Mostrar mensagens com a etiqueta arquitetura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta arquitetura. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, setembro 16, 2013

453 - ARQUITETURA EM ESTADO CRÍTICO - Infohabitar 453

 Infohabitar, Ano IX, n.º 453

É sempre com grande satisfação que a Infohabitar acolhe um seu novo autor, neste caso o Prof. Arq.º Carlos Marques, projetista e professor que, lembramos, apresentou um novo livro, em março passado, no 2.º CIHEL – “Habitação: Da Indústria à Fábrica da Cidade” – e que aqui nos oferece uma oportuna reflexão sobre assuntos que se colocam aos estudiosos e interessados pelas matérias da arquitetura e do urbanismo contemporâneo, nas áreas das referências históricas, dos critérios estéticos e das questões ligadas ao gosto.
Agradecemos ao colega Carlos Marques por este excelente texto, que cabe muito bem dentro do amplo leque temático da Infohabitar, e que sem dúvida poderá contribuir para o fundamental diálogo entre aquilo de que gosta quem projeta e o que os habitantes das casas e das cidades desejam;
e boa leitura!

António Baptista Coelho
Editor da Infohabitar


Nota prévia: o presente artigo corresponde a uma comunicação ao Congresso Internacional “O que é uma escola de Projeto na contemporaneidade – Questões de ensino e critica do conhecimento em Arquitetura e Urbanismo”, promovido em São Paulo, Brasil, entre 9 e 11 de SETEMBRO de 2013, pela FAU UPM – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – Universidade Presbiteriana Mackenzie. São Paulo, Brasil e organizado pela FAU UPM – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – Universidade Presbiteriana Mackenzie. São Paulo, Brasi e pelo INIFAUA – Instituto de Investigación – Facultad de Arquitectura, Urbanismo y Artes. Universidad Nacional de Ingeniería. Lima, Peru.
Quem estiver interessado poderá consultar o Blog do Congresso em:
http://projetocontemporaneo.wordpress.com/
 

ARQUITETURA EM ESTADO CRÍTICO
Carlos Almeida Marques (*)
(*) Centro de Administração e Políticas Públicas – Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, Universidade Técnica de Lisboa, Portugal, camarques@iscsp.utl.pt

RESUMO
O artigo pretende trazer a debate algumas questões que hoje, de alguma forma, se colocam aos arquitetos, aos teóricos ou estudiosos do mundo académico, sobre a arquitetura e o urbanismo contemporâneo. Num primeiro momento procura-se analisar alguns aspetos relacionados com a ausência de referências históricas e critérios estéticos, em favor do surgimento de processos criativos subjetivos, em que a forma e a imagem são vistas como um fim em si próprias. Num segundo momento do texto, propomos analisar o tema do julgamento de gosto, tomando como referência a Dialética do julgamento estético de Emmanuel Kant para interrogar a argumentação do gosto no contexto específico da conceção e da teorização arquitetónica contemporânea.
Palavras-chave: Arquitetura. Espaço. Gosto. Estético. Ensino.
ABSTRACT
The article aims to bring to the discussion some issues, currently placed to architects, researchers, academic scholars on contemporary architecture and urbanism. At first we seek to analyze some aspects related to the absence of historical references and aesthetic criteria, in favor of the emergence of subjective creative processes, in which the shape and image are seen as an end in itself. Secondly, we propose to analyze the theme of taste judgment, with reference to work of Emmanuel Kant "Dialectic of aesthetic judgment" to examine the arguments of taste in the specific context of design and contemporary architectural theory.
Keywords: Architecture. Space. Taste. Teaching




1. INTRODUÇÃO

Uma leitura dos ciclos históricos mostra que vivemos hoje um período eclético, em que tanto os cânones da arquitetura clássica como os paradigmas da arquitetura moderna “não fazem escola”, nem é suposto serem seguidos os seus conceitos teóricos e críticos como referência analítica, estética ou compositiva da arquitetura e do urbanismo. Por outro lado, a busca incessante do gesto bizarro, a vontade de fragmentar à exaustão volumes e espaços, o apelo à subjetividade concetual e ao arbítrio do traço pessoal, surgem sem causa ou ideologia, em rutura com qualquer pacto coletivo ou compromissos com o lugar e a história.

Estas duas situações estão diretamente relacionadas tanto com o ensino como com a prática da arquitetura, uma vez que o afastamento de uma abordagem metodológica para a construção formal e estética do objeto arquitetónico serve em grande parte para justificar opções não racionalistas, com a perda de significado e caráter analógico em favor de um experimentalismo apresentado como método estético e compositivo.

A procura da «forma pela forma» não é uma demanda dos nossos dias. Esta quase obsessão por «originalidades arquitetónicas», associada à fragmentação da imagem da cidade enquanto unidade ou agregado de subunidades morfológicas que progressivamente se vão desarticulando e perdendo estrutura orgânica, são em parte consequência do liberalismo da economia monetária que Georg Simmel descreve em a Filosofia do Dinheiro e das mudanças sociais e culturais, que especialmente a partir do último pós-guerra, vêm a caracterizar a civilização pós-moderna ou a sobremodernidade, na expressão de Marc Augé (2005: 67).

Manfredo Tafuri explica este fenómeno na rapidez do consumo das imagens, das investigações, dos movimentos em que a dificuldade em historizar a arquitetura contemporânea resulta de se pretender apresentá-la como fenómeno radicalmente anti-histórico (1979: 31). Tal situação pode ser explicada pelo facto de que, desde há algum tempo, a atitude face ao conhecimento da arquitetura tende a não estar estruturado, deixando de estar assente em paradigmas, axiomas ou qualquer lógica compositiva, estética ou artística, mas a sustentar-se em formulações de «gosto», de que o autor-arquiteto se serve para justificar a criação de objetos-arquiteturais, os quais são mostrados nas revistas e jornais da especialidade como uma vaga sucessiva de ideais vanguardistas, mas que na maioria dos casos mais não são do que exercícios formais, objetos sensação que anseiam ser aceites como ícones acríticos, desobrigados de qualquer regra de valor que não seja a auto-expressão do seu autor ou do seu promotor.

Como será identificada a cultura do nosso tempo, qual a imagem que no futuro irá registar o património arquitectónico e urbanístico, os ideais estéticos e artísticos que identificarão a nossa época? Serão as nossas cidades uma silhueta de objetos insólitos e delirantes perfilados ao longo de eixos viários numa atitude de pretensa monumentalidade? Que modelo urbanístico nos proporciona espaços coerentes de suporte da vida quotidiana? Estas são questões que importa analisar por estudiosos e académicos, a quem cabe ensinar a ver e pensar a arquitetura, transmitir conhecimento teórico e induzir comportamento crítico aos seus formandos, mas também pelos responsáveis da administração pública e municipal, a quem cabe o trabalho de definir as políticas urbanas, gerir e planear as cidades.

2. POR UMA IDEIA DE ARQUITETURA

Quando o Movimento Moderno, nos finais de novecentos, avança contra a disciplina doutrinária do classicismo das Beaux-Arts, não o faz sem propor um conjunto de novos princípios que dão sustentabilidade à sua causa revolucionária. Como sabemos, o Modernismo não nasce da simples recusa do passado, mas da criação de um programa novo, fortemente ancorado em conceitos científicos, matemáticos, sociais, culturais e artísticos a partir dos quais surge uma nova arquitetura e um novo urbanismo que hoje temos facilidade de identificar como a formação de um novo estilo, tal como o foi o gótico, o barroco, o renascimento.

Em As Metáforas da Arquitectura Contemporânea, Victor Consiglieri explica o quanto esta realidade concetual do racionalismo e do funcionalismo modernista é distinta daquilo que caracteriza hoje o pensamento arquitetónico, que nas palavras de Consiglieri vive atualmente da “intranquilidade das imagens” num processo ideológico em que a atividade crítica abandona os esclarecimentos sociais, se desvia de modelos filosóficos e se afasta de interligações culturais para se remeter a uma expressão de símbolos, individuais ou imaginários, apoiando-se numa nova gramatologia da desconstrução como grau mais evoluído da fragmentação (2007: 29).

Bruno Zevi expõe o problema quando nos chama a atenção para que o defeito característico da maneira de tratar a arquitectura nas histórias da arte corrente […] consiste no facto de os edifícios serem apreciados como se fossem esculturas e pinturas, quer dizer, externa e superficialmente, como puros fenómenos plásticos. […] desta forma, esquecem o que é específico da arquitectura e, portanto, diferente da escultura e da pintura, isto é, no fundo o que vale na arquitectura como tal (1977:13).
A sua crítica à finalidade escultórica ou pictórica da arquitetura é expressa de forma quase radical quando defende a não arquitetura do templo grego: Quem investigar arquitectonicamente o templo grego, buscando, sobretudo, uma concepção espacial, fugirá horrorizado, assinalando-o ameaçadoramente como exemplar típico da não arquitectura (Zevi, 1997:48). […] Os elementos constitutivos do templo grego são, como é sabido, uma plataforma elevada, uma série de colunas apoiadas nela e um entablamento contínuo que sustenta o tecto. É verdade que existe também uma cela que no período arcaico constituiu o único núcleo construtivo do templo, e por isso um espaço interior, mas nunca foi pensada,… [com] funções e interesses sociais: foi um espaço não contido, mas literalmente fechado, e o espaço interior fechado é precisamente característico da escultura (Zevi, 1977:49).

Naturalmente que com isto não queremos por em causa o quanto os protótipos da arquitetura greco-romana influenciaram a arquitetura do mundo Ocidental, e que Chueca Goitia soube magistralmente expor nas suas lições sobre a depuração dos modelos arquitetónicos e a agregação de corpos simples que, desde o Partenon até ao recente projeto do Bundestag de Berlim, criam toda uma gama de composições elementares ou mais complexamente articuladas (Goitia, 1996:21).

É exatamente por se constituir como espaço habitado que a arquitetura se distingue das outras artes, designadamente a escultura. Para Zevi o espaço é a realidade em que a arquitetura se concretiza (1977:19). Este protagonismo do espaço sobre a arquitetura, de que fala Bruno Zevi, não pode ser entendido pelo sentido meramente físico da coisa, ou seja, ele não se refere exclusivamente à compreensão do espaço enquanto abrigo da atividade humana, ainda que, apesar de todos os desenvolvimentos da ciência e da técnica, o homem, continua condicionado pela sua própria biologia, pela gravidade que o prende ao solo e pelas necessidades culturais inexoráveis que são constantes da arquitetura, independentes das roupagens com que esta se reveste em cada época.

Temos de entender esta ideia de espaço arquitetónico enquadrada numa lógica que incorpora múltiplos princípios e conceitos, como por exemplo os que Attilio Marcoli apresenta no seu curso de educação da visão em a Teoria do Campo. Aqui são tratadas matérias chave sobre a arte e a técnica na conceção da arquitetura como: os campos geométrico intuitivo, ghestáltico, topológico e fenomenológico; o campo morfogenético e as células construtivas; o campo ambiental. Em todos estes campos, um conjunto de elementos constitutivos estabelecem, entre si, interações e relações associativas, descritas e apresentas detalhadamente por Marcoli, como sejam as interações entre cada um destes campos, entre o objeto e cada campo, e a sua influência na composição arquitetónica.

A par destes aspetos teóricos, outros domínios da gramática arquitetural foram elaboradamente expostos e ilustrados por Francis Ching em Arquitectura: Forma, Espaço e Ordem, como sejam as ligações entre formas aditivas e subtrativas, as relações entre forma e espaço, a sua modulação, agregação e articulação, a interceção dos espaços e das formas, a relação interior exterior e as suas implicações com as aberturas, a circulação, a luz as sombras, os sistemas matemáticos e a noção de escala e proporcionalidade e não menos importante os princípios ordenadores como o eixo, a hierarquia ou o ritmo.

Teremos ainda de incluir nesta estrutura de fundamentos da ciência da conceção arquitetural, o que foram as várias idades do espaço, ou seja a sua história, aquilo que lhe dá identidade cultural e informa a sua antropologia, o que pode ser a expressão vernácula e a tradição local de interpretar, conceber e fazer arquitetura, no seu compromisso com a natureza cultural dos lugares e na sua ligação com a especificidade geográfica dos sítios e das paisagens. Neste sentido há que ter em conta o que diz respeito ao urbanismo ecológico, nomeadamente as interdependências entre o sistema projetado e o meio ambiente e os novos modelos de uso associados aos conceitos de ecoedificação e as suas consequências no projeto, particularmente o que se refere aos modelos lineares e cíclicos de uso de matérias e o seu impacto direto no ciclo de vida do edificado (Ken Yeang: 1999).

A aquisição deste conhecimento teórico é exigível aos arquitetos e deveria fazer parte do seu discurso e do seu vocabulário sobre a arquitectura e o urbanismo. Neste conhecimento teórico deveria sustentar-se a prática da arquitetura, com todas as implicações técnico-construtivas inerentes à materialização e funcionamento dos edifícios, em contracorrente a uma aposta que passa por uma arquitectura não codificada, desterritorializada, intencionalmente subjectiva e na qual não seja possível aplicar categorias de entendimento (Consiglieri, 2007: 290). 

Tal conhecimento confere ao arquiteto uma maior consciência do que é a arquitetura e do seu valor enquanto objeto de arte onde se associam a dimensão física e social do espaço e permite, numa perspetiva otimista, reverter o processo atual de produção de uma arquitetura sem raízes culturais e históricas, que a economia de mercado fez entrar na cadeia de consumo, onde o espaço passou a ser considerado um produto de marketing integrado na cadeia de produção da indústria do imobiliário. Não sendo esse o caso, existe o risco de no futuro as cidades estarem pejadas de “não arquiteturas”, fragmentos de formas efémeras, sem tempo nem lugar, momentos etéreos de modas estéticas, e por isso mesmo dispensáveis e descartáveis no registo da memória futura.

3. CONCEITO, RAZÃO E A QUESTÃO DO GOSTO

A ausência no discurso dos arquitetos de uma linguagem codificada, onde o entendimento do “raciocínio de projecto” (utilizando a expressão do texto introdutório deste congresso) assenta numa gramática logicamente formulada sobre a teoria e a prática da arquitetura, tem levado muitos arquitetos ao uso recorrente da afirmação de “gosto pessoal” como estratégia justificativa das opções arquitetónicas, sem ter de admitir a necessidade de uma defesa lógica e coerente das tomadas de decisão sobre as escolhas estéticas, formais e espaciais.

O mesmo se poderá colocar quando falamos do ensino da arquitetura e do urbanismo, sendo uma das críticas apontadas, o seu estado deficitário em termos curriculares por este se encontrar demasiado centrado nas questões da imagem e propostas casuísticas consignadas ao “gosto individual”, sem verdadeiro propósito de uma formação assente em teorias, princípios, códigos ou modelos de composição.

Sobre este apelo ao “gosto” como argumento de autojustificação para a tomada de decisão estética, formal ou artística, considero ser importante citar o que Emmanuel Kant nos diz na sua Dialética do julgamento estético onde este filósofo faz a exposição da anatomia do gosto, a partir de duas expressões proverbiais de afirmação do gosto, procurando demonstrar a sua insuficiência argumentativa e a inutilidade da sua aplicação prática.

O primeiro lugar comum do gosto está contido na proposição, graças à qual aqueles que, não têm gosto, pensam defender-se de qualquer culpa: a cada um o gosto próprio. Isso significa que o princípio de determinação desse julgamento é simplesmente subjetivo (prazer ou dor); e o julgamento não dá qualquer direito à necessária adesão de outros (Kant, 1986: 162-163). A afirmação do gosto próprio como único termo justificativo implicaria aceitar a arquitetura como um exercício de vontade própria, resultante de uma conceção baseada em princípios subjetivos, desobrigada de um compromisso social e acordo com o coletivo, cultura e lugar, colocando o objeto arquitetónico numa situação acrítica do ponto de vista da sua análise e teorização.

Pensar o objeto arquitetónico como uma singularidade, cujo processo criativo não está sujeito às propriedades das formas nem condicionado pela fenomenologia do fazer arquitetural, dependendo a sua composição estética e estrutura formal do gosto próprio, seria admitir a inutilidade do pensamento arquitetónico e talvez a própria improficiência do seu ensino e vacuidade da sua aprendizagem. Tal não significa que deixemos de ter em consideração um grande número de obras arquitetónicas de excelência, que em todos os períodos históricos se constituíram exemplos únicos, protótipos concetuais de novos movimentos doutrinários, ou cuja beleza pode ser reconhecida sem conceito como objecto de uma satisfação necessária (Kant, 1986:80).

O segundo lugar comum do gosto, do qual fazem uso aqueles que conferem ao julgamento de gosto o direito de pronunciar julgamentos validos para todos, isto é: o gosto não se discute. O que significa: o princípio de que a determinação de um julgamento de gosto poderia seguramente ser objectiva, mas não se podendo reportar a conceitos determinados; por consequência não podemos decidir nada com provas sobre o próprio julgamento, ainda que se pudesse discutir a bom direito; […] naquilo em que por uma resistência recíproca aos julgamentos se procura produzir o […] acordo através de conceitos determinados como razões demonstrativas, e que em consequência admitem conceitos objectivos como princípios do julgamento (Kant, 1986: 163). Tomando como válida esta proposição, poderíamos dizer que «o gosto discute-se» uma vez que de outro modo seria absurdo manter o diálogo sobre um determinado projeto arquitetónico ou plano urbanístico. Defender a atitude opinativa de gosto sem necessidade de referência a conceitos objetivos, seria admitir que a cidade como um somatório de edificações autonomizadas sem critérios ou referências tipológicas e de espaços urbanos desarticulados e desconexos, impossíveis de conceber dentro de um qualquer sistema orgânico, ou seja, a inexistência do urbanismo.

Como refere Kant, onde é permitido discutir, devemos ter também a esperança de concordar: por consequência devemos contar com princípios de julgamento, que não possuem simplesmente um valor particular e que não são simplesmente subjectivos (1986:163).

Aceitando a ideia de que o julgamento de gosto corresponde a uma escolha arbitrária dos códigos que informam o processo compositivo que deixa de ter bases teóricas que o sustentem, sendo assim necessário, numa perspetiva académica e profissional, pensar a fenomenologia da arquitetura e do urbanismo contemporâneo e desenvolver os modelos teóricos e os fundamentos concetuais: técnicos, artísticos e estéticos sobre os quais seja possível construir o pensamento doutrinário que pretendemos seguir. Numa conferência realizada na Aula Magna da Universidade de Roma, em 1963, Bruno Zevi defendia a necessidade da substituição de uma doutrina precedente por doutrinas mais novas e atuais, e o dever de formular um novo método que em vez de suprimir a história e o conhecimento teórico, fosse capaz de penetrar na realidade arquitetónica a todos os níveis, desde o planeamento do território à modinatura e ao signo mais ínfimo da imagem. Esta será porventura a tarefa e o desafio que se coloca hoje a académicos e praticantes.

Figura 1: Cesto de papéis do atelier da rue de Sèvres antes e depois do pontapé de Alfred Roth, publicado por Le Corbusier em «Défense de l´architecture»

4. CONCLUSÕES

Desde o início da formação das sociedades humanas, a arquitetura tem estado intimamente ligada à existência humana e tem acompanhado a sua evolução histórica, registando na permanência da realidade física edificada pelo homem os fenómenos da sua existência. Em todos os tempos, em todas as civilizações, a arquitetura tem servido para registar o potencial da arte e do engenho criativo da humanidade e constituir-se simultaneamente no habitat da própria existência humana, como segunda pele, mais exterior, fazendo do espaço um outro corpo que o homem não sente estranho a si mesmo, mas com o qual se identifica.

Em todo este processo histórico, a íntima relação entre a arquitetura e a cultura humana, material e imaterial, implicou na formação dos arquitetos a aquisição de um conhecimento humanista; o desenvolvimento da capacidade de síntese; o exercício do desenho e a habilitação de projetar como processos de configuração e materialização das ideias.

Estas qualidades intelectuais, proporcionadas pelo ensino e a aprendizagem, são hoje essenciais para superar os desafios que se colocam ao urbanismo e ao ordenamento territorial, onde se juntam questões multidisciplinares e transdisciplinares, cuja resolução envolve processos e metodologias de trabalho integrado com o objetivo de conceber soluções de equilíbrio entre a dimensão física e social do espaço.

A capacidade de síntese revela-se determinante quando o arquiteto é confrontado com o dilema «arte-técnica», «forma-função», que faz da arquitetura uma atividade híbrida, que decorre da conjugação, formal e espacial, de lógicas estéticas com programas funcionais exigentes, inovações construtivas cada vez mais complexas, condicionalismos legais e orçamentais que necessariamente o projeto deve articular e integrar de modo coerente e sustentável.

O desenho, a expressão do traço, são normalmente associados à própria identidade do arquiteto, ao seu caráter, à sua forma de ver o mundo e interpretar os seus acontecimentos desde os aspetos mais abstratos e simbólicos aos pequenos detalhes do quotidiano, que se consubstanciam no conceito de projeto. Essa prática do desenho e, por consequência do projeto tem sido fortemente influenciada por dois fatores, interdependentes, que importa assinalar: 1) o acesso aos sistemas informáticos que facilitando o desenho por computação, abriu novas possibilidades no campo da representação da dinâmica das formas e na modelação e plasticidade dos espaços e superfícies; 2) a introdução de uma nova geometria fractal, fragmentada, distorcida, poliédrica, cujo conhecimento matemático verdadeiramente nos escapa e dificilmente se consegue transmitir de forma orientada a sua morfogénese.

Por tudo o anteriormente exposto podemos dizer que se colocam hoje grandes desafios ao ensino da arquitetura e do urbanismo. Competirá às escolas trazer a história, a filosofia, a sociologia e a própria arte para o centro das nossas preocupações de ordem espacial e construir um quadro de referências com base em critérios estéticos e processos criativos. Muito provavelmente a construção dessas referências passará por recuperar conceitos resilientes da história e da teoria que possam ser estudados a par de novos conceitos, num contexto cultural marcadamente distinto da realidade anterior, procurando assim proporcionar continuidade na evolução natural da arte e da ciência da arquitetura e do urbanismo.

REFERÊNCIAS
AUGÉ, Marc, Não Lugares – Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade, 90 Graus Editora Lda., Lisboa, 2005.
CONSIGLIERI, Victor, As Metáforas da Arquitectura Contemporânea, Editorial Estampa, Lisboa, 2007.
GOITIA, Fernando C., Protótipos na Arquitectura Greco-Romana e a sua Influência no Mundo Ocidental, Ed. Ulmeiro, Lisboa, 1996.
KANT, Emmanuel, Critique de la Faculté de Juger, Librairie Philosophique J.Vrin, Paris, 1986.
SIMMEL, Georg, Philosofie de L´Argent, Quadrige / PUF Presses Universitaires de France, Paris, 1987.
TAFURI, Manfredo, Teorias e História da Arquitectura, Editorial Presença, Lisboa, 1979.
YEANG, Ken, Proyectar con la Naturaleza, Editorial Gustavo Gili, SA, Barcelona, 2006.
ZEVI, Bruno, Saber Ver a Arquitectura, Editora Arcádia, Lisboa, 1977.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.

Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano IX, nº453
ARQUITETURA EM ESTADO CRÍTICO
LNEC- Grupo Habitar (GH) e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT)
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

sábado, outubro 10, 2009

267 - Aplicações do Sistema Estrutural Tipo Árvore – SETA em programas funcionais com viés de interesse social - Infohabitar 267

Aplicações do Sistema Estrutural Tipo Árvore – SETA em programas funcionais com viés de interesse social: ocupação sustentável do uso em terrenos de difícil topografia

Artigo de Décio Gonçalves

Infohabitar, Ano V, n.º 267

Apresenta-se nesta edição do Infohabitar o artigo de um nosso novo colaborador da nossa revista o Doutor Décio Gonçalves que nos apresenta um tema inovador na concepção habitacional numa perspectiva de grande ligação entre os aspectos de concepção espacial e construtiva e com um impacto ambiental minimizado.

Damos as boas-vindas a este novo colega do Infohabitar, graduado em Engenharia mecânica e civil, Mestre e doutor em Arquitectura e Urbanismo, e esperamos que a temática por ele abordada possa ajudar no "velho" caminho do Grupo habitar, que sempre foi o de tornar a nossa revista, quer num espaço de divulgação plural, relativamente às muitas maneiras desejáveis no (re)pensar as temáticas da habitação e do habitar, quer num fórum cada vez mais alargado de encontro e discussão por parte dos muitos colegas do espaço da lusofonia, e neste caso, numa contribuição directamente enquadrada pela excelente FAUUSP.

Décio Gonçalves, é doutorado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo - FAUUSP, São Paulo – São Paulo, e-mail: dg@usp.br

No final do artigo anexa-se uma breve resenha curricular.

O editor do Infohabitar
António Baptista Coelho
Aplicações do Sistema Estrutural Tipo Árvore – SETA em programas funcionais com viés de interesse social: ocupação sustentável do uso em terrenos de difícil topografia

Artigo de Décio Gonçalves


Resumo
As Habitações de Interesse Social – HIS quando consideradas de forma conceitual e objetiva são destinadas às camadas da população de baixo poder aquisitivo. Lamentavelmente, nas grandes cidades brasileiras prevalece a improvisação, convivendo com um certo descaso da sociedade como um todo. O tema deve envolver e ser permeado por uma nova aproximação conceitual que privilegie uma cultura de valores voltada para conciliar avanço tecnológico e exercício da cidadania, ou seja, todo cidadão tem o direito a morar e viver com dignidade.

Este é o propósito do SETA, chamar a atenção para o tema, e de forma concreta, sugerir uma alternativa singular de concepção projetual e construtiva. O SETA tem esta pretensão, pondo à discussão uma resolução possível para se pensar e construir artefatos arquitetônicos com características diferenciadas, empregando material madeira, legal e certificada, de forma ecológica e sustentável. Este sistema estrutural modular e pré-fabricado necessita de apenas três pontos de apoio no solo, causando um mínimo impacto ao ambiente, requerendo exíguo espaço para canteiro de obras, reduzido número de equipamento e pessoal para o sistema de montagem, sendo que o prazo estimado para sua implantação é de 90 a 120 dias.


Abstract
Social Interest Housings - SIH, just thought in objective and conceptual contexts, are destined for the low-income people. Unfortunately, in the big Brazilian cities, prevails the improvisation of thinking about it, in a whole sense. The central theme has to involve and to be permeated with a new conceptual approach that privileges a valuable culture having the concern to put together technological advance and citizenship exercise, in other words, each citizen has the right to dwell and live in dignity. This is the purpose of the structural system, named SETA, to pay attention to the SIH issues, and in concrete way, to suggest a singular alternative of projetual and construction conceptions.
SETA has this intention as well, to put it right at possible resolution to think and construct architectonic artifacts with differential characteristics, using the legal and certificated wood material, in ecological and sustainable ways. This modular and prefabricated structural system needs only three support points on the soil, causing minimal impact to the environment, requires short space for the working area, reduced number of equipments and tools for the assembly system and the estimated time for its implementation is 90 to 120 days approximately.
Keywords: magazine, wood, architecture, engineering, structural system, social interest housings, citizenship exercise, hard topography lands.


1. Introdução

A realidade da ocupação urbana no Brasil, no que se refere às Habitações de Interesse Social – HIS reflete a tendência acentuada de localizar-se no entorno das grandes cidades em terrenos considerados difíceis (região de morros).
Sua característica predominante é alojar uma população de menor poder aquisitivo e carente de informações para reivindicar seus próprios direitos. Histórica e culturalmente resta a esta população os piores terrenos, devido aos seus parcos recursos financeiros e técnicos para construção de moradias.

Ainda que, a criação do Estatuto da Cidade em 2001 no Brasil tenha dado um alento à questão, constata-se que a maior parte dos empreendimentos para HIS carece de mínimas qualidades projetuais aceitáveis, nos seus mais variados aspectos, tais como: interferência no ambiente inadequada, flexibilidade e personalização projetual inexistentes, total falta de sintonia com os anseios e necessidades dos usuários.

Estas edificações são constituídas basicamente por três tipos de habitações: 1) simples barracos em favelas alocados nas encostas, em áreas invadidas sujeitas à desocupação judicial; 2) casas humildes desprovidas de um mínimo conforto, executadas pelo processo de autoconstrução, nos loteamentos ditos populares; 3) habitações uni ou multifamiliares construídas através de programas habitacionais com a participação do Estado. Via de regra, neste último tipo, de forma exemplar, os projetos arquitetônicos, pensados para implantações em terraplanos, são reutilizados ipse literis em terrenos ditos difíceis, acarretando desastres de grandes proporções, ocasionando prejuízos financeiros, além de irreparáveis perdas humanas.






Figura 1 – Desastre em encosta – Fonte: Farah (2003) (1)

Dentro deste panorama, seria redundante relatar o número crescente e alarmante de acidentes gerados a partir deste procedimento, causando, entre outros: 1) desastres nas encostas; 2) presença de solos erodidos, resultando assoreamento de fundos de vales e várzeas, criando assim, condições favoráveis de inundações nas baixadas.

A “entrega das chaves” passou a ser um simples ato sem nenhum comprometimento com as obrigações inerentes em relação aos usuários destas habitações. Esta “entrega” deve ser precedida pela interação de uma equipe multidisciplinar de suporte aos usuários, como: médicos (as), assistentes sociais, psicólogos (as), sanitaristas, técnicos (as) em construção e manutenção do artefato arquitetônico, entre outros. Além do mais, deve ser seguido de acompanhamento técnico através de avaliação da pós-ocupação – APO, eficiente e constante, tudo isto, visando às questões essenciais e primordiais, ou seja, a segurança e o bem estar destes usuários.
Este artigo propõe, como um objetivo geral, uma abordagem alternativa para este tema, que leva em consideração a concepção projetual de um programa funcional para HIS, que ausculte a necessidade, a vontade e o desejo do usuário; feita através da proposição do emprego de um sistema estrutural que utiliza um material renovável, como a madeira legal e certificada, portanto extraída de modo sustentável.

2. Metodologia

Definido o tema do SETA (sistema estrutural tipo árvore), foram iniciados experimentos no laboratório do LAME/FAUUSP para a resolução da questão proposta, através da elaboração de uma maquete inicial (sem preocupações dimensionais, apenas tendo o foco da configuração espacial que atendesse hipóteses e condicionantes colocadas). Concluída esta fase, partiu-se para a análise inicial do projeto estrutural, onde foram determinadas as dimensões dos elementos estruturais relevantes, como também verificada a estabilidade geral do sistema estrutural, e em seguida, elaboradas as respectivas representações gráficas.

Estabelecidas as dimensões básicas, foi confeccionada uma maquete final (baseada na inicial que já havia definida a configuração espacial do sistema estrutural) na escala 1:50, com varetas de plástico de quatro milímetros de diâmetro - que se aproximou da realidade dos cálculos estruturais estabelecidos nesta análise inicial: quatorze centímetros para a primeira laje e quinze para as demais lajes, inclusive a da cobertura (fig. 5).
A seguir, foram elaboradas maquetes específicas de elementos estruturais relevantes como o módulo, onde aparece o pilar, dito “diamante” de apoio [DA], a treliça espacial [TE] e demais elementos (fig. 3), bem como uma maquete na escala 1:25 de uma Residência unifamiliar (fig. 4)
.


Também, foi executada uma ligação metálica [LM], em plástico, na escala 1:10 para se ter uma ideia espacial da resolução de um elemento estrutural essencial ao sistema, onde são alojadas vinte e quatro barras em uma só ligação (as dimensões das [LM]s e os demais elementos constituintes faltantes, serão definidas na análise final) (fig. 6).

Estão previstos testes de laboratório com maquetes já com o material madeira e suas ligações metálicas em escalas convenientes, tomando-se como pressupostos teóricos, o texto do Professor Lobo Carneiro (1993) (2) da UFRJ, que trata da “análise dimensional e da teoria da semelhança e dos modelos físicos”. Neste estágio, prevê-se que os cálculos estruturais estejam concluídos em nível de análise final.

Para a realização destes eventos, estão sendo mantidos contatos com a Escola Politécnica da USP – EPUSP/LEM e Agência de Inovação da USP, pensando-se em um possível Pós-Doutorado, assim como, a construção de um protótipo através da parceria privada e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP, via Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica - PITE.
3. Características do seta: especificidades que potencializam o seu uso para HIS



Figura 2 – Concepção dos pilares: Obra: Sagrada Família – Fonte: INSTITUTO TOMIE OHTAKE (2004) (3)

3.1Concepção projetual

O projeto do SETA foi pensado segundo abordagem que privilegiou uma Arquitetura que tivesse sérias preocupações com a Natureza, sua preservação e que causasse o mínimo impacto ao ambiente. Para tal, tornou-se fundamental a escolha de um sistema construtivo que atendesse tais requisitos, a começar por ter poucos pontos de contato com o solo, fosse um sistema modular, pré-fabricado, dotado de racionalidade construtiva, e empregasse um material renovável no seu elemento constituinte mais relevante (a estrutura), e também, confortável ao tato. Ao mesmo tempo, exigisse o menor dispêndio de energia para o seu processamento, recaindo a escolha na madeira legal e certificada (entendida como de origem legal e com certificação pelo IBAMA, através de selo verde, atendendo as normas do FSC – Conselho de Manejo Florestal).

Colocadas todas estas hipóteses e condicionantes, além de outras, o sistema estrutural ideal escolhido foi o que remeteu a imagem metafórica da árvore, fazendo-se alusão à obra do Arquiteto catalão Antoni Gaudí, na obra Sagrada Família, em Barcelona na Espanha.

Outra característica projetual relevante é a questão dos aspectos bioclimáticos envolvidos na concepção deste sistema estrutural, entre outros, a aeração natural, que em função das características específicas (vazios) do sistema estrutural projetado. Este sistema é composto por planos de laje [PL] com envergaduras superiores a 30 m (fig. 5), sustentados por três pilares, “diamantes” de apoio [DA], caracterizando as três treliças espaciais [TE], que ligam estes “diamantes”, resultando assim a aeração natural, tanto no aspecto da ventilação cruzada [1], quanto do efeito “chaminé” [2] (fig. 3).




Figura 3 – Módulo do SETA na escala 1:25 – Foto do LAMEM/FAUUSP – (setembro de 2007)


3.2 Caracterização da Tecnologia

Função da Tecnologia

O SETA é uma estrutura espacial que possui um design diferenciado das estruturas normalmente utilizadas. Ela tem por principais características ser modularizada, ser feita em madeira e poder ser implantada em terrenos de declividade variada.

O fato de a estrutura ser modular possibilita a otimização do processo de montagem de mega-estruturas, pois requer espaços exíguos no canteiro de obras, redução da mão de obra não especializada e não há a necessidade de uso de equipamentos pesados. O desenho desse sistema estrutural é singelo por possuir estruturas de sustentação e nós (I) particulares, além de possibilitar a aplicação da estrutura em terrenos de alturas variadas, já que as colunas ajustam-se em função de diferentes declividades do solo, como mostrado na fig. 4.




Figura 4 – Detalhes de modelo de construção utilizando SETA – Fonte: foto do autor (2007)

Figura 5 – Maquete na escala 1:50 da concepção do sistema estrutural – Fonte: foto do autor (2009)



Figura 6 – Maquete de uma ligação metálica na escala 1:10 – Fonte: foto do autor (dezembro de 2007)



Figura 7 – Maquete digitalizada pelo Engenheiro Marcos Monteiro, autor do projeto estrutural, em nível de análise inicial (2005)

As ligações metálicas [LM] (fig. 6) transladam os esforços nas barras, de maneira a simular, as fibras dos componentes de uma árvore (no caso da árvore, nós rígidos, enquanto que, nas treliças espaciais, nós articulados). Desta forma, possibilitam que estes esforços sejam contínuos ao longo da estrutura, resultando em reduções das dimensões das peças, trazendo como conseqüência, uma esbelteza das formas da estrutura (os comprimentos das peças de madeira são no máximo de quatro metros, para compatibilizar com os comprimentos das carrocerias usuais de caminhões).


Estas ligações apresentam-se como um dos elementos constituintes do SETA de maior relevância na função desta tecnologia, pois tornam possível uma configuração espacial do sistema estrutural agradável ao olhar e essencialmente lógica.

Esta constatação pode ser notada na fig. 7, uma maquete digitalizada deste sistema estrutural, resultado de um pensar sob o enfoque da aparência orgânica da árvore, de forma metafórica, apresentando nuanças plásticas das mais variadas de: leveza, fluidez e ritmo, isto graças a sua concepção, permeada de racionalidade e simplicidade projetual e construtiva.


3.3 Maquetes físicas e modelos reduzidos
As maquetes físicas (ou simplesmente maquetes, a menos que se refira neste artigo às digitalizadas) e os modelos reduzidos foram desenvolvidos em escalas convenientes, com dimensões já definidas em projeto estrutural, em nível de análise inicial, resultando a estabilização geral do sistema. As dimensões dos elementos principais da estrutura foram calculadas pelo Engenheiro e Professor da E. E. MAUÁ/SP, e titular da firma PLANEAR ENGENHARIA, Marcos Monteiro, através do software MIX, nacional, desenvolvido pelo Engenheiro Sérgio Pinheiros de Medeiros, com larga aceitação nos escritórios de projetos estruturais, e segundo a NBR 7190 de agosto de 1997 – Projeto de estruturas de madeira (1997) (4).

Cabe aqui uma abordagem, ainda que rápida, devido ao próprio propósito do artigo, das especificidades complexas que envolvem trabalhar-se com modelos físicos com finalidades de aferições de propriedades físicas em testes de laboratório.
Recorre-se ao Professor Lobo Carneiro como suporte teórico para esclarecer boa parte desta complexidade que envolvem aspectos relacionados à modelagem, suas interações, similitudes ou mesmo desvios quanto aos resultados definidos em cálculo que pressupõe a aplicação da escala 1:1. Iniciando com o conceito fundamental, o da homogeneidade dimensional. Lobo Carneiro acentua que: “O princípio da homogeneidade dimensional consiste em que toda equação que exprima uma lei física ou descreva um processo físico deve ser homogênea, relativamente a cada grandeza de base. Desse modo, essa equação continuará válida, se forem mudadas as magnitudes das unidades fundamentais”.

Segundo este Professor, quando se trata de análise dimensional, “adota-se comumente a forma explícita em que uma das variáveis, a variável dependente, é a incógnita do problema”. Enfatiza, também em seu texto que, mesmo que a análise dimensional seja incapaz de descobrir a formulação completa da lei física, ele provê indicações valiosas “sobre combinações dos parâmetros envolvidos, de modo a reduzir o número de variáveis a incluir nas equações”. Continuando, afirma que “se dois processos físicos são semelhantes, é possível prever o comportamento de um deles quando é conhecido o comportamento do outro”. Lobo Carneiro vai mais além, quando escreve: “Na experimentação por meio de modelos, os dois processos físicos semelhantes são o protótipo e seu modelo; neste caso, utiliza-se o modelo por ser mais fácil ensaiá-lo em laboratório do que ensaiar diretamente o protótipo”. De seu texto apreende-se, também que, a primeira condição para esta abordagem, é a semelhança geométrica, apesar de não ser esta em si suficiente, pois “um modelo não é simples maquete”.

No desenvolvimento do SETA, foi executada uma maquete na escala 1:25 como prova, entre outras, da possibilidade do sistema atender diversos programas funcionais, no caso, uma Residência unifamiliar de 385 m2 (fig. 4), com a resolução de vedos internos e externos em dry-wall.

Neste estudo de caso foram empregados beirais de 1,20 m que protegem a estrutura das intempéries de forma adequada, pisos (internos: tábuas largas, e externos: placas moduladas de concreto leve), fechamentos com caixilhos de madeira em vidro e venezianas, e trama geométrica estrutural de 1,20 m na forma de triângulo equilátero, entre outros.
O SETA remete através das ramificações verticais sucessivas, a imagem da aparência orgânica da árvore, possibilitando atingir-se, sob o enfoque de uma abordagem nova, em que:

. Cargas horizontais provenientes primordialmente dos ventos sejam estabilizadas pelo conjunto de treliças espaciais dispostas segundo um triângulo equilátero, portando os esforços escoam ao longo dos lados desse triângulo;
. Grandes vãos (superiores a 12 m) entre pilares, adequados a suportar estruturas de porte.

Além destas características que o diferenciam, segundo Dias (2008) (5): “O SETA tem um grande potencial de gerar recursos no mercado de créditos de carbono, e ser registrado como uma tecnologia limpa na Organização das Nações Unidas - ONU, uma vez que a utilização de madeira na construção é uma garantia efetiva de sequestro de carbono pelas plantas”.

Resultou deste projeto, o Pedido de Patente depositado junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial - INPI sob no P.I. 0.600.454-7 com o título “SISTEMA ESTRUTURAL MODULAR TIPO ÁRVORE”, em 27/01/2006, do qual a Universidade de São Paulo - USP figura como Titular.

Também desenvolveu-se, uma Tese de Doutorado (defesa em 12/12/2007) na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP - FAUUSP sob a orientação do Arquiteto, Professor e Doutor Arnaldo Antonio Martino, cujo título é “SISTEMA ESTRUTURAL TRELIÇADO MODULAR EM MADEIRA – SET 2M.

A par desse fato, o referido Projeto foi encaminhado pela Agência de Inovação da USP para a sua inserção no Programa de Investigação do Estado de São Paulo – PIT/SP, sendo que o Relatório de Investigação da Tecnologia foi concluído em setembro de 2007.

O mesmo sistema foi premiado em Concurso Público Federal pelo Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia – CONFEA, sendo a certificação ocorrida durante o WORLD ENGINNER’S CONVENTION 2008 – WEC 2008
(2-6 dezembro de 2008). A segunda parte do prêmio prevê a participação em evento correlato no território nacional em 2009 (o autor optou pelo CTHab´ 2009, a realizar-se na cidade de Florianópolis, em novembro).


3.4 Representações gráficas do SETA – Programa funcional HIS

Esclarece-se que, na banca de Qualificação da Tese do autor, realizada com a presença dos Arquitetos Arnaldo A. Martino (orientador) e Marcos Acayaba, ambos da FAUUSP, e do Engenheiro Nilson Franco do IPT/SP, foi recomendada à elaboração de provas com programas funcionais, pois a concepção em si do sistema proposto atendia aspectos da área da Engenharia, enquanto elemento essencialmente estrutural, mas não caracterizava o viés de Arquitetura, com toda a tensão que o termo carrega, além do que, o Doutorado era em Arquitetura.

Para tornar factível essa demanda foram pensados cinco estudos de casos: 1) Estudo de caso I: “Residência unifamiliar” com dois pavimentos mais a cobertura, com área construída de 385,70 m2 (fig. 7); 2) Estudo de caso II: “Residência multifamiliar” com dois pavimentos mais a cobertura, área construída 815,70 m2; 3) Estudo de caso III: ”Pousada” com dois pavimentos mais a cobertura, área construída de 815,70 m2; 4) Estudo de caso IV: “Residência unifamiliar térrea II”, com um pavimento mais a cobertura, área construída de 192,80 m2 e 5) Estudo de caso V: “Residência unifamiliar térrea I” com um pavimento mais a cobertura, área construída de 188,90 m2.

Para contextualizar este artigo, foi escolhido o Estudo de caso II, acrescentando-se mais um pavimento para comportar maior aproveitamento de células habitacionais (nove no total), fazendo com que sua área total atinja algo em torno de 1.200,00 m2 (áreas: úteis + comuns). Esta decisão foi em função de sua interface com o tema das Habitações de Interesse Social – HIS, tão caro às Universidades de Arquitetura e Engenharia.

A seguir, seguem algumas pranchas digitalizadas do projeto arquitetônico, enquanto Estudo de caso II, contendo dois pavimentos tipos mais a cobertura (a Residência multifamiliar – para HIS, foco deste artigo, prevê três pavimentos mais a cobertura, sendo que o pavimento tipo é comum a ambos os estudos de casos):


Figura - 8


Figura - 9


Figura – 10


3.5 Maquetes do SETA do programa funcional: Residência multifamiliar para HIS
Foram confeccionadas duas maquetes para este programa funcional (fig. 11): à esquerda, um SETA (módulo estrutural) com três pavimentos mais a cobertura na escala 1:100 e à direita, uma implantação com três SETA´s na escala 1:1000.


Figura 11 - Maquetes das HIS – Fonte: Foto do autor (Junho 2009)


4.Madeira legal e certificada: de uso predominante no SETA
O material empregado no SETA é a madeira legal e certificada (além dela, apenas o aço está presente, pois constitui as ligações metálicas) proveniente de reserva renovável, sendo que sua produção contribui para a melhoria ambiental, além de ser, um material orgânico, agradável ao tato e confortável ao ser humano.

As florestas, das quais provêm à madeira, sequestram o gás carbônico durante a noite e o devolvem durante o dia na forma de oxigênio, minimizando as conseqüências danosas ao meio ambiente do efeito estufa (aquecimento da temperatura da crosta da Terra com o passar do tempo devido, prioritariamente, às atividades humanas desordenadas).

A madeira é provida de qualidades de excelência para construções civis, dotada de características únicas de aplicabilidade, pela sua facilidade de manuseio e alto índice de trabalhabilidade, apresentando, apesar de sua densidade diminuta em relação a outros materiais, grande resistência mecânica.

Embora suscetível ao apodrecimento e ao ataque de organismos em circunstâncias específicas, a madeira tem sua durabilidade natural prolongada quando previamente tratada com substâncias preservativas.

Deve ser salientada, neste ponto, a relevância do projeto estrutural ser desenvolvido de modo a serem previstos detalhes construtivos que garantam maior durabilidade do material empregado, evitando-se a exposição excessiva aos raios solares e à chuva.

Com relação à resistência ao fogo, apesar da madeira ser considerado um material inflamável, quando apresenta dimensões superiores a 25 mm ela é mais lentamente consumida pelo fogo. Isto ocorre porque, quando o fogo atinge a madeira destrói rapidamente a superfície, formando uma fina camada de compostos resistentes ao fogo que retarda sua propagação em direção ao interior da peça, fazendo também com que o incêndio perca velocidade.

Com relação à tecnologia em si, na etapa de projeto já é possível visualizar uma vantagem do sistema, pois seu design favorece a distribuição de esforços, de forma a diminuir o número de apoios necessários. Além disso, ainda nesta etapa, na realização dos cálculos estruturais verifica-se que a estrutura possui menor peso, o que acarreta em fundações menos robustas.

Como se pôde ver, até então a tecnologia, além de uma inovação de produto pode ser observada como uma inovação de processo, dado que este processo de montagem é muito particular frente o das tecnologias similares. Em comparação ao processo padrão realizado pelas tecnologias similares, a mesma requer pouco espaço no canteiro de obras, isso porque os módulos da estrutura podem ser transportados em pallets (II), o que ocupa menos espaço no veículo de carga.

A quantidade de mão de obra não especializada (operários) pode ser diminuída. Contudo, faz-se necessário ao menos um profissional carpinteiro no canteiro de obras. A quantidade de equipamentos no canteiro de obras também é reduzida, dado o menor peso da estrutura, o que exclui a necessidade de tratores e máquinas de içamento pesadas, sendo necessária apenas uma pequena grua (guindaste menor, mais simples).

Além disto, a madeira possui grande flexibilidade ao meio ambiente, apresentando possibilidades de aproveitamento, com perda irrelevante de material nas reformas e ampliações, além de um fator altamente relevante - a baixa demanda de quantidade de energia para a sua extração e processamento quando comparado a outros materiais. Segundo o Arquiteto Murcutt (2003) (6):

Nós estamos caminhando para um ponto no qual, dentro de vinte e cinco anos, onde tudo o que projetarmos, terá que ser pensado em termos de seu impacto sobre o meio ambiente. Necessita-se de 1 (um) quilojoule para produzir 1 (um) quilograma de madeira serrada e, 5 (cinco) quilojoules para uma madeira trabalhada (como por exemplo, uma cadeira). Necessita-se de quarenta e dois quilojoules para produzir 1 (um) quilograma de aço e 140 kg (cento e quarenta), para produzir 1kg de alumínio.
Apesar de todas estas especificidades que fazem da madeira um excelente material nas construções civis, seu emprego no Brasil é pífio, em relações aos países ditos desenvolvidos.

Para se ter uma noção do emprego racional da madeira, segundo Freitas (1982) (7) em termos construtivos, comparativamente em relação à situação das construções em madeira no Brasil e no mundo, por exemplo, nos EUA e Canadá, 90% das habitações isoladas são construídas em madeira. No Japão, (1986) (8), conforme pesquisa, 77,4% do total de unidades habitacionais foram construídas com estrutura de madeira. Para o mesmo ano, 81,5% das novas unidades de casas isoladas e geminadas foram construídas em madeira.

5. Conclusões
Pelo exposto, tem-se a pretensão de afirmar que o SETA se apresenta como uma interessante alternativa para aplicação na temática que envolve as HIS. Esta suposição se fundamenta nas características projetuais singulares, na relação custo benefício adequada, bastando lembrar que em se aplicando o conceito Rendimento estrutural da construção (R), definido pela relação: área construída (m2) por material madeira empregado (m3), (R) é da ordem de 14,50. Isto significa que são necessários apenas 1 m3 de madeira para se obter 14,50 m2 de área construída.

O SETA tem especificidades singulares para se pensar em HIS de forma racional e ecológica, competindo em condições, no mínimo, em pé de igualdade com os materiais usuais de mercado: concreto armado, concreto protendido, aço, entre outros. Foram aferidos custos por m2 de estrutura (material + mão de obra): madeira = R$ 363,23 e o aço = R$ 353,70 (levantamento de junho de 2007). Estes valores mostraram-se compatíveis, apesar do preço do aço já se encontrar nos dias atuais em patamar de economia de escala, o que ainda infelizmente não ocorre com a madeira, quando considerada para uso em sistemas estruturais.

Deve-se também considerar neste processo, todo o envolvimento de fatores ecológicos, bem como a inserção do artefato arquitetônico no solo, se verificar através de somente três pontos de apoio. As montagens dos elementos constituintes do SETA processam-se através da utilização de: 1) recursos simples, exigindo equipamentos e ferramentais disponibilizados correntemente no mercado da construção civil; 2) equipe composta por um número reduzido de pessoal; 3) prazo de execução exíguo (da ordem de 90 a 120 dias), devido às suas características projetuais de concepção e de construção.

Possibilita o completo reuso da estrutura em outros locais, dependendo das conveniências pública ou privada, com exceção dos elementos de concreto fixados no solo. Salienta-se, também, que o SETA, insere-se no conceito que para se pensar e construir uma obra de qualidade com baixo custo de construção deve-se introduzir altos níveis de racionalidade e criatividade na concepção do espaço e da construção.


6. Notas

(I) Nó é um elemento da construção que tem por função reunir e fixar os componentes longitudinais da estrutura (as arestas).
(II) Pallet é um estrado de madeira, metal ou plástico que é utilizado para movimentação de cargas. A função do pallet é otimizar o transporte de cargas, que é conseguido através da empilhadeira e a paleteira.


7. Referências bibliográficas

(1) FARAH, Flavio (2003). HABITAÇÃO E ENCOSTAS. São Paulo: Publicação Instituto de Pesquisas Tecnológicas – IPT/SP, São Paulo.
(2) LOBO CARNEIRO, (1993), Fernando. Análise Dimensional e Teoria da Semelhança e dos Modelos Físicos. 2a. Edição, Editora UFRJ, Rio de Janeiro.
(3) INSTITUTO TOMIE OHTAKE (Org), 2004. GAUDÍ: A PROCURA DA FORMA. Instituto Tomie Ohtake. São Paulo.
(4) NBR 7190 (1997). Projeto de estruturas de madeira. Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT, Rio de Janeiro.
(5) DIAS, Susana (2008) SETA – tecnologia que une chance de lucro e preocupação socioambiental. In: Revista CONECTA da ciência ao mercado, Programa de Investigação Tecnológica – PIT/SP, São Paulo.
(6) MURCUTT, Glenn (2003). A dialogue with editor: interview. GA Global Architecture –houses. Tokyo, n.75, p.8-15.
(7) FREITAS, A.R. de (1982). Potencial de utilização de madeiras em construções. In: ENCONTRO BRASILEIRO EM PRESERVAÇÃO DE MADEIRAS. São Paulo, Anais... São Paulo: ABPM.
(8) JAPAN, Ministry of Construction (1986). Housing in Japan '86. Tokyo: Ministry of Construction.

8. Bibliografia básica
(1) CARNEIRO, Fernando L. (1980). Galileo e a Teoria da Semelhança Física. Seminário Internacional 350 Anos dos Discorsi Intorno a Due Nuove Scienze, de Galileu Galilei, São Paulo, Marco-Zero e COPPE/UFRJ.
(2) LANGHAAR, H.L. (1965). Dimensional Analysis and Theory of Models. New York, Johs Wiley & Sons.
(3) NATTERER, Julius. (1998). Construire en bois II. Lausanne, Suisse, Presses Polytechniques et universitaires.
(4) OTTO, Frei. (1985). Architecture et BIONIQUE: constructions naturelles. Éditions Delta & Spes.
(5) PALÁCIOS, J. (1960). Analyse Dimensionale. 1a. Ed. Paris. Guthier-Villars.
(6) PFEIL, Walter; Michèle. (2003). Estruturas de Madeira. 6. ed. Rio de Janeiro: LTC.
(7) REBELLO, Yopanan Conrado Pereira. (2000). A Concepção Estrutural e a Arquitetura. São Paulo: Zigureta.
(8) VASCONCELOS, Augusto Carlos de. (2000). Estruturas da Natureza: Um estudo da interface entre Biologia e Engenharia. São Paulo.

Resenha curricular:
Décio Gonçalves é graduado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Mauá de Tecnologia (1966) e tem também uma graduação em Engenharia Civil pela Faculdade de Engenharia Armando Álvares Penteado (1976).
É Mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Instituto Presbiteriano Mackenzie (2002) e Doutor em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo - USP com a tese "Sistema estrutural treliçado modular em madeira - SET 2M" (dezembro/2007).
Este sistema estrutural recebeu registro de patente junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial - INPI, sendo a USP titular do invento, com o título "Sistema estrutural tipo árvore - SETA". O mesmo sistema foi premiado em novembro de 2008 pelo Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia - CONFEA na área de Engenharia para produtos patenteados ou patenteáveis com viés inovativo.

O autor é consultor em Engenharia e Arquitetura de projetos arquitetônicos e execuções de obras civis de pequeno, médio e grande porte, pesquisador nas áreas de Arquitetura e Engenharia, especificamente na adequação do SETA aos diversos programas funcionais arquitetônicos entre os quais se destacam: residências uni e multifuncionais, shoppings centers, centros de pesquisa, centros de convivência , entre outros, programas estes, de carácter público ou privado. Salienta-se que a adequação do SETA aos diversos programas funcionais apresenta uma interface bem definida com questões recorrentes relacionadas aos interesses sociais.


Infohabitar, Ano V, n.º 267
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte, 11 de Outubro de 2009
Edição de António Baptista Coelho
Pubicado por José Baptista Coelho

segunda-feira, novembro 10, 2008

221 - A Exemplaridade dos Sistemas Construtivos Tradicionais para a Inovação em Sustentabilidade na Arquitetura – um artigo de Hélio Costa Lima - Infohabitar 221

Infohabitar 221
Segue-se um artigo do colega Prof. Arq. Hélio Costa Lima, intitulado “A Exemplaridade dos Sistemas Construtivos Tradicionais para a Inovação em Sustentabilidade na Arquitetura”.

O colega Doutor Costa Lima, é Professor Associado do Departamento de Arquitetura da Universidade Federal da Paraíba e apresentou este artigo, muito recentemente, no Seminário Internacional NUTAU 2008, um Seminário que tem já uma excelente tradição de qualidade, organizado pelos amigos e colegas da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP).

O colega Doutor Costa Lima encontra-se, actualmente, numa visita de estudo em Portugal, com o enquadramento do Núcleo de Arquitectura e Urbanismo do LNEC e o apoio de vários amigos e colegas, entre os quais se faz uma referência especial ao Eng. António Vilhena do LNEC e ao Prof. Arq. Virgolino Jorge da Universidade de Évora.

Agradece-se ao colega Hélio Costa Lima a gentileza de se ter tornado mais um dos companheiros que editam no nosso Infohabitar, deseja-se a continuação de uma execelente viagem de estudo, um seu óptimo refresso a casa e que volte rapidamente a Portugal para novas colaborações em tantas áreas técnicas e de investigação nas quais, como é o caso do tema tratado neste artigo, temos um triplo caminho comum: na língua, nas tecnologias e na cultura.

E aqui ficam expressos os desejos das melhores felicidades pessoais e académicas ao colega Costa Lima.

António Baptista Coelho

A Exemplaridade dos Sistemas Construtivos Tradicionais para a Inovação em Sustentabilidade na Arquitetura

Hélio Costa Lima (1)

Introdução
No âmbito da arquitetura, como em outros domínios da produção, uma espécie de vácuo separa os historiadores dos que estudam tecnologias sustentáveis. Não obstante, alguns pesquisadores de técnicas tradicionais de construção (2), vêm chamando a atenção para a exemplaridade dos sistemas construtivos do passado para a pesquisa atual em sustentabilidade na arquitetura. De fato, o repertório de estratégias de economia de energia dos sistemas construtivos tradicionais – tais como a gestão de entulhos, a apropriação de técnicas, e a logística, entre outras – deveria ser analisado com mais interesse pelos que investem hoje em estudos sobre o impacto ambiental da construção.

Não se trata aqui de estimular um revival, de pregar uma volta às práticas tradicionais de construção. Mas de advogar que o entendimento da lógica de produção que as animava, dentro de uma matriz energética em que não constavam as fontes “modernas” de energia, pode ser útil hoje para o desenvolvimento de novas estratégias de sustentabilidade na produção do edifício e da cidade.

No nosso entender, é esta condição de subordinação a uma matriz energética pré-moderna que abona o interesse científico das estratégias construtivas tradicionais para a pesquisa atual em sustentabilidade na arquitetura. Acreditamos que, por terem sido desenvolvidas em um cenário em que simplesmente não se contava com petróleo, nem com eletricidade, estas estratégias podem apontar caminhos para o desenvolvimento de alternativas ao uso, ou para a redução do consumo destas energias, de que prescindiam os antigos, para erguer edifícios.

Neste trabalho apresentamos argumentos para uma aproximação entre a história e a tecnologia da arquitetura, que não é aquela de interesse da preservação/restauração de edifícios de valor histórico, e que não se ocupa de construir uma história da tecnologia da arquitetura; mas que visa estudar a construção tradicional como referência para a inovação tecnológica em sustentabilidade na arquitetura. E isto, com base no simples fato de que no legado histórico está contida uma experiência laboratorial da maior importância para a pesquisa neste campo, posto que permite estudar estratégias construtivas desenvolvidas em situação de absoluta falta (por inexistência) das energias que hoje se quer poupar!

Argumentos para uma aproximação entre a história e a tecnologia da arquitetura

A criação de um ambiente propício, de uma cultura científica favorável a uma aproximação entre a história e a tecnologia, com vistas à pesquisa e desenvolvimento, requer, além da concepção de métodos e instrumentos de investigação apropriados, a superação de preconceitos e idealizações muitas vezes criados por desinformação ou descontextualização.
A pesquisa em tecnologia, impregnada do seu nobre compromisso com a solução de problemas presentes ou futuros, tende a fazer tábua rasa do saber tradicional. Não é raro, no campo da arquitetura, referências aos sistemas construtivos tradicionais como ineficazes, improdutivos, irracionais, precários, etc.

Vistos e analisados a partir das condições de produção atuais, eles podem até nos parecer assim. Porém, observados dentro do seu contexto histórico, eles nos revelam muita eficácia e produtividade, grande racionalidade e pertinência.

Este último prisma analítico requer, de imediato, que se supere a tendência a uma idealização do passado, isto é, a tendência a se imaginar que a escassez de energia e o alto custo dos insumos, do trabalho e dos transportes, não afligiam os antigos construtores. Que todos os recursos estavam à mão, em abundância, e baratos.

Nada mais equivocado. Documentos históricos e evidências de campo demonstram que os materiais de construção eram muito caros (3); e que ao custo da manufatura somava-se o do transporte como um fator fortemente determinante do seu preço elevado. Tal fato condicionava estratégias de construção as mais diversas e inventivas, cujo interesse para a pesquisa atual é evidente.

Exemplo inequívoco disso são as paredes de alvenaria de pedra dos primeiros séculos da colonização do Brasil, que exibem fragmentos de tijolos cerâmicos, ladrilhos e telhas, agregados a elas como embrechamento, ou como camadas de nivelamento (Figura 1).



Figura 1- Ruínas do Almagre, Cabedelo-PB (esq.) e Ruínas dos Milagres, Igaraçu-PE (dir.) – fotos do autor


Isto nada mais é do que o testemunho de uma estratégia de gestão de entulhos, das mais eficazes. A reciclagem dos entulhos porventura gerados se dá no próprio ciclo da construção: na contramão da tendência de parte da pesquisa atual a apostar na reciclagem dos entulhos depois de retirados do canteiro. Sem prejuízo dos esforços de redução de entulhos na construção, ou de qualquer alternativa de manejo sustentável dos entulhos (sem dúvida um dos maiores problemas de impacto ambiental do setor), esta constatação pode nos instar a investir na pesquisa de sistemas construtivos “auto-limpantes”, isto é, que tenham a propriedade de consumir/reciclar seus próprios rejeitos.

O impacto do fator transporte – hoje a ser considerado não só em sua dimensão econômica, mas, sobretudo, em sua dimensão ecológica, pelas emissões de gases que implica –, cujo custo é particularmente alto no caso dos materiais de construção, por causa do seu peso, se confirma como um dos mais fortes determinantes das estratégias e técnicas de construção do passado. E por isso os sistemas construtivos tradicionais são profícuos em soluções criativas para reduzi-lo.

A própria escolha dos sítios para a fundação de povoamentos, vilas e cidades, levava em consideração, entre outros requisitos fundamentais à vida urbana, a disponibilidade, in loco, de materiais de construção de boa qualidade. Podendo mesmo, este requisito, vir a ser determinante de adaptações criativas das técnicas construtivas então em uso.

Recentemente, encontramos em empenas e paredes divisórias de casas datáveis dos primórdios da fundação da capital da Paraíba (hoje João Pessoa), no final do século 16, o emprego de um curioso tipo de enxaimel, utilizando fartamente a madeira (fato raro no enxaimel luso, vindo do sul de Portugal, pobre em matas), e tendo como preenchimento rachas de pedra calcária amarela (Figura 2).


Figura 2 - Enxaiméis com pedra calcária na Paraíba – fotos do autor


Rico em pedras calcárias da melhor qualidade, e em excelentes madeiras para construção, encontradas na porção de Mata Atlântica que o recobria, o planalto onde foi implantada a Cidade, deu ensejo a este fato, inédito (4), em se tratando das construções do período colonial brasileiro.

Tudo isso indica uma perspicaz adaptação das técnicas de construção tradicionais aos materiais disponíveis no sítio, e a outras variáveis de situação.

No caso em apreço, o uso intensivo de rachas de pedras calcárias sugere o aproveitamento, na arquitetura civil ordinária, da abundante “bugalhada” produzida pelo intenso trabalho de cantaria (talha de pedras), então em curso na construção dos grandes edifícios administrativos e religiosos da Cidade, cuja pedreira era no local. Isso que hoje seria entulho, e que representa um transtorno nas construções modernas, era “reciclado” nas construções mais modestas das proximidades, por ser um material, ali e naquele momento, abundante e barato.

A determinação da tecnologia pelo alto custo dos transportes é bem nítida na construção tradicional. Até em sítios muito próximos entre si, diferentes escolhas técnicas podem ser constatadas em função deste fator: Recife usou o arenito, tirado ali dos arrecifes, para suas construções; enquanto a pedra calcária, abundante na vizinha Olinda, a menos de dez quilômetros, era o material de eleição dos construtores olindenses. Nas Minais Gerais, algumas cidades ao longo da Estrada Real exibem variações de estratégias construtivas em função da disponibilidade local de materiais: Diamantina tem enxaiméis preenchidos com tijolos cozidos, e São Gonçalo do Rio das Pedras, distante menos de trinta quilômetros, tem enxaiméis preenchidos com adobe (Figura 3).


Figura 3 – Enxaimel em Diamantina - MG (esq.) e em São Gonçalo do Rio das Pedras – MG (dir.) – fotos do autor


Sabemos que o princípio da utilização de materiais locais é hoje largamente aceito e proclamado como uma das estratégias básicas para uma arquitetura sustentável. Assim, quando evocamos acima exemplos de sua proeminência como determinante dos sistemas construtivos tradicionais, o fizemos para reforçar a potencialidade desses sistemas como celeiro de referências para o desenvolvimento, hoje, de estratégias de sustentabilidade na produção do edifício e da cidade.

Algumas experiências pioneiras em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias construtivas vêm também reforçar essa nossa convicção e ilustrar nossos argumentos. Primeiramente, podemos citar a conhecida experiência do CEPED (BA) (5), em que foi desenvolvido um sistema de construção de baixo custo com solo-cimento, que consiste numa atualização, numa adaptação ao contexto tecnológico atual, de uma técnica lusa secular: a taipa de pilão (Figura 4).


Figura 4 – Construções de solo-cimento em Camaçari - BA, adaptação de técnica tradicional – fotos Projeto THABA/CEPED 1978


Noutro universo de pesquisa, podemos citar uma experiência conduzida pelo IPT (SP) sobre estanqueidade de fachadas. Em artigo sobre a prevenção de penetração de água pelas fachadas, o autor da pesquisa (6) chama a atenção para a eficácia dos detalhes construtivos em uso na arquitetura desde a antiguidade clássica, que criam uma cortina de respingos paralela ao plano da parede, que, por sua vez, diminui a incidência da água das chuvas sobre a fachada (Figura 5).


Figura 5 – Tipos de saliências nas fachadas que dissipam a água das chuvas (fonte: PERES, 1988)


Não contando com tintas e revestimentos impermeabilizantes, os antigos construtores criaram elementos arquitetônicos (cimalhas, cornijas, lacrimais...) capazes de reduzir o impacto das fortes chuvas sobre as fachadas. Hoje, a aplicação deste princípio poderia acarretar uma redução do uso de tintas e revestimentos impermeabilizantes, normalmente oriundos da indústria química e petroquímica, e da indústria cerâmica. E toda redução do uso de materiais destas origens industriais, sabe-se, significa redução de impacto ambiental.

No que tange a arquitetura, é importante observar que o alcance de investidas deste tipo pode ir além de uma simples interferência nas técnicas de construção em si, e chegar a provocar mudanças na própria fisionomia do edifício. Porém, não no sentido da adoção de uma linguagem formal do passado, como fizeram os arquitetos historicistas, mas da busca de uma nova linguagem arquitetural, de uma nova arquitetura, partindo da articulação de elementos construtivos concebidos para o incremento da sustentabilidade do edifício.

Considerações finais

Os argumentos acima encorajam a fundação de uma linha de pesquisa que explore as potencialidades dos sistemas construtivos tradicionais, como referência para a inovação tecnológica em sustentabilidade na arquitetura. Porém, mais do que apenas entusiasmo e desejo, isto requer o desenvolvimento de um ferramental teórico e metodológico específico, para a construção de um quadro analítico apropriado.

Nenhuma interpretação será confiável se feita a partir apenas da análise do artefato arquitetônico. Porque os “sinais tectônicos” (7), nele identificados, só ganham significação se analisados dentro do quadro histórico que os produziu. Para tanto, devem convergir diversas competências do campo da história e do campo da tecnologia da arquitetura, cada uma com suas ferramentas e métodos específicos, o que, por sua vez, engendra uma nova competência.

A mobilização desta nova competência, visando o entendimento dos sistemas construtivos do passado, segundo as condições de produção que estavam em jogo, demanda um trabalho sistemático de identificação e leitura de documentos históricos de diversas naturezas (iconográfica, textual, contábil...), e o estudo dos artefatos construídos e das reminiscências técnicas. Isto presidido por um conceito de sistema construtivo que integre os universos produtivos de dentro e de fora do canteiro: os saberes, os materiais, o equipamento, o processo de trabalho, as relações de trabalho, a logística, as políticas públicas, o ecossistema, etc.

Além disso, é fundamental que – sem demérito do estudo das técnicas em si, do qual esta natureza de investigação depende diretamente – se dirija o foco desta linha de pesquisa para o porquê (histórico) do procedimento técnico, e não para o como (técnico) ele se realiza.

O porquê histórico dos sistemas construtivos tradicionais, assim entendemos, é chave para o desenvolvimento de novas estratégias de sustentabilidade na produção do edifício e da cidade.

Referências bibliográficasPERES, Ary Rodrigo: “Umidade nas edificações: recomendações para a prevenção da penetração de água pelas fachadas”. In: Tecnologia de Edificações: São Paulo, PINI/IPT, 1988. (pp. 571-574).
SMITH, Robert: “Arquitetura Civil do Período Colonial”. Separata da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Vol. 17. Rio de Janeiro, 1969.

Notas:

(1) Arquiteto, Doutor, Professor Associado do Departamento de Arquitetura da Universidade Federal da Paraíba (Brasil).


(2) A exemplo de Roberto Dantas de Araújo e Jorge Tinoco, do CECI, em Pernambuco.

(3) Em sua Arquitetura Civil do Período Colonial, Robert Smith nos dá pistas para inferir o alto custo dos materiais de construção em Salvador no século 16: em 1550, um certo Pero Martins, telheiro, fazia telhas de cobrir, vendendo-as a dois mil réis o milheiro (p. 32, nota 29); e em 1552, Pedro de Carvalhais fôra nomeado “mestre de obras de Salvador”, com vencimentos anuais de vinte mil réis (p. 33, nota 31). Note-se, que um ano de vencimentos de um alto funcionário da Coroa só compraria dez milheiros de telhas!

(4) Consultado sobre o assunto, o Professor José Luís Mota Menezes, autoridade em arquitetura do período colonial, afirmou não conhecer similares desta ocorrência em outros sítios históricos brasileiros. O enxaimel luso, muito utilizado no Brasil colonial, normalmente usava tijolos cozidos ou adobe como preenchimento.

(5) Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Bahia. Projeto THABA – Tecnologias Habitacionais de Baixo Custo.

(6) PERES, Ary Rodrigo: “Umidade nas edificações: recomendações para a prevenção da penetração de água pelas fachadas”. In: Tecnologia de Edificações: São Paulo, PINI/IPT, 1988. (pp. 571-574).

(7) Utilizamos o termo “sinais tectônicos” para definir vestígios do cabedal técnico e artístico mobilizado na construção, deixados no construído. Estes sinais compreendem, em conjunto, características morfológicas, estereométricas e estilísticas, materializadas, através das técnicas de construção, nos elementos arquitetônicos. Eles compreendem relações de cheios e vazios, proporções de aberturas, alturas dos pontos, estereotomia e estereometria das cantarias, espessuras das paredes, etc., assim como os materiais empregados e as técnicas construtivas utilizadas, identificáveis em fragmentos e partes de edifícios, muitas vezes em ruína ou submersos por sucessivas intervenções, reformas e desfigurações ao longo do tempo.

Edição no Infohabitar:Preparação por António Baptista Coelho, em 2008/11/09
Edição por José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação, Olivais-Norte, 2008/11/10