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domingo, abril 06, 2014

479 - Imagem urbana a preto e branco: Lisboa antiga I - Infohabitar 479

Imagem urbana a preto e branco: Lisboa antiga I

Infohabitar, Ano X, n.º 479

Imagens urbanas a preto e branco: Lisboa antiga I

António Baptista Coelho


Iniciando uma nova série de artigos da Infohabitar inteiramente integrados pela edição de imagens - desenhos e fotografias -, apresentam-se nesta edição algumas imagens associadas à, atualmente, bem importante redescoberta da matéria da Imagem urbana, neste caso a "preto e branco" (e cinzentos) e especificamente à temática da "Lisboa mais antiga", a dos velhos bairros. E lembra-se que o último artigo aqui editado tratava exatamente da vital matéria da imagem urbana, assunto ao qual voltaremos em breve..



Imagem 01:

imagem urbana como apoio à leitura e explicação do funcionamento do espaço de uso público .


Imagem 02:

Imagem urbana estruturadora de partes da cidade.


Imagem 03:

Imagem urbana e pormenorização das vizinhanças.



Imagem 04:

As imagens como suporte da curiosidade e do sentido lúdico no espaço urbano.


Imagem 05:

Imagem urbana como veículo de dinamismo e caráter.


Imagem 06:

Imagem urbana como meio de desenvolvimento da atratividade do espaço público.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores..
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano X, nº 479
Imagens urbanas a preto e branco: Lisboa antiga I
Um artigo, ou uma sequência de imagens de António Baptista Coelho
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do LNEC
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.



domingo, fevereiro 21, 2010

286 - Apresentação de "O MODERNO REVISITADO: Habitação Multifamiliar em Lisboa nos Anos de 1950", um livro de Ricardo Costa Agarez editado pela CML - Infohabitar 286

Infohabitar, Ano VI, n.º 286

Com reduzidos comentários faz-se, em seguida, a apresentação do livro:
O MODERNO REVISITADO: Habitação Multifamiliar em Lisboa nos Anos de 1950,

de Ricardo Costa Agarez.

Trata-se de uma excelente e recente (2009) edição da Câmara Municipal de Lisboa, integrada na colecção Lisboa: arquitectura e urbanismo (n.º 5), apresentado há poucos dias e que, desde já, vivamente se recomenda a um amplo leque de potenciais leitores, desde os especialistas no habitar, aos projectistas, e não só os arquitectos, até aos estudiosos e amadores de Lisboa.



Fig. 01: a capa do livro

O livro assegura continuidade à muito meritória actividade de edição de trabalhos de investigação arquitectónica, urbanística e sobre o habitar, por parte do Departamento de Património Cultural, da Direcção Municipal de Cultura do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa (CML), um Departamento coordenado pelo Arq.º Jorge Ramos de Carvalho, que assim disponibiliza o 5º volume da colecção "Lisboa:", uma colecção ligada às áreas dos Estudos Sociais e da Arquitectura e Urbanismo na sua relação com o aprofundamento do estudo de uma cidade viva e patrimonial.

Faz-se, em seguida, e para despertar o fundado interesse dos potenciais leitores, uma leitura, apenas minimamente comentada, do índice deste livro do arquitecto Ricardo Costa Agarez, cuja breve resenha biográfica, extraída da badana do seu livro, se junta já de seguida.




Fig. 02: breve resenha biográfica do autor.

Apresentação, brevemente comentada, da estrutura de conteúdos do recente livro:
O MODERNO REVISITADO: Habitação Multifamiliar em Lisboa nos Anos de 1950,
de Ricardo Costa Agarez.

Nota: as imagens juntas são do referido livro e destinam-se a ilustrar e exemplificar o seu excelente aspecto gráfico.

O capítulo 1 intitula-se "Lisboa, anos de 1950".
O primeiro capítulo integra os seguintes temas: a actividade planificadora da CML e o envolvimento camarário no "problema da habitação"; a infraestruturação e o equipamento da cidade; as obras particulares vistas pela Câmara Municipal; e, finalmente, a CML e o "Problema Arquitectónico de Lisboa".



O capítulo 2 tem o título "Conceitos e instrumentos condicionantes da arquitectura de habitação multifamiliar em Lisboa nos anos de 1950".
O segundo capítulo desenvolve duas temáticas fundamentais: "o problema da habitação", numa perspectiva articulada com a abordagem das questões da salubridade e moralidade; e a matéria da regulamentação da construção urbana em Lisboa.
Sendo que esta matéria mais regulamentar é desenvolvida em termos das seguintes temáticas: a salubridade da "edificação em conjunto", a habitabilidade dos espaços interiores, os aspectos construtivos e, concluindo o capítulo, a sempre crítica questão estética integrada nos regulamentos.

O capítulo 3 intitula-se "Premissas de modernidade na habitação multifamiliar".
O terceiro capítulo desenvolve, também, duas temáticas fundamentais: uma abordagem das "características modernas da habitação"; e uma análise da "habitação moderna" em Portugal, considerando-se apontamentos teóricos e exemplos publicados e rematando-se o capítulo com uma abordagem ao "prédio de rendimento".




Fig. 03: exemplo de duas páginas, entre as dedicadas a 115 exemplos de habitação multifamiliar em Lisboa nos anos de 1950

O capítulo 4 tem o título "Cento e quinze exemplos de habitação multifamiliar em Lisboa nos anos de 1950".
O quarto capítulo, que se desenvolve ao longo de cerca de um terço do livro (mais de 100 páginas), dedica-se à apresentação de 115 casos de habitação multifamiliar realizados em Lisboa nos anos de 1950, uma apresentação estruturada pelas diversas zonas da cidade e feita, sistematicamente, para cada um dos casos, através de um texto de síntese e apresentação do edifício, de uma sua imagem actual ou, sensivelmente, à época da respectiva construção - casos em que é naturalmente interessante a relação da imagem do edifício com a respectiva imagem em termos de animação urbana -, e da sua planta original, muito bem reproduzida a partir das cópias heliográficas do respectivo projecto, em tempo submetido à CML.

As partes da cidade consideradas e onde se localizam os edifícios apresentados são as seguintes três zonas:

(i) a zona central norte, incluindo as Avenidas Novas, algumas parcelas e orlas de Alvalade e margens das referidas Avenidas Novas;

(ii) a zona central oriental - os bairros a nascente do eixo Av da Liberdade, Praça Marquês de Pombal e Av. Fontes Pereira de Melo;

(iii) e a zona central ocidental - a poente do eixo Av da Liberdade/Parque Eduardo VII, até aos bairros de Campolide e Campo de Ourique.




Este capítulo 4 termina com um interessante texto sobre a temática da integração de elementos de artes plásticas em edifícios habitacionais multifamiliares, um texto que faz sequência com a análise, imediatamente anterior, de edifícios na Av. Infante Santo, e que corresponde a uma matéria que se julga ter crítica importância seja na perspectiva de salvaguarda e maior divulgação dos excelentes exemplos que temos em Lisboa, seja no que se julga poder ser um fundamental reatar deste tipo de intervenções na cidade actual.

Mas ainda a título de remate do capítulo e sob a forma de extra-texto são editados, na pág. 222, os muito interessantes "trâmites de apreciação de um projecto apresentado a licenciamento à Câmara Municipal de Lisboa em 1958", numa sequência de 13 "passos" de análise e informação, onde se integra a "análise da solução arquitectónica e do projecto em geral «sob o ponto de vista regulamentar» e «sob o ponto de vista estético» ..."


O capítulo 5 intitula-se "Os autores dos exemplos apresentados".

Neste quinto capítulo, ao longo de uma excelentes 50 páginas, faz-se e, muito bem, justiça aos autores das obras que são apresentadas no capítulo anterior, sendo que as análises, projectista a projectista, inclui preciosas considerações tipológicas e ligadas à justificação de várias das soluções edificadas e de habitações desenvolvidas.

Este quinto capítulo, que nos apresenta um conjunto amplo de autores, e que refere muitas das suas associações profissionais, bem como muitas das preocupações, objectivos, procuras e eventuais êxitos ou situações menos conseguidas, é rematado com um conjunto de notas biográficas e curriculares, organizadas alfabeticamente, e que proporcionam uma boa leitura dos "percursos profissionais dos arquitectos autores dos casos de estudo".

O capítulo 6 tem o título "considerações sobre a arquitectura para a habitação multifamiliar em Lisboa nos anos de 1950".

Este sexto e último capítulo, "tradicionalmente" a altura de o autor fazer uma síntese conclusiva, é aproveitado, e bem, para o tratamento sequencial de quatro temáticas, iniciando-se, provavelmente, com um núcleo disciplinar importante:

(i) uma primeira temática refere-se à apresentação do "programa de habitação multifamiliar" e das suas particularidades, abordando-se aqui, sinteticamente, "o promotor", "o projectista", "a construção" e "o destinatário";

(ii) a segunda temática dirige-se para a definição, igualmente sintética, das "categorias da habitação multifamiliar e sua distribuição";

(iii) a penúltima temática deste último capítulo do livro (re)centra-se no "papel da Câmara Municipal de Lisboa"e foca-se na influência dos processos de licenciamento municipal nos aspectos regulamentares e nos aspectos estéticos ou do "partido arquitectónico".

(iv) e, finalmente, a temática com que o livro termina intitula-se "a renovação do prédio de rendimento" e subdivide-se nas matérias ligadas às "dificuldades de inserção na cidade existente" e ao "desempenho dos autores" (naturalmente, títulos do autor).

E desta última parte retiram-se duas citações (pág. 302):

"A par da confirmação ... da mestria de um número reduzido de nomes, surge um conjunto de autores «desconhecidos», ainda ausentes da historiografia nacional, praticantes de uma arquitectura moderna eficaz e discreta, solucionando com competência e cuidado a instalação quotidiana de fogos na cidade existente."

e,

"Se há, como acreditamos, características inerentes ao trabalho do arquitecto moderno - o rigor geométrico racionalista, a consciência volumétrica acentuada, a veracidade da relação entre planta e alçado, a procura de novos atributos e modelos para a configuração e concatenação dos espaços, nesta caso domésticos, a ligação umbilical sem cedências da arquitectura ao «espírito do tempo» seu contemporâneo -, estas são identificáveis em alguns dos projectos assinados por estes autores."

Salienta-se, ainda, que o livro é rematado com uma extensa, bem organizada e muito útil secção de "fontes e bibliogafia".



Este livro com 324 páginas intensamente ilustradas com imagens fotográficas e reproduções de plantas de pisos de edifícios multifamiliares lisboetas realizados na década de 50 do século passado, constitui um "tijolo" bem "desempenado" e bem assente na urgente, fundamental e aliciante construção dos estudos habitacionais e tipológicos, sobre o habitar português que integra o nosso património, perspectivando quer a sua vital protecção e divulgação patrimonial, quer o seu papel como elementos de base e de referência para a também urgente e bem fundamentada diversificação e renovação de uma oferta tipológica residencial bem embebida na cidade coesa. São contribuições como esta que nos apoiam na luta contra a doentia repetição das mesmas soluções de espaços comuns e privativos habitacionais.

E, mais uma vez, aqui nas páginas do Infohabitar, se sublinha que para se avançar, fundamentadamente, em qualquer área e, especificamente, nestas tão complexas como ricas matérias ligadas a uma boa/melhor cidade bem/melhor habitada, é básico e essencial "fazer o trabalho de casa", estudar e registar o que foi feito, tirar do que foi feito as lições possíveis, em leituras cuidadas e cíclicas, identificando os melhores e os piores caminhos, que nos servirão de referências naquilo que há que fazer, ainda, e nos cuidados de que temos de rodear tudo aquilo que foi bem feito e que contribui, cada vez mais, para a verdadeira alma da cidade e para a valiosa construção do seu carácter. Estudos como este são excelentes "tijolos" numa construção vital para uma boa cidade.

Parabéns, portanto, ao autor e ao editor, a CML e, especificamente, o Departamento de Património Cultural da Direcção Municipal de Cultura do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa.

Mas porque estas realizações editoriais tão cuidadas e pormenorizadas têm realmente "nomes", parabéns também à respectiva Direcção de Projecto, assegurada pelo Arq.º Jorge Ramos de Carvalho, que dirige o referido Departamento de Património Cultural, e também, à coordenação editorial assegurada por Maria Teresa Bispo.

É ainda necessária uma referência às fotografias, do autor do texto e de José Manuel Gema e à cooperação, que foi com certeza preciosa, do Arquivo Municipal de Lisboa - Arquivo Fotográfico, com a referência a Cláudia Damas.

E, finalmente, o apontamento do apoio por parte da Fundação Calouste Gulbenkian, do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana e do Arquivo Pessoal Arquitecto Manuel Laginha.

Por fim, não queremos deixar de desejar à CML e ao seu Departamento de Património Cultural a continuidade de uma tão meritória acção editorial, pois a cidade tem muias zonas, muitas épocas e muitos autores, que merecem estudos tão sérios, legíveis e construtivos como este; sendo que com esta actividade todos ganhamos, em termos culturais e de divulgação do nosso património, reforçando-se, sem dúvida, a presença patrimonial dos espaços e edifícios estudados, o que constitui, sempre, algo de muito valioso para o seu futuro e o da cidade que integram.

António Baptista Coelho


Notas editoriais:
A presente edição do Infohabitar integrou um artigo de apresentação e comentário de um novo livro, numa iniciativa que terá, no futuro, continuidade, na sequência da edição de obras que nos cheguem e que se revelem de interesse especial nas amplas áreas do habitar.
Julga-se que a obtenção do presente livro será possível na Livraria Municipal da CML, da qual se juntam as respectiva referências: Avenida da República, nº 21 A, 1050-185 Lisboa, Telefone: 21 356 78 69, E-mail: livraria.municipal@cm-lisboa.pt , Horário de Funcionamento: de 2ª a 6ª das 09.30 às 17.00h

Infohabitar, Ano VI, n.º 286
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 21 de Fevereiro de 2010



sexta-feira, março 30, 2007

132 - Sobre o Bairro de Alvalade de Faria da Costa: um exemplo bem actual de sustentabilidade urbana e residencial – artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 132

 - Infohabitar 132

Sobre o Bairro de Alvalade de Faria da Costa: um exemplo bem actual de sustentabilidade urbana e residencial 


Neste artigo, depois da apresentação e do enquadramento do Bairro de Alvalade, projectado pelo arquitecto e urbanista Faria da Costa, em Lisboa, fala-se do que se designa pelo “mistério” de Alvalade, nem mais nem menos do que o fazer cidade viva com habitação, depois aborda-se este bairro como exemplo, bem actual, de sustentabilidade urbana e residencial, em seguida comenta-se a intensa qualidade urbana e paisagística de Alvalade e, finalmente, aponta-se Alvalade como suporte de experiências residenciais e urbanas e conclui-se com alguns comentários sobre a utilidade social deste “novo” bairro de Lisboa.


(Fig.01) Uma rua residencial com edifícios das HE-FCP.

Apresentação e enquadramento do Bairro de Alvalade


A II Grande Guerra tinha acabado e a inovação que chegava ao País, bem como as críticas necessidades habitacionais, levaram à criação, em 1946, de um novo organismo, as “Habitações Económicas”, ligado à Federação das Caixas de Previdência (HE-FCP), tecnicamente equipado, e orientado para uma promoção habitacional mais urbana. Este organismo irá actuar ao longo de cerca de 25 anos, até 1972, altura em que as suas atribuições passaram para o recém-criado Fundo de Fomento da Habitação (Teotónio Pereira, “As casas económicas 1947 – 1969”, Jornal Arquitectos n. 16, 17 e 18, Março/Abril de 1983, p. 11).


Nas Habitações Económicas da Federação de Caixas de Previdência - (HE-FCP), destaca-se ainda o muito meritório, extenso e aprofundado trabalho do Serviço de Estudos e Projectos, que, entre outras actividades, publicou (embora com a designação de “circulação restrita”) um significativo e extremamente útil conjunto de cadernos técnicos e de estudo e investigação sobre a problemática habitacional, que abarcaram desde aspectos de pormenorização construtiva a estudos normativos.


(Fig. 02) Exemplo dos estudos habitacionais desenvolvidos para Alvalade na Federação de Caixas de Previdência - Habitações Económicas, e apresentados pelo Arq. Miguel Jacobetty no 1.º Congresso Nacional de Arquitectura, em Maio/Junho de 1948

Considerando a excelente obra deixada pelas Habitações Económicas (HE-FCP) é interessante salientar que elas continuam a ser, ainda hoje, o organismo português ligado à habitação de interesse social que mais tempo esteve em actividade, merecendo, naturalmente, uma adequada divulgação da sua actividade, que foi longa, completa e produtiva.

A criação das HE-FCP, em meados dos anos 40, conjugou-se com a programação, pela Câmara Municipal de Lisboa, do bairro de Alvalade.

O ainda hoje inovador grande bairro de Alvalade – 45.000 habitantes em 230 ha –, foi realizado para 31.000 habitantes em fogos de renda económica mais 2.000 em moradias também de renda económica, sendo os restantes fogos marcados também por modalidades intermédias de promoção habitacional, como é o caso da renda condicionada.

Este novo bairro caracterizou-se por ser um conjunto integrado de habitação para vários grupos sociais e de equipamentos colectivos e serviços dos mais diversos tipos, conjunto este que foi sendo concluído em prazos bem definidos e razoavelmente cumpridos.


(Fig. 03) Alvalade, Planta de apresentação, 1945, Arquivo Municipal de Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa.

O “mistério” de Alvalade: o fazer cidade viva com habitação

Mais do que um bairro fez-se cidade viva, e “os mistérios” (da qualidade urbana e residencial) de Alvalade, desenhado por Faria da Costa, levar-nos-iam longe, mais longe do que é possível ir neste capítulo.

A referência ao “mistério” de Alvalade tem origem num texto de Cardoso Pires, integrado no livro “A Cavalo no Diabo”, em que o escritor diz sobre Alvalade (onde viveu muitos anos): ” Não tem história, só comércio, vá lá, bombeiros e escolas para lhe dar alegria. Os jornais dizem que é uma das zonas de mais assaltos em Lisboa, mas não se vê nem sombra de polícia ... E no entanto, à primeira vista tudo é ordem e paz – o mistério de Alvalade está aí.”

Regista-se que, já em 1999, no âmbito de um trabalho de cooperação entre o LNEC e o Centre Scientifique et Technique du Bâtiment (CSTB), o mistério de Alvalade voltou a destacar-se, quando elementos desse organismo de investigação parisiense, após terem visitado Alvalade, salientaram ser este um dos melhores conjuntos urbanos residenciais que visitaram na Europa.


(Fig. 04) A caracterização envolvente e chã das “células sociais” de Alvalade

E, bem a propósito, junta-se um texto do CSTB:

“C’est un urbanisme qui réussit à articuler et à hierarchiser, sur une grande échelle urbaine, les différents espaces – des avenues aux impasses, et des espaces les plus publics aix espaces les plus privés. Il est surprenant que cet exemple ne soit pas valorisé davantage, dans la littérature professionelle internationale; il représente en effet une forme idéal typique de la ville urbaine moderne, comparable à celle élaborée par Haussman à Paris ou par Cerda à Barcelone.

A propos de l’Alvalade il faut d’abord parler du plaisir de la déambulation au hasard des avenues et des rues, jusqu’au coeur des îlots. Nous avons retrouvé ce plaisir typiquement urbain du promeneur qui flâne, erre, découvre un lieu inconnu, se laisse surprendre au milieu d’une placette aux allures villageoises, par la diversité des porches, par les mille détails de modénature, par l’échappée visuelle sur un clocher, par l’ambiance champêtre d’un jardin, puis par l’animation d’une grande avenue et qui se prend à rêver qu’il pourrait lui aussi vivre dans cet appartement dont la fenêtre est ouverte et dont s’échappe une odeur de cuisine qui lui évoque des souvenirs... Peut-être est-ce là un indice subjectif, mais néanmoins bien réel, da la qualité d’un quartier: la capacité du promeneur à s’imaginer habitant le lieu et à l’investir?”

O estudo referido, do qual se fez esta longa citação (da sua página 10), foi elaborado por Brigitte Guigou, Jean Didier Laforgue, Patrice Séchet, e designa-se “Qualité architecturale et urbaine et satisfaction résidentielle” – Projet nº 233 H3, Rapport de mission”, Programme de Coopération Scientifique et Technique Luso-Française – Centre Scientifique et Technique du Bâtiment (CSTB) – Laboratoire National d’Ingénierie Civile (LNEC), Laboratoire de Sociologie Urbaine Générative, CSTB, Paris, Setembro.


(Fig. 05) Em Alvalade o peão ainda é “rei”

Alvalade: um exemplo de sustentabilidade urbana e residencial

Alvalade foi, nos anos 40, o primeiro exemplo da hoje tão referida durabilidade e vitalidade urbana e residencial e está aí, claramente, para “lavar e durar”, quem sabe e desejavelmente no âmbito de uma possível e bem oportuna acção de melhoria e requalificação, ligada a uma sua classificação como zona de interesse urbano, residencial e social/convivial especial.

No grande Alvalade e nas suas “células sociais” fez-se arquitectura urbana de pormenor, integrando-se pequenos edifícios multifamiliares com uma ainda forte ligação e utilização do espaço exterior privado, numa directa adequação a modos de vida provavelmente pouco citadinos. Enquanto, logo ali ao lado, nas avenidas, se fazia, ao mesmo tempo, habitação para famílias provavelmente mais citadinas, que podiam pagar mais pela habitação e, assim, ajudar a pagar a outra habitação mais “económica”.


(Fig. 06) Um dos segredos de Alvalade é o suscitar natural do convívio e do flanar

É possível dizer, citando em parte Cardoso Pires, que Alvalade tem mistérios, mistérios de bem-fazer cidade habitada e habitação na cidade. Alguns desses mistérios vão sendo descobertos, outros, dando razão à designação, ainda não. Mas podem e devem ser aqui referidos certos desses “mistérios”, muito ligados à matéria da desejável aliança entre qualidade de desenho, residencialização e satisfação de necessidades e mesmo dos sonhos humanos:

- A benignidade integradora de várias arquitecturas, sem dominâncias cansativas ou pouco cuidadas.

- A neutralidade, a dignidade e a escala humana de um desenho de arquitectura que é global, “rodeando” todo o edifício e integrando atraentemente edifícios e vizinhanças de proximidade (“impasses” e pracetas residenciais).

- A naturalidade da relação entre vários tipos de edifícios destinados a vários grupos sociais, apostando-se numa eficaz disseminação dos potencialmente diferentes grupos socioculturais.

- A “fácil” integração e concentração dos grandes e pequenos equipamentos ao longo das ruas, praticamente sem se provocarem quebras na crucial continuidade urbana.

- A marcação dos percursos e a capacidade de orientação, também proporcionada pela humana e comunitária repartição em grandes grupos de vizinhança, polarizados por equipamentos de proximidade e, depois, em pequenos agrupamentos de vizinhança de proximidade (pracetas e “impasses rodoviários”).

Seria possível continuar a identificar outros atributos específicos. Atributos estes que resultam de novas conjugações entre os primeiros atributos, que geram novas potencialidades. É assim que é a cidade, sempre em parte inexplicável, quando rica. E cá está a “explicação” dos mistérios. Mas à frente a eles voltaremos, felizmente, também noutros conjuntos urbanos.



(Fig. 07) A intensa qualidade urbana e paisagística de Alvalade

A intensa qualidade urbana e paisagística de Alvalade

Alvalade possui uma positiva qualidade urbanística ligada ao conhecimento sobre como fazer conjuntos dominantemente habitacionais, por um lado caracterizadamente residenciais porque suavizados, envolventes e fortemente marcados pela natureza e pela escala e usos humanos (ex. quintais) e, por outro lado, caracterizadamente urbanos, porque bem estruturados no interior (hierarquicamente) e no exterior da malha (na continuidade da cidade existente e entre vias urbanas importantes), marcados pela continuidade urbana, onde também participam os próprios equipamentos colectivos, pela existência de zonas com actividade concentrada, elas próprias criando vários tipos de sequências, pela aliança entre tráfegos de peões e veículos e por uma integração social realizada de forma que parece natural.

E se estamos hoje em altura de grande atenção aos aspectos de durabilidade, integração e eficácia urbana, que dizer do privilegiar da circulação pedonal, em largos passeios e veredas, dos muito reduzidos cuidados com o verde público, que em boa parte é cumprido pelas jardinetas e pelos quintais privados – eles próprios potencialmente utilizáveis para uma significativa actividade agrícola –, e da sábia integração da pequena indústria não poluente, criando-se uma completa actividade citadina. E é bem interessante salientar que o jovem Ribeiro Telles já participou no projecto paisagista de Alvalade.


(Fig. 08) Em Alvalade é possível viver num ambiente humanizado e suavizado pelo verde urbano a “dois passos” de uma intensa animação urbana

Em Alvalade, e embora tenhamos hoje o problema do estacionamento automóvel – mas este é um problema relativamente novo no Bairro e que tem também contornos de verdadeira irracionalidade, tal como tem salientado Gonçalo Ribeiro Telles (Entrevista a Gonçalo Ribeiro Telles, em Documentos de Arquitectura DA03, p. 40) – , é possível viver num ambiente humanizado e suavizado pelo verde urbano a “dois passos” de uma intensa animação urbana, gozando, ainda, de diversas facilidades funcionais e da proximidade em segurança a equipamentos destinados a crianças.

De certa forma é a tal mítica “quinta com porta para o Chiado”, um conjunto de pequenos “oásis” residenciais, mas associados a eixos com intensa vida própria e bem caracterizada, e teve, ainda, a abertura funcional e a capacidade plástica para receber e valorizar excelentes intervenções residenciais modernistas, complementando-se assim, ainda um pouco mais, um bairro que é também história viva, testemunho da evolução da vida cultural portuguesa.


(Fig. 09) Alvalade acolheu a inovação residencial e arquitectónica, por exemplo, no Bairro das “Estacas” de Formozinho Sanchez e Ruy Athouguia (concluído em 1954)

Alvalade como suporte de experiências residenciais e urbanas


Alvalade teve, de facto, também, outra virtude, não repetida depois noutros bairros. Foi o suporte de experiências residenciais e urbanas modernistas, que marcaram cruzamentos, praças e avenidas, fazendo-se cidade histórica e viva, sem quebras, mas sim com surpresa e mesmo emoção, tal como é necessário.

E lá estão, entre outras meritórias intervenções de arquitectura urbana pormenorizada, e para além das grandes “células sociais” concluída cerca de 1948 (com cerca de 500 fogos cada) de Miguel Jacobetty, o conjunto da Av. Rodrigo da Cunha, de Joaquim Ferreira (1951), o Bairro das Estacas, de Formosinho Sanches e Ruy d’Athouguia (1955), e os conjuntos da Av.ª do Estados Unidos da América, de Croft de Moura, Henrique Albino e Craveiro Lopes (1958) e da Av. do Brasil, de Jorge Segurado (1960).

Prova-se, assim, que é possível e necessário harmonizar uniformidade com surpresa, regra e dignidade com inovação. O plano urbano de Alvalade é, como refere Francisco Barata, “um exemplo de como um tecido urbano legível e identificável pode suportar a variação tipológica dos modelos de habitação, sem perder urbanidade” (Francisco Barata Fernandes – As formas da casa na forma da cidade. Palestra proferida nos Encontros da Associação dos Arquitectos Portugueses – Habitação, Construir Cidade com Habitação, AAP, 1998, p. 9).

Outro aspecto a salientar é que a experiência de Alvalade foi, positivamente, apresentada e discutida, entre arquitectos, no I Congresso de Arquitectura, em 1948, onde se divulgaram as células sociais de Alvalade e se “reivindicou a construção de habitações populares em altura, como condição necessária para a solução das graves carências de que sofriam as classes trabalhadoras nos meios urbanos” (Teotónio Pereira (83), ob. cit., p. 11).


(Fig. 10) Em Alvalade desenvolveu-se uma verdadeira integração social

Sobre a utilidade social de Alvalade: alguns comentários


Afinal, tal como sublinha Nuno Teotónio Pereira, Alvalade “serviu de rampa de lançamento da Federação (Habitações Económicas – Federação das Caixas de Previdência, HE-FCP)), forneceu os projectos de unidades – lote de 4 pisos – para utilização na construção de pequenos núcleos de casas de renda Económica em capitais de distrito e noutras localidades” (Teotónio Pereira (83), ob. cit., p. 11), os pequenos “alvalades” (de pequenos edifícios multifamiliares) que iriam acompanhar os pequenos “restelos” das casas económicas (de edifícios unifamiliares), também utilizando uma óptima imagem desenvolvida pelo Arq. Teotónio Pereira.

De certa forma e como também aponta o Arq. Teotónio Pereira, no artigo citado, pretendeu-se, com esta “faixa” de promoção mais urbana e “com um regime de locação menos exigente”, alargar a habitação de interesse social às classes médias, que se considerava terem, também, críticas carência habitacionais e “de cujo apoio o regime precisava.”

É interessante ir confirmando esta referência cíclica à classe média “remediada” que parece que vive bem, mas que, na prática, tem muitas carências habitacionais. Hoje em dia tal sucede novamente, ou será que nunca deixou de suceder?
E, de facto, cerca de 1948 havia essa percepção na sociedade portuguesa, tal como se demonstra pelas palavras do Eng. António Faria na apresentação do seu livro “O problema das casas económicas” (p. 10), quando diz: “este trabalho não se dedica, como vereis, a indicar apenas uma solução para a habitação dos chamados pobres, mas, também, para a da chamada classe média, que, sendo aquela que neste momento mais sofre (na luta pelas aparências), parece, também, ser aquela para a qual menos se tem olhado, embora esteja em grande maioria ...”.

Notas finais

Este artigo foi retirado, quase integralmente, de um capítulo do livro que realizei para o Instituto Nacional de Habitação (INH) e que foi lançado há cerca de um ano, marcando-se os vinte anos de actividade do INH – “INH, 1984-2004 20 Anos a Promover a Construção de Habitação Social”.
Com este artigo pretende-se incrementar a atenção que Alvalade bem merece nos mais variados aspectos urbanos, habitacionais e sociais, bem numa linha que tanta falta faz em Portugal e que corresponde a uma sistemática divulgação técnica das melhores práticas; e desde já se aponta que Alvalade voltará a ser, proximamente, revisitada aqui no Infohabitar através de uma análise arquitectónica residencial sistemática bastante dirigida para as suas “células sociais”.

terça-feira, março 21, 2006

75 - Notas ribeirinhas de Lisboa - um artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 75

 - Infohabitar 75

Notas ribeirinhas de Lisboa

um artigo de António Baptista Coelho

Queremos descobrir e ir ao encontro dos desejos e gostos das pessoas e ser coerentes com a nossa cultura e com o carácter do lugar? E a memória? Quais as imagens que recordamos do velho Tejo? Carcaças de hidroaviões? Esculturas de sucata? Vontades de abalar em navios? Viagens mais ou menos sonhadas entre margens e Continentes?
São as memórias dos Portos de muitas gerações, recheando de sentidos as margens, densificando-as e diversificando-as. E sobrevivem, ainda hoje, tantas memórias de ricos e estimulantes cenários, que poderão ser recriadas. Não é crime fazê-lo, recriando as histórias, dos cais das caravelas aos guindastes gigantes, das varandas sobre a praia medieval ao tijolo burro dos grandes armazéns.
E por "detrás" da margem, quanto aos velhos edifícios que parecem esconder-se envergonhados, o que se poderá fazer? Escondê-los, ainda mais, com novos edifícios ou com árvores, com o tráfego da noite ou com a cidade fantasma das alamedas, quase sempre vazias e inanimadas, feitas para se verem "de carro" ou, por cima, à boleia dos pássaros?




Uma grande cidade faz-se de cidades, de troços, de mutação, de coerências e diálogos locais, desde a cor à função, de formas e jogos formais, de poesia e harmonia racional. O que aqui se joga é a oportunidade única de refazer boa parte de uma Lisboa transoceânica e uma tal oportunidade é com certeza irredutível a opções "cinzentas", predominantemente unifuncionais e repetitivas.
E neste sentido vale a pena atender a um conjunto de conclusões/opções retiradas de um concurso de ideias para a margem ribeirinha, realizado já há alguns anos, e que defendem, globalmente, uma densidade equilibrada entre espaço livre e espaço construído e diversas soluções de pormenor, mas notando-se três importantes consensos:
- a opção por um litoral denso do ponto de vista da vida (densidade de uso) e de símbolos;
- a recusa de frentes homogéneas ou barreiras construídas contínuas paralelas à margem e/ou de grande altura;
- e a recusa de zonas livres unifuncionais contínuas.





E quando perguntamos ao lisboeta o que ele gostaria de ter na sua Cidade ouvimos, por exemplo:
- qualidade do espaço urbano e arquitectónico;
- boas acessibilidades;
-valorização das características de Lisboa;
-zonas verdes e espaços para o cidadão;
-e preocupação com o crescimento da cidade, a sua terciarização e a expulsão dos seus moradores de sempre.
Levando tudo isto em conta, o que se deverá fazer será, talvez, muito variado, cuidadoso, coerente com tantos sítios que fazem esta nossa margem de Lisboa, num acréscimo qualitativo ao que já lá está e deverá permanecer, mas também, porque não aqui e ali arrojado, dinâmico, atraente para todos, estimulante pelo sossego ou pela animação, pontualmente recriador da nossa história e expressivo da nossa cultura.





Há espaço para muito, há que ter cuidado com os principais problemas, não se pode perder tempo, mas tem que se fazer com acerto e confiança, e a Cidade pode ganhar espaços de cidadania variados, renovando-se ao voltar a abraçar as curvas do rio.
Deixemo-nos de tabus e vamos fazer um pouco de cidade, com ruas, praças, alamedas e jardins, não mais uma muda urbanização de escritórios, não mais uma nova faixa para os tristes passeios de tarde de Domingo, nem mais uma "zona verde" mais ou menos de enquadramento a novos e majestáticos edifícios e quase sempre insegura, porque verdadeiramente não habitada.
As pessoas, os citadinos e os outros, aqueles que também vivem a cidade de vez em quando, mas intensamente, querem muitas e variadas coisas, cada vez mais e mais diversas e só na extensão de uma cidade completa e complexa elas as encontrarão, não apenas, com certeza, em faixas enfeitadas com restaurantes e relvados.
Trata-se de uma oportunidade única, e com o seu tempo próprio, mas que tem de pertencer a várias gerações, há que ser rápido, sendo lento/cuidadoso, há que pensar e há que fazer já, há que jogar na oportunidade histórica e respeitar/recriar as memórias de muitas cidades e de muitos cidadãos, só assim a cidade poderá vibrar num tema colectivo com a sua margem.




Entre inspirações nas fontes históricas, o respeito pelos ambiente e pelas paisagens, a (re)vitalização do tecido urbano, a coerência de acessibilidades e a integração de e com outras intervenções estruturantes é que serão estabelecidas as bases de uma proposta ribeirinha e lisboeta bem radicada e viável.

Respeitar e recriar a História

A História é nossa será que não podemos beber nela e, por exemplo:
-repotenciar a ligação dos Bairros históricos (e dos novos) à cidade ao longo da margem;
-recriar novos/velhos Rossios comerciais e subtilmente fluviais;
-traçar Terreiros marcados por alas, grandes pátios urbanos e uma grande via paralela a rio donde partam transversais;
-recuperar algumas memórias da Praia de Alfama e dos núcleos ribeirinhos ligados a actividades fluviais e marítimas;
-pontuar a margem com sóbrias sequências edificadas vitalizadas por habitações;
-inventar umas novas "varandas sobre a praia", casas de 2/3 pisos muito fenestradas e em bandas terreamente permeáveis para ir ao rio/"à praia";
-pontuar visivelmente com novos pequenos portos habitados;
-recriar pontualmente alguns perfis ribeirinhos e Lisboetas de antes do Terramoto, cidade/edifício/jardim/(cais)rio;
-voltar a albergar o uso festivo e lúdico das festas populares, e, até, porque não das velhas esperas de touros em espaços que acolham, como outrora, as efémeras arquitecturas de ocasião;
-e, finalmente, recuperar, passados tantos anos, a oportunidade então perdida de fazer a "margem que falece à cidade de Lisboa".




Relação com o ambiente e a paisagem

Assegurar o conforto ambiental ao nível do tecido urbano existente (insolação e drenagem atmosférica), bem como respeitadas, designadamente, as actuais vistas de enfiamento.
Há técnicos e técnicas que o permitem fazer e tais cuidados parecem poder ser facilitados, porque a margem é um todo heterogéneo e diversificado zona a zona.

(Re)vitalizar o meio humano e urbano

Contribuir para a revitalização da cidade e para a renovação do seu sangue populacional, mas o mais possível completo, nas misturas das múltiplas actividades e dos diversos tecidos sociais. Já existem dezenas de restaurantes, bares, esplanadas e discotecas, e há perspectivas para ateliers e escritórios, mas, e a habitação!? A fundamental habitação, e diversificada.
E quando se trata de revitalização temos de ter um enorme cuidado com a questão estratégica de não ser possível, nem fazer sentido, vitalizar “todo o espaço”, a cidade tem muitos sítios calmos, onde a vida se faz sem festa, mas dignamente e em segurança e conforto; e pensar assim e actuar em conformidade é também ajudar a uma cidade habitada e positivamente regenerada.





Prever e harmonizar uma boa rede de acessibilidades funcionais

Acessibilidades primárias rodo e ferroviárias perfeitamente conjugadas com os tráfegos locais e de atravessamento, com o apoio geral a um uso pedonal estrategicamente apoiado por estacionamentos, e com os eixos de transportes fluviais e as novas circulações perimetrais de Lisboa.
E ter em conta a grande extensão de todo o equipamento "verde" existente e em projecto, privilegiando as deslocações pedonais e ciclistas bem apoiadas em transportes públicos amigos do utente e do ambiente.

O Porto que vai continuar

Não esquecer que a área funcional do Porto continua e até se dinamiza, concentradamente, acolhendo uma maior movimentação de contentores, é preciso que este espaço não seja dissonante, é necessário que ele funcione bem e com o mínimo de más influências na envolvente.




Há que desenhar elementos urbanos ribeirinhos como uma verdadeira arquitectura, baseada no profundo conhecimento de Lisboa e visando uma nova margem da cidade multifuncional, intensa e variadamente habitada, no dia-a-dia, integrando-se totalmente numa zona histórica e de grande beleza natural a preservar, estabelecendo uma continuidade urbana natural com os Bairros vizinhos e valorizando e animando Lisboa com espaços privilegiados para a cultura e o lazer.
Uma tal mistura nega um desenho urbano frio e desumano, e configura um tecido citadino que quer ser complexo, vivo, múltiplo, expressivo, e caloroso, afinal uma parte de cidade, como deve ser uma parte de cidade, não uma parte dessa parte: um jardim para ser visto, uma zona de escritórios, um bairro residencial para privilegiados, uma faixa “ajardinada” de recreio, comércio e restaurantes, etc., etc.




Uma parte de cidade é de tudo isto um pouco e mais ainda, porque é habitação para diversos grupos sociais, é festa e feira em certas alturas da semana e em certos sítios, é o encontro do "passeio perdido" e é mistura viva de tráfegos e espaço urbano vivo e seguro porque vivo e é, também, a harmonia possível entre o que se faz agora e o que se fará no futuro, assim como deve ser harmonia entre o que se faz agora e o que antes estava feito e precisava de intervenções e regeneração, porque a cidade é um organismo com uma vida longa, muito longa, pelo menos assim todos desejamos que o seja, e porque é nas margens, sempre foi nas margens da água e dos bosques, que muito da cidade se passou, pois são sítios de todos os percursos físicos e imaginários, e sítios de todos os inícios e remates de viagens das mais pequenas e de vizinhança, às maiores e até sem fim, pois para lá do horizonte.




Lisboa, Encarnação/Olivais.Norte, 21 de Março de 2006
António.Baptista.Coelho