Mostrar mensagens com a etiqueta hierarquização doméstica. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta hierarquização doméstica. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, janeiro 22, 2019

671 - Os muitos sítios de uma boa habitação II, sobre os corredores - Infohabitar 671

Infohabitar, Ano XV, n.º 671

Os muitos sítios de uma boa habitação II,  sobre os corredores - Infohabitar 671Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”

por António Baptista Coelho (texto e imagem)

(texto introdutório)
Sobre uma habitação feita mais por sítios específicos do que por espaços ditos de/para actividades e funções domésticas.
Aproveitando para lembrar, entre outros autores Arquitectos, o grande Christopher Alexander e a sua incontornável “linguagem de padrões”, que tanto influenciou tanta gente e é tão poucas vezes citada ou referenciada, podemos referir que uma habitação, um mundo doméstico que, para o ser, tem de integrar, potencialmente, os vários mundos domésticos específicos dos respectivos habitantes, mais o respectivo agregado comum e convivial, muito mais do que um “simples” complexo funcional – e ainda assim o número de funções é extenso – deveria ser constituído e constituível por uma potencial e muito extensa diversidade de “cantos”, “recantos” e “sítios” adequados a uma enorme variedade de misturas funcionais e apropriações pessoais e de grupo específicas e dinâmicas.
Sobre a previsão destes tipo de “cantos”, “recantos” e “sítios”  domésticos, que são, em boa parte, os grandes responsáveis pela criação de um grande mundo pessoal e familiar, destacam-se alguns aspectos muito variados e, designadamente, de agradabilidade e de conforto ambiental, de adaptabilidade, de funcionalidade com sentido lato e de adequada, rica e apropriável pormenorização arquitectónica, que, em seguida, muito brevemente se apontam – não exaustivamente (trata-se de um texto naturalmente dinâmico).

Fig. 01: valorizar os corredores domésticos

Sobre os corredores domésticos: uma reflexão de enquadramento

No presente artigo abordam-se, global e particularmente, os corredores domésticos, aqueles espaços tantas vezes desprezados e remetidos a uma mera função de ligação e circulação entre os outros espaços domésticos, naturalmente, mais protagonistas.
Há que recordar que os corredores foram, em boa parte e no maior número de situações, uma tardia invenção no mundo doméstico, pois, por regra, ou não existiam, porque os espaços de vida da família eram muito restritos, frequentemente, a um ou dois compartimentos multifuncionais, ou, em casas abastadas, por regra, a circulação fazia-se, frequentemente, de forma directa entre compartimentos contíguos, criando-se verdadeiras sequências de espaços/compartimentos, que iriam sendo ligados ou separados (pelo abrir e fechar de portas), consoante as necessidades e os objectivos domésticos mais privados ou mais conviviais.
Naturalmente que neste último caso, por vezes, os corredores já existiam, com uma função, talvez, essencialmente, de serviço e de apoio às principais actividades que decorriam nessas sequências de compartimentos contíguos e interligados.
Depois, talvez possamos considerar que, com o funcionalismo e a necessidade de se proporcionarem adequadas condições de sanidade na habitação, os corredores domésticos acabam por se tornar as ferramentas físicas da ligação entre as diversas funções e actividades domésticas, assumindo-se, assim, basicamente como espaços de circulação, separação e mesmo de hierarquização nas bem conhecidas e “funcionais” zonas de privacidade doméstica, que foram marcando, cada vez mais rigidamente as habitações  do Século XX.
E aqui importa considerar, ainda, dois outros aspectos: sendo o primeiro que as “obrigações” funcionais (de estruturação e hierarquização) domésticas exigidas em “letra de lei” pelos regulamentos da edificação que então surgiram (com os tais objectivos de melhor sanidade e habitabilidade), se foram, tornando, com o tempo, verdadeiros espartilhos na concepção doméstica, designadamente, quando assumidos por projectistas sem capacidade imaginativa e base cultural e bem recebidos pela própria indústria da construção ; e sendo o segundo aspecto, que tais “espartilhos” funcionais, de espaciosidade e de inter-relação espacial, quando reinterpretados por grandes projectistas “funcionalistas” resultaram, frequentemente, em excelentes soluções domésticas, mas como este foi sempre um caso excepcional, no caso corrente as soluções domésticas que nos foram sendo oferecidas, caracterizaram-se, por regra, por uma triste monotonia e pobreza espacial e funcional.
E nesta pobreza os monótonos e tantas vezes monofuncionais corredores foram, frequentemente, protagonistas de tais soluções, tornando a circulação como que talvez a função doméstica mais evidenciada, muitas vezes até com alargamentos estratégicos em “halls” de entrada e de zonas íntimas, cujo interesse doméstico se resumia, muitas vezes à circulação e à amostragem de algumas peças de mobiliário e decorativas.
E lembremos que uma tal situação, muito aplicada especificamente aos corredores domésticos se prende, não só com a referida estruturação hierarquicamente rígida dos diversos espaços, mas também com um dimensionamento próprio e regulamentar “mínimo”, que ao ser assumido pela indústria da construção e por muitos projectistas como regra, vai produzir corredores que, de facto, apenas têm espaço disponível para a circulação e não para esta função e para outras, como a disposição de mobiliário funcional e mesmo para o estar casual ou para actividades pontuais de estudo e trabalho não doméstico na habitação.

Introdução a algumas ideias sobre os corredores domésticos

A reflexão que acabou de ser feita abrirá, então, espaço a possíveis propostas domésticas distintas daquelas a que fizemos referência – marcadas por rígidas hierarquias funcionais e/ou até “roubadas” em parte do seu espaço habitável por longos corredores quase apenas de circulação.
E apontam-se então, aqui, em seguida, algumas ideias de relacionamento mais directo entre diversos espaços domésticos, eles próprios com uma margem razoável de multifuncionalidade, e ideias de um maior protagonismo estruturante e multifuncional dos próprios corredores domésticos, através, designadamente, do recurso a diversificadas soluções, como aquelas que em seguida se apontam e comentam com brevidade.  

Corredores mais úteis e agradáveis

Um aspecto a ter em conta, talvez em primeira linha de preocupações, nesta matéria é que os corredores domésticos sejam, tendencialmente, o mais curtos possível – condição esta óbvia mas que não estará na mente de quem por vezes projecta verdadeiros meandros domésticos, extremamente perdulários em termos de área habitacional – sendo, simultaneamente, o mais úteis possível – condição esta que poderá ter variadas respostas, sendo a mais óbvia o proporcionar acesso funcional a adequadas e extensas arrumações domésticas.
Outro aspecto bem importante é que os corredores não sejam aquele “espaço escuro”, por vezes, até difícil de usar por crianças pequenas, e para tal e não sendo fácil proporcionar-lhes vãos directos sobre o exterior, poderemos prever instalações/soluções que façam infiltrar luz natural, ainda que pontual ou, de preferência, ritmicamente; e uma solução tradicional e ainda excelente é a existência de portas envidraçadas, transparentes ou translúcidas, e/ou de bandeiras transparentes sobre as portas interiores – bandeiras estas que poderão também permitir condições constantes de ventilação natural (aos corredores e à própria habitação, em termos de ventilação cruzada).  

Fig. 02: corredores mobilados e corredores-galerias

Corredores mobilados e corredores-galerias

Os corredores mobilados e os corredores-galerias (de arte), podem ser elementos estruturantes e agradavelmente caracterizadores na organização da habitação e na sua essencial apropriação pelos respectivos moradores.
Esta opção por corredores mobilados e/ou por corredores-galerias, leva a que estes espaços  deixem de ser zonas "escuras" e "inúteis" para passarem a ser aspectos verdadeiramente caracterizadores da habitação, estimulando mesmo a sua vida interna e a identidade e amor próprio dos respectivos habitantes, pois trata-se de espaços intensamente marcados pela apropriação do seu espaço doméstico e pelas escolhas e gostos próprios em termos de elementos de decoração aí integrados e/ou "expostos".
Naturalmente que há que cuidar de um adequado dimensionamento da largura dos corredores e das peças de mobília aí integradas, de modo a que a circulação possa continuar a desenvolver-se de forma adequada, embora talvez mais naturalmente a um ritmo mais cadenciado e doméstico, o que parece ser positivo; e este tipo de solução pode. naturalmente, evoluir, havendo “pontualmente” espaço para a recriação de pequenos subespaços espaços domésticos atribuíveis a variadas actividades.
Importa ainda referir que ao apontarmos a ideia da recriação de corredores domésticos como pequenas “galerias de arte”, estamos a visar, de forma mais geral, um gradual preenchimento das respectivas paredes com módulos de arte diversificados e/ou com cartazes ou outros tipos de elementos de design de comunicação, pouco ou nada dispendiosos.

Corredores-saletas

Os corredores-saletas são espaços do interior/âmago doméstico que "crescem" da opção limitada função de circulação mais integração/exposição de mobiliário e elementos de decoração e apropriação espacial, para zonas com eventuais funções estruturadoras da vida da habitação e de evidenciação da identidade e dos gostos e formas de vida dos seus habitantes.
Estão neste caso compartimentos, habitualmente, alongados que, além de serem espaços de circulação, servem, por exemplo, como zonas de trabalho e estudo, espaço de biblioteca e videoteca, espaço de aquariofilia, e local de estruturação e exibição de variados tipos de colecções.
Estes corredores-saletas ganharão muito, naturalmente, com um mínimo de condições de conforto ambiental, em termos de luz e ventilação naturais, e com um máximo de adequada pormenorização, marcada pela sobriedade de modo a não colidir em termos visuais (ex., contraste excessivo) e funcionais (ex, espaço habitual e aparentemente desarrumado) com os referidos usos.
De certa forma este corredores-saletas podem definir-se como não corredores, sendo compartimentos entre compartimentos e que proporcionam o acesso directo entre eles.

Dos corredores estruturantes à quase ausência de corredores

Conclui-se, para já, esta reflexão comentada sobre os corredores e, naturalmente, sobre a circulação doméstica, com algumas, poucas, observações sobre duas situações-limite, que podem marcar (positiva ou negativamente) habitações: pela existência de um corredor estruturante da vida doméstica; ou pela quase inexistência de corredores na habitação.
Um corredor estruturante pode marcar muito positivamente toda a estrutura, visualidade e capacidade de uso de uma habitação, habitualmente, por uma sua posição próxima de um eixo de simetria que atravessa boa parte do fogo, por um seu adequado dimensionamento e utilidade (tal como acima se apontou) e por cuidados específicos com as suas condições de conforto ambiental, com relevo para a luz natural (também como foi acima apontado). Desta forma e habitualmente a habitação assim estruturada poderá ganhar, entre outros aspectos, um apreciável potencial de adaptabilidade e de versatilidade na afectação dos compartimentos servidos por este tipo de corredor, assim como ganha numa sua afirmada caracterização.
Nos antípodas das soluções domésticas, uma habitação pode ser caracterizada pela quase inexistência de corredores, definindo-se um espaço vivencial que tende a ser expressivamente caracterizado pela adaptabilidade de afectações funcionais e pela convivialidade doméstica, sendo essencial nesta situação, entre outros cuidados, que os espaços designados de “circulação obrigatória” nos compartimentos não atravessem e, em boa parte, inutilizem zonas funcionais, criando (conformando), portanto, esses percursos de circulação, espaços e “cantos” úteis, versáteis e agradáveis. E muito mais haverá a dizer sobre este tipo de soluções, que foram bastante utilizadas por grandes arquitectos do século XX, produzindo espaços domésticos expressivamente unificados, que muito ganham com cuidadosas condições de conforto ambiental, arquitectonicamente utilizadas e valorizadas (ex., janelas junto ao tecto) e com uma afirmada e estratégica relação com um exterior estimulante.
Não sendo, talvez, essencial referi-lo, porque parece ser óbvio, mas porque se trata de matéria muito sensível na organização e caracterização de boas soluções domésticas, estas soluções que acabaram de ser referidas – marcadas por corredores estruturantes ou pela sua ausência – só estão, verdadeiramente, ao alcance de excelentes processos de concepção arquitectónica, resultando, habitualmente, muito mal quando aplicados de forma pouco cuidada, pouco fundamentada e mal imaginada.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XV, n.º 671
Os muitos sítios de uma boa habitação II,  sobre os corredores - Infohabitar 671
Artigo da Série “Habitar e Viver Melhor”

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com

Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional Infohabitar,– Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

domingo, maio 01, 2016

580 - O espaço doméstico do quarto: introdução - Infohabitar n.º 580

Infohabitar, Ano XII, n.º 580

O espaço doméstico do quarto: introdução - Infohabitar n.º 580

António Baptista Coelho
Artigo XCVII da Série habitar e viver melhor

Os quartos domésticos

Tal como se referiu, anteriormente, nas próximas semanas, aqui nesta série editorial, viajaremos, mais um pouco, pelos espaços domésticos privativos e pessoais, portanto aqueles mais amigos de um uso individual, ou ligado ao casal, e onde, também não há que excluir os outros, mas sim acolhê-los marcando, aqui, ainda mais fortemente, aspectos de identidade e de abrigo.
Neste sentido iremos abordar em vários artigos, diversos aspetos de conceção ligados aos espaços domésticos dos “quartos”, considerados como sítios não apenas para dormir, mas também como importantes espaços de apropriação, intimidade, sossego e manifestação da individualidade de cada um de nós.
Tal como aqui já se referiu, o quarto pode ser o quarto de dormir clássico, praticamente estruturado pelo espaço/cama, sem grandes ambientes/actividades complementares ou paralelas, ou pode constituir um conjunto de zonas de actividade entre as quais as associadas ao espaço/cama terão algumas preponderâncias, mas proporcionando pequenas áreas de lazer, estar e trabalho; e neste sentido o quarto “dilata-se”, em termos formais e funcionais, podendo assumir-se como verdadeira pequena habitação privada – desde que complementado com alguns outros serviços/equipamentos.
Durante anos e ainda hoje, muita da promoção habitacional "comercial", propôs uma “zona íntima” doméstica, onde se agregavam muitas vezes com carácter quase segregado do resto da habitação, todos os quartos da habitação, um sítio quase isolado, onde afinal acabava por se desenvolver uma espécie de desprivatização ou proximidade excessiva, muitas vezes associada a um exíguo corredor ou vestíbulo interior para o qual dão todos os quartos e as principais casas de banho; no entanto, aqui se sublinha, desde já, que uma tal opção é apenas uma das que são possíveis, não devendo ser tomada/seguida de forma exclusiva, caso contrário o capital de adaptabilidade da respetiva habitação ficará fortemente prejudicado.´



Quartos multifuncionais

O quarto pode ser o quarto de dormir clássico, praticamente estruturado pelo espaço/cama, sem grandes ambientes/actividades complementares ou paralelas, ou pode constituir um conjunto de zonas de actividade entre as quais as associadas ao espaço/cama terão alguma preponderância, mas proporcionando pequenas áreas de lazer, estar e trabalho.
O espaço disponível no quarto é, frequentemente, determinante nesses desenvolvimentos funcionais e a situação e acessibilidade. do quarto, na habitação também o é.
Hoje em dia as actividades de lazer, associadas à televisão, serão aquelas mais frequentemente consideradas, no entanto, considerar o quarto, "privado", numa perspectiva que tenha alguma identidade com uma solução do tipo “quarto de hotel” amplo adequadamente estruturado em diversas pequenas zonas de actividade, será uma perspectiva muito interessante, pois permitirá que cada pessoa ou cada casal possa garantir um pequeno mundo doméstico muito especialmente privado e apropriado, dentro de um mundo doméstico mais amplo e também privatizado.
Fig. 01: um pequeno quarto e zona de trabalho privativa, no qual fica evidente uma certa secundarização da zona de dormir relativamente à zona de trabalho (uma das múltiplas opções possíveis) – habitação integrada no conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Gert Wingardh, Monica Riton.

Várias zonas nos quartos

Nesta perspectiva, sendo possível a criação, num dado quarto doméstico, de variadas sub-zonas de lazer/estar, trabalho eventual e pontual, dormir/repousar, e vestir/arranjar-se, então o pequeno mundo doméstico privado assumirá, realmente, uma força e uma identidade estimulantes, as quais serão reforçadas pela aliança com uma casa de banho privada ou com uso privatizável, e com a associação de um espaço exterior privativo e/ou de um "lugar janela" onde seja possível fruir o exterior, em termos de conforto ambiental (temperatura, radiação solar, vistas) em agradáveis condições de privacidade.
É importante sublinhar que estes aspectos não exigem espaços amplos, são facilitados e ganham uma riqueza especial com tais espaços, mas é possível desenvolver pequenas "suites" multifuncionais, através de um pormenorizado e bem qualificado projecto de Arquitectura.
Neste sentido, importa considerar que, hoje em dia, numa sociedade marcada pela pressa e em habitações tendencialmente muito viradas para o desenvolvimento das suas áreas mais sociais e, frequentemente, demasiado hierarquizadas ou funcionalmente unívocas, a cuidadosa disponibilização de pequenas suites bem pormenorizadas e ambiental e funcionalmente cativantes pode corresponder a uma fruição da habitação rica e multifacetada, até porque teremos sempre mais vontade de conviver se tivermos naturais e adequadas condições para gozar uma privacidade maximizada e uma forte expressão da nossa identidade, através de variados aspectos de apropriação espacial - seja em termos de variadas organizações e tipos de mobiliário, seja pelo rechear as "nossas" paredes com panos, imagens e objectos.

A zona íntima doméstica

Durante anos e ainda hoje, muita da promoção habitacional "comercial", propôs uma “zona íntima” doméstica, onde se agregavam, muitas vezes com carácter quase segregado do resto da habitação, todos os quartos da habitação, um sítio quase isolado, onde afinal acabava por se desenvolver uma espécie de desprivatização ou proximidade excessiva, muitas vezes associada a um exíguo corredor ou vestíbulo interior para o qual davam todos os quartos e as principais casas de banho.
O que acontece nesta situação de excesso de hierarquização/gradação de privacidade é que esta zona íntima poderá funcionar bem desde que haja espaço suficiente para aumentar a sua privacidade própria, aumentando-se as distâncias entre os seus quartos e casas de banho, mas quando não há tal espaço, quando esses corredores e vestíbulos são exíguos e sem luz natural - condição que agrava psicologicamente essa exiguidade -, então mais vale abrir essa zona diversificadamente sobre o resto da habitação, havendo o cuidado de se evitarem relações visuais directas e intrusivas das diversas privacidades; condição/situação esta que terá de ser cumprida em promoções com áreas controladas e que é atenuada com a utilização de dois pisos habitacionais e de um vestíbulo íntimo razoavelmente espaçoso e, sempre que possível, recebendo luz natural.
Um aspecto associado a essa matéria do fazer ou não uma “zona íntima” é a existência de quartos, ou pelo menos um quarto, fora da zona de quartos e com características de certa autonomia em relação à entrada do fogo.
Se existir um quarto “autonomizado” deste tipo, aceita-se melhor a “zona íntima”, mas ela será sempre discutível em habitações com um ou dois quartos, pois aqui ela produz uma excessiva hierarquização e compartimentação do interior doméstico, tornando-o rígido, pouco adaptável e excessivamente marcado por separações.
Mas tudo isto terá outra leitura com espaços domésticos amplos, os quais são eles próprios factores de descompressão e adaptabilidade.

Habitação sem zona íntima

Naturalmente que uma situação oposta de total abertura dos quartos, directamente, sobre as zonas mais sociais da habitação, apenas será adequada quando objectivamente desejada pelos habitantes e/ou ligada a tradições habitacionais específicas.
Estas tradições de franca relação entre espaços encontram na cabana rústica uma base directa, pois nesta as alcovas (camas/quartos) dispunham-se,  frequentemente, em torno de um espaço mais "social", também, frequentemente, marcado por uma mesa central de refeições e reunião - as disposições tradicionais de quartos em torno de uma zona de jantar/estar por onde também se faz o principal acesso à casa encontrarão, provavelmente, nessa solução a sua base original e estruturadora; mas cuidado com as más soluções deste tipo (deprivatizadas e claramente conviviais) realizadas com “pouca Arquitetura”, pois estamos aqui a abordar ideias muito mais difíceis de concretizar com qualidade, do que a simples hierarquização de privacidades através das já famosas “zonas íntimas”.
Optar, hoje em dia, por este tipo de cuidada "desprivatização" ou "des-hierarquização" dos quartos na habitação poderá ser uma opção dos habitantes, interessante, sem dúvida, mas que terá de ser cuidadosamente tratada, tendo evidentes vantagens em termos de ausência de espaços "apenas" de circulação, e que depende de a relação dos quartos se fazer com uma zona usada com reduzida intensidade e, mais especificamente, segundo um dado horário, como acontece com as zonas de refeições. 
Nota final: nas próximas semanas abordaremos outras matérias associadas aos quartos domésticos.

·  Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:
As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.
Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.
A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.
Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.
·  Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XII, n.º 580
Artigo XCVII da Série habitar e viver melhor

O espaço doméstico do quarto: introdução - Infohabitar n.º 580

Editor: António Baptista Coelho – abc@ubi.pt, abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.