segunda-feira, novembro 11, 2013

460 - Escadas comuns e elevadores residenciais - Infohabitar 460



Infohabitar, Ano IX, n.º 460


Artigo XL da Série habitar e viver melhor


Escadas comuns e elevadores residenciais


António Baptista Coelho


Aprofundando-se o percurso comentado por uma adequada programação do edifício habitacional e visando-se, por regra, a solução multifamiliar mais, ou menos, "coletiva" abordam-se, sinteticamente, neste artigo, (i) as escadas comuns, (ii)  e os elevadores habitacionais.


Não se pretende, de forma alguma, esgotar a abordagem destes elementos constituintes de um habitar em comum, mas sim contribuir para uma discussão renovada sobre matérias que, infelizmente, parecem ser, por vezes, pouco alteráveis e previamente definidas, como se as tipologias mais correntes fossem uma espécie de fatalidade.

 

Escadas comuns


Todos sabemos que as escadas podem ser elementos extremamente atraentes numa solução residencial, seja em termos de uso, seja na sua visibilidade exterior e interior. E esta afirmação é verdadeira, seja para edifícios baixos, seja no caso de edifícios com altura elevada; e o mesmo se aplica a determinadas soluções de integração em que as escadas se integram com os elevadores.

Mas, voltando à escada, todos conhecemos casos de soluções cheias de luz se converteram em verdadeiros jardins verticais – é verdade, levantando problemas de acessibilidade, mas havendo mais espaço talvez tais problemas já não se levantassem; e também conhecemos casos em que mesmo quase sem luz os habitantes tentaram converter a escada comum de um edifício residencial em algo mais do que "um instrumento funcional para vencer desníveis", condição à qual, frequentee infelizmente, se reduzem as escadas comuns.

E há um outro aspecto, além da luz natural, que pode caracterizar uma excelente escada comum, que é a sequência de vistas que é possível da escada.

Mas além de espaço de jardim vertical e de percurso de vistas sobre a envolvente, a escada pode ainda conter, nos seus patins, pequenos espaços de acolhimento do convívio informal; pode não ser frequente, pode não ter resultados muito garantidos, mas sem haver condições adequadas e estimulantes de apropriações como estas, de certeza que nada acontecerá, mas se elas existirem pode ser que aí se passe alguma coisa.

Para se reforçar estas considerações lembra-se um estudo de Ekambi-Schmidt  (1), que salienta, num conjunto de oito qualificações espontâneas, dadas por moradores, relativamente às escadas comuns habitacionais, as três primeiras seguintes qualificações, em ordem decrescente de importância: escada ampla, grande e espaçosa; escada clara e iluminada; escada não excessivamente inclinada.

O que acima se destacou na caraterização da escada comum residencial são as suas condições de desafogo espacial, luz natural e conforto no uso. E, afinal, o que se defende é que a escada habitacional seja plenamente recuperada como espaço ativo e nesta perspectiva lembra-se que Alexander considera que a escada deve ser qualificada como etapa, pois ela não é apenas um simples elemento funcional de comunicação vertical, mas também um verdadeiro espaço que integra o edifício residencial, e se não se lhe proporcionar que nela surja vida "será um espaço morto que fará deslizar entre si os diversos pisos do edifício". (2)



E, tal como aponta Charles Moore, e bem sabemos, pela experiência de ver e usar excelentes escadas, elas "têm conotações básicas de coreografia e de cerimónia, tanto quando as usamos, como quando as observamos ou observamos desde elas”, e Moore aponta mesmo que na concepção das as escadas é possível a escolha “entre um movimento vertical amplo e atraente ou tecido na substância dos compartimentos, ou, até, oculto para ser quase secreto..." (3)



Fig. 01: as excelentes escadas comuns do edifício habitacional em Olivais Norte - Lisboa, projeto dos arquitetos Artur Pires Martins e Palma de Melo (1959)


Naturalmente que há aspetos funcionais vitais a considerar e que nas escadas comuns assumem especial importância, entre os quais se destacam, designadamente, os seguintes - numa listagem não exaustiva, sublinha-se:

·         os posicionamentos e dimensionamentos adequados em termos de apoio à acessibilidade e à evacuação de emergência no âmbito da segurança contra risco de incêndio;

·         a adequada proteção relativamente ao risco de incêndio, possibilitando-se a proteção relativamente ao incêndio e a ausência de fumos durante o tempo necessário à evacuação do edifício;

·         a distribuição de patins, a boa geometria dos degraus e a sua adequada pormenorização em termos de "espelho" e "cobertor" adequadamente dimensionados, proporcionando excelente conforto no uso;

·         degraus e patins com superfícies não derrapantes ou mesmo anti-derrapantes;

·         corrimãos com continuidade ao longo de todo o percurso e a alturas convenientes para todos os tipos de utentes;

·         grande cuidado com a proximidade e a posição em relação a vãos exteriores;

·         e condições adequadas de visibilidade de modo a proporcionar o uso em agradáveis condições de segurança contra eventuais problemas de segurança relativamente a terceiros.



Fig. 02: as excelentes escadas comuns do edifício habitacional em Olivais Norte - Lisboa, projeto dos arquitetos Artur Pires Martins e Palma de Melo (1959)



E há que salientar que uma escada com degraus e lanços verdadeiramente confortáveis e bem cheia de luz natural é um verdadeiro convite para o uso do edifício e certos autores e projetistas, como Hertzberger, avançam ainda mais neste convite e alargam patins intermédios transformando-os em pequenos e apetecíveis espaços de convívio informal.

E conclui-se esta reflexão, de certa forma preliminar; sobre as escadas comuns referindo que a sua evidente importância funcional não pode de forma alguma fazer esbater a sua vital importância formal e no que se refere à múltipla apropriação e à identidades das soluções.

Elevadores


Se o elevador é necessário ou recomendável parece ser de boa prática que a sua instalação se caraterize por um conjunto de critérios que visem a sua transformação em espaços atraentes e estimulantes e não claustrofóbicos e formalmente muito pouco integrados na intervenção.

Quando são regulamentarmente exigidos ou quando são considerados como desejáveis em termos de melhoria de condições de conforto parece ser possível um trabalho de escolha dos elevadores a instalar que respeite alguns aspectos de que se destacam os seguintes:

·       Levar em conta a demora no acesso ao exterior, que depende da velocidade, número e caraterísticas do automatismo dos elevadores, bem como da sua proximidade aos fogos, em cada nível do edifício. (4)

·      Adequação maximizada entre tipo de condomínio social servido, tipos de elevadores aplicados e cuidados de manutenção regular e de emergência; certos casos deverão exigir elevadores com excecionais características de resistência ao vandalismo e de visibilidade relativamente aos seus patins de acesso (devido a aspectos de visibilidade de segurança).

·      Considerar que um pouco mais de espaço por pessoa, no interior do elevador, será um investimento que se reflecte, diretamente, em melhores condições de satisfação no uso, fazendo muito pouco sentido, até por razões de segurança e bem-estar, certas situações de verdadeira acumulação humana num espaço fechado muito limitado; afinal, se usamos o elevador diariamente, várias vezes, não será que este equipamento não deve ser mais exigente em termos de conforto real e de uma aparência mais cuidada e associada à restante Arquitectura, não surgindo como uma espécie de elemento mecânico mínimo e descaraterizado ou, por vezes, totalmente desintegrado do respectivo conjunto de espaços e acabamentos?

·      Considerar que o átrio dos elevadores não tem de ser, obrigatoriamente, um espaço fechado, sem luz natural, sem plantas e sem vistas exteriores. Afinal, quando entramos em casa, ou quando saímos de casa, seria natural e muito agradável que pudéssemos dar uma olhadela sobre o exterior, isto enquanto esperamos pelo elevador, e, assim, teríamos algum prazer suplementar no uso dessa máquina, que, funcionalmente, não tem de estar relegada para o miolo do edifício; sabe-se que é uma questão de escolher o que se aplica longe da fachada, mas não será que há alguns equívocos sobre a importância que tem, para um habitar mais agradável, a possibilidade de se ter uma relação com o exterior mais efectiva e frequente? E, neste caso, uma relação que pode antecipar, agradavelmente, o contacto com o exterior que iremos ter no átrio de entrada.



Fig. 03: a excelente integração dos elevadores em um dos edifícios em Olivais Norte - Lisboa, projeto dos arquitetos Artur Pires Martins e Palma de Melo (1959)



Finalmente, aflora-se, aqui, apenas um pouco, a questão da previsão de elevadores, no sentido de julgar que não fará muito sentido a tendência atual de uma previsão quase generalizada destas instalações. Nesta perspectiva afirma-se que um edifício de pouca altura poderá ser muito bem servido, em termos de conforto, por uma escada com boa luz natural e com degraus construídos com uma boa relação entre o respectivo “cobertor” e “espelho”; uma relação dimensional/funcional e ergonómica que - está provado - proporcionará excelentes condições de acessibiliodade a muitas pessoas, incluindo idosos.

Vale a pena sublinhar, aqui, que uma escada bem desenhada – e basta ir ao “velho” Neufert para tirar a fórmula (5) – é um meio de subir desníveis mais adequado do que uma rampa, porque o movimento do corpo se harmoniza melhor com a subida do degrau do que com a subida do mesmo desnível em rampa.

Naturalmente que se pensa, aqui, em edifícios baixos e onde, eventualmente, possa ser previsto um elevador como recurso possível de ser usado em condições de mobilidade reduzidas; e uma outra opção é mesmo a previsão de espaço para a futura instalação de um elevador – situação esta que não se recomenda porque, posteriormente, será muito difícil conseguir um consenso financeiro entre os condóminos que suporte uma tal decisão. No entanto não devemos deixar de ter em conta o “obstáculo” que uma escada constitui em termos de acessibilidade no uso corrente e, especificamente, para pessoas condicionadas na sua mobilidade, sendo interessante ter presente a equivalência que Alexander fez: entre subir um piso e percorrer 30m ao mesmo níve; e entre subir dois pisos e percorrer 90m ao mesmo nível. (6) Mas sialienta-se que se defende também a existência de edifícios multifamiliares baixos, servidos apenas por escadas muito agradáveis.

O que se visou e visará, aqui, nesta série de artigos, é uma defesa do elevador e da escada como elementos muito positivos e protagonistas de uma solução residencial que verdadeiramente nos agrade. Basta de soluções, que parecem de recurso, onde os elevadores são mínimos e dão para átrios doentiamente interiorizados e mal pormenorizados – muito seguros, parece, mas ambientale visualmente muito negativos (parecem entradas de serviço) – e onde as escadas estão escondidas, mal pormenorizadas e remetidas a uma função de reserva em termos de uma acessibilidade de recurso ou de emergência. Afinal, nada disto faz, realmente, sentido numa solução residencial que faça “viver” elevadores e escadas comuns como elementos adequadamente protagonistas da solução residencial geral onde se integram; escadas e elevedores comuns não podem ser elementos negativos que contribuem para o encerramento dos vizinhos nas suas células habitacionais individuais, antes pelo contrário devem ser elementos que apoiem no convívio natural entre quem vive próximo e por isso merecem adequado e pormenorizado projeto.



Notas:

(1) Ekambi-Schmidt, "La Percepción del Habitat".

(2) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 567 e 568.

(3) Charles Moore; Gerald Allen; Donlyn Lyndon, "La Casa: Forma y Diseño", p. 108.

(4) P. Jephcott, "Homes in High Flats", p. 134.

(5) Neufert refere algumas características fundamentais para o desenho dos degraus das escadas (Ernest Neufert, "Arte de Projetar em Arquitetura", pp. 120, 121 e 123): os degraus mais cómodos têm 0.17m de espelho por 0.29m de cobertor (dois espelhos mais um cobertor=0.63m, que corresponde ao comprimento do passo normal, permitindo-nos subir os degraus "dois a dois" quando estamos apressados); cada centímetro de aumento da altura do espelho deve implicar a diminuição da profundidade do cobertor em dois centímetros.

(6)  Considera-se que uma escada entre dois pisos equivale a cerca de 30.00m de distância num percurso ao mesmo nível, passando este valor para uma dimensão estimada de cerca de 90.00m, quando a equivalência se faz com duas escadas vencendo dois pisos de desnível - Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", p. 372.



Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.



Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano IX, nº460
Artigo XL da Série habitar e viver melhor

Escadas comuns e elevadores residenciais

Grupo Habitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional

e  Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do LNEC

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, novembro 04, 2013

459 - Dos átrios comuns habitacionais aos outros espaços de condomínio - Infohabitar 459



A Infohabitar inicia com esta edição uma nova fase de publicação, com uma nova imagem editorial que esperamos agrade aos nossos leitores e que integra novas funcionalidades, entre as quais a possibilidade de leitura em telemóveis e tablets.

Com as melhores saudações,

A edição da Infohabitar

Infohabitar, Ano IX, n.º 459


Artigo XXXIX da Série habitar e viver melhor


Dos átrios comuns habitacionais aos outros espaços de condomínio

António Baptista Coelho

Aprofundando-se o percurso comentado por uma adequada programação do edifício habitacional e visando-se, por regra, a solução multifamiliar mais, ou menos, "coletiva" abordam-se, sinteticamente, neste artigo, (i) os átrios e outros espaços comuns conviviais ou específicos e, depois, (ii) as salas e outros espaços ao serviço dos respetivos habitantes/condóminos e seus eventuais convidados.


Átrios e outros espaços comuns conviviais ou específicos


Muito do que se referiu, em outros artigos da presente série, para as entradas comuns se aplica a estes átrios e outros espaços comuns conviviais, espaços que existirão, eventualmente, na sequência das entradas e considerando as intenções que, eventualmente existam, de criação de um ambiente colectivo que fomente as relações de convívio entre os residentes.

Estes espaços comuns conviviais poderão também ser desenvolvidos de forma autonomizada das entradas comuns, mas, neste caso, a sua localização, relativamente aos principais acessos comuns e, muito especialmente, os seus conteúdos funcionais terão de ser suficientemente apelativos para dinamizarem o seu uso (ex., sala ampla para festas alargadas, com equipamento adequado e com excelente vista paisagística).

É importante que se sublinhe, aqui, que tais espaços devem ter uma forte justificação por servirem de acesso às habitações, podendo, até, resumir a sua utilidade a esta função principal, ainda que apoiando, simultaneamente, o convívio informal e ocasional e a instalação de alguns elementos de equipamento e apropriação destes espaços, tais como, por exemplo, a ocupação com plantas em floreiras e vasos, uma ocupação que é corrente em qualquer espaço comum de escadas e patins, mas que, ao encontrar espaços mais amplos, pode assumir uma presença muito forte e positiva de “jardim interior”.

Tal como se pode concluir do que acabou de ser referido, para que os átrios e outros espaços comuns tenham um bom potencial de uso e de ocupação com plantas e alguns equipamentos é fundamental a existência de adequadas condições de luz e ventilação naturais.

Numa perspectiva mais "radical" é, até, possível defender que tais espaços comuns só podem existir quando se verifiquem tais condições que fundamentem a espetiva sustentabilidade, pois, de outro modo, esses espaços têm muito reduzida justificação, podendo mesmo contribuir, negativamente, para a insegurança e outros problemas no interior do edifício.

Podemos facilmente imaginar, aqui, três tipos distintos de espaços com as características associáveis a espaços e conjuntos espaciais habitacionais comuns e conviviais:

(i) aqueles que constituem, essencialmente, alargamentos de espaços de circulação comum;

(ii) os que integram as circulações comuns, mas têm outros tipos de usos, habitualmente, ligados à estadia e ao convívio informal;

(iii) e, finalmente, aqueles espaços que poderão estar, relativamente, autonomizados das principais circulações e que se podem destinar a um razoavelmente amplo leque de actividades, com destaque para o lazer (ex., ginásio, sala de estar e de convívio multifuncional, sala de jogos, sala de “cinema  em casa”, terraço de convívio com churrasqueira, etc.), mas podendo também agregar, em localizações estratégicas, atividades profissionais exercidas perto de casa, mas não em casa (ex., espaços oficinais, pequenos escritórios, etc.). E esta última matéria/tipologia espacial e funcional é duplamente relevante em termos da sua presença nos espaços comuns e da sua importância funcional complementar aos espaços privados e domésticos, devendo, por isso, merecer desenvolvimentos específicos em outros artigos desta série.



Fig 01: o interior comum/coletivo de um edifício da Cooperativa Caselcoop em Caselas, Lisboa, projetado pelo Arq.º Justino de Morais (na foto).



A ideia que parece poder ficar, a título de conclusão parcial, é que só vale a pena investir em espaços que tenham, à partida, um máximo de perspetivas de poderem vir a ser usados, de outro modo além da despesa inicial infrutífera, criam-se espaços que irão ser zonas sem uso, menos seguras e que irão obrigar a inúteis despesas de manutenção.

E, a partir, destas ideias talvez que a melhor solução, quando se deseje realizar algo mais do que o conteúdo habitacional, seja avançar em espaços multifuncionais, que possam albergar diversas utilidades e que possam vir a ser, até, afetados a actividades estranhas ao condomínio, se as referidas intenções iniciais, de realização de outras actividades fora das habitações, se revelarem difíceis de pôr em prática.

E, quem sabe, talvez seja possível a instalação de algum equipamento que sirva a vizinhança, mas também, e em grande proximidade, o conjunto das habitações do condomínio; mas, para tal, há que prever todo um conjunto de adequadas condições de autonomia e de viabilidade de funcionamento, sempre numa vizinhança positiva e sem quaisquer riscos de conflito com a essencial calma residencial nas habitações integradas no edifício; e esta é matéria vital em toda este potencial de misturas funcionais: o uso residencial deve ser, sempre, estimulado e nunca prejudicado, ainda que pontualmente, por estas atividades "extra-residenciais" - por exemplo, ao nível, de acesso de estranhos, ruído excessivo, e redução do sentido de conforto, abrigo e apropriação da habitação de cada um.

Todo este amplo potencial de atividades extra-residenciais, liga-se, naturalmente aos três aspetos em seguida apontados:

(i) à dimensão social (nº de habitantes) do respetivo condomínio e mesmo à respetiva caraterização social pormenorizada (etária, cultural, etc.);~

(ii) e/ou à intensidade com que o condomínio se integra na continuidade urbana da vizinhança próxima e da própria cidade que se segue; ou, alternativamente, ao grau de isolamento urbano local que carataeriza a intervenção;

(iii) e/ou à caraterização do próprio conjunto edificado no sentido de se assumir, em alternativa, mais como um conjunto de habitações bem autonomizadas, servidas por algumas infraestruturas comuns, ou como um conjunto de células habitacionais individualizadas (pessoas sós e casais) razoavelmente autonomizadas, mas expressiva e formenete servidas por um amplomleque de infraestruturas comuns espaciais e de serviços.

E podemos comentar que se trata aqui de matéria ligada ao reinventar de novas tipologias residenciais e urbanas.

Mas de qualquer forma importa registar que mesmo a corrente “sala de condomínio” pode e deve ser tratada de uma forma que lhe confira um máximo de condições de atractividade e diversidade de usos, pois de outroo modo mais vale considerá-la de modo basicamente residual.

Em tudo isto importa não esquecer que muitos estudos destacam a importância dos espaços comuns na socialização dos vizinhos. Por exemplo, num estudo realizado, há alguns anos, sobre o Bairro de Telheiras, cerca de um quarto das respostas consideraram os espaços comuns do edifício como locais de maior frequência de contacto com os vizinhos. (1)

Mas há que sublinhar que até a regulamentação - ainda que marcada pelos melhores objetivos - tem contribuído, indirectamente, para a gradual anulação do uso de todos os espaços comuns que não aqueles usados em ligação com os elevadores, obrigando-se a um uso comum de espaços exíguos, o que não favorece, em nada, o potencial de convivialidade do edifício; mais uma matéria que importa repensar e aprofundar.

E faltará talvez falar um pouco mais dos “outros” átrios, daqueles que nos marcam, quando neles entramos, e que por vezes até são pequenos e "simples" de desenvolver, sendo essencial sublinhar que o vestíbulo doméstico deve ser um espaço de algumas funcionalidades e de um máximo de identidade(s), plasmadas de uma forma muito sensível e onde o sentido do conjunto, do comum, exista, mas se harmonize e de certa forma se subalternize relativamente ao sentido da identidade de cada habitação e, indiretamente, de cada habitante; e isto ainda que tal condição deva ser assegurada ainda razoavelmente longe da porta de entrada de cada célula/mundo doméstico; e não nos esquecendo, ainda suplementarmente, que o átrio comum tem também de ser um limiar entre vizinhança e mundo doméstico, um limiar que nos introduza à vizinhança e que apoie na privatização da nossa "casa" (e uma "casa" que é frequentemente um apartamento afastado do chão, mais uma matéria a desenvolver posteriormente).

 

Fig. 02: o interior comum/coletivo de um edifício em Hamburgo, Aufbruch in Hamm-Sud, Arq.º Czerner und Czerner, 2000.


Salas e espaços de condomínio


Aproveitando-se as conclusões de um estudo realizado, há alguns anos, (editado pela Livraria do LNEC - Informação Técnica Arquitectura n.º 2), apontam-se, em seguida, as condições que são desejáveis nos compartimentos comuns do condomínio (salas de condóminos):

·      Posicionamento estratégico no edifício, por exemplo no piso térreo, aproveitando espaços com reduzidas condições de privacidade para usos habitacionais e bem relacionados com o átrio principal de recepção. A sala de condóminos deve cumprir exigências muito rígidas quanto a condições de natural acessibilidade e comunicabilidade em relação ao principal átrio de entrada no edifício, caso contrário arrisca-se a ter uma utilidade muito duvidosa.

·      Adequação, na configuração e no dimensionamento, ao número provável de utentes.

·      Multifuncionalidade

·      Adequados equipamentos e instalações de apoio (ex., pequenas instalações sanitárias para homens e senhoras, bancada de preparação ou simples apoio e aquecimento de refeições, e arrumação espaçosa para mobiliário escamoteável).

·      Adequadas condições de funcionalidade e conforto para os fins visados, nomeadamente, pela instalação, de raiz, de mobiliário construído (ex., bancos corridos em alvenaria).

·      Fazer sentir aos utentes o interesse que há na frequente utilização do "solo" exterior/logradouro comum ou dos espaços públicos ou semi-públicos contíguos.

·      Ter utilidades diárias reais (ex., frequentar pequeno bar com recantos de estar, ver TV panorâmica, jogar bilhar e ténis de mesa, acompanhar crianças que brincam em espaço exterior contíguo ou muito próximo enquanto se lê um livro ou o jornal, estar em grande recanto com lareira, sauna, “squash”, sala de ginástica, etc.).

·      Ter utilidades periódicas e eventuais (ex., uso para festas familiares ou alargadas a ser requisitado/marcado por qualquer um dos condóminos).

A sala de condóminos pode caracterizar-se por: instalações sanitárias adequadas, mobiliário comum, TV panorâmica recebendo canais de satélite, recantos e zonas para jogos difíceis de ter em casa (exemplo: ténis de mesa e bilhar ou snooker), recantos para jogos de mesa, zona de lareira, zona de aquecimento e apoio a refeições, mesas e cadeiras guardadas para servirem em ocasiões festivas, etc.


A questão do dimensionamento e eventual inexistência de sala de condóminos tem a ver com a situação de esta sala ser mais adequada/viável quando número de fogos agregado no mesmo edifício, ou conjunto de edifícios, é significativo - entre 20 a 30 -, de modo a que a participação de cada fogo para a sala de condóminos, em termos da respectiva fracção de área bruta, seja diminuta, por exemplo cerca de 1.50m² por fogo; o que resultará numa área de cerca de 30 a 45m², muito mais eficiente para os fins em vista do que um conjunto menos numeroso de fogos (exemplo: 12 fogos = 18m²).

Segundo Patricia Tutt e David Adler, o dimensionamento de uma sala de condóminos tem a ver com os seguintes aspectos: (2)

·      Quando se deseje uma verdadeira sala de condóminos, incluindo diversos espaços de convívio e estar, a referência a usar poderá ser de cerca de 1m²/habitante; o que dará para um edifício com 20 fogos, e uma média de 3.5 pessoas/fogo, uma área total com cerca de 70m², que parece ser equilibrada para os usos pretendidos.

·      Quando se deseje uma sala de condóminos essencialmente para as reuniões periódicas da Assembleia Geral do condomínio, poderá usar-se um dimensionamento base de 20m², ao qual se juntará um suplemento de área calculado na base de 0.20m²/habitante, acima de um grupo-base de 25 pessoas; o que dará para a mesma base de cálculo (edifício com 20 fogos, e uma média de 3.5 pessoas/fogo), uma área total com cerca de 20m²+0.20m²x45p = 29.00m².


Nota final: em próximos artigos desta série iremos seguir a "estrutura" dos espaços comuns habitacionais, designadamente, através das suas escada comuns, elevadores/ascensores e patins comuns de acesso às habitações privadas.


Notas:

(1) NEUT, ISCTE, "Usos e Apropriação do Alojamento em Telheiras: Relatório Final", p. 119.

(2) Patricia Tutt; David Adler (Ed.), "New Metric Handbook", pp. 312 e 315.



Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.

 

INFOHABITAR Ano IX, nº459
Artigo XXXIX da Série habitar e viver melhor

Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
Dos átrios comuns habitacionais aos outros espaços de condomínio

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