quarta-feira, junho 22, 2005

EDIFÍCIO COPAN: MARCO DE REVITALIZAÇÃO HABITACIONAL EM SÃO PAULO – Parte I - GALVÃO, Walter; ORNSTEIN, Sheila - Infohabitar 27

 - Infohabitar 27


Caros colegas e leitores do Infohabitar,
É com honra e um gosto que advém de uma amizade já longa e consolidada que o Infohabitar e eu próprio vos apresentamos um excelente artigo elaborado pela Professora Sheila Ornstein e pelo Arquitecto Walter Galvão, ambos da prestigiada Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP).
A Professora Sheila Ornstein tem um longo e muito rico currículo em diversas áreas do conhecimento da arquitectura e do urbanismo, com um destaque especial para as matérias ligadas à hoje tão crucial Avaliação Pós-Ocupação (APO) no campo habitacional e em outros campos da arquitectura – apenas a título de exemplo bastará dizer que ainda há poucas semanas esteve em Lisboa para participar num evento sobre APO na área escolar – e pertence ao NUTAU – Núcleo de Pesquisa em Tecnologia da Arquitetura e do Urbanismo da FAUUSP – núcleo este com quem o Núcleo de Arquitectura e Urbanismo (NAU) do LNEC, a que pertenço, colabora activamente desde já há bastantes anos. O Arquitecto Walter Galvão é um jovem e promissor valor da pesquisa habitacional e arquitectónica brasileira e paulistana, que está a realizar o seu percurso académico na excelente FAUUSP, que tem colaborado de forma muito dinâmica com a Professora Sheila Ornstein e que, no trabalho que se segue, demonstra bem o seu real valor e tudo aquilo que dele é legítimo esperar.
Devo ainda aqui expressar a grande alegria por mais este contributo no Infohabitar dos amigos e colegas da outra margem do Atlântico. Assim podemos realmente pensar em construir um Infohabitar que seja realmente um jornal informal mas especializado da ampla temática do habitar em língua portuguesa; bem hajam pela vossa contribuição.
Considerando o interesse e a extensão do artigo que se segue, ele é dividido em duas partes (Parte I e II), cuja edição no Infohabitar será sequencial (separada por um intervalo de alguns dias) e terá a devida divulgação via e-mail.


EDIFÍCIO COPAN: MARCO DE REVITALIZAÇÃO HABITACIONAL NO CENTRO DE SÃO PAULO, BRASIL – Parte I


GALVÃO, Walter José Ferreira (1);
ORNSTEIN, Sheila Walbe (2).
(1) Arquiteto. Especialista em Conforto ambiental e Conservação de Energia e Mestrando na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP). Alameda Franca 1336. CEP 01422.001 São Paulo/SP/Brasil e.mail walterga@usp.br. (2) Professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP) e bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Rua do Lago 876, Cidade Universitária, São Paulo/SP/Brasil. CEP 05508-080 e.mail sheilawo@usp.br.

Projetado em 1952 por Oscar Niemeyer, com colaboração do arquiteto Carlos Alberto Cerqueira Lemos, o edifício COPAN surgiu numa época de profundas transformações em São Paulo. A economia da capital paulistana se fortalecia, aquecendo o mercado imobiliário e ocasionando uma verdadeira “febre construtiva” na cidade (Mendonça, 1989). Neste momento de prosperidade os novos paradigmas de São Paulo eram gigantismo, adensamento populacional, verticalização, dentre outros (Barbara, 2004). A cidade crescia rapidamente e ansiava por símbolos representativos de sua nova condição de “grande metrópole” (Mendonça, 1989). Por sua monumentalidade estrutural, tipologia variada de apartamentos e forma arrojada o COPAN pode ser considerado um destes símbolos.

Figura 01 – Vista do COPAN. Fonte: Maria Lúcia Padovani

No ambicioso projeto inicial lançado pela Companhia Panamericana de hotéis (COPAN) – empresa criada na década de 50 pelo Banco Nacional Imobiliário [BNI] para administrar o empreendimento, tanto a Companhia Panamericana, bem como o BNI não existem mais – o conjunto era composto por dois edifícios, um onde funcionaria um hotel para 600 apartamentos e outro residencial. Os dois prédios deveriam ser ligados por uma marquise abrigando cinema, teatro, lojas e praças internas. O edifício do hotel não foi construído. Inicialmente o edifício residencial deveria ter 900 apartamentos, mas dois blocos, que teriam apartamentos de 4 dormitórios, foram redesenhados para kitchenettes e apartamentos de 1 dormitório (Botey, 1996).
As obras foram iniciadas em 1952, mas somente em 1961 as partes de alvenaria estavam prontas. O COPAN efetivamente construído tem 1.160 apartamentos divididos em 6 blocos e área comercial no térreo com 72 lojas além de cinema que hoje é ocupado por igreja evangélica. Entre a área comercial do térreo e a torre de apartamentos existem dois pavimentos intermediários, um onde funciona o escritório da Companhia Telefonica e outro que a administração do edifício utiliza para exposições e eventos.
A torre de apartamentos tem 32 andares assim distribuídos: Bloco A com 64 apartamentos de 2 dormitórios; blocos C e D com 128 apartamentos de 3 dormitórios; Blocos B, E e F com 968 apartamentos tipo kitchenettes e de 1 dormitório. O edifício possui 20 elevadores no total e 221 vagas para automóveis em 2 subsolos. A área construída total é de 116,152m² (www.copansp.com.br).

Figura 02 – Planta do pavimento térreo (galeria).


Figura 03 – Planta do pavimento tipo.


Nos anos 70 o COPAN entrou num processo de degradação, acompanhando a decadência do próprio centro de São Paulo. Grandes empresas, bancos, comércio de luxo, hotéis e equipamentos de lazer saíram da região e, com eles, o interesse imobiliário (Sampaio e Pereira, 2003). Muitos edifícios encortiçaram-se e galerias se degradaram, diminuindo sobremaneira a qualidade habitacional na área. Por ser um dos principais símbolos dos ideais de “morar no centro”, criou-se a imagem que o prédio havia se transformado num grande cortiço vertical e, de fato, os problemas eram muitos. Segundo Heise e Barreto (1997) ...faltava água regularmente... e a fiação elétrica, corroída... ficava imersa em vazamentos d’água permanentes”.
(Nota: o artigo continua e conclui na próxima edição do Infohabitar)



Referências bibliográficas

- BARBARA, Fernanda. Duas tipologias habitacionais: o Conjunto Ana Rosa e o Edifício COPAN. Contexto e análise de dois projetos realizados em São Paulo na década de 1950. São Paulo. Dissertação (mestrado). Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. 2004
- BOTEY, Josep M. A.. Oscar Niemeyer. Obras e Proyectos. Barcelona, Gustavo Gili, 1996.
- GALVÃO, Walter José Ferreira. Análise de aplicação de questionários como medida para aferir a opinião de usuários em grandes conjuntos de apartamentos: o caso do edifício COPAN/SP. Seminário Internacional NUTAU 2004. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo
- HEISE, Tatiana; BARRETO, Jule. O COPAN renova-se. Revista Urbs. n. 1 , p. 8-15, 1997.
- MENDOÇA, Denise Xavier de. Arquitetura Metropolitana São Paulo Década de 50: análise de 4 edifícios - Copan, Sede do jornal o Estado de São Paulo, Itália e Conjunto Nacional. São Carlos. Dissertação (mestrado). Escola de Engenharia de São Carlos – Universidade de São Paulo, 1989.
- ORNSTEIN, Sheila Walbe; BRUNA, Gilda Collet; ROMÉRO Marcelo de Andrade. Ambiente Construído e Comportamento: a Avaliação Pós-Ocupação e a qualidade ambiental, São Paulo, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo /Studio Nobel/Fundação de Pesquisas Ambientais, 1995.
- SAMPAIO, Maria Ruth do Amaral .PEREIRA, Paulo César Xavier. Habitação em São Paulo.Ins. de Estudos Avançados São Paulo: IEA da Universidade de São Paulo V. 17 n. 48 p. 167 – 183. 2003
Sítios consultados
- www.bancodobrasil.com.br
- www.iets.org.br


quinta-feira, junho 16, 2005

Casas como bosques (I) - Infohabitar 26

 - Infohabitar 26

Casas como bosques (I)


“A boa arquitectura dignifica quem a concebe e promove, dignifica o lugar onde se implanta, e dignifica os seus moradores” – nas palavras de Duarte Nuno Simões (intervenção na entrega dos Prémios INH 2000). Trata-se, afinal, de tentar fazer sempre a “casa dos homens” e, julgo, também, sempre que possível, a casa sonhada pelo poeta Eugénio de Andrade (*).

“Ergue-se aérea pedra a pedra
a casa que só tenho no poema.

A casa dorme, sonha no vento
a delícia súbita de ser mastro.

Como estremece um torso delicado,
assim a casa, assim um barco.

Uma gaivota passa e outra e outra,
a casa não resiste: também voa.

Ah, um dia a casa será bosque,
à sua sombra encontrarei a fonte
onde um rumor de água é só silêncio”.


Talvez seja esse o nosso último objectivo, fazer conjuntos de casas que vivam como bosques.


(*) Eugénio de Andrade – "Metamorfose da casa", em O Sal da Língua precedido de Trinta Poemas.

quinta-feira, junho 09, 2005

Cidade e sedução I - Infohabitar 25

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Cidade e sedução I




Num artigo de Luís Filipe Sebastião, saído no Jornal Público de 9 de Junho 05, cita-se o Arq. Alberto Castro Nunes, que diz que “a identidade da paisagem rural da região saloia está destruída”; o citado integra a equipa do Arq. Leon Krier, ligada à salvaguarda da paisagem cultural de Sintra, e aponta a possibilidade e a urgência da aplicação de ferramentas de ordenamento.
E o citado assim como outro elemento da equipa defendem ainda que o principal problema está na utilização de uma apreciação urbanística quantitativa, esquecendo-se os aspectos qualitativos e designadamente o mundo da pormenorização, aspectos estes que bem sabemos serem em boa parte responsáveis pela imagem urbana e pelo respectivo interesse cultural/patrimonial.
Apenas superficialmente esta vital temática se afasta da matéria tratada nas últimas páginas do infohabitar, pois o interesse pela paisagem urbana decorre, em boa parte, da sua real valia cultural, como podemos todos constatar em todos aqueles sítios que percorremos sempre com prazer, aqueles sítios em que tudo nos convida ao fruir da cidade em paz e com tempo, a pé (flanando), em que em sequências que parecem expontâneas tudo parece contribuir com pontos de atenção e de estadia fortuita, em cenários naturais e construídos que estimulam o convívio, porque para além da funcionalidade oferecem uma boa forma e um bom ambiente.
Uma cidade culta, visualmente atraente e convivial, uma cidade que seduz. Uma cidade onde seja possível, tal como diz Marilice Costi, “descobrir lentamente e percebendo com todos os nossos sentidos ... o ambiente, as sensações térmicas, a estética, a história, o local de encontro, o cheiro de cafezinho, o sorvete que mantém o mesmo sabor e aviva lembranças, a pequena livraria, o restaurante com a comida típica, o lugar dos encontros e desencontros, a sombra da árvore, as flores que aparecem a cada mudança de estação, a cor das coisas a cada outono, as folhas, a brisa, o calor ou o frio...” Mas tal como refere Marilice (no texto que se segue) “...hoje, parece que nada mais importa, a não ser o valor do terreno, …”



9 de Junho, véspera do Dia de Camões
A. Baptista Coelho, Encarnação, Lisboa abc@lnec.pt

quarta-feira, junho 01, 2005

A CIDADE: UM LUGAR DE ESTÍMULO E SURPRESA - Infohabitar 24

 - Infohabitar 24

A CIDADE: UM LUGAR DE ESTÍMULO E SURPRESA


A Professora Marilice Costi é mestre em Arquitectura, na Área de Economia e Habitabilidade e urbanista, tem experiência docente universitária (FAU-UPF e FAU-PUCRS) nas áreas de Avaliação Pós-Ocupação e Conforto Térmico, desenvolveu uma formação especializada em Arteterapia, é orientadora de diversas Oficinas de Poesia e Criatividade, tem múltiplas intervenções literárias ao nível do conto e da poesia, e é membro da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul.
Com Marilice Costi, colaboradora a partir de hoje do Grupo Habitar e do “Infohabitar”, iniciamos uma participação que queremos cada vez mais alargada de um a outro lado do Atlântico. Como verão, o excelente texto que se segue vem na sequência natural das últimas edições do “Infohabitar”.
A. Baptista Coelho



A CIDADE: UM LUGAR DE ESTÍMULO E SURPRESA

"(...)muitas vezes o olhar desenraizado do estrangeiro
tem a possibilidade de perceber as diferenças
que o olhar domesticado não percebe."
Massimo Canevacci

O hábito gera acomodação. E a rotina está aí para provar que quando nos habituamos acabamos esquecendo dos detalhes, das pequenas e belas coisas que passam por nós.
É assim também com a cidade. Acostumamo-nos com o seu horizonte, com os seus caminhos, que ao fazerem parte do nosso cotidiano, parecem não ter mais importância. Assim como na vida das pessoas, só lembraremos quando as tivermos perdido. Acomodamo-nos e assim, muita coisa passa desapercebida por nós.
Com um visitante é diferente. Ele percebe o quanto a cidade vem se descaracterizando com o passar dos anos ou não.
Qual o caráter que a cidade expressa? As avenidas onde passavam bandas escolares, onde as passeatas estudantis satirizavam e expunham cicatrizes sociais ainda permanecem. Mas até quando?
Muitas cidades do interior do Rio Grande do Sul (Porto Alegre também) perderam a beleza de sua volumetria. Podíamos perceber os pontos altos e baixos da cidade. O sol podia atender a todos. Os prédios históricos, geralmente, no entorno da praça principal, cederam lugar a edifícios cuja qualidade deixa a desejar. Os poucos e raros que sobraram parecem sufocados entre os demais, tal a discrepância entre o antigo e o novo. Sufocada pelo entorno, perdendo importância até o momento em que pegam fogo, por um acaso (sic!). Hoje, até as catedrais se encontram comprimidas entre os prédios altos no limite do lote.
Nas cidades havia espaços públicos muito utilizados e um comércio próspero. Aos poucos, nos últimos quarenta anos, fomos vendo uma casa de comércio fechar aqui e ali, o que foi comum na maioria das cidades brasileiras e o desenho urbano se reconfigurar sem estética.
Os descuidos ou desconhecimento dos profissionais com os corredores de vento que se formaram com a falta de rugosidade, com a falta de vegetação... Quantas esquinas contariam histórias de vestidos levantados, sombrinhas viradas e cabelos despenteados? O clássico pé-de-vento, um efeito esquina, o wise.
O que ainda encontramos de forma estética na cidade e que lhe caracteriza a história?
As cidades precisavam crescer tanto em altura? Qual o critério de crescimento que a comunidade queria? Progresso é área construída? Qual o custo do crescimento de hoje e do futuro? Os cidadãos querem que a cidade cresça dessa forma? Com qual qualidade urbana?
Para pararmos em uma cidade é preciso motivo, interesse. Leia-se o livro “Cidades invisíveis” do Ítalo Calvino, e perceberemos como uma cidade pode encantar um visitante e o convide a penetrar em suas entranhas, descobrindo suas peculiaridades, suas sutis paisagens.
Em urbanismo, não podemos esquecer as perspectivas, as imagens que foram criadas e que nos encantam. A imagem é a referência das pessoas, a sua segurança, a sua vida reanimada nas lembranças.
Hoje, a cidade repete o movimento dos adolescentes com o seu ficar. Ficar por hoje, o amanhã não importa, o ontem não importa, descobrir lentamente e percebendo com todos os nossos sentidos... O ambiente, as sensações térmicas, a estética, a história, o local de encontro, o cheiro de cafezinho, o sorvete que mantém o mesmo sabor e aviva lembranças, a pequena livraria, o restaurante com a comida típica, o lugar dos encontros e desencontros, a sombra da árvore, as flores que aparecem a cada mudança de estação, a cor das coisas a cada outono, as folhas, a brisa, o calor ou o frio...
Hoje, parece que nada mais importa, a não ser o valor do terreno, o que nele se pode construir, quanto ganhar-se-á por metro quadrado, quanto poderei subir com a lei do solo criado. Importa estimular o consumo do espaço, o dia, a vida apenas sem sentir com os sentidos e com o coração, como se fôssemos objetos com mesmas dimensões, mesmos desejos, mesma sensibilidade. Máquinas (lembram da maquina de morar?). As poucas exceções são os condomínios horizontais onde se encontram estruturas maiores para viver. Mas a que custo? E como poderíamos todos nos deslocar para morar nestes espaços? Sobram os que moram na cidade, que vem perdendo qualidade dia-a-dia. São mantas aluminizadas colocadas sem critério algum a jogar calor para todos os lados, a impedir que as pessoas cheguem à janela. Responsabilidade de quem? São os edifícios mais altos em áreas de menor altura e densidade, a tirarem o sol no entorno. E não há como reclamar depois do estabelecido. Direitos são direitos... de quem? Os planos diretores precisam ser avaliados e a legislação quanto ao uso de materiais deve ser mais cuidadosa.
Uma cidade precisa surpreender, mostrar sua história, entregar-se a quem passa por ela e dar-lhe o seu sabor. Ela precisa apaixonar a qualquer um, provocar sensações, proporcionar vivências. Ser lugar para seus moradores e um novo lugar para quem chega.

Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil
1 de Junho de 2005

Marilice Costi

terça-feira, maio 24, 2005

Mundos citadinos que é urgente conhecer/fazer melhor – III - Infohabitar 23

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“Cidade do vagar e ilhas de paragem”



(imagem: conjunto João Barbeiro, Beja, Arq. Raúl Hestnes Ferreira, Arq. Manuel Miranda)

Como se disse no primeiro número desta série de pequenos textos, estamos ainda a aprender a viver em grandes cidades e nesta aprendizagem é realmente importante assegurar uma qualidade arquitectónica dos espaços do habitar que contribua, claramente, para pedaços de cidade que induzam felicidade; os tais edifícios felizes, segundo Alcino Soutinho, as tais arquitecturas felizes e que são suporte da felicidade de quem as habita.

No segundo número desta série sobre os mundos citadinos melhor conhecidos e melhor feitos colocaram-se, muito ao de leve, questões fundamentais sobre como nos poderemos dirigir para essas perspectivas de felicidade, seja a partir de uma observação serena dos espaços citadinos e habitados onde ela parece existir, seja seguindo um caminho de rigorosa exigência de concepção e desenho, cumprindo diálogos construtivos e cultos com quem projecta e com quem habita.

Neste pequeno texto e ainda não tentando cruzamentos com o grande texto “programático” que acabou de ser editado no infohabitar sobre os desafios da cidade de hoje e de amanhã, foca-se a atenção sobre a importância que tem todo o apoio que a cidade possa dar às mais variadas formas de viver/habitar devagar; refere-se que o tema foi tratado sob outras interessantes perspectivas, há alguns dias, no jornal Público, revista xis, num artigo de Ana Vieira de Castro).

Como ponta pé de saída, ao nível urbano, desta temática do viver/habitar devagar e numa perspectiva humana, que é, cada vez mais, essencial na cidade de hoje, podemos considerar duas opções bem distintas: uma delas que sirva cegamente uma sociedade da rapidez, do stress, da ausência de convívio e da funcionalidade estrita; e outra que tudo faça pelo convite ao fruir da cidade em paz e com tempo, a pé (o flanar), que promova a calma, a protecção ambiental e a oferta de pontos de atenção e de estadia fortuita ou periódica, que providencie ocasiões e cenários naturais e quase espontâneos de convívio e que para além das funcionalidades (“a função”) ofereça realmente “a forma” e o ambiente, mas uma boa forma e um bom ambiente.

Em isto tudo e nesta perspectiva que se poderia definir como uma cidade com cariz estrutural tradicional – uma espécie de slow-city (naturalmente com muitos sítios de slow-food)– há que sublinhar que não se entenda ser esta posição uma afronta às medidas gerais que têm de garantir o melhor funcionamento da cidade, mas sim a defesa de uma das qualidades fundamentais do mundo citadino – o flanar, o estar e o convívio nos espaços públicos – que é também um complemento salutar e vital dessa funcionalidade.

Essa cidade vagarosa ou cidade do vagar, onde se pode e deve andar ao sabor de tantos motivos, baseia-se em vários aspectos qualitativos entre os quais e desde já se salienta a estratégica disponibilização de “ilhas de paragem”, o estímulo à estadia e à circulação no exterior e a qualidade da paisagem urbana.

Sobre as ilhas de paragem, há que referir que têm de ser locais de contemplação, de reflexão e, eventual ou pontualmente, de comunidade, que deverão marcar, seja as vizinhanças residenciais – provavelmente mais caracterizadas pelo sossego e pela domesticidade -, seja pólos urbanos onde se queira que o habitante e o visitante se detenham mais do que um momento, integrando-se, assim, verdadeiramente, embora por prazo curto, na vida dessa pequena parte da cidade.

É um grande e aliciante tema que se pretende desenvolver em próximos números desta série, articulando-se e aprofundando-se estas ideias com as matérias da dinamização do uso de um exterior que deverá ser muito positivamente qualificado em termos de paisagem urbana.

Lisboa, Encarnação, 24 de Maio de 2005

António Baptista Coelho

terça-feira, maio 17, 2005

“As cidades são os locais mais desejáveis para viver e trabalhar II” – objectivos/desafios e alguns comentários - Infohabitar 22

 - Infohabitar 22

“As cidades são os locais mais desejáveis para viver e trabalhar II” – objectivos/desafios e alguns comentários


Segue-se uma listagem comentada dos desafios urbanos ligados, hoje em dia, a uma cidade verdadeiramente apetecível para viver e trabalhar.
Os desafios são apontados entre aspas, traduzindo parte do texto original – desenvolvido em Fevereiro de 2005 por Adrian M. Joyce no âmbito de um grupo de trabalho do ARCHITECT’S COUNCIL OF EUROPE, CONSEIL DES ARCHITECTES D’EUROPE, da European Construction Technology Platform (ECTP), que acabou de ser editado aqui no infohabitar – seguindo-se, caso a caso, um comentário pessoal julgado a propósito; seria muito interessante que os leitores comentassem também estes textos (seja os originais seja os comentários que desde já se incluem).

1. “As cidades são entidades dinâmicas em constante mutação nos níveis físicos e de percepção. Há necessidade de examinar e compreender as forças subjacentes que lhes dão forma” – esta é uma matéria essencial e que, muito acertadamente, se encontra à cabeça da listagem. Realmente a grande cidade acaba por ser um fenómeno recente como realidade muito disseminada; durante alguns milénios a grande cidade foi uma realidade excepcional e se falarmos de mega-cidades então estamos a considerar um fenómeno com pouco mais do que 50 anos. Desta forma e sublinhando-se também a questão da “constante mutação” é essencial que sejam privilegiadas acções que visem compreender melhor (ou ir compreendendo melhor) as tais “forças que lhes dão forma”, numa acção de análise que tem de ser praticamente coincidente com uma acção de enquadramento prático da mutação urbana, que tem de ter presente que há nesta matéria poucas certezas e que assim se tem de ir vivendo e que poderá provavelmente privilegiar a observação de boas práticas urbanas e residenciais, designadamente, aquelas que se liguem a partes de cidade positivamente consolidadas com algumas dezenas de anos, mas continuando bem vivas, por si próprias, e a contribuir positivamente para a vida da cidade em que se integram.

2. “As cidades consubstanciam as aspirações daqueles que as constroem e através dessas acções as cidades desenvolvem uma identidade. Há necessidade de compreender como essa identidade se desenvolve e como os seus habitantes … e estranhos à cidade se relacionam com essa identidade” – o desenvolvimento da identidade de partes coerentes e de conjuntos de partes coerentes da cidade (vizinhanças de proximidade e bairros) deveria ser natural ou, sendo difícil tal naturalidade, deveria ser um objectivo primário de qualquer intervenção. A identidade urbana e residencial liga-se, por um lado, com o desenho da arquitectura urbana, e, por outro, com a afinidade e capacidade de apropriação que essa arquitectura urbana e residencial terá com os seus habitantes, em cada parte da cidade e em cada conjunto habitado. Um dos papéis do projectista é harmonizar essa necessidade de identidade com a qualidade do desenho de arquitectura e com a atractividade e capacidade de apropriação deste desenho relativamente a quem o irá habitar.

3. “As cidades ocupam espaço e têm um impacto significativo tanto no solo que ocupam como no solo que as rodeia. Há necessidade de estudar padrões de uso do solo e desenvolver estratégias de sustentabilidade para o futuro uso do solo” – as questões ligadas ao desenvolvimento de soluções de alta/média densidade e média/baixa altura ligam-se a esta temática, seja pelas dificuldades projectuais levantadas, seja pelo potencial de riqueza imagética ligada a tais soluções; outra matéria que se liga a todos estes aspectos é o hoje crucial privilegiar do preenchimento e do cerzir do espaço urbano, em continuidades, com formas e actividades; e aqui é rei o conceito de “construir no construído” (título de um excelente livro de Francisco de Gracia sobre o assunto).

4. “As cidades são constituídas por edifícios, ruas, praças, jardins, e pelos espaços entre eles, e são suportadas por infra estruturas de serviços e de transportes. As relações mútuas, ou a arquitectura, destes vários elementos dá carácter à cidade. A qualidade da sua arquitectura tem um impacto fundamental no bem-estar daqueles que vivem e trabalham nas cidades. É necessário perceber melhor essas relações e as diversas formas em que os seus impactos são sentidos em situações urbanas. O desafio será então integrar as conclusões resultantes em políticas de desenvolvimento, decisões de ordenamento e no próprio desenho das cidades e dos seus componentes.” Este desafio é “inteiro” no conceito que põe em relevo, trata-se da importância que é fulcral atribuir, hoje, nas nossas cidades, à arquitectura urbana ou, caso se queira, ao urbanismo de pormenor; é daqui que irá resultar o carácter identitário, a força de atractividade, o interesse da paisagem urbana; e é essencial sublinhar que isto só se faz com um verdadeiro saber fazer da relação entre edificado e espaço livre numa perspectiva que privilegie a continuidade urbana e uma dupla intenção de funcionalidade e “visualidade” do desenho (uma qualidade de desenho coerente com o local e com o habitante). O texto acima chama também a atenção para a questão da variabilidade das situações e das soluções e é também desta matéria que decorre o interesse dos recantos de vizinhança, das sequências urbanas, dos bairros e conjuntos e, finalmente, das próprias cidades assim compostas. E no final o texto acima foca a questão do como verter a síntese de tudo isto em instrumentos aplicáveis à regulação do urbano, regulação esta que é essencial, mas que não pode nunca cercear a tal variabilidade e a tal qualidade, mas que deveria, também, garanti-las, a bem da cidade e dos cidadãos.

5. “O sangue vital das cidades é a mobilidade e os transportes. É a natureza e o desenho do ambiente construído que determina as necessidades de mobilidade e de infra estruturas de transporte… Para a criação de sociedade urbana globalmente inclusiva tais condições de mobilidade e de transporte devem caracterizar-se por facilidade, confiança, segurança, rapidez razoável e acessibilidade por todas as pessoas e partes da sociedade …” Neste texto, também muito claro e “redondo”, sublinha-se, por um lado, a importância que tem, hoje em dia, a boa acessibilidade urbana numa perspectiva de articulação entre vários tipos de tráfego – é provável que, por vezes, meios existentes melhor coordenados possam produzir muito melhor serviço público – e, por outro, salienta-se a importância da atenção para com grupos sociais específicos nestas matérias da mobilidade urbana. Avançando um pouco mais há que considerar que a aliança entre os vários tipos de tráfego deve incluir e privilegiar a programação pormenorizada do tráfego pedonal (entre destinos/portas de edifícios), tem de considerar, objectivamente, a existência de tráfego pedonal funcional e de lazer – são ambos fundamentais para a vida e para fruição da cidade – e tem de considerar, também objectivamente, a existência de grandes grupos sociais que têm exigências acrescidas, designadamente, idosos, crianças e mesmo mulheres (ex., circulando sós no período nocturno), grupos estes que são, hoje em dia, essenciais para a vitalidade urbana.

6. “O desenho/design da cidade tem um impacto crucial na concretização de uma sociedade equitativa. De forma a proporcionar-se aos cidadãos uma vivência autonomizada e, consequentemente, o desenvolvimento de vidas sociais e económicas activas, a concepção das cidades deve garantir segurança, acessibilidade e adaptabilidade. O desafio será encontrar caminhos para tornar as novas e as existentes áreas urbanas acessíveis e usáveis por todos os cidadãos, quaisquer que sejam as suas capacidades, o seu grupo social e a sua idade.” O texto acima clarifica bem o respectivo desafio, trata-se de fazer e refazer cidades realmente inclusivas em termos sociais, cidades que, nas suas partes constituintes e naquilo que elas oferecem, sejam suportes para as mais variadas características e capacidades positivas do homem como ser individual, mas também como ser gregário; e fazer tudo isto de forma natural, sem imposições funcionais e num meio envolvente que favoreça esta perspectiva. Passam por este desafio aspectos urbanos e humanos tão importantes como a integração social positiva, que apoie a individualidade e que não imponha presenças pouco desejadas, e como o adequado incentivo a variados níveis de convívio, desde a célula residencial, ao edifício e sua vizinhança próxima, ao bairro e finalmente a partes “centrais” da cidade. Outro aspecto fundamental que há que considerar, especificamente, é a anulação de todos os aspectos de “guetização” sejam ligados à concentração excessiva de grupos sociais pouco favorecidos, seja na sua marginalização física e funcional (afastamento de zonas urbanas vivas e ausência de equipamentos).

7. “As cidades e as áreas urbanas exercem uma forte atracção sobre as pessoas. Como centros de vida económica, social e educacional muitas pessoas são “levadas” a mudarem-se para as cidades e para estabelecerem as suas vidas num ambiente urbano. Nas décadas recentes houve uma significativa migração de áreas envolventes e de outros países. Na União Europeia este fenómeno tornar-se-á ainda mais significativo nas décadas futuras…” Como lidar com tais situações seja nos centros das cidades, seja nas suas periferias tantas vezes pouco vitalizadas e pouco acessíveis? Como lidar com uma cidade feita de cidades/culturas? O que fazer para servir uma tal realidade sem com isso agredir a identidade da cidade? E provavelmente que caminhos trilhar para transformar este potencial e grave problema numa vantagem de imagem urbana, funcionalidade e diversidade para a cidade global e para cada um dos seus pequenos espaços constituintes em particular; talvez seja possível este caminho.

8. “As cidades são melhor conhecidas por aqueles que as usam. Somos todos utentes das cidades …, mas nem todas as secções da sociedade são capazes de exprimir os seus pontos de vista acerca do lugar onde vivem. É necessário estudar este fenómeno e avançar para formas de dar poder a todas as secções da sociedade, reflectindo tais “inputs” no ordenamento, na edificação e na manutenção citadina. O desafio é inventar novos modelos de governância/…gestão…com o objectivo fundamental de criar os mais desejáveis locais para viver e para trabalhar; … melhorando-se a capacidade organizativa das cidades, necessária numa política dinâmica de diversos actores que lida com interesses contrários/opostos.” Trata-se aqui de salientar os novos, necessários e potencialmente muito ricos e eficazes modelos de gestão e participação urbana; modelos estes que, provavelmente, irão funcionar num extenso mosaico de soluções encontradas à escala micro urbana, que poderão ser elas próprias indutoras de uma interessante diversidade de oferta de eventos mais ou menos correntes, bem como de cenários variantes e estimulantes; e que serão sem dúvida um meio privilegiado de incentivo ao trabalho local. Em tudo isto há que sublinhar a enorme importância que cada vez mais terá a gestão local e de proximidade, afinal a única que poderá ser garante da responsabilização do cidadão relativamente aos “seus” espaços urbanos; e, já agora, é bem interessante apontar a relação natural que tal tipo de gestão pode e deve ter com as “novas” soluções de segurança pública assentes também numa acção de proximidade responsabilizada e personalizada.

9. “As cidades consomem recursos de todos os tipos com significativos impactos na qualidade de vida e na infraestrutura física… O desafio é encontrar formas de as cidades e áreas urbanas poderem implantar-se de forma ligeira na terra, mantendo a sua vitalidade e viabilidade sem esgotamento de recursos de que dependam e sem acumulação de efeitos negativos no ambiente”. Este desafio tem, sem dúvida, muito a ver com escolhas fundamentais que há que fazer urgentemente, quer no que se refere a uma afirmada e privilegiada integração na cidade de zonas e elementos naturais (ex., parques, jardins, árvores de arruamento, sebes, cobertura verde de solo, planos de água, hortas e jardins privados e comuns, etc.), sendo todas estas zonas e elementos desenvolvidos numa perspectiva de máxima viabilidade – continuidades estruturantes, implantação e manutenção adequadas, etc. -, que no que se refere a uma sistemática adopção de soluções amigas do ambiente em todas as intervenções urbanas – ex., aplicação sistemática de pavimentos permeáveis, adequada gestão da água, uso de materiais recicláveis, etc.

10. “As cidades do amanhã estão já connosco em cerca de 80% dos seus edifícios e estruturas. Isto representa um desafio fundamental relativamente às aspirações apontadas nos parágrafos anteriores. Será essencial assegurar que as inovações são igualmente aplicáveis às edificações, aos espaços e às infraestruturas que constituem as nossas cidades.” Trata-se aqui de desenvolver com eficácia o já referido conceito do “construir no construído”, aproveitando esta ideia, pela positiva, para melhorar o meio urbano existente, cerzindo-o, reconstruindo-o com qualidade, dinamizando-lhe as suas cruciais continuidades, preenchendo-o e desdensificando-o onde seja necessário e equipando-o estrategicamente; e fazendo isto ao mesmo tempo que também se ataca o problema da falta de integração social no realojamento, através de pequenos preenchimentos habitacionais que sejam, simultaneamente, pequenas acções de melhoria urbana local (ex., equipamentos, acessibilidades) e micro acções de realojamento cuidadosamente acompanhadas.

11. “As cidades do amanhã serão cidades com um grande grupo populacional criador e fortes funções de incubação de inovação, de novas pequenas empresas e de novas oportunidades de emprego. O desafio será desenvolver uma concepção urbana que apoie esta nova situação em termos de densidade, mistura de funções e diversidade.” Todos os inúmeros aspectos que nos parágrafos anteriores foram dedicados à riqueza funcional e de imagens, ao micro urbanismo, à gestão local disseminada e “personalizada” e à própria identidade de vizinhanças e de bairros confluem para os papéis de incubação e de fomento do emprego que são visados neste desafio; de certo modo pode também dizer-se que estará na “massa do sangue” da cidade tradicional esta sua faceta de centro de oportunidades e de pólo difusor e mesmo inovador de actividades.

12. “O resultado do trabalho de investigação recomendado … será implementado por pessoas… É necessário desenvolver cursos de formação… O desafio será ganhar aceitação destes curricula inovadores nas escolas e profissões envolvidas…” É naturalmente fundamental esta perspectiva e seria muito interessante ir avançando, por exemplo, em ideias sobre que tipos de influências práticas poderá ter a implementação destes objectivos/desafios na prática de projecto das diversas profissões ligadas à concepção da cidade, seja em perspectivas conceptuais específicas (ex., arquitectura), seja em perspectivas que privilegiem uma prática multidisciplinar (ex., arquitectura + paisagismo + engenharias). Outro aspecto deverá também abordar a formação e informação dos/aos habitantes.

13. “As cidades são os centros de excelência da nossa sociedade nas quais as universidades, as escolas e os centros de investigação, geralmente, estão sediados. As suas populações constituem os recursos em que o progresso se baseia. O desfio será assegurar que isto assim se mantém … (através de educação e treino) para todas as partes da sociedade durante o período de grande mudança que se prevê.” Este é um objectivo/desafio talvez apenas aparentemente simples e que, sem dúvida, é de grande importância. De certa forma a cidade nasceu também devido a uma forte necessidade de formação e de troca de ideias (o que é/deveria ser a escola) e é importante que o papel da escola na sociedade possa ser reinventado e fortemente reforçado no (re)tecer das malhas da cidade. Não é com certeza com o retirar de velhas universidades dos centros históricos que se desenvolve uma tal acção, nem se garante tal objectivo com a continuidade de standards que geram equipamentos com uma dimensão e falta de articulação urbana que resultam em situações de grave descontinuidade urbana; sendo assim os elementos/pólos escolares, que deveriam gerar agregação, dinamização social e uma correspondente geração de novas actividades, acabam por ser elementos marginais da malha urbana, quando não elementos que provocam verdadeiras descontinuidades nessa mesma malha.

14. As cidades, através do uso optimizado de recursos e da maximização da qualidade de vida, podem funcionar como centros estruturadores de desenvolvimento de novos modelos de preservação, regeneração e gestão integrada… Por outro lado, através de redes urbanas, as cidades podem estimular uma distribuição equitativa da actividade económica e o desenvolvimento territorial sustentável dirigido para uma crescente coesão territorial e para a competitividade regional. O desafio é o desenvolvimento de caminhos em que as cidades possam actuar, simultaneamente, seja como pólos, seja como redes, para que se crie verdadeiro valor económico, integração social e sustentabilidade cultural. Trata-se de um desafio/objectivo estruturado e clarificado, que não suscita, para já, comentários directos. Apenas duas referências, um pouco paralelas, entre si, e relativamente ao referido desafio: a primeira relativa ao importante papel ligado ao lazer que pode e deve ser cumprido pela cidade, na sua total amplitude física e de oferta muito diversificada, aspecto este que novamente nos leva para a importância das redes de acessibilidade e nestas para o papel fundamental da circulação pedonal, naturalmente em estreita relação com os outros tráfegos; e a segunda relativa à importância que tem/terá o renascer do tráfego ferroviário como meio privilegiado de ligação entre centros de cidades, afinal, entre centros de pólos de animação urbana.


(em memória do meu Pai, Arq. António Baptista Coelho)

António J. M. Baptista Coelho
Encarnação, Lisboa, 17/18 de Maio de 2005

sexta-feira, abril 29, 2005

“As cidades são os locais mais desejáveis para viver e trabalhar” - Infohabitar 21

 - Infohabitar 21

European Construction Technology Platform (ECTP)
FA – Cities and Buildings
WORKING GROUP 1 – URBAN ISSUES (temas/assuntos urbanos)
Challenges and Draft Strategic Agenda on URBAN ISSUES


Texto de síntese dos Challenges/desafios

Nota prévia sobre a importância que tem, nesta matérias, a EU Council Resolution 2001/C73/04 sobre qualidade arquitectónica em zonas urbanas e rurais e a sequência que lhe foi dada pelos ministros da cultura sob a presidência luxemburguesa. Nesta resolução afirma-se, designadamente, que a arquitectura constitui um aspecto fundamental da história e da substância da vida nos países da União Europeia, que é um meio essencial de expressão artística no quotidiano dos cidadãos e que assegura herança/património para o futuro; a Resolução do Conselho solicita à Comissão que assegure que a qualidade arquitectónica e a natureza específica dos serviços de arquitectura sejam considerados em todas as políticas, medidas e programas.
Nota de ABCoelho: este parágrafo foi aqui inserido de forma a explicitar a importância da breve mas importante referência à referida Resolução 2001/C73/04, que consta da parte inicial do texto que aqui se apresenta.

Temas/assuntos urbanos – os desafios

(tradução parcial e livre a partir do texto original por António Baptista Coelho)


1. As cidades são entidades dinâmicas em constante mutação nos níveis físicos e de percepção. Há necessidade de examinar e compreender as forças subjacentes que lhes dão forma …

2. As cidades consubstanciam/concretizam as aspirações daqueles que as constroem e através dessas acções as cidades desenvolvem uma identidade. Há necessidade de compreender como essa identidade se desenvolve e como os seus habitantes, os visitantes e outros estranhos à cidade se relacionam com essa identidade …

3. As cidades ocupam espaço e têm um impacto significativo tanto no solo que ocupam como no solo que as rodeia. Há necessidade de estudar padrões de uso do solo e desenvolver estrtégias de sustentatbilidade para o futuro uso do solo…

4. As cidades são constituídas por edifícios, ruas, praças, jardins, e pelos espaços entre eles, e são suportadas por infra estruturas de serviços e de transportes. As relações mútuas, ou a arquitectura, destes vários elementos dá carácter à cidade. A qualidade da sua arquitectura tem um impacto fundamental no bem-estar daqueles que vivem e trabalham nas cidades. É necessário perceber melhor essas relações e os diversas formas em que os seus impactos são sentidos em situações urbanas. O desfio será então integrar as conclusões resultantes em políticas de desenvolvimento, decisões de ordenamento e no próprio desenho das cidades e dos seus componentes.

5. O sangue vital das cidades é a mobilidade e os transportes. É a natureza e o desenho do ambiente construído que determina as necessidades de mobilidade e de infra estruturas de transporte… Para a criação de sociedade urbana globalmente inclusiva tais condições de mobilidade e de transporte devem caracterizar-se por facilidade, confiança, segurança, rapidez razoável e acessibilidade por todas as pessoas e partes da sociedade …

6. O desenho/design da cidade tem um impacto crucial na concretização de uma sociedade equitativa. De forma a proporcionar-se aos cidadãos uma vivência autonomizada e, consequentemente, o desenvolvimento de vidas sociais e económicas activas, a concepção das cidades deve garantir segurança, acessibilidade e adaptabilidade. O desafio será encontrar caminhos para tornar as novas e as existentes áreas urbanas acessíveis e usáveis por todos os cidadãos, quaisquer que sejam as suas capacidades, o seu grupo social e a sua idade.

7. As cidades e as áreas urbanas exercem uma forte atracção sobre as pessoas. Como centros de vida económica, social e educacional muitas pessoas são “levadas” a mudarem-se para as cidades e para estabelecerem as suas vidas num ambiente urbano. Nas décadas recentes houve uma significativa migração de áreas envolventes e de outros países. Na União Europeia este fenómeno tornar-se-á ainda mais significativo nas décadas futuras…

8. As cidades são melhor conhecidas por aqueles que as usam. Somos todos utentes das cidades …, mas nem todas as secções da sociedade são capazes de exprimir os seus pontos de vista acerca do lugar onde vivem. É necessário estudar este fenómeno e avançar para formas de dar poder a todas as secções da sociedade, reflectindo tais “inputs” no ordenamento, na edificação e na manutenção citadina. O desafio é inventar novos modelos de gobernância/…gestão…com o objectivo fundamental de criar os mais desejáveis locais para viver e para trabalhar; …melhorando-se a capacidade organizativa das cidades, necessária numa política dinâmica de diversos actores que lida com interesses contrários/opostos.

9. As cidades consomem recursos de todos os tipos com significativos impactos na qualidade de vida e na infraestrutura física… O desafio é encontrar formas de as cidades e áreas urbanas “poderem implantar-se de forma ligeira na terra”, mantendo a sua vitalidade e viabilidade sem esgotamento de recursos de que dependam e sem acumulação de efeitos negativos no ambiente.

10. As cidades do amanhã estão já connosco em cerca de 80% dos seus edifícios e estruturas. Isto representa um desafio fundamental relativamente às aspirações apontadas nos parágrafos anteriores. Será essencial assegurar que as inovações são igualmente aplicáveis às edificações, aos espaços e às infraestruturas que constituem as nossas cidades.

11. As cidades do amanhã serão cidades com um grande grupo populacional criador e fortes funções de incubação de inovação, de novas pequenas empresas e de novas oportunidades de emprego. O desafio será desenvolver uma concepção urbana que apoie esta nova situação em termos de densidade, mistura de funções e diversidade.

12. O resultado do trabalho de investigação recomendado pela ECTP será implementado por pessoas… É necessário desenvolver cursos de formação… O desfio será ganhar aceitação destes curricula inovadores nas escolas e profissões envolvidas…

13. As cidades são os centros de excelência da nossa cociedade nas quais as universidades, as escolas e os centros de investigação, geralmente, estão sediados. As suas populações constituem os recursos em que o progresso se baseia. O desfio será assegurar que isto assim se mantém … (através de educação e treino) para toas as partes da sociedade durante o período de grande mudança que se prevê.

14. As cidades, através do uso optimizado de recursos e da maximização da qualidade de vida, podem funcionar como sedes/hubs de desenvolvimento de novos modelos de preservação, regeneração e gestão total/integrada… Por outro lado, através de redes urbanas, as cidades podem estimular uma distribuição equitativa da actividade económica e o desenvolvimento territorial sustentável dirigido para uma crescente coesão territorial e para a competitividade regional. O desafio é o desenvolvimento de caminhos em que as cidades possam actuar, simultaneamente, seja como pólos/hubs, seja como redes, para que se crie verdadeiro valor económico, integração social e sustentatbilidade cultural.

Texto preparado por Adrian M. Joyce,
Presidente do grupo de trabalho
Bruxelas 21 de Fevereiro de 2005

(Texto baseado nos trabalhos que decorreram em duas reuniões e nos respectivos e múltiplos comentários escritos)

terça-feira, abril 12, 2005

Mundos citadinos que é urgente conhecer/fazer melhor – II - Infohabitar 20

 - Infohabitar 20

Mundos citadinos que é urgente conhecer/fazer melhor – II 


Será que já se perguntou aos habitantes dos bairros históricos e outros bem planeados se eles aí vivem felizes e, em caso afirmativo, que razões são capazes de apontar para essa felicidade?
Será que já se perguntou? E será que já se levou em conta tais respostas quando se projectam novas partes de cidades?
E, por outro lado, será que, de forma sistemática, se entende verdadeiramente a enorme responsabilidade e a enorme complexidade que é fazer uma parte de cidade habitada e multifuncional? Será que se entende que para tal há que desenhar muito com grande pormenor e com grande coerência e como todo o desenho é, antes de tudo, um acto de reflexão, de observação e de síntese, será que se faz realmente desenho urbano e habitacional ou será que, frequentemente, ficamos por desenhos mal traçados fisicamente e pouco ou nada sustentados em termos de coerência e reflexão?
No primeiro texto sobre os mundos citadinos que é urgente conhecer e fazer melhor falou-se, ainda que apenas ao de leve, sobre as arquitecturas felizes e que são suporte da felicidade de quem as habita, neste texto colocam-se questões fundamentais sobre como nos dirigirmos para essas perspectivas de felicidade, seja a partir de uma observação serena dos espaços citadinos e habitados onde ela parece existir, seja seguindo um caminho de rigorosa exigência de concepção e desenho.
A estes temas se voltará em próximos pequenos textos desta série, mas para já fica a ideia que talvez não seja tão difícil unir desejos e imaginários de quem habita e caminhos de concepção de quem projecta.
Talvez realmente o problema esteja em não se ligar muito a esses desejos e a esses imaginários e em não se ter a devida exigência, que tem de ser muita, para com esses projectos urbanos que vão marcar cidades e gerações.
Talvez que a boa arquitectura a tal que induz felicidade seja um caminho bom de percorrer pelos habitantes e talvez os desejos dos habitantes sejam excelentes temas de concepção.

Este é o segundo de uma série de textos curtos sobre o tema e a ilustração continua a ser a excelente pequena cidade de Alvalade, projectada, entre outros, por Faria da Costa.

Lisboa, Encarnação, 12 de Abril de 2005

António Baptista Coelho

segunda-feira, abril 11, 2005

Mundos citadinos, mundos desconhecidos que é urgente conhecer melhor e fazer melhor – I - Infohabitar 19

 - Infohabitar 19

Mundos citadinos, mundos desconhecidos que é urgente conhecer melhor e fazer melhor – I


Este é o primeiro de uma série de textos curtos sobre o tema.
Estamos ainda a aprender a viver em grandes cidades e a importância da qualidade residencial e urbana, numa perspectiva verdadeira/ampla é algo que está longe de ter sido verdadeiramente assumida, seja pelos diversos responsáveis, seja pelos próprios habitantes e, entre uns e outros, pelos respectivos projectistas.
Muitos dos problemas que, hoje em dia, fazem as primeiras páginas dos jornais, como a insegurança urbana e a desocupação dos jovens e dos outros, apenas para referir dois entre tantos que contribuem para as actuais doenças citadinas, ou melhor será dizer sociais, pois cada vez mais o universo urbano é quase tudo, são problemas de uma sociedade urbana desequilibrada seja em termos sociais, seja em aspectos físicos e ambientais, e também culturais até num sentido mais restrito e bem aplicável.
Nesta primeira volta sobre o tema fico por um pensamento que foi há pouco tempo lançado pelo presidente do RIBA – a Ordem dos arquitectos inglesa – e que afirma que boas arquitecturas, sejam elas quais forem, fazem os seus habitantes felizes.
Há cerca de dois anos num excelente artigo/entrevista Alcino Soutinho afirmava que o belíssimo e tão humano edifício por ele projectado para a Câmara Municipal de Matosinhos era um edifício feliz; e com tal edifício feliz fez-se um pedaço feliz de cidade.
Ficamos então hoje neste contraponto entre edifícios e espaços urbanos felizes que fazem e, por vezes, refazem boas partes de cidades vivas e edifícios que fazem os seus habitantes felizes, seja em habitações que além de bem desenhadas proporcionam alegria e vontade de viver, seja em partes de cidade que estimulam o seu uso, que seduzem os seus utentes, que os trazem até à rua, de dia e de noite, fazendo cidade habitada e feliz.
Talvez seja este um dos segredos que há que compreender para lutar contra as tais doenças da cidade de hoje, afinal a única cidade que tivemos possibilidade de conhecer.
E para outro texto ficará a continuação destas ideias.

Lisboa, Encarnação, 11 de Abril de 2005

António Baptista Coelho

segunda-feira, março 21, 2005

Da minha janela vejo o mundo e reconheço o meu olhar - Infohabitar 18

 - Infohabitar 18



segue-se um texto da arquitecta paisagista Celeste d'Oliveira Ramos

Da minha janela vejo o mundo e reconheço o meu olhar 


A RUA é a rainha do espaço urbanizado e é património do peão

Calcorrear a rua atravessando o espaço definido pela sucessão das fachadas que se exibem contando a sua arte, o tempo que trabalhou as pedras de que são feitas, o tipo de homem que as desenhou, permite desenrolar perante o olhar uma espécie de filme com uma história e um enredo de formas, de materiais, de funções, de objectos singulares sinalando posições específicas, de esquinas revelando outros caminhos, como uma carta geográfica enriquecida pela presença dos “habitantes” de pedra por vezes rendilhada, de azulejo, de ferro forjado, de vidros e de vitrais, de cores, trabalhando e desdobrando a luz, entretendo o nosso olhar obrigando-nos a ser espectadores activos, críticos, contentes ou descontentes, ao percorrer o museu dinâmico que é qualquer espaço habitacional onde se aprende geografia e história, ecologia e sociologia, e artes, e vida, estampada nos rostos que por nós se cruzam

Caminhar ou deambular por um espaço histórico e cultural a contar a história do tempo e da arte dos homens

Rua, fachadas, esquinas, formas, volumes, luz e escuridão, envolvendo o todo e as partes, nos passeios, nos largos e jardins, e na árvore de sombra benfazeja, de copa volumosa com folhas e pássaros, inserindo a natureza viva dentro do habitar, ou sem folhas, escultura desnudada ainda dando a beleza, a escala da rua e do próprio homem e, ainda, o ritmo das estações do ano

Que bonita e fresca é a minha rua com árvores que dão flores e frutos, cores e perfumes, e me acordam para me obrigar a olhá-las mesmo que de relance porque vou com pressa a um qualquer lugar

Vou à minha vida atravessando este espaço de vida que a rua me obriga a compreender com todos os sentidos despertos, pelo que me deixa ver e consolar o meu próprio espírito, refrescando-me o corpo com a brisa que provoca, o ouvir dos pássaros que nela poisam, o excitar do olfacto com o perfume de suas flores, mesmo olhando para o chão que vou pisando desenhado e construído com as mãos inteligentes de carinho para embelezar o meu caminhar diminuindo a percepção do meu cansaço

A CASA, a habitação, isolada ou integrada num conjunto, é o abrigo do sol e da chuva, do frio e do calor, do olhar dos outros, do nosso cansaço e desespero, é ABRIGO e refúgio do que somos, do corpo e da alma

É a nossa caverna, o nosso buraco onde não queremos partilhar-nos com mais ninguém, a não ser com aqueles que pertencem ao nosso não querer viver connosco sós

Sendo um espaço fechado é no entanto o primeiro espaço de aprendizagem de vida colectiva com a família (e/ou amigos), o primeiro espaço cultural porque casa é mais do que o lugar de habitar porque é espaço onde acontece cultura

É a segunda pele que nos separa e distingue dos outros grupos-família, dos outros moradores de cada casa e de cada rua

Opostamente, os “homeless” são os que ou nunca encontraram esse abrigo, ou os que rejeitaram o que tiveram, ou até nunca tenham tido ou ainda, tendo tido, tudo lhes foi tirado e restou-lhes a rua da cidade

Da janela da minha casa vejo a RUA e as outras habitações e delas poderei pressupor parte do que se passa dentro

Vejo a chuva, vejo o céu e o sol que logo aparece, vejo a lua e as estrelas e os aviões a cruzarem os ares, e vejo as outras casas e também quem passa e se afadiga como se as janelas fossem os OLHOS da Casa

Da janela vejo o MUNDO, e à forma e dimensão desse espaço "vazio" de olhar o mundo, poderá ser acrescentada a qualidade que cada habitante, pessoalizando-a com as cortinas feitas por amor, ou vasos de flores, para que a natureza viva não se afaste do viver, e a minha janela poderá ser mais bonita do que a do vizinho

Não será a janela de uma Catedral, mas se o arquitecto que a desenhou tiver deixado espaço e forma, algo de pessoal se poderá acrescentar que diferencia e humaniza a rua que não será apenas uma sucessão de fachadas sem calor humano, algo que o arquitecto nunca poderá fazer, mas apenas sugerir, e permitir que aconteça, desenhando como quem desenha o sagrado, porque se trata de desenhar para a “vida” de cada um

Se a rua nas suas fachadas fala do tempo e do artífice que a desenhou e construiu prédio a prédio, a janela fala de quem lá vive, da sua alegria manifestada ou mesmo grau de pobreza

A janela que permite ver de dentro para fora tem igualmente essa dimensão de deixar ver o que ela reflecte

E até uma andorinha poderá ali poisar no parapeito na primavera e dar mais uma dimensão de vida do habitar

A janela separa do exterior mas não o elimina completamente – mostra vida de ambos os lados, comunica com a VIDA, dialoga com quem vive nele e por ela passa, e a olha

Abro a minha janela e deixo entrar o Sol e o vento, os perfumes da rua e os ruídos da vida dos homens acordados, quando a cidade se levanta

Esse diálogo da janela é também perceptido pela casa ou conjunto, relativamente ao local e forma como foi implantada, na natureza bruta, fazendo com ela um diálogo também de amor e inteligência ou, pelo contrário, desprezá-lo, ficando o local desmantelado sem ética ambiental, sem estética, desumanizado e destruído e a habitação desqualificada e o habitar penoso

A minha janela como o meu olhar

A minha RUA como a Vida do mundo dos Homens

Maria Celeste d'Oliveira Ramos
Lisboa 12 março 2005
14 fevereito 2005
Maria Celeste d'Oliveira Ramos
Engªsilvicultora
Arquitecta-Paisagista
Universidade Técnica de Lisboa


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Quercus apela ao fim do abate das florestas de carvalho - Infohabitar 17

 - Infohabitar 17

Segue-se um texto integral que me foi enviado por mail e cujo interesse dipensa mais comentários.

António Baptista Coelho
Encarnação, 21 de Março de 2005


Quercus apela ao fim do abate das florestas de carvalho


O Dia Mundial da Árvore, que hoje se comemora, levou os ambientalistas
Da Quercus a exigirem ao governo a protecção legal das florestas de carvalho, à semelhança do que já existe para os sobreiros e azinheiras.


"A lei não tem de ser tão restrita como a dos sobreiros e azinheiras.
Mas, de alguma forma, tem de se impedir o abate dos carvalhais", defendeu Domingos Patacho, da Quercus, em declarações à agência Lusa.

Este responsável justificou que os sobreiros e azinheiras, que estão
protegidos pelo decreto-lei 169/2001, representam cerca de 37 por cento
da área florestal portuguesa.

Os carvalhos autóctones constituem apenas quatro por cento da floresta
portuguesa e, por isso mesmo, devem ser protegidos, segundo Domingos
Patacho


"Estas áreas, muitas vezes de pequena dimensão, apresentam uma elevada
importância ecológica pela diversidade de vegetação e de fauna
silvestre que albergam", acrescentou.

Sem a protecção legal que se exige, os carvalhais portugueses vão
continuara ser destruídos sem que existam instrumentos minimamente adequados para travar o desaparecimento desta importante e singular floresta.

Assim, para além do sobreiro e da azinheira, os carvalhos mais raros
Devem também ser alvo de protecção legal, nomeadamente as espécies e habitats de reconhecido interesse comunitário para conservação.

Para a Quercus, as espécies e habitats que deviam merecer mais
protecção são os carvalhais-portugueses Quercus faginea - uma espécie considerada como uma relíquia da floresta portuguesa porque existe em reduzidas áreas no centro do país - e os carvalhais de Quercus robur e Quercus pyrenaica, no Norte de Portugal.

Domingos Patacho defende que estes carvalhais deverão ser protegidos
Através de um quadro legal simples e eficaz que permita acabar com as situações de abate sem qualquer parecer ou licença das entidades competentes.

Cerca de 38 por cento do território continental português é constituído
por área florestal, fundamental para a produção de oxigénio, a fixação de gases com efeito de estufa (dióxido de carbono), a protecção do solo e a manutenção do regime hídrico.

sábado, março 19, 2005

Sobre os fundamentais concursos de arquitectura urbana – um desabafo - Infohabitar 16

 - Infohabitar 16

Não se trata aqui de criticar o conceito nem o objectivo, que são muito meritórios; encontrar ideias sobre um tema tão importante hoje em dia, nas nossas cidades, como é o (re)ver o centro apostando em novas formas de requalificar e provavelmente regenerar partes fundamentais do centro da cidade, neste caso de Lisboa, dotando-as de aspectos que contribuam activamente para uma sua vivência que se aproxime das 24 h do dia (“formulação de propostas de revitalização da Baixa Pombalina a partir da Rua Augusta em Lisboa. Mantendo-se o edificado e trabalhando os espaços vazios entre os edifícios”) – e, já agora se divulga o respectivo “site” que é o www.tektonica.com.pt.
E vale a pena aqui dizer que a referência aqui feita a este último concurso que está a ser promovido com a designação Prémio Tektónica 05/rua 24h , é uma crítica que, sublinha-se, se aplica, infelizmente, a este concurso, tão potencialmente interessante, mas também a outros concursos de arquitectura.
E a crítica é que, na opinião de quem escreve este comentário, faz muito pouco sentido um calendário de concurso que se inicia com o seu anúncio a 1 de Março de 2005 e com a entrega dos trabalhos a 11 de Abril de 2005. Pessoalmente não entendo este calendário, nem no caso de se tratar de um concurso de ideias esquemáticas, quanto mais quando se refere que a apreciação terá em conta os seguintes critérios (que se citam): “qualidade global da proposta; ideia e conceito; inovação e resolução construtiva; capacidade de comunicação.”
Há matérias e oportunidades que parece merecerem um pouco mais de atenção, esta é a opinião que aqui se expressa; e afinal será que teria custado muito anteceder o prazo de anúncio, por exemplo, cerca de um mês, ou até de dois meses, considerando-se que não se trata de um concurso de obras feitas e que basta apresentar, mas sim de algo que tem de ser pensado e desenhado de raiz?

Lisboa, Olivais, 19 de Março de 2005

Júlio Marques

quarta-feira, março 16, 2005

Por uma cidade habitada - Infohabitar 15

 - Infohabitar 15

Na sequência do desenvolvimento do 1º Congresso de Habitação Social” promovido pelo Comité Português de Coordenação da Habitação Social (Cecodhas.P), em Tomar em 14 e 15 de Março de 2005, e que aí reuniu um impressionante número de participantes, provavelmente na casa das seis centenas, tema a que voltaremos provavelmente noutros textos do infohabitar, junta-se, em seguida, a parte final de uma das intervenções aí apresentadas sobre a temática do património.

Por uma cidade habitada

A cidade deve proporcionar um complemento funcional mas também um verdadeiro suplemento de alma ao habitante, tal como diz Jorge Silva Melo (num artigo saído no Jornal Público de 22 de Janeiro de 2005): “um café aqui, um apartamento em cima, a rua larga, o Tejo ao fundo, passeios, gente que se encontra, gente que se salva, que se reencontra …”
A cidade precisa da vitalidade da habitação, que precisa da vida citadina para que o habitante possa ter verdadeira qualidade de vida urbana. É assim que deve ser, e para tal temos de enfrentar, rapidamente, os actuais problemas de falta de vida urbana em determinados bairros e de falta de bairros vivos em determinadas zonas da cidade.

Neste sentido propõem-se cinco ideias fundamentais:

A primeira é que a cidade, para ser cativante e emocionante tem de ter bairros e conjuntos habitados, vivos e caracterizados, marcados por redes de vizinhança e sentimentos de pertença.

A segunda, é que em qualquer conjunto residencial, por mais pequeno que seja, deve ser configurada uma vizinhança de proximidade e bem ponderada a integração de equipamentos conviviais.

A terceira ideia é privilegiar a qualificação e o potencial de convívio do exterior residencial de proximidade, pois escadas, galerias, passeios, pracetas, lojas e cafés fazem parte do espaço residencial, enriquecendo-o e proporcionando até eventuais compensações. E sublinha-se que foi a vizinhança de proximidade que entrou em crise, seja no centro seja nas periferias da cidade.
E neste espaço publico das vizinhanças de proximidade há que ter atenção muito especial para com os grupos de habitantes mais jovens e mais idosos, que são os mais sensíveis mas também os mais activos no espaço público; e há que controlar os veículos, pois a cidade não foi feita para eles mas para as pessoas, os veículos devem ser elementos funcionais dinamizadores, e não intrusos geradores de insegurança.

A quarta ideia, que é fundamental, é associar, sistematicamente, a resolução dos problemas de carência habitacional à resolução dos problemas de falta de qualidade e de vitalidade urbanas. E isto faz-se através da introdução cuidadosa de conjuntos residenciais de interesse social que actuem como elementos duráveis, vitalizadores e enriquecedores dos respectivos contextos paisagísticos, funcionais, arquitectónicos e sociais, seja nos centros urbanos, seja nas periferias. E aqui fica clara a ligação directa e dinâmica que se propõe entre a promoção habitacional e a requalificação urbana.


No Bairro do Telheiro, S. Mamede de Infesta, num conjunto residencial de realojamento da Câmara Municipal de Matosinhos, projectado pelo Arq. Manuel Correia Fernandes, concretizou-se uma solução positivamente desenhada desde o nível urbano ao do pormenor, e que integra escala humana e urbana, adequação a quem aí habita e revitalização da zona envolvente.
A quinta e última ideia é dar a devida importância aos aspectos de qualidade arquitectónica e urbanística, considerando neles, especificamente, a integração do verde urbano, porque são aspectos fundamentais para a qualidade e felicidade do habitar, e, afinal, são aspectos que resultam de simples perguntas e respostas, tais como aquelas que em seguida servem de exemplo, referidas por Jorge Silva Melo ao pequeno conjunto comercial e residencial projectado por Chorão Ramalho para o Bairro do Restelo em Lisboa.

“Porque é que esta rua é tão humana? Porque é que a dimensão destes prédios, esta descida , tem esta luz? Porque é que esta rua é uma promessa, porque me promete ela uma cidade límpida, prática, espaçosa, calma, modesta, moderna, desinibida, visível, clara como a luz do dia,…?” Afinal não basta ordenar o espaço para se criar um ambiente interessante e motivador; o habitante também necessita de emoção na relação afectiva com o espaço urbano.

Concluindo, e citando Manuel Correia Fernandes, sublinha-se que “o modo mais natural de fazer cidade é (fazê-la) com habitação. Aliás. Cidade sem habitação não faz sentido. E quando faz, é certo estarmos a falar de cidades «únicas» e talvez nem sequer estejamos a falar da cidade dos homens. Não são essas cidades que agora nos interessam. As que nos interessam são as cidades onde vivem os homens e onde podemos ler a sua história.”

E temos de ter bem presente que “o problema da habitação se tornou o problema da cidade … um problema urbano, … de cidadania e político. Precisamos de mais arquitectura; mas, acima de tudo, precisamos de mais cidade.” (Luís Fernández-Galiano, no editorial “Vivienda sin ciudad”, saído há pouco tempo, no último número da revista espanhola “Arquitectura Viva”, centrado na temática “Piezas residenciales”)

Lisboa e Encarnação em 16 de Março de 2005

António Baptista Coelho


Redactor: José Romana Baptista Coelho
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domingo, março 13, 2005

Habitação sem cidade - Infohabitar 14

 - Infohabitar 14

O grande interesse e a oportunidade do tema leva-me a traduzir algumas partes do editorial do Arq. Luis Fernández-Galiano, intitulado “Vivienda sin ciudad” e saído há pouco tempo, tal como é felizmente hábito, no excelente último número da revista espanhola “Arquitectura Viva”, centrado na temática “Piezas residenciales”, que desde já se recomenda a todos aqueles que se interessam por estas matérias do habitar, não sendo preciso, de todo, serem arquitectos, basta apreciarem belas soluções urbanas e residenciais; e atenção que há belas soluções urbanas e residenciais portuguesas do atelier Promontório, muito bem apresentadas nesta revista.

Lisboa, Encarnação, 13 de Março de 2005
António Baptista Coelho

Habitação sem cidade


“ O problema da habitação tornou-se o problema da cidade. Durante o século XX, a transformação urbana provocada pela mecanização da agricultura e os fluxos migratórios do campo para a cidade provocaram o chamado «problema da habitação»...No princípio do século XXI, e no contexto do mundo desenvolvido, o alojamento não é já uma preocupação quantitativa ou sanitária, mas sim qualitativa e ambiental: garantidas as dimensões mínimas, a ventilação eficaz e a saudável insolação, a habitação contemporânea padece de mediocridade visual, programas rotineiros e envolventes anoréxicas.
...
É inevitável pensar que , independentemente dos nossos desejos, a degradação formal da cidade contemporânea é uma representação fiel da deterioração do organismo colectivo: um tecido doente no qual a beleza singular de algumas peças de arquitectura produz um efeito tão patético como jóias num rosto consumido.
A habitação no é hoje um problema que precise de experimentações estéticas ou inovações estilísticas; é um problema urbano, da civitas ou da polis, o que quer dizer, um problema de cidadania e político. Precisamos de mais arquitectura; mas, acima de tudo, precisamos de mais cidade.

Luis Fernández-Galiano, em “Vivienda sin ciudad”, n.º 97 da revista “Arquitectura Viva”, p. 20.


Apenas como um primeiro comentário a este óptimo texto, que merece ser integralmente lido, e não entrando no cerne da questão, diz-se apenas que mesmo as matérias do conforto funcional e ambiental acima indicadas (dimensões mínimas, ventilação e insolação), consideradas como “dados adquiridos” não o são, infelizmente, entre nós. E por aqui me fico, prometendo voltar a esta temática.
ABC

quinta-feira, março 10, 2005

Sobre as novas ferrovias - Infohabitar 13

 - Infohabitar 13

Na passada segunda-feira tive o grato prazer de ler no jornal Público um artigo de F. Almeida e Castro, que não irei aqui, nem de longe, resumir, mas apenas salientar alguns aspectos:

A Espanha tem uma bitola diferente da europeia, mas na nova rede de Alta Velocidade (AV) vai deixar de a ter, ligando-se aos traçados europeus, enquanto nós parece que pretendemos instalar uns tais "mecanismos de geometria variável" para adaptar as ditas bitolas, e, quem sabe, depois de uns anos de serviço verificar que tais mecanismos (eixos telescópicos) acabam por ter uma prestação menos adequada, não imagino sequer com que tipo de consequências.

O aproveitamento da ligação Lisboa-Porto para a nossa rede de AV não parece levar em devida conta "os encargos com a loja aberta", nem como tão bem diz Almeida e Castro, que provavelmente a AV lisboa-Porto irá retirar apenas meia hora ao tempo de percurso que fariam os Pendulares já existentes, "se os deixassem correr" e dá vontade de perguntar qual o custo dessa meia hora e se mesmo com essa meia hora a mais, e julgo que com cerca de duas horas de pendular não será já este percurso vantajoso relativamente ao feito de avião.

Um terceiro aspecto que me mereceu atenção especial no citado artigo é a importância que teria/terá, espero, uma ligação, pelo menos dupla, e claramente assumida entre Lisboa e Porto, individualmente, e os respectivos traçados mais próximos do lado espanhol; digo pelo menos pois ainda chamo a atenção para a importância que teria a ligação também por Faro, quem sabe talvez noutro tipo de "velocidade" (mas não sou especialista, nem de longe).

Termino com uma clara recomendação para lerem o artigo dp Eng. Almeida e Castro intitulado

"A alta velocidade ferroviária espanhola e Portugal - falando sério sobre coisas sérias (fim)."


Gostaria, no entanto, de meter aqui mais uma colheradazinha pessoal, não sendo, nem de longe, especialista na matéria, a ideia que tenho é que um verdadeiro projecto de AV português, que, por um lado, sirva as nossas principais zonas urbanas e também, se possível (ainda que de forma indirecta se não puder ser directamente), as nossas zonas territoriais mais desfavorecidas (estou a pensar por exemplo da Beira Interior e de Trás-os-Montes) e que proporcione ligações ibéricas e europeias funcionais e estimulantes pode ser um projecto verdadeiramente estruturante para o País, ligando-o "finalmente" a uma nova europa das culturas e da diversidade. E termino novamente com uma referência ao artigo citado quando refere que parece que não estamos interessados numa verdadeira rede de AV.
Imaginem apenas as potencialidades que teriam/espero terão ligações múltiplas de vários pólos do País através de Espanha e além Pirenéus, sobre carris, suavemente, em Alta Velocidade, deslocando-nos entre centros de cidades históricas; julgo que será "o verdadeiro sal" das enormes potencialidades do turismo europeu, só espero que então Portugal não continue a estar impossivelmente distante.

2005 - 03 - 10, Lisboa, Olivais,

Júlio Marques

quarta-feira, março 09, 2005

Dos bairros do crime ao verdadeiro problema da habitação - Infohabitar 12

 - Infohabitar 12

Sob o título “bairros de crime”

no Correio da Manhã de domingo passado, 6 de Março de 2005,o jornalista Henrique Machado traz-nos uma lista do que será uma espécie de roteiro dos “bairros sem ordem” que “fazem lembrar territórios sem lei, onde mandam os senhores do crime que trazem em pânico moradores que ainda resistem à marginalidade.”
A lista é significativa (de sul para norte): Palácio, Portimão; Bela Vista, arredores de Setúbal; Vale da Amoreira, Baixa da Banheira; Pica-pau Amarelo no Monte da Caparica, Almada; Zambujal em Alfragide, Amadora; Estrela de África e Venda Nova, Amadora; Cova da Moura nos arredores de Lisboa e várias zonas do grande bairro de Chelas (e provavelmente de outras zonas com elevados números de realojamentos/notar que este comentário entre parêntesis é meu) em Lisboa; Quintas do Mocho e da Fonte em Loures mas muito próximo de Lisboa; Ingote em Coimbra; Santiago em Aveiro; Paradinha em Viseu; e S. João de Deus e Aleixo no Porto.
Saindo do artigo este tema leva-nos muito longe e, para já, e eventualmente questionando a validade de algumas referências eventualmente não muito justas e a ausência de outras provavelmente bem devidas, aponto apenas que seria muito acertado realizar um estudo prático deste universo da nossa vergonha urbana e para ele tentar e aplicar, de forma expedita, as melhores receitas para lhes aumentar urgentemente a qualidade de vida e naturalmente lhes reduzir a insegurança e a intolerância.
E já agora tal estudo também ajudaria a não repetir os erros, como ainda vai acontecendo, embora menos frequentemente do que aconteceu, entre nós, no período entre o início dos anos 70 e meados dos anos 80.
Fica ainda uma reflexão urgente sobre quantos desses conjuntos têm dimensão excessiva, tipos de edifícios pouco adequados aos seus moradores, espaços públicos pouco acabados ou mesmo quase inexistentes, e deficientes condições de ligação à cidade, seja por reduzida continuidade urbana, seja por reduzido serviço de transportes públicos. E tudo isto é essencial para que a cidade se faça com habitação, como se tem de fazer.
E concluo com duas frases de um sábio colega espanhol, o arq. Luís Fernandez-Galiano:
“O problema da habitação tornou-se o problema da cidade”.
“A habitação ... é um problema urbano, da civitas ou da polis, isto quer dizer, de cidadania e político. Precisamos de mais arquitectura; mas acima de tudo precisamos de mais cidade.”

Lisboa, Encarnação, 09 de Março de 2005
ABC

sexta-feira, março 04, 2005

Onde acaba a identidade e começa o turismo? - Infohabitar 11

 - Infohabitar 11

Onde acaba a identidade e começa o turismo?

(a propósito de um artigo de Bruno Alves no Público de 4 de Março)

No âmbito da actividade do Grupo Habitar no respectivo blog infohabitar, salienta-se a questão acima referida, apontada pela Vereadora da Cultura de Cascais, Ana Justino, no II Fórum Ibérico sobre Centros Históricos, realizado a 3 de Março no Centro Cultural de Cascais (três dias de debate).
Onde acaba a identidade e começa o turismo?
E sobre esta questão cita-se José Noras, Secretário-geral da Associação Portuguesa de Municípios com Centro Histórico, quando disse que “o viajante não é um turista e ao viajante interessa particularmente a imagem de uma cidade desaparecida” (relembrando palavras de José Saramago em “Viagem a Portugal”) e sublinhou a importância da preservação de “toda uma memória.”
Sobre estas matérias gostaria de deixar aqui a seguinte reflexão em duas “partes”:
Parece ser fundamental articular um verdadeiro ordenamento do território com o desenvolvimento de uma actividade turística consistente e com futuro, não deveria ser possível “sofrer” certos tipos de percursos, perfeitamente destruídos na sua imagem e ambiente, para depois e finalmente se chegar a um local “turístico” e digno de atenção e fruição, esta não é a maneira certa de se dinamizar uma actividade que é provavelmente essencial para a nossa economia e, acima de tudo, para a nossa cultura e memória.
Parece ser possível e desejável reduzir a distinção entre espaço de viver e espaço de turismo, provavelmente o habitar do dia-a-dia ganha com algumas técnicas ligadas ao turismo, enquanto o turismo pode ganhar muito com alguma da qualidade espontânea e com o sentir e participar (d)a vida de comunidades residenciais positivamente caracterizadas e activas, e exemplo disto encontra-se, entre outros “centros”, no centro histórico de Guimarães.

Lisboa, Encarnação, 4 de Março de 2005

António Baptista Coelho