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domingo, fevereiro 28, 2016

571 - Repensar os espaços exteriores privados – Infohabitar n.º 571

Estamos agora a abordar, com algum detalhe, os espaços que constituem os nossos “pequenos” mundos domésticos e privativos, refletindo sobre as diversas facetas que os qualificam; e passamos, agora, a uma reflexão sobre a importância das zonas de refeições domésticas, considerando matérias diversas que lhes estão associadas

 

Repensar os espaços exteriores privados – Infohabitar n.º 571

Artigo LXXXVIII da Série habitar e viver melhor

António Baptista Coelho

Relação do espaço exterior privado com o restante espaço doméstico

Num estudo de Claude Lamure conclui-se que a utilização da varanda é, frequentemente, considerada como uma espécie de paliativo à ausência de um pequeno quintal privado, possibilidade esta que terá alguma relação com a própria dimensão e organização da varanda e que é provada pelo frequente arranjo da varanda como "pseudo-jardim".
Esta matéria tem relações com outros aspectos tratados nesta série editorial, e essencialmente com a vontade de naturalização e apropriação da habitação tão frequentemente expressada desde os espaços comuns ou públicos, na vizinhança de portas de entrada, às varandas e janelas e às floreiras que marcam paredes; é como se a natureza fosse a eleita para marcar o habitar, num sentido contrário ao movimento que levou da natureza ao abrigo “artificial”; e poderá haver boas respostas para esta situação, respostas que harmonizem a força da apropriação privada com a atractividade da imagem comum que é produzida, tudo dependendo, por exemplo, da boa previsão dos espaços e da harmonização dos suportes (vasos e floreiras) para essa naturalização.

Fig. 01:  - Edifícios multifamiliares com forte escala humana e em que a vegetação envolvente e própria proporciona excelente efeito de integração - exterior de habitações do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Moore, Ruble, Yudell, Bertil Öhrström.

Integrar a natureza nos edifícios  

Estas matérias ligam-se, também, a uma perspectiva de verdadeira naturalização, quase “integral” ou muito expressiva da globalidade de edifícios uni e multifamiliares, numa opção por uma espécie de camuflagem natural dos espaços edificados, e para esta opção são fundamentais todos os tipos de espaços exteriores privativos diversificadamente associados e configurados – dos quintais e pátios, às pequenas jardinetas de remate da construção, às varandas, balcões e terraços, às simples floreiras elevadas e associadas aos referidos espaços ou simplesmente penduradas de paredes ou associadas a janelas de sacada, janelas estas que facilmente são transformadas em pequeníssimas varandas de assomar.
A questão da “linguagem” de Arquitectura usada e da eventual dificuldade de compatibilização de um desenho depurado com este tipo de soluções é uma questão que se remete, exactamente, para um esforço específico de desenho.



Fig. 02:  - Pátios privados que cooperam integralmente no "fazer" do espaço doméstico - interior e exterior de habitações do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Nils-Olof Ljunggren, Kristofer Swahn, Mima.

Tipologias habitacionais e espaços exteriores privados

Ainda no que se refere a associações privilegiadas desta extensa família de espaços e elementos de exterior privado com tipos habitacionais específicos, salienta-se o facto, provado em numerosos inquéritos (1), de que a preferência por edifícios unifamiliares é, muitas vezes, associada à existência de um espaços exterior privativo e, muito especificamente, de um pequeno jardim privado, que possa ser, em parte, utilizável para fins utilitários; e sobre este facto salientam-se duas ideias de âmbito genérico, e muito curiosas:
. a primeira que não é, evidentemente, necessário fazer edifícios unifamiliares “correntes” para se disponibilizar um pequeno espaço ajardinável a cada habitação, pois há múltiplas soluções multifamiliares e de transição uni-multifamiliar densificada que podem disponibilizar condições deste tipo e com elas caracterizarem atraentes soluções urbanas pormenorizadas;
. e a segunda ideia é que, mais uma vez, a faceta “utilitária” aparece, aqui em segundo plano na concepção doméstica.
Aborda-se a relação entre pátios ou pequenos jardins privativos e uma estimulante diversificação tipológica residencial e urbana e importa sublinhar que é esta ampla e muito diversificada virtualidade associativa e fortemente caracterizadora que marca um extenso leque de soluções multifamiliares e de transição uni-multifamiliar densificada, seja pelo evidenciar de tais espaços e do seu conteúdo em termos de naturalização (árvores, grandes e pequenos arbustos, trepadeiras, coberturas de solo, plantas rasteiras), seja também pelo evidenciar da ausência estratégica dessa mesma naturalização – pois o desenho irá marcar cada solução e sítio específicos. Mas não haja dúvidas sobre o protagonismo de tais elementos na geração de diversificadas e estimulantes tipologias habitacionais.



Fig. 03:  - Interessantes acessos realizados através de quintais privados em que a vista pública é razoavelmente permitida, contribuindo a vedação para a dignididade e o interesse dos espaços públicos contíguos - exterior de habitações do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Greger Dahlström.

Relação entre acessos e espaços exteriores privados

Um protagonismo que se associa a um outro fundamental elemento de composição tipológica residencial e urbana, de pormenor, que é a estruturação, associação, e evidenciação ou camuflagem de acessos comuns e privativos, relativamente aos referidos espaços exteriores privativos. Uma matéria que fica evidente pelo interesse que sempre terá poder-se entrar “em casa” através de um espaço exterior privativo, que pode ser um quintal ou pátio privativo em soluções unifamiliares e de transição uni-multifamiliar densificada, mas que pode ser até, por exemplo, um pequeno pátio/terraço alongado em soluções multifamiliares densificadas e em altura, associando-se, neste caso, uma estimulante ambiguidade entre o “viver em altura” e a vivência “natural” mais ligada ao solo. E não se pense que tais diversificações de soluções são, necessariamente, caras ou luxuosas, pois são, sim e obrigatoriamente soluções extremamente bem desenhadas e pormenorizadas.

Exterior privado e adequação climática ou sustentabilidade ambiental doméstica

E em todas estas reflexões importa sublinhar que é urgente privilegiar, cada vez mais, o exterior e, neste caso, especificamente, o exterior privativo no desenvolvimento de soluções habitacionais num sul da Europa, climaticamente agradável em boa parte do ano.
Mas mesmo mais a norte na Europa têm sido desenvolvidas soluções marcadas por espaços exteriores privativos associados às entradas principais de habitações incluídas em grandes condomínios verticalizados, numa opção que, desta forma, pretende caracterizar estas habitações como se fossem “moradias” agregadas num conjunto em altura, reforçando-se os respectivos aspectos de individualidade e de apropriação, através de plantas e outros arranjos do exterior. A ideia que se quer deixar é que se isto é possível e tem sido praticado, com êxito, a caminho do norte da Europa, será muito adequado quer em países mais a sul, quer em soluções menos altas e densificadas, proporcionando-se um muito amplo leque de resultados formais e funcionais, que serão, também, muito estimulantes nas suas imagens urbanas.


Fig. 04:  - O exterior doméstico e prolonga o respetivo interior e que tem, mesmo, presença/força própria ( e atenção, que estamos no Norte da Europa) - exterior de habitações do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: Stella Eriksson, Ellica Stare, Sven Gustafsson.

Associações preferenciais entre espaços domésticos interiores e exteriores

Considerando agora as associações preferenciais entre espaços domésticos interiores e exteriores sublinha-se que as varandas e os terraços podem privilegiar o desenvolvimento de  entradas principais ou de serviço na habitação, e também o “prolongamento” das salas, e, numa gradação de relações preferenciais, os quartos de dormir e as saletas; tais relações entre espaços domésticos interiores e exteriores, podem também assumir um carácter de varanda ou terraço de serviço, junto da cozinha e da zona de tratamento de roupa. A ideia é, naturalmente, de se poder servir melhor todos os habitantes e apoiar, eventualmente, reuniões e convívios mais alargados. E há soluções que compatibilizam espaço mais social e mais de serviço, naturalmente, com uma mais desafogada disponibilidade de espaço.
Uma outra associação funcional que pode ser muito explorada, designadamente, em zonas com microclimas mais amenos é a existência de espaços privativos exteriores do tipo varandas, pátios e alpendres que constituam ligações activas entre vários compartimentos da habitação, podendo constituir ligações alternativas, que são sempre úteis, por exemplo, quando se realizam festas em casa, ou que poderão constituir elas próprias as únicas circulações disponíveis, essencialmente em soluções habitacionais muito caracterizadas e desde que estes espaços de circulação tenham uma protecção climática reforçada.
Uma associação funcional que começa a ser frequente noutras zonas do mundo é o desenvolvimento no exterior privativo de uma verdadeira e espaçosa sala de estar e de refeições aberta ao exterior, habitualmente associada, por exemplo, a condições para grelhar alimentos; uma possibilidade que estará naturalmente mais associada a condições de espaciosidade acima da média ou de fácil desenvolvimento em piso térreo e sem se prejudicar, ambientalmente, habitações vizinhas.
·         Notas
(1) M. Imbert, "Mission d'Études de la Ville Nouvelle du Vaudreil", p. 18.

·          Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:
As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.
Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.
A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.
Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.
·        Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XII, n.º 571
Artigo LXXXVIII da Série habitar e viver melhor

Repensar os espaços exteriores privados – Infohabitar n.º 571


Editor: António Baptista Coelho
abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.


segunda-feira, janeiro 20, 2014

468 - Mundos domésticos e pessoais - introdução - Infohabitar 468


Infohabitar, Ano X, n.º 468

Os nossos pequenos mundos domésticos e pessoais: introdução

Artigo XXXXIII da Série habitar e viver melhor

António Baptista Coelho

Mundos e espaços domésticos

Tal como já foi referido, A Série “Habitar e Viver Melhor” está a atravessar a porta dos mundos domésticos (a aprofundar ao longo de 2014), importando sublinhar que o mundo doméstico retoma, hoje em dia, uma importância que talvez só tenha tido no mundo antigo, quando habitar e trabalhar profissionalmente se conjugavam, com frequência, nos mesmos espaços de habitar, condição que, entre outros aspetos, tinha exigências específicas de adequada integração e proximidades urbanas; exigências estas que talvez hoje, também, devam ser devidamente reconsideradas.

A Série “Habitar e Viver Melhor”, que tem vindo a ser editada na Infohabitar, desde há mais de uma ano, intercalada por outros artigos, pretende contribuir para o aprofundamento e a discussão desse reavivar do interesse pelos mundos domésticos, numa perspetiva que realça, naturalmente, o sentido destes espaços como cenários ativos e protagonistas do enquadramento das nossas vidas diárias e do apoio e reforço das nossas identidades, servindo, designadamente, como “estojo” global e particularizado, devidamente estimulante, agradável e funcional dos espaços e elementos que integram as nossas vidas e que consideramos poderem constituir aspetos bem apropriados e divulgáveis de quem nós somos e fomos, dos nossos quadros familiares e sociais e das nossas histórias de vida e memórias específicas, ou, pelo menos, daquelas que mais acarinhamos.

Fig. 01: ... servindo, designadamente, como “estojo” global e particularizado, devidamente estimulante, agradável e funcional dos espaços e elementos que integram as nossas vidas

Sobre o fazer dos nossos pequenos mundos domésticos o arquitecto e habitante P. Céleste refere que se trata “de ocupar um sítio, de estar em sua casa, de produzir uma habitação calorosa. O contexto é o que nos anima. Há peças que devem ver o exterior e esse exterior deve fazer sonhar. Há que ter atenção a uma distribuição simples que proporcione dar um nome a cada peça e que se ligue a comportamentos habitacionais muito flexíveis ... não é possível a circulação dupla as áreas não o permitem ... é preciso encontrar uma certa forma de deambulação, estar atento à arte de colocar uma porta, uma janela, atento aos gestos quotidianos. O habitar de hoje não é mais pensado como no século XIX para a festa e a recepção, mas para a relação com a vida quotidiana” (1) – os sublinhados são do autor do artigo.).

Organizações da habitação

Falar de organizações da casa, hoje em dia, deveria ser falar de uma reflexão e inovação contínuas, sempre no sentido de se procurar uma adequação contínua, pois já é tempo de (voltar a) pensar a casa com verdadeira liberdade. E esta matéria parece ser óbvia, mas só o será superficialmente, pois continuamos a imaginar e conceber habitações numa “lógica” quase estritamnte funcionalista e rigidamente hierarquizada e praticamente nem notamos o que estamos a fazer, pois toda a nossa formação foi feita nesse sentido de funcionalização e “mecanização” do espaço doméstico, um espaço que deveria ser o tal “estojo” das nossas variadas identidades.

Há, naturalmente, alguns aspectos que são fundamentais em termos de privacidade, funcionalidade e conforto, mas estes são facilmente sintetizáveis numa pequena listagem de aspectos dimensionais mínimos (ex., larguras de compartimentos) e de recomendações, ou, melhor dito, esclarecimentos no sentido de se alertar para que determinados posicionamentos de determinados compartimentos (ex., casas de banho) poderão ter influências negativas nos jogos de privacidade interiores e que há que ter em conta relações privilegiadas e protegidas entre alguns compartimentos (ex, entre quartos de dormir e casas de banho).

Mas estamos, realmente, frequentemente, já bem longe das situações em que as “instalações sanitárias” eram tendencialmente zonas higienicamente críticas e que convinha afastar e “esconder” o mais possível e onde as cozinhas eram espaços “oficinais” dificilmente integráveis com as zonas de estar; isto só para dar dois exemplos de mudança doméstica profunda.

O resto, o resto que é quase tudo numa “inovadora” conceção dos espaços domésticos deveria ficar flexibilizado para as diversas capacidades criativas dos projectistas e para os modos de querer viver dos habitantes; naturalmente com a excepção de situações, devidamente identificadas, onde haja que ter em conta condições específicas e potenciais de uso da casa que recomendem cuidados particularizados, designadamente, em termos de relações entre espaços, uso e manutenção da habitação e sua durabilidade. E atente-se que, tal como bem sabemos, mesmo nestas condições de justificada e cuidadosa adequação a modos de vida e usos da casa muito específicos e exigentes, o referido e “cego” excesso funcionalista, fazia, muito frequentemente, “vista grossa”,  ignorando deliberadamente tais contextos e aplicando-lhes a mesma receita global de habitar – da vizinhança, ao edifícios e ao espaço doméstico.

Flexibilização e adaptabilidade doméstica

E importa sublinhar que tais caminhos de flexibilização e ampla adaptabilidade doméstica não significam, naturalmente, qualquer abandono dos objectivos de qualidade residencial, mas sim um claro acréscimo dos mesmos, pois há todo um mundo de possibilidades de viver a casa, algumas delas aqui apontadas, que podem proporcionar uma satisfação e uma apropriação muito mais intensa por parte dos moradores.

O que se fez durante muitas dezenas de anos, designadamente, do século XX foi negar a existência de um tal mundo da identidade e da adaptabilidade, que está à vista de todos em tantos exemplos de arquitectura tradicional, quanta dela até, por vezes, justificadamente não-regulamentar, e em tantos outros exemplos daqueles grandes arquitectos que fizeram grande arquitectura doméstica, mas que preconizaram ideias que não foram verdadeiramente entendidas e que não puderam ser, assim, reinterpretadas, por uma maioria de colegas menos criativos e que acabaram por beber essas “regras” como elemento facilitador de uma prática de projecto rigidamente funcionalista, até porque veiculada em termos regulamentares numa opção que é, frequentemente, arquitectonicamente “árida”.

E poderíamos até imaginar que, no limite, não seriam precisos arquitetos, para fazer essa arquitetura domésticas “automatizada”, ou então o habitar “reduzia-se” a uma indústria do tipo da automobilística em que se concebem, rigorosamente, “meia dúzia” de modelos (mais desportivos, mais familiares, mais económicos, etc.), que depois são globalmente disponibilizados; mas, pelo menos, o autor destas linhas e julga-se muito mais pessoas acreditam que o habitar novo e o reabilitado não têm este tipo de caraterísticas, pois são o tal “estojo” da nossa identidade e história e, também, são elementos protagonistas da nossa cidade e cultura.

Nada disto quer fazer reduzir a fundamental importância das matérias regulamentares ligadas a aspectos essenciais de segurança, saúde e bem-estar, no entanto considera-se que deve continuar a haver uma verdadeira possibilidade de reinterpretar arquitectonicamente tais matérias e, além disso ou, melhor, antes disso, haveria que rever alguns desses corpos regulamentares à luz de uma prática consistente e de um enquadramento científico verdadeiramente mais aprofundado e culturalmente mais fundamentado.

Tudo isto se julga pertinente quando estamos a passar a soleira da casa e quando, à nossa frente, imaginamos, por um lado, a infinidade de soluções domésticas repetidas até à náusea, numa espécie de solução-tipo geral de habitação, naturalmente, com libertadoras variações criativas e estimulantes, enquanto, por outro lado, lembramos ainda tantas soluções que fomos visitando ou vendo em livros e revistas e onde não há essa solução global estereotipada – uma espécie de “esquerdo-direito” doméstico – mas sim uma enorme diversidade de oferta de relações, espaços e pormenores protagonistas, que marcam positivamente as casas e quem as habita ou até apenas as visita, reforçando-lhes, designadamente, os seus aspetos de identidade e de apropriação.


Fig. 02: ... diversidade de oferta de relações, espaços e pormenores protagonistas, que marcam positivamente as casas e quem as habita ou até apenas as visita, reforçando-lhes, designadamente, os seus aspetos de identidade e de apropriação.

 

Espaços domésticos bem caraterizados

Sendo assim, não se irá fazer, nesta série de artigos, qualquer menu de soluções a aplicar conforme um outro menu de necessidades, mas apenas uma pequena viagem por mundos domésticos positivamente caracterizados, onde cada espaço e cada relação nos emociona e nos serve plenamente; sendo que a mistura de tais espaços e ambientes ficará, naturalmente, ao livre arbítrio dos leitores e à capacidade que possam ter de poderem influenciar as suas casas e as casas que projetem.

Por isso se optou por uma exposição que, nas próximas sequência de artigos muito direccionadas para o interior doméstico, “inverte”, um pouco, as regras normais em trabalhos técnicos e científicos, porque no corpo das páginas se irá tratar daquilo que marca espacial e ambientalmente as diversas zonas da casa, em termos de notas gerais bem entendíveis por todos e não apenas por projectistas e investigadores, remetendo-se para pé-de-página as indicações mais objectivas e especificadas, sempre que se considere que tais indicações poderão ser úteis para concretizar as ideias de vida e ambiente doméstico a que se referem.

E não é excessivo referir que outros estudos se dedicam especificamente aos aspetos mais objectivos do habitar e dos espaços domésticos, como por exemplo o já citado estudo, intitulado “Do bairro e da vizinhança à habitação” e que foi publicado pelo LNEC no já “longínquo” ano de 1998 (ITA 2); e mesmo neste estudo houve o cuidado de disponibilizar várias possibilidades e opções funcionais para cada espaço doméstico, referidas por diversos autores.
De certa forma tem-se, assim, a técnica expressivamente subordinada ao objectivo fundamental de se viver melhor, na casa de cada um, de acordo com os melhores objectivos de vivência doméstica que encontramos em tantos exemplos, desmistificando na medida do possível tais objectivos, em termos de custo e em termos de “impossibilidades” funcionais e servindo, assim, para que cada um possa inventar, pelo menos parcialmente, o seu sítio doméstico sonhado e desejado.

Habitação e apropriação

A batalha seguinte será tentar concretizar tais ideias no mundo doméstico de cada um, mas uma guerra tem sempre várias batalhas e para as começar a ganhar uma informação esclarecida e eficaz é essencial. Lembremos que se começou esta viagem – esta série editorial – na vizinhança urbana e, depois, ao longo do edifício, que são mundos onde naturalmente terá de haver ordem e equilíbrio gerais e consensuais e onde a apropriação por cada um, será bem-vinda, mas desde que bem regrada, concentrada e positivamente cumulativa em termos de atractividade e de identidade local; mas agora, dentro das nossas casas, estamos num mundo “nosso”, que deve privilegiar uma adequada apropriação individualizada dos seus diversos espaços e elementos particularizados.

Finalmente importa referir, aqui, o facto de que temos sempre tendência a imaginar uma casa numa perspectiva organizativa rígida: por exemplo, imaginamos entrar para um vestíbulo e daí passar para o resto da habitação, mas quando encaramos uma situação “tradicional” de entrada directa para uma sala de jantar que é também sítio de boas-vindas não estranhamos esta “quebra” de sequências. E este é um exemplo que pode ir mais longe, naturalmente, e que aqui se ilustra com a entrada de uma habitação em Malmö que dava directamente para uma ampla cozinha e sala de família; e não havia outra entrada e os visitantes estranhavam, logo na altura, mas as reacções pareciam, depois, globalmente positivas, quando os visitantes começavam a entender a estrutura inovadora daquela habitação.

E será, assim, nesta perspetiva de uma inovação bem fundamentada e referenciada à nossa cultura habitacional e doméstica que procuraremos estruturar os próximos artigos desta série sobre os espaços domésticos de um “habitar e viver melhor”.

Notas:
(1) Monique Eleb, Anne Marie Chatelet, “Urbanité, sociabilité et intimité des logements d’aujourd’hui”, 1997, p. 238.
          
         Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.


        Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt

INFOHABITAR - Ano X, nº468

Artigo XXXXIII da Série habitar e viver melhor

Os nossos pequenos mundos domésticos: notas de introdução

Grupo Habitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
e  Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do LNEC
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.