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Vitalizar a cidade e oferecer novas formas de habitar (II) – desenvolvimento dos aspectos urbanos e arquitectónicos de enquadramento para pequenas unidades residenciais
Continua-se neste artigo uma proposta informal de apresentação e de desejável discussão útil sobre o as características urbanas e arquitectónicas de enquadramento para pequenas unidades residenciais para pessoas sós ou para pequenos agregados, que se defende posam ser integradas em zonas urbanas vitalizadas e “centrais”. Volta a sublinhar-se que esses grupos sociais têm, cada vez mais, uma presença significativa na nossa sociedade e continuam a não ter uma oferta adequada em termos de condições residenciais, seja na perspectiva da sua constituição funcional e do seu carácter vivencial específicos, seja relativamente às suas condições de integração na cidade e de potencialidades para a respectiva animação local.
Aborda-se, assim, o tema das unidades residenciais compostas por pequenos fogos ou estúdios e por um conjunto diversificado de serviços comuns, privativos dos respectivos residentes e/ou abertos para o serviço a toda a comunidade local.
Volta a salientar-se que a ordem de abordagem desta matéria, nesta série de artigos tem e terá grande flexibilidade, podendo voltar-se, em artigos futuros, a aspectos de enquadramento julgados fundamentais e avançando-se, neste artigo, com uma reflexão sobre os tipos de pequenos fogos que se podem considerar, com destaque para as opiniões de diversos autores, pois não faz qualquer sentido estar, ciclicamente, a reinventar soluções idênticas.
E julga-se ser bem a propósito, desta inútil reinvenção de soluções, a ilustração deste artigo com algumas imagens dos pequeníssimos fogos que foram promovidos (provavelmente em meados do século XIX), em Hamburgo, por uma antiga associação de beneficência ou de ajuda mútua para dar habitação condigna a viúvas de trabalhadores – nesta matéria o autor apresenta as devidas desculpas por não poder incluir, aqui, os respectivos elementos de identificação, que não foram recolhidos na altura da visita.
Fig. 01
Vitalizar a cidade com novas formas de habitar (III): Unidades residenciais -
António Baptista Coelho
Artigo de António Baptista Coelho
Já, acima, se referiu e aqui se sublinha que o objectivo do desenvolvimento de agregados de pequenos fogos, muito limitados em termos funcionais e espaciais privativos, e compensados em termos de espaços e serviços comuns, deve ser, sempre, um objectivo duplo, que tem a ver, quer com a referida disponibilização de condições habitacionais o mais possível adequadas para pessoas sós e pequenas famílias, quer com a perspectiva de se contribuir, estrategicamente, para a vitalização da cidade com novos habitantes e, especialmente, com habitantes muito disponíveis para participar nessa vitalização, até porque serão pessoas que irão encontrar nesse meio urbano “concentrado” condições adequadas para a manutenção ou a redescoberta do interesse, da riqueza e da vitalidade e funcionalidade na vida diária citadina.
Como também já se referiu, num artigo desta série, no caso dos seniores o resultado será a contribuição para a manutenção da vitalidade individual, em termos físicos e mentais – e mesmo com excelentes efeitos na sua saúde (está provado a relação directa entre ausência de interacção social, no caso das pessoas idosas, e aumento significativo de problemas de saúde graves), enquanto no caso dos jovens o resultado centra-se na disponibilização de uma plataforma facilitada de dinamização do tão desejado convívio e de apoio à sua introdução e início de vivência autónoma nesse mundo, com excelentes facilidades em termos dos cuidados de manutenção doméstica.
Misturar, ou não, estes grupos sociais é uma decisão que se julga dever ser tomada caso a caso, consoante a dimensão, a localização e o carácter de cada intervenção, no entanto julga-se que uma mistura desse tipo é sempre socialmente positiva, desde que muito cuidada em termos de organização espacial e funcional, de isolamento acústico entre unidades residenciais e entre estas e os espaços comuns, e em termos de uma gestão local não intrusiva, mas muito rigorosa e transparente.
Vamos então passar em revista o que alguns autores nos têm a dizer sobre estas matérias do desenvolvimento de pequenas habitações ou “unidades residenciais”, quer em termos mais amplos e teóricos, quer em termos mais práticos, associados a aspectos estruturantes dessas soluções.
Claude Lamure sublinha alguns aspectos, que considera caracterizadores daquilo que ele define como uma tipologia família-habitação (1):
- Pequenos fogos, essencialmente, adequados para casais jovens, com espaços "super-funcionais" para os trabalhos domésticos, abundância de diversos tipos de arrumações, feitas de raiz, e um relacionamento geral entre espaços, que assegure a vigilância das crianças pequenas.
- Pequenos fogos para pessoas sós ou casais sem filhos em coabitação, com equipamentos domésticos menos elaborados e completos, nomeadamente, para se disponibilizarem espaços para a instalação de mobiliário patrimonial, e dispondo de um quarto de dormir bem isolado do resto da casa, que seja suficientemente espaçoso para integrar duas camas individuais e certas zonas específicas (ex., sofá perto de janela); o fogo deve ser globalmente espaçoso e ter circulações facilitadas, tanto entre cozinha e sala, como entre a sala e o quarto (pensa-se na funcionalidade do uso por idosos).
- Grandes fogos para famílias "maduras" com diversos filhos de diferentes idades, com um quarto relativamente autónomo que pode servir para um filho mais velho, para escritório ou para um parente idoso, e, ainda, com um quarto de casal acentuadamente isolado do resto da casa.
Fig. 02
John Noble e Barbara Adams referem diversos tipos de fogos, que podem ter interessados muito específicos (2):
- jovens longe de casa, em pequenos estúdios mobilados;
- casais jovens em pequenos fogos;
- famílias com crianças em fogos espaçosos com espaços exteriores privados;
- casais idosos e activos continuando nas habitações grandes onde criaram os filhos e onde, agora, têm espaços adequados às numerosas actividades a que se dedicam em casa;
- idosos pouco activos em pequenos fogos "super-funcionais" e espaçosos que lhes poupem e facilitem o trabalho doméstico e as próprias deslocações interiores.
Em seguida, apresenta-se a definição de um leque de tipos de espaços habitacionais considerados adequados para pessoas sós, conforme um estudo realizado pela Taylor University of York (3):
- "Alojamento auto-suficiente" ou unidade de alojamento, provida de porta de acesso, cozinha, casa de banho completa; uma habitação pode ser uma unidade de alojamento ou conter várias unidades desse tipo.
- "Alojamento compartilhado", unidade habitacional onde vivem várias pessoas, cada uma com um "espaço particular", mas compartilhando uma zona de estar, cozinha e casa de banho completa.
- "Espaço particular", quarto individual dentro de um alojamento compartilhado, usado essencialmente como espaço para dormir, mas também como zona de estar e para guardar bens pessoais. E junta-se, a título de comentário, que pode haver uma evolução deste "espaço particular", anexando-lhe instalações sanitárias que podem ser mínima e/ou pequena zona de estar, que pode resumir-se a um espaço para um pequeno sofá e uma mesa de trabalho
- "Quarto completo", como o "espaço particular", mas com pequena zona de estar mais desenvolvida e incluindo lavabo e pequena cozinha; há que compartilhar a retrete e o banho.
- "Espaço comum ou colectivo, compartilhado"; pode incluir casa de banho, cozinha, estar, arrumações, etc.
Nestas matérias é importante considerar que a habitação para um casal (quarto comum) é muito semelhante à habitação para uma pessoa só; conquanto se trate de um casal de adultos, nem jovens, nem idosos, porque nestes casos exigiriam, em princípio, zonas mais amplas e diferenciadas (4); e é interessante atentar, assim, nesta semelhança de condições funcionais que parece caracterizar jovens e idosos.
Fig. 03
Comenta-se, ainda, e terá de ficar para posteriores desenvolvimentos, que há dois tipos de unidade habitacional mínima, aquelas que têm um quarto e uma sala "clássicas", e as que são constituídas por dois quartos individuais, para duas pessoas que vivem juntas, mas cada uma com o seu espaço privado e independente ("LAT", "Living Apart Together") (5). Mas desde já se regista que uma solução deste tipo poderá ser muito vantajosa em variadas situações, uma vantagem que tanto é económica, pois este tipo de habitações poderão ser facilmente convertíveis a partir de fogos correntes, como é uma vantahem social e convivial pois poderá proporcionar um adequado “meio termo” entre a vida individualizada e a vida “impessoal”, servindo também a situações de ajuda mútua quer na lide da casa, quer no próprio apoio pessoal mútuo. É, assim, um tema a que voltaremos em próximos artigos até porque se considera que a agregação de, apenas, dois quartos talvez não seja a mais adequada.
A modos de conclusão parcial, que avança já em aspectos de configuração, e segundo Christopher Alexander, a habitação, em princípio, destinada a uma pessoa só deve ser um espaço com grande capacidade de individualização/apropriação, podendo caracterizar-se por um amplo espaço central e multifuncional, rodeado por recantos ou sub-espaços com diversas atribuições funcionais (6).
E tendo em conta diversas fontes considera-se que entre 30 e 40m² (específicos da unidade residencial) permitirão dimensões e configurações adequadas, designadamente, para uma pessoa só e em condições associadas, por exemplo, a estadias temporárias; embora este intervalo de 10m2 proporcione alguma flexibilidade para a instalação de um casal.
Fig. 04
Considerando-se, agora, especificamente as pessoas idosas e as suas condições físicas e psicológicas específicas e visando-se o conjunto dos espaços que integram a vizinhança de proximidade e o edifício residencial, estes espaços, segundo Claude Lamure, deverão responder positivamente no que se refere à previsão dos seguintes tipos de cuidados:
- o conforto nas deslocações e no uso dos espaços.
- e o relacionamento social e a comunicação com o meio exterior envolvente, próximo e distante, nomeadamente, por: proximidade a transportes colectivos;
proximidade a equipamentos comerciais; proximidade relativamente a amigos, familiares e conhecidos; conhecimento da envolvente urbana; existência, no edifício, de espaços de condomínio equipados e vivos.
De notar, ainda, que a Vizinhança Próxima é o espaço ideal, em termos de potencial de acessibilidade física e de segurança nas deslocações e nas estadias, para o uso diário e intenso por idosos, propiciando e motivando saídas frequentes das respectivas habitações, com evidentes vantagens, tanto ao nível da saúde física e psíquica destes habitantes (andar a pé, “flanar”, estar ao ar livre, conviver), como ao nível do aumento da animação e da convivialidade diária global das respectivas Vizinhanças Próximas e Alargadas, até porque, sendo pessoas que, frequentemente, não cumprem horários de trabalho, são elementos sempre disponíveis para essa “vivência de rua e de café”.
Muito do que se referiu para os idosos é também aplicável na Vizinhança Próxima para os restantes grupos etários, sendo verdade que boas condições de agradabilidade e segurança na vizinhança de proximidade são factores de intensificação do uso global dos exteriores e designadamente da permanência no exterior de idosos e de jovens. E uma continuidade de gerações, numa mesma vizinhança de proximidade, assegura todo um amplo leque de vantagens sociais e práticas.
Fig. 05
“Entrando” agora no que poderá ser um conjunto edificado que agregue algumas dezenas de unidades residenciais do tipo estudio e/ou T0 (com capacidade para 1 ou 2 individuos), apontam-se alguns aspectos que se consideram importantes no respectivo projecto:
- O espaço e o acabamento de cada unidade deverá proporcionar um ambiente apropriado, quer para as actividades residenciais, quer para o estudo e o trabalho profissional.
- O espaço e o acabamento de cada unidade deverá proporcionar um leque, o mais possível, amplo de possibilidades de arranjos interiores pormenorizados, quer mais estruturantes – tais como ligação e separação de espaços –, quer mais complementares – tais como disposição de mobiliário, integração de outros elementos de arquitectura de interiores (ex., sítios para quadros/cartazes, pequenos espaços apropriáveis) – de forma a privilegiar-se a capacidade de identificação e de apropriação de cada unidade, mas com uma expressiva economia de meios.
- O espaço e o acabamento de cada unidade deverá proporcionar um ambiente interior que associe a privacidade – isolamento visual e acústico – e a máxima apropriação e identificação de cada unidade residencial com condições comuns estimulantes, ambientalmente agradáveis – bem acompanhadas pela luz natural – e caracterizadamente dignas e asssociáveis a um amplo espaço residencial.
- O conjunto edificado deverá proporcionar as melhores condições de conforto ambiental, com destaque para a iluminação natural e para o conforto acústico, e de ambiente dignificado e apropriado nos respectivos espaços comuns.
- O conjunto edificado deverá proporcionar oportunidades espaciais e ambientais para a interacção social, quer no interior do edifício, quer nos espaços exteriores contíguos.
- O conjunto edificado deverá proporcionar condições maximizadas de privacidade e sossego nos espaços em que se habita em grande proximidade e nas condições de partilha de equipamentos.
- O conjunto edificado deverá proporcionar condições espaciais e de equipamento adequadas a estadias curtas.
- O conjunto edificado deverá proporcionar condições de gestão local que facilitem as funções domésticas e o uso dos equipamentos disponíveis.
- No conjunto edificado deverão ser totalmente anuladas imagens massificadas e anónimas e deverão ser privilegiados os aspectos de apropriação, identidade e partilha de objectivos residenciais e sociais comuns.
- O conjunto da intervenção deverá privilegiar os aspectos de integração local, serviço à comunidade envolvente, relação optimizada entre espaços interiores e exteriores e integração de elemento naturais com destaque para as múliplas soluções de verde urbano.
- O conjunto da intervenção deverá associar à implementação desta nova forma de habitar a experiência de uma arquitectura muito qualificada, designadamente, em termos ambientais, funcionais e formais.
Finalmente, há que destacar a eficácia a convergência de objectivos proporcionadas pelas cooperativas de habitação na programação e na gestão corrente de unidades deste tipo, associando ao apoio dos serviços do habitar, mais específicos, todo um outro conjunto facultativo de aspectos muito diversificados e ligados ao convívio natural e à dinamização de iniciativas socioculturais.
(1) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 15.
(2) John Noble; Barbara Adams, "Housing. Home in its Setting", p. 514.
(3) Direccion General de Arquitectura y Vivienda; Ministerio de Obras Publicas y Urbanismo (MOPU), "Individuo y Vivienda", p. 86.
(4) Direccion General de Arquitectura y Vivienda; Ministerio de Obras Publicas y Urbanismo (MOPU), "Individuo y Vivienda", p. 46.
(5) Direccion General de Arquitectura y Vivienda; Ministerio de Obras Publicas y Urbanismo (MOPU), "Individuo y Vivienda", p. 79.
(6) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", p. 356.
(7) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", pp. 151 a 153 e 215.
5 de Julho de 2008, Casais de Baixo – Azambuja.Editado no Infohabitar, Encarnação – Olivais Norte, Lisboa
em 6 de Julho de 2008, por José Baptista Coelho
- Infohabitar 203
É, novamente, com especial satisfação que editamos um artigo de uma nova colaboradora do nosso Infohabitar, a Arq.ª Joana Mourão, que está neste momento a desenvolver uma tese de doutoramento em Arquitectura nas áreas que são apontadas neste artigo, áreas estas extremamente actuais e que a colega Joana Mourão está a aprofundar no Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU) do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), contando com o apoio de outros grupos de investigação do LNEC e, também, com o enquadramento da Escola Tècnica Superior d’Arquitectura del Vallès (ETSAV) da Universitat Politècnica de Catalunya.
O Infohabitar agradece à colega Joana Mourão esta oportunidade editorial, deseja-lhe as maiores felicidades no seu estudo e espera poder contar com outros seus artigos sobre este e outros temas.
Esclarece-se, ainda, que o título completo do artigo é o que se edita no início do respectivo texto, tendo sido feita uma sua redução, no cabeçalho desta edição do Infohabitar, de modo a proporcionar-se a sua melhor divulgação, minimamente truncada, quando lido na margem da nossa revista; são pormenores do processo editorial do nosso blog/revista que nos levam, a partir de agora, a tentar sempre privilegiar a melhor divulgação da síntese dos títulos e autorias dos artigos editados, sendo que o verdadeiro título do artigo será sempre devidamente destacado, tal como se faz em seguida.
O editor do Infohabitar
António Baptista Coelho
Cidades Extensivas e Economia Ecológica
Joana Mourão
Os territórios que habitamos são o lugar de contacto com a natureza mais directo de que dispomos no quotidiano. Diariamente usufruímos de um conjunto de serviços que a natureza nos presta à escala global mas é no território local que melhor os podemos observar e gerir. Estes serviços são em grande parte gratuitos, o que não nos impede de os apreciar e até valorizar conscientemente, mas impede sim – com graves consequências - que os introduzamos na economia como fazemos com todos os outros serviços que a comunidade presta e partilha. Para além disso, a contaminação que produzimos também não é contabilizada no mercado, e por isso se considera uma “externalidade” que o comércio de emissões de CO2 vem agora tentar “internalizar”.
Entre nós, a grande maioria habita em territórios urbanizados e através das suas infra-estruturas reconhece parcialmente a base vital do nosso modo de vida, seja ele qual for: o ecossistema terrestre – o conjunto de todos os organismos e do meio em que se desenvolvem. A ideia de ecossistema e o entendimento de que a humanidade é uma parte dele e não está desligada dos ciclos biogeoquímicos, tendo um poder crescente para os modificar, são conceitos básicos da ecologia moderna, ciência cuja aplicação tem como objectivo a gestão e conservação dos recursos naturais. O conceito de ecossistema é fundamental para substituir o conceito actual da exploração ilimitada dos recursos e ilustra a pertinência das acções físicas, sociais e políticas para a perpetuação da abundância cíclica de recursos (1) (leia-se: sustentabilidade).

Figura 1 – Componentes do ecossistema urbano - In “Toward a Unified Understanding of Human ecosystems: Integrating Social Science into long-term Ecological research” Ecosystems (2004) 7: 161–171
As infra-estruturas disponibilizam um conjunto de utilidades indispensáveis ao nosso modo de vida, como água canalizada, energia disponível, ou vias de comunicação, para além da habitabilidade e protecção climática oferecida pela edificação. São elas que estruturam os nossos ambientes urbanos e através delas usamos o ecossistema e adaptamos os seus serviços às nossas necessidades (2).
Tudo aquilo de que são feitas as cidades e tudo aquilo que é consumido e emitido durante o seu funcionamento é, directa ou indirectamente, parte da ciclagem de materiais na Biosfera, uma camada fina ao longo do planeta que inclui a hidrosfera e parte da atmosfera e da litosfera, ao longo do qual se desenvolvem todas as formas de vida conhecidas. Os elementos em circulação e contínua recomposição – a diferentes escalas temporais (3) – em conjunto com os processos de interacção entre si - formam o capital natural que dispomos para sempre, e a única coisa que recebemos do exterior é a radiação solar.
Ao longo do século XX tendemos a pensar que a ecologia seria provavelmente uma questão a tratar no campo e no território rural, e que os grandes problemas ecológicos decorreriam – e se resolveriam – em vastas paisagens longínquas. Em parte isso é verdade, porque os serviços ecossistémicos mais intensivos e essenciais são activados pelas paisagens bio-produtivas como as grandes florestas, os mais conhecidos sequestradores de carbono. Contudo, uma vez que a população mundial migrou dos territórios rurais para os territórios urbanos, onde é já maioritária (4), a ecologia é mais do que nunca uma questão das cidades, e é-lo não apenas porque aí se concentram as populações que geram problemas ecológicos novos, mas também porque aí a se decide o que fazer com o potencial ecológico-restabelecedor do campo e como alocá-lo territorialmente.
O estudo das relações entre cidade e sustentabilidade (leia-se: conjunto de acções para a perpetuação da abundância cíclica de recursos) é um campo de investigação que se abre perante o crescente desagrado com a saturação e degradação da qualidade de vida nas cidades, e a aplicação do paradigma da sustentabilidade ao âmbito urbano é um desafio lançado explicitamente por Roberto Camagni no seu livro “Economia Urbana” (5). No entanto, este desafio deve ser lido com clareza: não se trata de “aplicar” a sustentabilidade às cidades como se fosse um “tratamento” já existente para outros âmbitos que agora se experimentasse no âmbito urbano, tido como indubitavelmente insustentável. Na realidade, aplicar o paradigma da sustentabilidade à cidade significa aplicá-lo ao modo produtivo subjacente ao funcionamento das nossas economias actuais das quais as cidades, e os territórios urbanizados em geral, são peças fundamentais, excepcionais e imprescindíveis (6).
O estudo da “cidade sustentável” deverá, assim, basear-se na discussão sobre como as utilidades sociais da cidade podem ser obtidas no quadro de um modelo económico que não implique consumo irreversível de capital natural e que se desenvolva com elevada eficiência exergética (7) (leia-se: para a perpetuação da abundância cíclica de recursos). Ora, a utilidade social exclusiva da cidade consiste em incrementar a acessibilidade a bens, serviços e informação, necessária para o funcionamento do mercado. O mercado gera aglomeração e aí se cria aquilo a que se chama cidade (8), dada a sua complexidade acrescida e efeitos sinérgicos, simbólicos e políticos.
Na cidade tradicional o equilíbrio entre custos e benefícios da mobilidade gerada pela existência de um mercado (9) manteve a aglomeração dentro de certos limites e, embora a cidade tenha crescido à medida que o mercado unia territórios cada vez mais extensos, e se tenha multiplicado quando se exploravam e colonizavam novos territórios, os custos de mobilidade estabeleciam os limite mínimos e máximos de aglomeração fora dos quais a cidade deixaria de ser viável, quer devido à congestão, quer devido à dispersão. Definia-se a partir deste limite evolutivo a fronteira entre o espaço urbano e rural, a par da distinção dos seus valores fundiários (10). Neste contexto pré-industrial a distinção entre solo urbano e rural foi provisoriamente possível.
Figura 2 e 3 – Cidade e Campo: Bairro Kronsberg , Hanôver [autor] e Shibam in La Piramide rovesciatta, Pietro Laureano
Mas de entre os custos implicados no incremento de acessibilidade e mobilidade que a cidade gera, apenas uma parte - correspondente à provisão de infra-estrutura e ao consumo directo de energia - é internalizada nos preços dos produtos. Outra parte é externalizada pelos custos invisíveis do consumo de capital natural em forma de reservas fósseis e pelos custos da contaminação em geral onde se inclui a exaustão dos serviços restabelecimento ecológico prestados pelos ecossistemas. Estes custos invisíveis, no quadro de uma economia ecológica, também deveriam ser restringidos pelo equilíbrio entre os benefícios das economias de aglomeração (externalidades positivas) e os custos da congestão e contaminação (externalidades negativas). No entanto, estes custos extras da aglomeração urbana e do aumento de mobilidade, em parte por se reflectirem sobre bens livres cuja propriedade não é absoluta, como é o caso da contaminação do ar ou a congestão do espaço público, não são internalizados pela “mão invisível” do mercado (11).
Deste modo, se na cidade tradicional tínhamos os custos da mobilidade a balizar os níveis de aglomeração urbana em torno dos mercados, tudo se altera com a possibilidade de custear a mobilidade - tanto de pessoas e bens, como a mobilidade de resíduos, dissipando a congestão e expulsando os contaminantes - através do consumo de dois recursos naturais igualmente preciosos mas em situações distintas: por um lado consome-se um recurso não renovável, para o qual foi estabilizado um preço artificial - os combustíveis fósseis - e por outro lado usa-se um recurso, para o qual até é possível estabelecer um preço (12), mas cujo custo raramente é internalizado - os serviços dos ecossistemas de activação dos fluxos cíclicos naturais necessários para a sobrevivência humana e sua qualidade de vida, incluindo a regulação climática, a protecção de reservas de água, conservação de florestas e de biodiversidade, e a manutenção da fertilidade do solo (13).
Com este abono, apontado pelos economistas ecológicos como uma forma de “descontar o futuro no preço dos produtos” (14) o incremento de mobilidade e o incremento de contaminação reduzem a sua repercussão nos preços e a sua relação com a produção de valor. Os esgotos bombeados e os veículos motorizados são dois passos para a transformação dos limites da aglomeração urbana, dados devido ao mesmo impulso: a industrialização e o acesso ilimitado a combustível. E os ganhos em qualidade de vida são provisoriamente significativos. A partir de então, a cidade pode crescer e multiplicar-se, extravasando a aglomeração em torno do mercado activo e ocupando o território ao longo da infra-estrutura sem que a entropia adicional introduzida na matriz biofísica seja compensada por equivalente aumento da bio-produtividade dos territórios que usufruem do mercado, o princípio gerador da cidade (15).
A cidade torna-se uma máquina de baixa eficiência que exige o constante bombeamento de combustíveis fósseis para o seu interior e de águas residuais para o seu exterior. E com o incremento de mobilidade disparam também os custos invisíveis do funcionamento do modelo produtivo de ciclos abertos (16) e consequente contaminação ambiental, tais como a emissão de gases com efeito de estufa para atmosfera e de matéria orgânica para a hidrosfera com perdas irreversíveis na estabilidade dos ecossistemas e sua nutrição de base (17). A aglomeração perde então os limites que conferiam viabilidade e operatividade à cidade tradicional, e as economias em crescimento vêm os seus sistemas urbanos a densificarem-se nos centros e rarefazerem-se nas pontas, mas sempre crescendo de extensão total e em níveis de território ocupado e impermeabilizado, indisponível para muitos dos serviços ecossistémicos a prestar (18).


Figura 4 e 5 – A circulação de carbono: um dos serviços ecossistémicos na cidade à escala local e global
Se a economia que gera as cidades não estivesse em transição não seria o momento para discutir o papel de práticas relativamente marginais, como o planeamento e a gestão urbanística, na resolução destes problemas ambientais que são sobretudo problemas económicos. Mas estando esta preciosamente num momento de viragem - impulsionado vertiginosamente pelo aumento do custo dos combustíveis - existe o espaço necessário para discutir e introduzir novas regras e novas vias de chegar ao cerne das economias territoriais. A restrição da contaminação é uma delas e deve ser feita também a partir da infra-estruturação do território e da gestão da urbanização, tanto no desenho como na regulamentação do re-desenvolvimento das conurbações que conformam - em conjunto com o espaço rural - o território de que dispomos para habitar e a partir do qual podemos gerir o capital natural que mantém a vida na Terra.
Esperamos que uma consciência crescente dos serviços ecossistémicos locais e globais, implícitos na existência das cidades, bem como o estudo da relação entre estes e as utilidades sociais urbanas, possam contribuir para uma estruturação e desenho do espaço urbanizado mais eficientes no consumo de recursos e de capital natural. É neste âmbito que se enquadra a investigação de doutoramento a decorrer no LNEC, onde se pretende demonstrar que a externalização dos custos ambientais da mobilidade é a principal causa da entropia da cidade, e da extensão e dissolução da fronteira fundiária entre solo urbano e rural, no modelo industrial de ciclos de materiais abertos. A partir da demonstração deste pressuposto pretendem-se discutir-se vias de internalização e restrição dos custos ambientais de sistemas urbanos, através da gestão do território urbanizado e em urbanização, tendo em vista as planear cidades como dispositivos cada vez menos exigentes em consumo irreversível de capital natural, e por isso mais sustentáveis.
Notas:
(1) E.P. ODUM; 2004 [1971] Fundamentos de Ecologia
(2) Ver nota 18
(3) Como se sabe, a combustão de petróleo liberta Carbono para a atmosfera de forma irreversível à escala temporal da vida humana, mas não à escala temporal geológica.
(4) De acordo com as previsões mais recentes das Nações Unidas entre 2007 e 2008 a população rural mundial iria pela primeira vez descer abaixo dos 50%. Pablo GUTMAN 2007 Ecosystem Services and the new rural-urban compact
(5) “Um programa de investigação sobre o desenvolvimento urbano sustentável deve começar por uma explícita reflexão sobre as especificidades da aplicação do paradigma da sustentabilidade ao âmbito urbano, deve propor uma definição que possa constituir a base para sucessivas investigações empíricas e para novos desenvolvimentos teóricos, e deve explorar métodos, estratégias e conteúdos para possíveis políticas urbanas que enfrentem de forma explícita o problema da sustentabilidade do desenvolvimento urbano”. Roberto CAMAGNI; 2005 Economia urbana
(6) Jane JACOBS 1984 Cities and the wealth of Nations. Principles of economic life.
(7) A exergia é um conceito oposto ao de entropia. Ao calcular a diferença da energia química, cinética e térmica entre o estado morto da Terra e o estado actual obtém-se o capital natural. A exergia é a energia necessária para repor esse capital natural desde o estado morto. Antonio VALERO; 1997 - Termo economia: el punto de encuentro de la termodinâmica de la economia y la de ecologia.
(8) Tanto se define a cidade como um conjunto compacto de pessoas e de actividades económicas como por um conjunto de relações que se desenvolvem num espaço físico restringido ou numa polaridade reconhecível, e o elemento aglomeração resulta sempre uma característica fundamental e um princípio genético da cidade. Roberto CAMAGNI; 2005 Economia urbana.
(9) Embora a cidade reduza custos de mobilidade e aumente a acessibilidade entre os consumidores e produtos que se encontram distantes no território, gera também mobilidade cujo custo é compensado pelos benefícios económicos e sociais da aglomeração.
(10) “Si el uso del suelo de esta ciudad ideal, monocéntrica y continua se decide exclusivamente a partir de mecanismos de mercado, cada hectárea se dedicará al sector que más puje por ella. De este modo, la ciudad se distribuirá en coronas concéntricas donde las oficinas ocuparían el espacio central. A continuación, aparecerían las industrias, seguidas de las residencias. El límite geográfico de la ciudad se localizaría a aquella distancia donde la renta pujada por los sectores urbanos se igualase con la renta del suelo agrícola.” Ivan MUÑIZ - El modelo de renta ofertada .
(11) Se os mercados fossem perfeitamente competitivos, a mão invisível de Adam Smith levaria a um consumo mais eficiente de solo, sem dispersão aleatória, no entanto existem razões para duvidar que estes mercados funcionem de forma perfeitamente competitiva, devido a quatro falhas de mercado indiciadas no trabalho de Brueckener e referidas por Muñiz: não existe um mercado para os espaços abertos; os indivíduos que se deslocam em automóvel não contabilizam a sua contribuição marginal para a congestão; os promotores imobiliários não contabilizam correctamente o investimento público em infra-estruturas e serviços; e, as empresas aproveitam-se das economias de aglomeração sem contribuir para a sua geração. Ivan MUÑIZ [et.al]; 2007 SPRAWL. Causas y efectos de la dispersión urbana pp.324.
(12) O valor, em 1997, para a totalidade dos serviços prestados pelos ecossistemas a nível mundial, foi estimado em 30 a 60 triliões de Dólares. COSTANZA, R. in Pablo GUTMAN 2007 Ecosystem Services and the new rural-urban compact.
(13) Ver nota 18.
(14) NAREDO, J. M e VALERO, A. [edit.] 1999 Desarrollo económico e Deterioro Ecológico.
(15) Esta dispersão e explosão não é um problema em si, é-o sim o consumo de capital natural de reversibilidade limitada associado, principalmente o consumo de solo e de reservas fósseis.
(16) Modelo este em que os resíduos e emissões não são reintroduzidos nos ciclos produtivos.
(17) O arrastamento do fósforo para o fundo dos oceanos, acelerado pelo uso da água como motor de difusão dos resíduos orgânicos produzidos nas aglomerações humanas, é irreversível e representa uma perturbação dos serviços prestados pelos ecossistemas e uma ineficiência económica comparável à queima de combustíveis fósseis que, como sobejamente se sabe, é irreversível. Se a matéria orgânica ficar retida a montante aumenta a produtividade agrícola e fecha-se o ciclo natural do Fósforo em que os decompositores o devolvem ao solo. MCHARG; I. 1971 Design with Nature.
(18) Definidos por COSTANZA, R. [et al] 1997 - The value of the world’s ecosystem services and Natural Capital -como os benefícios que as populações humanas extraem directa ou indirectamente das funções dos ecossistemas e classificados em 17 categorias de serviços: regulação gasosa (química atmosférica), regulação climática, regulação hídrica, regulação de perturbações, abastecimento de água, controlo da erosão e retenção sedimentar, formação de solo, ciclagem de nutrientes, tratamento de resíduos, polinização, controlo biológico, refúgio, produção alimentar, matérias-primas, recursos genéticos, recreação, cultura.
Referências editoriais:
Fontes das imagens: as fontes das imagens são referidas, pela autora, nas respectivas legendas.
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte
Preparado para edição no Infohabitar, por António Baptista Coelho, em 28 de Junho de 2008.
Editado no Infohabitar, por José Baptista Coelho, em 29 de Junho de 2008.
- Infohabitar 202
Este constitui o segundo de uma série de artigos sobre jardins urbanos, uma série que se deseja longa, embora, naturalmente, não contínua, na sua sequência editorial.
Importa referir que esta série já estava há muito tempo na mente de muitos daqueles que têm cooperado nesta excelente aventura editorial, que é o Infohabitar, e que se pretende que ela seja partilhada por vários autores e por diversas perspectivas de abordagem à essencial importância dos pequenos e grandes jardins urbanos nas cidades de sempre e, especialmente, nas cidades de hoje.
Salienta-se, ainda, o grande interesse do documento da London Tree Officers Association, que se traduziu e comentou, sintética e informalmente neste artigo, e, desde já, se chama a atenção dos leitores para a consulta do excelente site desta organização, onde será possível ler o documento na sua versão original, assim como consultar outros documentos com muito interesse e oportunidade nestas temáticas.
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OS JARDINS E O HABITAR (II)
– sobre as árvores protagonistas do jardim e da cidade; inclui uma tradução comentada de um documento da London Tree Officers Association, ltoa.org.uk
António Baptista Coelho
Este segundo artigo sobre os jardins urbanos tinha, “obrigatoriamente”, de ser desenvolvido em torno do tema da árvore, da árvore urbana, protagonista, quer no seu papel urbano específico, em que ombreia, praticamente, em sentido específico, com o edificado, em termos de escala e de imagem urbana, quer no seu múltiplo papel ambiental, paisagístico e económico. Mas esta especificação da matéria dos jardins urbanos não significa que, em futuros artigos desta série, este mesmo autor, ou outros autores, aqui no Infohabitar, não volte ao fundamental tema do enquadramento da importância e do papel do jardim urbano de hoje, na cidade de hoje.
Já no primeiro artigo desta série se citou Franco Purini, num texto (Franco Purini, "La Arquitectura Didactica" p. 151) em que este autor refere que "uma casa não é uma casa se um jardim, verdadeiro ou imaginário, não a rodeia ou a penetra. Sempre a casa e a terra: a casa como terra. Na fragilidade da erva esconde-se a mesma lei que assegura a força da viga de madeira. Os mesmos elementos formam o pó e a pedra. O jardim é, então, a paisagem de qualquer casa: paisagem interior, no miolo cerrado dos tecidos urbanos, paisagem verdadeira na vastidão do campo".
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Ora, imagine-se que em vez de “casa” se escreve “cidade”, e então teríamos, uma ideia como esta: uma cidade não é uma verdadeira cidade sem jardins, verdadeiros ou imaginários, que a rodeiam e a penetrem, sempre a cidade habitada também como terra, porque “na fragilidade da erva esconde-se a mesma lei que assegura a força da viga de madeira”, porque “os mesmos elementos formam o pó e a pedra”, e, assim o jardim urbano poderá ser paisagem de qualquer cidade, uma paisagem mais interior, “no miolo cerrado dos tecidos urbanos”, como disse Purini, e/ou “paisagem verdadeira na vastidão do campo", como também ele referiu.
E visualizemos onde toda esta força do jardim urbano tem o seu principal núcleo, o seu principal protagonista, e ninguém terá qualquer dúvida que a resposta é a árvore (urbana), a “floresta” que se tornou urbana, e uma força serena que se sente mesmo, por ausência premeditada, naquelas zonas de jardins sem árvores e naqueles espaços urbanos, quase sem árvores, onde a natureza se resume em pequenas floreiras em janelas e em algumas laranjeiras, que como pequenos oásis, sempre inesperados e sempre bem-vindos.
A árvore é, não só, um verdadeiro jardim vertical e concentrado, o que corresponde a um elemento estratégico no ordenamento das cidades sempre “sem espaço” para aquilo que, realmente, é preciso, um verdadeiro jardim vertical sempre sede de biodiversidade e de amenização ambiental, mas a árvore é sempre, também, um efectivo elemento formal de “desenho” da paisagem urbana, veículo de escala humana e de suavização e de agradável contraponto com a escala e a expressão do edificado.
Mas para se jogar em duas dimensões citadinas tão importantes, como são a ambiental/microclimática e do “bom desenho” da paisagem urbana, é preciso saber-se trabalhar, realmente, com tais dimensões, não são, realmente, “coisas”, para curiosos, e entende-se isto quando vivemos, por exemplo, boas ruas arborizadas e cidades marcadas, humanizadas e ambientalmente suavizadas por excelentes parque urbanos intensa e agradavelmente arborizados, como acontece no excelente exemplo das Caldas da Rainha.
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E não é demais interiorizar a importância que têm e terão essas duas dimensões no actual e futuro movimento das megacidades, movimento este ao qual se terá, urgentemente, de associar um importante movimento de recriação dos ambientes naturais, de forma intensificada e concentrada, pontuando essas mega-malhas urbanas e proporcionando que nelas continuemos a ter um vital contacto com a nossa origem natural.
Hoje em dia, a falta de espaço bem localizado e o custo implicado pela construção e manutenção de um jardim poderá levar ao desenvolvimento de espaços que recuperam características passadas, como é o caso do sentido de encerramento exterior e de profusão de dados sensoriais naturais que tanta falta fazem a pessoas muito desenraizadas da natureza.
Realmente, trata-se de produzir o máximo efeito num espaço limitado e para isso já existem caminhos abertos e exemplos concretos, como é o caso dos jardins desenhados, no Brasil, por Burle Marx, inspirados na pintura e na botânica moderna, desenvolvidos considerando vários pontos de vista, a clarificação de planos simples e linhas sóbrias e a diluição dos limites (aparentando um espaço sem fim, numa zona restrita), sendo os usos definidos para cada reduzida porção de espaço, escultoricamente organizada.
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E em Lisboa, por exemplo, entre outros, infelizmente, poucos casos a referir positivamente, temos o excepcional exemplo dos Jardins da Gulbenkian, na sua perspectiva de oferta de pequenas viagens por bosques variados e densos, para nos dar a saborear o interesse que hoje tem, e que sempre teve, o contacto íntimo com a natureza bem dentro da cidade densa; e neste efeito de “bosque” cerrado e misterioso é, naturalmente, fundamental o papel das árvores e arbustos.
De certa forma é muito importante que as cidades de hoje ofereçam uma espécie de pequenos oásis de reconciliação ambiental, paisagística e formal com a natureza e, designadamente, com a floresta primordial, e nesta oferta os jardins urbanos, caracterizados por expressivas árvores “urbanas” são fundamentais elementos protagonistas.
Faz-se, em seguida, uma ampla citação e uma tradução informal e muito pouco comentada (cada tema é seguido de um breve comentário) sobre a multifacetada e fundamental importância das árvores, em textos retirados de um excelente folheto de divulgação disponibilizado pela London Tree Officers Association, ltoa.org.uk , cujo site vivamente se recomenda e onde é possível fazer o download de outros elementos com grande interesse como é o caso de um utilíssimo método de avaliação das árvores (Capital Asset Value for Amenity Trees, CAVAT), que integra os seguintes tipos de factores: valor básico (unitário e relativo ao tamanho); valor de localização e de usufruto (localização, população utente e acessibilidade); valor funcional; valor ajustado (factores ambientais positivos e negativos); e valor total associado a esperança de vida.
Desde já se sublinha que este Capital Asset Value for Amenity Trees é, realmente, um instrumento de trabalho de enorme valor pois equaciona numa perspectiva integrada de valor económico, social e cultural a presença das árvores, que, tantas vezes, são ainda tratadas, entre nós, como se fossem elementos que surgem instantaneamente num dado local, e como elementos que se tiram e põem com a simplicidade e a eventual leviandade que poderá caracterizar a instalação e a remoção de um painel publicitário ou de um terminal de Multibanco, e, realmente, para além de se tratar de algo vivo e único, é algo com história/tempo, que nunca se poderá, verdadeiramente, reconstituir e que para compensar exigirá, quase sempre, um muito complexo e pesado investimento.
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Quase-citando, assim, o excelente folheto da London Tree Officers Association as árvores têm os seguintes três grandes grupos de vantagens: relativas à saúde e ao de bem-estar; sociais e ambientais; e económicas.
Vantagens das árvores em termos de aspectos de saúde e de bem-estar:
“As árvores reduzem risco de cancro na pele através do sombreamento em relação à radiação ultravioleta”; e hoje em dia esta problemática está bem na ordem do dia e se queremos estimular a circulação pedonal devemos proteger os peões.
“Os níveis de stress e de doença são, frequentemente, mais baixos na presença de árvores, porque estas proporcionam descontracção psicológica e um sentido de bem-estar, suavizando o ambiente urbano”; este é um sentimento que sentimos, frequentemente, nos locais urbanos agradavelmente arborizados e que temos, por vezes, dificuldade em descrever e atenção para o grande interesse deste efeito, por exemplo, em zonas residenciais e onde se pretenda o desenvolvimento do lazer urbano.
“As árvores contribuem para níveis reduzidos de ruído e de poeiras”; ora é conhecida, por um lado, a importância que tem o sossego acústico na satisfação com o uso do espaço urbano e habitacional, assim como é também conhecida a má influência das poeiras no nosso bem-estar e saúde.
“À medida que as árvores se desenvolvem e envelhecem elas proporcionam carácter e sentido de lugar e de permanência, enquanto libertam cheiros e aromas que provocam uma resposta emocional positiva”; temos aqui, fortemente, a matéria de que se faz boa parte dos bons projectos de arquitectura urbana e residencial, portanto, fica evidenciada a importância das árvores numa concepção arquitectónica com um amplo e verdadeiro sentido exigencial.
Vantagens das árvores em termos de influência no clima (“mudança climática) e microclima (clima local):
“As árvores, para além de absorverem dióxido de carbono (o principal gás gerador do efeito de estufa), e de produzirem oxigénio, filtram, absorvem e reduzem os gases poluidores, incluindo o ozono, dióxido de enxofre, monóxido de carbono e dióxido de nitrogénio”; sendo assim, a conclusão que se impõe é que a plantação de novas árvores e o cuidar bem das que existem, globalmente, mas também especialmente nas grandes zonas urbanas, deveria ser uma das principais medidas na batalha pela melhoria ambiental do nosso planeta, até porque se a nossa sociedade é cada vez mais urbana há que reforçar urgentemente um equilíbrio global com mais elementos naturais, como são as árvores, e matizando, muito mais, as próprias zonas urbanas com verde urbano, no qual as árvores têm um papel protagonista.
“As árvores trabalham todo o ano e continuamente para nós, suavizando, localmente, picos extremos de temperaturas – refrescando no Verão e aquecendo no Inverno”; trata-se, então, de um sinal de inteligência e de estratégia o utilizarmos, intensamente, um meio com tão grande capacidade de eficácia ambiental.
“Árvores com copas grandes e de grandes folhas acolhem a chuva, amortecendo a progressão da água entre o céu e o solo, ajudando a reduzir o risco de enxurradas”; trata-se, novamente, de uma vantagem com evidentes e múltiplas consequências positivas em grandes meios urbanos, associando o referido papel de moderação ambiental com um directo papel em termos de melhoria da infraestruturação.
Vantagens das árvores em termos aspectos sociais e ambientais:
“Pontos focais comunitários que incluam árvores proporcionam amenidade, valia estética e continuidade histórica”; as palavras falam por si, e todos sabemos que falam verdade, só que por vezes até parece que a história pouco vale nas nossas paisagens citadinas e rurais.
“As árvores proporcionam, nas suas zonas de integração, um apreciável acréscimo de amenidades às famílias e às comunidades”; sempre assim foi, a floresta sempre foi geradora de variados meios e sempre o homem se fixou nas suas margens, gozando-a como riqueza intrínseca e como riqueza de paisagem.
“As árvores marcam a mudança das estações do ano com alterações nas folhas e mudanças na floração”; e é fundamental que o ciclo das estações seja sentido por todos e especialmente pelos urbanitas, que por vezes tão longe estão dos ciclos naturais, e o próprio passar do tempo é também fundamental como percepção individual e social, e além de tudo isto há o espectáculo sensorial das estações e do tempo ameno ou das intempéries que tão directamente é sentido na companhia das árvores.
“As árvores oferecem habitats para um amplo leque de espécies de vida bravia – pequenas e grandes – ao longo de todo o ano”; cada árvore, para além de ser uma pequena “fábrica” química positiva, produtora de oxigénio, como acima se lembrou, é também um pequeno mundo que alberga um amplo leque de elementos da flora e da fauna, as árvores são, assim, elementos fundamentais no apoio à biodiversidade, com uma utilidade que alia aspectos intrínsecos de manutenção das espécies, com aspectos igualmente importantes de espectáculo biológico oferecido aos urbanitas.
Vantagens das árvores em termos de aspectos económicos:
“A presença de árvores pode fazer aumentar o valor de propriedades residenciais e comerciais entre 5% e 18%, enquanto o valor do terreno não infraestruturado, que integre árvores adultas, pode aumentar até cerca de 27%”; são números que fazem pensar, e talvez que nestes números esteja, espera-se, o princípio do fim de tantos crimes contra tantas velhas e excelentes árvores, e vale a pena pensarmos que estes números apenas concretizam aspectos de verdadeira valia paisagística local.
“Quando as árvores são plantadas estrategicamente podem reduzir emissões de combustível fóssil, através da redução dos custos de combustível para aquecimento e arrefecimento dos edifícios”; sem comentários, mas é provavelmente uma das medidas ambientais mais fácil de implementar, desde que o seja com eficácia técnica ampla, pois também há sempre o risco de só se ver uma parte da verdade e começarmos a plantar árvores sem as enquadrar num adequado equilíbrio ambiental e paisagístico, que está ligado a cada região, a cada local e a cada microclima.
“As árvores proporcionam a criação de emprego nos mais variados ramos de actividade (ex., jardinagem)”; trata-se de uma constatação evidente, mas podemos juntar que na jardinagem, por exemplo, é possível conciliar meios humanos muito qualificados com outros menos qualificados o que é também um excelente recurso social em termos de emprego e de ocupação.
“As árvores proporcionam uma fonte sustentada de “composto”, feito de folhas, assim como biocombustível produzido de aparas de madeira”; é também uma afirmação que não precisa de comentários, mas tal como vãos as coisas, até parece muito racional que nenhuma via de racionalidade energética e de poupança de recursos deva ser esquecida, e esta é uma via que tem também uma importante visibilidade local em termos didácticos e de boas-práticas.
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Para concluir regista-se que não é, com certeza, por acaso, que algumas das maiores cidades do mundo, como Tóquio e Nova Iorque, se têm privilegiado a plantação e o cuidado no tratamento das grandes árvores urbanas, com um enfoque especial nas Ginkgo biloba, consideradas das mais velhas árvores que existem, daquelas que podem atingir maior longevidade e parece que daquelas que melhor se adaptam ao meio urbano poluído e melhor podem contribuir para a sua melhoria ambiental. Não é, com certeza, caso único, e nesta matéria é naturalmente fundamental estarmos com as “nossas” árvores, aquelas mais adaptadas aos nossos climas e microclimas e aquelas que, tradicionalmente, têm contribuído para a caracterização das nossas cidades, vilas e aldeias, mas é, sem dúvida, muito importante e urgente o desenvolvimento, aprofundamento e/ou divulgação de estudos desse género sobre as nossas árvores urbanas, assim como terminar, de vez, com o desrespeito para com a árvore, que ainda caracteriza muitas situações correntes na nossa sociedade.
E já há, felizmente, alguns bons sinais nestas matérias, aqui bem ilustrados com o muito recente transplante de algumas grandes árvores, na sequência das obras, em desenvolvimento, para a construção da nova estação de Metro da Encarnação, em Lisboa, de que se juntam, em seguida, duas imagens.
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Editado por José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação – Olivais Norte
22 de Junho de 2008