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segunda-feira, novembro 06, 2017

617 - Arrumações e máquinas domésticas: da adequação à inovação - Infohabitar 617


 Infohabitar, Ano XIII, n.º 617

Inovar na arrumação doméstica – 5 artigos sobre o tema e um novo texto

por António Baptista Coelho

No início de setembro de 2017 a Infohabitar retomou as suas edições regulares, através da edição de um novo artigo em cada semana, logo à segunda-feira, aproveitando-se para, mais uma vez, enviar um amigável desafio aos leitores no sentido de poderem enviar para o editor (mail referido no final do artigo) propostas de artigos para edição (a enviar para abc@lnec.pt).

Considerando que, durante um número muito significativo de semanas a Infohabitar editou artigos integrados no âmbito da série designada “Habitar e Viver Melhor”, lembrámo-nos de proporcionar uma desenvolvida e comentada revisão desta matéria, antes de prosseguirmos na edição desta série; uma revisão que inclui, sublinha-se, sistematicamente, novos textos de síntese de comentário sobre cada uma das matérias específicas tratadas em cada edição.

Neste sentido e neste artigo apresentam-se, em seguida, os títulos interactivos dos artigos da série “Habitar e Viver Melhor”, que abordam as temáticas do interior da habitação e, designadamente, de uma adequada inovação nos espaços de arrumação e instalação de máquinas domésticas, aproveitando-se para acrescentar, no final do artigo, uma nova nota de reflexão sobres estas matérias; e salienta-se que todos os artigos qui editados, desde início de Setembro de 2017, integram, logo a seguir à listagem interactiva dos artigos, novos textos de reflexão sobre a envolvente habitacional, as novas tipologias residenciais, a estrututação dos respectivos edifícios e a organização e estruturação habitacional.

Em próximos artigos iremos continuar a disponibilizar reflexões sobre os diversos tipos de espaços habitacionais e domésticos, mais comuns, ou mais privados e personalizados, que integram e caracterizam cada fogo/habitação, através de artigos nunca editados.

Lembra-se que bastará ao leitor “clicar” no título do artigo que lhe interessa para o poder consultar.

Lembra-se, ainda, que por motivos totalmente alheios à Infohabitar, que muito lamentamos e que já apontámos, na Infohabitar, a maior parte dos artigos desta série editorial não conta, neste momento, com as respectivas ilustrações; estando, no entanto, disponíveis todos os seus textos, que se caracterizam por expressiva autonomia relativamente às referidas imagens; em tempo procuraremos ir repondo as referidas ilustrações, agora através de uma ferramenta integrada no próprio processo editorial do nosso blog/revista.

Finalmente regista-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, sedeado no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.

São os seguintes os cinco (5) artigos disponibilizados sobre o tema “inovar na arrumação doméstica:

Arrumação domésticas: aspetos gerais

Versatilidade da arrumação doméstica

As máquinas domésticas

Arrumações domésticas: aspetos inovadores

Lavandaria doméstica


Sobre as temáticas associadas e associáveis à matéria geral do interior da habitação e, designadamente, sobre a matéria específica associada às arrumações e máquinas domésticas, sua adequação e inovação uma primeira reflexão está associada ao “partido” que pode/deve ser seguido quando se desenvolve a capacidade doméstica nos seus aspectos ligados às necessidades de arrumação e de integração de máquina domésticas; e, desde já, se sugere que esse “partido” deva privilegiar o subjugar das respectivas funcionalidades, em termos visuais e de expressão/presença na habitação, a uma caracterização dos respectivos espaços e pormenores como sítios de habitar de uma pessoa e/ou de uma família, bem humanizados, marcados por um sentido de habitar “não maquinal” e por variados aspectos associáveis à identidade desses locais/elementos e à sua expressiva apropriação como espaços “únicos”, verdadeiramente amigáveis, envolventes, aprazíveis e veículos da identidade de cada um de nós e dos nossos agregados familiares.


Esta atitude ou opção não significa que não possamos optar por uma arquitectura de interiores fortemente minimalista e racionalizada, e eventualmente pontuada por algumas elaboradas peças de mobiliário e por peças/máquinas domésticas marcadas igualmente por idêntico minimalismo ou racionalismo, sendo esta uma entre múltiplas opções possíveis, mas sendo aqui este carácter “limpo” ou racional tomado como uma forma específica e própria de se entender e viver a referida “domesticidade”, e sendo esta uma opção totalmente distinta de intervenções em que espaços e elementos de arrumação e soluções de integração de máquinas domésticas são, claramente, desenvolvidos como elementos “colados”, suplementarmente, aos respectivos espaços domésticos, sem um mínimo de cuidados de boa integração, visual e até por vezes funcional, e bem longe de serem considerados como elementos verdadeiramente integradores da respectiva proposta arquitectónica.

Um outro aspecto, ou um outro novelo de aspectos, liga-se à(s) natureza(s) da “arrumação” e da capacidade de arrumação, sendo importante considerar que ela se deve subdividir e disseminar, estrategicamente, pela habitação e, depois e também estrategicamente em cada compartimento e espaço específico habitacional; uma matéria que tem sido, longamente, desenvolvida por muitos estudos funcionais.

É, no entanto, oportuno ter bem em conta a estruturação da arrumação doméstica em quatro grandes categorias, que são, em seguida, relembradas:

(i) A capacidade de mobilar os diversos compartimentos e espaços, associada, designadamente, à expressiva disponibilização de paredes para encostar mobiliário, mas também associada a questões de dimensionamentos versáteis, que proporcionem, por exemplo, mobilar e circular, e ainda associada a adequadas relações geométricas entre paredes e vãos de janela e de porta, proporcionando a sua manobra mas também a boa integração de mobiliário (ex., aproveitando bem os cantos dos compartimentos).

(ii) A capacidade para arrumações “especializadas” em equipamentos domésticos específicos como são os roupeiros embutidos e os armários fixos, equipando, designadamente, quartos, cozinhas e casas de banho; trata-se, na prática, de uma espécie de “mobiliário fixo”, sendo, por isso importante considerar, adequadamente, a sua capacidade e versatilidade de associação com elementos de mobiliário escolhidos pelos habitantes e que devem poder marcar a apropriação e identificação de todos os espaços da habitação; e esta categoria de arrumação doméstica leva-nos longe nas suas subcategorias mais ligadas às cozinhas e à tradicional despensa de apoio à cozinha, aos quartos, aos corredores, etc.

(iii) A capacidade para a boa integração de um expressivo leque de maquinarias domésticas, habitualmente instaladas em forte integração com os armários de cozinha, mas que poderão ser, também, em parte, instaladas, positivamente, em outros espaços da habitação, como acontece com as máquinas associadas ao tratamento de roupas, que poderão ser eventualmente integradas em espaços próprios de lavandaria ou mesmo em armários de grandes casas de banho, com a vantagem no sentido de se separarem estas funções das de preparação de refeições.

(iv) E ainda a capacidade de arrumação geral doméstica, por sua vez repartível no apoio ao interior ou ao exterior da habitação; uma capacidade que pode ter expressiva diversidade e especialidades.

De uma forma geral há que sublinhar a grande importância da boa disponibilização de uma boa capacidade de arrumação para a boa vivência funcional e ambiental do conjunto dos espaços da habitação, municiando as diversas funções domésticas, em cada sítio, com os respectivos apoios funcionais e libertando os espaços domésticos para a sua adequada e variada fruição de uma forma “solta” da convivência com uma enorme quantidade de elementos e objectos que vamos acumulando, praticamente de forma involuntária nas nossas habitações.

Estas matérias evidenciam a importância da versatilidade da arrumação doméstica, sendo que uma tal versatilidade deve ser sempre marcada por uma expressiva ergonomia nos seus aspectos mais gerais e de pormenor.

De certa forma e mesmo que se defenda uma vida doméstica o mais possível racionalizada e liberta de muitos objectos e elementos acessórios há que ter em conta que eles vão existir, uns mais necessários e outros menos, e que, à medida que envelhecermos iremos juntar mais outros elementos desses vários tipos e se não existir capacidade de arrumação e mesmo potencial para um gradual aumento dessa capacidade tenderemos, frequentemente, para espaços domésticos excessivamente preenchidos e consequentemente pouco funcionais e mesmo difíceis de habitar e harmonizar, designadamente, com situações em que os habitantes tenham dificuldades de movimentação e de manuseio.

Chegámos, assim, a uma matéria que exige abordagem específica e que corresponde às características espaciais e funcionais domésticas mais adequadas para pessoas idosas ou condicionadas na sua movimentação; uma matéria que encontra na capacidade de arrumação doméstica um tema crítico: seja pela importância que tem um ambiente doméstico bem arrumado e desafogado para a boa vivência de pessoas com tais condicionalismos; seja porque estes habitantes têm exigências específicas no manusear dos mais diversos elementos de arrumação (ex., alturas para aceder a prateleiras e usar máquinas), e dos associados planos de trabalho (ex., bancadas de cozinha e de casa de banho); seja porque podem existir necessidades específicas para mobilar compartimentos e outros espaços domésticos (ex., camas articuladas). E em tudo isto importa considerar que uma adequada funcionalidade para pessoas com movimentação condicionada corresponde, por regra, a uma excelente funcionalidade para todos.

Finalmente faz-se uma nota específica para a necessidade de se harmonizar toda esta desejavelmente excelente, diversificada e versátil capacidade de arrumação doméstica, com uma igualmente excelente capacidade de apropriação doméstica, um equilíbrio que pode ter múltiplas respostas (ex., casos-limite de grandes extensões de parede falsa que na prática correspondem a longas baterias de armários altos, visualmente escondidos), mas que, na prática não deve obrigar, a partir de opções formais muito expressivas, a leques apertados de opções formais em termos de mobiliário e elementos de decoração a escolher pelos moradores; defendendo-se, assim, um partido neutral e muito sóbrio nas escolhas arquitectónicas associadas a elementos de “mobiliário fixo”, ou, opcionalmente, à escolha dos habitantes entre um dado leque de opções apresentadas pelo projectista; e, sempre, uma adequada e ampla disponibilização de “boas paredes” potencialmente mobiláveis e apropriáveis.

e a estas matérias relativas às arrumações, apropriações e máquinas domésticas, voltaremos (mas nos artigos acima disponibilizados encontrarão, desde já, um amplo conjunto de reflexões).

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIII, n.º 617
Inovar na arrumação doméstica – 5 artigos sobre o tema e um novo texto
Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).
Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

domingo, maio 24, 2015

534 - Arrumação domésticas: aspetos gerais - Infohabitar n.º 534




O 3.º CIHEL recebeu 118 propostas de artigos.


Infohabitar, Ano XI, n.º 534

Arrumação domésticas: aspetos gerais
António Baptista Coelho
Artigo LXXX da Série habitar e viver melhor


Continuamos, em seguida, a Série editorial sobre "habitar e viver melhor", na qual temos acompanhado uma sequência espacial desde a vizinhança de proximidade urbana e habitacional até ao edifício multifamiliar.
Estamos agora a abordar , com algum detalhe, os espaços que constituem os nossos “pequenos” mundos domésticos e privativos, refletindo sobre as diversas facetas que os qualificam; e desenvolvemos hoje uma reflexão sobre os espaços de arrumação domésticos.

O relevo a dar à arrumação doméstica


Pequena introdução sobre uma função cuja importância tem sido descurada
A arrumação doméstica é, provavelmente, a função cuja importância tem sido menos evidenciada no conjunto das funções habitacionais, e é aquela cujo evidente teor “funcional”, dimensional e quantitativo, sendo muito claro e crítico, não pode fazer diminuir os respetivos aspetos qualitativos e de opções residenciais ambientais e de vivência.

Uma habitação marcada por excelente e adaptável capacidade e arrumação

De certa forma é até possível considerar a própria compartimentação doméstica como uma meta-arrumação, que numa situação-limite poderá resumir-se a uma planta livre na qual se poderão distribuir, diversificada e mutacionalmente, alguns elementos de mobiliário com carácter extremamente móvel – lembrando, por exemplo, os velhos modos de viver medievais – que garantam um mínimo necessário de arrumações (sendo a restante arrumação garantida, por exemplo, de forma concentrada, em elementos/espaços específicos), podendo ser a própria compartimentação assegurada por tabiques móveis e também com evidente carácter mutacional e adaptável.

Lembramos, aqui estas possibilidades pois, como se entende, elas marcam, profundamente, determinadas opções de estruturação doméstica, não apenas tradicionais – o caso da habitação japonesa, por exemplo –, mas também “inovadoras” e atuais; referimo-nos aquelas soluções de quase planta livre, com instalações (elementos com águas e esgotos) bem concentradas e com soluções de arrumação igualmente concentradas, e associadas a soluções de compartimentação dinâmicas, porque potencialmente geradoras de diversos ambientes domésticos – escondendo ou mostrando, por exemplo, diversos espaços funcionais.

Arrumação como base de funcionalidade geral

A arrumação doméstica constitui uma verdadeira retaguarda logística da funcionalidade e do desafogo no interior privativo de uma habitação, possibilitando que as outras atividades se desenvolvam com eficácia, satisfação e “à vontade”, proporcionando, mesmo, margens ou reservas de “vivência”, evidenciadas, por exemplo, quer em situações em que é possível encerrar, facilmente, determinados espaços, que podem estar mais desarrumados ou que não gostemos de revelar, quer em situações de ocupação provisória e eventual de determinados espaços com camas ou outras pequenas zonas funcionais facilmente escamoteáveis, quando é, por exemplo, necessário acolher um hóspede ou disponibilizar mais uma pequena zona de trabalho ou de estar.

Fig. 01: Imagem de cozinha/sala de família com excelente capacidade de arrumação, de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H 4, Arquitetura: Jan Christer Ahlbäck.

Arrumação e apropriação

E a arrumação doméstica tem uma fundamental dimensão de apropriação, pois é pela capacidade de arrumar, dispor, evidenciar, tapar, e criar associações de mobiliário e outros elementos de arquitetura de interiores, que podemos apropriar a nossa casa, evidenciar a sua e a nossa identidade e expressar a quem nos visita aquilo que mais desejamos comunicar na forma como vivemos e, consequentemente, em muito daquilo em que acreditamos e que nos motiva.

Várias "dimensões" da arrumação doméstica

As várias dimensões da arrumação doméstica ficam bem evidentes na capacidade de uma dada sala poder acolher, com desafogo, e com alternativas de disposição, elementos de mobiliário patrimonial que gostemos de evidenciar e que, cumulativamente, ofereçam excelentes capacidades de arrumação; e parece ficar, assim, bem evidenciada a falta de cuidado que muitos projectos de habitação dedicam a esta matéria, obrigando, tantas vezes, a soluções de mobiliário estereotipadas e, além disso, atravancadas (por exemplo, com enormes sofás em espaços com dimensões acanhadas) e até funcionalmente deficientes.

Finalmente, nesta abordagem a uma redescoberta importância da arrumação, há que sublinhar alguns aspetos:

- A arrumação pode ultrapassar os aspetos específicos que a ela estão habitualmente associados para abarcar a capacidade de proporcionar, com eficácia, alterações radicais de ambientes domésticos – por exemplo transformar um pequeno quarto em saleta, através da elevação ou rebatimento da cama. Esta virtualidade da arrumação, em termos de conversão rápida e radical de espaços domésticos, associa os aspectos referidos de arrumação geral e de arrumação de mobiliário com aspectos de curiosidade, diversidade e surpresa no recheio dos espaços domésticos, aspecto este que merece um desenvolvimento específico.

- Aspectos de curiosidade, diversidade e surpresa no recheio dos espaços domésticos: as passagens “embebidas” em grandes roupeiros, as continuidades de portas de arrumações e de quartos, as paredes de arrumação, as paredes-biblioteca, etc.

- A arrumação numa habitação pode ser altamente diversificada, versátil, disseminada e com elevada capacidade global.

- A arrumação, as portas, rodapés, e outros aspetos de pormenorização interior podem/devem integrar uma “solução” de arranjo/aspecto única, marcada pela sobriedade e diversidade de relações de integração.

O arrumar do mobiliário e do resto

Em primeiro lugar, há que sublinhar que a ação de arrumar o mobiliário se refere ao principal aspeto de apropriação da habitação pelos seus habitantes, sendo que esta apropriação se centra, na prática, na, frequente, apropriação do espaço doméstico pelo casal que habita, ou neste pelo elemento do casal que assume preponderância nesta ação; e aponta-se este aspeto porque, frequentemente, crianças, jovens e mesmo idosos têm os seus espaços mais "pessoais" marcados pelo "mobilador" de serviço, um agente que, até, em certos grupos sociais tem uma intervenção profissional específica, ao nível da arquitetura de interiores, dita frequentemente "decoração", e neste caso a maior ou menor adequação a necessidades e gostos específicos fica a depender da respetiva qualidade profissional da intervenção, que no entanto se pauta, com infeliz frequência, por um desenrolar de modismos e "mestrias" pessoais, que pouco aou nada ligam a esses aspetos de adequação.

Fig. 02: Sala-comum com boa capacidade de integração de mobiliário de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H 5, Arquitetura: Bengt Hidemark.

Vantagens de uma casa bem mobilável

Naturalmente que  a existência de boas extensões de paredes bem usáveis, de cima a baixo e sem grandes "zonas mortas" devido ao funcionamento de portas e janelas, associada a um versátil e razoavelmente folgado dimensionamento geral dos compartimentos e espaços de circulação, neste caso com especial enfoque nas respetivas dimensões menores ("de largura"), é uma condição básica para uma boa "mobilaridade".

"Mobilaridade" e adaptabilidade

E podemos ir um pouco mais longe, considerando que se o "hábito faz o monge", então o mobilar fará a natureza do compartimento, e assim habitações em que todas as suas assoalhadas tenham dimensões folgadas e boa mobilaridade - o que não implica serem "super-espaçosas" - são óptimas pois, cada um dos seus espaços poderá tornar-se: quarto, sala, saleta, escritório, sala de jantar, atelier, pequena galeria de arte, oficina, quarto de vestir, e, até quem sabe, grande sala de banhos, etc., etc. Numa versatilidade que tudo tem a ver com o desenvolvimento de casas apreciadas por muitos e onde muitos podem habitar, marcar e alterar em termos de usos, ao longo de extensos períodos temporais, e aqui há matérias associadas a conceitos de durabilidade do parque habitacional e ligadas a aspectos essenciais de adaptabilidade doméstica e de "casa para a vida" ou de "casa para muitas vidas".

E nestas matérias é importante considerar que muito poderá depender de opções básicas entre as quais se destacam aquelas em que se prefere ter um menor número de compartimentos, favorecendo-se uma maior espaciosidade e mobilaridade dos mesmos.
Importa considerar a arrumação doméstica numa dupla e estruturante perspetiva: uma expressiva capacidade de arrumação de diversos tipos e famílias de mobiliário que sejam os mais habituais em cada tipo de compartimento (por exemplo quartos, salas, etc.); e uma capacidade de arrumação dos inúmeros pequenos objetos e elementos, dos tipos mais diversos, que estão ligados à nossa vida diária em casa.

O primeiro tipo de capacidade de arrumação está “embebido” em cada compartimento e em cada espaço doméstico e, basicamente, é apreciável pela quantidade de mobiliário que é possível “arrumar” em cada espaço da nossa casa, mas naturalmente arrumado de forma a que tenha um máximo de utilidade e a que proporcione espaço livre agradável e desafogado à sua volta.

Esta capacidade deve poder encontrar-se seja num corredor e num espaço de entrada, que se possam mobilar, para serem mais úteis e também mais acolhedores e domesticamente caracterizados, além de servirem como espaços de passagem, seja numa casa de banho ou numa cozinha, que se possam mobilar, pelo menos minimamente, para serem mais úteis e também mais acolhedoras, mais “domésticos”, seja num quarto, para que este possa ser, assim, mais apropriado e individualizado, e naturalmente mais útil, seja numa sala-comum, para que esta possa cumprir, realmente, a sua função-base de integração de várias actividades domésticas, deixando espaço livre para o bom uso das diversas zonas e não se resumir, como é infelizmente frequente, a uma espécie de mostruário de peças de mobiliário entre as quais é, até, muitas vezes, difícil passar.

A importância da capacidade de integração de mobiliário

É importante sublinhar que a capacidade de arrumação de mobiliário oferecida por uma dada habitação deveria ser um elemento considerado com tanto cuidado como o cuidado investido, por exemplo, na boa iluminação natural doméstica, pois trata-se aqui de disponibilizar a um dado agregado familiar a mais importante condição de apropriação do seu espaço de vida diária, uma apropriação que tem ligações directas com a fundamental adaptabilidade de cada habitação às necessidades, modos de vida e sonhos de habitar de cada um de nós, mas que também se liga, directamente, à capacidade de identificação e de marcação de cada casa em relação com quem a habita, proporcionando-se, de certa forma, uma extensão da identidade de cada um de nós e de cada grupo familiar ao seu espaço de habitar privado, o que tem também uma enorme importância – e que faz sobressair, mais uma vez, o tanto que no habitar está para além dos “simples” aspectos funcionais.

References/Referências/notas


Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:

As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.

Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.

A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.

Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.


Infohabitar, Ano XI, n.º 534
Artigo LXXX da Série habitar e viver melhor
Arrumação domésticas: aspetos gerais - Infohabitar n.º 534

Editor: António Baptista Coelho 
abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.