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segunda-feira, março 17, 2014

476 - Viver ao nível térreo - II - Infohabitar 476



Infohabitar, Ano X, n.º 476
Artigo L da Série habitar e viver melhor

António Baptista Coelho

Viver ao nível térreo - II

Apontar vol 2 do Dieter Prinz e estudos do TT

Espaço urbano vitalizado pela habitação térrea

A existência de residências térreas, dispondo de espaços exteriores privativos, liga-se a uma oferta, directa, de condições de vida diária potencialmente muito semelhantes ao viver em edifícios unifamiliares e pode, até, ser conveniente para potenciar a continuidade da presença humana e a animação urbana, acima referidas, e por outro lado para as garantir, de modo mais generalizado, "a toda a volta dos edifícios" e, até, de um modo mais alargado, a toda a volta de zonas exteriores privadas dos fogos do rés-do-chão, enquanto também se potencia a qualificação basicamente residencial da zona em causa (caracterizando-a como uma verdadeira "área residencial").


Fig. 01

Adequação da habitação a modos de vida e gostos habitacionais

Por outro lado, ainda, sabendo-se que os fogos térreos podem ter problemas de segurança (relativamente a intrusões) e de reduzido desafogo de vistas (de modo a proteger-se a intimidade doméstica), para não falar já das suas mais fracas condições de conforto ambiental (mais sombra, mais ruído), também parece justo que lhes sejam atribuídas algumas vantagens quanto à autonomia no contacto com o solo; e deste modo conseguem-se substanciais poupanças na manutenção pública do exterior residencial, enquanto se proporciona a um significativo grupo social, o das famílias com filhos pequenos, um meio residencial que é o ideal para o crescimento saudável destas crianças (jogos no exterior em segurança, contacto directo com a terra, etc.).
E para além de tudo isto é essencial a oferta de tipologias habitacionais adequadas, seja a uma ampla diversidade de modos de vida (ex., mais ligados a prática rurais), seja a uma ampla variedade de gostos/desejos de habitar (ex., ligação mais forte ao exterior e ao solo, contato com animais domésticos, etc.).

Cuidados com as habitações térreas



Convém, no entanto, considerar alguns cuidados básicos no desenvolvimento de fogos térreos:
  • Cotas de soleira e de peitoril a alturas adequadas, relativamente aos espaços exteriores públicos, comuns e privados contíguos.
  • Vistas a partir dos espaços pedonais envolventes do edifício, por um lado não devassando os espaços térreos privados e por outro aproveitando, pelo menos em parte, visual e ambientalmente, os "verdes" privados.
  • Relações estimulantes com os espaços exteriores privados e bem aproveitadas em todas as suas potencialidades, com relevo para a forte caracterização da imagem urbana do local (área ou conjunto residencial).
  •  Adequadas (máximas) condições de segurança, tanto por recurso a muros, gradeamentos e vedações previamente projectados e uniformizados, "cobrindo"/protegendo todos os vãos exteriores térreos e quintais privados, como pelo desenvolvimento cuidadoso (não ferindo privacidades domésticas) de uma estratégia generalizada de visibilidades de segurança e de contiguidades de observações naturais e contínuas (ex., contiguidade ou grande proximidade entre as traseiras de certos edifícios e as entradas de outros). 
  • Total controlo do desenvolvimento de anexos nos quintais privados, segundo projectos-tipo e apenas para usos, previamente, bem definidos.

Semelhança entre habitações térreas e moradias

John Noble e Barbara Adams consideram que algumas características das moradias podem ser conseguidas nos pisos térreos de edifícios multifamiliares, tais como acessibilidade a diversos tipos de espaços exteriores, terraços e jardins privados económicos, zonas de serviço exteriores e vistas agradáveis de espaços verdes ou de zonas animadas; no entanto, há que cuidar, atentamente, das relações visuais e acústicas que determinam a privacidade doméstica (essencialmente interior, mas também em parte do exterior privado). (1)

É ainda de considerar a extensão parcial deste tipo de solução às habitações em 1º andar, através de terraços e escadas exteriores funcionais e, por vezes, aproveitando a topografia do terreno.



Fig. 02

Pátios e quintais privados

Uma previsão de pátios ou pequenos quintais privados é um aspecto fundamental neste nível físico da Vizinhança Próxima, que parece não ter sido, ainda, convenientemente considerado na arquitectura urbana residencial mais recente.

Afinal os espaços exteriores privativos e térreos constituem zonas de transição interior doméstico/exterior público ou semi-público com enorme capacidade de apropriação, são elementos de forte compensação face a uma situação habitacional térrea ou pouco elevada (menos privatizada, segura e visualmente desafogada), asseguram boa capacidade de adequação a determinados modos de vida, desejos habitacionais e composições familiares (famílias com crianças) e podem também assegurar um verde privado com forte fruição pública mas sem gastos públicos de manutenção (ao longo de caminhos e passeios pedonais) contíguas, mas assegurando forte demarcação e relativa ou total privacidade. 

Variedade de espaços exteriores privativos

De certo modo a integração de quintais/pátios tem grande versatilidade de aplicação, podendo variar, por exemplo, entre um grande pátio/terraço comum envolvendo uma torre habitacional e um interior de quarteirão associando zonas de recreio semi-públicas centralizadas e uma margem quase contínua de quintais/pátios contíguos a fogos térreos, ligados a fogos em 1º andar (com acesso por escadas) e contíguos a salas de condomínio.

Vantagens dos quintais e pátios privativos

Resumindo as vantagens do desenvolvimento de quintais/pátios, refere-se a sua muito provável influência decisiva na obtenção de condições de intensa utilização e apropriação de grande parte do exterior de proximidade e os consequentes ganhos em boas condições de vigilância natural, bastante contínua e bem disseminada, de todo o território da Vizinhança Próxima.

Não é excessivo reafirmar que estas condições só terão viabilidade se o sistema de quintais/pátios estiver perfeitamente conjugado com o sistema de acessibilidade local (ex., percursos de uso frequente ao logo de bandas de quintais), caso contrário o resultado final até pode agravar situações de insegurança e incomodidade.

Notas:
(1) John Noble; Barbara Adams, "Housing. Home in its Setting", p. 525.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.

Editor: António Baptista Coelho
INFOHABITAR Ano X, nº476
Artigo L da Série habitar e viver melhor
Viver ao nível térreo - II
Grupo Habitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do LNEC
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.


segunda-feira, setembro 30, 2013

455 - Espaços comuns habitacionais (I) - Infohabitar 455


Infohabitar, Ano IX, n.º 455

Artigo XXXVI da Série habitar e viver melhor

A importância dos espaços comuns ou semi-privados nos edifícios multifamiliares (I)

António Baptista Coelho

Falamos, agora, um pouco, daqueles sítios e daqueles elementos do edifício ou do agregado de habitações, que podem ser verdadeiros protagonistas em termos de marcação de identidades estimulantes e de relações entre zonas mais públicas e mais privadas, em termos de se evidenciarem aspectos de apropriação natural e equilibrada, e mesmo em termos de caraterização de soluções de habitação que aproveitem e explorem, ao máximo, uma aliança activa entre o enorme potencial de riqueza e diversidade de pormenorização urbana e os elementos responsáveis por uma caracterização residencial marcada, quer por um sentido doméstico amplo, quer pela identidade de cada habitação.
Há, realmente, alguns elementos urbanos, como as entradas, as escadas, as passagens, as janelas próximas do nível da rua, os muros, as floreiras e outros elementos de pormenor, que podem caracterizar, muito positivamente, as vizinhanças urbanas, tanto com um interessante cunho individual, como com um estimulante caráter orgânico e diversificado (nada monótono), quer, ainda, criando imagens locais de ruas, pracetas e outros espaços de vizinhança local, agradavelmente marcados por uma mistura de um sentido urbano e residencial “único”.

Fig 1: exemplo de espaços comuns habitacionais em Olivais Norte - Lisboa

E há, depois, todo um amplo leque de espaços comuns, dominantemente interiores, que podem ser "manejados" de forma a caraterizar positivamente a solução residencial e atenção que estamos aqui a referir-nos:
(i) quer a grandes soluções de habitação apoiada estruturadas em torno de amplos e multifuncionais espaços comuns com muitas valências funcionais e "ambientais" (exemplo: uma residência com células habitacionais relativamente pouco desenvolvidas e amplos espaços e múltiplos serviços comuns e/ou on demand);
(ii) quer a pequenos multifamiliares cujos espaços comuns são estrategicamente reduzidos em termos de espaciosidade, mas estrategicamente muito bem pormenorizados em termos de atratividade e capacidade de apropriação;
(iii) quer a agrupamentos residenciais constituídos por agregados de edifícios unifamiliares e de muito pequenos multifamiliares, mas onde continua a haver um estartégico e natural sentido de comunidade optativa, mas sempre funcional em termos de aspetos como a identidade local, a segurança e a opção pelo convívio; e sublinha-se ser esta matéria que se julga ter hoje em dia grande importância;
(iv) quer, até, a uma forma de tratar o unifamiliar, na sua "pele" mais pública, que consiga atribuir-lhe um interessante sentido de cidade e de articulação numa relativa ou afirmada continuidade urbanística.
De certa forma podemos considerar que esta aproximação a determinadas soluções habitacionais tendo por base as caraterísticas dos respetivos espaços comuns, desde a sua expressiva presença até à sua relativa ou total ausência, corresponde a uma nova forma de desenvolvimento tipológico, que tem sempre de se relacionar com as caraterísticas das respetivas vizinhanças urbanas e paisagísticas; uma matéria que foi desenvolvida já em outros artigos desta série.
Importa ainda referir que a diversidade de aspetos caraterizadores dos espaços comuns, ou semiprivados, habitacionais não se esgotam nas grandes famílias tipológicas que são apontadas em seguida (das entradas comuns, aos patins, garagens, etc.), havendo variadas matérias a ter em conta e que, muitas vezes, resultam no desenvolvimento das soluções mais adequadas e estimulantes; e neste sentido importa, desde já, registar, que os espaços comuns, ou semiprivados, habitacionais podem e devem ser cuidadosamente manejados e (re)configurados em termos dimensionais, funcionais, de integração, qualitativos, identitários, “apropriativos”, conviviais, privatizadores, securizadores, etc. – e nos próximos artigos desta série apenas iremos aflorar um pouco esta estimulante matéria, que é responsável pela urgente e bem desejável reinvenção tipológica habitacional e urbana.


Fig 2: exemplo de espaços comuns habitacionais em Olivais Norte - Lisboa

Importa sublinhar que são estes espaços, elementos e aspetos qualitativos e quantitativos os verdadeiros potenciais autores de uma renovada tipologia do habitar, muito mais coerente seja em termos de adequação individual e familiar, seja em termos de vizinhança urbana e mesmo paisagística.
E não tenhamos dúvidas de que há um extenso manancial de criatividade tipológica do habitar (habitação e vizinhança), e um, ainda mais, extenso registo de soluções e dos seus principais resultados (humanos e urbanos), que estão disponíveis para ser ponderados e (re)aplicados e devidamente "reformatados" pelos projetistas, numa perspetiva que se carateriza por estar bem sustentada em termos muito diversificados, desde aspetos de integração urbana e vicinal a uma estimulante adequação aos modos de vida e aos desejos domésticos específicos de famílias e de gostos individuais; e uma tal perspetiva não afeta nem aspetos funcionais e de segurança, que têm as suas “normas” de aplicação específicas, nem aspetos de economia da construção, que têm também as suas recomendações específicas.
Houve, sim, durante boa parte do Século XX, uma ideia, que se revelou errada, de que todos “teriam” de habitar de forma idêntica e que, em síntese, quase que só havia duas tipologias distintas, que eram o uni ou o multifamiliar, sendo que este último era, até, por vezes, ridiculamente, idêntico na sua estruturação de espaços comuns, mesmo em edifícios com dimensões e altura bem distintas. Fomos aceitando tal ideia, que hoje se entende que não faz sentido, assim como fomos sendo habituados a soluções domésticas organizadas segundo uma mesma “regra” funcional, o que também não parece estar correto; mas hoje em dia podemos começar a pensar diferente e a diversificar, atenta e coerentemente, tipologias de edifícios de habitação e mistos (habitação e serviços) e tipologias domésticas que sejam amigas de diversas formas de habitar.
Podemos ainda referir que o atual conhecimento relativamente aos mais diversos aspetos da qualidade habitacional – conforto ambiental, funcionalidade, segurança, acessibilidade, etc. – permite autonimizar, pelo menos parcialmente, o necessário cumprimento destes aspetos do desenvolvimento de soluções habitacionais diversificadamente organizadas.
Mas há, no entanto, um aspeto que é essencial em tudo isto e que se liga a uma significativa qualidade arquitetónica do projeto, pis, afinal, (re)inventar boas tipologia exige excelente arquitetura, uma arquitetura com qualidade, que não estará, naturalmente, ao alcance de todos os projetistas e que exige que, do lado dos habitantes utentes, haja processos seguros para a sua respetiva apreciação e desejada validação, caso contrário podemos estar a aceitar soluções funcionalmente incoerentes e até perdulárias em termos de espaços e de custos. E se há um setor habitacional onde todos estes cuidados qualitativos são essenciais, pois estamos a tratar de bens públicos, ele é o da habitação de interesse social; até porque no setor da habitação privada o mecanismo do mercado e até da arquitetura de autor poderá ir equilibrando uma variada e, talvez, adequada oferta de soluções residenciais – embora eta adequação tenda a acontecer, essencialmente, nos setores menos económicos da habitação privada (uma matéria que fica para posterior desenvolvimento).
São os seguintes os espaços comuns ou semi-privados mais correntes, que se consideram e que serão abordados em diversos e futuros artigos desta série:
·        Entradas comuns e sua pormenorização.
  • Átrios e outros espaços comuns conviviais ou específicos.
  • Elevadores.
  • Escadas comuns.
  • Patins de distribuição para habitações.
  • Galerias interiores (corredores).
  • Galerias exteriores.
  • Garagens.
  • Aspectos qualitativos gerais nos espaços comuns e respectiva pormenorização.
  • Elementos “verdes”.

Fig. 3: exemplo de espaços comuns habitacionais em Olivais Norte - Lisboa

Desde já se salienta haver aspetos fundamentais numa qualificação humana e arquitectónica dos espaços comuns residenciais e nestes aspetos e a título de significativo exemplo, assume uma importância fundamental a possibilidade de se ter luz natural pois, afinal, tal como refere o Arq. Ch. Labbé “quando se sai do elevador e há luz natural, pode-se conversar, favorece-se a convivialidade pela qualidade do espaço que se desenvolve”. (1)
E, naturalmente, que a luz natural e as respetivas zonas mais iluminadas e mais em sombra, não estará sozinha num leque fundamental de qualidades do habitar a ter em conta nos espaços comuns e semi-privados.
Não se irá, em próximos artigos desta série, fazer uma viagem exaustiva por todos esses tipos de espaços e elementos, mas apenas proporcionar algumas indicações e alguns exemplos de tais soluções, que se julga serem diretamente responsáveis por uma boa parte da satisfação que se pode viver no habitar.
E guardaremos, sempre, espaço de reserva para podermos ir debatendo o (re)aplicar e a (re)conceção de tipologias do habitar estimulantemente inovadoras, relativamente ao “árido” menu tipológico que nos foi legado por um modernismo corrente e “de mercado”, que não soube ou não quis inspirar-se no grande modernismo que tanto inovou de forma adequada e ao serviço de novas formas de viver a casa e a cidade.
(1) Monique Eleb; Anne Marie Chatelet – Urbanité, sociabilité et intimité des logements d’aujourd’hui.  Paris : Éditions de l’Épure, 1997 (Col. Recherche d’Architecture), p. 85.
Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.

Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano IX, nº455
A importância dos espaços comuns ou semi-privados nos edifícios multifamiliares (I)
Grupo Habitar (GH) e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do LNEC
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, agosto 05, 2013

449 - Os espaços antes das entradas comuns na habitação- Infohabitar 449


Infohabitar, Ano IX, n.º 449
Artigo XXXV da Série habitar e viver melhor
Os espaços antes das entradas comuns na habitação

António Baptista Coelho

Considerando a boa vivência do edifício multifamiliar vamos agora tratar, especificamente, de cada um dos seus principais espaços comuns, considerando não só como eles são e se espera que sejam, habitualmente, mas também imaginando como eles poderiam ser em termos de uma concepção arquitetónica que tire partido máximo do seu elevado potencial de funcionalidade, representatividade, identidade, apropriação e apoio ao convívio natural entre vizinhos e visitantes; e desde já se aponta que nesta reflexão será muito importante a tentativa de não esquecer soluções anteriormente usadas e os seus respetivos resultados em termos de satisfação residencial.
Sendo esta uma introdução que irá acompanhar, sistematicamente, as reflexões desenvolvidos sobre os vários espaços e principais equipamentos comuns dos edifícios multifamiliares, será tentada, sistematicamente, um afeiçoar das suas considerações ao espaço ou equipamento visado.
Relativamente à entrada comum no edifício multifamiliar ou num pólo de receção de um agregado de edifícios unifamiliares e aos respetivos espaços e elementos exteriores públicos ou comuns importa ter em conta um conjunto de aspetos que são, em seguida, informalmente apontados.
É importante que uma entrada comum nos dê as boas vindas, através de um arranjo agradável e envolvente, que nos abrigue da chuva e do sol excessivo, que se caracterize por aspectos que não se encontram em outras entradas comuns, é a entrada que todos desejamos.
O espaço que antecipa a entrada pode ter um conteúdo essencialmente funcional, ligado ao apoio à entrada, em termos de contato com as habitações, proteção das intempéries, apoio ao serviço de correio, e apoio ao próprio processo de entrada (ex., uso de chaves, pousar volumes); mas pode e deve ter, paralelamente, uma “utilidade” evidenciada em termos de identificação do edifício, expressão da sua imagem pública no sentido de alguma “explicação” do seu funcionamento geral e clarificação da sua relação funcional com a envolvente pública ou comum directa (espaço comum eventualmente existente, relação com a respetiva rua ou a praceta, articulação com as respetivas soluções de estacionamento automóvel, etc.).


Fig. 01: o Edifício na Carvalhosa, Porto, Arqs Arménio Losa e Cassiano Barbosa.

E nesta perspetiva essencialmente funcional  o espaço “antes da porta de entrada” deverá ser caraterizado por adequadas condições de acessibilidade – no apoio a condicionados na mobilidade, mas também no apoio a transportes volumosos e pesados (ex., rampas, pavimentos aderentes, etc.) –, de iluminação artificial devidamente consideradas em termos de estratégia de iluminação (ex., célula fotoelétrica que liga a luz quando está escuro, ou de acordo com um dado relógio), e de visibilidade de segurança sobre a envolvente próxima e em “meia distância”, proporcionando-se, assim, seja uma entrada segura e calma no edifício, seja idênticas condições quando da saída do mesmo.
Naturalmente que, em muitas regiões do mundo, há ainda que ter em conta especificamente as condições de vedação, de controlo do acesso e mesmo de vigilância da circulação na contiguidade do edifício, uma condição que aqui se considera ser “paralela” às restantes ou delas razoavelmente independente, até porque quando as condições de segurança pública são adequadas este cuidado não fará especial sentido, sendo mesmo negativo em termos dos seus reflexos da urbanidade e da agradabilidade de uso nos espaços públicos contíguos.
Mas estas condições essencialmente funcionais não esgotam, naturalmente, a reflexão sobre “o espaço antes da porta de entrada” no edifício multifamiliar ou numa afirmada agregação de edifícios unifamiliares havendo aspetos de integração urbana pormenorizada e de vizinhança, identidade e representatividade que importa abordar, sob diversas facetas; uma forma estratégica de considerar um texto que se pretende seja útil a quem concebe arquitetura residencial.
Devemos assim refletir sobre uma outra matéria, de cariz mais pessoal, mas igualmente importante para o objectivo de um habitar amplamente mais satisfatório. Tal matéria refere-se a que a entrada do edifício constitui, provavelmente, para muitos de nós, uma etapa fundamental na sequência de espaços urbanos e domésticos que habitamos todos os dias e, sobre este aspecto, lembramos Rob Krier quando este escreve que “no caminho da rua para o interior do edifício passamos por gradações do que podemos designar como «o público». Imediatamente, a posição da entrada e a importância arquitectónica que lhe é atribuída exprimem o papel e a função do Edifício..." (1)



Fig. 02: o Bloco das Águas Livres, Lisboa: Arqs Nuno Teotónio Pereira e Bartolomeu Costa Cabral.

E na relativa ausência de estudos que fundamentem a afirmação da importância da entrada comum, cabe aqui chamar a atenção para a necessidade de se dar muito mais atenção a este elemento de composição do espaço do habitar, havendo muito a aprender com tantos excelentes exemplos que aí estão para serem vistos, facilmente, ao longo das ruas de muitas cidades.
Nestas matérias Alexander defende (2) a criação de uma transição gradual entre a rua e a porta de entrada, transição esta que deve ser servida por aspectos específicos de iluminação natural e artificial, protecção acústica, sequências de níveis, limiares bem marcados e vistas sequenciais de penetração e saída, vistas estas que disponibilizem diversos tipos de visões fugazes, estratégicas, gerais, etc. E o mesmo autor sublinha, depois, a importância que tem a criação de uma entrada acolhedora, preenchida por elementos que propiciem sentimentos de "boas vindas", como assentos confortáveis, pontos de vista interessantes e úteis, tons de cor domésticos e até outros elementos habitualmente associados ao interior das nossas casas. (3)
Mas há ainda um outro aspecto a ter em conta nestas matérias, pois devemos ter bem presente que uma entrada de edifício bem concebida e atraente é também um elemento muito importante e qualificador para a vizinhança urbana em que se integra, e esta qualificação pode fazer-se, por exemplo, por uma afirmada sobriedade.
Não sendo este, especificamente, o tema que aqui nos move, importa reflectir que uma entrada que nos influencie positivamente, pelos seus aspectos formais e funcionais, será, provavelmente, uma entrada que assumirá, também, uma excelente presença e função urbanas. Mas, no entanto, tais aspectos de presença e de função urbanas poderão eles próprios ter reflexos específicos na concepção de entradas de edifícios e, tendo-os, e se os tiverem através de soluções que resultem realmente bem, então, poderemos considerar que haverá motivos complementares para que os habitantes desse edifício fiquem mais agradados com o “seu” edifício e a “sua” entrada, que, assim, naturalmente, é também uma entrada da cidade, pois pertença da cidade e das suas continuidades.



Fig.03: um bloco em banda nos Olivais Norte: Arqs Nuno Teotónio Pereira e António Pinto de Freitas.

No que se refere à relação entre entrada de edifício e espaço urbano de vizinhança salientam-se dois aspectos de concepção apontados por Alexander: (4)
·       A entrada deve ser visível quando nos aproximamos do edifício ou existir uma indicação clara e condigna da sua localização.
·       A entrada deve ser formalmente realçada, e considerando-se que a aproximação mais frequente é feita paralelamente ao edifício e, portanto, em ângulos de visão habitualmente muito apertados.

A entrada ou átrio comum deve ter, sempre, uma "contrapartida" exterior, pelo menos, parcialmente protegida das intempéries, zona esta que poderá, naturalmente, variar, entre um pequeno espaço coberto sob uma pala e um recinto específico e equipado.
Ainda nesta matéria da aproximação ao edifício e, naturalmente, das acções de partida do edifício, considera-se que os respectivos espaços exteriores deverão ser, sempre que possível, especificamente caracterizados e pormenorizados, apontando-se, em seguida, algumas opiniões de Dubuisson e La Salle nesta matéria: (5)
·       "As entradas consideradas como pontos fortes e partes privilegiadas de junção entre zonas habitacionais interiores e espaços exteriores, também cumprirão o princípio de continuidade. Serão concebidas como «crescimentos» facilitando os encontros entre os habitantes. Para esse efeito o espaço aberto exterior será definido por taludes ou muretes, dispondo-se bancos e vegetação."
·       "O tratamento do pavimento é um dos principais elementos da composição das entradas dos edifícios, afirmando a presença de um acontecimento ao mesmo tempo que define um local de encontro, ele materializa uma potencial penetração dos passeantes."
·       "A sinalética específica poderá exprimir-se de variados modos, através da denominação dos edifícios nos pavimentos exteriores que prolongam exteriormente as entradas e nas paredes verticais contíguas".


Fig. 04: Pormenor de uma das Torres Prémio Valmor nos Olivais Norte: Arqs Arqs Nuno Teotónio Pereira, António Pinto de Freitas e Nuno Portas.


Falta referir que o “espaço antes da porta de entrada” pode ser praticamente “nulo”, correspondendo a uma secção” não formalmente definida de um passeio – mas nesta caso tem de haver espaço funcional no passeio para as suas diversas funções – ou pode constituir como que um amplo pátio, mais ou menos ajardinado, com acesso por uma porta ou cancela específica e cujo uso seja reservado aos habitantes e visitantes do edifício, sendo a vista desta espaço perfeitamente aberta a partir do espaço público contíguo, ou sensível e cuidadosamente reservada dessa relação visual.
E entre tais extremos pode haver um amplo leque de situações intermediárias, entre as quais será sempre interessante a solução em que na vizinhança das entradas há espaços de uso público, bem equipados em termos de bancos para sentar e outro mobiliário urbano, elementos representativos seja da rua ou praceta públicas, seja dos “seus” diversos edifícios, verde urbano e iluminação artificial, proporcionando-se um aproximar naturalmente convivial à entrada mais íntima no edifício, como que um “piscar de olhos” à vivência públiva e comum e uma conjugação “suave” (gradual), mas firme, entre espaços públicos e espaços comuns de uso reservado.
E uma entrada e/ou “um espaço antes da entrada” com as caraterísticas aqui apontadas não implica um gasto especial de espaço e uma despesa fora do vulgar, implica, sim, um projecto do edificado e micro-urbano muito cuidado, e tanto mais cuidado quanto maior for a exigência de economia.
Notas bibliográficas:
(1) Rob Krier, "Elements of Architecture", p. 61.
(2) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 494 e 495.
(3) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 623 e 624.
(4) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 485 a 487.
(5) S. Dubuisson, X. De La Salle, in "Espaces Exterieurs Urbains, Rencontres du Centre de Recherche d'Urbanisme",  J. P. Muret (Coord.), p. 65.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.


INFOHABITAR Ano IX, nº449 

Os espaços antes das entradas comuns na habitação 
Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
Edição de José Baptista Coelho
Grupo Habitar (GH) e LNEC - Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT)

LNEC e Infohabitar - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte