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segunda-feira, junho 17, 2013

444 - EDIFÍCIOS HABITACIONAIS: ORGANIZAÇÃO E COMPOSIÇÃO - Infohabitar 444


Infohabitar, Ano IX, n.º 444

- Infohabitar 444
  ORGANIZAÇÃO E COMPOSIÇÃO DE EDIFÍCIOS HABITACIONAIS
Artigo XXXIII da Série Habitar e Viver Melhor

António Baptista Coelho

Na sequência da reflexão ampla e razoavelmente sistemática sobre um melhor habitar, mais criativo e adequado, que temos estado a tentar fazer nesta Série de artigos intitulada “habitar e viver melhor” – iniciados no espaço urbano e que chegaram agora aos espaços edificados – , vamos desenvolver, neste texto uma pequena reflexão sobre o que se pode considerar como os aspectos fundamentais na estruturação dos edifícios habitacionais, que se relacionam com a sua dimensão geral, a existência afirmada de elevadores e a maior, ou menor, evidenciação de cada habitação no conjunto edificado; um outro aspecto, de certa forma suplementar e que aqui se evidencia, na sua importância tipológica, será a existência evidenciada de um espaço exterior directamente associado ao edifício.

Provavelmente a inovação fundamentada e adequada (na mudança e na adaptabilidade), que se defende para os espaços comuns do habitar e de que se irá falar para a concepção de novas soluções domésticas, encontra e encontrará aqui, na criação e recriação de novas soluções de edifícios, uma excelente matéria, à qual iremos voltar, aqui e ali, nesta Série editorial, ao sabor dos sítios e das ideias de que vamos falando.


Fig. 1

No entanto importa, desde já, referir que uma tal inovação deverá ter em conta o enorme leque de soluções que foram sendo experimentadas desde a invenção da povoação, há cerca de 10.000 anos, com um especial enfoque nas soluções mais replicadas e reinterpretadas – nas quais tem presença especial a casa-pátio (ou o pátio-casa) – não fazendo qualquer sentido andar-se, constantemente, a reinventar várias pólvoras; e uma tal reaplicação e reinterpretação tem de ser criteriosa e actual, podendo, na prática, gerar verdadeiros novos modelos de habitar.

E importa também apontar que uma tal inovação pode decorrer, em boa parte, de soluções de (re)articulação e de síntese diversificadas dos diversos elementos constituintes e de composição que se conhecem, visando-se objectivos específicos, quer de melhoria das condições domésticas, quer de melhoria das condições de agregação no edifício, quer de melhoria das condições de vizinhança de proximidade e de continuidade e vitalidade urbanas, quer, naturalmente, de economia de construção e de manutenção.

E julga-se que tudo isto terá muito mais interesse do que continuarmos irredutíveis a defender velhas tipologias de edifícios muitas das quais tiveram origem em processos construtivos e culturais específicos e muitos deles datados e localizados. Uma afirmação que, evidentemente, não pode conflituar com os fundamentais objectivos de justeza e coerência de linguagens formais e construtivas em zonas integradas em paisagens a proteger.

Considerando-se a ideia-base desta Série editorial de tentar identificar aquilo que é potencialmente mais determinante da satisfação residencial e neste caso especificamente nesta temática dos diversos tipos de edifícios poderemos identificar um conjunto bastante limitado de aspectos, entre os quais se identificam (numa listagem vientemente dinâmica) os seguintes:

1. Independência formal da habitação relativamente à sua envolvente e a outras habitações e/ou possibilidades da sua apropriação/identificação.

2. Acesso privativo da habitação ao exterior público.

3. Estimulantes formas de agrupamento de fogos em edifícios…

4. Reduzido número de habitações agregadas num mesmo conjunto servido por acessos comuns.

5. Edifício com baixa altura, tendo em conta especificamente o relacionamento que permite, ou não, com o espaço envolvente; alternativamente uma altura mais elevada poderá associar-se a uma atraente imagem urbana.

6. Existência de elevador(es).

7. Existência de escadas ergonómicas e ambientalmente agradáveis.

8. Espaciosidade, dignidade e orientação nos espaços comuns.

9. Dignidade, identidade e orientação nas entradas comuns.

10. Dignidade, identidade e capacidade de apropriação nas entradas privadas.

11. Existência de boas condições de luz natural, ventilação e vistas nos espaços comuns.

12. Existência de boas condições de conforto térmico nos espaços comuns.

13. Reduzido número de vizinhos por agrupamento horizontal de acessos.

14. Integração do edifício na respectiva vizinhança urbana e paisagística.

15. Pormenorização da imagem pública do edifício com destaque para o seu remate térreo.

16. Existência de espaços privativos fora das habitações, como garagens e arrumações.

17. Existência de espaços de condomínio com desenvolvimento significativo e sem presença negativa no espaço público (não criando descontinuidades no espaço público).

18. Existência de espaços exteriores (privados, comuns ou públicos) cuidados na contiguidade do edifício.

19. Existência de varandas ou terraços.

20. Possibilidade de integração de elementos de vegetação.

Sublinha-se que com estes ingredientes é possível concretizar diversas soluções de edifícios e diversas agregações habitacionais. No entanto e à partida muitas soluções correntes parecm ficar quase imediatamente postas de lado, em termos de potencial de satisfação, como é o caso, por exemplo, de grandes torres habitacionais com imagens públicas monótonas e espaços comuns interiores.

Também se salienta que das diversas misturas dos referidos ingredientes poderão resultar soluções diversificadamente equilibradas; por exemplo um maior número de habitações agregadas em torno de agradáveis e amplos espaços comuns de condomínio.


Fig. 2

Para concluir esta reflexão mínima sobre os diversos tipos de edifícios façamos agora um pequeníssimo apontamento sobre o chamado “habitat intermediário”, através de algumas palavras de Monique Eleb e Anne Marie Chatelet (1); dizem as autoras que “há três grandes categorias habitacionais: o habitat colectivo, o habitat individual e o habitat intermediário, que tal como o nome indica se liga aos dois precedentes (imóvel colectivo mas com acessos individualizados e superfícies exteriores significativas tais como terraços)”, e, numa referência a F. Lamarre, especificam que “os terraços sobrepostos, entradas e caixas de escada desmultiplicadas conferem ao habitat uma escala intermediária, a meio caminho entre o individual e o colectivo.”

Julga-se que esta matéria é de enorme importância, esta ideia de caldear caracterizações multi e unifamiliares indo, tendencialmente, buscar o que de melhor umas e outras têm para um habitar urbano verdadeiramente agradável e estimulante; quem sabe numa aliança entre um carácter e uma identificação aparentemente independente e expressiva da presença de cada habitação no conjunto da vizinhança e uma disponibilização de um conjunto de serviços úteis e diversificados e mesmo de um ambiente gregário que seja veículo de um sentido de protecção mútua e de apropriação de uma pequena parte da cidade.

Finalmente, considera-se que há um outro aspecto que tem uma insuspeitada importância na geração de soluções ou tipos habitacionais verdadeiramente atraentes e apropriáveis, refiro-me aqui aos aspectos de escala e de ligação, eventual e talvez tendencialmente, telúrica da edificação térrea e das soluções edificadas expressivamente marcadas por habitações térreas.

Soluções estas habitualmente associadas a uma forte perspectiva residencial humanizada, um aspecto que se julga ficar bem evidenciado nas palavras de Isabel Salema, referidas à arquitectura de Jörn Utzon (2003): “as raízes das suas casas organizadas em redor de pátios, visíveis nas casas de Fredenborg (1959-62), encontrou-as nas suas viagens mas também na própria Dinamarca. Misturam referências das quintas tradicionais dinamarquesas e chinesas e da arquitectura islâmica ... uma espécie de programa-quadro para o habitar individual, capaz de criar um espaço colectivo inesquecível, e no entanto sem qualquer sugestão do arquitecto ter imposto a sua personalidade aos outros. Vai ao encontro das necessidades modernas maravilhosamente, e contudo Fredensborg quase podia ter sido construído há mil anos.” (2)

E reparemos aqui que se misturam, e muito bem, aspectos de individualidade e comunidade nestas referências a uma arquitectura residencial chã e/ou expressivamente marcada pela escala humana, aspectos estes que pelos vistos cruzam a Europa de Norte a Sul, da colónia para casais idosos em Fredensborg, feita há poucas dezenas de anos, às tantas habitações térreas e/ou expressivamente humanizadas e mediterrânicas.

Mas esta é temática que nos pode e deve levar muito longe ...

Notas:
(1) Monique Eleb, Anne Marie Chatelet, "Urbanité, sociabilité et intimité des logements d’aujourd’hui", 1997, p.18
(2) Isabel Salema, “Jorn Utzon para além da Ópera de Sidney”, Público, 19 Abril 2003.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.


Editor: António Baptista Coelho abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano IX, nº444
ORGANIZAÇÃO E COMPOSIÇÃO DE EDIFÍCIOS HABITACIONAIS
Edição de José Baptista Coelho
LNEC-Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) e
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte







segunda-feira, maio 06, 2013

438 - GRANDES FAMÍLIAS DE EDIFÍCIOS HABITACIONAIS - Infohabitar 438

Infohabitar, Ano IX, n.º 438
Artigo XXXII da Série habitar e viver melhor

GRANDES FAMÍLIAS DE EDIFÍCIOS HABITACIONAIS

António Baptista Coelho

Vamos falar em seguida sobre as grandes famílias de edifícios, e será assim porque se julga mais interessante pensar sobre os elementos do “lego” que faz, e que pode ainda vir a fazer, uma enorme multiplicidade de soluções de edifícios, do que sobre uma extensa cartilha de tipologias, que, ainda por cima, tem sido usada de forma pouco mais do que aleatória, tirando-se muito pouco partido do que poderia ser um edifício habitacional verdadeiramente mais vitalizado e estimulante.


Mas vamos pensar nas grandes famílias de edifícios numa perspectiva que se baseia no (re)pensar, integrada e até arrojadamente, uma cidade e um espaço do habitar mais intensos; repensando essa essencial aliança também em parceria com os “outros” sítios onde também e efectivamente se habita, por exemplo o “café da esquina”, a esplanada acolhedora e abrigada, o quiosque amigável, etc. E isto tudo num quadro de paisagem urbana estimulante e adequado, contribuindo-se, assim, muito mais para um bom habitar, do que quando se pensa, apenas, como é infelizmente hábito, em soluções urbanas e de edifícios específicas, repetidas cegamente e pouco mais do que “coladas”, sem grande cuidado, uns às outras.


Fig. 01: um habitar e uma "cidade" bem integrados e mutuamente estimulantes, uma paisagem urbana tendencialmente "única" e sistematicamente diversificada (um exemplo esboçado de uma aldeia mediterrânica).

Comecemos com uma listagem relativamente extensa, que resultou de uma outra listagem maior que foi desenvolvida para o estudo do LNEC “Do bairro e da vizinhança à habitação”, para, depois se procurar simplificar este leque reduzindo-o e resumindo-o talvez aos aspectos que se podem considerar como mais significativos nesta temática, o que será realizado em futuros artigos desta série.

Importa, ainda, sublinhar que esta listagem não deixa de ser “clássica” nos seu principal conteúdo, sendo provavelmente possível e desejável encarar e desenvolver, posteriormente, outras listagens “mais soltas” do “figurino” corrente e naturalmente mais comentadas.


E acrescenta-se, ainda, que se procurará, em futuras listagens de tipologias residenciais, assumir e inovar, fundamentadamente, em termos de uma fusão verdadeira entre habitação e microcidade, pois julga-se que será esse um dos caminhos essenciais neste ainda novo século das cidades, aprofundando-se diverseficadamente, uma integraçõ que se julga de grande utilidade num amplo leque de situações que vão da cidade “modernista”, à cidade dos quarteirões, à velha cidade das “vielas” e à cidade informal.


Desenvolve-se, então, em seguida, uma proposta relativamente corrente, embora extensa e diversificada, de tipos/tipologias de edifícios e locais de residência (20+1 ):


I. Unifamiliar: isolado; isolado com pátio "interior"


II. Unifamiliar geminado (semi-isolado)


III. Unifamiliar integrado: em banda e com exterior privado; em banda e sem exterior privado; em banda dupla – costas com costas; numa “constelação” orgânica de pequenas bandas


IV. Bifamiliar: isolado; geminado


V. Bifamiliar integrado: em banda e com exterior privado; em banda e sem exterior privado; em banda dupla – costas com costas; numa “constelação” orgânica de pequenas bandas


VI. "Variantes" tri, tetra, penta e hexafamiliar (unifamiliares “agregados”)


VII. Associações entre unifamiliares e pequenos multifamiliares


VIII. Pequeno multifamiliar isolado


IX. Pequeno multifamiliar integrando: banda simples e regular; agrupamentos densos; banda simples e recortada; bandas formando pracetas; pequeno quarteirão unificado; quarteirão


X. Multifamiliar constituindo um "bloco" isolado


XI. Multifamiliar de continuidade/recomposição urbana: corrente; de gaveto e equipado


XII. Multifamiliar integrando: pequena banda isolada; conjuntos de bandas; conjuntos de bandas equipadas; bandas de preenchimento; bandas formando pracetas; e formando quarteirões; quarteirão equipado; semi-quarteirão


XIII. Pequenas "torres" multifamiliares: isoladas; agrupadas


XIV. "Torre" multifamiliar: isolada; agrupada


XV. Grande "torre" multifamiliar


XVI. Grande "bloco" multifamiliar com galerias interiores


XVII. Grande "bloco" multifamiliar com galerias exteriores


XVIII. Condomínio de: unifamiliares; uni-multifamiliares; pequenos multifamiliares; multifamiliares


XIX. Pequeno conjunto convivial de: unifamiliares; uni-multifamiliares; pequenos multifamiliares; multifamiliares


XX. Locais de residência colectivos


XXI. Locais de residência socioculturalmente específicos: unifamiliares; uni-multifamiliares; multifamiliares



Fig.02: uma tipologia de edifício que na prática e positivamente se "apaga" em favor de uma tipologia de quarteirão, de vizinhança e de continuidade urbana, proporcionando-se um sentido de abrigo e de integração/identificação na e com a cidade, muito agradáveis (neste caso trata-se de Alvalade já mais a caminho do Areeiro, em Lisboa, projecto urbano de Faria da Costa).

Vamos então tentar discutir e sintetizar, um pouco mais, esta temática sobre os tipos de edifícios; matéria aqui iniciada, mas que obrigará a outros textos e a um adequado e urgente desenvolvimento e aprofundamento.

As soluções de edifícios surgem, é um facto, obrigatoriamente, seja em “casas” individuais – edifícios unifamiliares - , seja em agregações de casas individuais, seja em conglomerados de habitações necessariamente entremeados por espaços comuns – edifícios multifamiliares –, mas o aprofundamento da tipologia de edifícios habitacionais, em si mesma, não é um aspecto que neste estudo nos interesse muito, ou que nos interesse em primeira linha; interessa-nos muito mais que a habitação seja adequada e estimulante para quem a habita, e que esteja bem integrada num espaço urbano de vizinhança ele próprio também veículo de um habitar mais feliz; e naturalmente que nos interessa que o edifício faça boa cidade, cooperando em adequadas imagem e funcionalidade urbanas.


Tal opção não “apaga” o edifício, seja em termos de preocupações funcionais globais, que, aliás, estarão cada vez mais estruturadas por uma ampla teia de obrigações regulamentares – que importa, urgentemente, sintetizar, articular e divulgar numa forma clara –, seja em termos de um desejável “bom desenho” global e pormenorizado de Arquitectura, ele próprio um trunfo, potencialmente, com grande valia nas referidas preocupações práticas ligadas ao carácter residencial e urbano do lugar, à sua integração geral e mesmo à integração que no edifício se faz das respectivas unidades habitacionais. Mas atenção, a perspectiva que aqui se evidencia do edifício não é uma expressiva ou quase exclusivamente funcional – a situação infelizmente corrente –, mas, essencialmente, aquela do edifício como “peça” de desenho, naturalmente funcional mas também “quase” peça de arte, pois é essa perspectiva aquela que mais influenciará os seus habitantes no sentido de um habitar mais adequado, emotivo e integrado (aliando espaços domésticos e citadinos).


Os aspectos funcionais, sem dúvida terão o seu papel, mas, por um lado, eles são mais acutilantes ao nível da vizinhança urbana e ao nível da casa de cada um, do que ao nível do edifício – aqui mais pensado como edifício que integre várias habitações – e, por outro lado, esses aspectos funcionais ligados ao edifício são considerados como quase obrigatoriamente cumpridos por um qualquer projectista “minimamente” profissional. Sendo que os aspectos mais de desenho, ou mais integrados em termos funcionais e de “desenho”, dependerão de uma capacidade de projecto naturalmente muito mais exigente.


Em termos gerais há que sublinhar que, nesta listagem de tipologias residenciais e nestes seus comentários associados fica e ficará, no entanto, por reflectir, mais um pouco, sobre as soluções habitacionais verdadeiramente “colectivas”. E diz-se “ficará”, porque é difícil pensar e escrever sobre matérias que não foram minimamente vividas; e edifícios habitacionais colectivos são casos raros que o autor não teve, ainda, o privilégio de conhecer em pormenor. No entanto, conhecem-se, em Portugal, alguns casos de edifícios multifamiliares com um expressivo desenvolvimento de espaços comuns “centrais”, a partir dos quais se acede às diversas habitações e outros casos de unidades residenciais para grupos etários específicos.


Sendo assim, a partir deste conhecimento e de algum cuidadoso paralelismo com espaços sociais de unidades de hotelaria, é possível considerar que o investimento feito na amplitude e no protagonismo dos espaços comuns tem de ser, directamente, associado a um seu uso o mais possível intenso, aplicando-se, de certa forma o que também se passa no espaço público, e associado às melhores condições de luz natural, de ventilação e de expressivo desafogo, horizontal e vertical. Por outras palavras pode-se dar mais espaço e melhores condições ambientais aos espaços que as pessoas mais usam no interior dos edifícios e, desta forma, se contribuirá para a sua natural e eventualmente mais intensa socialização, gerando-se um certo sentido colectivo no uso e na identidade de tais espaços.


Um outro aspecto que decorre desta primeira condição, mas que tem força própria, tem a ver com a criação de verdadeiros espaços de uso colectivo ou comum, que tenham valências específicas – restauração, estar, ginástica, etc. – e que tenham excelentes condições de uso, de atractividade própria e de relação com o exterior, cativando até utentes não residentes; e a ideia que aqui fica bem evidenciada é que tudo aquilo que seja “menos do que muito bom” para as diversas actividades previstas e em termos de arquitectura de interiores não terá a força necessária, nem para quebrar a inércia do ficar em casa, ainda que pequena, nem para competir com a excelente e recomendável opção do ir até “à rua”; realmente, nesta matéria, não parece haver meios termos, ou se faz muito bom, o que não é sinónimo de caro, e haverá esperança para alguma vida em comum, ou os espaços a ela dedicados serão sempre residualmente utilizados.


Notas editoriais:(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.


INFOHABITAR Ano IX, nº438
ARTIGO XXXII DA SÉRIE HABITAR E VIVER MELHOR
Grandes famílias de edifícios habitacionais
Edição www de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte

segunda-feira, abril 29, 2013

437 - ENTRE A RUA E A HABITAÇÃO, OS ESPAÇOS COMUNS - Infohabitar 437

Infohabitar, Ano IX, n.º 437
Artigo XXXI da Série habitar e viver melhor
ENTRE A RUA E A HABITAÇÃO, OS ESPAÇOS COMUNS: ELEMENTOS NEGATIVOS E POSITIVOS
António Baptista Coelho

Entrando no edifício habitacional e ainda sem se considerarem as suas diversas tipologias e opções organizativas e de imagem, vamos pensar um pouco e genericamente sobre ele.

Considerando um anterior estudo, realizado no LNEC e já várias vezes citado (ITA 2), podemos destacar os seguintes elementos negativos, como constituintes habituais do edifício multifamiliar, e a combater quando se visa a criação de um edifício que agregue um conjunto habitações agradáveis e estimulantes.
- as escadas comuns enclausuradas e sem janelas exteriores, escadas estas cuja função é reduzida, essencialmente, a aspectos de acessibilidade de segurança;
- os patins comuns enclausurados e sem janelas exteriores, espaços estes cuja função é também reduzida a aspectos de acessibilidade em segurança.

Tais soluções incorrem num “pecado quase capital”, é que o edifício multifamiliar, onde habitam muitas pessoas, não é uma “máquina de habitar” e os seus habitantes não podem fechar os olhos e imaginar que esses espaços comuns enclausurados e claustrofóbicos não existem, quando, diariamente, circulam entre a porta de casa e a porta do edifício; e tudo o que mais se diga faz realmente pouco sentido, pois em soluções como estas parece esquecer-se que habitar é também usar estes espaços com agrado, pelo menos “mínimo”, e dá vontade de dizer que mesmo esta opção minimalista é claramente condenável.


A circunstância de estas reflexões serem pouco compatíveis com alguns aspectos regulamentares existentes deverá implicar, quer a desejável revisão de tais regulamentos, quer um trabalho de concepção cuidadoso que, pelo menos, reduza tais situações muito pouco “felizes”, o que será, por exemplo, possível com a introdução de vãos nas escadas, entre o interior e o exterior e entre espaços interiores, bem como através da previsão de vãos exteriores nos patins dos fogos. Vãos estes que terão de ser devidamente concebidos em termos da segurança contra risco de incêndio, mas que são também essenciais para o conforto no uso desses espaços, através de uma adequada luz natural e de vistas estimulantes sobre o exterior.

Haverá também alguma culpa de quem projecta na ausência de soluções que aliem certos aspectos de enclausuramento de segurança contra riscos de incêndio, que são fundamentais, com o desenvolvimento de verdadeiros aspectos de conforto ambiental (luz natural e ventilação) nos espaços comuns.

A ideia que fica é que não há uma adequada escala de valores em termos do que é mais importante nos espaços comuns residenciais e aqui, não tenho dúvida em dizer que a segurança contra risco de incêndio não é mais nem menos importante do que poder-se ter luz natural e ventilação junto às portas de casa; trata-se de matérias distintas, mas ambas essenciais, quer para a adequada segurança em termos de risco de incêndio, quer para o adequado conforto no uso da habitação.

É, portanto, essencial para um melhor habitar num edifício multifamiliar que haja luz natural, ventilação e, já agora, algumas vistas exteriores nos espaços comuns de circulação.

Imagine-se, agora, uma solução multifamiliar deste tipo, enclausurada, e consequentemente triste, em que os espaços comuns são zonas “negras” e aplique-se esta solução num edifício com grande dimensão e, já agora, para cortar etapas, apliquem-se dimensões mínimas e acabamentos e equipamentos mínimos (ex., elevadores “claustrofóbicos”), quer nesses espaços comuns, quer na sua imagem pública: muito “triste” será, provavelmente, o resultado, muito triste porque muito pouco compatível com as formas que muitos de nós privilegiamos para viver.

Mas sejamos ainda mais negativos, para concluir, e imaginemos que numa tal solução residencial decidimos alojar pessoas muito habituadas a viverem o seu dia-a-dia numa forte relação com o exterior e com um diversificado leque de vizinhos, e, já gora, imaginemos, só para sermos mesmo negativos, que num dado realojamento, já marcado pelas situações anteriores, não se consideraram essas redes de amizade – e provavelmente é bem difícil, se não impossível, respeitá-las a todas.
Enfim, não teremos, com certeza, um edifício em que seja agradável e estimulante viver.

Fig. 1

Mas teremos, sem dúvida, edifícios muito mais estimulantes se tiverem pequena dimensão e se nos seus espaços comuns a luz natural entrar em quantidade, e se houver aí tantas plantas que parece que o exterior vem até à porta da habitação, e se no Verão tais espaços forem razoavelmente frescos e se no Inverno não forem muito frios e se houver vistas sobre o exterior e o exterior for atraente, e se as portas de acesso às habitações forem bem cuidadas e apropriáveis, proporcionando um sentido de “casa” e não uma imagem impessoal de mais uma porta “fria” e igual a muitas outras.

E lembremos que, evidentemente, não estamos aqui, nem podíamos estar, contra quaisquer medidas regulamentares necessariamente muito rigorosas, porque associadas a aspetos de segurança que podem colocar em risco a vida dos habitantes – como o caso das medidas associadas ao risco de incêndio. Estamos sim a procurar sublinhar que no desenvolvimento e na implementação destas vitais medidas de segurança na habitação e designadamente em edifícios multifamiliares há que ter bem presente o sentido habitacional do quadro que se está a desenvolver e consequentemente a sua agradabilidade e capacidade de atracção e mesmo de apropriação pelos seus habitantes; e consequentemente há que harmonizar as respetivas medidas de segurança com esse mesmo quadro não colocando as pessoas em risco, mas afectando no mínimo possível as respetivas condições de conforto e atractividade na vivência dos respetivos espaços comuns.


Naturalmente que nas situações existentes em que se detectem intervenções de habitantes que ponham em risco a sua segurança, há que intervir claramente na reposição das condições mais adequadas, aproveitando-se para esclarecer os habitantes relativamente à razão de ser das soluções escolhidas e ao crítico perigo que correm quando inviabilizam ou dificultam, com as suas intervenções, as condições de segurança programadas, tais como acontece com portas corta-fogo bloqueadas na posição de abertas e com escadas (fundamentais para evacuações e ações de emergência) densamente ocupadas com vasos de plantas.


É interessante reflectir que com os comentários acima apontados, relativamente ao aprofundamento da habitabilidade e da atractividade dos espaços comuns de edifícios multifamiliares, nos estamos a aproximar, passo a passo, mas claramente, de uma solução genérica em que parece que “a casa” está ali naquele andar, daquele prédio, sendo este constituído por um conjunto ou agrupamento de “casas”; sendo que fora de cada habitação/”casa” o espaço comum quase se dilui para fazer entrar o exterior e a natureza.

Ou então, alternativa ou complementarmente, estamos a aproximarmo-nos de uma solução em que há todo um “mundo” comum interiorizado habitável, envolvente, confortável e estimulante que prolonga e complementa o espaço doméstico estando fora dele – numa “figura” globalmente associável à de um agradável “hotel”, que nos disponibilze para além dessse interessante ambiente, um conjunto estimulante de serviços.

Talvez este seja um caminho para edifícios onde nos podemos vir a sentir mais satisfeitos e estimulados no dia-a-dia, talvez um dos caminhos principais, “interiorizando/domesticando” agradavelmente o espaço comum, pelo menos, através de uma pontuação estratégica com zonas de luz natural, pontos de vista sobre a paisagem exterior e elementos fortes de apropriação (naturais ou bem desenhados), e, naturalmente, através uma disponibilidade de espaços e de equipamentos que pouco terão a ver com áreas e custos mínimos.

Mas há situações onde luz natural, em quantidade, e excelentes vistas sobre o exterior seriam possíveis com muito pouca despesa suplementar, mas a opção foi fechar paredes, fazer panos de paredes cegos, ou quase cegos; e, realmente, não se entende, nem deveria ser aceite por quem decide e vai gerir, a seguir, tais edifícios.
E podemos também considerar que conforto e espaciosidade, nos espaços comuns, sendo qualidades desejavelmente associadas, podem também ser razoável e mutuamente compensatórias, sendo, por exemplo, possível programar uma escada comum extremamente agradável em termos de luz e de vistas e espacialmente mínima, embora estas escolhas se liguem, tendencialmente, a edifícios relativamente pequenos (pouco altos).


Fig. 2

Um outro aspecto a considerar nas soluções gerais de edifícios multifamiliares é que o percurso entre cada habitação e “a rua” deve ser funcional, seguro (aqui é fundamental a visibilidade de segurança), não intrusivo da privacidade nas habitações, confortável no apoio à movimentação e atraente (bem cuidado, equipado e limpo); desta forma será possível incentivar o seu uso, enquanto em situações contrárias as pessoas tenderão a reduzir tais percursos ao mínimo indispensável, podendo-se chegar a situações de verdadeiro entrincheiramento em casa (há, infelizmente, casos concretos), o que reduzirá drasticamente quer a vida no edifício, quer a vida nos espaços públicos vizinhos. E sublinha-se que nenhuma dessas condições tem a ver com mais despesas, mas sim com um melhor projecto.

Há aqui uma matéria complementar e importante a considerar, que por alguns pode ser considerada óbvia, mas que quem visite bairros e conjuntos habitacionais sabe ser verdadeira; é que fazer tudo isto só faz verdadeiro sentido se o exterior envolvente estiver adequadamente arranjado e cuidado, de outra forma a nossa única hipótese será usar os agradáveis espaços comuns para, rapidamente, aceder ao automóvel e ir dali para fora; mas isto evidentemente não é vizinhança nem é cidade.

E sobre esta matéria Pearl Jephcott diz-nos que se pode gostar de um certo anonimato e isolamento, que pode ser por exemplo oferecido por um grande edifício, ou, digo eu, pela organização específica (ex., “orgânica” e repartida) de um edifício com dimensões correntes, mas a autora defende que acabamos por nos ressentir de um isolamento excessivo, nomeadamente, no caso das pessoas que vivem sós e especificamente quando não há verdadeiras possibilidades de convívio ou animação urbana nos espaços públicos próximos.(1)

Os espaços comuns são, assim, elementos fundamentais da relação entre o exterior residencial público e os domínios privados domésticos, são espaços que podem ser mais agradáveis e estimulantes se criarem boas relações quer no sentido/percurso da dimensão pública, quer no sentido/percurso do mundo privado, e para tal devem relacionar-se com eles, das mais diversas formas – vãos, acabamentos, transições espaciais, etc. – e se com eles não se relacionarem activamente pouco agrado poderão proporcionar.

No entanto, para além destes aspectos, os espaços comuns constituem, eles próprios, uma dimensão residencial específica que pode e deve ajudar as outras duas – exterior e habitação –, relacionando-se com elas e pode constituir, por si própria, um espaço residencial indutor de satisfação e de agrado/estímulo.
Só que, frequentemente, e com frequente excepção na entrada principal do edifício, os espaços comuns são tratados como verdadeiras sobras, espaços residuais e espaços “entre”, sem um sentido e uma razão de ser próprios. E, incrivelmente, nesta perspectiva a posição regulamentar e minimalista que tende a reduzir os espaços comuns a uma espécie de “máquinas de acessibilidade” seguras, acaba por fazer um triste sentido. E isto embora não nos possamos esquecer que os regulamentos indicam “mínimos”, não os impondo; mas evidentemente tais mínimos acabam por ser regra, seja em boa parte da habitação corrente de mercado, seja também em boa parte da habitação apoiada pelo Estado.

Mas o espaço comum tem de ser muito mais do que isso e é por esta razão que, muitas vezes, é preferível diluir os espaços comuns numa grande afirmação da relação entre natureza e habitações, com zonas comuns muito abertas, rústicas, simplificadas e duráveis, e mesmo em soluções que acentuam a relação directa entre habitações e exterior público, de do que encasular espaços comuns exíguos e pobremente acabados.


Neste texto procurou-se discutir soluções para os espaços comuns de edifícios multifamiliares, iniciando-se o comentário por situações frequentemente associadas a aspetos regulamentares e evoluindo-se, depois, para uma abordagem mais ampla do leque de possibilidades de projecto existentes, leque este sempre menorizado por opções que tendem a considerar que as tipologias mais correntes e recentes serão as “únicas” e as mais económicas, o que se julga não ser verdade.

Lembremos então e finalmente que toda esta teia, potencialmente muito rica, de relações entre espaços comuns e espaços públicos, que acabou de ser brevemente comentada, confronta, “simetricamente”, uma outra teia de relações e de possibilidades de relação entre espaços comuns e interiores domésticos.
Há toda uma diversidade de relações possíveis e tem de ser evidente que um vão de porta “cego” e com um acabamento “frio”, aberto num patim comum interior sem luz nem vistas, não é exemplo de elemento que suscite agrado e apropriação habitacional, nem que por trás da porta da casa haja uma “Caverna das Mil e Uma Noites.”

Em próximos artigos desta série iremos passar esta porta, mas voltaremos a olhar os patins e o exterior público, desta feita, mais a partir do interior da habitação.

Notas:
(1) P. Jephcott, "Homes in High Flats", p. 131.

Notas editoriais:

(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.

INFOHABITAR Ano IX, nº437

ARTIGO XXXI DA SÉRIE HABITAR E VIVER MELHOR

Entre a rua e a habitação, os espaços comuns: elementos negativos e positivos

Edição de José Baptista Coelho

Lisboa, Encarnação - Olivais Norte