segunda-feira, fevereiro 01, 2016




(tal como o Arquitecto Nuno Teotónio Pereira seria o primeiro a defender continuamos, em seguida, a sequência editorial da Infohabitar)

567 - Renovada abordagem das casas de banho domésticas - I, Infohabitar 567

Infohabitar, Ano XII, n.º 567

Série editorial: Habitar e Viver Melhor

Artigo LXXXV
António Baptista Coelho

Renovada abordagem das casas de banho domésticas - I

Quando falamos de “casas de banho”, falamos dos espaços que incluem mais instalações de águas e esgotos embebidas na construção, mas faz muito pouco sentido, numa habitação que se deseja possa ser geradora de verdadeira satisfação, fazerem-se “instalações sanitárias”, ostensivamente marcadas pela funcionalidade, pela frieza ambiental e pela “objectividade” das respectiva “peças sanitárias”, tal peças de catálogo em tamanho real.

Numa habitação que se deseja possa ser geradora de verdadeira satisfação há que fazer “casas de banho” ou “quartos de banho” ou “salas de banho”, com tudo o que funcional, ambiental e pormenorizadamente implica este tipo de objectivo, designadamente, em condições de conforto ambiental (por exemplo luz e ventilação naturais), em escolha de acabamentos e de elementos sanitários caracterizados por uma afirmada domesticidade (por exemplo revestimentos e tintas com texturas agradáveis e tons de cor quentes), elementos estes em que a função do banho seja claramente destacada e valorizada, e pela existência de espaços minimamente mobiláveis e apropriáveis (por exemplo pequenos móveis de madeira e vasos com plantas); desta forma teremos a percepção que nestes “quartos de banho” continuamos bem “em casa” em casa nossa, por nós habitada e marcada, e não numa espécie de espaço “marciano”, frio e duro.

E já aqui referimos a ideia de ter havido, há cerca de um século, a necessidade de higienizar estes tipos de espaços, agregando a função do banho, uma função nobre, que sempre aconteceu em casa, às novas funções domésticas sanitárias, que antes aconteciam essencialmente no exterior ou no interior em condições de recurso (por exemplo com vasos de noite); e nesta fusão funcional, que foi depois, marcada pelo nascente funcionalismo, ficou a perder a referida nobre função do banho e da higiene pessoal, sacrificadas ao objectivo único da higiene, da facilidade de limpeza e da impermeabilização; e depois, depois, veio a especulação imobiliária defender que as “instalações sanitárias” poderiam ser interiores e mínimas, marcadas pela largura da banheira, e servidas pela famosa “ventilação forçada”, e lá se perderam as janelas e se transformaram estes espaços numa espécie de despensas sanitárias úteis, entre outros usos, para “câmaras escuras” fotográficas.

Mas hoje em dia é altura de voltar a colocar estas matérias de acordo com a sua verdadeira importância doméstica, aproveitando as tantas inovações tecnológicas para simplificar o que é simplificável e devolver o carácter doméstico, atraente e acolhedor aos “quartos de banho”; e até é possível associar tal caracterização com aspectos de maior eficácia funcional, por exemplo, em soluções com muita arrumação em "lambril" saliente, que também serve para a passagem da canalização, que assim fica mais acessível para posteriores intervenções.

Em termos gerais fazer casas de banho que contribuam para um habitar mais feliz tem a ver com dois aspectos distintos.

Um primeiro aspecto refere-se ao funcionamento eficaz e optimizado das diversas instalações de águas e esgotos, de ventilação e de impermeabilização que asseguram a uma casa de banho o seu adequado funcionamento e com uma máxima redução de eventuais incómodos e más influências na restante habitação; esta matéria é realmente do âmbito funcional e tem de ser garantida “a 100%” e hoje em dia os avanços tecnológicos podem garantir esta condição; e associa-se a este aspecto funcional um fundamental bom senso na localização doméstica de instalações e espaços sanitários, bom sendo este que por vezes é bem necessário em situações marcadas por grandes casas de banho privativas, enquanto os restantes habitantes têm de usar casas de banho espacialmente mínimas e pouco equipadas.

Um segundo aspecto refere-se ao fazer das casas de banho verdadeiros e atraentes espaços domésticos, através de boas condições de desafogo espacial, agradáveis condições de luza natural e calorosas condições de acabamento (por exemplo tipos de revestimentos e paleta de cores), de equipamento fixo (exemplo, com imagem geral e pormenores associados a um espaço habitado, apropriado e humanizado) e de margem para algum mobiliário capaz de marcar e apropriar, claramente aquele espaço.

E aqui há que sublinhar que uma casa de banho não tem de ser, quase com sentido de obrigatoriedade, um espaço “frio”, impessoal e “lavável”, funcionando quase como um “alien” em termos da arquitectura de interiores de uma dada habitação, e lembremos a altura em que surgiram as casas de banho interiores, quando elas ainda tinham espaço e luz natural e elementos sanitários bem marcados pelas suas funções originárias, do lavar as mãos e a cara e do banho, e tenhamos presente as quase gerais actuais situações sanitárias domésticas marcadas pelos espaços mínimos, por uma interioridade tantas vezes depressiva e por uma maquinal associação dos elementos sanitários à própria construção, numa associação quase sempre sem qualquer graça e sem qualquer humanidade.

Um outro aspecto que importa considerar quando reflectimos sobre os melhores tipos de casas de banho domésticas, refere-se à possibilidade de elas serem espaçosas e desafogadas desde que os seus revestimentos não tenham de ser obrigatoriamente em azulejos e mosaicos, soluções estas que são sempre relativamente dispendiosas; poderá haver, portanto, aqui também uma margem de opções por mais espaço com soluções de revestimento mais baratas e julga-se que, por exemplo, a indústria de tintas, é já capaz de oferecer excelentes soluções para estes casos e com eventuais ganhos no tal sentido mais doméstico caracterizando as casas de banho.

Haverá, assim, mais opções a serem feitas, opções estas que terão de levar em conta a intensidade de uso e a diversidade de usos esperados nas casas de banho.
Relativamente a este assunto refere-se o caso de habitações sociais actualmente com quase 50 anos e ainda com uma solução de tinta tipo Kerapas aplicada em cozinhas e casas de banho e em excelentes condições funcionais e de aspecto. 

(Fig. 01) Uma casa de banho não tem de ser, nem deve ser, um espaço "escuro", triste e mal pormenorizado; e esta opção nada tem a ver com questões de custo. Interior de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H39, Arquitetura: Ralph Erskine.

Associações interessantes com casas de banho domésticas

As casas de banho devem ser estrategicamente acessíveis em toda a habitação, mas não sendo directamente visíveis do “hall” de entrada, nem dos diversos espaços funcionais da sala-comum e da cozinha.

No caso de haver uma única casa de banho esta deve servir, privilegiadamente o(s) quarto(s), sendo de admitir, até, a sua integração como privativa do quarto, no caso de existir apenas um quarto; solução esta que não deixa de ser um pouco de recurso e, assim, associada, essencialmente, a soluções de habitação com áreas reduzidas e com orçamentos controlados. Mas fica aqui a ideia-chave que em pequenas habitações é fundamental que a casa de banho sirva, privilegiadamente, a zona de dormir.

A questão da opção por casas de banho privativas está, essencialmente, ligada ao orçamento disponível, pois, no limite, teremos, sempre, a solução de um “tipo funcional” designável por “hotel residencial”, na qual cada membro do agregado familiar dispõe de uma “suite” muito completa, onde pode desenvolver boa parte da sua vida doméstica com uma privacidade e autonomia maximizadas, e nesta família de soluções domésticas, naturalmente, cada quarto deverá ter uma casa de banho completa, espaçosa e muito agradável.

Mas como essa será, realmente, uma solução-limite poderemos ter um enorme leque de soluções desse tipos mas menos desenvolvidas e, por exemplo, Neufert ilustra-nos (1) diversos modos de conciliação do serviço privativo de uma casa de banho relativamente a um quarto de casal, com o serviço comum desta mesma casa de banho em relação a outros quartos da habitação.

Uma outra associação funcional/ambiental perfeitamente adequada e com interessante potencial próprio e nas suas influências em outros espaços da habitação refere-se ao apoio a diversas actividades de lavandaria doméstica integradas em casas de banho. Uma solução que será agradável desde que a casa de banho tenha luz e ventilação naturais e que exige, naturalmente, uma espaciosidade própria e suplementar àquela ligada aos usos próprios da casa de banho, salientando-se o interesse que uma tal espaciosidade poderá ter na disponibilização de melhores condições de acessibilidade e movimentação na casa de banho, pois as actividades de tratamento de roupa são periódicas e pouco críticas relativamente ao uso corrente da casa de banho, e salientando-se, também, o interesse que uma tal possibilidade sempre terá numa caracterização mais humana e mais apropriada da casa de banho, designadamente, por introdução de elementos de elementos de arrumação e mobiliário específicos ligados ao tratamento e à arrumação de roupas.

Finalmente, sublinha-se o interesse que uma tal solução terá na positiva discriminação de máquinas eventualmente ruidosas relativamente a outros espaços da casa, como a cozinha, que poderão assumir, como se apontou atrás, perfis funcionais mais amplos e ligados ao estar e ao convívio domésticos.

E é sempre fundamental que as casas de banho tenham reservas espaciais, pelo menos, mínimas utilizáveis como espaços de integração de pequenos elementos de mobiliário que poderão ser de grande utilidade seja para arrumações diversas e muito úteis nesses espaços, seja para o apoio à própria utilização diversificada desses espaços e por pessoas com dificuldades de movimentação; e nem é difícil ter em conta esta reserva espacial, pelo menos, mínima. (2)

(Fig. 02) Uma casa de banho não tem de ser, nem deve ser, um espaço "escuro", triste e mal pormenorizado; e esta opção nada tem a ver com questões de custo. Interior de habitação do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - H25 – 26, Arquitetura: Gorän Mansson e Marianne Dahlbäck.

Hábitos interessantes na conceção de casas de banho domésticas

Continuando nas temáticas associadas às casas de banho salienta-se o elevado potencial de transformação, decoração, e de alteração de equipamento e de mobiliário que sempre esteve associado às casas de banho, embora, frequentemente, em condições de espaciosidade extremamente reduzidas e que muito dificultam e reduzem essas transformações e apropriações. Há nestes compartimentos, frequentemente, um forte investimento no respectivo arranjo visual e em mudanças de equipamentos, o que poderia ser considerado e apoiado, por exemplo, através de uma maior facilidade na ligação de novos equipamentos e mesmo de conjuntos de novos equipamentos, condição esta que seria muito facilitada pela disponibilização das canalizações à vista ou sua “arrumação” em “armários” facilmente visitáveis.

Ligados a esta matéria do gradual e habitual enriquecimento das casas de banho em mobiliário e equipamento, sempre que tal é dimensionalmente possível, devemos chamar a atenção para a actual redescoberta de “o banho” como hábito doméstico polifacetado e muito positivo, com facetas de interesse ligadas à saúde - o conceito novo/velho conceito da saúde pela água (SPA) é o exemplo evidente desta redescoberta -, assim como outras facetas ligadas ao próprio prazer do banho (em cabinas com cabeças de duche múltiplas e em grandes banheiras com "hidromassagem") e á sua componente de acto de estadia associável a um razoavelmente amplo leque de outras actividades domésticas; e afinal todas estas facetas provavelmente tão importantes para uma vida doméstica mais estimulante e agradável do que a bem conhecida e “funcional” faceta da higiene pessoal.

Julga-se ser esta uma matéria muito importante seja pelas razoáveis exigências dimensionais que uma tal redobrada importância do banho acarreta para as casas de banho “correntes”, seja pelas claras exigências ambientais também associadas a “o banho” – muito mais agradável numa casa de banho com luz natural e plantas, do que num cubículo mínimo e claustrofóbico –, seja potencial influência “re”-estruturadora que “o banho”, agora assumido como elemento de grande importância doméstica, pode implicar em novas associações funcionais e ambientais domésticas, por exemplo, associado de forma “nobre” a um quarto ou até a uma zona de estar com características muito específicas.

Naturalmente que tudo isto, assim como outros temas de organização e caracterização doméstica aqui estudados, nos pode levar bastante longe, e há que definir alguns limites de abordagem, pelo que ao que acabou de se apontar apenas se acrescenta que para se poderem acolher estes tipos de   desenvolvimento há que atribuir à casa de banho uma nova importância, há que ter a liberdade de poder considerar espaço de banho e espaço sanitário (que integra o WC) com alguma ou com total independência ( e aqui é interessante lembrarmos uma solução preconizada pelo Regulamento Geral de Edificações Urbanas - RGEU - e que tinha o espaço de banho autonomizado), e há que acabar, de vez, com a “mania” de que as casas de banho têm a sua dimensão marcada pela dimensão minimizada do comprimento de uma pequena banheira – atenção não se preconiza acabar com tais soluções mínimas, naturalmente, mas usá-las como mínimas e apenas quando se pretende um espaço mínimo, e nunca como uma espécie de “regra” tantas vezes associada à outra “regra”, sem sentido, da casa de banho ser interior e com “ventilação forçada”.

Notas
([1])      Ernest Neufert, "Arte de Projetar em Arquitetura", p. 184.
(2) Como indica Sven Thiberg ("Housing Research and Design in Sweden", p. 180), a maioria das casas de banho não têm um espaço de arrumações bem organizado, e um simples recanto com cerca de 0.60x0.60m de área permite a instalação de um armário alto com variadas e úteis utilizações (ex., toalhas, papel, artigos de higiene e beleza, roupa suja, etc.); caso não se use para este fim, o referido espaço permite a instalação de uma cadeira, sempre útil no apoio aos banhos e a outros usos da casa de banho.


Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:

As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.

Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.

A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.

Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XII, n.º 567
Artigo LXXXV da Série habitar e viver melhor
Infohabitar n.º 567

Verdadeiras casas de banho e não simples e frias “instalações sanitárias” - I


Editor: António Baptista Coelho – abc@ubi.pt, abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional, Mestrado Integrado em Arquitectura da Universidade da Beira Interior - MIAUBI
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

domingo, janeiro 24, 2016

Em memória viva de Nuno Teotónio Pereira

Em memória viva de Nuno Teotónio Pereira

Na morte de um amigo e de alguém que marcou a sociedade e a arquitetura portuguesas a vontade que há é, em primeiro lugar, a de um silêncio benéfico e de sentida homenagem, aliado aos sentimentos dirigidos à família enlutada e aos amigos diretos.
Nuno Teotónio foi e é um grande homem, que marcou, marca e marcará a sociedade e a arquitetura portuguesas; e na nossa memória e na nossa vida diária ele está e estará vivo, em obras, textos e numa presença que nunca passará.
Uma vida cheia, uma vida que julgo ter sido plena e feliz, uma vida de serviço, de criação e de gosto pela própria vida, sempre olhando em frente e sempre considerando a sua e nossa Arquitetura como algo tão sentido e próprio, como partilhado, comum e útil para todos e para a cultura.
E talvez que a forma como o Nuno Teotónio pensou e marcou tudo isto, com perfeita naturalidade e familiaridade, “entre amigos”, ou entre pessoas naturalmente movidas por intenções positivas e evidentemente solidárias, seja um dos seus legados: considerando a Arquitetura e a Arquitetura do habitat humano como algo muito próximo de todos nós habitantes, algo extremamente natural, sensível, “descomplicado” e “simples”, mas marcado por uma riqueza tão grande e sentida, que só quem sente tudo isto bem perto e naturalmente pode ir entendendo a paixão que estes temas nos despertam.
Esta atitude do Nuno, como me obrigou a tratá-lo depois de alguns poucos encontros, parece-me ser a base de muito do que fez, sempre em companhia, sempre em diálogo, sempre olhando um outro dia que se queria melhor e que ajudou a fazer melhor.
Obrigado Nuno e por tudo bem hajas!
António Baptista Coelho
Depois deste pequeno texto, e ainda num registo muito pessoal, gostaria de lembrar aqui, em primeiro lugar, uma outra grande e saudosa amiga comum, minha e do Nuno, a Arquitecta Isabel Plácido, alguém que sempre esteve com o Nuno Teotónio, desde sempre!
E lembro outro amigo comum, o Arquitecto Hélder Oliveira, atual colega professor na Arquitetura da Universidade da Beira Interior, na Covilhã, pois sei que ele partilha comigo estas sentidas palavras e muitas outras que só ele poderá dizer.  
Quero, ainda, e de modo informal, em nome do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), uma “escola” que integrei e que continua a ser uma “minha casa”, honrar a memória bem viva do Nuno Teotónio e voltar a agradecer-lhe a cedência ao LNEC, em 2009, da sua coleção documental sobre habitação e urbanismo, uma coleção única, que está disponibilizada numa sala que integra a biblioteca do LNEC e devidamente integrada na respetiva base documental.

(Coleção documental sobre habitação e urbanismo de Nuno Teotónio Pereira, no LNEC, em Lisboa)


Finalmente e numa homenagem natural ao Nuno Teotónio, por parte da sua Infohabitar, revista que honrou por variadas vezes com artigos e textos, é reeditado, em seguida, um dos seus artigos; e entre as várias possibilidades sobressaiu um texto por ele escrito e editado no nº 216 da Infohabitar, intitulado “Que fazer com estes 50 anos?” – referido ao problema da habitação e ao I Congresso Nacional de Arquitectura (realizado em 1948), um texto editado pela Ordem dos Arquitectos, na louvável iniciativa de comemorar os 60 anos do 1º Congresso, e que aborda, entre outras matérias, temas tão interessantes e atuais como: “O contexto mundial: construir um mundo novo”; e “tornar efectivo para todos o direito à Arquitectura.” 
O Editor da Infohabitar


(Nuno Teotónio com Vasco Folha, Raúl Hestnes Ferreira e Teixeira Trigo numa ação do GH no INH, Lisboa)

Fiquemos, então, com as palavras de Nuno Teotónio Pereira:

QUE FAZER COM ESTES 50 ANOS?

Falar do Congresso de 48 é voltar atrás meio século e evocar o tempo em que não havia mais do que 150 arquitectos em Portugal — quase todos concentrados em Lisboa e Porto — e que acorreram com entusiasmo à magna reunião, ficando a conhecer-se todos uns aos outros. O contraste com a realidade de hoje, quando caminhamos para os 10 mil, estamos espalhados pelo País, e cada um de nós não conhece mais do que um por cento do corpo profissional, não deixa de ser impressionante.

Mas o mundo também já é bem outro, dominado pelas realidades virtuais e a caminho acelerado da globalização. Nas notas que se seguem procurar-se-á dar uma ideia do que foi esse tempo distante e arriscar-se-ão algumas pistas no sentido de buscar, perante situações e contextos tão diferentes, uma linha de continuidade nos rumos da profissão.

O contexto mundial: construir um mundo novo

Nas cidades devastadas por arrasadores bombardeamentos aéreos, os governos e os povos empenhavam-se arduamente na reconstrução. Mas, tanto ou mais que a reconstrução material, todo o clima que se vivia clamava por uma reconstrução social e moral que apagasse os ódios passados, com base na solidariedade e na fraternidade. Da rica América, através do Plano Marshall, chegavam biliões para os ciclópicos trabalhos de reconstrução, não distinguindo vencedores e vencidos. Em S. Francisco era fundada a ONU, destinada a acabar com as guerras no mundo. E até antes, em 1942, ainda no auge dos combates, o governo de coligação inglês publicava o Plano Beveridge, da autoria de um conceituado economista liberal (!), o qual viria a ser o modelo do Estado-Providência nas democracias ocidentais, assegurando a todos o direito à educação, à saúde e à segurança social. Ao mesmo tempo a reconstrução das cidades arrasadas era integrada num quadro abrangente de dinamização económico-social, inspirado tanto no New-Deal rooseveltiano, de que o paradigma era a Tenessee Valley Anthority, como nos planos quinquenais soviéticos.

Foi neste contexto que os arquitectos foram naturalmente chamados a um papel de primeiro plano. E estavam bem preparados para isso, com a doutrina messiânica da Carta de Atenas e as propostas redentoras de Le Corbusier, fazendo apelo a um “Espírito Novo”. O Movimento Moderno conhecia a sua grande oportunidade histórica: era preciso rejeitar tudo o que se considerava caduco, convencional ou simplesmente académico.

Enquanto o Estado Novo procurava sobreviver, os arquitectos organizavam-se em torno dos novos ideais.
Com a derrota do nazi-fascismo em 1945, as ditaduras ibéricas viram-se seriamente ameaçadas — interna e externamente — e Salazar foi obrigado a operações de cosmética com a adopção, meramente formal, de alguns figurinos democráticos. Fortes movimentos de contestação, como as greves operárias de 1944 e o Movimento de Unidade Democrática, lutavam pelos direitos dos trabalhadores e por eleições livres e sérias, a ponto de o ditador ter pela primeira vez admitido, nas eleições para deputados em 1945, a participação da oposição e o abrandamento temporário da censura à imprensa.
No campo profissional, as revistas de arquitectura europeias, que tornavam a publicar-se após um longo interregno, eram lidas com avidez e o livro “Brazil Buils”, editado em 1943 pelo Museu de Arte Moderna de Nova York, mostrava a realidade pujante de uma arquitectura moderna fora do espaço centro-europeu. Enquanto a revista “Técnica” do IST publicava a tradução do articulado principal da Carta de Atenas, era constituída em Lisboa uma associação de arquitectos designada “Iniciativas Culturais Arte e Técnica, ICAT”, liderada por Keil Amaral. Quase ao mesmo tempo, um grupo de arquitectos do Porto criava a “ODAM, Organização dos Arquitectos Modernos”.

Fortemente politizados, pugnando pela Arquitectura Moderna, os dois grupos iriam juntar esforços para dar cabo do chamado “português suave”, a arquitectura dita nacional que a ditadura de Salazar, a exemplo de outros regimes totalitários, utilizava como instrumento de inculcação ideológica para fortalecer o seu poder. Uma arquitectura marcadamente cenográfica que, por ter sido desejada, programada, promovida e, quando necessário, imposta pelo regime, merece bem a designação de “arquitectura do Estado Novo” — porque as outras, desde o Modernismo dos anos 30 até ao Moderno dos 50 e 60, desenvolveram-se livremente, perante a indiferença e sem interferências do poder, ao longo do quase meio século que durou a ditadura.

Em 1947 o ICAT compra a decadente revista “Arquitectura”, fazendo dela porta-voz para a divulgação das ideias e das realizações do Movimento Moderno. E pouco depois, já nas vésperas do Congresso, Keil Amaral é eleito Presidente do Sindicato, cargo de que só viria a tomar posse após a sua realização, mercê da demora na homologação governamental. Esta homologação, obrigatória para todos os cargos associativos de qualquer natureza — pois vivia-se em ditadura — acabou por ser concedida, mas foi retirada mais tarde, demitindo Keil Amaral do cargo para que fôra eleito pelos seus colegas.


O Congresso foi palco do combate pela Arquitectura Moderna, o qual se inscrevia na luta mais geral contra a ditadura.

Iam assim já longe os tempos em que os arquitectos se sentiam agradecidos ao governo pelo facto de o regime lhes ter dado, pela mão de Duarte Pacheco e das suas Obras Públicas, oportunidades de trabalho inusitadas, ao mesmo tempo que o reconhecimento da importância social da sua profissão. Isto mesmo não se esqueceu de lembrar o então ministro José Frederico Ulrich (que sucedera a Pacheco após a morte deste em 1943) na sessão de encerramento do Congresso: “a classe dos arquitectos ainda deve mais a este período de ressurgimento nacional do que a classe dos engenheiros”. E até era verdade. Mas tudo tinha mudado.

Efectivamente, tinham passado escassos oito anos após a grandiosa exposição de 1940, mas um enorme cataclismo mundial tinha virado uma página da História. E se os tempos eram assim bem outros, os arquitectos portugueses também, impulsionados por uma nova geração plena de convicções e de combatividade.

Duas circunstâncias decisivas estiveram na base do terramoto que o Congresso 48 provocou ao nível da profissão: por um lado, a garantia dada pelo governo ao presidente do Congresso Cottinelli Telmo, de que as comunicações não seriam censuradas; por outro, o facto de se ter admitido a participação plena de estudantes finalistas, então chamados tirocinantes.

Foi assim, num país onde existia um apertadíssimo contrôlo de tudo o que era publicado, que a liberdade de expressar ideias que iam contra a retórica oficial foi aproveitada ao máximo, nos dois temas propostos para discussão: “A Arquitectura no plano nacional” e “O problema português da Habitação”.

Promovidos pelo governo a propósito da exposição “Quinze Anos de Obras Públicas”, destinada a glorificar o regime, os dois Congressos de Engenharia e de Arquitectura conheceram desenvolvimentos bem diferentes. Enquanto o primeiro decorreu bemcomportadamente sem surpresas, o de Arquitectura transformou-se num clamor de contestação que surpreendeu o poder. A vaga foi irresistível: a velha-guarda modernista que se tinha tão docilmente rendido ao “portuguesismo” apenas dez anos antes, na onda dos fascismos que assolaram a Europa, via-se de repente obrigada a alinhar com as posições de vanguarda que se impunham em todo o mundo (com a muito escondida então excepção da União Soviética) com reflexos nos ambientes de trabalho e de ensino — administração pública, gabinetes de arquitectura e escolas — em que os Mestres eram contestados por jovens diplomados e estudantes.

Assim, no Congresso, a construção em altura e a Carta de Atenas foram erigidas como modelos a adoptar, mas não só: falou-se também de reajustamento social (pois seria temerário falar em revolução), em habitação proletária, em unidades de vizinhança, num Novo Humanismo e nas catedrais dos Tempos Modernos, citando Le Corbusier.

E rejeitou-se “a imposição, ou sequer a sugestão, de qualquer subordinação a estilos arquitectónicos”, proclamando-se que “o portuguesismo da obra de arquitectura não pode continuar a impôr-se através de imitação de elementos do Passado”.

Neste quadro, em que foram apresentadas mas rejeitadas conclusões mais moderadas ao tema “A Arquitectura no Plano Nacional”, até os arquitectos mais ligados ao regime fizeram a sua auto-crítica, como Cottinelli, reconhecendo que “temos lançado cá para fora frutos raquíticos e dessorados de uma conciliação impossível entre juízes sem idoneidade e o nosso desejo anemizado pela transigência connosco próprios e com os outros.” Ou, como Jorge Segurado, que desenterrou uma expressão arcaica para justificar a aceitação da solução vertical na habitação colectiva sem renegar o seu portuguesismo: o “aposentamento”, como alternativa ao internacionalista “apartamento”.

Foi assim que os arquitectos reunidos em Congresso trocaram as voltas ao Poder e reconquistaram a sua liberdade de expressão. Obrigado a envergar uma máscara democrática, o Estado Novo de Oliveira Salazar desembaraçava-se do que considerava secundário para a sua sobrevivência, conservando porém ciosamente o essencial: a censura à imprensa, a polícia política, as restrições ao direito de associação, as eleições fraudulentas. E, entre o secundário, encontrava-se o contrôlo da expressão arquitectónica, cujas normas apertadas começaram a ser suavizadas.

Com o impulso do Congresso e os novos ventos que sopravam no mundo, os arquitectos portugueses forjaram uma consciência profissional que inspirou a prática associativa e a sua própria intervenção cívica e cultural ao longo dos anos que se seguiram. Durante este meio século, primeiro o Sindicato corporativo imposto em 1933 e a seguir a AAP, criada após o 25 de Abril, enquadraram todo o processo de expansão da actividade profissional e de afirmação plena dos arquitectos na sociedade portuguesa que se verificou durante este período.

Um desafio a assumir: tornar efectivo para todos o direito à Arquitectura, mandando os amadores fazer outra coisa, apurando o desempenho profissional e dando trabalho a todos os arquitectos

Todos estaremos de acordo em que as comemorações do passado só ganham sentido se ajudarem a melhorar o presente e a construir o futuro. Caso contrário só servem para alimentar saudosismos estéreis. Agora que a AAP passou a Ordem, com competências acrescidas, agora que já somos tantos e em breve seremos muitos mais, agora que já há arquitectos em todo o território e nos quadros superiores da Administração e das empresas, agora que a Arquitectur
a portuguesa é enaltecida pela crítica internacional, o que é que faz falta?

Se olharmos para o interior da profissão é uma evidência que muitos arquitectos têm dificuldade em arranjar trabalho ou são obrigados a desempenhar tarefas fóra do quadro profissional; e que estas dificuldades vão acentuar-se com a proliferação desmesurada de cursos de Arquitectura a que se vem assistindo. E se olharmos para a produção do espaço edificado entre nós, não só persiste uma elevada percentagem de projectos feitos por curiosos ou técnicos não qualificados, como até alguns dos que levam porventura a assinatura de arquitecto não ultrapassam uma triste mediocridade: a qualidade continua a ser uma excepção e o nível da produção corrente é claramente insatisfatório — o que significa que o direito à (boa) Arquitectura não está ao alcance de todos. Colmatar este défice — eis aqui um desafio bem digno de ser assumido pela profissão nesta celebração dos 50 anos do Congresso de 48, em prol do interesse público e da qualidade de vida dos portugueses. E este desiderato, que implica obrigatoriamente, sem porém nesta se esgotar, a revogação do tristemente célebre 73/73, poderá fazer com que tantos jovens arquitectos à procura de trabalho possam encontrar oportunidade de se devotarem à profissão que com tanto entusiasmo escolheram, constituindo um estímulo para o aperfeiçoamento da prática de todos nós.
Nuno Teotónio Pereira
24.8.98


Apenas no sentido de participar na continuidade da divulgação da riquíssima obra social, arquitetónica e escrita de Nuno Teotónio Pereira, registam-se, em seguida diversos artigos editados, por ele ou sobre ele, na Infohabitar:



INTERVENÇÃO DE ARTES PLÁSTICAS numa obra de Nuno Teotónio Pereira e António Pinto de Freitas - Maria Tavares (Infohabitar, Ano V, n.º 265, Setembro 27, 2009, 11 págs., 18 figs.).
O problema da habitação e o I Congresso Nacional de Arquitectura, Nuno Teotónio Pereira, et al, com organização de António Baptista Coelho (n.º 216, 6 Out. 2008, 16 págs..).
Nuno Teotónio, Correia Fernandes e a 19.ª Sessão Técnica do Grupo Habitar em Junho de 2010, entre outras matérias, no n.º 300 - I do Infohabitar António Baptista Coelho, Defensor de Castro e Maria Tavares (n.º 300 -I, 30 Mai. 10, 12 págs., 8 figs.).
Reabilitação do parque habitacional público: O papel das cooperativas - crónica de Nuno Teotónio Pereira (n.º 150, 26 Jul. 07).
Um dia por Lisboa – Fazer e não fazer - Texto de Nuno Teotónio Pereira (n.º 146, 28 Jun. 07, 7 p., 3fig.).
Baixa-Chiado. Um plano ambicioso, uma equipa competente, um processo enclausurado – Nuno Teotónio Pereira (n.º 109, 20 Out., 4p., 4 fig.).
Nos 60 anos do 1.º Congresso Nacional de Arquitectura , textos de, e organizados por, Nuno Teotónio Pereira (n.º 206, 20 Jul. 2008, 9 págs., 7 fig.).

segunda-feira, janeiro 18, 2016

566 - A renovada importância das zonas de refeições domésticas – Infohabitar n.º 566


Infohabitar, Ano XII, n.º 566

A renovada importância das zonas de refeições domésticas – Infohabitar n.º 566

Artigo LXXXIV da Série habitar e viver melhor
António Baptista Coelho

Depois de um significativo intervalo editorial retomamos, em seguida, a Série editorial sobre "habitar e viver melhor" (o último artigo da série foi o n.º 543), na qual temos acompanhado uma sequência espacial desde a vizinhança de proximidade urbana e habitacional até ao edifício multifamiliar.
Estamos agora a abordar, com algum detalhe, os espaços que constituem os nossos “pequenos” mundos domésticos e privativos, refletindo sobre as diversas facetas que os qualificam; e passamos, agora, a uma reflexão sobre a importância das zonas de refeições domésticas, considerando matérias diversas que lhes estão associadas.

A renovada importância das zonas de refeições domésticas

Numa civilização urbana marcada pela falta de tempo e de convívio, tudo o que se faça para privilegiar o encontro familiar é muito positivo; e como todos temos a noção que as refeições estimulam o encontro e o convívio, então não deve haver quaisquer dúvidas sobre o interesse de se privilegiarem condições domésticas estimulantes para a prática de refeições familiares potencialmente alargadas e conviviais, importando pouco se tais condições são possíveis na sala-comum, na cozinha ou, eventualmente, num espaço específico próximo da cozinha; importa, sim, que em cada habitação sejas bem aparentes condições específicas de integração de um desafogado espaço de refeições e não que se consiga, apenas, uma tal integração, em condições espaciais, funcionais e ambientais exíguas.

Refeições domésticas: associações interessantes

As refeições especiais realizam-se num espaço específico ou numa zona da sala-comum, mas também podem ser desenvolvidas numa grande cozinha familiar, numa sala de família e, até, numa grande varanda protegida, ou numa zona específica de um pátio ou quintal privado.
A “tradicional” exigência de proximidade entre este espaço de refeições e a zona de preparação de refeições, poderá ser compensada por uma posição muito agradável do espaço de refeições, por exemplo junto a uma grande janela. Já a exigência associada à ausência de ruídos e cheiros incómodos deverá manter-se o mais possível.
Nesta perspectiva Claude Lamure considera que a proximidade entre zonas de refeições e de preparação é secundarizada devido às seguintes razões (1): necessidade de um quadro formal representativo para certas refeições e funções festivas/comemorativas; necessidade de separação, pelo menos visual, entre as funções de recepção e de preparação de refeições; e necessidade de uma protecção sensorial (vistas, ruídos, cheiros e vapores) relativamente às zonas de preparação de refeições e de depósito de louça e apetrechos sujos.
No caso de uma forte integração entre a principal zona de refeições e o espaço de preparação, haverá que cuidar com grande atenção dos aspectos de ventilação e de redução de ruídos.

Fig. 01: Zona de refeições informais das Habitações H21 – 24 da Exposição BO01 (ver notas abaixo); Arq.ºs Mario Campi, Arne Jönsson e Jan Telving. A informalidade das refeições e a sua funcional proximidade às diversas zonas da cozinha pode ser "equilibrada" por um aspeto muito digno e formalmente depurado (ou, por exemplo, afirmadamente rústico) da mesa/cadeiras de refeições.

Refeições domésticas: hábitos interessantes

Claude Lamure sublinha que ver televisão, durante as refeições, é uma situação real e frequente, de tal forma que é devidamente assinalada pela definição dos "horários nobres" da programação, precisamente durante as horas das refeições, e nomeadamente à hora do jantar. (2)
Embora não se aprecie a actual estratégia e qualidade televisiva, que provavelmente se manterá por muitos anos, considera-se que numa habitação com dimensões correntes será aceitável considerar a relação entre televisão e espaço de refeições …

Refeições domésticas: aspectos motivadores

O ambiente da zona de jantar deve ser aprazível e cómodo, produzindo um sentimento de união, sem nada a ver com um carácter de "comer rápido" para depois ir descansar para outro lado, deve, assim, caracterizar-se, segundo Alexander, por (3): mesa centrada, ampla e forte; luz sobre a mesa; recinto de instalação relativamente fechado por paredes ou diferentes tonalidades de sombras contrastantes; suficiente espaço para se poder puxar a cadeira para trás e ficar à vontade a conversar; bancadas/aparadores e prateleiras envolventes proporcionando objectos ao alcance da mão, enquanto se está à mesa, uso de tons de cor escuros e confortáveis, especialmente de noite; assentos cómodos instalados na proximidade da mesa.
Ainda nesta perspectiva de identificação de aspectos motivadores do uso, até multifuncional, do principal espaço e da respectiva mesa de refeições sublinha-se a importância de se poder ter uma grande proximidade a um amplo vão sobre o exterior, o que permitirá tomar refeições com abundante luz natural e alguma vista; aponta-se esta ideia porque há, frequentemente, dúvidas entre que zona da sala-comum deve ser mais beneficiada pela luz natural, numa opção que poderá assim conciliar mais luz na zona de refeições e menos no espaço de estar, onde se situará, frequentemente a televisão, o que parece ser uma condição adequada para a ausência de reflexos no respectivo monitor.

Refeições domésticas: problemas correntes

Os problemas correntes em zonas de refeições têm a ver, frequentemente, com a falta de espaço próprio e na sua envolvente, obrigando a condições pouco motivadoras, quer do convívio à mesa, quer do respectivo serviço, que, nas actuais condições de ausência de pessoal de serviço doméstico, deve ser facilitado e agilizado ao máximo; e este é um problema que tem de ser resolvido na própria concepção do espaço doméstico, aproveitando-se, eventualmente, a contiguidade com espaços de circulação para se desafogar a envolvente da mesa. Tal como referi há alguns anos, num trabalho do LNEC, tem de se garantir grande funcionalidade nas actividades de pôr e levantar a mesa e de servir as várias pessoas à mesa, devendo ser possível aceder a boa parte da mesa com as pessoas sentadas e ser razoavelmente cómodo o sentar e o levantar-se da mesa nessas condições, e há que proporcionar um espaço de refeições adequado às potenciais necessidades da família com uma folga de ocupação – espaço à mesa e número de cadeiras para os habitantes da casa (considerando o número de quartos) mais alguns convidados.
Fig. 02: Zona de refeições formais/informais das Habitações H21 – 24 da Exposição BO01 (ver notas abaixo); Arq.ºs Mario Campi, Arne Jönsson e Jan Telving. Uma zona de refeições muito cuidada pode constituir como que um elemento de transição formal/informal entre uma bancada de cozinha e a zona de estar (na imagem em primeiro plano).

Refeições domésticas: questões levantadas (dimensionais e outras)

Numa habitação mínima as questões levantadas pela principal zona de refeições domésticas têm a ver com a sua eventual, mas provável, exiguidade para um grupo convivial alargado; uma questão que poderá ter uma solução razoável concentrando-se espaço para uma mesa razoavelmente espaçosa, alternativamente, na sala-comum ou na cozinha – por exemplo a cozinha poderá ser tornada mais ampla de forma a aceitar uma mesa de refeições corrente, enquanto na sala-comum poderá ser arrumada, estrategicamente, num canto, uma mesa de abas fechada, que em situações festivas será aberta, centrada na sala, após uma re-arrumação provisória dos restantes elementos de mobiliário. Fig
As questões levantadas, numa habitação corrente, são, essencialmente, de natureza dimensional e “ambiental”, e geradas pela situação de poder existir uma mesa ampla, apenas periodicamente usada, por exemplo, ao jantar e no final da semana. Situação que não parece ser negativa desde que a mesa esteja estrategicamente situada de modo a permitir que nela se desenrolem outras variadas actividades domésticas. Numa habitação corrente pode colocar-se a questão do posicionamento único ou múltiplo da(s) zona(s) de refeições domésticas, uma questão que se resolve na ideia de que uma mesa é sempre um pólo potencial de convívio e um local de múltiplas actividades e, portanto, nunca está a mais – por exemplo na cozinha uma pequena mesa central será útil para refeições rápidas e também oferece um plano de trabalho suplementar para a preparação de refeições e o apoio diversificado às refeições.

Refeições domésticas: novidades, dúvidas e tendências (ex., trabalho em casa; idosos, etc.)

Claude Lamure (4) estudou as vantagens e desvantagens de diversos tipos de posicionamentos, únicos ou múltiplos, das zonas de refeições domésticas e concluiu que as disposições mais interessantes articulam cozinha e zona de estar em torno de um espaço de refeições bem aberto tanto sobre a sala, como sobre a cozinha; e aponta que a distinção entre diversos tipos de refeições poderá realizar-se, simplesmente, pelo cuidado posto no seu arranjo e desenvolvimento (ex., toalhas e louças especiais), pelo uso específico de elementos de “cenário” e encerramento (ex., cortinas, portas de correr) e/ou pela variada disposição e extensão da mesa (chegada mais à parede e à cozinha ou mais centrada e integrada com a sala).

Notas
(1) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 201.
(2) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 200.
(3) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", pp. 741 e 742.
(4) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", p. 202.


Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:

As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.

Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.

A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.

Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XI, n.º 566
Artigo LXXXIV da Série habitar e viver melhor

A renovada importância das zonas de refeições domésticas - Infohabitar n.º 566

Editor: António Baptista Coelho – abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, janeiro 11, 2016

Políticas Públicas de Habitação - Habitação Popular: Portugal e Brasil

Caros leitores da Infohabitar, com esta edição inicia-se uma secção - não numerada em termos de artigos - de divulgação de eventos ligados às temáticas da nossa revista e da GHabitar; e neste caso com a condição de dizer respeito a uma iniciativa da CM do Porto e da sua Domus Social, muma área temática muito interessante, e à participação, entre outros ilustres conferencistas, de um ilustre amigo e membro da GHabitar o Professor Titular da FAU-USP, Khaled Ghoubar.
Uma conferência a aproveitar, sem dúvida!

O Editor da Infohabitar

António Baptista Coelho

domingo, janeiro 10, 2016

565 - Esquissos azuis – uma pequena seleção - Infohabitar 565


Infohabitar, Ano XII, n.º 565

Esquissos azuis – uma pequena seleção
António Baptista Coelho

Apresentam-se, em seguida, alguns apontamentos/desenhos livres, ou esquissos realizados em aguadas azuis, sob várias temáticas, com alguma rapidez (máximo de cerca de 5 minutos por desenho) e diretamente a partir dos respetivos temas (sem recursos a fotografia).
O azul é “a cor da sombra” e com ele consegue-se uma caraterização estimulante destes simples apontamentos urbanos e paisagísticos realizados em Olivais Norte / Encarnação, em Lisboa.



Desenho 1: um simples conjunto de formas - caminho e árvores com sentido natural de perspetiva.



Desenho 2: procurar apontar simultaneamente formas gerais e de pormenor - apontar "a árvore" e também "as folhas".





Desenho 3: fundir azul e amarelo - dando um pequeno sentido de "verde".






Desenho 4: a forma "plástica" da árvore e das suas folhas - e a árvore minimamente enquadrada.





Desenho 5: pessoas e árvores num jardim urbano - sentido de ambiente habitado e com escala humana - azuis com traços de negro.




Desenho 6: a rua arborizada, as árvores protagonistas que harmonizam o ambiente global, dando-lhe um agradável sentido doméstico/residencial.




Desenho 7: as nuvens, um exercício sempre útil e estimulante.




Desenho 8: pássaros (gaivotas), que vão sendo, consecutivamente, integrados na folha em muitas "posições"/vistas.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XII, n.º 565
Esquissos azuis – uma pequena seleção
Editor: António Baptista Coelho  - abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.