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domingo, outubro 18, 2015

554 - Espaços públicos e cidades amigas – II , Infohabitar 554


Infohabitar, Ano XI, n.º 554

O presente artigo – que foi editado em duas semanas consecutivas aqui na Infohabitar – regista a Palestra realizada por António Baptista Coelho, na Cidade da Praia, Cabo Verde, no âmbito do Workshop que assinalou o Dia Mundial do Habitat em, em 5 de outubro de 2015. O Workshop visou a temática “Reabilitar com Inovação e Sustentabilidade”, e foi promovida pelo Ministério do Ambiente Habitação e Ordenamento do Território (MAHOT) e pelo Instituto Nacional de Gestão do Território (INGT) da República de Cabo Verde, destacando-se, aqui, a iniciativa e o trabalho dos altos responsáveis do INGT Arq.º João Vieira (Presidente do INGT), da Dr.ª Jeiza Tavares e do Arq.º Francisco Livramento na respetiva preparação.

Ainda como nota preliminar regista-se que é, sempre, na primeira segunda-feira de outubro, que se comemora o Dia Mundial do Habitat, data escolhida pela ONU para refletir sobre a situação das cidades; sendo que o tema deste ano tem a ver com a importância das ruas e dos espaços públicos das cidades para o bem-estar e a qualidade de vida de seus moradores; e salienta-se que o evento se desenvolve durante todo o mês de outubro e culmina em 31 de outubro (Dia Mundial das Cidades)  com o tema “Cidades: Desenhadas para Conviver”.
E, julga-se que bem a propósito, lembra-se o amplo conjunto de estudos teórico-práticos sobre “Espaços exteriores em novas áreas residenciais”, desenvolvidos e editados pelo Núcleo de Arquitectura (NA) do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), há cerca de 30 anos, e cujas matérias se encontram totalmente atuais, estando alguns deles ainda disponíveis ne Livraria do LNEC;  e em breve aqui na Infohabitar nos dedicaremos a estes estudos.


A importância dos espaços públicos em áreas habitacionais para a criação de partes de cidade mais amigáveis – II

António Baptista Coelho (*)

Resumo
Regista-se a importância e a necessidade de uma adequada caraterização dos espaços urbanos de uso público, integrados e integradores de áreas residenciais, como elementos protagonistas do desenvolvimento de partes de cidade mais amigáveis e humanizadas.
Neste sentido, defende-se a necessidade do desenvolvimento de projetos urbanos com qualidade arquitetónica e bem pormenorizados, que visem a criação e a recriação (requalificação urbana) de vizinhanças habitacionais e urbanas viáveis e estimulantes, servidas por uma adequada conceção do exterior residencial.
Sequencialmente, aprofunda-se esta temática, e aborda-se a importância do exterior residencial como meio privilegiado de diversificação das tipologias habitacionais e urbanas, num processo de revisitação, reinterpretação e invenção tipológica, que é urgente assegurar e que se deseja possa proporcionar a devolução do sentido de urbanidade ao exterior residencial.

Índice (a negrito/bold e sublinhado marcam-se os temas que integram o presente artigo, os restantes temas integraram o artigo que foi editado na Infohabitar na semana anterior):
- Importância e caraterização geral do espaço de uso público
-  Projeto urbano
-  Sobre as vizinhanças habitacionais
-  Desenvolver uma adequada conceção do exterior residencial
-  Exterior residencial, como meio de diversificação das tipologias habitacionais e urbanas
-  Exterior residencial e urbanidade
-  Síntese conclusiva
(Nota: a primeira parte do artigo está editada, aqui na Infohabitar, no n.º xxxx desta revista)

Fig. 05: Travessa Sg. Abílio, Lisboa, Arq. Paulo Tormenta Pinto

Exterior residencial como meio de diversificação das tipologias habitacionais e urbanas

Importa agora salientar que o trabalho de conceção de variadas tipologias residenciais encontra no relacionamento com o espaço urbano uma excelente base de geração de velhas e novas soluções de agregação entre habitações, equipamentos, espaços de circulação e outros espaços do habitar, com destaque para os espaços de convívio.

Afinal é aqui, no mundo das transições, entre espaços exteriores, entre estes e espaços interiores e entre limiares semi-interiores e semi-exteriores, que se joga a máxima importância do exterior residencial.

Um exterior residencial e urbano que deve ser assumido como um “verdadeiro” interior urbano, e que, por isso, deve ser positivamente configurado, acompanhando e apoiando o habitante desde a entrada no bairro até à proximidade da porta do seu edifício, dando-se pleno uso a um extenso e rico vocabulário arquitectónico e urbanístico que vai desde a rua habitacional e comercial à travessa e ao pátio de vizinhança, passando pelas praças e pracetas residenciais, pelos estacionamentos ajardinados, pelas zonas verdes de enquadramento e de lazer, pelos jardins de convívio e de passeio, e pelos espaços mistos de circulação e de animação urbana.

E aqui no desenvolvimento desta estimulante rede de relações e configurações urbanas específicas estamos a trabalhar exatamente, e tal como refere Siza Vieira, na matéria-base da Arquitectura, que muito mais do que a objetos isolados se refere a uma dimensão de relações e de percursos, e não tenhamos dúvida que os melhores projectos de habitar e de urbanidade são aqueles que sabem e conseguem trabalhar positivamente esta matéria da relação, da transição, do acompanhamento, da integração, da demarcação e do limiar, ao serviço da criação de variadas sequências de vistas estimulantes e que ficam na memória e no coração dos seus habitantes, servindo-se diversos gostos de habitar e enriquecendo-se a imagem urbana.

E assim podemos imaginar passarmos de espaços ainda estrategicamente conviviais e fortemente públicos, para, depois, irmos penetrando, gradualmente, em ambientes onde há já reflexos expressivos da proximidade das nossas casas e da sua identidade específica. E é nestas sequências orgânicas e atraentemente diversificadas que conseguimos encontrar soluções históricas e inventar novas soluções tipológicas residenciais com um excelente potencial de apropriação individual e familiar e de adequação a variados modos de vida, num processo que é verdadeiro urbanismo residencial e não produção maquinal de alojamentos-tipo.

E nestas matérias da caracterização e da criação de uma paisagem urbana pormenorizada e humanizada é obrigatório citar Gordon Cullen (1), quando escreve que: “o conformismo mata, ...; a diferenciação, pelo contrário, é fonte de vida ... (p.13); e que “a composição de um conjunto urbano é potencialmente uma das mais emotivas e variadas fontes de prazer” (p.15).

Fig. 06: C. M. Matosinhos, Telheiro,  2002, f.44, Arq.º Manuel Correia Fernandes.

Exterior residencial e urbanidade


Naturalmente que o tema central nesta reflexão é a coerência e a amigabilidade e mesmo uma expressiva amabilidade dos meios urbanos, uma matéria que tudo tem a ver com uma cidade sensivelmente arquitectada e bem marcada pela urbanidade.

E usamos aqui a excelente definição de urbanidade do arquitecto Manuel de Solá-Morales (2) que nos diz que:
“Há configurações específicas, uma esquina, uma rampa de garagem, as margens de algumas vias..., elementos da cidade que são a sua matéria. Um bairro novo, um quarteirão, é uma matéria, um componente da cidade; mas podem ser elementos mais pequenos, um passeio, as cabinas telefónicas, a maneira como um edifício resolve um desnível... e resolvê-lo bem ou mal é um tema da cidade; são coisas que têm urbanidade, sentido de cidade, se são resolvidas de uma maneira positiva... O trabalho do arquitecto, do urbanista, do engenheiro é materializar essa condição urbana, e é importante pensar e acertar isto. Há que reclamar questões de qualidade, não só de grandes conceitos.”

E a urbanidade entende-se e conquista-se percorrendo a cidade caminhando, harmonizando a cidade caminhada com a dos veículos, e no caminhar lembramos sempre o “jogo” dos objectos urbanos, tão caro a Gordon Cullen, e que é fundamental na leitura e no fazer de uma cidade agradavelmente passeável e amigável, sempre renovada nas suas perspectivas, mas sempre clara na sua estruturação e plenamente arquitetada.

Fig. 07: 1990 - cooperativa As Sete Bicas, Azenhas de Cima, Matosinhos, arq.os Pedro Ramalho, Luís Ramalho

E esta plenitude projetual é essencial no exterior urbano, e aqui se lembra  Herman Hertzberger (3), que nos diz que “devemos ter cuidado para não deixar buracos e cantos perdidos e sem utilidade” pois o “arquiteto não deve desperdiçar espaço… pelo contrário deve acrescentar espaço…” (p.186) e citando Aldo van Eyck (1962) o mesmo Hertzberger sublinha ser fundamental fazer “de cada coisa um lugar” fazer “de cada casa e de cada cidade uma porção de lugares, pois uma casa é uma cidade em miniatura e uma cidade é uma casa enorme”(p.193)

Síntese conclusiva sobre espaços públicos amigáveis


E esta casa enorme leva-nos à síntese conclusiva desta reflexão em que sublinho que o que é, provavelmente, fundamental é estender, expressivamente, o sentido do habitar para além da porta de entrada de cada habitação, levando-nos a estar ali na rua, a dois passos de casa, como se estivéssemos numa espécie de outra nossa sala de estar, mais ampla, mais partilhada, mais próxima da cidade, mas ainda expressivamente amigável.
Afinal, habitar deve poder ser feito na casa de cada um e na vizinhança de cada conjunto de habitações, uma vizinhança que, por um lado, amplia a casa de cada um e que, por outro, traz a cidade até essa vizinhança.

Fig. 08: C. M. do Porto, 2007, Fontainhas 21 f., Arq.0s Helder Ribeiro e Amândio Cupido

Habita-se, assim, uma espiral contínua de níveis físicos residenciais, desde os limites de um bairro aos espaços domésticos, passando pelos agrupamentos residenciais que, desejavelmente, devem constituir sistemas de vizinhança de proximidade, coesos e atraentes em termos funcionais e visuais, através de sequências de cenários urbanos desejavelmente vivos, seguros e bem encadeados e caraterizados.

Uma caraterização do habitar baseada numa arquitetura urbana muito bem qualificada e culturalmente baseada, que não pode responder apenas a imperativos funcionais, mas também a objetivos culturais, tal como apontam tantos arquitetos como Jean Nouvel e Tadao Ando.

Afinal muitos de nós nunca acreditaram que a habitação e o habitar pudessem ser considerados  como bens de consumo funcionais; pois há muito mais no habitar para lá da funcionalidade, diria mesmo que o verdadeiro habitar começa bem para além da funcionalidade e estende-se bem para lá das portas das habitações.

E cito julgo que a propósito partes de um pequeno texto de Gaston Bachelard: "Em caixas sobrepostas vivem os habitantes da grande cidade...O número da rua e a designação do andar fixam a localização do nosso «buraco convencional», mas a nossa casa não tem nem espaço à volta dela, nem verticalidade... E o estar em casa não é mais do que uma simples horizontalidade".  (4)


Fig. 09: Bairro de Alvalade, Lisboa; urbanismo Arq.º Faria da Costa

E se queremos ultrapassar esta infeliz horizontalidade habitacional é preciso fazer bairros animados e vizinhanças atraentes, baseados num conjunto integrado de qualidades que temos de estudar e reaplicar nas novas intervenções e em ações de requalificação do espaço residencial de uso público, procurando-se criar ambientes urbanos bem articulados e hierarquizados, desde a grande escala urbana aos pequenos mundos das vizinhanças, e ambientes urbanos expressivamente humanizados em termos de uma cuidadosa e bem qualificada arquitetura urbana pormenorizada, bem aplicada aos espaços exteriores de uso público que devem integrar os conjuntos habitacionais, que, eles próprios, devem integrar e vitalizar todos os espaços urbanos.

Notas:
(1) Gordon Cullen, “El Paisaje Urbano – Tratado de estética urbanística”, Barcelona, 1977 (1971).
(2) Malén AZNÁREZ, «Reportaje: Entrevista - Manuel de Solá-Morales “Me interesa la piel de las ciudades”», in EL PAÍS.com, editado em 12.10.2008, consultado em 30.10.2008.
(3) Herman Hertzberger, “Lições de Arquitetura”, 1996 (1991).
(4) G. Bachelard, "La Poétique de l'Espace", p. 30.

(*) António Baptista Coelho
Investigador principal com habilitação (LNEC), doutor em Arquitetura (FAUP), arquiteto (ESBAL), editor da Infohabitar (http://infohabitar.blogspot.pt/), coordenador do Secretariado Permanente do Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono (CIHEL)

Infohabitar, Ano XI, n.º 554
A importância dos espaços públicos em áreas habitacionais para a criação de partes de cidade mais amigáveis – II
Editor: António Baptista Coelho 
abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional e

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.



sábado, novembro 24, 2012

417 - RUAS VIVAS: ELEMENTOS QUE FAZEM A CIDADE - Infohabitar 417

Infohabitar, Ano VIII, n.º 417



Muito provavelmente a edição da semana que vem do Infohabitar será reservada a novidades relativas à evolução da preparação do 2.º CIHEL, cujas comunicações têm chegado a bom ritmo, e a novos e importantes apoios a este Congresso. Já há dias que ultrapassámos as 100 comunicações completas entregues e está na altura de se pensar nos convites para as palestras, que irão marcar o final da tarde do Congresso.

A Comissão Organizadora do 2.º CIHEL



RUAS VIVAS: ELEMENTOS QUE FAZEM A CIDADE
Artigo XXVI da Série habitar e viver melhor
António Baptista Coelho

Disse Jaime Lerner, arquitecto que foi prefeito de Curitiba, uma grande cidade do sul do Brasil onde dinamizou um leque amplo de medidas de re-humanização e de sustentabilidade urbana e ambiental (1), que “até agora não se inventou nada melhor do que uma rua tradicional, que é a síntese de uma cidade onde todas as funções estão juntas: moradia, trabalho, lazer...”


Jaime Lerner fala-nos da cidade habitada, da cidade física que acumula, numa simples rua tradicional, aspectos tão valiosos como a síntese de funções e actividades que se aponta em seguida: a habitação diversificada; um leque de postos de trabalho; uma grande variedade de possibilidades de lazer, desde por exemplo o passear nos passeios (flanar), ao estar numa esplanada a cavaquear, ao jantar num restaurante, ali, mesmo sobre o passeio, ao ir ver um filme num cinema/estúdio; o ensino e a formação numa escola ou colégio integrados na continuidade da rua, como costumava ser; o comércio diário e ocasional, desenvolvido, também, numa verdadeira perspectiva convivial; a cultura ali, logo, seja numa pequena galeria de arte, seja na banca de uma livraria “de bairro”; a facilidade de uma consulta médica também num andar da mesma rua; e poderemos continuar a desfiar estas contas de uma rua citadina bem habitada e verdadeiramente convivial, pois é nestas ruas que passa o principal fluxo de sangue arterial de uma cidade viva e que vale a pena.


Nada desta mistura rica de actividades, ambientes e pessoas, perdeu alguma viabilidade ou algum sentido nesta nossa nova época de megacidades e de economia globalizada e pontuada por grandes áreas de serviços automobilizadas. E quem tenha alguma dúvida sobre esta realidade bastará viver um pouco uma daquelas ruas bem vivas de um daqueles bairros bem vivos, que, felizmente, ainda marcam as nossas cidades, para interiorizar a importância que tem e que terá este fazer cidade com ruas vivas.


E só desta forma, com ruas assim, vivas e estimulantes, a cidade se poderá cumprir como “refúgio da solidariedade, nossa garantia e salvaguarda”, novamente palavras de Jaime Lerner na mesma entrevista, afinal um papel que assume uma importância renovada e muito especial em tempos de crise.



Fig. 1

Mas fazer cidade humanizada, porque marcada por ruas vivas e solidárias, não é, hoje em dia, um objectivo simples. Todos sabemos disso, porque todos conhecemos muitas ruas, que de ruas quase só têm o nome na placa toponímica, quando a têm. São ruas sem continuidade urbana, sem habitação vitalizadora, sem actividades diversificadas, sem ligações activa à cidade viva e sem uma escala formal e funcional que esteja, verdadeiramente, ao serviço do homem a pé, e de uma comunidade humana local, pelo menos, minimamente solidária e naturalmente convivial.

E é tão grave e, realmente, tão estranho este facto, desta ausência de ruas que sejam amigas do homem e sítios de cidadania, que, começa a haver um número crescente de estudiosos, técnicos e organizações técnicas e científicas (2) que se dedicam à redescoberta da cidade e da rua citadina como sítio que, antes de circuito para automóveis, foi e tem de voltar a ser sítio de homens a pé, sítio de convívio e local de vida urbana positiva. E, desde já se esclarece, que aqui não se está a voltar a seguir a perspectiva, que teve alguns amargos frutos, de uma pedonalização solta da vida urbana, mas sim um privilegiar consistente e vitalizado do uso da cidade pelo homem, servindo-se, funcionalmente, do automóvel e de todos os outros meios, com destaque para os transportes públicos amigos do ambiente, que sejam factores aliados para uma fundamental (re)vitalização urbana.


E nesta matéria parece oportuno citar Nuno Portas (3), quando referiu que: “nem uma cidade de comunidades, hoje, substitui a metrópole, nem a metrópole,... pode passar sem os outros níveis de relação que não são os bairros transformados em equivalentes a aldeias tradicionais... a cidade não é mais igual, não pode ser igual. ... A procura é diversa. A procura cultural é diversificada, não há consenso no modelo para fazer isso. Por isso é que me parece estratégico falar no espaço comum. Tentar encontrar mais depressa o consenso sobre o espaço comum, em vez de ter uma grande preocupação sobre o consenso quanto ao edificado".


Um consenso sobre o espaço comum, que pode ser um consenso sobre os aspectos fundamentais de uma rua viva e solidária, e, já agora, uma rua bem desenhada e estruturada, pois, tal como disse, há muitos anos, Etienne de Gröer: "Avenidas que não conduzem a nada e cuja grande largura não corresponde a nenhuma função são sempre desertos cheios de poeira" (4).


E o mesmo Gröer considerava uma rua enfadonha se durante uma extensão maior do que 500m não houver nenhuma mutação (largura, direcção, altura dos edifícios); e sobretudo se a rua não estiver guarnecida por árvores ou jardins frontais (5); e repare-se na riqueza da paisagem urbana que assim se pode atingir.



Fig. 2

Numa fundamental redescoberta do fazer um espaço público e uma rua com vida, atractividade e qualidade cultural, que é o mínimo que há que fazer, importa ter o máximo cuidado para não laborar em erros, que podem ser críticos, sendo fundamental que, num primeiro nível de exigência, se assegurem as melhores condições de continuidade e vitalidade nos percursos pedonais estruturadores; condições estas que se ligam à dinamização de rirmos de percurso, sugeridos nos pavimentos e nas próprias fachadas urbanas que acompanham esses percursos (6).

Os percursos pedonais têm exigências funcionais bastante rigorosas, quando se deseja obter a sua máxima vitalização (7), e importa favorecer a sua estratégica articulação com os fluxos de veículos, considerando-se fundamental que nas vizinhanças residenciais seja instituída uma predominância do peão, embora tirando-se o máximo partido das funcionalidades ligadas aos veículos, por exemplo através de ruas e pracetas com tráfego "banalizado", portanto, misto (peões e veículos), caracterizadas por uma forte variação das características funcionais dos perfis transversais, nomeadamente, no caso das faixas de circulação de veículos, obrigando-os a frequentes manobras a baixa velocidade, para além de serem desenvolvidas apenas pequenas bolsas de estacionamento, e tudo isto num quadro de prioridade pedonal.


Todas estas condições são verdadeiramente estruturantes na criação de espaços de vizinhança residencial marcados pela agradabilidade nos seus mais diversos aspectos – desde a reduzida presença visual dos veículos ao sossego e naturalmente à segurança pedonal e rodoviária; considerando-se que estas condições serão, consequentemente, geradoras de mais satisfação com o sítio que se habita.


Há, no entanto, que referir que ao subirmos no jogo da cidade para espaços e sítios específicos onde a habitação se caldeia e se agrega, com benefícios mútuos, com outras actividades do habitar a cidade, como lojas e serviços, há que ter muito cuidado com a prioridade ao peão, julgando-se ser preferível que aqui ela se “refugie”, quer em passeios largos, quer numa estrutura “clássica” ortogonal de vias frequentemente marcadas por passadeiras, quer numa relação intensa com um leque o mais possível amplo de transportes públicos. Desta forma se garantirá, simultaneamente, segurança e vitalização pedonal e, consequentemente, teremos os principais ingredientes para as desejadas ruas vivas.


Jane Jacobs abordou várias matérias essenciais para esta desejada harmonização de tráfegos, numa perspectiva de cidade vitalizada (8), destacando-se aqui, apenas, algumas suas afirmações, que não precisam de comentários:. “a separação entre peões e veículos só é possível contando-se com a redução estrondosa do número de veículos nas cidades, de contrário os estacionamentos, as garagens e as vias de acesso à volta das zonas pedonais … seriam medidas de desintegração e não de recuperação urbana” (p.383);

. “a vida atrai a vida, a separação dos pedestres não pode ser capricho (p.388);
. “ocorre pressão (positiva) sobre os automóveis quando se criam condições (de acalmia de tráfego) menos favoráveis para eles... a redução de automóveis tem de ser medida de base, mas ligada ao estímulo do uso do transporte público, e a pressão da cidade sobre o automóvel não pode ser arbitrária nem negativa e tem de ser uma medida gradual e com um amplo tempo de aplicação” (p.404);
. e, finalmente, “(mais do que zonas pedonais) calçadas largas são imprescindíveis… filas duplas de árvores… (p.405).



Notas:


(1) Rui Barreiros Duarte (entrevistador), “Acupunctura urbana – entrevista com Jaime Lerner”, Arquitectura e Vida, n.º 39, 2003, pp. 38 e 43.


(2) Por O Project for Public Spaces é uma organização não lucrativa de apoio técnico que já ultrapassou 30 anos de actividade, que apoia espaços públicos indutores de convívio sustentado e de espírito comunitário. A forma de actuação do PPS implica os moradores e utentes na (re)criação de uma dada visão dos sítios de vida comunitária, numa perspectiva de melhorias faseadas. A actuação do PPS baseia-se nas metodologias desenvolvidas por William White e designadamente numa cuidada e sistemática documentação da vida local, procurando envolver o mais possível os protagonistas locais.


(3) Nuno Portas, in "Colóquio Viver (n)a Cidade", LNEC, ISCTE, Comunicações, p. 9.


(4) Etienne de Groer, "Introdução ao Urbanismo", p. 61.


(5) Etienne de Groer, "Introdução ao Urbanismo", p. 65.


(6) Christian Norberg-Schulz, "Habiter", p. 25.


(7) As exigências fundamentais de caminhos pedonais são as seguintes (M. A. Boyer, in "Espaces Extérieurs Urbains, Rencontres du Centre de Recherche d'Urbanisme", J. P. Muret (Coord.), pp. 171 e 172): distância mais curta entre dois pontos, do que usando veículo particular; tempo de percurso inferior a 10 minutos em zona de actividades densa; continuidade urbana máxima; piso confortável e bem iluminado à noite; marcação de "unidades de percurso", dividindo o caminho em unidades mais curtas, que podem variar entre 50 e 150m, conforme a inclinação seja, respectivamente, forte ou praticamente nula.


(8) Jane Jacobs, “Morte e vida das grandes cidades” , trad. Carlos Mendes Rosa, 2001 (1961).






Notas editoriais:


(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.


(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.


(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.






Infohabitar a Revista do Grupo Habitar


Infohabitar, Ano VIII, n.º 417


Artigo XXVI da Série habitar e viver melhor


Editor: António Baptista Coelho


Edição de José Baptista Coelho


Lisboa, Encarnação - Olivais Norte


sexta-feira, novembro 02, 2012

414 - 3.º Congresso Habitação Social, 2.º CIHEL e artigo “Sítios singulares” Infohabitar - Infohabitar 414

Infohabitar Ano VIII, N.º 414"Sítios singulares"Artigo XXIV da Série habitar e viver melhor
(Artigo da semana, editado a seguir às notas informativas)


Notas informativas Infohabitar:

3.º Congresso de Habitação Social, Lisboa,
8 e 9 de novembro de 2012
Para quem ainda não saiba vai acontecer já daqui a menos de uma semana o 3.º Congresso de Habitação Social, sobre o tema geral: Repensar a Habitação Social – Necessidade ou Oportunidade?

O 3º Congresso de Habitação Social é organizado pelo CECODHAS.P - Comité Português de Coordenação da Habitação Social.
No site do Pelouro da Habitação de Lisboa poderão encontrar as devidas informações- http://habitacao.cm-lisboa.pt/?no=151000100762:072012

A ficha de incrição (gratuita mas obrigatória) e o programa estão disponíveis em http://www.cecodhasp.org/index.php/inscricoes

O Congresso decorrerá nos próximos dias 8 e 9 de Novembro de 2012, em Lisboa, no ISCTE – IUL e como objectivos destacam-se: Promover momentos de reflexão e debate entre os vários actores no Sector da Habitação Social; Enriquecer o debate sobre esta matéria, num momento em que se verificam significativas alterações legislativas; Proporcionar encontros entre os diversos actores, nomeadamente entre os decisores políticos e os técnicos; Proporcionar a apresentação de boas práticas e de projectos feitos pelas várias entidades gestoras de Habitação Social; Potenciar a criação de laços entre os investigadores/academia e as instituições, de forma a promover a realização de estudos e proporcionar oportunidades de investigação às Universidades;



2.º CIHEL
A todos os interessados lembra-se que as inscrições no 2.º Congresso Internacional da Habitação no Espaço Lusófono – 2.º CIHEL – estão já abertas em inscricoes2cihel@lnec.pt podendo as condições ser consultadas no site do 2.º CIHEL, em http://2cihel.lnec.pt/2cihel.html , e a ficha de incrição facilmente acessível no referido site e aqui em http://2cihel.lnec.pt/fi_2CIHEL.doc

Lembra-se a todos os autores de comunicações a aproximação do prazo final de entrega das mesmas, no dia 12 de novembro de 2012, e que os autores cujos resumos foram aprovados sem indicações de reformulação deverão realizar, desde já, a respectiva inscrição no Congresso.



ARTIGO DA SEMANA - ARTIGO DA SEMANA

Sítios singulares
Artigo XXIV da Série habitar e viver melhor


António Baptista Coelho

A construção de uma Arquitectura Urbana e do Habitar estimulante, porque harmonizada com as boas medidas do homem e bem reflectidas nas boas medidas da cidade e das vizinhanças que a compõem, nunca será possível em espaços urbanos monótonos e descaracterizados.

Não devemos pensar na cidade habitada como um sítio de diversidade obrigatória ou “pictórica”, mas temos de a pensar em termos de sequências de sítios com alguma singularidade e, mesmo, pontualmente, com expressiva singularidade.

Esta qualidade do que é singular, mas que o é com expressiva naturalidade, sem quaisquer tipos de protagonismos que, depois, se iriam anular mutuamente numa muito negativa cacofonia visual e ambiental, é uma qualidade que tem de ser, evidentemente, manejada com grande cuidado, mas que pode advir, por exemplo, simplesmente, de uma posição bem memorizável num dado conjunto urbano – uma posição singular porque bem marcada – ou pode decorrer de uma caracterização formal e funcional pouco frequente ou “única” – caracterização esta que pode ser global ou estar, eventualmente, associada a aspectos de pormenor estrategicamente evidenciados.

Considera-se que estas matéria do como estudar, isolar, caracterizar, coleccionar, aplicar e avaliar posteriormente a utilização deste tipo de “objectivos de singularidade”, passa pelo tipo de processos que acabaram de ser referidos e trata-se de uma matéria que importa resgatar, urgentemente, de um “sótão” de temas de Arquitectura Urbana que têm sido sistematicamente esquecidos e menosprezados, desde há bastantes anos, pelas mais diversas razões, algumas delas com certeza verdadeiras, mas outras tantas sem qualquer sentido e que acabaram por gerar, tão frequentemente, um “não urbanismo” frio, pobremente funcionalista, sem identidade e sem capacidade para geral atracção e apropriação.



Fig. 1

E avança-se, ainda, que o que se defende não é qualquer tipo de urbanismo mais ou menos pitoresco, mas sim uma Arquitectura Urbana, bem pormenorizada, bem desenhada, adequadamente concebida em termos das referidas escalas humanas e urbanas, culturalmente dialogante e que, evidentemente, continue a garantir as mais diversas e adequadas exigências de funcionalidade e de segurança; e pode-se mesmo comentar que ao juntar a esta últimas o referido sentido de bom desenho e de identidade, talvez até a funcionalidade seja redinamizada, por exemplo, através de uma atracção, que gera mais uso, que geral mais convívio e actividades, que, por sua vez, geram mais atractividade.

Evidentemente que os perigos de algum “decorativismo” ou excessivo sentido de um pitoresco centrado em si mesmo e pouco ou nada coerente em termos de ligações funcionais e culturais, são perigos reais neste caminho de concepção urbana de pormenor que é aqui comentado; e trata-se de matérias a que importa dedicar uma atenção específica e desenvolvida, que aqui não será possível. Mas lembremos, apenas, com brevidade, alguns aspectos de enquadramento do assunto.

Um destes aspectos refere-se a ser um caminho de concepção que exige uma muito apurada qualidade de projecto, uma qualidade que, há que o dizer, só estará, provavelmente, à altura da capacidade de intervenção de um número limitado de projectistas, apenas um pequeno grupo será capaz de manejar estes objectivos de Arquitectura Urbana e Residencial atractiva, “orgânica”, estimulante, bem radicada, e funcionalmente fundida e adequada, sem se comprometer uma qualidade de desenho apurada e “estruturalmente” marcada por uma adequada sobriedade e dignidade urbanas.

E ainda nesta linha de raciocínio importa ainda referir que se julga que mesmo este fundamental apuro na escolha de projectistas que sejam capazes de fazer uma excelente Arquitectura Urbana e Residencial, nos moldes atrás apontados, tem de ser adequadamente ponderado no sentido em que haverá excelentes Arquitectos de edifícios, que talvez não sejam tão excelentes Arquitectos Urbanos, sendo que a situação contrária também sem dúvida acontecerá.

Mas o que importa aqui sublinhar é que se julga que o fazer uma excelente Arquitectura Urbana e Residencial ou Arquitectura da Cidade e do Habitar, é algo que exige mesmo muito de quem projecta; e podemos acrescentar deveria também exigir muito de quem as irá habitar, no sentido, primeiro, de uma informação adequada sobre toda a qualidade que é possível ter/viver e a custos bem controlados, e, depois, de uma exigente afirmação de patamares qualitativos que têm mesmo de ser garantidos pela concepção e execução das intervenções. E este trabalho com quem habita está ainda muito por fazer, sendo essencial para garantir a referida qualidade global e pormenorizada.

Outro aspecto de importante enquadramento deste assunto que visa o enquadramento qualitativo de uma adequada concepção urbana de pormenor atraente e estimulante é que esta matéria tem igual aplicação, seja em novas intervenções, seja em acções de reabilitação, reforma e/ou preenchimento do tecido urbano preexistente.

Mas não ficaríamos bem connosco próprios, em termos de um sentido de adequada análise tecnico-científica das possíveis opções existentes nesta smatérias, se não se referisse que será muito importante retirar comentários e conclusões sobre uma já extensa actividade de Arquitectura Urbana pormenorizada, que tem vindo a ser desenvolvida pelo movimento designado de “New Urbanism”, em diversos países do mundo e designadamente nos EUA.

Não se está a defender este caminho mas sim a propor-se o conhecimento pormenorizado do que de mais significativo tenha sido já feito no âmbito de quem segue esta tendência do “Novo Urbanismo”, no que se refere ao leque de objectivos que têm sido apontados nos últimos parágrafos deste texto. E recorda-se que este movimento opta, frequentemente, pelo recurso a arquitectos muito conhecidos e a uma, por vezes, “férrea” gestão urbana, ao serviço da construção de verdadeiros “cenários” – por vezes temáticos - de vida diária.

E lembremos um dos mentores deste movimento/corrente, Andres Duany (2003) (1), apontou que o desenho urbano pode ser considerado como verdadeira arte cívica, o que é, sem dúvida, uma perspectiva com grande interesse.

Concluindo esta reflexão refere-se que este movimento/corrente terá baseado, provavelmente, parte das suas raízes num conjunto de pequenas “escolas” de urbanismo de pormenor, entre as quais os “Housing” e “Urban Design Guides” ingleses terão tido uma importância significativa.

E, vai daí, lembra-se que talvez na base destes “Guias”, cujos resultados seria também muito importante conhecer, após algumas dezenas de anos de aplicação, estarão, sempre, e naturalmente os tão incontornáveis, como injustamente pouco divulgados, trabalhos de Gordon Cullen e designadamente a sua “Paisagem Urbana” (1971) (2). Um guia de fazer “paisagem urbana” que, hoje em dia, poderia/deveria ser “readaptado” para se refazer e recuperar boa parte de toda a nossa paisagem urbano-rural.

Realmente, para o aprofundamento da qualidade do desenho, da caracterização e da criação de uma paisagem urbana pormenorizada, há que ter em conta e aqui recordar, ainda que “telegraficamente”, Gordon Cullen o fundamental Cullen, como uma autoridade que abordou de forma natural, mas essencial, a qualidade do desenho e da imagem, um relembrar aprofundado que se impõe; e Cullen ainda hoje, ou especialmente hoje, abre-nos caminhos vitais de estudo/projecto nesta área da Arquitectura Urbana e Residencial bem promenorizada e desenhada: lembremos, portanto, algumas palavras de Cullen referidas à sua “A Paisagem Urbana – Tratado de estética urbanística”:

• “Será possível manipular todos os matizes de escala e estilo, de materiais e cor, de carácter e individualidade e, justapondo-os, criar algo que seja verdadeiramente proveitoso para a colectividade” (p.12).

• “As estatísticas são coisas abstractas; ao ser transportadas para planos e depois os planos convertidos em edifícios, o resultado carece de vida. O resultado não será mais do que um diagrama tridimensional, no qual se exige que a pessoa humana viva” (p.12).

• “O conformismo mata, aniquila; a diferenciação, pelo contrário, é fonte de vida ... E tudo é unificado pelo fogo e pela vitalidade da imaginação humana, e assim torna-se possível fazer habitações para homens” (p.13).

• “A questão essencial é que na opinião do público o planeamento oficial é frio, técnico e estéril, enquanto que na minha opinião uma boa planificação não é senão uma rua ampla e direita, com árvores de copa recortada dos dois lados... e basta! E tudo é bem diverso. A composição de um conjunto urbano é potencialmente uma das mais emotivas e variadas fontes de prazer” (p.15).

• “Em primeiro lugar, há que «forçar» a paisagem urbana, é difícil manter um princípio geral e, em vez disso, é mais fácil acarinhar o particular. Subdividindo o conjunto nas partes componentes” (p.16).

• “A paisagem urbana constrói-se de duas maneiras. Primeiro, objectivamente, através do senso comum e da lógica, baseados nos benévolos princípios da riqueza, da amenidade, da experiência e da privacidade ... Qual a base de partida? A única possível é estabelecer a forma com a qual o ser humano estabelece contacto com o que o rodeia. Clara e sobriamente, afirmando-se....(um sistema de relações)... Ao criar um sistema, devemos procurar essencialmente organizar o campo de tal forma que os fenómenos urbanos se integrem logicamente” (p. 194 e 195).



Fig. 2

Mas nesta matéria não seria possível deixar de lembrar outro autor que também trouxe estas matérias para a primeira cena do urbanismo, já há bastantes anos: trata-se como é evidente de Kevin Lynch, que aliás, julga-se, partilha com Cullen diversas considerações estruturantes.

E assim e de acordo com o clássico estudo de Kevin Lynch sobre a imagem urbana (e lembremos que Cullen escreveu e desnhou sobre “paisagem urbana”), esta concretiza-se em cinco tipos fundamentais de elementos: (3)

• as vias, canais ao longo dos quais as pessoas se deslocam habitual, ocasional ou potencialmente;

• os limites, elementos lineares que as pessoas não usam ou consideram como vias, e que constituem fronteiras, soluções de continuidade e elementos de referência;

• os bairros, partes da cidade com um tamanho tão grande, que caracterizam um espaço tridimensional onde podemos penetrar mentalmente, reconhecendo um carácter geral bem identificável;

• os nós, que são pontos e locais estratégicos da cidade onde podemos penetrar, pólos que dão origem e destino às nossas deslocações, sendo, naturalmente, confluências de vias e estruturando acontecimentos singulares ao longo delas, assumindo-se, por vezes, em pólos de animação dos bairros;

• e, finalmente, os pontos de referência, que são referências pontuais, externas ao observador (ex., edifício singular, anúncio muito evidente, loja característica, montanha dominante, etc.), longínquas ou marcando, directamente, constantes direccionais, percursos e sequências de vistas.

E Lynch remata este seu modelo de imagem urbana, referindo que é preciso modelar estes elementos conjuntamente, para que se possa atingir uma forma urbana consistente, através de grupos de elementos semelhantes ou distintos, que se reforcem mutuamente, e que, podemos provavelmente concluir, ao se integrarem e reforçarem constroem uma imagem unitária que dificilmente será igual a qualquer outra.

E tomando estas ideias de modelação conjunta e mutuamente reforçada de elementos sempre ao serviço de uma forma urbana e habitada consistente, será sempre oportuno relembrar algumas das muitas e preciosas lições de Herman Hertzberger (1991): (4)

• “A arquitetura deve ser generosa e convidativa para todos, sem distinção… O arquiteto é como o médico … deve simplesmente providenciar para que aquilo que pratica faça com que alguém se sinta melhor” (p.267).

• “Devemos ter cuidado para não deixar buracos e cantos perdidos e sem utilidade, que como não servem para nenhum objetivo, são «inabitáveis». Um arquiteto não deve desperdiçar espaço… pelo contrário deve acrescentar espaço… também em lugares que em geral não despertam atenção, isto é, entre as coisas” (p.186).

• “Onde quer que haja desperdício de espaço para o trânsito, os edifícios se tornam isolados, distantes entre si, isso faz com que seja impossível que o espaço urbano evolua organicamente” (p. 192).

• (e ainda Hertzberger, p.193, citando Aldo van Eyck): “Faça de cada coisa um lugar, faça de cada casa e de cada cidade uma porção de lugares, pois uma casa é uma cidade em miniatura e uma cidade é uma casa enorme. O espaço deve ser articulado para criar lugares… quanto mais articulação houver, menor será a unidade espacial, e, quantos mais centros de atenção existirem, mais o efeito total será individualizante.”

Sequencialmente e para rematar, para já, este tema que partiu da ideia “sítios singulares”, para rematar na estruturação da imagem/paisagem urbana habitada, há ainda que apontar que sítios singulares devem ter vitalidades singulares, uma condição que pouco terá a ver com previsões uniformizadas de equipamentos, previsões estas que, tal como sabemos, só por acaso se cumprem numa cidade viva e caracterizada e numa cidade de hoje em dia, tantas vezes em crise e/ou mega e informal.

Mas atenção, por mais liberais que possamos ser nesta forma de pensar a cidade habitada é fundamental que não existam vizinhanças residenciais desmunidas de espaços de equipamento conviviais e de primeira necessidade, como é o caso do “café de esquina” e da pequena loja de conveniência que terá um pouco de muita coisa; esta exigência é fundamental numa perspectiva de humanização e vitalização da cidade, permitindo que ela viva com razoável autonomia em cada uma das suas vizinhanças, mas é uma exigência que tem de ser cumprida com especificidade e singularidade em cada sítio, condição esta que nada tem a ver com as estereotipadas previsões de equipamentos, e que tem até muito a ver, por exemplo, com um comércio mais caracterizado e potencialmente vitalizado e vitalizador.

Notas:
(1) Andres Duany, Elizabeth Plater-Zyberck e Robert Alminana, “New Civic Art : Elements of Town Planning”, 2003.
(2) Gordon Cullen, “El Paisaje Urbano – Tratado de estética urbanística”, Barcelona, 1977 (1971).
(3) Kevin Lynch, "L'image de la Cité", pp. 53 a 55 e 97 a 98.
(4) Herman Hertzberger, “Lições de Arquitetura”, 1996 (1991).

Notas editoriais:
(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.
(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.
(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.



Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Infohabitar, Ano VIII, n.º 414
Sítios singulares - artigo
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte

sexta-feira, outubro 26, 2012

413 - AS MEDIDAS DO HOMEM E AS MEDIDAS DA CIDADE: SOBRE A NATUREZA DO HABITAR - Infohabitar 413

Infohabitar Ano VIII, N.º 413

AS MEDIDAS DO HOMEM E AS MEDIDAS DA CIDADE: SOBRE A NATUREZA DO HABITAR
Artigo XXIII da Série habitar e viver melhor

António Baptista Coelho



Índice

• Introdução às "medidas do homem” e às “medidas da cidade”

• Breves reflexões sobre a actual pobreza e limitação do "jogo tipológico" habitacional e urbano

• Casas mais, ou menos, adequadas às várias “medidas” do homem e a possibilidade de um "livro de horrores"

• Sobre a crucial importância dos outros espaços do habitar não-funcionais e de aspectos não-dimensionais

• Mistura essencial de quantidades e qualidades no habitar e na cidade

• Sobre os habitantes mais sensíveis

• E no fim e no princípio a imagem urbana, como quadro ou ferramenta essencial da construção das escalas/medidas humana e urbana


Introdução às "medidas do homem” e às “medidas da cidade”

Relativamente a estas “medidas do homem” e a estas “medidas da cidade”, que fazem título do artigo, coloca-se, logo, a questão de serem duas “medidas” clara ou razoavelmente distintas ou, serem, “apenas” duas respostas, que, para serem adequadas têm de ser/estar intimamente conciliadas?

Martin Wynn aponta que ao longo de muitos anos as casas foram sendo pensadas e construídas para uma família-tipo “média”, não se oferecendo respostas habitacionais adequadas para famílias menos correntes, assim como, habitações adequadas ou adaptáveis para idosos, jovens, pessoas sós, famílias numerosas, deficientes, trabalhadores móveis, e, muito provavelmente, mais alguns grupos de habitantes cujas características humanas e sociais se afastem, um pouco, ou substancialmente, do habitante “médio”(1), que, afinal, nunca existiu.

Dois aspectos podemos acrescentar, facilmente, a esta reflexão de Martin Wynn, o primeiro é que, hoje em dia, é muito significativa a falta sentida relativamente a essas habitações que não aquelas feitas para a “famosa”, e hoje em dia talvez quase inexistente família “média” (2), e o segundo aspecto é que esse tipo de considerações são extensíveis ao exterior residencial, e, nomeadamente, ao que constitui as vizinhanças contíguas aos edifícios.

E Wynn, há já 24 anos sublinha-se, salientava ainda mais alguns aspectos, que continuam a marcar pela grande actualidade: "A crise habitacional actual tem no seu coração exigências quantitativas e qualitativas convergentes. As pessoas nas áreas urbanas querem mais espaço interior e exterior (aberto). Querem cidades mais verdes e casas que consumam menos energia. Querem melhor acessibilidade ao trabalho, melhores serviços sociais e mais lojas..." (3)

E concluindo, em termos práticos, hoje em dia a oferta residencial tem de diversificar em termos de conteúdos funcionais e ambientes domésticos e comuns, proporcionando casas muito mais, literalmente, à medida do “homem” que realmente precisa de casa e não de um homem e de uma família médios e praticamente inexistentes.



Fig.01

Breves reflexões sobre a actual pobreza e limitação do "jogo tipológico" habitacional e urbano

E, antes de continuar a reflexão, importa ainda registar, um pouco a modos de "mea-culpa", que os próprios projectistas têm considerado o "jogo tipológico" do habitar e da cidade de uma forma que é, por regra, extremamente passiva e/ou incipiente, com os mais diversos tipos de justificações, uma talvez mais válidas do que outras: desde a simples inércia, até não justificada, que aceita as tipologias existentes (ex., do direito-esquerdo, ao unifamiliar isolado) como uma realidade preexistente e imutável, até justificações, que o autor destas linhas considera extremamente discutíveis e mesmo negativas, onde se associa o habitar a um "produto habitacional", modelado por exemplo com referências à indústria automobilística, e em que os "modelos" de habitar são "oferecidos" ao quadro de procura existente e cada um escolherá o mais adequado para si e para os seus, e ainda numa fase mais aguda desta opção, aceitando-se que o próprio quadro habitacional aceite uma perspectiva de rotação por obsolescência e até eventualmente por mutação de modas, semelhante ao da insdústria automobilística e quem sabe, tendencialmente, ainda em períodos mais curtos (estamos naturalmente a exagerar); no entanto e naturalmente estes caminhos teriam de passar pelo aprofundar de uma crítica e talvez mesmo absurdo padronização das condições de habitar a um espartilho de meia dúzia de modelos, situação esta que nem se conjuga com a situação actual de existência de um amplo parque habitacional que precisa, em grande parte, de cuidados de reforma física, funcional, ambiental e, talvez quase em primeiro lugar, em termos de "partido" habitacional e urbanístico.

Mas respeitam-se natural e profundamente todas as opiniões expostas e aqui sumariamente apontadas, considera-se que é urgente e vital a facilitação e simplificação de soluções de intervenção habitacional e urbana, que têm de passar por uma fundamental "industrialização", mas considera-se que tais cuidados devem ser dirigidos para aspectos mais delimitados e claramente tipificáveis e naturalmente replicáveis, como por exemplo soluções de fenestração, de compartimentação, de vãos interiores, de arrumação, de versatilidade em termos de mobilariedade e equipamento doméstico, etc.

E não deixa de se fazer aqui uma referência importante a considerar-se que será tempo de podermos ser mais inovadores e até, quem sabe, um pouco iconoclastas numa renovada abordagem ao (re)habitar urbano; matéria esta que naturalmente tem ligações sensíveis com múltiplos aspectos de regulamentação.


Casas mais, ou menos, adequadas às várias “medidas” do homem e a possibilidade de um "livro de horrores"

Voltando então ao tema específico que se estava a tratar, e lembrando essa difícil e sensível procura dos aspectos e dos caminhos de casas mais adequadas às várias “medidas” do homem – umas físico-funcionais, outras psico-ambientais e ainda outras mais especificamente arquitectónicas –, uma opção é ir aprendendo sabiamente com os erros, embora tal sabedoria não seja regra, muito pelo contrário.

E nestas matérias críticas e sempre vitais, em termos de novas operações e de intervenções de reforma do existente, seria, realmente, oportuna uma colectânea que registasse não só que se pode considerar serem as melhores soluções de habitar e de cidade, provadas por dezenas de anos de um uso/habitar que se traduz em estima e até melhoria do respectivo quadro físico, mas que também registasse o que se tem provado serem aspectos e características de casas e bairros que fazem os habitantes insatisfeitos e, frequentemente, infelizes; nesta última opção, uma espécie de pequeno “livro de horrores”de casos habitacionais concretos, aplicando-se, naturalmente, aqui o termo num sentido um pouco figurado - e um dos passos necessários para constar de tal livro seria, por exemplo, tratar-se de um caso já demolido e sobre o qual se tivesse feito um estudo adequado das respectivas razões de insatisfação.

Naturalmente que um dos casos primeiros a constar de uma tal, possível, colectânea é o conjunto de habitacional de Pruitt-Igoe, inaugurado em 1954 e uma solução de Arquitectura ganhadora de prémios arquitectónicos, que foi implodida em 1972, apenas 18 anos depois de inaugurada. Em Portugal e no LNEC Luís Soczka estudou este caso e refere que a zona se tinha transformado em "um autêntico inferno, com uma subida em flecha dos actos de vandalismo contra pessoas e bens, e crescentes sentimentos de medo e infelicidade por parte dos residentes". (4)

Deixemos, para já a ideia, desse pequeno “livro de horrores” e continuemos em Pruitt-Igoe, a tal zona que estava a gerar “sentimentos de medo e infelicidade” (o sublinhado é meu), diz Soczka, porque aí se falhou, quer por inadequado conhecimento dos futuros residentes, quer mesmo na matéria da Arquitectura pela ausência de espaços de vizinhança que fizessem a relação e a transição entre o anonimato do espaço citadino e a privacidade de cada habitação, espaços esses onde houvesse equilíbrios de consenso e dignidade, mas também alguma capacidade de apropriação, identidade e desenvolvimento de algum sentido de pertença a comunidades razoavelmente conhecidas.

Escreveu Luís Soczka que faltavam "esses espaços que não são tão privados como a casa de cada um, nem tão públicos como uma estação de comboios. São os espaços dos «nós», onde uma micro-comunidade assente na teia cúmplice das vizinhanças constrói uma identidade colectiva e actuante como suporte social no quotidiano, tal como nas aldeias". (5)



Fig. 02

Sobre a crucial importância dos outros espaços do habitar não-funcionais e de aspectos não-dimensionais

A medida justa do habitar, entre homem e urbe, faz-se também e fortemente em espaços, cuja funcionalidade até, praticamente, nem importa, espaços estes que continuam a ter plena justificação nesta época da globalização, tal como defende William Mitchell (2000) (6), que lembra quando, na história do homem, o espaço junto ao poço perdeu a sua função e se inventaram outros sítios urbanos conviviais como o café, e que defende que a história se repete, hoje em dia, quando, cada vez mais fechados nas nossas casas e na web, precisamos urgentemente de (re)inventar os espaços públicos citadinos, os tais que são sede de potencial convívio vicinal e urbano, e é o mesmo Mitchell (2003) (7), um ardente defensor da era digital, que, assim, associa esta era à defesa de um urbanismo baseado no respeito pelo “espírito do lugar”, valorizando os aspectos culturais e mesmo cénicos, que são específicos de cada sítio: portanto, um urbanismo do pormenor ou uma verdadeira e estimada Arquitectura Urbana, e aqui o termo estima liga-se ao cuidado que a ela importa dirigir por quem a projecta, e ao cuidado que a ela dirige quem a habita, matéria esta última que deverá ter prolongamentos/apoios em termos de divulgação/informação.

Sobre a pormenorização da arquitectura urbana há que sublinhar que ela deve servir, em termos globais, as “medidas do homem”, seja em aspectos mais conhecidos de satisfação e insatisfação, seja relativamente ao sentido de segurança, seja nas questões de acessibilidade, seja no apoio aos habitantes mais “frágeis” – crianças e idosos – , seja numa adequação aprofundada relativamente ao modo como observamos os espaços mais próximos da nossa casa.

Será aqui oportuno referir que a satisfação residencial é, com frequência, associada, respectivamente, e em ordem de decrescente de importância, aos seguintes tipos de aspectos, sublinhados por Ekambi-Schmidt (8): (i) orientação, (ii) claridade e insolação; (iii) dimensionamento; (iv) isolamento físico e social; (v) conforto; (vi) tranquilidade ambiental; (vii) sentido de abertura e carácter de ambiente acolhedor.

E não é possível deixar de referir aqui que "apenas" a interpretação destes aspectos dá muito que pensar: atente-se, por exemplo, á primazia da orientação, claridade e insolação, relativamente ao dimensionamento.

E na mesma linha de reflexões e a partir de um amplo inquérito experimental realizado no LNEC, já há 45 anos (em 1963), dirigido por Nuno Portas, retira-se que entre as causas confessadas de má vizinhança se salientam, quer os problemas com as crianças, quer os que decorrem de deficientes condições de isolamento acústico e consequentes sensações de falta de intimidade.

Voltaremos a estes “leques” de satisfação em vários pontos deste estudo e desta série de artigos, mas desde já se evidencia a mistura que sempre acontece entre aspectos considerados mais, e menos, objectivos, aspectos estes que, tantas vezes, se conjugam.


Mistura essencial de quantidades e qualidades no habitar e na cidade

Nesta linha de mistura essencial de quantidades e qualidades, cita-se Soczka, por sua vez, citando Oscar Newman, que salienta as características que contribuem para o desenvolvimento de espaços habitacionais considerados mais "defensáveis" e apropriáveis (9): (i) um ambiente físico que aceite zonas de influência territorial, e assim bem percepcionadas pelos residentes; (ii) um projecto urbano que suporte de uma natural acção de vigilância natural por parte dos próprios residentes; (iii) um projecto influenciador da percepção da identidade colectiva dos residentes; (iv) e a justaposição de "zonas de segurança" na área do projecto e clarificação das zonas adjacentes como seguras ou inseguras.

Novamente matérias essencialmente qualitativas, onde até, por exemplo, a "quantidade" excessiva pode ser matéria negativa e onde as dimensões do homem e as da cidade, assumem protagonismo essencial.

Afinal a cidade nasceu à medida do homem, para o servir, para o proteger melhor, para dar identidade/presença ao homem solidário e o tornar mais eficaz com menos esforço, e acabou realmente por lhe propiciar mais tempo para outras ocupações que não as estritamente necessárias à sua sobrevivência, tendo, assim, nascido uma cultura mais sedimentada e activa.

Mas todos estes aspectos derraparam, como bem sabemos, em tantos bairros "de má fama", isolados da cidade (portanto sem "a medida" da cidade), e feitos sem qualquer medida do do homem mas que continua a ser essencial na razão de ser da cidade bem habitada; bairros onde para lá, ou antes, de não haver uma segurança bm percepcionada, e uma clara satisfação na vida diária, não há realmente "cidade".

Neste sentido lembremos "os 3 Mandamentos" dos espaços que definem e evidenciam condições de segurança, segundo Claude Lamure (10): orientação e localização fáceis; observação da movimentação dos outros; e prevenção dos encontros por "fuga", interdição de acesso ou camuflagem. Matérias estas que, evidentemente, antes de se ligarem à "segurança" são bases da coesão urbana.

E Lamure reafirma alguns aspectos básicos da referida sensação básica de segurança, tais como a definição de espaços rectangulares apenas abertos unilateralmente, ou abertos multilateralmente, mas sobreelevados e, essencialmente, a exigência, mínima, de um encerramento espacial bilateral, conjugado com a possibilidade de observações fáceis dentro de um espaço geométrico muito regular, estruturado por eixos perpendiculares entre si.

E se pensarmos, um pouco, sobre que forma urbana serve tais exigências temos, naturalmente, o tecido urbano contínuo, feito de ruas, largos e pracetas, um espaço canal ramificado, mas onde há sempre uma noção forte de espaço contido, delimitado bem definido – com princípio e fim – e de se estar a ser eventual e naturalmente observado de janelas, portas e ruelas constantemente contíguas. Um tecido feito com cuidado/pormenor e afectuosidade em termos de uma Arquitectura Urbana com escalas humana e urbana.

Ao nível concreto dos espaços de circulação e de uso comuns, serão de evitar, segundo o citado autor, galerias e zonas muito extensas, reverberantes (onde se sinta o eco) e mal iluminadas; e nesta sequência que vai do mais público ao mais privado, Lamure refere ainda que a existência de circulações domésticas claramente configuradas e bem estruturadas é, também, um factor de melhoria da sensação de segurança, mesmo no interior da habitação. E esta última consideração tem grande interesse na tal questão de uma adequada reinvenção tipológica também no mundo doméstico.

É realmente interessante ter aqui uma ideia de que o ordenamento claro dos espaços que habitamos - da rua ao recanto doméstico - e a sua clara e bem delimitada configuração, desde que bem percebida por quem a habita nos seus limites e nas suas relações mútuas, é uma condição para o seu bom uso e para o grado que se possa ter nesse uso, e esta é uma realidade que irá do espaço privado, ao comum e ao público; e, portanto, da escala humana à urbana



Fig.03

Sobre os habitantes mais sensíveis

Lembrando, agora, os habitantes que precisam de mais apoio e enquadramento, o espaço do habitare e a vizinhança residencial deverá responder positivamente às condições físicas e psicológicas específicas dos idosos, nomeadamente, como refere Claude Lamure, pela previsão (11) de boas condições de conforto nas deslocações e pelo bom relacionamento social através de: (i) proximidade a transportes colectivos e a equipamentos comerciais; (ii) proximidade relativamente a amigos, familiares e conhecidos; (iii) conhecimento da envolvente urbana; (iv) e existência de espaços de condomínio equipados e vivos; matérias estas que tem todas a ver com as "escalas" do fazer do habitar.

E tal como se refere no estudo “Do bairro e da vizinhança à habitação” (12) a vizinhança próxima é o espaço ideal, em termos de potencial de acessibilidade física e de segurança nas deslocações e nas estadias, para o uso diário e intenso por idosos, propiciando e motivando saídas frequentes das respectivas habitações, com evidentes vantagens, tanto ao nível da saúde física e psíquica destes habitantes (andar a pé, “flanar”, estar ao ar livre, conviver), como ao nível do aumento da animação e da convivialidade diária global das respectivas Vizinhanças Próximas e Alargadas, até porque, sendo pessoas que, frequentemente, não cumprem horários de trabalho, são elementos sempre disponíveis para essa “vivência de rua e de café”.

Muito do que se referiu para os idosos também se aplica às crianças na vizinhança de proximidade, sendo verdade que boas condições de agradabilidade e segurança contíguas às habitações e fáceis e seguras em termos de acesso e de uso são factores de intensificação do uso global dos exteriores e designadamente da permanência no exterior de idosos e crianças, frequentemente acompanhando-se mutuamente; e há que ter em conta a importância que o meio urbano pode ter na formação de tantas crianças citadinas, tantas vezes, isoladas em casa e desintegradas de um meio social equilibrado e variado (13).

Tal como é defendido por muitos autores as crianças devem poder conviver intensamente e brincar, apoiando-se a sua formação global e sua socialização e reduzindo-se, mesmo, o risco de problemas mentais posteriores; e este facto é bem evidente quando sabemos que o número crianças com psicoses pode crescer de "0 a 37", quando o número de crianças com que uma dada criança convive diminui de cinco, ou mais de cinco, para nenhuma (14). E as crianças e jovens exigem, realmente, alguma diversificação espacial e de equipamentos na proximidade directa das habitações (15); provavelmente é esta matéria uma das mais importantes em termos de programação da vizinhança residencial.

E tudo isto dá que pensar no que se refere à opção que se julga fundamental no que se refere ao desenvolvimento de arquitecturas residenciais que suscitem ou proporcionem a convivialidade vicinal.

Mas todas estas preocupações práticas de marcação de territórios de vizinhança e do seu adequado equipamento irão falhar caso não sejam servidos por uma pormenorização urbana cuidadosa e sensível e que, para o ser, tem de ser desenvolvida considerando a forma como olhamos e vamos entendendo a organização do espaço exterior. E para tal há que ter em conta que, tal como explica Rudolf Arnheim (16), em posição de pé, o olhar humano tende a inclinar-se para o chão, acontecendo o mesmo quando estamos sentados. Isto faz salientar a importância do pavimento em qualquer apreciação espacial, e, nomeadamente, no caso dos espaços interiores e no caso dos espaços exteriores em grande relação com edifícios (pontos de partida e chegada), onde estamos muito mais concentrados e atentos ao que nos rodeia, até por estarmos, quase, em nossa casa e esta, como bem sabemos, é o reino do pormenor.



Fig.04

E no fim e no princípio a imagem urbana, como quadro ou ferramenta essencial da construção das escalas/medidas humana e urbana

E cá estamos, novamente, na fundamental, porque potencialmente estimulante dimensão da paisagem urbana e temos de lembrar algumas palavras de Gordon Cullen, de comparação entre paisagem uniforme ou multiforme, neste caso numa aplicação específica à temática do importante tratamento do chão público: "As construções ricas em texturas e cores, assentam, necessariamente, num pavimento. Se este não passar de uma extensão asfaltada lisa e uniforme, elas por sua vez parecem desarticuladas, separadas umas das outras, uma vez que o pavimento não prende o nosso interesse". (17)

E Michael Laurie (18) avança um pouco mais nesta matéria, que tudo tem a ver com as medidas do homem e as medidas da cidade apontando que o olhar humano é cativado quer pelo emprego de peças pequenas e bem identificáveis produzindo superfícies finamente texturadas que têm uma relação íntima com a escala humana, como pelo uso de peças grandes, ligadas por juntas, que são neste caso os elementos responsáveis pela relação com a escala humana e também, de certo modo, com a escala da vizinhança e da cidade.

O que se pretendeu evidenciar neste tema das medidas do homem e da cidade é que tais medidas tanto são genéricas e estruturantes, constituindo grandes objectivos como é o caso da segurança, como são particularizadas e ligadas a pormenores bem estruturados e únicos, e há casos de conjuntos de casas que não proporcionam felicidade seja pela ausência de tais condições gerais, seja pela inexistência de tais condições de pormenor.

Neste tema das medidas do homem e da cidade começámos por reflectir, um pouco, sobre que homem? Que família? E talvez que vizinhança citadina? Uma verdadeira, feita da tecitura complexa mas bem urdida que caracteriza uma cidade viva, ou um tecido esgarçado e descaracterizado? Mas voltaremos a estes temas vistos a partir de outras perspectivas, pois afinal é provavelmente nesta questão de que medidas humanas e citadinas devemos aplicar e aprofundar na cidade habitada de hoje estará boa parte do segredo de um habitar mais feliz.

Notas
(1) Martin Wynn, "Housing in Europe", p. 44.
(2) Num estudo já de 1985 da Direccion General de Arquitectura y Vivienda, do Ministerio de Obras Publicas y Urbanismo de Espanha ("Individuo y Vivienda", p. 50) refería-se que a percentagem de habitações com uma pessoa na RFA era, já na altura, significativa, variando, por Estados, entre um mínimo de 21.9% e máximos de 39.5% e 44.1%, respectivamente, nas grandes cidades de Hamburgo e Berlim Oeste; e é também, importante constatar a subida da percentagem entre cerca de 18% em Municípios com menos de 5000 habitantes e cerca de 34% naqueles com mais de 100000 habitantes. E atenção que hoje em dia a situação deve ter já evoluído muito, evidenciando-se o interesse que terão soluções de edifícios cujas partes e serviços comuns são muito desenvolvidos e com utilização facultativa e programada.
(3) Martin Wynn, "Housing in Europe", p. 73.
(4) Luís Soczka, "O Contributo da Psicologia Ambiental para o Problema da Qualidade da Habitação", p. 2/1.21.
(5) Luís Soczka, "O Contributo da Psicologia Ambiental para o Problema da Qualidade da Habitação", p. 2/1.22.
(6) William J. Mitchell, “E-topía - Vida urbana, Jim, pero no la que nosotros conocemos”, 2001 (2000).
(7) William J. Mitchell, “Me++: The Cyborg Self and the Networked City”, 2003.
(8) Ekambi-Schmidt, "La Percepción del Habitat".
(9) Luís Soczka, "Espaço Urbano e Comportamentos Agressivos - da Etologia à Psicologia Ambiental, p. 7.
(10) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", pp. 58 a 60.
(11) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", pp. 151 a 153 e 215.
(12) “Do bairro e da vizinhança à habitação”, ITA 2, LNEC.
(13) Sven Thiberg caracteriza-as do seguinte modo (Sven Thiberg (Ed.), "Housing Research and Design in Sweden", p. 114): vivem separadas de importantes campos de actividade e tipos de ambientes; vivem afastadas de outros grupos etários, de outras classes sociais e padrões culturais; vivem em contacto forçado com grandes números de outras crianças com a mesma idade delas; devido a mudanças de ambiente enquanto crescem, as crianças estabelecem relações pouco sólidas com a vizinhança; vivem em ambientes que não podem nem têm a possibilidade de influenciar.
(14) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", p. 317.
(15) C. Baudelot e J. Gardent ("Espaces Extérieurs Urbains, Rencontres du Centre de Recherche d'Urbanisme", J. P. Muret, Coord., p. 35) consideram os seguintes territórios privilegiados das crianças e dos jovens: até 3 anos de idade, dependência completa dos adultos, usando pequenos espaços, claramente seguros (ex., varanda ampla, ou espaços na contiguidade imediata do fogo, isto é, até 5/6m de distância à habitação); de 3 a 7 anos, devem poder ir à rua sozinhos, mas ficando à vista e ao alcance da voz, cerca de 30m, máximos, de distância à habitação; de 7 a 14 anos, devem poder deslocar-se sozinhos no bairro, encontrando actividades próprias para a sua idade; o raio exploratório é de cerca de 150 a 200m de distância à habitação; de 11 a 14 anos precisam de se encontrar em grupos conhecidos e o raio de acção vai-se ampliando para cerca de 500m de distância à habitação, e para lá desse limiar. Sobre os espaços para adolescentes Lamure considera ("Adaptation du Logement à la Vie Familiale", pp. 213 e 214) que são necessárias algumas áreas onde eles tenham uma certa autonomia em relação aos adultos, provavelmente em espaços neutros minimamente equipados.
(16) Rudolf Arnheim refere que o ângulo horizontal de visão é de cerca de 110º, mas para um dado elemento ser visto e julgado como um todo integrado ele tem de estar compreendido dentro de um ângulo com cerca de 27º (distância ao objecto sensivelmente dupla da sua dimensão maior); para além disto o ângulo vertical de visão tem, aproximadamente 45º acima do nível do olho e 65º abaixo dele (Rudolf Arnheim, "A dinâmica da forma arquitectónica", pp. 108 a 110). Em termos de ângulos de câmaras teremos que os ângulos fotográficos entre cerca de 24/28mm (o início da chamada “grande angular”), correspondem, sensivelmente, ao quadro de visão de que dispomos. A visão humana concentra-se em elementos centrais, enquadra-os num cenário bilateral, que pode ser uma rua tradicional, e concentra a atenção em variações contrastantes que pontuam, por exemplo, o desenvolvimento da rua (ex., edifícios e outros elementos singulares e destacados). Considerando, ainda, os ângulos de visão a segunda consideração de Arnheim valida "a regra dos 45º", entre edifícios confrontantes, proporcionando uma sequência de fachadas, continuamente apreendidas quando nos deslocamos, e quando não é visível o limite superior de uma banda edificada, o resultado é a percepção de um espaço exterior “fechado” e protegido.
(17) Gordon Cullen, "Paisagem Urbana", p. 55.
(18) Michael Laurie, "Introducción a la Arquitectura del Paisaje".

Notas editoriais:

(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.


(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.


(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.



Infohabitar a Revista do Grupo Habitar

Infohabitar, Ano VIII, n.º 413


As medidas do homem e as medidas da cidade: sobre a natureza do habitar


Editor: António Baptista Coelho


Edição de José Baptista Coelho


Lisboa, Encarnação - Olivais Norte