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domingo, maio 08, 2011

345 - Reabilitação integrada de bairros de interesse social: o Bairro Sá Carneiro em Marrazes Leiria (I) - Infohabitar 345

António Baptista Coelho e Albertina Mateus
Infohabitar, Ano VII, n.º 345
link: http://infohabitar.blogspot.com/2011/05/reabilitacao-integrada-de-bairros-de.html



Nota do editor:
Em anexo ao artigo desta semana divulga-se o conteúdo, o programa e a forma de inscrição numa próxima sessão técnica no LNEC, dedicada à temática do conforto higrotérmico e visual habitacional: dia 23 de Maio no LNEC, o WORKSHOP - Conforto, Satisfação, Energia e Sustentabilidade.

Reabilitação integrada de bairros de interesse social: o Bairro Sá Carneiro em Marrazes/Leiria (I)

artigo de António Baptista Coelho e Albertina Mateus


Fig. 01: pormenor do "novo" Bairro Sá Carneiro em Marrazes

Introdução

No presente artigo faz-se uma apresentação geral da intervenção de reabilitação dos edifícios do Bairro Sá Carneiro, situado em Marrazes, próximo de Leiria. Este Bairro é composto por 26 edifícios, com 208 fogos, a maioria deles pertencentes à NHC Social, uma IPSS ligada à Nova Habitação Cooperativa (NHC). Esta intervenção de reabilitação está já numa fase avançada de desenvolvimento e a ela voltaremos em próximos textos do Infohabitar.

O artigo estrutura-se em oito partes:

(I) Ficha técnica da promoção/intervenção.

(II) O Bairro Sá Carneiro em Marrazes: como era!

(III) Faseamento geral da intervenção.

(IV) O Bairro Sá Carneiro em Marrazes: algumas imagens do desenrolar da obra (ainda em desenvolvimento)

(V) apresentação do Bairro Sá Carneiro - pela Dr.ª Albertina Mateus;

(VI) O Bairro Sá Carneiro em Marrazes: como está a ficar!

(VII) Breve apresentação da intervenção do LNEC na monitorização do conforto ambiental doméstico.

(VIII) Notas finais sobre a desejável discussão e divulgação desta intervenção.

Anexo: divulgação de uma próxima sessão técnica no LNEC , dedicada à temática do conforto higrotérmico habitacional.

Fig. 02: distribuição urbana do Bairro

(I) Ficha técnica geral da intervenção

Entidade promotora da intervenção: NHC (Social), Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS), que foi criada pela cooperativa de habitação Nova Habitação Cooperativa.

Entidade financiadora da intervenção: Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU)

Caracterização breve das condições edificadas e construtivas preexistentes: edifícios todos semelhantes, realizados em 1984 pela ICESA, com 4 pisos e construídos através de um processo de estrutura de betão armado e painéis prefabricados e em alvenaria.

Características gerais da intervenção: reabilitação construtiva e térmica da envolvente dos edifícios, integrando aplicação de isolamento pelo exterior nas paredes exteriores, caixilharia de alumínio com vidros duplos nos vãos exteriores e aplicação de uma nova solução de cobertura, integrando elelentos de isolamento térmico e de impermeabilização; foram ainda desenvolvidas melhorias nos espaços comuns dos edifícios e todo um conjunto extenso de intervenções específicas consideradas essenciais em termos de melhoria das condições de habitabilidade, segurança e durabilidade (construção, acabamento e instalações).

Projecto da intervenção: CPV - Controle e Prevenção de Riscos, S.A.

Entidade que executa a obra: Monterg Construções, S.A.

Faseamento previsto dos trabalhos de reabilitação (que está actualmente a ser cumprido com significativa eficácia): - 1ª Fase de trabalhos (Blocos 25 e 26), concluída no início de Março de 2011; 2ª Fase de trabalhos (Blocos 20 a 24), obra concluída no final de Março 2011; 3ª Fase de trabalhos (Blocos 13 a 16), conclusão no final de Abril de 2011; 4ª Fase de trabalhos (Blocos 7 a 12), conclusão prevista no final de Maio de 2011; 5ª e ultima fase de trabalhos (Blocos 1 a 6), conclusão prevista em Junho de 2011 (mês referido ao final do prazo para execução da empreitada).


(II) O Bairro Sá Carneiro em Marrazes: como era!

Em seguida apresenta-se uma pequena galeria de imagens que pretende dar uma ideia geral das condições em que estavam os edifícios do Bairro.



Fig. 03

Fig. 04



Fig. 05


Fig. 06


Fig. 07


Fig. 08


(III) faseamento geral da intervenção de reabilitação integrada do Bairro Sá Carneiro em Marrazes

Importa sublinhar e sintetizar, que se se está a desenvolver no Bairro Sá Carneiro um processo de gestão integrada deste conjunto urbano e habitacional, que se caracterizou pelas seguintes fases operacionais:

• Uma primeira fase, em que se procurou acorrer aos mais urgentes problemas sociais e de patologia construtiva que caracterizavam o Bairro ao mesmo tempo que se colocava de pé uma gestão local efectiva com o objectivo de melhorar a qualidade de vida dos habitantes do Bairro e equilibrar financeiramente as respectivas rendas devidas e as despesas necessárias.

• Uma fase imeditamente anterior ao arranque das obras de reabilitação dos edifícios, fase na qual houve todo um diálogo operacional com os habitantes, preparando-os para as obras, que seriam realizadas com as habitações ocupadas.

• Uma fase de desenvolvimento das obras nos edifícios, na qual se revelou fundamental aprofundar o referido diálogo entre os habitantes e a NHC (Social), consolidando-se um sentido positivo de melhoria das condições de vida local, muitas vezes associado a um sentido de "nova vida" por parte de muitos agregados familiares nos seus espaços domésticos.

Naturalmente que se deseja e se irá procurar que o faseamento da intervenção prossiga, quer com a estabilização de um processo de gestão local e de proximidade tão efectivo como participado - numa perspectiva cujo êxito terá, sem dúvida, muito a ver com a matriz cooperativa da entidade promotora, a NHC Social - , quer com a possibilidade de uma intervenção estratégica em aspectos fundamentais de melhoria dos espaços públicos; uma possibilidade que está, ainda, no entanto numa fase de procura de essenciais apoios institucionais e financeiros.


(IV) O Bairro Sá Carneiro em Marrazes: algumas imagens do desenrolar da obra (ainda em desenvolvimento)



Fig. 09: a aplicação de uma das camadas que integram a solução de isolamento pelo exterior aplicada nos edifícios do Bairro.



Fig. 10: a obra



Fig. 11: a obra

Fig. 12: a nova caixilharia exterior (com vidros duplos) e o novo embasamento em azulejo, que protege o isolamento térmico exterior e proporciona parte da imagem renovada ao edificado


(IV) Apresentação do Bairro Sá Carneiro, pela Dr.ª Albertina Mateus

• O Bairro Sá Carneiro está situado na Freguesia de Marrazes – a mais populosa de todo o concelho de Leiria – numa zona privilegiada de expansão da própria cidade, zona verde, com acessos rodoviários facilitados e rodeada de infra-estruturas de apoio diversificadas que dão qualidade de vida aos residentes pelas respostas que oferecem, também a nível de emprego, e pela facilidade de acesso aos serviços disponibilizados. São exemplos o Centro de Saúde, o Agrupamento de Escolas, a Junta de Freguesia ou até o Parque Desportivo que ladeia o Bairro;

• O Bairro Sá Carneiro é composto por 26 edifícios, com 8 fracções cada, o que dá um total de 208 fogos. Dos 26 blocos, só 3 (três) são propriedade integral da NHC (Social) – o 13, o 23 e o 25. Dos restantes, um está completamente alienado – o 18; e nos restantes a NHC (Social) divide a titularidade dos fogos com proprietários individuais (54 ao todo) e o Município de Leiria (9 fogos);

• Construídos em 1984, os 26 edifícios são compostos por 4 pisos (r/chão, 1º, 2º e 3º andar), em betão armado e alvenaria de tijolo, cobertos a chapa de fibrocimento. As tipologias variam entre T2 e T3 (blocos 1 a 15); T2 (blocos 17, 18 e 19); e T3 e T4 (blocos 16, 20 a 26); Os projectos de arquitectura foram elaborados pela ICESA, Indústria de Construções e Empreendimentos, SARL.

• O Bairro Sá Carneiro, à semelhança de muitos outros construídos pelo Estado por esse País fora, destinou-se a realojar famílias de Portugueses que, por vias dos processos de independência agitados das ex-colónias decidiram vir para Portugal e aqui recomeçar as suas vidas. É, por vias disso, um bairro habitado maioritariamente por famílias vindas de Angola, apesar de, nos últimos anos, a população se ter vindo a diversificar por força das novas realidades (imigração e crise económica, essencialmente).

• O Bairro Sá Carneiro é um bairro Social. As famílias são alojadas tendo por base vários factores: a emergência social, a diversidade etária, étnica e cultural e a própria sustentabilidade económica do Bairro. As suas rendas são calculadas de acordo com os rendimentos do agregado familiar, do número de elementos e de outros factores previstos na lei (renda apoiada). Na actualidade, a renda média mensal ronda os 60€;

• Como referido atrás, os agregados familiares originais – ainda a maioria – proveio de Angola. Os filhos cresceram, constituíram novas famílias e saíram da casa dos pais. Daí que haja, nos dias de hoje, um número significativo de idosos no bairro, número esse que é compensado pelos muitos nascimentos verificados nos casais mais jovens. Os mais idosos, ou vivem sozinhos ou em companhia de netos, pelos quais são responsáveis. Ao todo, moram no Bairro mais de 800 pessoas (média de 4 elementos por fogo);

• O Bairro Sá Carneiro é, genericamente falando, um bairro de gente trabalhadora. Contudo, e à semelhança do que acontece em todos os bairros sociais, verifica-se a existência de um número significativo de famílias monoparentais, dependentes de ajudas estatais e com alguns problemas de dependências. Daí que exijam, da parte da NHC (Social), e em parceria com outras instituições que connosco actuam no Bairro, uma resposta adequada às necessidades das pessoas tendo em vista a escolarização, o emprego e a formação cívica das pessoas rumo à autonomia e à plena integração na comunidade.


(V) O Bairro Sá Carneiro em Marrazes: como está a ficar!

Em seguida apresenta-se uma pequena galeria de imagens que pretende dar uma ideia geral das novas condições do Bairro, ao nível dos seus edifícios.



Fig. 13: a obra quase concluída em alguns edifícios



Fig. 14: a obra quase concluída em alguns edifícios



Fig. 15: a obra já concluída em alguns edifícios



Fig. 16: a obra já concluída em alguns edifícios



Fig. 17: a obra já concluída em alguns edifícios



Fig. 18: a obra já concluída em alguns edifícios



Fig. 19: a obra já concluída em alguns edifícios


(VI) Breve apresentação da intervenção do LNEC na monitorização do conforto ambiental doméstico.

Aproveitando-se a realização desta intervenção de reabilitação profunda do edificado do Bairro Sá Carneiro e Marrazes e na sequência de contactos informais realizados entre responsáveis da NHC (Social), do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU) e do Laboratório nacional de Engenharia Civil (LNEC), foi considerado haver muito interesse na aplicação no Bairro de um estudo de avaliação das condições de conforto térmico em ambientes interiores de edifícios, considerando-se as situações de conforto ambiental nas habitações, antes e após a referida reabilitação.

Desenvolveu-se, assim, esta avaliação, por parte do LNEC, salientando-se que este estudo se integra no âmbito do Projecto de I&D financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) intitulado "Desenvolvimento de modelos de conforto térmico e visual sustentáveis" (Ref. PTDC/ECM/71914/2006).

O estudo do LNEC consistiu e consiste na medição e registo em continuo das condições ambientes (temperatura e humidade relativa do ar) em várias habitações representativas de diversas localizações no Bairro e nos respectivos edifícios, durante um período de duas a três semanas. Pontualmente foram e serão ainda avaliadas as condições de conforto térmico através: da medição de vários parâmetros ambientais que influenciam a percepção de conforto térmico; e da aplicação de questionário aos utentes dos espaços estudados.

A equipa do LNEC integrou o Doutor Luís Matias e o Investigador Eng.º Pina dos Santos, que no LNEC coordena o sector responsável pelas áreas da sustentabilidade ambiental em edifícios; grupo de investigação este que está ligado ao workshop sobre estas temáticas que será realizado no LNEC no próximo dia 24 de Maio e que se divulga em anexo a este artigo.

Prevê-se que este estudo tenha continuidade durante o próximo ano de modo a poderem ser retiradas conclusões tantos em termos de resultados no que se refere a conforto de Inverno, como de conforto de Verão. Estão, ainda, a ser consideradas possibilidades de monitorização de outros parâmetros de conforto ambiental.



Fig. 20: visita de investigadores do LNEC à obra, em Abril de 2011 - estava a decorrer a monitorização higrotérmica.


(VII) Notas finais sobre a desejável discussão e divulgação desta intervenção.

Considera-se ser muito importante desenvolver um processo sistemático de discussão deste tipo de intervenções de reabilitação de bairros e conjuntos de interesse social, que visam a resolução de problemas construtivos e de habitabilidade, enquanto também têm como objectivo a melhoria significativa das respectivas condições de conforto ambiental interior, com destaque para os aspectos higrotérmicos.

Considera-se também de grande interesse este tipo de discussão e divulgação visando-se a partilha de experiências positivas no sentido da identificação de soluções que cumpram os objectivos referidos no parágrafo anterior, e que estejam associadas a um adequado custo/benefício e à garantia da sua eficácia ao longo de um período temporal significativo.



Fig. 21: Faz-se notar que os sinais de "nova vida" estão já presentes, um pouco por todo o lado, no Bairro Sá Carneiro, marcando as habitações integradas nos edifícios já reabilitados.

Finalmente, e ainda nesta perspectiva de partilha de experiências em termos de intervenções de reabilitação de bairros e conjuntos de interesse social, considera-se que será muito oportuno proporcionar um debate integrado sobre casos específicos, associando, entre outros aspectos: as matérias de gestão social e financeira (incluindo processos de actualização e gestão das rendas); a área construtiva e da execução (salientando, por exemplo, aspectos mais críticos ou inovadores); a área do projecto;  e, eventualmente, e neste caso específico de Marrazes, a área da monitorização ambiental das soluções.

Aponta-se, ainda, que à data da elaboração deste artigo, há já indicações muito positivas sobre a vontade da Câmara Municipal de Leiria no sentido de poder vir a cooperar no "fechar do círculo" da reabilitação do Bairro Sá Carneiro em Marrazes, e do arranque da sua nova imagem e vivência social e urbana, designadamente, através do apoio à regeneração dos respectivos espaços exteriores e públicos; matéria esta que, assim, poderá também integrar a referida sessão de divulgação técnica.





Fig. 22: Bairro Sá Carneiro em Marrazes, pormenor de duas fachadas: a "imagem antes e depois"



Fig. 23: uma perspectiva da nova imagem de conjunto que caracteriza o Bairro Sá Carneiro em Marrazes, e à qual terá, sem dúvida, grande interesse poder acrescentar uma intervenção estratégica e bem ponderada nos respectivos espaços públicos.

Considerando esse leque de objectivos de discussão e divulgação pretende-se realizar em Leiria, proximamente (muito provavelmente a meio  do mês de Junho de 2011) uma visita e uma sessão técnicas "integradas" sobre a intervenção em curso em Marrazes - com apoios vários e desde já da Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE), do Grupo Habitar e do NAU do LNEC, da NHC Social e da Monterg SA, onde serão abordadas, de uma forma tematicamente concentrada no caso específico do Bairro Sá Carneiro em Marrazes, as áreas temáticas da gestão social e urbana e da actualização de rendas, das soluções técnicas construtivas de reabilitação, do processo de financiamento aplicado, dos resultados esperados/obtidos e dos eventuais problemas ainda presentes; e da possibilidade de se poder vir a replicar o processo que está aqui a ser desenvolvido.

Naturalmente será procurada a participação nesta dupla iniciativa de visita e sessão técnicas de divulgação e discussão: do IHRU - a entidade financiadora da obra e que se tem mostrado muito interessada nas soluções aí aplicadas; da Câmara Municipal de Leiria; e do grupo do LNEC que tem assegurado a monitorização higrotérmica da intervenção.

E desde já se sublinha que o Grupo Habitar pretende vir depois a "repetir" esta iniciativa "dupla" de visita e sessão de debate em outros casos de reabilitação de bairros e conjutos de habitação de interesse social portugueses.


Anexo: divulgação de uma próxima sessão técnica no LNEC, dedicada à temática do conforto higrotérmico e visual habitacional

23 de Maio no LNEC: WORKSHOP - Conforto, Satisfação, Energia e Sustentabilidade, integrado no Projecto “Desenvolvimento de modelos de conforto térmico e visual  sustentáveis”
PTDC/ECM/71914/2006) co-financiado pelaFundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).
Participantes

Eng.º C. Pina Santos (LNEC)

Dr.ª Margarida Rebelo (LNEC)

Dr. Luís Matias (LNEC)

Dr. António Santos (LNEC)

Dr.ª Sílvia Almeida (FCT)

Doutor Hélder Gonçalves (LNEG)

Eng.º Ehsan Asadi (FCTUC/DEM)

Eng.º António Costa Brás (Philips Iluminação)

ENTRADA LIVRE; Inscrições para o email: cursos@lnec.pt
fax: 21 844 30 14

Lisboa. LNEC, 23 de Maio de 2011

Objectivo

A satisfação pessoal, a saúde e bem-estar e a produtividade dos utilizadores dos edifícios dependem em larga medida das condições de conforto térmico e visual proporcionadas e, ainda, da sua interacção com esses mesmos edifícios.

A satisfação assume assim um relevo particular quer pelo desenvolvimento económico e social verificado na sociedade quer pela adopção/imposição de padrões de conforto convencionais, geralmente baseados em meios artificiais de climatização e de iluminação.

Os consumos de energia resultantes tornam-se cada vez mais significativos - nem sempre conduzindo à satisfação dos utentes - e são por vezes agravados pelo uso de opções arquitectónicas e energéticas desadaptadas do clima exterior e da realidade económica e social.

Esta realidade, embora diversificada a nível europeu, justifica os esforços da Comunidade Europeia visando a redução dos consumos de energia nos edifícios, de que a Directiva nº 2010/31/UE é um exemplo. Entre outras medidas esta Directiva incentiva à introdução de sistemas de controlo activos, nomeadamente os sistemas de automatização, controlo e monitorização, destinados a poupar energia e impõe que, o mais tardar em 31 de Dezembro de 2020, todos os edifícios novos sejam edifícios com necessidades quase nulas de energia.

Estes e outros desafios obrigam a novas aproximações ao tema da sustentabilidade em espaços interiores e a repensar o modo de atingir os objectivos definidos, tomando o conforto como um processo dinâmico entre indivíduo e ambiente, onde a interacção passa também pela adaptação do ser humano aos espaços que ocupa.

O contributo das ciências sociais neste domínio tem demonstrado como as atitudes e comportamentos face ao ambiente interior influenciam e são influenciados pela experiência dos indivíduos e pelas características físicas dos espaços.

No âmbito deste projecto privilegiou-se o intenso desenvolvimento, por uma equipa interdisciplinar, de estudos de conforto térmico e das dinâmicas da iluminação natural e artificial em edifícios reais (de serviços e residenciais).

Além de medições dos parâmetros físicos (objectivos) que caracterizam o ambiente interior, numa perspectiva da psicologia ambiental aprofundou-se o estudo dos aspectos comportamentais (subjectivos) relevantes para as áreas do conforto ambiental (térmico e visual).

Com este workshop pretendem-se divulgar e discutir as aproximações adaptativas do conforto desenvolvidas no âmbito do projecto acima referido e, em paralelo, estabelecer o diálogo com outras visões e respostas aos desafios existentes. Para tal, além da equipa de projecto, foram convidados especialistas nestes domínios de modo a que os temas apresentados e discutidos motivem a mais ampla participação de investigadores, técnicos, projectistas, decisores e promotores.

Organização:

O workshop é promovido e organizado pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil.

Destinatários

O workshop destina-se a arquitectos, engenheiros, cientistas da área da construção e das ciências sociais e outros técnicos e entidades ligados à promoção, ao projecto e à investigação, para quem os aspectos associados ao ambiente interior em edifícios constitua, ou possa vir a constituir, domínio de actividade.

Programa

Dia 23 de Maio de 2011

13h45 – Recepção e distribuição de documentação

14h00 – 14h15 Apresentação geral

14h15 – 14h45 Conforto térmico adaptativo

14h45 – 15h15 Dinâmicas da iluminação natural e artificial

15h15 – 15h45 A dimensão psicossocial dos modelos

adaptativos de conforto térmico e visual

15h45 – 16h00 Café

16h00 – 16h30 Conforto e edifícios de energia quase nula

16h30 – 17h00 Comfort, control and monitoring

17h00 – 17h30 Sistemas de Controlo da Iluminação:

Presente e Futuro

17h30 – 18h30 Discussão

Notas editoriais:


(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.
(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.

(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.



Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
Infohabitar, Ano VII, n.º 345, 8 de Maio de 2011

segunda-feira, dezembro 22, 2008

227 - A NHC e os Prémios INH-IHRU - Infohabitar 227

Infohabitar 227


A NHC, Nova Habitação Cooperativa e os Prémios INH-IHRU

Alguns casos urbanos e habitacionais de referência



um pequeno relato de António Baptista Coelho (*)

Neste artigo faz-se uma pequena viagem em alguns conjuntos urbanos e residenciais da Nova Habitação Cooperativa que foram mencionados e premiados, consecutivamente, no âmbito do que foram, ao longo de 18 anos, os Prémios anuais do Instituto Nacional de Habitação (Prémios INH) e do que é, actualmente, o Prémio do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, na vertente Construção (Prémio IHRU 2008).

A NHC, Nova Habitação Cooperativa, conta já com mais de 20 anos de actividade e constitui um dos pilares da Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE), é uma das cooperativas mais dinâmicas na promoção de Habitação Social (Habitação a Custo Controlado) na zona de Lisboa e esteve, por vezes, associada ao Prémio INH, designadamente, por integração no seu Júri de análise, que até 2008 sempre incluiu representantes das associações empresariais e das cooperativas de habitação representadas na FENACHE.



Fig. 01: uma imagem do Júri do Prémio em trabalho, em 2002

Ainda nesta nota introdutória e de enquadramento há que referir que um dos principais elementos do que foi a verdadeira escola do Júri do Prémio INH, sobre cuja metodologia se referem, em anexo, os principais aspectos, foi o Dr. José Barreiros Mateus, um bom amigo, que infelizmente já não está connosco, que foi o fundador da NHC e dirigente cooperativista habitacional com acção ao nível nacional e internacional. O Dr. Barreiros Mateus foi, várias vezes, representante da Federação Nacional das Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) no Júri do Prémio INH e foi sempre um activo e muito informado participante na dinâmica desta “escola” do Prémio INH, que se iniciou entre 1989 e 1990, e que encontrou neste cooperativista e professor universitário, um elemento vital para a sua dinamização e para a sua fundação sólida e esclarecida em termos das realidades, problemas e virtualidades, que marcavam, então, de forma muito expressiva, a promoção portuguesa de habitação de interesse social.

A Nova Habitação Cooperativa tem continuado, com firmeza, o seu caminho, desde há alguns anos sob a direcção do amigo Manuel Tereso, também membro dos corpos sociais da FENACHE, num percurso bem fundamentado como promotora de habitação a custos controlados, no qual a NHC conta já com cerca de mil novos fogos concluídos, e tendo alargado, estrategicamente, a sua acção à gestão integrada de antigos bairros sociais, numa nova e fundamental faceta de acção cooperativa que tem tido como agente a NHC Social, coordenada pela Dr.ª Albertina Mateus – acção esta à qual o Infohabitar dedicará atenção específica em futuros artigos.

Mas é, especificamente, sobre o reflexo que a pequena história da promoção de nova habitação, pela NHC, trouxe ao Prémio INH e ao seu sucessor o Prémio IHRU, que tratam estas páginas, numa perspectiva informal que articula um conjunto de comentários, mais ou menos, técnicos, ilustrados e sensíveis aos fundamentais aspectos da satisfação dos habitantes e da contribuição para o fazer de uma boa cidade.



Fig. 02 e Fig. 03: entre estes dois conjuntos decorreram cerca de 20 anos – edifício em Alenquer, à esquerda, a primeira obra da NHC e, à direita, o conjunto em S. João da Talha, recentemente concluído, mas que será, em breve, prolongado.

Vamos, então, falar um pouco sobre alguns dos conjuntos residenciais da NHC que foram candidatos nas várias edições do Prémio INH, mas não sem se referir aqui, que se sabe ser possível melhorar ainda muito e melhorar em diversos aspectos diversificados da promoção habitacional, construindo, assim, uma melhoria multifacetada; portanto não há aqui qualquer ideia de que estas sejam “obras primas” do habitar, longe disso.

Talvez um dia, talvez aquelas que estão, hoje em dia, em fase de promoção pela NHC possam ser um pouco mais perfeitas, é sempre essa a ideia que move a NHC, procurando-se melhorar, gradualmente, com segurança e pertinácia, visando-se a construção de sítios de habitar que aliem um desenho que seja o melhor possível a um conjunto de aspectos funcionais e de imagem que satisfaçam o mais possível quem lá habita, e isto num quadro de referência de custos controlados e de áreas controladas e, tantas vezes, travando verdadeiras e desgastantes lutas com um processo de desenvolvimento dos projectos e das obras, que encontra obstáculos esperados e inesperados, praticamente numa base diária; e atente-se, mesmo quando o objectivo é, afinal, e apenas, como é o caso da NHC, fazer melhor habitação e habitação mais barata para o maior número possível de pessoas.

Esta pequena história, que irá abordar, apenas, algumas das candidaturas da NHC ao Prémio INH, começa no já “longínquo” ano de 1993, com duas excelentes candidaturas cooperativas ao Prémio INH, participadas pela NHC em conjunto com outras cooperativas, numa altura em que o Prémio era totalmente dominado pela quantidade e qualidade da promoção cooperativa.




Fig. 04: o conjunto na Bensaúde, Olivais, Lisboa

Uma primeira e relevante candidatura ao Prémio INH, em Olivais Norte, Lisboa; e o interesse de se transformar uma margem abandonada em tecido urbano e vivo coerente
Entre 1990 e 1992 a NHC desenvolveu um conjunto de 55 fogos, integrado num agrupamento mais amplo (155 fogos) participado por mais outras duas cooperativas de habitação, a Cooperativa Cooplar de Moscavide e a CMLCOOP, na Av. Alfredo Bensaúde, Olivais Norte, Lisboa.

Embora este Programa não tenha sido financiado pelo INH – o financiamento foi da Caixa Geral de Depósitos – os respectivos fogos cumprem, inteiramente, as características dimensionais, funcionais e qualitativas exigidas para a Habitação de Custos Controlados (HCC).

Em termos de integração o conjunto preenche e vitaliza uma margem urbana, antes, desocupada e abandonada, assegurando uma solução caracterizada por forte continuidade do edificado.

Os edifícios são multifamiliares de baixa altura, os fogos os estão equitativamente distribuídos pelas tipologias T2 e T3 e os habitantes dispõem de estabelecimentos comerciais e de serviços e de um espaço social polivalente (para apoio aos condomínios e às actividades cooperativas). O estacionamento automóvel faz-se em garagens colectivas, mas também no exterior em estacionamentos arborizados e com uma imagem urbana bem integrada.

Os projectistas coordenadores foram o Arq. Rui Pedro Cabrita e o Arq. Miguel Ângelo Silva e a construção foi assegurada pela Redutos, S.A.



Fig. 05: o conjunto na Bensaúde, Olivais, Lisboa

O Conjunto foi candidato ao Prémio INH 1993 não tendo obtido destaque, essencialmente, como atrás se disse, devido à grande quantidade e qualidade dos empreendimentos cooperativos candidatos; mas se é admissível uma pequena confissão de um jurado, julga-se que, claramente, este conjunto teria sido justamente merecedor de uma referência específica porque se assegurou aqui uma excelente margem urbana cooperativa e residencial, e a partir de uma estreita margem entre uma importante via rodoviária e uma faixa industrial, o esforço conjugado de três cooperativas fez surgir uma banda alongada e com agradável escala urbana, que requalificou o sítio e proporcionou a um apreciável conjunto de famílias a concretização da “miragem” de habitar Lisboa a um custo e com uma qualidade controlados.

Sublinha-se ainda que se trata de uma tipologia muito conseguida, seja na intensa arborização aplicada, o que é infelizmente raro, seja na integração das garagens comuns, seja na imagem de arquitectura urbana que alia sobriedade e atraente caracterização residencial, seja na forte economia de espaços comuns, revertendo directamente em melhores áreas domésticas.

Na agradável rua “interiorizada” e de vizinhança encontramos elementos de reforço da escala humana, com relevo para as rebaixadas entradas comuns, para as grelhagens domésticas, para alguns equipamentos de vizinhança e naturalmente para um verde urbano diversificado e atraente. Ainda ao nível urbano faz-se uma referência para a ideia de polarizar os espaços públicos com maior utilidade entre topos de edifícios, ritmando-se e suavizando-se a banda edificada.

No edifício salienta-se a solução de rampa comum para as garagens de dois edifícios e a economia espacial que marca a entrada e a escada comum, maximizando-se o espaço doméstico. Nos fogos destaque para a ideia de ampliar visualmente as salas através do vestíbulo de entrada e para a solução de grande floreira em parte reentrante, que marca a sala comum e também a fachada.

Destaca-se finalmente que, de uma margem periurbana ao abandono se fez, “simplesmente”, uma rua residencial viva e naturalizada; uma acção de micro-urbanismo extremamente actual e vital em termos de preenchimento e revitalização urbana e residencial.



Fig. 06: o conjunto no Algueirão, Sintra

Uma primeira Menção Honrosa no Prémio INH 1993, no Algueirão, Sintra; e a força de um conjunto de bons espaços exteriores equipados

Também entre 1990 e 1992 a NHC desenvolveu um conjunto de 73 fogos, integrado num agrupamento com grande dimensão (318 fogos) desenvolvido pela União de Cooperativas de Habitação Nova Imagem, U.C.R.L., onde se associava a NHC, no Bairro Nova Imagem, Algueirão Velho, Sintra.

Este Programa foi financiado pelo INH e os respectivos fogos cumprem, inteiramente, as características dimensionais, funcionais e qualitativas exigidas para a Habitação de Custos Controlados (HCC).

A principal característica desta intervenção, que tem já apreciável dimensão urbana, é definir-se através de agradáveis espaços de vizinhança e recreio bem articulados com os edifícios.

Os edifícios são multifamiliares de baixa altura, os fogos os estão dominantemente distribuídos pelas tipologias T2 e T3 (dois e três quartos de dormir) , havendo ainda algumas habitações T4 (quatro quartos de dormir) e também fogos T1 (um quarto de dormir).

Foram criados equipamentos de proximidade – estabelecimentos comerciais e de serviços e salas de condomínio – e equipamentos da vizinhança alargada – Creche, Infantário, ATL, Centro Comercial, e dois Polidesportivos. O estacionamento automóvel é exterior.

O projectista coordenador foi o Arq. Fernando Branco e a construção foi assegurada pela Amadeu Gaudêncio, Lda.



Fig. 07: o conjunto no Algueirão, Sintra

Este conjunto de quarteirões residenciais que foi Menção Honrosa do PINH em 1993, constitui mais um exemplo da importância que tem, para a qualidade de vida diária de quem habita, poder ter usos específicos, de lazer e de desporto, adequadamente previstos em espaços públicos próximos de casa e positivamente configurados.

Fica, uma vez mais, bem patente a força vitalizadora e caracterizadora de uma boa intervenção paisagística. E só não atentará em tal força quem não queira ver a realidade de poder ter, à porta de casa, um sítio de recreio livre e atraente em vez de um espaço abandonado onde tantas vezes o lixo se acumula.

A intervenção oferece um esquema urbano com um traçado convencional (bem conhecido), servido por sequências de pequenas alamedas e ruas residenciais, envolvendo quarteirões e marcado por variados equipamentos comerciais e de apoio diversificado.

Um tal traçado urbano atinge uma muito interessante expressão de abrigo e de familiaridade vicinal ao nível das pequenas pracetas residenciais, bem pormenorizadas e equipadas, concretamente, com recintos desportivos, parques infantis e jardins urbanos e onde se consegue estabelecer, realmente, uma relação próxima e motivadora entre o habitar da casa e o habitar do exterior residencial, em segurança.



Fig. 08: o conjunto que foi Prémio INH 2004, no Bairro do Zambujal, Amadora

Um Prémio INH 2004, no Bairro do Zambujal, Amadora; e a força de uma vizinhança humanizada e física e socialmente regeneradora
Entre 2001 e 2003 a NHC desenvolveu um conjunto de 68 fogos, constituindo uma vizinhança bem afirmada e equipada, no Bairro do Zambujal, Amadora.

Este Programa foi financiado pelo INH e os respectivos fogos cumprem, inteiramente, as características dimensionais, funcionais e qualitativas exigidas para a Habitação de Custos Controlados (HCC), mas, cumulativamente, há aqui um claro aprofundamento da estratégia de qualidade de habitar cooperativa num reflexo do que as cooperativas da FENACHE estavam a fazer já por todo o país, designadamente, em termos da garantia da construção através de um Seguro Decenal.

A principal característica desta intervenção, que tem já evidente protagonismo urbano, é fazer viver o habitar local num sentido integrado de espaço interior e exterior, criando uma vizinhança, mas uma vizinhança que não se fecha sobre si própria e, antes pelo contrário, que constitui um elemento regenerador e de diversificação física e social de uma envolvente excessivamente marcada por “velhos” bairros sociais.

O conjunto da NHC é constituído por bandas de edifícios multifamiliares de baixa altura, que dão forma urbana a uma agradável praceta ajardinada, que preenche e qualifica, positivamente, em termos de atractividade e de coesão uma parte da malha urbana do Plano Integrado do Zambujal.

As habitações oferecem um leque amplo de tipologias que vão do T1 ao T4 e os edifícios integram, ainda, um conjunto de estabelecimentos comerciais e de serviços e salas de condomínio. O estacionamento automóvel é exterior.

O projectista coordenador foi o Arq. Carlos Carvalho e a construção foi assegurada pela Carpur – Construções, S.A.



Fig. 09: o conjunto que foi Prémio INH 2004, no Bairro do Zambujal, Amadora, numa das muitas imagens possíveis através do programa Live Search Maps, da Microsoft Corporation, e onde fica evidente o posicionamento estratégico da nova praceta da NHC, como elemento de aprofundamento da diversificação e da animação social e urbana numa zona muito sobrecarregada com intervenções de habitação de interesse social (Plano Integrado do Zambujal).

O Júri do Prémio INH 2004 destacou sobre este conjunto da NHC:

… é uma promoção integrada que vai do nível do projecto e da obra à organização dos moradores, até à garantia por dez anos de diferentes aspectos da construção …;
…o conjunto edificado valoriza o local pela qualidade da imagem e da construção dos edifícios e, ainda, pela criação de extenso e diversificado espaço exterior de lazer, para uso público …;



Fig. 10: o conjunto que foi Prémio INH 2004, no Bairro do Zambujal, Amadora

Este conjunto corresponde a um processo de promoção completo, que vai até à contratação de uma garantia de dez anos, relativa aos principais aspectos construtivos e que integra todas as especialidades técnicas, desde a arquitectura paisagista à montagem da gestão global a realizar depois da ocupação dos fogos.

Outro aspecto relevante tem a ver com a clara função de integração e dinamização social que este conjunto assume numa envolvente socialmente muito sensível.

Quanto ao urbanismo foi desenvolvido um grande “L” que define por fora uma rua arborizada e com floreiras integradas nos edifícios, e por dentro uma grande praceta agradavelmente ajardinada e multifuncional, que não foi mais humanizada e equipada porque o município não aprovou o respectivo projecto, devido a razões de minimização da manutenção.

No edifício, para além de escadas comuns com luz natural, há uma clara aposta na dinamização dos condomínios – com uma sala em cada escada comum –, e no que se refere ao interior doméstico há excelentes cozinhas conviviais e criaram-se pequenas varandas, que também ligam exteriormente compartimentos.

Ainda outro aspecto relevante tem a ver com a clara função de integração e dinamização social que este conjunto assume numa envolvente socialmente muito sensível e considerando um número de fogos muito equilibrado.



Fig. 11: o conjunto que foi Prémio IHRU Construção em 2008, em São João da Talha, Loures

Um Prémio IHRU Construção 2008, em São João da Talha, Loures; e a importância e a actualidade de soluções de habitar à medida de quem habita e diversificadas

Entre 2006 e 2007, em parceria com a Câmara Municipal de Loures, a NHC desenvolveu um conjunto de 22 fogos, constituindo uma pequena vizinhança bem coesa, internamente, e ligada à cidade, em São João da Talha, Loures; uma vizinhança residencial que, desde a primeira ideia e o primeiro esboço foi dirigida e afeiçoada em termos arquitectónicos para se adequar ao modo de viver da etnia cigana.

Este Programa foi financiado pelo INH e os respectivos fogos cumprem, inteiramente, as características dimensionais, funcionais e qualitativas exigidas para a Habitação de Custos Controlados (HCC).

Os projectistas coordenadores foram, sequencialmente, o Arq. Luís Monteiro e o Arq Antero de Sousa e a construção foi assegurada pela Carpur – Construções, S.A.

As principais características desta intervenção, que tem já evidente protagonismo urbano, têm a ver com um amplo leque tipológico, que vai do T0 (sala/quarto) e dos T1 (um quarto) aos T5 (cinco quartos), de modo a atingir-se um máximo de adequação à composição dos agregados, e com o desenvolvimento de uma pequena praceta pública em torno da qual se implantou um conjunto edificado coeso, constituído por edifícios uni e multifamiliares de baixa altura.

Foi também desenvolvido um espaço que se destina a equipamento social com valências ligadas ao apoio das crianças e também a algum acompanhamento, em continuidade, da gestão local.



Fig. 12: o conjunto que foi Prémio IHRU Construção em 2008, em São João da Talha, Loures, numa das muitas imagens possíveis através do programa Live Search Maps, da Microsoft Corporation, e nesta imagem é possível ter-se uma ideia clara da articulação da nova intervenção da NHC, seja relativamente a equipamentos e habitações preexistentes, seja relativamente a um novo conjunto também da NHC, actualmente concluído e que disponibiliza um numero significativo de habitações a custos controlados, aprofundando a diversificação social na zona.

O Júri do Prémio INH 2004 destacou sobre este conjunto da NHC:

"É um conjunto de edifícios multifamiliares e unifamiliares que se desenvolve em duas bandas paralelas, definindo um grande pátio de convívio familiar e concebido para satisfazer a forma de habitar da comunidade cigana, ao mesmo tempo que se potencia a sua integração, através de uma relação estratégica com a continuidade urbana e de uma outra relação funcional com um estacionamento de veículos.

É de realçar a intenção de fixar uma população ao local, onde tradicionalmente residia, ultrapassando a rejeição social de que estavam a ser sujeitas.
Ao nível das soluções domésticas desenvolveram-se cuidados específicos de adequação ao modo de vida específico desta comunidade, enquanto se está a desenvolver uma intervenção contínua em termos de gestão local de proximidade com acções concretas no apoio à infância.

A apropriação e personalização dos espaços habitacionais, já evidentes, são por si reveladoras do grau de satisfação desta comunidade".




Fig. 13 e Fig. 14: o conjunto que foi Prémio IHRU Construção em 2008, em São João da Talha, Loures, um pormenor da já sentida e positiva apropriação dos fogos e um dos edifícios unifamilares em bandas contínuas.

Em São João da Talha proporcionou-se uma casa digna a quem vivia em péssimas condições de habitabilidade, considerou-se o modo de habitar específico da etnia cigana, designadamente, na relação de uma vizinhança coesa, mas aberta, relativamente a uma vizinhança alargada marcada por equipamentos colectivos e por habitação corrente; e aqui chama-se a atenção para a disponibilização nesta envolvente de um significativo conjunto de habitação a custos controlados, actualmente em acabamento, e que irá proporcionar mais um enriquecimento da diversidade sociocultural existente na zona.

Em termos da própria solução urbana do conjunto que ganhou o Prémio IHRU importa salientar a ligação entre tipologias multifamiliares com baixa altura e acesso pelo exterior e tipologias unifamiliares em bandas contínuas (pequenas moradias), com acesso por um pátio público alongado com características conviviais, que por uma extremidade se liga à continuidade urbana local e, por outro, tem ligação funcional a um estacionamento.

As soluções edificadas e designadamente as moradias procuram adequar-se a modos de vida específicos, designadamente, através de pequenas arrumações na frente das habitações e acesso exterior, úteis no apoio à actividade comercial itinerante, e depois, no interior do fogo, através de uma organização doméstica que privilegia os espaços comuns, a luz natural e as vistas sobre o referido pátio público de acesso.

A ideia que se seguiu neste artigo foi fazer-se um comentário informal ao que foi uma evolução natural das preocupações, do saber-fazer e da prática de trabalho da NHC, perspectivando alguns dos seus pontos altos, marcados por Prémios e Menções, mas integrando-os numa sequência que se quer continuar e melhorar, e que tem tudo a ver com a vontade de aprofundar a reflexão sobre os principais problemas do nosso habitar urbano e de diversificar novas ideias de habitar bem fundamentadas.




Fig. 15: uma fotografia conjunta do Júri do Prémio, dos promotores e projectistas, e dos habitantes do conjunto da NHC em São João da Talha

Anexo informativo sobre o processo de análise do Júri
O Prémio INH e o Prémio IHRU Construção são, exclusivamente, prémios honoríficos e com uma essencial função informativa e de divulgação de boas práticas.

Por sistema o Júri tem visitado todas as candidaturas, condição esta que no último Prémio, o Prémio IHRU 2008 também se cumpriu para as candidaturas cooperativas.

Entre as matérias que marcaram, regulamentarmente, a análise do Prémio destacam-se os seguintes sete critérios:

“a salvaguarda e valorização da qualidade da paisagem global;
o modelo e a integração urbanística com a compreensão da aptidão dos espaços e dos valores naturais e culturais existentes;
a imagem e a organização arquitectónica;
as técnicas e a racionalidade construtiva, integrando valores de caracterização local e aplicando soluções, tecnologias e materiais amigos do ambiente que reduzam o consumo de energia;
a compatibilização das instalações e equipamentos;
a integração, quando for caso disso, de equipamento de exterior de desporto e de lazer atendendo a todas as classes etárias;
a apropriação pelos utilizadores, quer no interior quer no exterior dos edifícios.”


Em termos de processo de análise e depois de um primeiro conhecimento aprofundado dos painéis enviados pelos candidatos, segue-se a marcação das visitas de análise.




Fig. 16: uma imagem do Júri do Prémio em trabalho, juntamente com os promotores e projectistas, do conjunto da NHC em São João da Talha

Nestas visitas segue-se sistematicamente: uma primeira reunião de apresentação do conjunto em análise pelos seus promotores, projectistas e responsáveis pela construção; depois desenvolve-se a visita ao conjunto, respectivos espaços exteriores e diversas tipologias de habitações, procurando-se, sempre que possível, apreciar habitações já ocupadas e apropriadas pelos habitantes; finalmente, desenvolve-se, em cada local, a reunião final do Júri que se inicia com a apresentação dos comentários e críticas positivas e negativas de cada elemento do Júri, seguindo-se o subsequente comentário dos referidos promotores, projectistas e responsáveis pela construção.

Posteriormente e na presença do Júri realiza-se uma sessão de projecção e comentário sobre todas as visitas realizadas, seguindo-se os comentários de síntese de cada elemento do Júri e a subsequente votação final.

(*) Arquitecto, doutor em Arquitectura (FAUP), Investigador do LNEC, Vice-presidente da NHC, Presidente da direcção do GH

Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 22 de Dezembro de 2008
Editado por José Baptista Coelho