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domingo, fevereiro 17, 2008

183 - Cidades vivas, cultas e criativas I - Artigo de António Baptista Coelho - Infohabitar 183


Fig. 01

 - Infohabitar 183

Cidades vivas, cultas e criativas I

Artigo de António Baptista Coelho

Relações entre revitalização urbana, cultura e criatividade


A ideia que aqui se coloca é que há, hoje em dia, um conjunto de aspectos de intervenção urbana e activa que associam, em si mesmos, capacidades de se avançar na resolução de alguns problemas das nossas cidades e paisagens. E a ideia é que a revitalização urbana, a dinamização da cultura e da arte, e a criação de uma cidade mais cívica, humana e ambientalmente sustentável, são aspectos que mutuamente se conjugam e se influenciam, podendo ser usados em acções de melhoria da qualidade de vida urbana e peri-urbana, hoje em dia, cruciais e urgentes.

Desde já aponto que quando iniciei este artigo não conhecia ainda o teor da “Carta de Leipzig sobre as Cidades Europeias Sustentáveis” (1), sublinhando, desde já, que este conhecimento proporcionou uma maior articulação e, mesmo, fundamentação institucional das matérias aqui apontadas; e o próprio teor da Carta de Leipzig resultou na vontade de a vir a comentar, especificamente, em próximo artigo desta série.

Voltemos, então, às ideias-base que estiveram na origem deste pequeno texto e começando pelo enquadramento e utilizando alguns artigos recentemente editados no jornal Público, poderemos ter em conta alguns aspectos que caracterizam muitas cidades europeias actuais:


Fig. 02


I A criatividade cultural como factor de revitalização urbana


Um desses aspectos é sintetizado no artigo de Catarina Selada e Inês Vilhena da Cunha, intitulado “A criatividade é um «produto» urbano?” (2), e onde numa “caixa” se destaca, entre outros aspectos, que “a fixação de criativos pode ser um factor de desenvolvimento das áreas rurais, zonas de baixa densidade ou pequenos centros urbanos.”

Apetece dizer que o desenvolvimento da criatividade urbana é, por si só, matéria de dinamização e enriquecimento da cidade, e de qualquer “cidade”, desde o pequeno aglomerado urbano onde se localize, por exemplo, um pólo artístico, como é o caso do Centro Cultural S. Lourenço, em Almansil, numa zona semi-rural, perto de Faro, a um caso urbano, e cosmopolita com presença notável numa grande cidade como acontece, por exemplo, com o entusiástico movimento de inovação do tecido comercial, designadamente, através de ateliers, galerias de arte e lojas inovadoras, que está a marcar e a crescer, fortemente, na “cruz” formada pela Rua do Rosário e pela Rua Miguel Bombarda, no Porto (as imagens que ilustram este artigo são destas ruas); e pelo meio temos as igualmente excelentes iniciativas de dinamização cultural que têm marcado pequenos e caracterizados pólos urbanos, entre as quais se destacam, por exemplo, os eventos que regularmente acontecem na medieval vila de Óbidos.


Fig. 03
Há, portanto, um potencial de novidade cultural que se pode tornar, com alguma naturalidade, um potencial económico local com sentido crescente, e vitalizador de um ritmo urbano semanal mais nos dias “úteis”, mais nos finais de semana, ou em certas datas específicas, ou, melhor ainda, variando em conteúdos conforme o desenvolvimento do calendário, bem na tradição de uma cidade viva e caracterizada, acrescentando-lhe uma excelente e sensível dimensão de vida cultural e ambiências e memórias únicas e verdadeiramente de referência; sítios, cenários e actividades onde apetece voltar, uma e outra vez, e isto ajuda muito a fazer cidade viva, variada e estimulante.

Este potencial está aí, para ser usado, em muitos sítios, que há que escolher judiciosamente, mas tem de ser usado: não numa perspectiva amorfa, porque repetida, e até por vezes desagradavelmente uniformizadora e mesmo sem gosto, por exemplo, devido a uma incoerente e maçadora repetição de ofertas de actividades e eventos culturais e conviviais; mas sim e sempre numa opção que em cada sítio deve marcar pela sua originalidade e eventualmente por algumas raízes locais, ou, desejavelmente, por uma afirmada identidade local, que se ligue e tire partido da respectiva paisagem urbana e natural e do respectivo meio socio-ecomómico e cultural e que, mais ainda, tenda a caracterizar-se por uma identidade sociocultural e ambiental específica, associada a um adequado potencial de atractividade e de integração de um equilibrado leque de gostos e actividades.

Ainda relativamente ao potencial de um tal desígnio importa aqui citar, de forma sintética, os aspectos apontados no artigo referido como “pontos fortes” das indústrias criativas em áreas rurais, mas que, aqui, queremos generalizar a qualquer outro espaço territorial urbano ou semi-urbano onde se detectem carências de vitalização e que possua algumas condições básicas estratégicas que possam apoiar o desenvolvimento de um núcleo de indústrias criativas.

Fig. 04


E é do referido artigo de Catarina Selada e Inês Vilhena da Cunha que se citam, como pontos fortes de uma tal incitava os seguintes aspectos: criação de empregos qualificados (e outros complementares); desenvolvimento de novas empresas; activação da ligação aos centros urbanos; promoção de outros sectores com destaque para a o turismo, a hotelaria e a restauração (criando-se interessantes novelos ambientais e funcionais caracterizadores do respectivo espaço urbano e paisagístico); revitalização local com reduzidos impactos ambientais; enriquecimento do tecido social e cultural local por criação de “novas amenidades culturais” e pela (re)activação das “redes sociais e culturais” – sublinha-se que a citação do referido artigo é muito livre e informal e que, aqui, se opta pela possibilidade de aplicação deste tipo de iniciativas não exclusivamente em áreas rurais, tal com atrás se disse.

Ainda numa leitura generalizadora do que Catarina Selada e Inês Vilhena da Cunha referem serem os efeitos das indústrias culturais no meio rural, e, portanto, pensando na influência dessas indústrias em meios urbanos e semi-urbanos, importa citar: a indução de efeitos multiplicadores para o desenvolvimento das economias locais; e o excelente papel “«da criatividade» nas medidas de combate à desertificação e ao despovoamento dos territórios”, que as autoras localizam em meio rural e que aqui se toma a liberdade de aplicar de forma genérica e designadamente a meios urbanos e semi-urbanos desvitalizados e/ou descaracterizados – e esta matéria da influência da “criatividade” na recaracterização de determinadas zonas de cidade e de determinadas paisagens é algo que merece desenvolvimento específico, que se pretende fazer em futuro artigo desta série.

Finalmente, e ainda aproveitando algumas ideias do citado artigo, é claro que determinadas condições preexistentes, designadamente, ao nível da acessibilidade pedonal estratégica e da história local e respectivo potencial de identificação/identidade e de valia patrimonial de espectro razoavelmente amplo, serão, sem dúvida, trunfos importantes no êxito de cada “jogo”, em cada sítio.


Fig. 05


II A cultura como elemento de dinamização da sustentabilidade urbana

Um dia antes do artigo que se acabou de referir e comentar, no mesmo “Público”, um excelente artigo de Abel Coentrão, intitulado “Quando a economia falha, sobra a cultura” (3), abordou uma recente intervenção no Porto de Tom Fleming, onde se apresentaram variadas linhas de saída da crise urbana e social que se vive em muitos pólos urbanos europeus, através do desenvolvimento criativo e mesmo premeditadamente pouco regulado – portanto vivo e expontâneo – de uma grande variedade de pequenas indústrias criativas em meio urbano, mais ou menos denso.

E entende-se aqui a relação directa entre os temas tratados nos dois artigos, e, de certa forma, o reafirmar da ideia que a cultura é um meio excelente e prático de desenvolver a regeneração funcional e social de meios urbanos social e fisicamente deprimidos; e a este importante novelo temático também voltaremos em próximos artigos desta série.

Antes de fazer alguns comentários finais gostaria ainda de realizar uma conexão destas matérias da redinamização cultural como meio de revitalização dos espaços vividos e marcados pelo homem (espaços urbanos e semi-urbanos ou semi-rurais) com as candentes temáticas da sustentabilidade citadina.

Esta relação será objecto de futuro desenvolvimento, no entanto, é muito interessante e há que destacar, desde já, o potencial de ligação entre as matérias da redinamização do tecido urbano e semi-urbano por pequenas indústrias culturais e a implementação de objectivos de sustentabilidade ambiental, social, convivial e mesmo cultural, num novelo de ideias marcadas, entre outros aspectos de qualidade urbana, por: dominância do tráfego pedonal; vitalização e segurança públicas; integração de actividades diversificadas e não-poluentes; desenvolvimento verde urbano; diversidade e interesse arquitectónico; integração de vários grupos socio-culturais; convivência de vários modos de viver a casa e a cidade; e acentuação das formas suaves e eficazes de transportes públicos.

Há que interiorizar que uma coisa é a (re)dinamização cultural de zonas estratégicas das cidades e dos territórios semi-urbanos e outra coisa é a implementação de medidas amplas de sustentabilidade, mas, no entanto, a sustentabilidade cultural é também matéria fundamental e a (re)dinamização cultural é basicamente amiga de espaços pedonalizados, vitalizados por habitação, acessíveis e ambientalmente agradáveis. Portanto há que estabelecer pontes fortes e eficazes entre estes dois tipos de desígnios.

De facto, poder viver num ritmo mais humano, em ambientes mais saudáveis e conviviais, e marcados por perspectivas de sustentabilidade ambiental, tal como é descrito num artigo assinado por Inês Vilhena da Cunha e Kathrin Calhau, intitulado “Vauban e Ballard são realidades de comunidades sustentáveis” (4), ajuda, sem dúvida, a uma predisposição para a cultura e para a arte, e provavelmente o contrário também é verdadeiro e um ambiente marcado pela arte e pelas indústrias culturais será um meio sensibilizador para a adopção de formas de vida e de ambientes globalmente mais sustentáveis.

Fig. 06


III Outros aspectos da aliança entre cultura e regeneração/sustentabilidade urbana

Para desenvolvimento noutras oportunidades apontam-se, ainda, outros dois aspectos importantes: o primeiro é que em tudo isto e designadamente quando se trata de uma inserção de elementos e eventos ligados à arte e ao artesanato, numa perspectiva mais urbana ou mais integrada nos mundos domésticos, é fundamental tudo fazer para se visar e se obter a máxima qualidade global e específica dos conteúdos culturais e artísticos oferecidos, pois não tenhamos qualquer dúvida que uma qualidade “ímpar” e a disponibilização de eventos e conteúdos “únicos” – portanto adequados e criativos e, portanto, não necessariamente dispendiosos e difíceis de assegurar – são condições que caracterizam o único caminho potencialmente marcado pelo sucesso nestas áreas; o segundo aspecto, que se liga, estreitamente com esta matéria é que a opção pela cultura é também, hoje em dia, na nossa Europa, um investimento que já está a resultar e que cada vez mais dará resultados económicos, e sobre esta matéria lembra-se o sub-título do citado artigo sobre Tom Fleming e as suas pequenas indústrias culturais e criativas, que aponta: “Quando a economia falha, sobra a cultura”.

E não é possível deixar aqui de lembrar, bem a propósito, que na União Europeia a cultura contribui mais para a economia do que os automóveis e que, mesmo em Portugal, a cultura é já o terceiro contribuinte para o nosso PIB, tal como é apontado no belíssimo artigo de Joana Gorjão Henriques significativamente intitulado: “É a cultura, estúpido!”
E, claramente, há aqui todo um potencial de crescimento relativo ao multifacetado aproveitamento da cultura europeia em termos de fonte de recursos económicos, que só depende da referida e exigente opção pela qualidade e de uma aliança entre tal opção e uma perspectiva de gradual mas efectiva melhoria da qualidade de vida nas cidades e nas zonas periféricas; pois não fariam qualquer sentido, nem teriam quaisquer resultados sustentados, quer uma qualidade fingida, quer uma qualidade direccionada para os turistas e que esquecesse os habitantes.

Na sequência desta última preocupação termina-se com a indicação da uma abertura, essencial, a uma preocupação de abordagem desta matérias sempre com os habitantes numa perspectiva de grande eficácia participativa, e aqui há que lembrar o enorme potencial oferecido pela cooperação e pelas cooperativas, e, finalmente, conclui-se este texto com uma citação, “de síntese”, retirada da referida “Carta de Leipzig sobre as Cidades Europeias Sustentáveis”, e onde se diz:

“Entendemos que as nossas cidades têm qualidades culturais e arquitectónicas únicas, uma forte capacidade de inclusão social e excelentes oportunidades de desenvolvimento económico. São centros de conhecimento e fontes de crescimento e inovação. Mas, ao mesmo tempo, debatem-se com problemas demográficos, desigualdade social, exclusão social de grupos populacionais específicos, falta de alojamento adequado a preços acessíveis e problemas ambientais. A longo prazo, as cidades não poderão desempenhar a sua função de motor de progresso social e crescimento económico descrita na Estratégia de Lisboa se não conseguirmos manter o equilíbrio social no interior de cada uma e entre elas, preservando a diversidade cultural e fixando elevados padrões de qualidade para o planeamento urbanístico, a arquitectura e o ambiente.”



Notas:
(1) “Carta de Leipzig sobre as Cidades Europeias Sustentáveis – adoptada na reunião informal dos Ministros responsáveis pelo Desenvolvimento Urbano e Coesão Territorial, em 24 e 25 de Maio de 2007, em Leipzig (CdR 163/2007 EN-EP/hlm, 9 págs.).

(2) Catarina Selada e Inês Vilhena da Cunha (colaboração Inteli, Inteligência em Inovação), “A criatividade é um «produto» urbano?”, Público, 4 de Fevereiro 2008.

(3) Abel Coentrão, “Tom Fleming - Quando a economia falha, sobra a cultura”, Público, 3 de Fevereiro 2008.

(4) Inês Vilhena da Cunha e Kathrin Calhau (colaboração Inteli, Inteligência em Inovação) – “Vauban e Ballard são realidades de comunidades sustentáveis”, Público, 11 de Fevereiro 2008.

(5) Joana Gorjão Henriques - “É a cultura, estúpido!”, Público, 16 de Novembro 2006.
Artigo concluído e editado em 17 de Fevereiro de 2008, Encarnação – Olivais Norte, Lisbo

quinta-feira, janeiro 03, 2008

177 - Homem rico – Homem pobre, um artigo de Celeste Ramos - Infohabitar 177

 - Infohabitar 177

Brevíssima nota da edição: é com sincera alegria que o Infohabitar volta a publicar um artigo de um dos seus tradicionais e mais efectivos colaboradores, a Arq.ª paisagista Celeste Ramos, que aqui faz um pequeno/grande ponto de situação sobre várias temáticas que marcaram 2007; para se não perder a oportunidade desta edição nesta altura do ano faz-se uma justifificada interrupção da edição de um extenso artigo sobre o bairro de Alvalade, em Lisboa, que será retomado e concluído nas duas próximas semanas.


ABC

A pobreza é o maior desastre ecológico - Indira Ghandi

Que haja sim todos os dias solidariedade

Não concordo com os que dizem que deveria haver Natal todos os dias pois que cairia na rotina e no esquecimento imediato porque o homem precisa de ritmos e, para mim, nada se iguala ao Natal, à magia da luz que renasce no coração dos homens ricos e pobres e onde há mais alegria no ar e agitação por vezes frenética para que não se esqueça ninguém, nem dos esquecidos todo o ano.

Que haja sim todos os dias solidariedade para com todas as criaturas viventes mas se trabalhamos todo o ano e precisamos de tempo de férias e de descanso de Verão ou de Inverno, para renovar energia, precisamos também do “tempo” de Natal para concentrar toda a magia que pode proporcionar, quer se seja ateu ou cristão, porque é a festa do homem e da sua família.

É o solstício de Inverno, o nascimento do frio e do recolhimento da terra e dos animais que hibernaram, é o silêncio das plantas que ainda não nasceram mas já foram semeadas no Outono, é o descanso da terra que se esgotou a produzir os bens que também agora se colhem, diferentes, é o tempo do manto de neve que protege e dá outra visão das estações e acorda memórias. E há Natal no coração, esse centro solar de amor, que se celebra desde tempos imemoriais por todas as civilizações antigas.




Fig. 01: Natal


E da riqueza da natureza com seus ritmos fez o homem riqueza também renovando actos de tradição e de entre eles o da riquíssima gastronomia portuguesa. É bom ter ritmos como o do próprio crescimento do homem que de bebé passa a menino e depois a adolescente até se tornar adulto, numa vida marcada por um acordar e elevar permanentemente a consciência do que somos em balanço individual e sobretudo colectivo.

O que se escreve há 4 anos neste blog multidisciplinar que “proletariza” os mais interessantes saberes - ligado sempre aos espaços e formas de habitar, em permanência ou ocasionalmente, espaços do homem e do seu viver - é da autoria de técnicos de formação superior que dedicam a sua vida profissional a estudar e realizar o seu melhor e cujas ideias são tornadas públicas através desta forma, denominada global, de comunicar, e mesmo de apreender melhor o mundo e trocar saberes e sensibilidades, forma que há tão poucos anos não pensaríamos poder existir e atingir pelo menos os que “falam a nossa língua”.

Datar o tempo de existência da vida planetária


Como há sempre o reverso da medalha, também, a par da evolução e enriquecimento das populações e das consciências, há as maiores avalanches de destruição do planeta que se tornou tão pequenino e acessível, aniquilando os animais selvagens da terra, do ar e do mar, ao destruir os ecossistemas que permitiram a sua evolução e existência, mesmo aqueles que existem há milhões de anos, como que a datar o tempo de existência da vida planetária - como os tubarões e outros mamíferos gigantes que são os maiores predadores sem os quais mais nada existe no mar, ou os grandes predadores da terra como o lobo das serranias ou o leão da savana, predadores do topo das cadeias alimentares sem os quais desaparece a natureza e a beleza do planeta incluindo a mais pequena planta, ficando apenas deserto, sendo sabido que toda a vida do planeta começou no mar e dele ainda depende na sua integridade porque sem mar não há Terra.


Fig. 02: natureza e cidade


Mas se a existência destes grandes predadores é responsável pela existência da vida e da sua desmultiplicação e continuidade, o homem é o único predador a dizimar a vida global tendo no entanto sido o ser vivo mais jovem por ter sido o último a aparecer sobre a Terra que durante milhões de anos se engalanou em festa para o receber e tudo pôr ao seu dispor para encontrar a sua felicidade e crescer como ser superior, como “rei” do mundo, mas não da vida.

No entanto, é o único que não obedece a qualquer lei preparando alegremente a sua própria extinção, não desaparecendo todos os homens de uma só vez da face do planeta, mas provocando tais desequilíbrios no clima global que a sua acção se manifesta hoje em qualquer lugar mesmo o mais longínquo daquele que destruiu, fazendo desaparecer cidades inteiras e mesmo países, sobretudo em África e nas Américas do Sul, como se o homem que tanto evoluiu em tantos saberes e se tornou superior e cientista, e inventou línguas para falar com os outros e este instrumento para comunicar globalmente, não servisse para nada.

Usar as suas cidades transformando-as nesse linguajar político

Como se apenas se limitasse a usar as suas cidades transformando-as nesse linguajar político que dessacralizou a palavra que deveria servir a comunicação entre os homens e a vida do mundo, desenditificando-a, palavra que já não leva qualquer mensagem e é apenas usada para usufruir do voto que lhes foi dado pelo cidadão anónimo, palavra que se apropria, de qualquer maneira, da possibilidade que lhe foi dada de ascender e conservar um “emprego” sem trabalhar e sem dar retorno a ninguém, nem mesmo aos lugares neste novo circo em que nem sequer há palhaços e, se os há, já não fazem rir, porque só trazem sofrimento.


Fig. 03: “Mas eu queria falar de cidades e de habitar”


Mas eu queria falar de cidades e de habitar, mais um vez, porque hoje, lendo um jornal diário, que não dispenso desde que aprendi a ler, não encontrando porém nenhuma notícia que me faça sentir cidadã de um mundo em evolução, não apenas em termos de PIB mas sim de felicidade bruta nacional, leio o que há retirando as ilações que posso, constatando que se há algo “cor-de-rosa” para grande parte da população que só vê essa cor (os que estão muito bem e sempre afirmam estar “atentos” ao que não está e lhes compete mudar, mas não mudam senão para pior, porque muito deles depende), consigo de vez em quando olhar o cor-de-rosa com a minha santa ilusão de tentar saber “o que se passa e porquê”.

Olhar os vizinhos


Mas também já recuso ler os grandes “autores” das coisas culturais e técnicas e mesmo sociais, pois que me basta o jornal, olhar a rua e o que nela de novo é construído, olhar os vizinhos, olhar e simplesmente olhar e detectar que se há eruditos e homens bons que estariam prontos para governar o mundo como função da mais alta dignidade e até santidade como dizia Ghandi e Agostinho da Silva, nem sequer são vistos nas muitas e constantes entrevistas e programas que há três ou quatro anos se ouvem em todos os canais de TV, durante 24 horas do dia, de todos os dias, como se o falar já fosse apenas ruído com uso imoral da língua e disso fazendo uma nova profissão por acumulação, inútil e certamente bem remunerada.

Fazem cada vez mais os homens do saber o que são os homens e governá-los em nome da paz e da reconciliação, como foi Jesus ou Ghandi, ou esse primeiro homem negro chamado Mandela porque nesses habitava em seu coração o amor a todos os homens, a luz que ilumina o caminho, que ficaram como arquétipos da condição humana no seu mais alto desígnio, homens luz em tanta escuridão

Habitação em pleno coração da cidade

E vem agora finalmente a propósito o que li no jornal sobre habitação em pleno coração da cidade do Porto – as ilhas – verdadeiras aldeias de miséria e indignidade dentro da cidade histórica e UNESCO, onde vivem 7 mil pessoas, mães com 8 filhos pelo que faz pensar então porquê pedir-se que haja mais nascimentos com aqueles inomináveis subsídios de nascimento, sobretudo para quem a sua riqueza é apenas a sua FAMÍLIA, mas em paralelo despenalizando-se o aborto, e ainda bem que a mulher que o faz já não é julgada como criminosa, mas para que o possa fazer, toda a sociedade, mesmo a parte que não aborta, contribui com impostos para que a ele haja acesso gratuitamente, e para o que certamente se utilizam mais dinheiros públicos do que para subsídios a mães pobres com 8 filhos e vivendo nas “ilhas” do Porto e em todas as ilhas que por aí haverá, mesmo que o direito à habitação condigna esteja consagrado na constituição portuguesa desde 1978 – faz 30 anos.


Fig. 04: Habitação em pleno coração da cidade


Para os 9 mil portugueses que vivem em ilhas de miséria não chegou o 25 de Abril e, curiosamente, dito por José Eduardo Macedo, dono da Imobiliária Chave d’Ouro, que mostra a sua cara no jornal em fotografia bem nítida, lado a lado dessas ilhas há moradias que valem 5 milhões de euros que se vão construindo desde 40-50 anos, sendo proprietários, também, de moradias deste tipo em Tóquio ou Nova Iorque e afirma ainda que só em 2007 o seu negócio cresceu 50%. Assim sendo, também por falta de habitação (e não só de emprego) tanta família não poderá ser membro activo de criação de riqueza e de cultura porque quem mora assim, não pode ter plano de vida, nem escolaridade nem mais nada, embora o “trabalho ensine” mas, se o tem, é trabalho acidental e o menos classificado embora seja preciso de tudo para fazer o mundo.

Nove mil pessoas assim, nove mil pessoas que se perdem na miséria e abandono e são, certamente, marginalizados, porque os ricos não querem estar ao lado da miséria. Talvez que o GH devesse visitar também as “ilhas do Porto”, como a Ilha Grande na Rua de S. Victor, O Bairro do Leal em pleno centro, a Ilha Mozes à Estação de Campanhã, tendo no entanto sido implantado programa de habitação social camarário desde 1956 (há 51 anos), locais onde os ratos e a chuva não pedem licença para entrar.

Homem rico – homem pobre – país rico – país tão pobre


Esta área da cidade do Porto, como a de Lisboa, foi sendo construída a partir do início da era da industrialização do fim do séc.XIX com o afluxo da população rural aos centros urbanos, atingindo hoje 11 mil habitações ocupadas por 50 mil pessoas, distribuídas por mil núcleos, vivendo no meio da imundície e de ratos que roem o copo das crianças mais pequeninas, onde não há nem saneamento básico nem lugar para tantos em tão pequeno espaço (CM 29 dezembro 2007), não fazendo paralelo com as favelas das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, senão na miséria e ofensa à dignidade humana.

Mas creio que não foi sempre assim pois que se sempre houve gente pobre, havia pelo menos solidariedade de vizinhança e alguém com uma horta e pomar e produtos para “oferecer” e, hoje, não apenas no interior só quase existe população demasiado idosa e o campo já não é a riqueza dos pobres e a pobreza atingiu, sobretudo nas grandes cidades, o nível de verdadeira miséria, como é este caso que li hoje no jornal de maior tiragem no país.


Fig. 05: Homem rico – homem pobre – país rico – país tão pobre


Ao que se acresce o total despovoamento como na serra da Estrela onde já não há rebanhos porque não há pastores, onde não há queijo da serra porque as leis impostas pela UE, de "sanidade de produção", acabou com mais um bem único e identitário que passou a industrializado sem qualidade, mas ainda procurado por quem sabe o que "era" o verdadeiro queijo dos melhores da mundo, mas já não é, para cumprir as leis de uma comunidade cruel, ignorante e desconfiada e crítica, sem se importar com o que acontece e porquê, a miséria para a qual contribui, em nome da evolução global, desfazendo mais um pedaço de património gastronómico e cultural e pilar económico de existência ancestral e digna e que permitia a ocupação dos lugares e a continuidade das paisagens e da sua beleza, mas onde já ninguém existe e já ninguém vai sequer passar férias ou apenas visitar

A PAC não acabou apenas com os agricultores e agricultura e produtos da maior qualidade porque trouxe abandono e miséria por onde passou, ficando alguns velhos que, entretanto só esperam pela morte sendo que, no entanto, nem todos os países da UE cumprem à risca todas as leis porque não querem cair no "caso português"e dentro de suas fronteiras crivam o que lhes retira

Beleza e qualidade arquitectónica

Já em Lisboa o fenómeno foi o mesmo pelas mesmas razões de início da industrialização, mas esses “bairros operários” (ou Villas) que foram sendo abraçadas pela expansão urbana não têm condições de tanta gravidade e algumas delas são de grande beleza e qualidade arquitectónica, como a Villa Berta e a Villa Maria na Penha de França, a Villa Maria e as Villas do Bairro de Campo d’Ourique, hoje habitadas na sua maioria por intelectuais e artistas, o que me faz remeter para a utilização do interessante projecto de Siza Vieira em Cedofeita, que em vez de ter sido distribuído aos “sem casa”, é hoje, também, lugar onde habitam arquitectos e que o Júri do Prémio INH visitou em 2007 e assim constatou.

Como balanço de 2007, sobretudo quanto a evolução sociocultural e económica, não vale a pena falar no fechar de milhares de escolas e de hospitais e centros de urgência, de unidades industriais e de pequeno e médio comércio, na perda de emprego e na subida de inflação e perda de compra dos funcionários públicos ou mesmo na subida de juros para aquisição de habitação sobretudo para os jovens.

Na ESPERANÇA de que 2008 não seja igual ... é preciso re-inventar um país

O melhor de 2007 foi ter finalmente chegado ao fim na ESPERANÇA de que 2008 não seja igual, apesar das ameaças dos “senhores do dinheiro” que são barómetro da realidade do homem comum e não comum e não contribua para dos 27 países da UE o país não passe para último lugar pois que se está à frente dos dois mais pobres desta Europa económica que vai esquecendo e adiando a sua dimensão social, mais preocupada em “pedir” mais nascidos para conservar a sua situação de riqueza e desperdício para os poucos países que são lideres e responsáveis pelo descalabro da união (excepto para os que decidem sobre a vida dos 500 milhões que já abarca).


Fig. 06: “A cidade, afinal, não faz história sozinha”


O desenvolvimento económico e cultural não se faz com leis UE mas sim com a consciência do que é o país e a sua história milenar de ocupação dos territórios e actividades que justificaram ser um dos membros mais criativos, tendo agora ficado a "periferia" mais pobre com mais velhos e maltratados, com mais ricos e indiferentes porque a cidade, afinal, não faz história sozinha e, a que tem feito, é história triste e fantasia

É preciso re-inventar um país mas com homens "ricos" de saberes e sobretudo de consciência para que não se extinga como se extinguiu o lobo e as andorinhas

Maria celeste d’oliveira ramos
31 de Dezembro de 2007
Santo Amaro-Lisboa

Imagens de António Baptista Coelho
Editado por José Baptista Coelho, 3 de Janeiro de 2008