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segunda-feira, outubro 02, 2017

612 - Organizar os espaços habitacionais - Infohabitar 612

Infohabitar, Ano XIII, n.º 612

“Organizar os espaços habitacionais” – sete artigos sobre o tema mais um novo texto

por António Baptista Coelho

Tal como foi anteriormente divulgado, a Infohabitar retomou as suas edições regulares, através da edição de um novo artigo em cada semana, preferencialmente, logo à segunda-feira, aproveitando-se para, mais uma vez, enviar um amigável desafio aos leitores no sentido de poderem enviar para o editor (mail referido no final do artigo) propostas de artigos para edição.

Considerando que, durante já um número muito significativo de semanas a Infohabitar tem editado artigos integrados no âmbito da série designada “Habitar e Viver Melhor”, lembrámo-nos de proporcionar uma “revisão da matéria dada”, antes de prosseguirmos na edição desta série.

Neste sentido e neste artigo apresentam-se, em seguida, os títulos interativos dos artigos da série “Habitar e Viver Melhor”, que abordam temáticas relativas a uma adequada e diversificada organização dos espaços habitacionais, aproveitando-se para acrescentar, no final do artigo, uma nova nota de reflexão sobres estas apaixonantes e tão atuais matérias; e salienta-se que todos os quatro artigos aqui editados, desde início de Setembro de 2017, integram, logo a seguir à listagem interactiva dos artigos, novos textos de reflexão sobre a envolvente habitacional, as novas tipologias residenciais e a estrututação dos respectivos edifícios.

Em próximos artigos iremos disponibilizar reflexões sobre a estruturação e os conteúdos possíveis ds diversos espaços habitacionais mais comuns, ou mais privados e personalizados.

Lembra-se que bastará ao leitor “clicar” no título do artigo que lhe interessa para o poder consultar.

Lembra-se, ainda, que por motivos alheios à Infohabitar, que muito lamentamos e que já apontámos, na Infohabitar, a maior parte dos artigos desta série editorial não conta, neste momento, com as respetivas ilustrações; estando, no entanto, disponíveis todos os seus textos, que se caraterizam por expressiva autonomia relativamente às referidas imagens.
Finalmente regista-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, sediado no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.

São os seguintes os sete (7) artigos disponibilizados sobre o tema da organização dos espaços habitacionais":


Zonas domésticas:propostas organizativas

Diversas opções para os espaços da habitação

Equilíbrios dimensionais e de privacidade na habitação

Opções de compartimentação na habitação

“Libertar” a habitação das instalações

Oferta diversificada de espaços domésticos específicos I 

Oferta diversificada de espaços domésticos específicos II 

Sobre as temáticas associadas e associáveis à matéria geral de uma adequada e diversificada  “organização dos espaços habitacionais” muito há a dizer e sublinha-se que o que a seguir se aponta, em alguns parágrafos temáticos, corresponde, apenas, a uma informal reflexão sobre estes urgentes e importantes assuntos.

Tal como já se apontou em diversos textos desta série, pensar-se que uma habitação pode ser estruturada segundo diversos “partidos” organizativos é uma opção deveras salutar, pois:

- não só é tempo de olharmos as propostas organizativas domésticas funcionalistas tal como elas podem e devem ser olhadas/vividas, numa perspectiva expressivamente “funcional”, ainda que fazendo-a, sempre, passar por um crivo não “maquinal” e de estruturação rígida das tarefas domésticas, a não ser que estejamos em presença de um programa exactamente deste tipo, por exemplo, marcado por actividades realizadas por empregados e/ou serviços domésticos realizados fora da esfera do respectivo agregado familiar;

- como parece ser tempo de se abrirem as novas e renovadas organizações domésticas a uma expressiva diversidade de necessidades, modos e gostos de habitar a “casa” de cada um e de cada agregado familiar; seja numa opção por organizações domésticas básicas com um elevado potencial de adaptabilidade passiva – através de espaços e relações espaciais que propiciem e apoiem, especificamente, variadas formas de apropriação e diversos usos -, seja numa opção por organizações domésticas com elevado potencial de adaptabilidade activa, que propiciem expressivas readaptações e conversões de espaços, equipamentos e instalações a diversos “mundos” domésticos pessoais e grupais (do respectivo agregado familiar) – como pode acontecer com variadas fusões e separações de espaços, recriações de alguns espaços (previamente preparadas) e variadas forma de reequipamento e reinstalação de elementos associados à vida doméstica;

- e parece ser, já, tempo de se pensar a “casa potencialmente para a vida”, proporcionando-se à habitação e, designadamente, aos seus espaços de circulação e de apoio funcional diversificado a capacidade para “envelhecerem”, positivamente, acompanhando a mutação das necessidades funcionais e ambientais dos seus habitantes, enquanto estes envelhecem – também esta uma matéria com expressiva relação com aspectos de mutação e adaptação de funcionalidades e “agradabilidades” – e uma matéria que é tão urgente como apaixonante.





Realmente parece ser altura de se anular, de uma vez, a “tirania” funcionalista das gradações de privacidade, que transformam muitas habitações em verdadeiros espaços “sem saída” e rigidamente “zonados”, sem capacidade de mudança funcional expressiva; e isto não quer dizer, evidentemente, que tais ofertas domésticas não continuem a ser disponibilizadas, mas não de forma quase única e desejavelmente contendo sempre algumas opções de adaptabilidade.

Tendo-se em conta o que acabou de ser apontado, uma forma relativamente fácil de avançar com habitações mais adaptáveis/úteis ou mais versáteis na sua apropriação pelos variados “tipos” de habitantes, é estruturar a habitação de modo a que espacial e relacionalmente os diversos espaços do fogo tenham diversas opções e capacidades de usos e de apropriações pormenorizadas; uma matéria que muito se joga com a disponibilização de alternativas de acesso e com a consideração da organização habitacional de uma forma, talvez, pouco compartimentada através de espaços de circulação que sejam, apenas e exclusivamente, espaços de circulação; ainda uma outra forma de avançar nesta perspectiva é proporcionar uma excelente capacidade de arrumação (em quantidade e em distribuição) e, eventualmente, alternativas de instalação para algumas máquinas domésticas, arrumando-as de forma a que o seu ruído e outros dos seus aspectos funcionais não inviabilizem certos usos domésticos (ex., tomar refeições na cozinha sem a incómoda vizinhança de algumas máquinas).

Outras matérias bem importantes para uma adequada e diversificada organização habitacional é o desenvolvimento de um equilíbrio dimensional nas zonas mais sociais e mais privadas, proporcionando, nas primeiras, o desenvolvimento, eventual, de reuniões familiares alargadas, inclusive, considerando mudanças provisórias de mobiliário e disponibilizando, nas zonas potencialmente mais privadas a (re)criação de subespaços muito apropriáveis e identificadores dos respectivos habitantes, subespaços estes que também devem pontuar zonas sociais e que, tendencialmente, surgem em privilegiada relação com vãos exteriores.

Um outro aspecto que nunca é excessivo sublinhar nestas matérias de equilíbrios dimensionais diz respeito a que mais do áreas mínimas ou “médias”/razoáveis há que ter em conta e aplicar as dimensões mais versáteis e multifuncionais, e por vezes 10 cm farão uma grande diferença funcional/formal/ambiental, não sendo, eventualmente, significativos em termos de custos de construção.

A questão da compartimentação da habitação é uma matéria importante na sua caracterização e no seu uso, podendo variar, teoricamente e na prática, entre opções quase de “planta livre”, com um mínimo de paredes, e outras extremamente repartidas, inclusivamente, no que se refere a zonas de cisrculação e distribuição domésticas. Já se referiu, atrás, que um dos mais interessantes potenciais de adaptabilidade doméstica se joga em “simples” opções de fusão/união entre compartimentos contíguos e de separação/compartimentação de grandes compartimentos, mas importa apontar que para além destas opções outras há que proporcionam uma gestão fácil de separação ou ligação entre espaços, como é o caso das grandes portas de correr e há tratamentos “ambientais”, ao nível da arquitectura de interiores, que caracterizam determinados espaços como “prolongamentos” de outros e há uma essencial ligação entre todos estes aspectos e uma fenestração exterior que os acolha positivamente; havendo ainda aspectos associados a instalações que podem facilitar ou dificultar as referidas opções de fusão/separação de espaços.

E aqui há uma nota que tem de ser feita relativamente à necessária compatibilização regulamentar de algumas destas opções, designadamente, quando elas se relacionem com aspectos de segurança no suso normal e contra risco de incêndio.

Chegamos, agora, a uma matéria que podemos designar como de adequada previsão dos principais núcleos de instalações domésticas, nos seus aspectos de serviço directo e nos seus traçados, de modo a que para além de não dificultarem as referidas opções e dinâmicas de adaptabilidade, as possam mesmo apoiar. Matérias com alguma complexidade e crítica relação com custos de construção e adaptação e com aspectos de segurança no suo e contra risco de incêndio, mas que podem ter respostas tão simples como aquelas associadas à criação de núcleos de instalações concentrados, estrategicamente localizados e com traçados adequadamente estruturados e bem conhecidos, numa perspectiva que, no limite, se pode associar a uma espécie de “libertação” da dinâmica adaptável da habitação relativamente às suas instalações. Mas, desde já, aqui se aponta que uma tal dinâmica pode ter importantes reflexos nas questões de privacidade ou de uso privatizado de certas instações (ex., casas de banho privativas), havendo que reflectir sobre estes assuntos e tomar decisões específicas nestas matérias.

Finalmente, mas tendo bem presente que de forma alguma aqui se realizou uma reflexão sistemática sobre as matérias associáveis a uma adequada organização doméstica (esta reflexão é, naturalmente, mais desenvolvida nos artigos de que se faz, acima, referência e link directo), aponta-se a grande importância que tem a disponibilização, em cada solução de fogo, de uma oferta diversificada e cuidadosa de múltiplos espaços e subespaços domésticos específicos e bem identificáveis; esta é, naturalmente, uma matéria de base de uma adequada arquitectura doméstica, pois uma habitação deve poder ser um verdadeiro “mundo doméstico”, funcional, apropriado, único, atraente, envolvente e versátil e para tal não pode ser uma simples “máquina” doméstica mal caracterizada por espaços “áridos”, monótonos e sem carácter próprio e capacidade de aceitação do carácter que lhe pode e deve ser atribuído por cada habitante e agregado familiar. Basta lembrar Alexander e a sua “linguagem de padrões”; uma “habitação” tem ser composta por múltiplos e ricos espaços e subespaços bem adaptáveis e atraentes, desde os “lugares janela”, aos recantos de estar, desde os “sítios de entrada” aos espaços pontuados pela luz, desde as zonas mais interiorizadas e envolventes às ligadas às vistas exteriores; e isto é possível e desejável desde a habitação de autor para um dado agregado familiar à habitação mais económica, naturalmente, com limites nesse quadro de riqueza formal e funcional, sendo que, quanto maiores forem as limitações económicas mais a qualidade arquitectónica tem de marcar a solução.

e a estas matérias voltaremos …

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIII, n.º 612
“Organizar os espaços habitacionais” – sete artigos sobre o tema mais um novo texto
Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

domingo, julho 27, 2014

493 - Diversas opções para os espaços da habitação - Infohabitar 493

Artigo LV da Série habitar e viver melhor
Infohabitar, Ano X, n.º 493

Diversas opções para os espaços da habitação ou

Zonas domésticas: propostas organizativas – II

António Baptista Coelho

Em seguida e na sequência do artigo editado na passada semana desenvolvem-se, um pouco mais, as matérias associadas a um leque de propostas organizativas para as zonas domésticas, sob o ponto de vista de diversos autores especialistas nestas matérias, apontando-se, desde já, a importância deste tipo de reflexões, designadamente, quando aplicadas a soluções habitacionais espacialmente muito condicionadas, como é o caso das soluções de habitação de interesse social.

Espaços tipologicamente distintos em termos de socialização, privacidade e funcionalidade geral.

Harald Deilmann distingue cinco tipos de espaços domésticos e, sequencialmente define cinco zonas domésticas distintas (1):
·      espaços de socialização e comunicação;
·      espaços individuais;
·      espaços sanitários;
·      espaços de preparação de refeições;
·      espaços de circulação.
Fica, de certa forma, a fragmentação funcional totalmente consumada.

Habitações “divididas” pela barreira entre usos essencialmente noturnos ou diurnos.

Vamos agora à “última fronteira” funcional a da barreira entre noite e dia, a famosa definição de “zona de quartos” e zona de entrada e recepção.
E nesta matéria e na perspectiva de Claude Lamure, essa distinção “clássica” entre espaços "de noite" e "de dia" terá perdido boa parte da sua razão de ser, porque a falta de espaço obriga crianças e por vezes adultos a passarem parte do dia nos seus quartos "de dormir"; e Lamure propõe que talvez a distinção possa ter mais a ver com as diversas características de privacidade e de convencionalidade no uso e no arranjo dos espaços, que marcam zonas domésticas mais formais ou mais informais. (2)

Espaços mais formais e mais informais da habitação – ou domínios das crianças, domínios dos adultos e domínios comuns.

Ficamos, então, com formalidade e informalidade, matérias que pouco serão aplicáveis nas áreas limitadas da habitação de interesse social, onde, provavelmente, não haveria espaço para a formalidade, mas, como ela subsiste, então as pessoas acabam, por vezes, por se acumularem em partes da habitação para poderem continuar a ser formais noutros espaços da mesma habitação.
Alexander defende que numa habitação para uma família com filhos devem existir dois domínios próprios, especificamente, dos pais e dos filhos, relacionados entre si através de um terceiro domínio, o domínio comum. (3)
.  O domínio implica isolamento visual e acústico, e, como as crianças correm toda a casa, uma relação directa com uma casa de banho. (4)
.  O domínio das crianças deve considerá-las nos seus momentos de maior energia, evitando-se, que os espaços dos adultos estejam no meio da confusão, protegendo-se os quartos dos adultos e os locais de maior sossego ou com mais fortes exigências de formalidade. (5)
Teremos aqui os domínios das crianças, dos adultos e comum aos dois grupos; uma exigência que parece obrigar a condições especiais de espaciosidade.


Fig. 1

Habitação que se adapta à evolução etária e da composição da família e dos respetivos usos e desejos domésticos

Harald Deilmann (6), que estudou um muito amplo leque de casos práticos, desenvolveu, um pouco mais, esta perspectiva de uma organização doméstica associada a uma evolução da idade da família e chegou às seguintes conclusões: quando existam crianças pequenas, a habitação deve caracterizar-se por um forte relacionamento mútuo entre os seus diversos espaços.

Quando existam crianças e adolescentes, a habitação deve caracterizar-se por um equilíbrio entre o referido relacionamento mútuo entre os diversos espaços e outros espaços onde seja possível alguma privacidade e autonomia vivencial; quando existam adolescentes e jovens adultos, a habitação deve caracterizar-se por um equilíbrio entre os referidos aspectos de relacionamento mútuo entre os diversos espaços e de existência de outros espaços onde seja possível alguma privacidade e autonomia vivencial e, ainda, outros espaços domésticos com afirmada privacidade e autonomia; quando existam jovens adultos, a habitação deve caracterizar-se pela existência de espaços com forte privacidade e autonomia.
As notas relativas às conclusões de Deilmann acabaram, mas é possível juntar que, quando existam adultos talvez seja de favorecer para além dos espaços com forte privacidade e autonomia, outros espaços com um amplo e adaptável leque de aptidões funcionais e de forte caracterização formal; e quando existirem velhos adultos então, talvez seja a altura de “voltar” a uma certa adaptabilidade e indiferenciação.
Deste registo dos estudos de Deilmann fica uma perspectiva de uma sequência evolutiva da habitação acompanhando o envelhecimento da família.

Influência da ocupação habitacional no dimensionamento doméstico

Segundo M. Imbert, em habitações fortemente ocupadas e dimensionalmente limitadas não faz sentido incentivar as crianças a permanecerem nos seus quartos, e o resultado é que a sala-comum será por elas apropriada. (7)

As crianças precisam de mais espaço doméstico do que os adultos para as suas diversas actividades, devido à sua grande necessidade de movimento e à sua capacidade limitada de concentração. Por estas razões as famílias com crianças precisam de mais espaço, em geral e, nomeadamente, em vários espaços da casa (sala, quartos ou quarto e casa de banho, para banho assistido).
Desta reflexão de Imbert fica a noção que as maiores tipologias domésticas devem ter áreas funcionais substancialmente acrescidas e que as áreas sociais da habitação (cozinha e sala-comum) deverão oferecer alternativas para diversas actividades de lazer e convívio.

Importância da socialização na estruturação e na espaciosidade domésticas

Finalmente, regista-se a noção do Arq.º Prieur (8) no que se refere a considerar que a principal actividade da família, toda junta, é a conversa por ocasião das refeições, o que faria destacar a importância da localização e das características de conforto e agradabilidade da zona de refeições. Sem se negar a justeza do raciocínio importa comentar que, hoje em dia, talvez a par desta espaço de refeições, que há que defender como pólo convivial doméstico, não é possível deixar de referir a zona onde se vê televisão, igualmente, como pólo de convívio da habitação.

Destas notas retira-se que é fundamental que a organização e o espaço disponível na habitação proporcione a evidenciada instalação de uma mesa de refeições e de um espaço de estar, ambos com excelentes condições para estímulo do convívio e do lazer em casa; se tais espaços não forem possíveis as pessoas irão “fugir”, rapidamente, para os seus quartos ou para fora de casa.

Abordaram-se vários “temas” de organização doméstica, mas há que ter a noção de que nesta(s) matéria(s) cada bom projectista terá os seus “segredos”, no sentido de ir preferindo certas soluções e experimentando outras, e em todas estas matérias tudo se ganha com o estudo e a visita cuidadosa ao leque mais alargado possível de soluções.

Em próximos artigos desta série editorial iremos aprofundar um pouco dessa rica e importante/fundamentada diversidade que deve marcar uma renovada e adaptável estruturação doméstica.

Notas:

(1) Harald Deilmann; J. Kirschenmann; H. Pfeiffer, "The Dwelling / Dwelling-types, Building-types", p. 39.
(2) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 106.
(3) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", p. 350.
(4) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 577 e 578.
(5) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 581 e 582.
(6) Harald Deilmann; J. Kirschenmann; H. Pfeiffer, "The Dwelling / Dwelling-types, Building-types", pp. 25 e 30.
(7) M. Imbert, "Mission d'Études de la Ville Nouvelle du Vaudreil", p. 13.
(8) P. H. Chombart de Lauwe, et al, "Famille et Habitation I, Sciences Humaines et Conceptions de l'Habitation", pp. 175, 176 e 177.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

INFOHABITAR Ano X, nº 493
Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional, 

Zonas domésticas: propostas organizativas – II

Artigo LV da Série habitar e viver melhor


Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

domingo, fevereiro 09, 2014

471 - Diversidade na organização habitacional - Infohabitar 471

Infohabitar, Ano X, n.º 471

Diversidade na organização habitacional

Artigo XLVI da Série habitar e viver melhor

António Baptista Coelho

Mais do que tudo o que, em seguida, se aponte sobre as matérias associáveis à organização doméstica e à sua influência numa expressiva satisfação dos habitantes, na fruição doméstica há aspectos que importa sublinhar por se considerarem determinantes num tal resultado.


Organização espacial habitacional e qualidade arquitetónica

O primeiro aspecto é que a qualidade da organização espacial e da pormenorização se ligue, intimamente, a uma adequada ideia de habitar e de viver a casa, por outras palavras é fundamental que a função siga a forma, não perdendo, naturalmente, eficácia, porque nós habitantes vivemos as casas, intensa e profundamente e, portanto, a forma interior das casas tem de ser algo fortemente coerente e equilibrado; matéria que importa vir a desenvolver.

Adaptabilidade habitacional passiva

O segundo aspecto é a enorme importância que tem a adaptabilidade passiva numa habitação, uma condição que lhe permite satisfazer um significativo leque de funções nos mesmos espaços e, tão importante como isso, um amplo leque de ocupações específicas por mobiliário em cada espaço, condições estas que estão associadas, quer a uma organização significativamente neutral, embora bem afirmada, quer a condições de espaciosidade e dimensionais cuidadas; e tanto mais cuidadas quanto menor for a quantidade de espaço que esteja disponível – o que obriga a um grande cuidado por exemplo quando tratamos de habitação de interesse social.

Funcionalidade habitacional

O terceiro aspecto tem a ver com a maximização das condições funcionais associadas a instalações e equipamentos, à capacidade de arrumação e a uma grande facilidade de execução das tarefas domésticas mais intensas e mais exigentes, como é o caso da preparação de refeições, do tratamento de roupas e da limpeza doméstica. Realmente é hoje em dia fundamental que todo este leque de condições seja garantido de uma forma maximizada e não há desculpa para que isso não aconteça pois todas essas funções estão já exaustivamente estudadas e existem documentos claros que as elucidam.

Acessibilidade habitacional

O quarto e último aspecto, desta reflexão, decorre em boa parte do terceiro e tem a ver com a disponibilização de condições globais de acessibilidade no interior da casa, tema este sobre o qual há também já muito dos elementos de apoio técnico necessários; e, afinal, a funcionalidade essencial para pessoas com dificuldade na movimentação é sempre uma funcionalidade acrescida para aqueles que não têm tais limitações, uma matéria frequentemente esquecida quando se trada deste assunto.

Importância da organização habitacional

Salinta-se, ainda, que os primeiros dois aspectos, que acabaram de ser apontados, englobam, claramente, os últimos, pois é afinal de uma organização espacial bem estruturada e adaptável que pode resultar uma casa adequada, e sobre isto basta dizer que há muitas casas realmente adequadas que cumprem essas duas primeiras condições e não as últimas. Afinal, e tal como se tem apontado, a função não é tudo, acaba mesmo por ser muito pouco, designadamente, quando estamos em presença de uma boa Arquitetura habitacional, mas se pudermos respeitar este leque de objectivos é, naturalmente, preferível,  e será mesmo essencial quando se trate de uma habitação nova.

Fig. 01: Habitação como espaço distinto e imaginável

Habitação como espaço distinto e imaginável
Lembrando uma frase já citada de Christian Norberg-Schulz, afinal, a casa não é um refúgio funcional, um "não lugar" uniforme, mas exige um espaço distinto e uma cena que se possa imaginar (1).

E este espaço "distinto e imaginável", portanto, base de algum sonho de como se deseja habitar, tem já uma longa história a registar, pois já passaram mais de 10.000 anos do início de uma sua construção mais premeditada em termos de espaços e ambientes comésticos, e sobre estes tantos anos de evolução, que como em tantas outras áreas tiveram uma enorme dinâmica no passado Século XX , podemos citar uma síntese de Claude Lamure que aponta ter acontecido uma diferenciação progressiva do espaço, e uma evolução genérica de um único compartimento multifuncional até ambientes muito compartimentados e funcionalmente especializados, ou mesmo espacializados (podemos nós comentar). (2)

Da unidade à diferenciação do espaço habitacional

Será, portanto, esta base funcional, do espaço doméstico único, amplo e indiferenciado, onde se passam todas as funções e outras matérias domésticas das pequenas casas de terra de Çatal Huiuk, na actual Turquia, há cerca de 10.000 anos, que fomos evoluindo, consoante as nossas culturas, as nossas paisagens de habitar e os nossos meios financeiros e outros, até à enorme casa altamente diferenciada nos mais diversos tipos de compartimentos e outros espaços domésticos e para-domésticos, tecnológicos e “inteligentes” que se diz terem integrado uma grande casa que Bill Gates desenvolveu para seu uso pessoal, já há alguns anos.
Mas esta evolução traz-nos, hoje, também a redescoberta de um certo novo sentido de amplo espaço pouco diferenciado ou muito comunicante que carateriza, por exemplo, a recente corrente dos lofts habitacionais, que acabam, afinal, por recriar o tal espaço único mas agora com uma enorme amplitude de volume de ar interior e com todas as mais recentes tecnologias.

Influência da habitação no habitante

Esta é uma matéria à qual iremos tentar voltar e aprofundar, um dia, porque ela o merece, mas a ideia desta referência nesta entrada temática às matérias dos aspectos domésticos que poderão ser mais indutores de verdadeira adequação e satisfação residencial, tem a ver com a ideia, que defendemos, de a organização doméstica, ou o layout doméstico, ser uma matéria crucial, quer numa forte adequação a modos de vida, quer numa caraterização da habitação que parece ser determinante nessa influência que se julga que a casca do caracol tem sobre o caracol humano; e neste jogo de relações a ideia que se julga pode ficar é que os aspectos funcionais têm a sua importância, mas há muito mais para lá, ou ao lado, dos aspectos estritamente funcionais. E por isto se dá, aqui, algum desenvolvimento a estas matérias.

Organização doméstica: opções básicas

Claude Lamure oferece-nos algumas linhas de reflexão nesta perspectiva de preocupações com uma organização doméstica verdadeiramente satisfatória e diz-nos que: (3)


  • "podemos distinguir, frequentemente, espaços que agrupam diversos compartimentos e que se diferenciam de formas várias" (ex., várias funções, características mais conviviais ou mais íntimas, etc.);
  • que "inversamente, num mesmo compartimento, diversos espaços ou cantos/recantos podem ser caraterizados por diversos critérios: apropriação por este ou aquele membro da família, tipo de actividade, ou de decoração".
  • E que, "mais globalmente, as zonas bem diferenciáveis são aquelas acústica e visualmente isoláveis".
Ora temos, assim, um caminho que parece ser agradavelmente simples e coerente numa estruturação de espaços domésticos: zonas mais, ou menos, conviviais ou “sociais”, possibilidade de desenvolver subespaços caracterizados, dentro de outros espaços maiores, e eleição dos isolamentos visual e acústico como elementos fundamentais na criação de diferentes zonas domésticas.

Fig. 02: opções de organização da habitação

Várias opiniões sobre as opções de organização da habitação

A ideia que fica é que, sinteticamente, estará, talvez, quase tudo nesta reflexão de Lamure, no entanto, nestas matérias tão sensíveis, que muito têm a ver com os aspectos específicos de cada intervenção e de cada ideia de habitar a cidade, a vizinhança e o edifícios, haverá muito a ganhar com a integração de outras reflexões de outros projectistas e estudiosos nestas matérias e por isso, a seguir, se integram e comentam, com brevidade, algumas outras ideias sobre a organização dos mundos domésticos, numa ordem que tenta dar relevo aos aspectos julgados mais importantes no objectivo de aproximação a uma casa que possa ajudar a uma vida doméstica mais adequada, agradável e estimulante.


Da casa que estrutura formas de habitar à casa adaptável

E, assim, se evidencia a questão básica de uma ideia de casa que é gerada por quem a projecta e que pode entrar em conflito, e frequentemente entra, com a ideia de casa do próprio habitante e neste balanço entre ideias de casa, e na opinião de Harald Deilmann (4), quem projecta pode seguir duas vias distintas:
·         ou comunica ao habitante as suas ideias de "habitabilidade" de uma forma positiva e convincente, clarificando o interesse de certas soluções, eventualmente, menos frequentes e salientando a mais-valia de uma solução mais caracterizada e plena de identidade;
·         ou avança numa estratégia de adaptabilidade doméstica dos espaços previstos a um amplo leque de modos de vida e de usos da habitação, adaptabilidade esta que pode jogar quer numa ideia de neutralidade organizativa (espaços com condições dimensionais e de acessibilidade adequadas a diversos usos), quer em soluções activas de ligação e de separação entre diversos espaços, quer, naturalmente, numa aliança entre os dois tipos de soluções.

Opções domésticas e adequação aos modos de vida

E nesta matéria da adaptabilidade doméstica Claude Lamure, interpretando vários trabalhos franceses e, nomeadamente, os estudos de Chombart de Lauwe sobre a adaptabilidade das habitações aos modos de vida, propõe um conjunto de possibilidades que elas, habitações, podem/devem oferecer às famílias ("Adaptation du Logement à la Vie Familiale", pp. 43 e 44): (5)
(i) de arranjo e apropriação de um espaço que seja suficiente;
(ii) de independência de grupos humanos no interior das habitações;
(iii) de uma graduação da privacidade no interior de cada alojamento;
(iv) de repouso e descontracção;
(v) de separação operacional das funções;
(vi) de atenuação das limitações materiais;
(vii) de prestígio (social);
(viii) de adaptabilidade da estrutura do fogo e dos seus arranjos às estruturas familiares;
(ix) e de relações sociais exteriores.

Em próximas edições desta série apresentaremos e comentaremos, então, outras reflexões de outros projectistas e estudiosos nestas matérias sobre aspetos que consideram estruturantes nas opções de organização dos espaços domésticos, numa perspetiva que tenta aprofundar a grande diversidade de soluções que se oferecem e que propiciam uma vida doméstica mais adequada, agradável e estimulante.

Notas:
(1) Christian Norberg-Schulz, "Habiter", p. 105.
(2) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 106.
(3) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 105.
(4) Harald Deilmann; J. Kirschenmann; H. Pfeiffer, "The Dw elling / Dwelling-types, Building-types", p. 32.
(5) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", pp. 43 e 44.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.


Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano X, nº471
Artigo XLVI da Série habitar e viver melhor
Diversidade na organização habitacional
Habitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional e  Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do LNEC
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.