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segunda-feira, janeiro 15, 2018

627 - Uma nova funcionalidade doméstica - Infohabitar n.º 627

Infohabitar, Ano XIV, n.º 627

Número total de visualizações de página da Infohabitar em 15 de Janeiro de 2018 às 9h,00 (de Portugal): 999,964

CAROS LEITORES, ESTÁ MESMO, MESMO A  SER  ULTRAPASSADA A “BARREIRA" DO MILHÃO DE VISUALIZAÇÕES EM 14 ANOS DE EDIÇÕES DA INFOHABITAR

Parabéns a todos os autores e leitores que editaram e leram os nossos artigos; e vamos tentar chegar aos dois milhões mais cedo (antes dos 28 anos de edições), e para isso precisamos de artigos e de divulgação – artigos que nos sejam enviados (para abc.infohabitar@gmail.com) e uma divulgação que cada um de vós possa fazer no vosso “círculo” profissional e pessoal de contactos.

PS: e acreditem que, há 14 anos atrás, começámos mesmo com o contador a "0"; foi difícil, mas agora dá bastante prazer.


Fig. 01: Embora se critique neste artigo o mau uso e a continuidade de um uso datado e inadequado do funcionalismo arquitectónico habitacional é urgente lembrar e divulgar os excelentes exemplos de um adequado funcionalismo urbano e arquitectónico dominantemente residencial, que seria bem importante resgatar, recuperando as suas imagens urbanas e divulgando as suas excelentes realizações - no esboço, uma vista do exemplar e actualmente tão pouco estimado Bairro de Olivais Norte em Lisboa, um verdadeiro caso de referência nacional e europeu que assim deveria/deverá ser tratado.


Edita-se o artigo da Série “Habitar e Viver Melhor” n.º CIV

Uma nova funcionalidade doméstica

por António Baptista Coelho

Uma nova funcionalidade doméstica - o tais, bem conhecidos, espaços funcionais domésticos, mas agora bem personalizados, diversos, agradáveis e envolventes


Uma nova e mais adequada funcionalidade doméstica
O que se procura apontar no texto que se segue é a possibilidade e a oportunidade de se seguirem outros caminhos na concepção dos espaços habitacionais privados que não sejam os que são, habitualmente, associados a aspectos específicos de funcionalidade e mesmo de alguma “maquinização” das actividades que marcam a nossa vivência doméstica.
Tais ideias referem-se, essencialmente, aos espaços de cozinha e de casa de banho, embora outros espaços e subespaços da casa também possam e devam ser reencarnados numa perspectiva que não lhes negue as suas exigências funcionais, mas que as recoloque, finalmente, sob a alçada de uma agradável e vital caracterização doméstica; acabando de vez com a ideia de “máquinas de habitar”, assim reconvertidas a máquinas habitáveis e “domesticadas”.
E de certa forma esta mesma perspectiva de recuperação do sentido doméstico, agradável, envolvente, sossegado/calmo, caloroso, agradavelmente expressivo e identitário do habitar e especificamente dos espaços da habitação, é um caminho que vai continuar a ser abordado em próximos textos, referidos aos desejáveis subespaços que têm de compor/integrar e vitalizar/caracterizar os espaços maiores da habitação; e neste sentido obrigando-os a determinadas condições de adaptabilidade e versatilidade no seu uso e na sua apropriação.
Neste sentido e desenvolvendo um exercício que será interessante e muito rico alargar a múltiplos espaços habitacionais, iremos, em seguida, reflectir um pouco nesta perspectiva, e especificamente sobre as duas sub-tipologias espaciais domésticas que estão mais ligadas a essa “tradição” funcionalista, designadamente, os espaços de cozinha e de casa de banho. Naturalmente que sabemos não se tratar apenas de uma “tradição” funcionalista, pois, evidentemente, tais espaços têm exigências funcionais específicas e rigorosas, no que se refere a aspectos de segurança no uso, higiene, facilidade de limpeza, manutenção e “cadeias” funcionais aconselháveis, mas parece ser tempo de salvaguardar tais exigências, mas, no mínimo, harmonizando-as tendo em conta alguma novidade e/ou redescoberta associadas a um expressivo e eventualmente dominante sentido de domesticidade, sendo tempo de reencarar tais espaços com essa abertura de espírito e considerando, mesmo, que estas novas ou renovadas opções possam ter, eventualmente, expressão directa na própria caracterização das respectivas habitações.
E neste sentido abordam-se, em seguida, os espaços de cozinha e de casa de banho, fazendo-se uma pequena nota final sobre os espaços/elementos de arrumação e outros espaços ditos “de serviço”.

Fig. 02: está na altura de olharmos as "velhas" tipologias de vizinhança próxima e de edifício e habitação, nas suas mútuas relações e agregações, com outros olhos, inspirando-nos nelas para se iventarem "novas" tipologias "pós-funcionalistas".

Novas e antigas cozinhas

O espaço de cozinha constitui, historicamente, o núcleo e o coração de actividade da habitação, pelo menos quando pensamos na habitação popular, aquela que sempre foi, naturalmente, dominante e onde não existia pessoal dedicado à preparação e ao servir das refeições, e um coração da vida doméstica onde a preparação, o servir e o tomar as refeições era natural motivo de convívio familiar; um convívio que se passava também antes e depois das refeições e ao longo do seu alongado processo de preparação e que tinha e tem naturais “prolongamentos”, designadamente, no acompanhamento do recreio e do trabalho de casa/estudo das crianças e em muitas outras tarefas da “lide” doméstica que, globalmente, aconteciam também na cozinha ou “grande cozinha familiar”.
No âmbito da promoção habitacional intensiva que marcou o Século XX e em certo período histórico marcado pelas essenciais preocupações higienistas, seguidas das suas sequenciais preocupações funcionalistas, e numa altura em que muitas famílias ainda tinham apoios domésticos diversificados, seja no âmbito da família alargada, seja por parte de pessoal de serviço doméstico (muitas vezes reduzido já ao mínimo), assistiu-se como que a uma especialização da cozinha, tendo ficado o tratamento de roupas um pouco “pendurado” (sem espaço ou com pouco espaço específico atribuído), isto porque a tendência de funcionalização e especialização não conseguia servir bem todas as tantas funções entretanto identificadas; e assim certas funções da antiga cozinha multifuncional e convivial foram sendo menorizadas e integradas em espaços por vezes exíguos e mal localizados (ex., em espaços claramente residuais), enquanto as importantes funções de convívio natural e de refeições informais foram estrategicamente esquecidas ou então ridiculamente concentradas em pequenas mesas escamoteáveis e tantas vezes muito mal localizadas.
E, naturalmente, a regulamentação oficial fez eco desta “evolução”, que foi, inicialmente, positiva no sentido de se regrarem situações sem higiene/segurança e sem qualquer sentido funcional, mas que foi negativa porque empobreceu clara e gradualmente, ao longo do Século XX, toda a concepção arquitectónica doméstica (incluindo-se aqui, incrivelmente, não só a designada “habitação social/mínima”, mas a quase totalidade da promoção habitacional, que assim foi “simplificada”), seja no sentido do que seria uma importante continuidade cultural, seja no sentido da adaptabilidade a tantos e variados modos de viver a habitação.
E lembremos que hoje em dia, então, é que não há “pessoal doméstico”, que fique como que confinado aos espaços de “serviço”, a não ser em casos de excepção, e, portanto, estas considerações têm todo o sentido, devendo influenciar ou uma relação forte entre cozinha e estar, eventualmente, gerando-se amplos espaços de convívio familiar do tipo “sala de família”, ou uma redescoberta da grande cozinha familiar, multifuncional e convivial, a qual acaba por poder libertar o espaço de sala para funções mais específicas e/ou mais reservadas. E, já agora, lembremos as designações tantas vezes usadas para as cozinhas domésticas: espaços de serviço, zonas de água, zonas húmidas, etc – e vá lá que regulamentarmente elas sempre contaram como “área habitável” (a mais “valiosa” em termos regulamentares).  
 

Novas casas de banho

Quanto às “casas de banho” importa sublinhar a possibilidade de desenvolvimento da “figura” do espaço de banho com um sentido caracterizador e caracterizado por determinadas formas de viver a habitação. Situação que poderá ligar-se ao desenvolvimento de associações entre espaços de banho e outros espaços de estar, dormir e lazer com forte carácter identitário e relativamente privativo, embora espacialmente pouco controlado em termos dimensionais. O exemplo de um tal espaço é o sítio de banho de uma das casas do Arq.º Charles Moore, que se integra num espaço de estar e assume mesmo uma posição destacada neste espaço.
O sentido desta solução liga-se à recuperação de formas de banho tradicionais/antigas, que se associavam com flexibilidade aos diversos espaços da habitação, assumindo-se o banho como acto de prazer, além de função higiénica, acto esse expressivamente ambulatório, pois podia acontecer tanto junto a uma lareira, como numa grande cozinha multifuncional, neste caso por razões práticas de proximidade com a fonte de água quente.
De certa forma esta matéria de uma desejável recuperação do sentido amplo, de lazer e de prazer, do banho doméstico liga-se por um lado, ao interesse da separação entre funções higiénicas e de satisfação de necessidades básicas e o acto do banho, designadamente do banho de imersão, como função que tem também evidentes vantagens em termos da saúde, a tal “saúde pela água” (SPA), actualmente tão divulgada em equipamentos de turismo, mas que evidentemente deveria ter o seu papel garantido na habitação corrente.
Tudo isto tem também a ver com uma urgente opção de dignificação da “casa de banho” doméstica, resgatada da sua designação de “instalação/instalações sanitária/s” e que pode/deve assim deixar de ser relegada para os espaços interiores sobrantes das soluções habitacionais, ganhando direitos “de janela”, de desafogo espacial e de dignidade, identidade e até uma importante afectuosidade de acabamentos; em vez da fria disponibilização de um pequeno “mausoléu” de concentração de canalizações, serviços higiénicos e, por outro lado, luxos incoerentes em termos de “equipamentos sanitários” e de revestimentos até absurdamente impermeáveis).
E será sempre interessante reconsiderar a opção por um banho que possa ir mudando de sítio, conforme desejos e aspectos práticos (o caso do banho dos bebés é um bom exemplo deste tipo de banho), ou pela consideração do banho de imersão como elemento “central” de uma dada organização de um dado espaço doméstico estruturador da respectiva habitação – o que acontece no referido exemplo da casa de Charles Moore.
Importa ainda ter em conta que uma casa de banho pode e deve proporcionar uma expressiva apropriação em termos de arranjo geral, podendo constitui-se como extensão de um mundo muito pessoal, por exemplo, pela profusão de plantas tropicais e pela introdução de peças de mobiliário e de equipamento sanitário especiais, como é o caso de algum mobiliário especial e de uma velha banheira. De certo modo o que aqui se pode reforçar é o sentido de “casa de banho” personalizada e confortável, sendo para tal essencial a existência de boas condições de luz  e ventilação naturais.
E não tenhamos dúvidas que nada disto é compatível com espaços de “casa de banho” (realmente de “instalações sanitárias”) mínimos e interiores (tantas vezes encaixando mal até uma exígua banheira).


Fig. 03: a habitação ganha em carácter/identidade e verdadeiras funcionalidades com variadas e estimulantes misturas de usos e apropriações, que, no entanto, exigem um natural suporte dimensional e de estruturação doméstica.


Espaços/elementos de arrumação: breves notas

Sobre uma nova forma de encarar os espaços e elementos/equipamentos destinados à arrumação doméstica, apenas se lembra que é vital para um bom uso da habitação que ela integre uma adequada capacidade de arrumação (capacidade para mobilar, armários embutidos e compartimentos específicos), e que é possível estruturar a habitação com uma tal capacidade, deixando-a camuflada ou até parcial e estrategicamente visível, mas sempre bem “subjugada” na sua aparência e modo de usar a um ambiente expressivamente doméstico; não faz sentido é esquecer tais necessidades e/ou tratá-las sem sensibilidade de concepção, “colando”, posteriormente, “arrumos” a espaços anteriormente pormenorizados sem se considerar tal necessidade. 

Outros espaços “de serviço”: breves notas

Numa perspectiva de sensível “domesticação” da “velha” funcionalidade doméstica e visando-se uma promoção habitacional económica, não fará, talvez, muito sentido avançar com outras exigências funcionais muito desenvolvidas, podendo ser, eventualmente, preferível a junção dessas funcionalidades em diversos espaços domésticos, que para tal sejam suplementarmente dimensionados e proporcionando-se, assim, uma expressiva multifuncionalidade em diversos subespaços da habitação; e apenas a título de exemplo podemos imaginar a integração de máquinas de tratamento de roupa em casas de banho espaçosas, o desenvolvimento de uma varanda fechada que possa ser usada, em parte, para estender a roupa  e, em parte, como pequena zona de estar, a existência de espaço suplementar na cozinha para se poder passar a ferro e a existência de largos corredores de circulação, arrumação e estar especializado (ex., para leitura e estudo).

Como comentário a estas reflexões e na sua sequência, parece ser adequado apontar a oportunidade de se ir no sentido de se reequacionar a globalidade das “ditas” e bem conhecidas funcionalidades domésticas; e um pouco nesta perspectiva  em próximos artigos desta série iremos abordar a riquíssima matéria dos subespaços domésticos.

Notas finais:
Finalmente salienta-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, sedeado no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIV, n.º 627
Uma nova funcionalidade doméstica

Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

terça-feira, setembro 02, 2014

498 - Oferta diversificada de espaços domésticos específicos II- Infohabitar 498

Artigo LX da Série habitar e viver melhor

Infohabitar, Ano X, n.º 498

Oferta diversificada de espaços domésticos específicos II: variedade espacial e funcionalidade doméstica

Artigo LVX da Série habitar e viver melhor


Funcionalidade expressiva, mas dirigida para certas funções domésticas e não para determinados compartimentos


Tal como se tem apontado nesta série de artigos, as matérias da funcionalidade doméstica deverão ser específica e criteriosamente consideradas nas zonas de cozinha, tratamento de roupa e de instalações sanitárias, que são aquelas que suportam boa parte dos mais intensos serviços domésticos.

No entanto é fundamental destacar, desde já, que a funcionalidade doméstica não pode ser aplicada “cegamente” aos referidos compartimentos, mas especificamente às funções de preparação de refeições, de higiene pessoal e de tratamento de roupas que aí se desenvolvem, considerando-se que há muito mais vida doméstica para lá de tais funções nestes mesmos compartimentos e é deste “para lá” das funções que decorrerá boa parte do interesse das soluções domésticas, e será neste caminho que surgirão as “cozinhas salas de família”, os “quartos de banho” e os espaços de roupas domésticos; e atenção que não se está aqui a tratar de “habitação de luxo”, pois por vezes é uma questão de larguras úteis e do tal suplemento espacial estratégico

Nesta temática salienta-se que uma das ideias que continuam a estruturar as preocupações funcionais domésticas é o facilitar ao máximo a “lide da casa” nos seus variados aspectos e numa altura em que, cada vez mais, não há ninguém especificamente dedicado a uma tal lide, e essa facilitação encontra já um excelente apoio em muitos estudos funcionais e designadamente nos estudos que desde há muitos anos foram desenvolvidos pelo Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do LNEC e editados por esse Laboratório Nacional.


Funcionalidade doméstica privilegiando o convívio na habitação


E, nos restantes compartimentos habitacionais, a funcionalidade tem de ser devidamente conjugada com as outras qualidades domésticas e expressivamente embebida nos mais diversos elementos que integram o espaço doméstico.

Ainda nestas temáticas importa sublinhar que devem existir condições de funcionalidade e agradabilidade do estar/lazer da família e das actividades domésticas diárias, que na vida actual, das zonas urbanas, constituem as principais oportunidades de convívio entre os elementos do mesmo agregado familiar (ex., preparar e tomar refeição da noite/lavar e arrumar louça e utensílios/ver TV/conversar).

De certa forma o que aqui se propõe é que as zonas onde há um maior investimento em tarefas domésticas possam ser também as zonas com um potencial de convivialidade acrescido, uma condição que tem implicações seja numa funcionalidade maximizada das tarefas “obrigatórias” e funcionalmente mais exigentes, seja na protecção do convívio familiar relativamente a aspectos de desagradabilidade associados, como é o caso dos ruídos e cheiros produzidos.


Funcionalidade doméstica expressivamente aplicada à arrumação  


Outra das ideias que importa aprofundar e que, muitas vezes, é pouco atendida refere-se à oferta de uma (muito) boa capacidade de arrumação doméstica, tanto ao nível de arrumações especializadas, pormenorizadamente concebidas e estrategicamente localizadas (ex., roupeiros gerais e de quarto, despensa ou armário-despensa de cozinha), como ao nível da capacidade de disposição de mobiliário.

Nesta matéria é muito importante sublinhar que a capacidade geral de arrumação tem duas importantes consequências na habitabilidade e na “felicidade” doméstica, pois liberta realmente espaço habitável, espaço livre entre mobiliário, proporcionando, suplementarmente, alternativas de arrumação e de escolha de mobiliário, e porque ao proporcionar tais condições se constitui talvez no principal elemento de apropriação da habitação pelos seus habitantes, o que é, sem dúvida, algo de fundamental para uma profunda satisfação residencial.

E lembremos que é sempre desejável a proposta de soluções alternativas de arrumação de mobiliário numa dada solução de habitação.


Funcionalidade doméstica, apropriação pessoal e desafogo


Considerar que a espaciosidade dos espaços e compartimentos domésticos deve permitir a personalização espacial (ex., partes de parede livres para afixação de cartazes e desenhos, pequena varanda com prateleiras ou poial para constituir uma colecção de plantas em vasos, etc.).

Privilegiar que em cada espaço doméstico exista "espaço livre" verdadeiramente protagonista, seja para funções concretas (ex., circulação e recreio infantil), seja para a fruição do próprio espaço livre, que é fundamental para um sentido de espaço agradavelmente unificado; e há que considerar, esta perspectiva de “espaço livre” em relação com compartimentos e espaços ocupados pelas "mobílias completas" que são habitualmente usadas. Um espaço livre que é especialmente importante nos casos de habitantes jovens e idosos.

Segundo Sven Thiberg ("Housing Research and Design in Sweden", p. 157), a existência de espaços livres de mobiliário nos compartimentos habitacionais (livres) é importante, tanto para o recreio das crianças e o trabalho em casa, como para aumentar a flexibilidade dos espaços a diversos arranjos de mobiliário e simplificar os arranjos temporários (ex., festas familiares), por outro lado, a existência de espaços livres de mobiliário, amplos e bem proporcionados, nomeadamente, em vestíbulos e casas de banho, facilita os cuidados com crianças e doentes e a movimentação de idosos e deficientes.


Fig. 1

Funcionalidade doméstica e relação interior-exterior


Em termos de ideia geral e estruturadora de uma adequada organização doméstica salienta-se o interesse de se privilegiar um estimulante relacionamento entre todos os elementos e espaços de relação entre o interior doméstico e as zonas exteriores ao fogo, sejam elas os espaços comuns do edifício ou tratando-se do próprio espaço exterior e ambiente de vizinhança. Esta é uma matéria que, por si só pede um amplo desenvolvimento, no entanto há aqui temas de grande sensibilidade e potencial formal/funcional como são as condições de segurança bem integradas na imagem do edifício – isto é ganhar a relação com o exterior não a perdendo na pormenorização da segurança contra intrusão (o que não é fácil) [fig.] – e o integral aproveitamento da possibilidade de relação directa ou indirecta com o exterior e o máximo aproveitamento das melhores condições de insolação, iluminação natural e ventilação, equilibradamente compatibilizadas com os diversos conteúdos funcionais dos compartimentos.

A configuração e a localização dos vãos exteriores deve atender, nomeadamente, aos seguintes aspectos: relação com as funções mais prováveis em cada compartimento; insolação desejável e protecção da radiação solar, considerando a respectiva orientação; ventilação desejável e, mesmo em condições adversas, bem controlável; vistas exteriores próximas e paisagísticas funcionais e/ou interessantes (por exemplo de um piso térreo sobre um maciço de vegetação, ou sobre uma animada zona urbana); privacidade, que tem a ver com a natureza do compartimento em causa; e iluminação natural adequada aos usos dominantes de cada espaço ou compartimento, definida considerando a importância fundamental da iluminação na satisfação residencial.

O conforto ambiental geral dos diversos espaços e compartimentos domésticos deve estar de acordo com as seguintes exigências básicas: a cozinha deve receber boa luz natural ao longo de todo o dia; a sala deve receber Sol de manhã ou a partir do meio da tarde; os quartos devem receber Sol de manhã e estarem protegidos do Sol poente; as casas de banho devem ter janelas ou, no mínimo, um excelente processo de ventilação forçada; a entrada do fogo e os corredores devem receber luz do dia.

Notas editoriais:
·       (i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
·       (ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

INFOHABITAR Ano X, nº 498
Artigo LX da Série habitar e viver melhor

Oferta diversificada de espaços domésticos específicos II: variedade espacial e funcionalidade doméstica

Editor: António Baptista Coelho – abc.infohabitar@gmail.com

GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional



segunda-feira, julho 21, 2014

492 - ZONAS DOMÉSTICAS: PROPOSTAS ORGANIZATIVAS – I - Infohabitar 492


Infohabitar, Ano X, n.º 492

Zonas domésticas: propostas organizativas – I

Artigo LIV da Série habitar e viver melhor


Zonas domésticas: propostas organizativas – I

António Baptista Coelho

Provavelmente, há alguns anos, esta parte do trabalho, no âmbito de um estudo sobre a temática ampla do “habitar e viver melhor”, seria das mais importantes em termos de um apoio prático ao desenvolvimento de melhores soluções habitacionais. Tratava-se, então, afinal, de um relativo culminar de toda uma tradição de zonamentos funcionais ou funcionalistas, zonamentos estes que, infelizmente, ajudaram a destruir bairros de cidades e a uniformizar espaços domésticos no sentido do serviço a uma pessoa “média” e a uma família “média”, provavelmente a tal que deseja o T3, mas que acaba por se contentar com um T2 com uma pequena sala e uma pequena cozinha, quartos dimensionados para “mobílias completas” e uma sala-comum onde quase nem há espaço para encaixar todo o catálogo de mobiliário, quanto mais para aceitar toda uma vida doméstica que aí se tem de concentrar.

A culpa não foi apenas de quem projectou estes espaços, mas também de uma relativa paranóia regulamentar que, só por acaso, não acabou, ou acabará, por regulamentar tudo aquilo que tem a ver com a actividade humana.

Já se apontou que se considera haver matérias que têm de ser regulamentadas, como as ligadas à segurança, mas, mesmo nestes casos há que sopesar, em casos específicos, se será melhor assegurar mais segurança ou mais qualidade de vida, e se não haverá soluções alternativas, quando tais escolhas se colocarem e, por vezes, colocam-se mesmo. E, naturalmente, sempre que possível há que harmonizar tais condições de segurança com as condições aplicáveis de qualidade de vida; disso se falou um pouco quando andámos pelos espaços comuns dos edifícios.

Mas agora estamos em pleno “mundo” privado, e aqui o que há a regulamentar deve estar embebido em instalações e equipamentos de certa forma longe de quem habita, longe porque funcionalmente independente do habitante. E, assim, a ideia que se perfilha, aqui, no interior doméstico é a de um muito amplo leque de soluções, onde o que se garante além dessas condições “embebidas”, deve estar ligado a aspectos essenciais de funcionalidade, acessibilidade e higiene básica, aspectos estes muito concentrados em “zonas de água” (bancadas de cozinha, espaços de tratamento de roupa e casas de banho).

Teremos, assim, portanto e desejavelmente, uma organização-base doméstica que assegure uma funcionalidade maximizada dos espaços e elementos verdadeiramente “maquinais”, e designadamente daqueles associados às instalações de águas e esgotos, sendo que todos os outros mais do âmbito eléctrico devem ser integrados ao máximo numa ambientação doméstica, podendo mesmo optar-se pela sua camuflagem.

Quanto aos “velhos” aspectos de organização dita “funcional” da casa, tal como ainda são considerados, designadamente, no “mercado habitacional”, como por exemplo as “clássicas” “zonas íntimas” e outras zonas mais ou menos funcionais, julga-se que a estruturação doméstica será tanto mais negativa, no que se refere à sua assimilação por diversas famílias, quanto mais “hierarquizada”, "rígida" e “em árvore” for a respectiva organização.

O resto, e o resto que é quase tudo no espaço doméstico, deveria ser deixado a uma ampla liberdade de concepção, embora tal liberdade seja, como sabemos, uma condição gémea de uma apertada exigência de qualidade de Arquitectura.


Fig. 1

Dito isto, que será um tema geral orientador desta reflexão sobre habitações que possam influenciar uma vida mais feliz, apontam-se e comentam-se, brevemente, em seguida, algumas das “velhas”, mas adequadas, ideias de organização da habitação que podem informar as diversas soluções de organização domésticas, mesmo quando consideradas apenas a título de quadros organizativos genéricos – e regista-se que estas referências foram baseadas nos elementos recolhidos para o meu estudo intitulado “Do bairro e da vizinhança à habitação”, editado pelo LNEC (ITA 2).

E nessas “velhas” ideias iremos abordar,sinteticamente, servindo-nos das opiniões de um amplo leque de autores, as matérias que, em seguida, se apontam:

Espaços tipologicamente distintos em termos de socialização, privacidade e funcionalidade geral.
Matéria que interessantemente conjuga aspetos que por vezes são considerados de forma desagregada, provocando “organizações” domésticas muito discutíveis ou mesmo muito negativas.

Habitações “divididas” pela barreira entre usos essencialmente noturnos ou diurnos.
Matéria que não deve ser considerada “à letra”, em termos da referida “divisão”, mas sim numa aproximação a estruturações domésticas que salvaguardem aspetos essenciais de conforto e de privacidade, assim como alguma estimulante diversidade de arranjos e de ambientes gerais, que são proporcionados – contrariamente a quadros domésticos monótonos, repetitivos e sem capacidade de atração.

Zonas mais formais e mais informais da habitação – ou domínios das crianças, domínios dos adultos e domínios comuns.
A questão da boa aceitação doméstica, em termos de estruturação e pormenorização, a modos de vida mais formais ou mais informais é essencial quando se pretende dotar a habitação de uma boa capacidade em termos de adaptabilidade e de apropriação.

Habitação que se adapta à evolução etária e da composição da família e dos respetivos usos e desejos domésticos.
Uma habitação que se possa ir razoavelmente adaptadando, em termos de processos mais passivos ou mais ativos, à evolução etária e da composição da família e dos respetivos usos e desejos domésticos, é uma qualidade essencial, seja na máxima valia de cada habitação relativamente a diversos grupos de utentes e de agregados familiares que a usem ao longo de gerações, seja na sua versatilidade de resposta ao uso pela mesma família ao longo dos anos e designadamente por pessoas que vão envelhecendo, mas que devem poder continuar a contar com a sua habitação.

Influência da ocupação habitacional no dimensionamento doméstico.
As questões ligadas à ocupação tendencial específica de um dado espaço doméstico, por exemplo, por uma família com crianças, por um jovem sozinho, ou por um casal de idosos, deve influenciar a “tipologia” do respetivo dimensionamento (ex., maior ou menor espaciosidade) e, naturalmente, da sua estruturação e conteúdos funcionais.

Importância da socialização na estruturação e na espaciosidade domésticas.
Finalmente, nesta pequena súmula de aspetos que influenciam as propostas organizativas para as zonas domésticas, salienta-se a importância que sempre tem o apoio ao convívio/socialização na respetiva estruturação e espaciosidade domésticas.

No próximo artigo serão desenvolvidas, um pouco mais, estas matérias, mas desde já se aponta a sua importância, designadamente, quando aplicadas a soluções habitacionais espacialmente muito condicionadas, como é o caso das soluções de habitação de interesse social.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

INFOHABITAR Ano X, nº 492
Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT)

Zonas domésticas: propostas organizativas – I

Artigo LIV da Série habitar e viver melhor
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.