma arquitectura urbana bem qualificada; esta conquista é a “pequena” escala e a diversidade das intervenções, que:
- favorece a participação dos habitantes, a identidade local, o desenvolvimento comunitário, e o controlo local
- facilita o equilíbrio ecológico de cada conjunto.
- privilegia o peão e favorece uma rede de espaços públicos conviviais
- proporciona diversidade de soluções de edifícios habitacionais e mistos.
- favorece uma ampla gama de usos e actividades.
- pode e deve privilegiar o verde urbano em todas as suas formas.
- e assegura o desenvolvimento de pequenos conjuntos urbanos, controláveis, fáceis de gerir, capazes de funcionarem como elementos positivos de qualificação e requalificação urbana; o que é muito importante.

Encarnação – OlivaisN, Lisboa
António Baptista Coelho