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quinta-feira, março 01, 2007

128 - Regulamentação térmica e sustentabilidade na habitação – artigo de António Baptista Coelho, Fausto Simões e Pina dos Santos - Infohabitar 128

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Regulamentação térmica e sustentabilidade na habitação – artigo de António Baptista Coelho, Fausto Simões e Pina dos Santos

Durante a tarde do passado dia 15 de Fevereiro, no Auditório do Edifício Sede do INH, em Lisboa, decorreu mais um Encontro técnico desenvolvido através da colaboração entre o Instituto Nacional de Habitação (INH) e o Grupo Habitar (GH).

Este Encontro correspondeu à 9.ª Sessão Técnica do GH e abordou, de forma geral, as temáticas da “regulamentação térmica e da sustentabilidade na habitação a custos controlados”.

Neste artigo faz-se uma reportagem, informal, desta tarde de trabalho, através da indicação dos seus principais intervenientes e das temáticas por eles tratadas, mas, desde já, se sublinha que esta foi uma primeira ocasião de reflexão e debate sobre uma problemática que obrigará a outras sessões deste tipo e num futuro próximo; sessões estas para as quais se conta com as muito interessantes intervenções que, em seguida, se apontam e, muito brevemente, se sumariam.

Concluindo o artigo e proporcionando-lhe um adequado conteúdo técnico, apresentam-se dois textos, em que dois dos intervenientes no Encontro, o Arq. Fausto Simões e o Eng. Pina dos Santos, fazem o enquadramento geral das respectivas intervenções.

O Encontro foi aberto pelo Senhor Eng. Teixeira Monteiro, Presidente do INH e pelo Presidente do GH, que deram as boas-vindas aos presentes e apresentaram o programa de trabalhos previsto.




Ainda numa fase inicial dos trabalhos foi feita uma referência destacada à recente atribuição, no início de Fevereiro de 2007, do Prémio Europeu de Energia Sustentável 2007 a um projecto europeu, o projecto SHE – Sustainable Housing in Europe, no qual se integra e salienta, porque corresponde a uma obra acabada bem dentro dos prazos previstos, um conjunto de habitação apoiada pelo Estado português, portanto financiado pelo INH, e promovido por um conjunto de cooperativas de habitação económica que integram a Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE), localizado na Ponte da pedra, Leça do Balio, Matosinhos.

Trata-se do primeiro empreendimento cooperativo de construção sustentável em Portugal, promovido pela NORBICETA – cooperativas Nortecoop, As Sete Bicas e Ceta, sob a direcção técnica do Eng. José Coimbra e sob coordenação global do Presidente da FENACHE Guilherme Vilaverde.
Mais informações sobre este conjunto estão disponíveis em diversos artigos já editados no Infohabitar.

Passando ao conteúdo técnico do encontro, este integrou os seguintes temas e intervenientes:




1.ª Intervenção: Objectivos de conforto e de sustentabilidade ambiental em intervenções habitacionais, pelo Arq.º. Fausto Simões

autor de projectos de arquitectura e de trabalhos de divulgação e estudos publicados sobre arquitectura climática.

Como se anexa um pequeno texto, da autoria do próprio Arq.º Fausto Simões, sobre esta temática apenas se refere aqui que se tratou de uma intervenção com grande riqueza de conteúdos técnicos e forte interesse expositivo, que abordou os diversos níveis físicos urbanos e residenciais, assim como as suas fundamentais interacções e elementos constitutivos que têm influência num conforto ambiental mais sustentável e mais efectivo, seja no exterior citadino, seja em nossas casas, seja no Inverno, seja no Verão.

E chama-se, assim, a atenção para o texto do Senhor Arq.º Fausto Simões, que integra este artigo, intitulado “Arquitectura conforto e ambiente – Da caixa hermética à “vida entre os edifícios”, onde se faz o enquadramento genérico desta apaixonante e hoje crucial temática.




Refere-se, ainda, que o Arq.º Fausto Simões é autor de projectos de arquitectura climática com resultados registados e publicados: Casas Solares Passivas de Vale Rosal e do Casal do Cónego, Casa do Telheiro, Casa do Padrão, Escritórios da Taxa de Porto. Fausto Simões desenvolveu, também, obras de iniciação à arquitectura climática e sustentável: Clicon – Método de Concepção para Projectar como Clima; A Green Vutruvius - Princípios e Práticas de Projecto para uma Arquitectura Sustentável (revisão da versão original e supervisão da versão portuguesa); um livro que está disponível nas livrarias e que vivamente se recomenda.



2.ª Intervenção: Características e aplicações do novo Regulamento das Características de Comportamento Térmico dos Edifí­cios (RCCTE), considerando a habitação a custos controlados, pelo Engº. Pina dos Santos

Investigador do Laboratório Nacional de Engenharia Civil.

Como se anexa um pequeno texto, da autoria do próprio Eng.º Pina dos Santos, sobre esta temática apenas se refere aqui que se tratou de uma intervenção cujo interesse e oportunidade nos levariam muito mais além do tempo de apresentação previsto; situação esta que Pina dos Santos soube contornar através de um salientar estratégico dos aspectos por ele considerados mais importantes e oportunos.



O Senhor Eng.º. Pina dos Santos é Investigador do Núcleo de Revestimentos e Isolamentos (NRI) do Departamento de Edifícios do LNEC e esteve, desde sempre, ligado às temáticas do conforto térmico em edifícios.




3.ª Intervenção: Sistema Nacional de Certificação Energética e da Qualidade do Ar Interior nos Edifícios (SCE) e Água Quente Solar, pelo Dr. Alexandre Fernandes

Director Geral da ADENE – Agência para a Energia.

Nesta intervenção foram desenvolvidos os seguintes temas, que aqui se citam da respectiva apresentação do Senhor Dr. Alexandre Fernandes: intensidade energética em crescimento; o desafio de cumprir Quioto; consumo de energia primária (tipos de fontes energéticas); consumo de energia final (por sectores de actividade); evolução da legislação aplicável, destacando-se o novo pacote legislativo de 4 de Abril de 2006; integração das peças legislativas; regulamentação específica para edifícios residenciais, considerando edifícios novos e existentes; sistema de certificação (da verificação da aplicação dos requisitos regulamentares à classificação e emissão de certificado); perfil do “Perito Qualificado”; intervenções no SCE, considerando o RCCTE e o RSECE, ao longo das etapas da vida de um dado edifício (do respectivo projecto à sua utilização) e visando a emissão de Declaração de Conformidade Regulamentar e de Certificados Energéticos; verificação de requisitos relativamente ao RCCTE e ao RSECE; classificação energética (habitação e serviços); Classes energéticas residenciais; processo de certificação.




Esta intervenção Dr. Alexandre Fernandes, igualmente de grande interesse e que iria motivar um animado debate final, foi rematada com as seguintes temáticas: apresentação do Portal ADENE/SCE, actualmente em conclusão; Certificado Energético e Certificado Energético e Solar; entrada em vigor do RCCTE, do RSECE e do SCE e respectivas implicações actuais e futuras; enquadramento geral geográfico da temática do aproveitamento Solar Térmico; dados sobre o aproveitamento Solar Térmico na União Europeia; diagnóstico geral do aproveitamento Solar Térmico em Portugal; e evolução expectável do aproveitamento solar térmico entre 2007 e 2010.




4.ª Intervenção: A responsabilidade e intervenção das empresas de materiais na sustentabilidade ambiental, pelo Engº. Jorge Ramos

da Empresa Imperalum.

Nesta intervenção foram desenvolvidos os seguintes temas, que aqui se citam, de forma muito sintética, a partir da respectiva apresentação do Senhor Eng. Jorge Ramos: caracterização ambiental da indústria da construção, com relevo nos respectivos impactes negativos; caracterização ambiental da indústria da Imperalum, com destaque para a fabricação de membranas betuminosas de impermeabilização e emulsões; Certificação Ambiental; contributos possíveis para a qualidade de vida nas edificações e para a sua sustentabilidade.

Salienta-se que o Eng. Jorge Ramos assegurou uma sequência natural e estimulante na abordagem da temática geral da sustentabilidade na construção de habitação, concluindo as apresentações da tarde num registo muito ligado à prática, mas uma prática claramente comprometida com a qualidade ambiental.





Apresentam-se, em seguida, os textos de enquadramento que foram, na altura, disponibilizados aos presentes, pelo Arq.º Fausto Simões e pelo Eng.º Pina dos Santos, textos estes que, em conjunto com as apresentações em Power Point dos restantes intervenientes, constituíram uma bem organizada documentação fornecida pelo excelente secretariado do Encontro aos seus mais de 100 participantes.



Arquitectura conforto e ambienteDa caixa hermética à “vida entre os edifícios”- texto de Fausto Simões

http://www.orbis.t2u.com/

O sector da edificação confronta-se hoje com uma nova Regulamentação Energética que é dominada pela Térmica. A QAI (Qualidade do Ar Interior) e a Iluminação são tratadas na perspectiva das instalações de AVAC (Aquecimento, Arrefecimento e Ar Condicionado). O edifício também, tendo em vista, sobretudo, reduzir o consumo de energia comercial dos equipamentos activos. De facto são estes e não os edifícios que consomem energia comercial.

Em Portugal, a importância energético-ambiental dos edifícios é relativamente pequena, mas tenderá a agravar-se na medida em que remetemos para as instalações especiais problemas que poderiam ser melhor resolvidos pelos edifícios, ou nem sequer existir. Neste sentido, há cada vez mais edifícios que só são habitáveis graças á “máquina”. Falta robustez ambiental ao nosso património edificado, o que se tornará mais crítico se considerarmos o desenraizamento e o envelhecimento da população face aos efeitos das alterações climáticas.

Consequentemente, a resposta da arquitectura aos problemas energetico-ambientais não se pode divorciar dos problemas sociais e, portanto, não se deve circunscrever ao detalhe dos isolamentos térmicos e dos acabamentos interiores não poluentes. Isso é o que pede aos arquitectos a concepção do edifício como uma caixa hermética mecanicamente ventilada (Figura 1), seguindo o modelo da Passiv Haus que "vem do frio", da Europa não mediterrânea. Esta concepção tem uma forte presença na articulação da Regulamentação Energética.




Figura 1 Da “caixa hermética” aos “espaços entre os edifícios”

A concepção que tenho vindo a defender é menos linear e centra-se mais nas nossas relações com o clima e a sociedade, mediadas pelos edifícios. No nosso clima moderado e misto, o isolamento térmico que se integra sobretudo nas estratégias de conservação do calor, têm que se conjugar, não só com o solar passivo no Inverno, mas também com o leque de estratégias para o Verão, tendencialmente mais importantes, nas quais o isolamento térmico tem uma posição mais discreta; a térmica tem que se conjugar com a iluminação natural com a acústica e outras componentes ambientais, considerando um conforto adaptativo, mais complexo, com interessantes reflexos nos consumos de energia... E o "ambiente" tem que se conjugar com a urbanidade.

Chegamos assim a formas edificadas que não podem caber no modelo da caixa hermética e em que ganham importância os "espaços intermédios" .

A incorporação destas preocupações na arquitectura implica a revisão em profundidade dos currícula, na perspectiva "sustentável" da arquitectura enquanto "arte aplicada" e da participação pró-activa dos arquitectos em equipas pluridisciplinares, ao nível do projecto dos edifícios e das suas agregações urbanas, com uma especial atenção aos "espaços entre os edificios" (Figura 1), nomeadamente nos Planos de Pormenor. Note-se que é ao nivel da cidade e do primeiro esquisso que são tomadas as principais decisões, as quais condicionarão irrevogavelmente o projecto, a construção e a utilização do meio edificado e, portanto, ditarão o seu impacte energetico-ambiental.

No que concerne à prática profissional, parece óbvio que o velho método separativo em que o engenheiro mecânico fica à espera que o arquitecto lhe entregue a "estrutura" definitiva para introduzir os dados nos seus cálculos sobre os equipamentos, deverá ser substituído por um processo iterativo ao longo do projecto e desde o primeiro esquisso, designadamente nos maiores projectos. Este processo interactivo não requer apenas novas competências de parte a parte, mas também métodos de cálculo que permitam que ambos progridam concertadamente em detalhe do programa base até ao projecto de execução.

E depois do projecto de execução, vem ao caso salientar, torna-se pertinente não só dar uma efectiva assistência à obra, mas também acompanhar a sua utilização. O acompanhamento da utilização pelo projectista durante um ou dois anos, traz inestimáveis ensinamentos que podem vir a ser aplicados in loco e em futuros projectos.

Tudo isto envolve significativas alterações na prática profissional e custos adicionais que estão expostos de forma sistematizada no "A Green Vitruvius", um "primer" sobre "princípios e práticas de projecto para uma arquitectura sustentável" editado pela Associação dos Arquitectos Portugueses, actual Ordem dos Arquitectos que ainda não o aproveitou para despoletar a discussão desta matéria em português.

Texto de Carlos Pina dos Santos

pina.santos@lnec.pt

O Decreto-Lei nº 80/2006 de 4 de Abril revoga o anterior RCCTE (Decreto-Lei nº 40/90 de 6 de Fevereiro, o qual pela primeira vez tinha introduzido, por via regulamentar, requisitos térmicos no projecto de novos edifícios e de grandes remodelações.

Apesar do duvidoso cumprimento sistemático das exigências regulamentares impostas pelo “velho” RCCTE, é indiscutível que esse documento legal contribuiu para introduzir alterações significativas nas práticas construtivas adoptadas na edificação corrente.

As paredes exteriores, nas quais se generalizou a adopção da parede dupla, passaram com alguma frequência a incluir um mínimo de isolamento térmico. As coberturas, em terraço ou inclinadas, também passaram a receber com regularidade um tratamento térmico, embora nem sempre adequado.

Todavia surgiram alguns problemas, mais ou menos graves, involuntariamente criados pelo RCCTE. Podem referir-se, a título de exemplo, as inadequadas soluções de “correcção” das pontes térmicas e o descuramento de outros aspectos do desempenho dos elementos da envolvente, nomeadamente, em termos de segurança contra incêndio. Sem esquecer a fraca qualidade de execução das soluções de isolamento térmico, geralmente observada na construção corrente.

Por outro lado verificou-se nos últimos anos um acréscimo (mais ou menos sazonal) da aquisição e da instalação de sistemas energéticos de aquecimento e de refrigeração, embora com frequência usados com moderação, por razões de ordem económica.

Mas nesses últimos anos o consumo de energia no nosso País apresentou acréscimos associados, quer à aquisição e uso intensivo de variados equipamentos domésticos e profissionais, nos edifícios, quer à utilização dos meios de transporte .individuais.

Por último, uma sociedade próspera tende a esquecer rapidamente a necessidade de adoptar algumas práticas ética e socialmente responsáveis. As atitudes e os aspectos comportamentais face à utilização racional dos recursos disponíveis afectam, drasticamente, os resultados de quaisquer políticas ou medidas que se pretendam implementar.

O novo RCCTE, aprovado como se referiu passados dezasseis anos após o primeiro regulamento térmico, surge no contexto da evolução social, económica e energética entretanto registada no País e “transpõe em parte” a Directiva nº 2002/91/CE, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 16 de Dezembro (publicada em 4 de Janeiro de 2003), relativa ao desempenho energético dos edifícios.

Esta Directiva, entre outros requisitos, impõe (transcrevendo o preâmbulo do novo RCCTE) “aos Estados membros o estabelecimento e actualização periódica de regulamentos para melhorar o comportamento térmico dos edifícios novos e reabilitados, obrigando-os a exigir, nestes casos, com poucas excepções, a implementação de todas as medidas pertinentes com viabilidade técnica e económica.

A directiva adopta ainda a obrigatoriedade da contabilização das necessidades de energia para preparação das águas quentes sanitárias, numa óptica de consideração de todos os consumos de energia importantes, sobretudo, neste caso, na habitação, com um objectivo específico de favorecimento da penetração dos sistemas de colectores solares ou outras alternativas renováveis”.

Para além da obrigatoriedade da instalação de colectores solares térmicos, salvo justificação fundamentada em contrário, o novo RCCTE introduz novos aspectos que visam a melhor quantificação dos consumos potenciais de energia para aquecimento, arrefecimento e preparação de águas quentes sanitárias.

A maior complexidade no tratamento dado a algumas das matérias relevantes (ganhos solares, pontes térmicas, ventilação) traduzir-se-á na necessidade de adopção de soluções passivas ou activas menos comuns na prática corrente.

Embora as condições de referência adoptadas possam ser consideradas apenas simplificações de cálculo (e não recomendações para serem cegamente cumpridas), e os consumos nominais de energia útil estimados se possam afastar significativamente da realidade, o novo RCCTE pretende criar uma base convencional de comparação entre edifícios com vista à respectiva Certificação Energética que entrará em vigor ainda este ano.

Como o próprio preâmbulo do novo RCCTE também refere “para maior flexibilidade de actualização destes objectivos em função dos progressos técnicos e dos contextos económicos e sociais este Regulamento é estruturado por forma a permitir a actualização dos valores dos requisitos específicos, fixados de forma periódica pelos ministérios que tutelam o sector”.




Finalmente houve lugar a um animado debate, gerido por uma mesa composta pelos intervenientes e pelo moderador Arq.º Vasco Folha do INH.

Ficou vontade de se ter mais tempo, seja para as apresentações, seja para o debate das temáticas e das questões levantadas pelas apresentações. Talvez que numa possível réplica deste Encontro, provavelmente no Porto e, também provavelmente, no Auditório da Delegação do INH no Porto, seja possível proporcionar um pouco mais de tempo para se ouvir falar e para se discutirem estas fundamentais matérias da “regulamentação térmica e da sustentabilidade na habitação a custos controlados”; e talvez que então seja possível, pelo menos, introduzir numa tal apresentação e discussão a problemática da reabilitação habitacional associada a essas temáticas.

Aproveitando-se este artigo faz-se aqui um agradecimento público, em nome do Grupo Habitar, aos principais intervenientes neste Encontro, Dr. Alexandre Fernandes, Arq.º Fausto Simões, Eng. Jorge Ramos e Eng.º Pina dos Santos, pelas excelentes intervenções, ao Arq.º Vasco Folha pela motivada moderação do debate e a todos os que estiveram connosco na tarde de 15 de Fevereiro de 2007 no INH em Lisboa.




E naturalmente o Grupo Habitar deixa aqui bem expresso o agradecimento ao INH, na pessoa do seu Presidente Eng. Teixeira Monteiro e do seu Conselho Directivo, por mais esta jornada técnica e de colaboração com o GH. Um agradecimento que deve ser estendido ao excelente secretariado do Encontro, coordenado, como sempre com grande eficácia, pela Dr.ª Teresa Machado, e, naturalmente, a uma das almas do INH e do GH, o Eng.º Hermano Vicente, que, desde início e até ao fim, ajudou a organizar e dinamizou esta tarde de trabalho.


quinta-feira, setembro 28, 2006

105 - A Cidade e o Equinócio de Outono I – o esplendor da luz, artigo de Celeste Ramos - Infohabitar 105

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A Cidade e o Equinócio de Outono I – o esplendor da luz

artigo de Celeste Ramos
imagens de folhas e cidade de A. B. Coelho


OUTONO
De noche, el oro
es plata
plata muda el silêncio
de oro de mi alma
Jimenez (Nobel 1956)


OUTONO - o esplendor da LUZ
Hino à luz e à cor





Fig. 0

Depois da Primavera com a exuberância da vida a nascer e manifestar-se e a alegria dos bandos das aves que chegam cruzando o céu azul, depois da grandeza do sol e do calor no pino do verão e dos perfumes dos frutos e das flores, vem agora o esplendor da luz a anunciar o tempo de colher o que falta da fartura das culturas agora doiradas como a luz e que no Outono serão secas e conservadas para a festa do Verão de S. Martinho com o vinho novo e os figos e uvas secas e pinhões, anunciando que a terra já deu tudo e tem de descansar e entrar no repouso e no silêncio no tempo de maior recolhimento e frio que se aproxima e que vai aumentando até ao Natal e à noite mais longa, tempo de meditação da terra e dos homens a preparar a grande viagem para um ano novo.

Outono, explosão da LUZ nos seus mais diversos matizes no céu como que a anunciar outras manifestações da beleza que é dado contemplar, reflectidas em novas formas da natureza, indícios de OIRO nas nuvens que já não são os densos e fantasmagóricos cúmulos de branco luminoso, que voltam a habitar o céu, e também nas folhas das plantas caducas que antes de se abandonarem e caírem no chão, atapetando-o, se mostram cintilantes dançando nas ramadas com as primeiras brisas anunciando a morte a que estão destinadas e exibindo cores de oiro e de cobre, ferrosas ou vermelhas ensanguentadas, das mesmas cores das nuvens e da penugem dos pássaros, acrescentando pela primeira vez no ano todos os tons de cinza a negro dos cirros anunciando a chuva e os trovões e relâmpagos por vezes assustadores e brutais refazendo o equilíbrio electromagnético da atmosfera – outros sons do céu.





Fig. 1

Setembro é o primeiro mês do Outono neste tempo do sono do Inverno, e se a primavera é a chegada das aves migradoras em bandos e gritos de alegria, agora é o tempo de algazarra da debandada para zonas de mais calor e de criação dos filhotes até ao começo da hibernação de Inverno para, mais outra vez, voltarem no equinócio da primavera como se os equinócios fossem um eixo de nascer e morrer, para renascer e repetir a alternância entre a abundância e a máxima carência da terra e da natureza representada no eixo solsticial, e mais uma vez ser relógio cósmico também dos homens.

Ano a ano a Terra faz a sua jornada à volta do Sol manifestando as diferenças correspondentes ao tempo de cada viagem mil vezes repetida ciclicamente e que imprime também ao homem novas atitudes e movimentos em que tudo é mais devagar e contemplativo.

E porque o eixo da Terra não é perpendicular ao plano da sua órbita, mas sim inclinado de 23.5º, no seu movimento de translação dá origem às quatro estações climatéricas das Zonas Temperadas.





Fig. 2 (i e ii) – O primeiro esquema (i) é da Sociedad Astronómica del Estado de Hidalgo, A.C. e corresponde ao hemisfério norte, http://www.meridiano98.org.mx/articulos/solsticio-invierno.html; o segundo esquema (ii) é de Milton Pereira Barros, do Observatório Astronômico Municipal de Diadema, e corresponde ao hemisfério sul: http://www.projetorelogiosolar.diadema.com.br/primaveraestacao.htm

No solstício de Verão (21/22 de Junho), o Pólo Norte está inclinado na direcção do Sol e os raios solares incidem perpendicularmente no Trópico de Câncer – determinando esse limite físico, invertendo-se com a mesma inclinação no solstício de Inverno (22 de Dezembro) delimitando o Trópico de Capricórnio, e enquanto no solstício de Verão o dia atinge a sua máxima duração e a noite a mínima, no Inverno em que a Terra está mais próxima do Sol, a noite é a mais longa do ano e o dia o mais curto, já que os raios do sol atingem o Planeta mais tenuemente no Hemisfério Norte Terrestre.

Nos Equinócios não há inclinação do eixo da Terra relativamente ao Sol e daí os dias serem de duração exactamente igual à da noite, significando equinócio, em latim, noite igual em ambos os hemisférios.

No Equinócio do Outono – 23 de Setembro – o Sol está exactamente sobre o Equador – ou os seus raios incidem perpendicularmente sobre o Equador – e em ambos os hemisférios o Dia é igual à Noite durante 3 dias, altura planetária que os Antigos designavam de relógio cósmico.






Fig. 3 – O esquema é de Milton Pereira Barros, do Observatório Astronômico Municipal de Diadema: http://www.projetorelogiosolar.diadema.com.br/primaveraestacao.htm

Da plenitude do sol de Verão e visibilidade de toda a terra e do aparecimento do máximo de frutos e de fragrâncias, agora é a altura das últimas colheitas porque o Verão já tudo deu em fruto e calor, embora a abundância do planeta nos ofereça, ao longo das 4 estações do ano, diferentes frutos e flores, diferentes cores e alimentos para animais e homem, diferentes quantidades e poupanças, diferentes cheiros e propostas de ser e de estar.

Outono é também o tempo da rentrée - tempo de outros inícios seja do trabalho porque as férias acabaram, seja escolares, seja ainda de outras manifestações culturais e também religiosas (e tempo de Ramadão) e de peregrinações de religiões monoteístas ligadas à estação do ano que marca sempre os ritmos do homem e as suas actividades dentro e fora de casa e começam a cair as primeiras chuvas, que a terra exausta e seca agradece para se amaciar e receber novas sementeiras e dar, ainda, esses perfumes novos da terra ávida de água da vida.

Uma névoa de Outono o ar raro vela – de Fernando Pessoa (5-11-1932)
Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.

O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.

Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,

Terei outra verdade, universal,
E será como esta
Poema de Fernando Pessoa in http://www.mdaedalus.com/pessoa/fernando-pessoa-037p.html

Outono, preparação para o Inverno

Inverno – de Ricardo Reis

No ciclo eterno das mudáveis coisas
Novo Inverno após novo Outono volve
À diferente terra

Com a mesma maneira.
Porém a mim nem me acha diferente
Nem diferente deixa-me, fechado
Na clausura maligna
Da índole indecisa.
Presa da pálida fatalidade
De não mudar-me, me fiel renovo
Aos propósitos mudos
Morituros e infindos.
Poema de Ricardo Reis in http://www.geocities.com/larbaudjr/pessoa1.htm#ciclo





Fig. 4 -

Assim, manifestações culturais e algumas desportivas vão passar a pouco e pouco para recintos fechados e cobertos para protecção da chuva e do frio, do vento e da neve que também pode aparecer mais cedo obrigando o homem a recolher-se, mas que terá o espectáculo desse manto branco de neve protegendo a terra como que obrigando olhá-la e respeitar esse estar tranquilo e silencioso, a cobrir as culturas e as plantas fazendo delas esculturas com outra roupagem.

Aparte algumas excepções, acabaram-se as manifestações culturais nos espaços abertos do campo e da cidade, nas praças e nos parques, e mesmo na rua, hábito recente da década de 90 do séc. XX, de levar a cultura e a festa para a rua para todos, festa colectiva gratuita, a relembrar festas antigas dos saltimbancos que tanto se exibiam nas cortes dos monarcas como nos campos de feira ou outros espaços abertos dos aglomerados urbanos, manifestações colectivas como um direito de todos à arte e ao belo, direito e dever de cidadania.

Portugal porém, apesar de ter Inverno rigoroso de chuva e de neve durante alguns meses em alguns lugares montanhosos, não deixa de ter todo o ano céu cheio de sol e esplanadas abertas por todo o lado, porque é bom beneficiar do sol de Inverno e do céu límpido lavado pela chuva, como se também o frio fosse saudável, porque os dias cinzentos de céu fechado com o seu capacete húmido não são muitos nem durante muito tempo, logo se abrindo uma nesga de azul, e talvez por isso é cada vez mais frequente encontrar na rua, um pouco por todo o lado, pessoas que não falam a nossa língua e se vestem como nós nos vestimos apenas no verão, porque para os turistas que predominantemente habitam os países do norte da Europa, este clima de Outono e de Inverno, e de sol, será para eles uma bênção, até porque nem no Verão têm o nosso calor mediterrânico nem as nossas 3 mil horas de sol/ano.
No entanto, e parecendo paradoxal, os africanos que aqui habitam e que são de origem de países ainda mais quentes, sofrem mais do que os habitantes naturais com as baixas temperaturas, mesmo que amenas, como se tivessem sempre registado na sua memória celular as características do clima do país de origem do seu nascimento, como sofrem mesmo no nosso frio Inverno, os mais recentes emigrantes de Leste nascidos e habituados a latitudes de frio muito mais intenso, que nos trazem o seu trabalho diligente e acréscimo de formas culturais, como fizeram os portugueses mundo fora ao partirem na década de 60, trocas constantes de riqueza entre os "homens-migradores" parecendo tornar o mundo mais diferentemente rico com as diferentes formas de ser e estar.

Outono é tempo de grande actividade, criatividade e engenho de sobrevivência, que se evidencia agora essencialmente no reino animal na terra e no mar porque a temperatura começa a baixar e os alimentos escasseiam, sendo que muitos dos bichos têm de começar a armazenar alimentos e energia para passar o Inverno durante o qual muitos podem morrer de esgotamento durante a hibernação, enquanto as aves se preparam para voltar para locais de maior calor e alimento e, igualmente, os bichos do mar e os mais corpulentos da terra, se preparam para fazer as suas grandes migrações ou para hibernar em lonjuras de muitos quilómetros para salvar a sua espécie, cumprindo o eterno movimento da vida ao longo das estações do ano.

Porque acabou o tempo de férias, também para o homem um novo ciclo recomeça porque é tempo de congressos e feiras nacionais e internacionais culturais ou comerciais, de nova época desportiva nacional e internacional, de viagens de negócios e outras manifestações culturais internacionais estando já Portugal presente na II Bienal de Arquitectura de Veneza, como acabaram as férias para os jovens estudantes que iniciam ou retomam as suas actividades escolares, tendo também acabado as férias Judiciais e as férias dos Parlamentos dos países com esses Órgãos Administrativos. Acabaram as férias do homem e começam as da terra e dos seus habitantes selvagens.





Fig. 5

É tempo que dá também ao homem outro tipo de possibilidade de manifestação de criatividade ao sair à rua e pintar a magnificência das formas que se vestem de outras cores e luz, ou de fotografar as esculturas vivas representadas pelas árvores que vão ficar sem folhas ou dos volumes naturais da terra que agora começa a despojar-se de muita vegetação e que exibem todas as cores do negro aos castanhos e vermelhos sanguíneos, adoçadas pelas novas cores pastel e de luz de oiro das paisagens que se vão despindo e transfigurando com outra luz marcando diferenças figurativas e cromáticas nos espaços rurais e urbanos mas, por outro lado, permitindo ver melhor a imponência das árvores mais frondosas e seculares, que nunca perdem as suas folhas e porte e que ficam sozinhas e desacompanhadas das espécies caducas para serem elas agora a apanhar muito mais luz e exibirem-se na sua totalidade.

O homem pode ainda aproveitar directamente esses materiais das plantas e flores mortas - e mesmo frutos e sementes – que se vão entregando à terra ao desprenderem-se da planta mãe (e que irão decompor-se e fazer o novo húmus para a nova vida primaveril), fazendo quadros ou outras composições florais, bem como adornos femininos ou para a Casa – outra forma diferente e altamente criativa de aproveitar os bens da natureza para recreio ou mesmo para actividade económica, passando também pela ervanária porque é tempo de ir colhendo as plantas aromáticas e farmacológicas que vão secando depois de abandonar as sementes na terra ou, exactamente, para apanhar aquelas que se irão tratar e armazenar, guardando-as para comerciar ou para de novo deitar à terra na próxima época de sementeira que virá na primavera a seguir, num contínuo vaivém de reprodução contínua e continuada da vida e da morte regenerada como se cada estação do ano acabasse a anterior e preparasse a que se seguirá. Afinal não há descanso nem para a terra nem para o homem que também ele, nem no seu "sono" descansa.





Fig. 6

Tempo também de colher as plantas aromáticas para a culinária e para a perfumaria – esse bem de consumo que já não é de luxo porque a ele já não se resiste e não há razão para resistir, porque sempre o homem colheu para seu benefício e embelezamento do viver, o que a terra dá, mas sem a molestar e impedir a regeneração contínua, o que não é o que se passa no pós-era tecnológica, qual era de ganância que há tão pouco tempo se iniciou e põe em risco a vida global e de que o filme "verdade inconveniente" da autoria de Al Gore dá a verdadeira dimensão, por mais avisos que se tenham iniciado nos anos 60, que marcaram grandes "revoluções" socioculturais que incluíram o debruçar mais consciente sobre o ambiente, revoluções renovadas na ECO-92 de que saíram tantas Resoluções, incluindo a Primeira Carta da Terra, tudo ignorado por todos, muito embora venha já de muito longe de tempos imemoriais das monarquias mais primitivas, que delimitavam áreas florestais e coutadas, sendo que o Bois de Boulogne, Bois de Vincennes e Saint-Germain-en-Laie são exemplos do nosso quotidiano mais recente e que fazem ainda parte da ceinture-verte de Paris e são local de peregrinação turística, e sublinhando, também, que o Budismo é uma religião holística que inclui nos seus misteres o respeito à natureza total.

Acabou o riso do Sol com a sua gargalhada forte de verão e com o Outono desce a melancolia e paz dos dias que no entanto exibem o sorriso da luz de oiro tranquila trazida pelo pôr-do-sol anunciando outros amanhãs.





Fig. 7


Outono é o tempo da grandiosidade do pôr-do-sol.

Banho de luz, de beleza e de consolação do Céu descendo sobre a Terra nesta época em que se colhe a verdadeira medida de tudo o que a Terra deu ao longo de um ano como se fosse tempo de "balanço."

O pôr-do-sol será belo não importa em que lugar do globo terrestre mas não tem o mesmo tempo de duração já que nalguns lugares, mais próximos do Equador e Trópicos, o Sol pode ser um disco gigantesco mas apenas por alguns minutos, caindo de repente atrás das montanhas ou mergulhando no mar. Porém, em latitudes como as de Portugal o pôr-do-sol prolonga-se por vezes por horas inundando de luz de todas as cores o céu inteiro e as coisas que na terra há, até ao seu tempo mínimo de presença no solstício de Inverno que contrasta com este tempo de máximo de Luz, que desaparece no Inverno, em que a noite tem a duração máxima até ao equinócio da Primavera, num ciclo eterno de força do dia e força da noite.

E podemos recordar-nos de quando se estudava na disciplina de geografia mundial o Corne d'Or, porque até o Mar da Mármara espelha o oiro do Sol juntamente com todos os vidros das janelas viradas a poente fazendo dessa Istambul-Constantinopla (à mesma latitude de Lisboa) um hino ao Sol e à sua luz, devido também à mestria da implantação da cidade que bem soube "planear e desenhar" com a luz há milhares de anos.

E se no Verão o máximo de luminosidade e visibilidade da terra e das estrelas do céu acompanha o máximo de calor, por vezes de canícula, no Outono os monumentos de calcário branco virados a poente espelham-se em oiro se os arquitectos souberem, também, desenhar com a luz, já que, por exemplo, o Mosteiro dos Jerónimos (juntamente com a Torre de Belém) que ao entardecer era um painel doirado de pedra rendilhada, com a construção do CCB demasiado perto (e bastaria tê-lo afastado para oeste alguns metros), já fica metade na sua sombra, o que se lamenta profundamente porque o que o homem faz na terra tem de continuar a "espelhar" o que o céu dá, e a pedra do CCB, espécie de "bunker a que não faltam guaritas" e é manifestação de ostentação de modernidade iletrada sem mais preocupação do que o geometrismo da sua implantação relativamente ao lugar, sem se negar contudo a sua importância e função, não tem, devido à sua textura, qualquer capacidade de ficar igualmente doirado.

Porque, afinal, a luz natural é um dos maiores bens de um espaço e agente de saúde e alegria dos habitantes, e um dos mais importantes factores de planeamento e ordenamento urbano e de absorção da beleza da natureza e da decisão humana, valendo até a pena pensar como é alto o grau de suicídio dos habitantes dos países nórdicos, dos mais desenvolvidos do mundo, talvez também porque o Sol não os visita como nos países do sul mediterrânico, e que os procuram para férias, férias também "de saúde."

Maria Celeste d'Oliveira RamosLisboa - Bairro do Alto de Santo Amaro
Texto terminado a 21 de Setembro de 2006

Preparado para edição a 28 de Setembro de 2006
As imagens de folhas e de cidade são de António Baptista Coelho

Editado por José Baptista Coelho
Fontes:Poema de Fernando Pessoa in http://www.mdaedalus.com/pessoa/fernando-pessoa-037p.html
Poema de Ricardo Reis in http://www.geocities.com/larbaudjr/pessoa1.htm#ciclo
Fig 2 i - Sociedad Astronómica del Estado de Hidalgo, A.C. e corresponde ao hemisfério norte, http://www.meridiano98.org.mx/articulos/solsticio-invierno.html;
Fig 2 ii e Fig 3 in http://www.projetorelogiosolar.diadema.com.br/primaveraestacao.htm
Milton Pereira Barros é Coordenador do Observatório Astronômico Municipal de Diadema, Especialista em Quadrantes Solares, Bacharel e licenciado em Geografia Física.
Sociedade de Astronomia e astrofísica de Diadema - Observatório Astronômico de Diadema: Av. Antônio Silvio Cunha Bueno, 1322 – Jd. Inamar – Diadema – SP, http://www.observatorio.diadema.com.br/

Na próxima semana será editado, também de Celeste Ramos e com imagens urbanas:“A Cidade e o Equinócio de Outono II – desenhar com a natureza”

sexta-feira, setembro 08, 2006

102 - LISBOA – cidade que quer ser UNESCO, artigo de Celeste Ramos - Infohabitar 102

 - Infohabitar 102


LISBOA – cidade que quer ser UNESCOBreve apontamento sobre estacionamento automóvel subterrâneo



Muito frequentemente o noticiário da televisão ou da imprensa escrita levanta "lebres" sobre problemas das cidades, um pouco de todas elas, mas sendo Lisboa e Porto sempre as vedetas já que são cidades-capital, o Porto capital do país atlântico e berço da solidificação da nacionalidade e reforço do país que somos ainda, e Lisboa capital do país mediterrânico e cais de embarque e desembarque do mundo e, ainda, capital do poder.




Fig. 1: Rossio, Maio 2005 – Monumentos, Cow Parade, trânsito e estacionamento para turistas.

Hoje também, 18 de Agosto, e ao fim de 3 meses de presença no espaço público, deixaram a cidade as 101 vacas da Cow Parade que lhe davam alguma novidade de arte na rua, alegria e diferença, tendo constado que de todas as cidades do mundo por onde se realizou a exposição, Lisboa foi o local onde teriam sido mais bem tratadas pelos habitantes, como que a mostrar que nem há nem vandalismo nem indiferença por este tipo de acontecimento que dinamizou a cidade e despertou o olhar dos que viverão um quotidiano mais monótono e rotineiro, já que Lisboa é uma cidade extremamente vandalizada não apenas com grafittis, impossíveis de extirpar, nos mais importantes e frágeis monumentos de calcário macio, para além de outros monumentos que estão durante anos tapados com extensos lençóis de publicidade que cobrem toda a fachada atestando, mas não garantindo, que estão a ser restaurados, provocando o maior distúrbio e poluição visual, como se já não bastasse o excesso de gigantescos painéis de publicidade ao mais insignificante produto, incluindo a publicidade em movimento de todos os transportes públicos sem excepção – mas não se vê publicidade a produtos culturais, nem cultura na rua, sendo que, entretanto, há legislação para a "poluição visual."
E se por caso algo de cultural "acontece" no verão, logo surgem imensos e desinteressantes palcos e barraquinhas nas praças (ou relvados da Torre de Belém) que deveriam estar sempre limpas e desimpedidas e que depois do espectáculo acabar ficam tempos sem fim antes que a autarquia decida retirá-las.
Assim poderia parecer que o cidadão comum é indiferente e selvagem mas lembremos a recente exposição de fotografia sobre Lisboa na Praça de Comércio, muito visitada, bem como a anterior exposição das gigantescas esculturas de Botero, acontecimentos que, de tão raros, caíram no esquecimento e é fundamental a sua renovação contínua já que Lisboa é uma cidade única possuindo cinco praças contíguas que poderiam ser o coração da animação cultural de rua.




Fig. 2: Botero na Praça do Comércio, 1998 – Foto: Dias dos Reis.


Interessante constatar que decorre em Edimburgo o Festival anual de Teatro de rua, iniciado em 1947 e que não apenas alegra a cidade durante três meses por ano, como atrai milhões de turistas sendo, duplamente, acontecimento cultural e de grande benefício para reanimação económica do local e do país em geral.
Hoje também, no programa de televisão "Alice no país dos Viajantes" a entrevista com alguém (António J. Gonçalves) que um dia começou, sem programar, a olhar o rosto do cidadão anónimo e aparentemente indiferente que viaja no metropolitano e começou a desenhá-lo, cidadão aparentemente distraído de olhar ausente e igual a quem está ao lado, tendo esta iniciativa conduzido não apenas a perceber a real diferença e peculiaridade de cada pessoa desenhada, de tal forma que se entusiasmou e repetiu, ao longo de três anos, a mesma procura do "rosto anónimo" nos metropolitanos em 10 cidades capitais do mundo nos cinco continentes.
Interessante porque a partir desta atitude sem finalidade que não apenas o seu prazer de desenhar, conduziria mais tarde a ter outro olhar sobre o cidadão-urbano e que o levaria até a decidir a profissão de designer, que tem hoje, pois que a partir desse simples impulso inconsciente o fez descobrir características pessoais até aí não reveladas.


Fig. 3: Rossio, Maio 2005 – Cow Parade.


Lisboa, onde parece que só acontece sempre a mesma coisa, dependendo de quem a olha, ou que o que existe estará organizado e institucionalizado até nos aspectos negativos, permite ainda acontecimentos especiais e novos despertares para quem se interessa pela "paisagem-humana", sendo que o autor citado, à medida que avançava na sua aventura por várias cidades do mundo captando o ritus de cada rosto, acabou por encontrar afinidades nos homens e mulheres das mais variadas condições culturais, tendo afirmado que aprendeu também, só pelo olhar, que não podia ultrapassar o limite do "privado" em pleno espaço público, silêncio interior de observado e observador, viagem que o levou além da rotina e permitiu ver uma faceta da "vida" do cidadão da cidade –, que interessante me parece este "despertar" pessoal.

As mesmas cidades do mundo são tanto úteros de germinação de saberes e cultura, de qualidade de vida e de alegria e bem-estar, como de actos de violação do mais importante da vida para além da democracia e que é a PAZ entre os países, como se a união das nações que protege os direitos humanos e a paz mundial já tivesse envelhecido a ponto de ser inútil qualquer Resolução para bem comum, lei mundial sem qualquer importância e conteúdo reduzida a artifício que está caindo por terra.
A cidade que não é ainda local de conforto para os habitantes residenciais e passantes, é no entanto um livro-de-história-viva e óbvia de cada país, actualizada com cada acontecimento, por sua vez livro-aberto e jornal-diário da evolução e aceitação-rejeição, conforto ou stress e comportamentos de que nas pedras e pelas pedras fala, e responde, à vida do quotidiano e nos vai informando como os mandantes vão ignorando o valor dos patrimónios construídos e imateriais que fazem a vida do homem da cidade e dela esperam condições para serem felizes e com ela evoluírem em vez de se degradarem.



Fig. 4: jornal diário de Lisboa I – Os eventos e as obras como cidade-efémera: partida do raly Lisboa-Dakar nos Jerónimos, castanhas e pastéis em Belém, festa do fim do ano na Pç. do Comércio e estaleiro da ampliação do Metro na Alameda.

O habitat do homem não se limita ao espaço físico da sua casa e rua, sendo que a sua evolução cultural e de cidadania radicando no espaço-tempo-vivência é, igualmente, legível em cada momento.
Relação íntima, contudo tornada tão inconsciente porque repetitiva e tal que a cidade espaço-físico envelhece e perde qualidade estética e cultural e com ela o cidadão apressado ou mais indiferente ou de viver penoso e triste, toma a degradação por osmose do lugar e habitua-se, por vezes esquecendo os seus valores mais humanizantes que podem até chegar à violência com o descontentamento acumulado que tem limites de "restauro."
A cidade-física desumanizada arrasta a desumanização comportamental do habitante individual e colectivamente porque, isoladamente, se confronta com a impotência de refazer-se a si mesmo e muito menos a própria cidade.
Como ser cultural o homem aprende no seu habitat mas também desaprende, colabora na dignificação e vitalização da cidade, ou na sua agonia.




Fig. 5: jornal diário de Lisboa II – A arquitectura como cenário do trânsito.

Vem este breve apontamento a propósito sobretudo da discreta notícia no CM de 16 de Maio de 2006 em que a comissária da dinamização da candidatura da Baixa Pombalina a Património da Humanidade, ameaçou demitir-se se fosse construído estacionamento automóvel subterrâneo no Largo Barão de Quintela, atitude que apelida de "torpe e inútil crime" e demonstra que "os autarcas que elegemos continuam a não saber governar a cidade histórica" (opinião igualmente exposta ao diário “O Público”).
Mas logo outra vereadora, mentora do comissariado, apresentou "alternativa" à construção desse parque de estacionamento.
Mas nunca foi discutido, ou tornada pública, a discussão do parque de estacionamento subterrâneo do Largo do Martim Moniz que, a seu tempo de construção, originou algum deslizamento da encosta da Mouraria (concurso de ideias 1981), para além de difícil solução de drenagem de águas pluviais, como não foi discutida a construção do parque automóvel subterrâneo debaixo da estátua de Luís de Camões (mas é certo que à rua Garrett lhe foi retirado carácter e dignidade com a sucessão de diferentes pavimentos e cotas), nem de outros dois de 5 pisos subterrâneos na Calçada do Combro, parques situados em zonas da cidade tão históricas como a Baixa pombalina, como o Bairro Alto, Bica, ou Alfama e Mouraria, como o Chiado e Largo de Camões, zonas que em fim de semana engarrafam durante longas horas a partir das 24h, para entrada dos jovens nos parques porque é a hora de início do seu fim-de-semana, o que impede, a horas ainda normais de qualquer cidadão andar na rua (por ser hora de saída de qualquer espectáculo), impedindo igualmente a circulação dos ainda existentes transportes públicos, de que se destaca o sobrevivente eléctrico que lá vai tocando para desimpedir caminho, sem conseguir.

Que alternativa?
Que espaço físico de Lisboa é alternativa à Lisboa histórica e aos dois eixos fundamentais do seu desenvolvimento (Av.ª da Liberdade-Fontes Pereira de Melo - Av.ª da República), que são auto-estradas urbanas que para além de se terem já tornado altamente perigosas para o peão foram inutilizadas para a habitação com túneis e uma quase total exclusividade de serviços?
Que espaço físico de Lisboa é alternativa se a Lisboa histórica é continuamente dizimada com túneis, desvios e "atalhos" de que o do Marquês é o mais recente e ainda mais gravoso do que os anteriores, desfazendo para sempre a imagem do orgulhoso Marquês que fez construir essa Baixa Pombalina, rotunda hoje reduzida à maior e mais intolerável pequenez urbana, ainda por cima situada num eixo que é espinha-dorsal da cidade desde que foi iniciado com o Passeio Público onde se passeava Eça de Queiroz para "olhar e ser visto"?

Quebrou-se a "espinha dorsal" irreversivelmente e, a seguir, vai-se partindo e desfazendo o "esqueleto" ou casco histórico da cidade em nome do desenvolvimento que tem tido como "matriz" geradora o acesso por automóvel e os locais para o seu estacionamento.
Desmantela-se a Cidade por causa do automóvel e do estacionamento com túneis, passagens desniveladas e nós viários, desde o interior urbano até às margens do rio, constituindo cortinas de floresta-betão que impedem a visibilidade da cidade longe e perto em geral, bem como dos mais carismáticos e identitários monumentos da cidade e, a seguir, desmantelam-se os bairros ainda carismáticos de Alcântara e beira rio para surgirem Torres que vão adulterando os belos sky-line da cidade de colinas que está entaipada de densos take-away conjuntos habitacionais em espécie de fast-arquitectura internacional sem desenho e sem alma.
Desmantelam-se os espaços públicos da cidade-mãe cujos habitantes se vêem compelidos a deslocalizar-se para os bairros periféricos, também históricos e de qualidade de vida e do ambiente, que igualmente se vão desumanizando com a densificação habitacional anónima, ou para fora da grande Lisboa, em processo imparável.


Fig. 6: acesso ao Parque subterrâneo das Portas do Sol em Alfama.


Os parques subterrâneos no miolo urbano central vão proliferando e competindo com as infra-estruturas gerais urbanas naturalmente enterradas e a que a modernidade acrescenta outras mais actuais, para além do Metropolitano, como se houvesse já outros "andares" subterrâneos da cidade.
Haverá alternativa para continuar a fazer solo-urbano em mais andares subterrâneos?
Haverá possibilidade de ter alternativa preenchendo a mesma área urbana densificando-a em superfície, preenchendo todos os espaços de respiração da cidade, e densificando também em altura acima e abaixo do solo? Alternativa à que contempla o automóvel e nunca o habitante, atitude que transvaza a cidade capital e se repercute até Bragança em cujo coração histórico o automóvel já conquistou o "subterrâneo"? O que contribui para a impermeabilização da totalidade do solo urbanizado sem espaço para entrar a chuva quando cai e se infiltrar e, por isso, originar enxurradas à primeira chuvada.

A impermeabilização dos aglomerados urbanos, pequenos e maiores, traz problemas de grande gravidade relativamente à água no solo e recarga das toalhas freáticas e, com mais andares subterrâneos, esse problema torna-se cada vez mais e mais grave, conduzindo a maior secura da terra, pois que a água que nela cai é rejeitada, mesmo nos jardins igualmente de pavimentos impermeáveis, ou nos magníficos separadores de trânsito centrais da maioria das ruas de Lisboa que, ou desapareceram para alargamento das faixas de rodagem, ou ficaram, mas porque no Inverno os automóveis aí estacionavam e se enchiam de lama, foram cobertos de betuminoso porque a "Árvore não é importante e a água da chuva também não" e sumir-se-á nalgum sumidouro qualquer e já está provado que sujos ou limpos não há sumidouros que cheguem porque para não haver enxurradas é necessários que os locais de drenagem absorvam a totalidade da chuva em 50% do tempo da queda pluviométrica.

A alternativa das cidades europeias (que ultrapassa a UE) e do mundo mais evoluído é cada vez mais o transporte colectivo e não o privado e que o seu uso nos centros urbanos seja regulado.
Cidade espaço-colectivo, espaço dos homens, de conforto e cultura, de andar na rua a pé ao sol e à chuva, a passear e a correr, a visitar monumentos e miradouros, já não existe (tornou-se refém do transporte privado), excepto nos bairros cada vez mais periféricos onde nascem novos bairros por vezes até "problemáticos" ou, então, condomínios altamente defendidos por sofisticada tecnologia, como se se vivesse em "prisões" fomentando um separatismo humano cada vez mais desaconselhável cultural e sociologicamente.


Fig. 7: jornal diário de Lisboa III – As ruas da Baixa pombalina como parques de estacionamento

Os centros mais nobres da cidade de Lisboa, que quer ser UNESCO apenas num bocadinho tão pequeno como a Baixa Pombalina que já nem sequer tem "vida" mas apenas a dos que aí trabalham ou nela desembocam para atingir locais de trabalho muito afastados, estão martirizados com o automóvel e os estacionamentos que se concentram cada vez mais nesses centros, em espécie de "condomínios-auto", a dialogar com os condomínios dos que da cidade histórica fogem para se concentrarem "emparedados", como se estes espaços fossem cada vez mais individuais e individualizados sem lugar para o COLECTIVO – unidades-colectivas individualizadas, ghetizadas – cidade fechada sobre si mesma e virando costas aos que vivem ainda "na rua que é livre" e que não virou ainda "auto-estrada urbana."


Fig. 8: jornal diário de Lisboa IV – O Tejo como monumento.


Lisboa auto-suicida-se como cidade, mas quer ser UNESCO ali apenas no que lhe resta, na Baixa Pombalina já tão decadente e desinteressante, cuja vida cultural, social e comercial já lá não está porque se "deslocalizou" também, porque os habitantes dali foram sendo expulsos para além do insolúvel problema do túnel do metropolitano que fez desaparecer o Cais das Colunas e que não tem solução à vista e é paisagem dolorosa de se olhar com os lixos acumulados e águas paradas, num espectáculo que define a maior degradação da forma de governar a cidade histórica capital que no séc. XVI era "modelo" de pujança e beleza e modernidade que a "europa" visitava para admirar o esplendor cultural e económico e até de moda.



Fig. 9: jornal diário de Lisboa V – As praças como auto-estradas:
Pç. Marquês de Pombal, Pç. da Figueira, Pç. do Oriente e Pç. dos Restauradores.

Que dignificação para o Espaço Unesco ? Grito de desespero? Esperança de conservação de uma página de história mas já sem "Cais das Colunas"? Tentativa de re-vitalização?
Será que Lisboa histórica e cultural a merecer ser UNESCO "se resume" à Baixa Pombalina? E a dois monumentos, o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém, esta também já tão entaipada com nós viários que não se vê de lado nenhum e tal que para ser "descoberta" mesmo por quem habita a cidade, é necessário descobrir o mais complicado dos circuitos para lá chegar e nenhum deles pode ser feito a pé – cidade entaipada.
A vereadora que não queria o referido estacionamento automóvel subterrâneo tinha razão ao afirmar que "os autarcas que elegemos continuam a não saber governar a cidade histórica."


Maria Celeste d'Oliveira Ramos – Sábado, 18 Agosto 2006 – Bairro de Santo Amaro – também assediado como nunca pelo camartelo que derruba edifícios do séc. XIX ou outros de igual interesse que "datam" o bairro e a evolução e "idades" da cidade e que, assim, não passa de "um bairro-qualquer -incaracterístico" de tão maltratado pelos decisores e onde já não respira nem esta parte da cidade nem os residentes que assistem, impotentes, nesta última década, ao desaparecimento da qualidade da arquitectura e do ambiente e das perspectivas sobre o rio que estão definitivamente comprometidas, como se o rio já não fizesse parte integrante de toda a cidade.

Fotografias da arqtª Maria João Eloy e de Dias dos Reis.

18 Agosto 2006
Maria Celeste d'Oliveira Ramos