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segunda-feira, novembro 27, 2017

Espaços comuns no edifício multifamiliar - Infohabitar 620

Infohabitar, Ano XIII, n.º 620

Espaços comuns no edifício multifamiliar: novo artigo e links para outros 4 artigos sobre o tema

por António Baptista Coelho

Caros leitores, nesta edição da Infohabitar, depois de uma pequena introdução encontrarão um novo artigo sobre a  temática dos espaços comuns em edifícios multifamiliares e links para outros quatro artigos sobre o mesmo tema. 

Fig-01: ao fundo edifício em Olivais Norte, Lisboa, projecto de Artur Pires Martins e Cândido Palma de Melo; um caso de referência na Arquitectura residencial portuguesa e um exemplo de protagonismo arquitectónio dos espaços comuns do edifício - neste caso galarias exteriores e torres verticais de acessos.

No início de setembro de 2017 a Infohabitar retomou as suas edições regulares, através da edição de um novo artigo em cada semana, logo à segunda-feira. Considerando que, durante um número muito significativo de semanas a Infohabitar editou artigos integrados no âmbito da série designada “Habitar e Viver Melhor”, lembrámo-nos de proporcionar uma desenvolvida e comentada revisão desta matéria, antes de prosseguirmos na edição desta série; uma revisão que inclui, sublinha-se, sistematicamente, novos artigos de reflexão e comentário sobre cada uma das matérias específicas tratadas em cada edição.

Neste sentido apresentam-se, em seguida, os títulos interactivos dos artigos da série “Habitar e Viver Melhor”, que abordam as temáticas dos espaços comuns em edifícios multifamiliares, e junta-se um novo artigo com reflexões sobre estas matérias. Em próximos artigos iremos continuar a disponibilizar reflexões sobre os diversos tipos de espaços habitacionais e domésticos, mais comuns, ou mais privados e personalizados.
Lembra-se que bastará ao leitor “clicar” no título do artigo que lhe interessa para o poder consultar.

Lembra-se, ainda, que por motivos totalmente alheios à Infohabitar, que muito lamentamos e que já apontámos, na Infohabitar, a maior parte dos artigos desta série editorial não conta, neste momento, com as respectivas ilustrações; estando, no entanto, disponíveis todos os seus textos, que se caracterizam por expressiva autonomia relativamente às referidas imagens; em tempo procuraremos ir repondo as referidas ilustrações, agora através de uma ferramenta integrada no próprio processo editorial do nosso blog/revista.

Finalmente regista-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, sedeado no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.

São os seguintes os quatro (4) artigos disponibilizados sobre a temática dos “Espaços comuns no edifício multifamiliar” (basta clicar sobre cada um para aceder ao respectivo texto):

- Espaços comuns habitacionais conviviais (e associativos)

- Inovação nos espaços comuns habitacionais (I)

- (Urgente) inovação nos espaços comuns habitacionais (II)

- Garagens comuns habitacionais


Inovar nos espaços comuns dos edifícios multifamiliares

(novo artigo)

As temáticas associadas e associáveis à matéria geral da habitação e, designadamente, ligadas à matéria específica dos “espaços comuns nos edifícios multifamiliares” são extremamente amplas e tão sensíveis como significantes; portanto, não queremos correr o risco de dar a ideia de as irmos tratar, aqui, de forma exaustiva, iremos sim abordar, a propósito, alguns tópicos considerados talvez mais relevantes e/ou oportunos, hoje em dia, e deixar algumas reflexões e ideias como pistas para posteriores incursões teórico-práticas.

Algo de essencial quando se aborda a natureza e o potencial funcional e vivencial dos espaços comuns em multifamiliares, e talvez matéria bastante esquecida ou nem sequer reconhecida, tem a ver com o papel tão diversificado como protagonista destes espaços – entradas interiores, exteriores e de transição interior/exterior, galerias interiores e exteriores, corredores, patins, etc. – na “construção” da tipologia do edifício multifamiliar e na sua específica caracterização.

E esta matéria por si só levar-nos-ia bem longe, designadamente, quando se considera ser mais do que a altura para desenvolvermos uma tão afirmada como “revolucionária” (re)invenção tipológica no multifamiliar, largando de vez a “ditadura” funcionalista que nos apresentou, praticamente, um muito reduzido leque tipológico (ex., esquerdo/direito, distribuição por galerias interiores ou exteriores e pouco mais, como bem sabemos) e avançando, decididamente numa ampla diversificação tipológica directamente associada a várias vertentes “modificadoras”, ligadas a uma ampla diversidade projectual de soluções:

- de acesso comum;

- de acesso privado;

- mistas, com acessos comuns e privados;

- do tipo esquerdo/direito (essencialmente, através de alterações dimensionais e de configuração geral);

- de acessos por galerias exteriores e/ou exteriores;

- de acessos mistos, do tipo esquerdo/direito e por galerias exteriores e/ou exteriores;

- que integram edifícios de transição entre o uni e o multifamiliar;

- que integram e articulam edifícios multifamiliares e edifícios de transição entre o uni e o multifamiliar;

- que integram conjuntos específicos de habitações (ex., pequenos apartamentos T0 e T1);

- que integram conjuntos relativamente diversificados de tipos de habitações;

- que integram diversos espaços de actividades comuns;

- que integram diversos equipamentos colectivos que servem os habitantes dos respectivos edifícios e outros da respectiva vizinhança;

- que integram conjuntos habitacionais e urbanos com expressiva presença ao nível da(s) respectivas vizinhança(s) próxima(s).

Não tenhamos dúvidas de que, se quisermos avançar numa concepção dos espaços comuns do edifício que seja devidamente adequada a cada uma destas tipologias de soluções e a agregações, cuidadosamente diversificadas, de algumas destas tipologias, esses espaços comuns devem reflectir o melhor possível a respectiva natureza da intervenção em termos espaço-funcionais e de adequada caracterização arquitectónica, incluindo aspectos de arquitectura e imagem urbanas; e sendo o trabalho tão cuidadoso como criativo os resultados serão, sem dúvida, frequentemente, tão inovadores como extremamente estimulantes para quem habitar tais soluções.

Fig-02: ao fundo edifício em Olivais Norte, Lisboa, projecto de Artur Pires Martins e Cândido Palma de Melo; um caso de referência na Arquitectura residencial portuguesa e um exemplo de protagonismo arquitectónio dos espaços comuns do edifício - neste caso galarias exteriores e torres verticais de acessos.

E podemos, ainda, avançar que nos melhores projectos, naqueles considerados “de referência”, tais aspectos foram devidamente considerados e, mais do que isso, bem usados na caracterização do “partido” próprio e “único” de cada uma dessas intervenções; numa atitude bem distinta da doentia repetição de soluções praticamente iguais, interior e exteriormente. E assim se procurará desenvolver, nos sítios mais diversos e potencialmente suscitadores de soluções únicas, soluções de espaços comuns estimulantes e valorizadoras de cada um desses sítios e da dinâmica de vida dos respectivos moradores.

Apenas para dar alguns exemplos deste sentido de reflexão, exemplos pouco “ponderados/estruturados” no sentido de serem casos reais que nos vieram à memória com grande naturalidade enquanto escrevemos estas palavras, podemos referir:

- Um caso no Norte da Alemanha em que entre dois blocos habitacionais alongados, com acessos por pequenas galerias/varandas muito humanizada, existe um amplo espaço comum com tecto envidraçado e múltiplo pé direito, usado para muitas actividades dominantemente de lazer, repouso e convívio “contido” (em pequenos grupos).

- Vários casos europeus em que a “massa” dos quarteirões habitacionais é sensivelmente desagregada e humanizada numa orgânica mistura de soluções habitacionais com acessos comuns e outras com acessos privatizados ao espaço público.

- Vários casos europeus e norte-americanos em que as galerias exteriores de acesso às habitações se desenvolvem em termos quase de pequenas ruas elevadas; havendo soluções em que o acesso a estes espaços continua a ser restrito aos habitantes de um dado conjunto edificado, e outras soluções em que o acesso é tornado basicamente público, embora sempre pedonal.

- Um caso parisiense em que em grandes edifícios multifamiliares em altura, o acesso às respectivas habitações se faz através de grandes varandas privativas, simulando-se, assim, o carácter da habitação unifamiliar, mas no quadro de um grande multifamiliar; e em que, naturalmente, os respectivos espaços comuns verticais também se caracterizam por estratégicas e estimulantes relações com o exterior.

- Casos portugueses de habitação cooperativa, realizados nos últimos três decénios, em que a principal unidade edificada não é o edifício, mas sim o quarteirão, sendo que a acessibilidade dos habitantes se faz, em parte, directamente, entre o respectivo miolo do quarteirão, definido como espaço de uso público pedonal, e as habitações térreas contíguas.

- Ainda outros casos portugueses de habitação económica realizada nos anos 60 do século passado, em que existe um sábio manejar da concepção dimensional e formal de galerias exteriores, estrategicamente conjugadas com acessos verticais, por vezes do tipo esquerdo/direito, conseguindo-se soluções extremamente interessantes na fusão entre funcionalidade e “imagibilidade”; por vezes atribuindo-se até um certo sentido agradavelmente lúdico à organização dos respectivos acessos.

- E ainda outros casos nacionais de habitação de promoção municipal, privada e cooperativa em que acontece uma estimulante concepção de espaços interiores de acesso (patins, átrios e galerias/corredores), bem dimensionados, estrategicamente pontuados pela luz natural e agradavelmente apropriáveis pelos respectivos moradores.

E, caros leitores, praticamente todos estes casos se integram nos principais parâmetros básicos que podem e devem marcar uma construção de habitação que seja racional e económica, pois, por exemplo, os principais volumes são caracterizados por forte regularidade geral formal e não existem sinuosidades construtivas significativas.

A título de um pequeno desabafo dá vontade de dizer que o limite de tais soluções estará na imaginação razoavelmente regrada de quem as concebe; só que por vezes a regulamentação acaba por ser um relativo obstáculo ao respectivo desenvolvimento.

E neste sentido convidam-se os leitores à consulta dos artigos sobre espaços exteriores privados que são facultados acima e que abordam as seguintes matérias.

Uma das matérias e que é essencial na estruturação geral e na concepção pormenorizada dos espaços comuns de edifícios multifamiliares é o claro e geral respeito e a expressiva salvaguarda da privacidade dos espaços domésticos interiores, bem como a cuidadosa consideração da privacidade dos espaços domésticos exteriores; e esta redacção respeita situações onde, por escolha projectual e programática, se aceita que em zonas domésticas exteriores, essencialmente afectas a usos privados, haja expressiva abertura visual, quando não até eventual interpenetração espacial relativamente aos respectivos espaços comuns de circulação. E sintetizando, a regra deve ser a expressiva salvaguarda da privacidade doméstica, exceptuando-se situações específicas em que se aceitam condições diversas. 

Outro aspecto a considerar na concepção dos espaços comuns de edifícios multifamiliares é que o eventual estímulo às relações conviviais entre vizinhos, deve ser sempre submetido à referida regra de respeito pela privacidade doméstica e pelo sossego doméstico (outra importante forma de privacidade), sendo que poderá ser promovido em situações cuidadosas e sempre privilegiando condições de convívio relativamente circunscrito; podendo haver, no entanto, um potencial de convívio alargado e eventual (ex., no interior de um quarteirão), mas que, neste caso, deverá ser sempre condominialmente bem condicionado e regrado , pois nunca faria sentido que os moradores fossem “obrigados” a suportar situações de convívio incomodativo e frequentes.

Um outro aspecto que já foi, acima, aflorado refere-se à expressão que pode ter a estrutura de acessos e de espaços comuns na imagem pública dos respectivos edifícios e mesmo das respectivas vizinhanças de proximidade. E não se trata aqui de defender qualquer “obrigatoriedade” conceptual, mas sim de sublinhar o importante papel que tais elementos podem e devem ter numa positiva e afirmada caracterização local; numa opção bem distinta de paisagens urbanas idênticas, descaracterizadas e a “perder de vista”.

Relativamente ao amplo leque de “espaços comuns” possíveis num dado edifício multifamiliar o limite estará, tal como se procurou apontar, na imaginação e na capacidade de cada projectista, nos objectivos estipulados para a respectiva intervenção residencial e no orçamento que esteja previsto para a mesma intervenção, embora este último aspecto não seja determinante numa estratégia de adequada diversificação dos espaços comuns, tal como se defendeu acima.

E, finalmente, abordam-se as garagens comuns como elementos que são, cada vez mais, protagonistas na vivência diária dos edifícios multifamiliares, mas que, incrivelmente, continuam, por regra, a ser tratadas apenas como elementos funcionais – e mesmo nesta matéria muitas vezes caracterizadas por péssima funcionalidade nas manobras. E não será altura de se encarar a concepção das garagens comuns com a dignidade que merecem espaços tão intensamente usados? Fica a questão, que é razoavelmente desenvolvida no artigo acima apontado.

e a estas matérias relativas aos “espaços comuns no edifício multifamiliar”, voltaremos (mas, tal como já se apontou, nos artigos acima disponibilizados encontrarão, desde já, um conjunto interessante de reflexões).

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIII, n.º 620
Espaços comuns no edifício multifamiliar: 4 artigos sobre o tema e um novo artigo
Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, novembro 18, 2013

Galerias comuns e patins residenciais - Infohabitar 461



Infohabitar, Ano IX, n.º 461


Artigo XLI da Série habitar e viver melhor


Galerias comuns e patins residenciais


António Baptista Coelho


Aprofundando-se o percurso comentado por uma adequada programação do edifício habitacional e visando-se, por regra, a solução multifamiliar mais, ou menos, "coletiva" abordam-se, sinteticamente, neste artigo, (i) as galerias comuns exteriores e (ii) interiores e (iii) os patins habitacionais.

Não se pretende, de forma alguma, esgotar a abordagem destes elementos constituintes de um habitar em comum, mas sim contribuir para uma discussão renovada sobre matérias que, infelizmente, parecem ser, por vezes, pouco alteráveis e previamente definidas, como se as tipologias mais correntes fossem uma espécie de fatalidade, o que evidentemente não é verdade.

Galerias exteriores habitacionais ( acessos habitacionais )


Sobre as galerias exteriores muito se escreveu e muito se poderá e deverá escrever, e o que se pode considerar ser, provavelmente, uma última tendência, não trata nada bem este tipo de soluções de acesso às habitações, mas julga-se que esta tendência não considera as verdadeiras vantagens que as galerias comuns exteriores podem trazer a um habitar mais satisfatório, mais estimulante e mais flexível e adaptável a diversos modos e gostos de habitar.

De certa forma trata-se de poder ter “a rua”, logo ali, mesmo, junto à nossa soleira, o que pode ter aspetos muito interessantes, por exemplo, em vistas diversificadas sobre o exterior e sobre a aproximação à porta de entrada e no sentido de uma aliança intensa com a vegetação, uma condição que, ela própria, poderá caraterizar a solução como se de uma moradia se tratasse, situação esta que pode ser, ainda, acentuada caso se trate de habitações em dois níveis ("duplex").


Fig. 01: - um ótimo exemplo de galerias exteriores comuns, em Olivais Norte Lisboa, projeto dos arquitetos Artur Pires Martins e Palma de Melo (1959)



Considerando os potenciais aspectos negativos desta solução estes concentram-se em soluções com galerias estreitas e com um elevado número de vizinhos com acesso por cada galeria, não havendo alternativa de acesso, condições estas que levarão a uma convivência demasiado próxima, demasiado intensa e “obrigatória”, e que será agravada caso aconteçam, ou seja provável que venham a acontecer, diferenças significativas de hábitos de vida diária que posam ter reflexos diretos no uso das galerias e que não sejam consensualmente aceites por todos os residentes.

Caso não seja possível ter uma ideia aproximada das características socioculturais e modos de habitar, mais correntes, dos futuros residentes e haja possibilidade de poder haver uma significativa diversidade de modos de habitar, não será, provavelmente, recomendável a aplicação desta solução em galerias comuns exteriores.

Considerando a realidade da história habitacional e designadamente a história da nossa habitação de interesse social (portuguesa) é possível identificar e visitar casos com galerias exteriores que continuam extremamente bem qualificadas várias dezenas de anos após a sua ocupação original, assim como, infelizmente, também encontramos outros casos exatamente com um sinal contrário. Julga-se, no entanto, que estas situações negativas no uso de galerias exteriores marcaram os respectivos casos também logo desde a sua utilização original - decorrendo mais de uma inadequação básica entre a solução e os modos de vida dos seus habitantes, do que de uma "deficiência estrutural" da solução.

De certa forma haverá aqui a constatação de que a solução de galeria pode ser bem ou mal aceite, e as diferenças nos tipos sociais dos respectivos habitantes não parecem ser razões únicas e suficientes para uma tal discrepância na satisfação no uso, pois conhecem-se casos que permitem esta última afirmação, por exemplo:

·         o caso de galerias comuns exteriores muito bem apropriadas por famílias de professores;

·         o caso de galerias comuns (muito alongadas), que não foram especialmente bem aceites por populações oriundas de barracas, portanto, de uma relação directa com o espaço exterior – mas atente-se que era a rua e não uma “rua” muito estreita e elevada;

·         e o caso de galerias dimensionalmente reduzidas em largura, mas relativamente longas e habitadas por grupos sociais muito carenciados, e marcadas por aquilo que parece ser uma excelente vivência que se mantém há dezenas de anos - neste caso numa solução de quarteirão socialmente diversificado e bem integrado.




Fig. 02: - um ótimo exemplo de galerias exteriores comuns, em Olivais Norte Lisboa, projeto dos arquitetos Artur Pires Martins e Palma de Melo (1959)



Provavelmente, para além de outros aspectos entre os quais os que foram atrás referidos, certas possibilidades ligadas à especificidade de cada local, à diversidade social, à boa qualidade urbana local e relacional, à qualidade das vistas paisagísticas longínquas que são possíveis e ao interesse e qualidade dos espaços exteriores contíguos, que podem ser verdadeiros e atraentes protagonistas muito bem revelados a partir das galerias exteriores, serão, talvez, importantes fatores do seu maior êxito.

E não há que contornar a questão de as galerias comuns mais agradáveis serem aquelas mais desafogadas e, para tal, nelas se terá de gastar uma quantidade significativa de metros quadrados de construção; mas aqui também importará a pormenorização das mesmas e a sua estimulante abertura à paisagem de proximidade.

Do que se sabe, através de estudos e da observação direta, algumas reflexões, preliminares, são, no entanto, possíveis:

-     Uma refere-se à solução de galerias largas, quase convertendo-se em ruas elevadas, que produz resultados interessantes, simulando uma povoação vertical em que os apartamentos continuam a ligar-se a “ruas”, embora estas se situem muito acima do solo.

-     Outra aponta que galerias pouco longas podem ter uma apropriação que se aproxima daquela possível em longas varandas, desde que, como se apontou, as galerias não sirvam um número excessivo de vizinhos.

-     Outra refere-se à excelente “convivência” entre soluções alternativas de acesso por elevadores e patins ou por galerias, servindo estas, diretamente, entradas de serviço; uma solução que estará naturalmente mais ligada a habitações com maior dimensão, mas que poderá ser aplicada noutros casos, proporcionando-se uma boa adequação no serviço dos elevadores a um amplo número de habitações.

-     Outra tem a ver com a atraente vibração da fachada, em volumes e contrastes de claro/escuro que são proporcionadas pelas galerias exteriores comuns, em efeitos que podem ser atraentemente reforçados através de uma adequada escolha de materiais, texturas e cores. E aqui é interessante refletir que esta opção tanto pode servir um efeito final de grande purismo, racionalidade e leveza formal, como um efeito bem distinto, rústico ou mesmo vernáculo, e com conotações ligadas ao abrigo primitivo.

-     Outra tem a ver com a diferença ambiental e de caráter que diferencia, de forma tão distinta, as soluções edificadas fortemente interiorizadas, em que de imediato associamos os espaços comuns a sítios quase claustrofóbicos (e para isso contribuem alguns regulamentos), sem luz natural e muitas vezes com problemas de ventilação aparentes nos cheiros que neles se infiltram a partir das habitações, das soluções edificadas onde para lá da porta está, quase, a rua, o sol, o vento, as copas das árvores e os bandos de pássaros. São, realmente situações bem diferentes no respectivo potencial de agradabilidade e de satisfação que possibilitam aos seus habitantes.

-     Outra reflexão põe em relevo que a caracterização dos aspectos de intimidade nos circuitos comuns que levam à porta do fogo pode viabilizar uma boa solução de galerias exteriores, acentuando, por outro lado, uma estimulante aproximação a uma “imagem” de agregação de “moradias”.

-     Ainda outra reflexão aponta que os acessos em galerias exteriores podem ser os mais adequados a soluções que privilegiem a acessibilidade a uma grande diversidade de utentes, tais como crianças, idosos e pessoas carregadas ou empurrando carrinhos; isto desde que não havendo desníveis entre as galerias e as habitações – a privacidade tem de estar solucionada de outra forma. Mas nesta matéria e referindo John Noble e Barbara Adams (1), há pessoas que valorizam a privacidade e a sensação de abrigo que são características dos acessos por escada e patim.

-     Voltando a referir o estudo de John Noble e Barbara Adams (3), importa considerar que galerias de acesso comum muito elevadas podem ser ambientalmente pouco confortáveis, porque muito expostas aos excessos climáticos; uma condição que poderá, no entanto, ser levada em conta no respectivo projeto.

-      E não podemos descurar o potencial de inovação habitacional associado ao desenvolvimento de galerias exteriores comuns ou até quem sabe de uso público; matéria que terá de ficar para desenvolvimentos posteriores.

 

Patins de distribuição das habitações ( habitação acessos )


Os patins de distribuição para habitações podem ser, tal como as entradas comuns dos edifícios, extremamente contidos em termos de reduzido desafogo espacial e de acabamentos muito económicos, ou, pelo contrário, desenvolverem-se em espaços desafogados e caracterizados, por exemplo, por elementos de arte.

Há patins habitacionais mínimos em que, praticamente, não há espaço para mais nada, a não ser as portas, e que são sentidos como adequados, como íntimos e bem agradáveis; e habitualmente esta situação liga-se a patins bem cheios de luz natural e que, assim, ganham uma outra ampla dimensão, mas podem estar associados, apenas, a uma racional, sóbria e muito digna pormenorização, em que fica aparente a intenção de associar o máximo de espaço construído às próprias unidades habitacionais privativas.

Será que a função essencial destes espaços é o apoio à entrada nas habitações, devendo, essencialmente, enquadrar essa entrada em termos de dignidade e equilibrada capacidade de apropriação? Ou será possível atribuir aos patins outras finalidades?



Fig. 03: - um dos agradáveis patins comuns, em Olivais Norte Lisboa, projeto dos arquitetos Artur Pires Martins e Palma de Melo (1959)



É, provavelmente, difícil atribuir aos patins residenciais outras funções que não as do acesso aos fogos, da equilibrada separação entre as vistas que são possíveis entre as portas privadas de cada patim e de identificação e apropriação, equilibradas, de cada porta e dos espaços mais próximos de cada porta.

E será possível exercer estas funções em tristes espaços interiores, sem luz natural? Parece que não, e, assim, acabamos de colocar fora do conjunto de espaços residenciais potencialmente geradores de satisfação um grande grupo de edifícios.

E é interessante refletir que a questão de se tratar de um patim interior, mas com boa luz natural, ou exterior, não é algo que influencia, de forma significativa, a satisfação possível; mas se for interior e não receber luz natural, então o resultado é um espaço, habitualmente, claustrofóbico do qual temos vontade de sair rapidamente, seja para os outros espaços comuns, seja para a “salvação”, que marca a abertura da porta de uma habitação, uma “salvação” que está muito ligada à entrada de luz natural, no patim, quando exista essa luz natural no interior da habitação, o que, infelizmente, nem sempre acontece.



Galerias interiores ( corredores comuns habitacionais )


Aproveitando estarmos a falar de patins interiores, passemos, agora, às galerias interiores, uma espécie de grandes patins interiores muito alongados.

E o que se disse sobre os patins interiores é reforçado para as galerias interiores, cujo “grau de potencial de satisfação” está inteiramente dependente da existência de boas condições de iluminação natural; de certa forma, podemos dizer que a única possibilidade de se viverem galerias interiores é estas serem caracterizadas por excelentes condições de luz e ventilação naturais, que, no caso das galerias que correm no interior dos edifícios, são habitualmente condições de luz e ventilação a partir da cobertura.

E vale a pena reafirmar que a existência de galerias interiores sem luz natural configura uma daquelas soluções residenciais com um maior potencial de influências negativas no uso diário do respectivo edifício. Realmente, aqui, o espaço comum criado é, quase sempre e fortemente, claustrofóbico e se a uma condição como esta associarmos habitações cujos vestíbulos também não recebam luz natural, então, o resultado é fortemente negativo.



Fig. 04: as galerias interiores comuns residenciais podem ser excelentes, tal como é aqui ilustrado com o exemplo da Cooperatiova Caselcoop no bairro de Caselas, lisboa, projeto do aqruiteto Justino de Morais (na imagem á direita).



Evidentemente que condições de espaciosidade desafogadas e um cuidadoso acabamento formal (ex., texturas, cores, sinalética, luz artificial) podem suavizar o resultado vivido de tais galerias interiores, mas se, pelo contrário, não houver tais cuidados e se as restantes condições de conforto não forem eficazes – designadamente, em termos de ventilação e de isolamento sonoro – , então, teremos uma mistura extremamente negativa de claustrofobia, proximidade física excessiva e intrusão obrigatória por parte de ruídos e cheiros originados nas habitações vizinhas. Teremos, assim, de certo modo, um ambiente fechado onde se concentrarão todas as queixas de falta de qualidade dos respectivos vizinhos; queixas estas que, provavelmente, irão também refletir a insatisfação com habitações com uma única fachada exterior, uma solução que está, habitualmente, associada a estas galerias interiores, numa negativa "rentabilização" de edifícios muito espessos.

E esta é uma daquelas exceções à regra da “grande nau, grande a tormenta”, pois, apesar de tudo, a existência de um número mais elevado de habitações implicará dimensões de galerias interiores mais folgadas e respectivas condições ambientais (luz e ventilação),  que resultarão em condições de habitabilidade eventualmente menos críticas; a outra opção será o mínimo desenvolvimento destas galerias interiores comuns, dando acesso a reduzidos números de habitações em cada nível.

O que se visou e visará, aqui, nesta série de artigos, é uma defesa das galerias e dos patins comuns como elementos muito positivos e protagonistas de uma solução residencial que verdadeiramente nos agrade. Basta de soluções, que parecem de recurso, onde as galerias e os patins são mínimos, doentiamente interiorizados e mal pormenorizados.

Afinal, nada disto faz, realmente, sentido numa solução residencial que faça “viver” galerias de acesso e patins comuns como elementos adequadamente protagonistas da solução residencial geral onde se integram; galerias e patins comuns não podem ser elementos negativos que contribuem para o encerramento dos vizinhos nas suas células habitacionais individuais, antes pelo contrário devem ser elementos que apoiem no convívio natural entre quem vive próximo e por isso merecem adequado e pormenorizado projeto.



Notas:

 (1)           John Noble; Barbara Adams, "Housing. Home in its Setting", p. 526.
 (2)           John Noble; Barbara Adams, "Housing. Home in its Setting", p. 526.


        Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.
(ii) Para proporcionar a edição de imagens no Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens, sendo usado o Photobucket; onde devido ao grande número de imagens se torna muito difícil registar as respectivas autorias. Desta forma refere-se que, caso haja interesse no uso dessas imagens se consultem os artigos do Infohabitar onde, sistematicamente, as autorias das imagens são devidamente registadas e salientadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor do Infohabitar constituem bancos de dados do Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos do Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor.



      Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano IX, nº461
Artigo XLI da Série habitar e viver melhor

     Galerias exteriores e interiores e patins residenciais

     Grupo Habitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional

     e  Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do LNEC

     Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.









[1]     John Noble; Barbara Adams, "Housing. Home in its Setting", p. 526.


[2]     John Noble; Barbara Adams, "Housing. Home in its Setting", p. 526.