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sexta-feira, outubro 26, 2012

AS MEDIDAS DO HOMEM E AS MEDIDAS DA CIDADE: SOBRE A NATUREZA DO HABITAR - Infohabitar 413

Infohabitar Ano VIII, N.º 413

AS MEDIDAS DO HOMEM E AS MEDIDAS DA CIDADE: SOBRE A NATUREZA DO HABITAR
Artigo XXIII da Série habitar e viver melhor

António Baptista Coelho


Índice

• Introdução às "medidas do homem” e às “medidas da cidade”

• Breves reflexões sobre a actual pobreza e limitação do "jogo tipológico" habitacional e urbano

• Casas mais, ou menos, adequadas às várias “medidas” do homem e a possibilidade de um "livro de horrores"

• Sobre a crucial importância dos outros espaços do habitar não-funcionais e de aspectos não-dimensionais

• Mistura essencial de quantidades e qualidades no habitar e na cidade

• Sobre os habitantes mais sensíveis

• E no fim e no princípio a imagem urbana, como quadro ou ferramenta essencial da construção das escalas/medidas humana e urbana


Introdução às "medidas do homem” e às “medidas da cidade”

Relativamente a estas “medidas do homem” e a estas “medidas da cidade”, que fazem título do artigo, coloca-se, logo, a questão de serem duas “medidas” clara ou razoavelmente distintas ou, serem, “apenas” duas respostas, que, para serem adequadas têm de ser/estar intimamente conciliadas?

Martin Wynn aponta que ao longo de muitos anos as casas foram sendo pensadas e construídas para uma família-tipo “média”, não se oferecendo respostas habitacionais adequadas para famílias menos correntes, assim como, habitações adequadas ou adaptáveis para idosos, jovens, pessoas sós, famílias numerosas, deficientes, trabalhadores móveis, e, muito provavelmente, mais alguns grupos de habitantes cujas características humanas e sociais se afastem, um pouco, ou substancialmente, do habitante “médio”(1), que, afinal, nunca existiu.

Dois aspectos podemos acrescentar, facilmente, a esta reflexão de Martin Wynn, o primeiro é que, hoje em dia, é muito significativa a falta sentida relativamente a essas habitações que não aquelas feitas para a “famosa”, e hoje em dia talvez quase inexistente família “média” (2), e o segundo aspecto é que esse tipo de considerações são extensíveis ao exterior residencial, e, nomeadamente, ao que constitui as vizinhanças contíguas aos edifícios.

E Wynn, há já 24 anos sublinha-se, salientava ainda mais alguns aspectos, que continuam a marcar pela grande actualidade: "A crise habitacional actual tem no seu coração exigências quantitativas e qualitativas convergentes. As pessoas nas áreas urbanas querem mais espaço interior e exterior (aberto). Querem cidades mais verdes e casas que consumam menos energia. Querem melhor acessibilidade ao trabalho, melhores serviços sociais e mais lojas..." (3)

E concluindo, em termos práticos, hoje em dia a oferta residencial tem de diversificar em termos de conteúdos funcionais e ambientes domésticos e comuns, proporcionando casas muito mais, literalmente, à medida do “homem” que realmente precisa de casa e não de um homem e de uma família médios e praticamente inexistentes.


Fig.01

Breves reflexões sobre a actual pobreza e limitação do "jogo tipológico" habitacional e urbano

E, antes de continuar a reflexão, importa ainda registar, um pouco a modos de "mea-culpa", que os próprios projectistas têm considerado o "jogo tipológico" do habitar e da cidade de uma forma que é, por regra, extremamente passiva e/ou incipiente, com os mais diversos tipos de justificações, uma talvez mais válidas do que outras: desde a simples inércia, até não justificada, que aceita as tipologias existentes (ex., do direito-esquerdo, ao unifamiliar isolado) como uma realidade preexistente e imutável, até justificações, que o autor destas linhas considera extremamente discutíveis e mesmo negativas, onde se associa o habitar a um "produto habitacional", modelado por exemplo com referências à indústria automobilística, e em que os "modelos" de habitar são "oferecidos" ao quadro de procura existente e cada um escolherá o mais adequado para si e para os seus, e ainda numa fase mais aguda desta opção, aceitando-se que o próprio quadro habitacional aceite uma perspectiva de rotação por obsolescência e até eventualmente por mutação de modas, semelhante ao da insdústria automobilística e quem sabe, tendencialmente, ainda em períodos mais curtos (estamos naturalmente a exagerar); no entanto e naturalmente estes caminhos teriam de passar pelo aprofundar de uma crítica e talvez mesmo absurdo padronização das condições de habitar a um espartilho de meia dúzia de modelos, situação esta que nem se conjuga com a situação actual de existência de um amplo parque habitacional que precisa, em grande parte, de cuidados de reforma física, funcional, ambiental e, talvez quase em primeiro lugar, em termos de "partido" habitacional e urbanístico.

Mas respeitam-se natural e profundamente todas as opiniões expostas e aqui sumariamente apontadas, considera-se que é urgente e vital a facilitação e simplificação de soluções de intervenção habitacional e urbana, que têm de passar por uma fundamental "industrialização", mas considera-se que tais cuidados devem ser dirigidos para aspectos mais delimitados e claramente tipificáveis e naturalmente replicáveis, como por exemplo soluções de fenestração, de compartimentação, de vãos interiores, de arrumação, de versatilidade em termos de mobilariedade e equipamento doméstico, etc.

E não deixa de se fazer aqui uma referência importante a considerar-se que será tempo de podermos ser mais inovadores e até, quem sabe, um pouco iconoclastas numa renovada abordagem ao (re)habitar urbano; matéria esta que naturalmente tem ligações sensíveis com múltiplos aspectos de regulamentação.


Casas mais, ou menos, adequadas às várias “medidas” do homem e a possibilidade de um "livro de horrores"

Voltando então ao tema específico que se estava a tratar, e lembrando essa difícil e sensível procura dos aspectos e dos caminhos de casas mais adequadas às várias “medidas” do homem – umas físico-funcionais, outras psico-ambientais e ainda outras mais especificamente arquitectónicas –, uma opção é ir aprendendo sabiamente com os erros, embora tal sabedoria não seja regra, muito pelo contrário.

E nestas matérias críticas e sempre vitais, em termos de novas operações e de intervenções de reforma do existente, seria, realmente, oportuna uma colectânea que registasse não só que se pode considerar serem as melhores soluções de habitar e de cidade, provadas por dezenas de anos de um uso/habitar que se traduz em estima e até melhoria do respectivo quadro físico, mas que também registasse o que se tem provado serem aspectos e características de casas e bairros que fazem os habitantes insatisfeitos e, frequentemente, infelizes; nesta última opção, uma espécie de pequeno “livro de horrores”de casos habitacionais concretos, aplicando-se, naturalmente, aqui o termo num sentido um pouco figurado - e um dos passos necessários para constar de tal livro seria, por exemplo, tratar-se de um caso já demolido e sobre o qual se tivesse feito um estudo adequado das respectivas razões de insatisfação.

Naturalmente que um dos casos primeiros a constar de uma tal, possível, colectânea é o conjunto de habitacional de Pruitt-Igoe, inaugurado em 1954 e uma solução de Arquitectura ganhadora de prémios arquitectónicos, que foi implodida em 1972, apenas 18 anos depois de inaugurada. Em Portugal e no LNEC Luís Soczka estudou este caso e refere que a zona se tinha transformado em "um autêntico inferno, com uma subida em flecha dos actos de vandalismo contra pessoas e bens, e crescentes sentimentos de medo e infelicidade por parte dos residentes". (4)

Deixemos, para já a ideia, desse pequeno “livro de horrores” e continuemos em Pruitt-Igoe, a tal zona que estava a gerar “sentimentos de medo e infelicidade” (o sublinhado é meu), diz Soczka, porque aí se falhou, quer por inadequado conhecimento dos futuros residentes, quer mesmo na matéria da Arquitectura pela ausência de espaços de vizinhança que fizessem a relação e a transição entre o anonimato do espaço citadino e a privacidade de cada habitação, espaços esses onde houvesse equilíbrios de consenso e dignidade, mas também alguma capacidade de apropriação, identidade e desenvolvimento de algum sentido de pertença a comunidades razoavelmente conhecidas.

Escreveu Luís Soczka que faltavam "esses espaços que não são tão privados como a casa de cada um, nem tão públicos como uma estação de comboios. São os espaços dos «nós», onde uma micro-comunidade assente na teia cúmplice das vizinhanças constrói uma identidade colectiva e actuante como suporte social no quotidiano, tal como nas aldeias". (5)


Fig. 02

Sobre a crucial importância dos outros espaços do habitar não-funcionais e de aspectos não-dimensionais

A medida justa do habitar, entre homem e urbe, faz-se também e fortemente em espaços, cuja funcionalidade até, praticamente, nem importa, espaços estes que continuam a ter plena justificação nesta época da globalização, tal como defende William Mitchell (2000) (6), que lembra quando, na história do homem, o espaço junto ao poço perdeu a sua função e se inventaram outros sítios urbanos conviviais como o café, e que defende que a história se repete, hoje em dia, quando, cada vez mais fechados nas nossas casas e na web, precisamos urgentemente de (re)inventar os espaços públicos citadinos, os tais que são sede de potencial convívio vicinal e urbano, e é o mesmo Mitchell (2003) (7), um ardente defensor da era digital, que, assim, associa esta era à defesa de um urbanismo baseado no respeito pelo “espírito do lugar”, valorizando os aspectos culturais e mesmo cénicos, que são específicos de cada sítio: portanto, um urbanismo do pormenor ou uma verdadeira e estimada Arquitectura Urbana, e aqui o termo estima liga-se ao cuidado que a ela importa dirigir por quem a projecta, e ao cuidado que a ela dirige quem a habita, matéria esta última que deverá ter prolongamentos/apoios em termos de divulgação/informação.

Sobre a pormenorização da arquitectura urbana há que sublinhar que ela deve servir, em termos globais, as “medidas do homem”, seja em aspectos mais conhecidos de satisfação e insatisfação, seja relativamente ao sentido de segurança, seja nas questões de acessibilidade, seja no apoio aos habitantes mais “frágeis” – crianças e idosos – , seja numa adequação aprofundada relativamente ao modo como observamos os espaços mais próximos da nossa casa.

Será aqui oportuno referir que a satisfação residencial é, com frequência, associada, respectivamente, e em ordem de decrescente de importância, aos seguintes tipos de aspectos, sublinhados por Ekambi-Schmidt (8): (i) orientação, (ii) claridade e insolação; (iii) dimensionamento; (iv) isolamento físico e social; (v) conforto; (vi) tranquilidade ambiental; (vii) sentido de abertura e carácter de ambiente acolhedor.

E não é possível deixar de referir aqui que "apenas" a interpretação destes aspectos dá muito que pensar: atente-se, por exemplo, á primazia da orientação, claridade e insolação, relativamente ao dimensionamento.

E na mesma linha de reflexões e a partir de um amplo inquérito experimental realizado no LNEC, já há 45 anos (em 1963), dirigido por Nuno Portas, retira-se que entre as causas confessadas de má vizinhança se salientam, quer os problemas com as crianças, quer os que decorrem de deficientes condições de isolamento acústico e consequentes sensações de falta de intimidade.

Voltaremos a estes “leques” de satisfação em vários pontos deste estudo e desta série de artigos, mas desde já se evidencia a mistura que sempre acontece entre aspectos considerados mais, e menos, objectivos, aspectos estes que, tantas vezes, se conjugam.


Mistura essencial de quantidades e qualidades no habitar e na cidade

Nesta linha de mistura essencial de quantidades e qualidades, cita-se Soczka, por sua vez, citando Oscar Newman, que salienta as características que contribuem para o desenvolvimento de espaços habitacionais considerados mais "defensáveis" e apropriáveis (9): (i) um ambiente físico que aceite zonas de influência territorial, e assim bem percepcionadas pelos residentes; (ii) um projecto urbano que suporte de uma natural acção de vigilância natural por parte dos próprios residentes; (iii) um projecto influenciador da percepção da identidade colectiva dos residentes; (iv) e a justaposição de "zonas de segurança" na área do projecto e clarificação das zonas adjacentes como seguras ou inseguras.

Novamente matérias essencialmente qualitativas, onde até, por exemplo, a "quantidade" excessiva pode ser matéria negativa e onde as dimensões do homem e as da cidade, assumem protagonismo essencial.

Afinal a cidade nasceu à medida do homem, para o servir, para o proteger melhor, para dar identidade/presença ao homem solidário e o tornar mais eficaz com menos esforço, e acabou realmente por lhe propiciar mais tempo para outras ocupações que não as estritamente necessárias à sua sobrevivência, tendo, assim, nascido uma cultura mais sedimentada e activa.

Mas todos estes aspectos derraparam, como bem sabemos, em tantos bairros "de má fama", isolados da cidade (portanto sem "a medida" da cidade), e feitos sem qualquer medida do do homem mas que continua a ser essencial na razão de ser da cidade bem habitada; bairros onde para lá, ou antes, de não haver uma segurança bm percepcionada, e uma clara satisfação na vida diária, não há realmente "cidade".

Neste sentido lembremos "os 3 Mandamentos" dos espaços que definem e evidenciam condições de segurança, segundo Claude Lamure (10): orientação e localização fáceis; observação da movimentação dos outros; e prevenção dos encontros por "fuga", interdição de acesso ou camuflagem. Matérias estas que, evidentemente, antes de se ligarem à "segurança" são bases da coesão urbana.

E Lamure reafirma alguns aspectos básicos da referida sensação básica de segurança, tais como a definição de espaços rectangulares apenas abertos unilateralmente, ou abertos multilateralmente, mas sobreelevados e, essencialmente, a exigência, mínima, de um encerramento espacial bilateral, conjugado com a possibilidade de observações fáceis dentro de um espaço geométrico muito regular, estruturado por eixos perpendiculares entre si.

E se pensarmos, um pouco, sobre que forma urbana serve tais exigências temos, naturalmente, o tecido urbano contínuo, feito de ruas, largos e pracetas, um espaço canal ramificado, mas onde há sempre uma noção forte de espaço contido, delimitado bem definido – com princípio e fim – e de se estar a ser eventual e naturalmente observado de janelas, portas e ruelas constantemente contíguas. Um tecido feito com cuidado/pormenor e afectuosidade em termos de uma Arquitectura Urbana com escalas humana e urbana.

Ao nível concreto dos espaços de circulação e de uso comuns, serão de evitar, segundo o citado autor, galerias e zonas muito extensas, reverberantes (onde se sinta o eco) e mal iluminadas; e nesta sequência que vai do mais público ao mais privado, Lamure refere ainda que a existência de circulações domésticas claramente configuradas e bem estruturadas é, também, um factor de melhoria da sensação de segurança, mesmo no interior da habitação. E esta última consideração tem grande interesse na tal questão de uma adequada reinvenção tipológica também no mundo doméstico.

É realmente interessante ter aqui uma ideia de que o ordenamento claro dos espaços que habitamos - da rua ao recanto doméstico - e a sua clara e bem delimitada configuração, desde que bem percebida por quem a habita nos seus limites e nas suas relações mútuas, é uma condição para o seu bom uso e para o grado que se possa ter nesse uso, e esta é uma realidade que irá do espaço privado, ao comum e ao público; e, portanto, da escala humana à urbana


Fig.03

Sobre os habitantes mais sensíveis

Lembrando, agora, os habitantes que precisam de mais apoio e enquadramento, o espaço do habitare e a vizinhança residencial deverá responder positivamente às condições físicas e psicológicas específicas dos idosos, nomeadamente, como refere Claude Lamure, pela previsão (11) de boas condições de conforto nas deslocações e pelo bom relacionamento social através de: (i) proximidade a transportes colectivos e a equipamentos comerciais; (ii) proximidade relativamente a amigos, familiares e conhecidos; (iii) conhecimento da envolvente urbana; (iv) e existência de espaços de condomínio equipados e vivos; matérias estas que tem todas a ver com as "escalas" do fazer do habitar.

E tal como se refere no estudo “Do bairro e da vizinhança à habitação” (12) a vizinhança próxima é o espaço ideal, em termos de potencial de acessibilidade física e de segurança nas deslocações e nas estadias, para o uso diário e intenso por idosos, propiciando e motivando saídas frequentes das respectivas habitações, com evidentes vantagens, tanto ao nível da saúde física e psíquica destes habitantes (andar a pé, “flanar”, estar ao ar livre, conviver), como ao nível do aumento da animação e da convivialidade diária global das respectivas Vizinhanças Próximas e Alargadas, até porque, sendo pessoas que, frequentemente, não cumprem horários de trabalho, são elementos sempre disponíveis para essa “vivência de rua e de café”.

Muito do que se referiu para os idosos também se aplica às crianças na vizinhança de proximidade, sendo verdade que boas condições de agradabilidade e segurança contíguas às habitações e fáceis e seguras em termos de acesso e de uso são factores de intensificação do uso global dos exteriores e designadamente da permanência no exterior de idosos e crianças, frequentemente acompanhando-se mutuamente; e há que ter em conta a importância que o meio urbano pode ter na formação de tantas crianças citadinas, tantas vezes, isoladas em casa e desintegradas de um meio social equilibrado e variado (13).

Tal como é defendido por muitos autores as crianças devem poder conviver intensamente e brincar, apoiando-se a sua formação global e sua socialização e reduzindo-se, mesmo, o risco de problemas mentais posteriores; e este facto é bem evidente quando sabemos que o número crianças com psicoses pode crescer de "0 a 37", quando o número de crianças com que uma dada criança convive diminui de cinco, ou mais de cinco, para nenhuma (14). E as crianças e jovens exigem, realmente, alguma diversificação espacial e de equipamentos na proximidade directa das habitações (15); provavelmente é esta matéria uma das mais importantes em termos de programação da vizinhança residencial.

E tudo isto dá que pensar no que se refere à opção que se julga fundamental no que se refere ao desenvolvimento de arquitecturas residenciais que suscitem ou proporcionem a convivialidade vicinal.

Mas todas estas preocupações práticas de marcação de territórios de vizinhança e do seu adequado equipamento irão falhar caso não sejam servidos por uma pormenorização urbana cuidadosa e sensível e que, para o ser, tem de ser desenvolvida considerando a forma como olhamos e vamos entendendo a organização do espaço exterior. E para tal há que ter em conta que, tal como explica Rudolf Arnheim (16), em posição de pé, o olhar humano tende a inclinar-se para o chão, acontecendo o mesmo quando estamos sentados. Isto faz salientar a importância do pavimento em qualquer apreciação espacial, e, nomeadamente, no caso dos espaços interiores e no caso dos espaços exteriores em grande relação com edifícios (pontos de partida e chegada), onde estamos muito mais concentrados e atentos ao que nos rodeia, até por estarmos, quase, em nossa casa e esta, como bem sabemos, é o reino do pormenor.



Fig.04

E no fim e no princípio a imagem urbana, como quadro ou ferramenta essencial da construção das escalas/medidas humana e urbana

E cá estamos, novamente, na fundamental, porque potencialmente estimulante dimensão da paisagem urbana e temos de lembrar algumas palavras de Gordon Cullen, de comparação entre paisagem uniforme ou multiforme, neste caso numa aplicação específica à temática do importante tratamento do chão público: "As construções ricas em texturas e cores, assentam, necessariamente, num pavimento. Se este não passar de uma extensão asfaltada lisa e uniforme, elas por sua vez parecem desarticuladas, separadas umas das outras, uma vez que o pavimento não prende o nosso interesse". (17)

E Michael Laurie (18) avança um pouco mais nesta matéria, que tudo tem a ver com as medidas do homem e as medidas da cidade apontando que o olhar humano é cativado quer pelo emprego de peças pequenas e bem identificáveis produzindo superfícies finamente texturadas que têm uma relação íntima com a escala humana, como pelo uso de peças grandes, ligadas por juntas, que são neste caso os elementos responsáveis pela relação com a escala humana e também, de certo modo, com a escala da vizinhança e da cidade.

O que se pretendeu evidenciar neste tema das medidas do homem e da cidade é que tais medidas tanto são genéricas e estruturantes, constituindo grandes objectivos como é o caso da segurança, como são particularizadas e ligadas a pormenores bem estruturados e únicos, e há casos de conjuntos de casas que não proporcionam felicidade seja pela ausência de tais condições gerais, seja pela inexistência de tais condições de pormenor.

Neste tema das medidas do homem e da cidade começámos por reflectir, um pouco, sobre que homem? Que família? E talvez que vizinhança citadina? Uma verdadeira, feita da tecitura complexa mas bem urdida que caracteriza uma cidade viva, ou um tecido esgarçado e descaracterizado? Mas voltaremos a estes temas vistos a partir de outras perspectivas, pois afinal é provavelmente nesta questão de que medidas humanas e citadinas devemos aplicar e aprofundar na cidade habitada de hoje estará boa parte do segredo de um habitar mais feliz.

Notas
(1) Martin Wynn, "Housing in Europe", p. 44.
(2) Num estudo já de 1985 da Direccion General de Arquitectura y Vivienda, do Ministerio de Obras Publicas y Urbanismo de Espanha ("Individuo y Vivienda", p. 50) refería-se que a percentagem de habitações com uma pessoa na RFA era, já na altura, significativa, variando, por Estados, entre um mínimo de 21.9% e máximos de 39.5% e 44.1%, respectivamente, nas grandes cidades de Hamburgo e Berlim Oeste; e é também, importante constatar a subida da percentagem entre cerca de 18% em Municípios com menos de 5000 habitantes e cerca de 34% naqueles com mais de 100000 habitantes. E atenção que hoje em dia a situação deve ter já evoluído muito, evidenciando-se o interesse que terão soluções de edifícios cujas partes e serviços comuns são muito desenvolvidos e com utilização facultativa e programada.
(3) Martin Wynn, "Housing in Europe", p. 73.
(4) Luís Soczka, "O Contributo da Psicologia Ambiental para o Problema da Qualidade da Habitação", p. 2/1.21.
(5) Luís Soczka, "O Contributo da Psicologia Ambiental para o Problema da Qualidade da Habitação", p. 2/1.22.
(6) William J. Mitchell, “E-topía - Vida urbana, Jim, pero no la que nosotros conocemos”, 2001 (2000).
(7) William J. Mitchell, “Me++: The Cyborg Self and the Networked City”, 2003.
(8) Ekambi-Schmidt, "La Percepción del Habitat".
(9) Luís Soczka, "Espaço Urbano e Comportamentos Agressivos - da Etologia à Psicologia Ambiental, p. 7.
(10) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", pp. 58 a 60.
(11) Claude Lamure, "Adaptation du Logement à la Vie Familiale", pp. 151 a 153 e 215.
(12) “Do bairro e da vizinhança à habitação”, ITA 2, LNEC.
(13) Sven Thiberg caracteriza-as do seguinte modo (Sven Thiberg (Ed.), "Housing Research and Design in Sweden", p. 114): vivem separadas de importantes campos de actividade e tipos de ambientes; vivem afastadas de outros grupos etários, de outras classes sociais e padrões culturais; vivem em contacto forçado com grandes números de outras crianças com a mesma idade delas; devido a mudanças de ambiente enquanto crescem, as crianças estabelecem relações pouco sólidas com a vizinhança; vivem em ambientes que não podem nem têm a possibilidade de influenciar.
(14) Christopher Alexander; Sara Ishikawa; Murray Silverstein; et al, "A Pattern Language/Un Lenguaje de Patrones", p. 317.
(15) C. Baudelot e J. Gardent ("Espaces Extérieurs Urbains, Rencontres du Centre de Recherche d'Urbanisme", J. P. Muret, Coord., p. 35) consideram os seguintes territórios privilegiados das crianças e dos jovens: até 3 anos de idade, dependência completa dos adultos, usando pequenos espaços, claramente seguros (ex., varanda ampla, ou espaços na contiguidade imediata do fogo, isto é, até 5/6m de distância à habitação); de 3 a 7 anos, devem poder ir à rua sozinhos, mas ficando à vista e ao alcance da voz, cerca de 30m, máximos, de distância à habitação; de 7 a 14 anos, devem poder deslocar-se sozinhos no bairro, encontrando actividades próprias para a sua idade; o raio exploratório é de cerca de 150 a 200m de distância à habitação; de 11 a 14 anos precisam de se encontrar em grupos conhecidos e o raio de acção vai-se ampliando para cerca de 500m de distância à habitação, e para lá desse limiar. Sobre os espaços para adolescentes Lamure considera ("Adaptation du Logement à la Vie Familiale", pp. 213 e 214) que são necessárias algumas áreas onde eles tenham uma certa autonomia em relação aos adultos, provavelmente em espaços neutros minimamente equipados.
(16) Rudolf Arnheim refere que o ângulo horizontal de visão é de cerca de 110º, mas para um dado elemento ser visto e julgado como um todo integrado ele tem de estar compreendido dentro de um ângulo com cerca de 27º (distância ao objecto sensivelmente dupla da sua dimensão maior); para além disto o ângulo vertical de visão tem, aproximadamente 45º acima do nível do olho e 65º abaixo dele (Rudolf Arnheim, "A dinâmica da forma arquitectónica", pp. 108 a 110). Em termos de ângulos de câmaras teremos que os ângulos fotográficos entre cerca de 24/28mm (o início da chamada “grande angular”), correspondem, sensivelmente, ao quadro de visão de que dispomos. A visão humana concentra-se em elementos centrais, enquadra-os num cenário bilateral, que pode ser uma rua tradicional, e concentra a atenção em variações contrastantes que pontuam, por exemplo, o desenvolvimento da rua (ex., edifícios e outros elementos singulares e destacados). Considerando, ainda, os ângulos de visão a segunda consideração de Arnheim valida "a regra dos 45º", entre edifícios confrontantes, proporcionando uma sequência de fachadas, continuamente apreendidas quando nos deslocamos, e quando não é visível o limite superior de uma banda edificada, o resultado é a percepção de um espaço exterior “fechado” e protegido.
(17) Gordon Cullen, "Paisagem Urbana", p. 55.
(18) Michael Laurie, "Introducción a la Arquitectura del Paisaje".

Notas editoriais:

(i) A edição dos artigos no âmbito do blogger exige um conjunto de procedimentos que tornam difícil a revisão final editorial designadamente em termos de marcações a bold/negrito e em itálico; pelo que eventuais imperfeições editoriais deste tipo são, por regra, da responsabilidade da edição do Infohabitar, pois, designadamente, no caso de artigos longos uma edição mais perfeita exigiria um esforço editorial difícil de garantir considerando o ritmo semanal de edição do Infohabitar.

(ii) Por razões idênticas às que acabaram de ser referidas certas simbologias e certos pormenores editoriais têm de ser simplificados e/ou passados a texto corrido para edição no blogger.

(iii) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.

(iv) Para ser possível a edição de imagens no Infohabitar, elas são obrigatoriamente depositadas num programa de imagens - é usado o Photobucket; onde, devido ao grande número de imagens, se torna difícil registar as respectivas autorias. Desta forma salienta-se que, caso se pretenda usar essas imagens, se consultem os artigos do Infohabitar onde, sistematicamente, as respectivas autorias são registadas. Sublinha-se, portanto, que os vários albuns do Photobucket que são geridos pelo editor do Infohabitar constituem bancos de dados do Infohabitar, sendo essas imagens de diversas autorias, apontadas nos artigos do Infohabitar, pelo que deve haver todo o cuidado no seu uso; havendo dúvidas um contacto com o editor será sempre esclarecedor abc@lnec.pt

Infohabitar a Revista do Grupo Habitar

Infohabitar, Ano VIII, n.º 413

As medidas do homem e as medidas da cidade: sobre a natureza do habitar

Editor: António Baptista Coelho

Edição de José Baptista Coelho

Lisboa, Encarnação - Olivais Norte

quinta-feira, agosto 24, 2006

Cidades à beira-rio e o rio como paisagem, artigo de Maria Celeste Ramos - Infohabitar 100

 - Infohabitar 100


Cidades à beira-rio e o rio como paisagem – a civilização que nasceu da água


Maria Celeste d’Oliveira Ramos
Colaboração e ilustração de António Baptista Coelho
A água é a maior e cada vez mais rara riqueza da Terra representando 2/3 do planeta assim como são 2/3 a água do total do corpo humano, sendo que a água potável é finita e o bem mais precioso do planeta, mais do que o ouro ou diamantes ou qualquer outro recurso natural. E como a água, o ar na sua dimensão de oxigénio é o segundo elemento sem o qual não existe qualquer forma de vida, incluindo a própria água de que todos nos lembramos como fórmula química, H2O, esse infinitamente pequeno molecular de que é feita a vida da Terra até à calote da estratosfera.

Já ouvi algures dizer que "Deus passou por aqui", deixou sol (3 mil horas de sol/ano) e praias de areia doirada ao longo de mais de 800 km para além de clima doce todo o ano, deixou um Jardim (como afirmou Unamuno), e os habitantes construíram as paisagens "domesticando" a matéria prima de que dispunham e construíram paisagens diversificadas em todo o território delimitado por fronteiras quase todas naturais, desde 1143, algumas que mereceram ser classificadas UNESCO e REDE NATURA, bem como a Baía de Setúbal foi classificada a mais bela da Europa, fronteiras que talvez tenham ajudado e inspirado o primeiro rei a fazer separar por esse limite físico este "rectângulo de oiro" da terra-mãe peninsular, também denominado por Vitorino Nemésio - esse pedaço de terra debruado de mar, como se de uma ilha se tratasse.

As grandes cidades que fizeram a história do mundo instalaram-se principalmente à beira-mar ou beira-rio, ou na meia encosta de grandes planícies que são os seus leitos de cheia ou de recepção das águas dos pontos altos, ou situam-se, finalmente, nos estuários, onde aflui a maior riqueza do rio que ao erosionar muito devagar leitos e margens ao longo de quilómetros, se bem ocupadas de vegetação ribeirinha que dissipa a energia da corrente servindo de almofada, e os sedimentos transportados vão-se depositando ao longo do percurso do rio, até se entregarem definitivamente na foz dos rios e no mar.


Fig. 1: “esse pedaço de terra debruado de mar” … “estuários, onde aflui a maior riqueza do rio.”

Todas as grandes Capitais do mundo estão nessas condições, e os rios fizeram também florescer as grandes civilizações sendo a do Egipto a primeira que virá à memória de todos nós, da mesma forma que podemos pensar na mais antiga e grande civilização entre o Tigre e Eufrates, onde se diz ter sido situado o Éden Bíblico e que é hoje o Iraque, ou o Estado de Nova Iorque à beira do Potomac.

Mas também a mítica Lisboa de Ulisses tem a privilegiada situação de ficar, duplamente, à beira-rio e beira-mar, com a particularidade de ter o denominado Mar da Palha que parece um pequeno "mediterrâneo" à disposição da cidade e que é um viveiro permanente das mais variadas espécies piscícolas que aí desovam na primavera para mais tarde alcançarem o alto mar já que a influência das marés se faz sentir até Vila Franca de Xira, com grande riqueza piscícola, e depois a juzante com águas "misturadas" rio-mar, o sapal que nenhuma autarquia tem relutância em aterrar para construir sem controlo, espaço que é grande viveiro da mais variada fauna piscícola que vem do mar ali desovar na Primavera, e logo regressar ao mar.

Não passaram muitos anos mas será que há quem se lembre da grande produção de ostras do estuário do Tejo? Arrisco afirmar que é curta a memória e pergunto, de seguida, a que preço está um prato de salmão do rio Minho ou de lampreia ou, ainda, de sável do rio Tejo.

Num artigo saído na revista Visão (3 Novembro 1994), poderá ler-se "«Povo que matas o Rio» - centrais nucleares espanholas, contaminação com metais pesados, morte de peixes, pesca ilegal, que mais irá acontecer ao Tejo ?'' – e o LNEC afirmou, quando do estudo do Plano Hidrológico espanhol, que o Tejo perdeu 25% do seu caudal. Pode ler-se no mesmo artigo que o Tejo é o maior pólo de desenvolvimento do país, alimenta as mais importantes áreas agrícolas do Ribatejo, é um centro de comunicação fundamental e ainda uma gigantesca maternidade de peixes (e eu acrescento que já não é) e, entretanto, na sua bacia hidrográfica de 24 869 km2, a maior do país, que vai de Estremoz à Guarda, vivem cerca de 3 milhões e 700 mil pessoas, mais de 1/3 da população portuguesa e, desta, mais de metade vive na Grande Lisboa e, assim, a pressão humana, urbana e industrial torna o rio Tejo um gigantesco espaço poluído; é que a água, como vento, são os elementos de transporte, por excelência, de vida (sem poluição) ou de morte (poluídos).

E daí resulta que o empobrecimento dos valores da natureza só pode conduzir ao empobrecimento das populações e do país irreversivelmente porque a natureza não se inventa.


Fig. 2: pescadores no Norte do Brasil.
A ausência de políticas de envolvimento de verdade na conservação dos valores de natureza inalienáveis, leva à morte da natureza e ao consequente empobrecimento dos homens, que da exploração sustentável dos bens da natureza dependem, invocando-se contudo e quotidianamente, razões "de desenvolvimento económico", como se água e o que contém de seres vivos e qualidade climática e ambiental, não fossem riqueza verdadeira.
Recuperando a sua frequente situação à beira da água, as grandes capitais actuais do mundo, os grandes centros urbanos e culturais e de maior procura turística ao longo de todo o ano, como Londres, Paris, Salzburg, Buda+Peste, Nova Iorque ou Florença, tiram partido da sua arquitectura tradicional intacta e restaurada, afinal, o "primeiro bem de raiz" para habitantes e visitantes e um constante ponto de partida de desenvolvimento de riqueza que assenta na história e cultura, e artes, de que o turismo é ávido e de que é desmultiplicador, inventando novos factores económicos ou recuperando tradições, não sendo necessária muita inteligência para não deitar fora, como Portugal tem feito, a sua herança de memória e a identidade dos lugares em que assenta a civilização, e que representa riqueza nacional mas também património do mundo.
E se o País dificilmente se porá a par do desenvolvimento industrial-de-2ª.vaga, só lhe restará não destruir mais os sectores primários, a terra e as zonas húmidas, o mar, e a sua grandeza de património histórico, edificado e imaterial.

Olhemos para a cartografia do País onde nascemos e vejam-se as cidades mais sólidas mais antigas bem como vilas e aldeias de beira-rio, e como as suas economias, e cultura, se desenvolveram e dependem de cada afluente de cada grande e pequeno rio; e ao olhar desse modo, interiorizemos que inutilizar com nova habitação ou estrada, cada ribeira que é o primeiro caudal de não importa que grande rio, é destruir tudo o que se passar a jusante, implacavelmente, é destruir vida e cultura e economias, é fazer deserto ecológico e humano, e por fim deserto físico, o que é apenas uma questão de tempo – tendo os decisores conseguido destruir, em apenas umas muito escassas dezenas de anos o que levou séculos a humanizar, tornar fértil.

Fig 3: Amarante e o Tâmega.

Portugal tem (tinha) uma extraordinário sistema hidrográfico homogeneamente distribuído, de que ressaltam os estuários do Douro (origem ancestral do comércio nacional com todo o mundo nos séculos XVIII e XIX), os vales do Mondego, do Tejo e do Sado, tendo estes últimos merecido pertencer à rede de Zonas Húmidas mais importantes da Europa, e em que a baía de Setúbal mereceu recentemente ser classificada "a mais bela da Europa", e o Tejo, pela sua riqueza física e biótica fazer parte da área protegida do Tejo internacional.

A importância dos rios em Portugal vem de longe, dos tempos da pré-história, de que é exemplo Foz Côa, com as gravuras rupestres datadas de há mais de 20 mil anos deixando testemunho das formas humanas mais remotas de viver, e sendo que o Guadiana é não só uma lição da convulsão morfo-geológica da Península Ibérica, como já foi o em tempos o último porto de mar do Mediterrâneo, pois que era navegável até Mértola, tendo ainda sido ponto de passagem de outras civilizações que invadiram o país de que restam vestígios, alguns dos quais hoje acessíveis no museu local; no registar da história do rio e dos homens, que é de uma riqueza inestimável.
Com a extraordinária distribuição das mais pequenas às maiores ribeiras em cada bacia hidrográfica, e com o clima ameno, não podia o País deixar de ser agrícola ao longo de milénios, situação esta que se alterou radicalmente, já que até 1986 o país produzia 75% das necessidades alimentares passando hoje apenas para apenas 25%, e sem se assistir à dignificação do solo agrícola e da sua produção, bem como dos homens rurais que tiveram a coragem de se dedicar às coisas da terra que produz alimentos; terra esta também ameaçada pela recente invasão de eucalipto, que é esgotador da terra em apenas 40 anos.
Com tal riqueza natural selvagem e construída pelos rurais, imaginemos então que classificação mundial poderiam ter as nossas grandes zonas húmidas (que incluem o litoral marítimo até 6 metros de fundo na baixa mar), se não tivessem sido tão destruídas, poluídas e continuamente discutidas “parlamentarmente” com tanta superficialidade e ignorância, e que economias podiam ter continuado a gerar se se compreendesse, de facto, o valor que têm, nem que fosse “só” pela sua "beleza", esse valor maior de todas as coisas da Terra e do Homem, e que, afinal, hoje e no futuro também vende/rá, porque a indústria do turismo é e será a mais poderosa do mundo e tem um crescimento imparável, excepto nos locais em guerra.
Afinal, as paisagens oferecem ao homem o que lhes é pedido de recursos naturais ou de culturas, e ainda podem oferecer "beleza" e recursos de recreio, lazer e dinamização da expressão artística.

Fig 4: “As paisagens oferecem … recursos naturais ou de culturas, e ainda podem oferecer «beleza».”

E é interessante atentar que do caminhar a pé pela estrada romana ou em liteiras, de há muitas centenas de anos, o turismo, de hoje, entre tantas das suas opções, voltou também ao caminhar a pé, por exemplo, ao longo dos vestígios dessa mesma estrada romana, mas para tal, para se poder contar com tão grande riqueza de possibilidades, muito há a fazer e a não deixar fazer, terminando-se de vez com o desprezo pelo nosso riquíssimo património.

O nosso País não tem de facto nem ouro nem diamantes, mas tem séculos de história feito em PEDRA e em PAISAGENS, a sua riqueza maior, e todas as artes delas derivadas e tornadas indústrias seculares, que já ninguém da cidade faz ou dá importância, porque as cidades tornaram-se tão extensas que se divorciaram da paisagem natural.

Na ausência dessas matérias-primas, que são as mais valiosas para os mercados actuais, não se encontrou, em Portugal, compensação no valor do mosaico paisagístico, nem na existência dos monumentos que contém desde a pré-história, e na situação geográfica que permite ser plataforma giratória de ir e vir entre este e o outro lado do mar.

Mas falemos de água e de rios e pergunte-se, o que é que em Portugal terá agora valor para se poder justificar que se encanem continuamente ribeiras sem a menor hesitação, só porque se atravessam no caminho da "expansão urbana em contínuo de laje de betão" (19% do território nacional é impermeável), quando em qualquer país europeu, nascido depois deste que habitamos, o "rio faz parte do tecido urbano" e é espaço de recreio por excelência, sendo mesmo, como em Inglaterra, núcleo “genético” gerador de aglomerado urbano.
É urgente que Portugal volte a amar os seus rios e as serras e as árvores e as cidades e os monumentos e as paisagens, que são todos património da origem de toda a vida natural e dos gestos de humanização, e são B.I. e ponto de partida do verdadeiro desenvolvimento, sem ser necessário ter de imitar nada, e, assim, sem correr o risco do "passar de moda."
É urgente voltar a amar e honrar o património paisagístico ancestral e multifacetado, natural e construído, acima e abaixo da linha de terra, e fazer dele património sociocultural e económico, nacional e mundial.
E há que salientar que o RIO é por si só uma paisagem desde a nascente à foz, com ou sem conjuntos urbanos nas suas margens, e é corredor ecológico por excelência, não importa de que dimensão.
As mais importantes cidades do nosso País fizeram-se com o mar e com os rios, numa linha quase contínua paralela à costa marítima, sendo as arquitecturas e as economias resultado directo da comunhão com a ÁGUA, e não esqueçamos Nemésio, ao referir-se a "este pedaço de terra bordejado de mar" que fez "civilização."
Já foi afirmado muitas vezes pela ONU que a partir de 2025, a água potável total do mundo, não chegará para os seus habitantes, já que o ciclo da água é um ciclo fechado e água é também civilização e saúde sendo o consumo per capita um dos mais actualizados índices de aferição do grau de desenvolvimento.
Sendo certo que a água doce total do planeta equivale exclusivamente a 4500 mil km3 para a água doce de superfície e 100 mil km3 para a água doce subterrânea, 25 milhões de km3 para o gelo dos pólos contra 1330 milhões de km3 para a água dos oceanos, sendo que se pode considerar ainda a água atmosférica como sendo apenas de 13 mil km3 e são tão só 400 mil km3 a evaporação e precipitação que se equilibra por ano. E porque a infiltração da água no solo é principal nas áreas florestadas (montanhas), a sua erradicação impede a água de abastecer toalhas freáticas bem como não produz o oxigénio da sua responsabilidade em que a sua produção por hectare ronda o valor necessário para uma população de 50 mil habitantes.
Paralelamente o homem "civilizado" utiliza por dia 100 litros de água e respira 60 litros de oxigénio, e ainda raramente na cidade se separam as águas negras das águas residuais industriais, para que as primeiras possam ser reutilizadas na lavagem das ruas e rega dos jardins e mesmo agricultura, desperdiçando-se, assim, a água que se tem disponível e, pior, desflorestando-se e impermeabilizando-se em excesso, designadamente, nas cada vez maiores, grandes cidades, e originando-se que cada vez mais água da chuva, para a mesma queda pluviométrica, vá dar ao rio e ao mar em vez de ficar nos continentes.

Fig. 5: E o século xxi é/será o século das grandes cidades.
Talvez porque ar e água não tenham fronteiras, estes sejam os dois elementos sagrados da China – o feng-shui – considerados, por vezes, em projectos, mas apenas ligados à orientação da habitação, continuando-se, mesmo depois de se conhecer, como hoje em dia, o valor da água e a sua finitude, com um quase desprezo, nos planos de ordenamento urbano, pelo valor da terra e da água, e mesmo do clima, que são tratados como se fossem "substituíveis."

E que felicidade é, e poderia ser, poder viver na proximidade da maior riqueza electro-magnética, biótica e de bens naturais do planeta que é a fronteira/margem terra-mar onde muitos e grandes rios se vêem "oferecer" ao mar, mas oferecendo o que transportam resultando na grande fertilidade dos estuários.

Que cidade e habitantes felizes os que podem usufruir dos valores estéticos das paisagens marinhas e fluviais, sempre especiais com a presença da água, a sua cor e luz, e movimento e deles retirar paz e consolo e contemplação, para além da manutenção da sua presença como fonte de alimento – Paris cidade interior atravessada pelo Sena, sem o rio talvez não fosse nem capital, nem teria aquele clima nem luz filtrada pelo nevoeiro, que só a presença da água permite, quando se evapora, dando a todo o ambiente encantamento e misticismo.


Fig. 6: Aquele clima, aquela luz filtrada, que só a presença da água permite, dando a todo o ambiente encantamento e misticismo – a margem de Lisboa e os veleiros.

A água é, como diz no Alcorão, "a fonte de toda a vida", não apenas no sentido físico mas também espiritual, e por isso na Índia há 7 rios considerados sagrados, da mesma forma que é sagrada, para os cristãos, a água benta, ou a água do Baptismo, a água do Rio Jordão onde Jesus foi baptizado, porque há homens que conseguem perceber que há sítios e lugares sagrados, e florestas sagradas, locais onde sentem o Divino na Terra, e em todos os tempos sempre a água esteve ligada ao DIVINO, como no Ganges que para tudo serve, e, mesmo imundo, não deixa de ser "sagrado."
Os rios foram e continuam a ser, em Portugal, meras "linhas de água" de captação de recursos e onde se rejeitam efluentes, os mais poluídos e devastadores da qualidade da água a ponto de matar a fauna piscícola e mamíferos das margens e até a mata e a vegetação das margens e as terras em que se vão infiltrando ao longo do seu percurso.
Mas o vento e água, sagrados para os chineses, devê-lo-iam ser para o mundo inteiro, já que são, por excelência, os dois veículos naturais de transporte: transportam a vida (o ar transporta o polén), ou transportam a morte (a poluição do ar e da água).
Com as alterações climáticas mundiais, de que já chegaram ao país as consequências, como nunca é necessário reaprender a desenhar com a natureza dando prioridade à água e aos seus locais naturais de infiltração e de drenagem que são os vales e retomar com a maior seriedade a legislação de ordenamento e de protecção dos locais que guardam a vida natural/cultural do nosso País; todos os erros humanos com o ar e água se podem evitar, basta deixá-los PASSAR pelos lugares naturais que lhes pertencem percebendo, para além de razões científicas e técnicas e estéticas, o espírito de cada lugar. E lembremos os monges agrónomos, os Beneditinos, que construíram o Convento de Alcobaça deixando o Côa passar, livremente, pela cozinha e não haverá no mundo muitos "monumentos" construídos em cima de um rio, deixando-o ser rio.
Meter uma linha de água não importa de que dimensão, num CANEIRO não é possível em nenhum país do mundo e, onde se fizer, a natureza mais tarde ou mais cedo reclamará o que lhe pertence como aconteceu no fim do ano de 2005 em New Orleans e Houston, situações bem paradigmáticas da invencibilidade da natureza por mais avançadas que sejam as tecnologias e as máquinas para a dominar porque até os factores de imponderabilidade são bem mais prováveis do que o domínio humano por mais que o homem desafie a natureza, como lhe compete e é humano fazer.
Sabe-se como é inútil construir paredões de betão senão acidentalmente, nem sequer espigões de pedras feias e colocadas ad hoc, porque um litoral não é uma área portuária contínua.
Espigões e paredões fazem parte de uma atitude que prolifera por esses litorais fora, fazendo-se desmoronar falésias sobretudo desde o boom turístico dos anos 60 que tudo constrói no limite das falésias ou mesmo em pleno areal. É sabido que o mar está actualmente a tornar a avançar (progressões e regressões) naturalmente, no seu cósmico movimento dinâmico super-milenar, senão não haveria altas falésias cobertas de fósseis marinhos ao longo da costa portuguesa como as da Costa da Caparica e do Algarve, de arenito e com alternância de camadas de argila porosa, porque o mar "recuou", sendo complicado não haver "conhecimento" nas disciplinas de planeamento e ordenamento bio-físico suficiente, e de geologia, para que se minimizem as catástrofes naturais anunciadas.
O Homem já sabe que não vence nunca a natureza pelo que só lhe resta colaborar com ela, ganhando em eficiência e perenidade do construído, ganhando em qualidade da natureza e do ambiente e de beleza das paisagens e por fim ganhando em termos económicos já que tem de dispor de muitos milhões de unidades monetárias para constantemente refazer os enganos de planeamento e projecto, gasto que em vez de ser revertido para desenvolvimento sustentável e restauro do património, é gasto em "reparações" que serão cada vez mais difíceis de efectuar, à beira-rio e à beira-mar.

Fig 7: “O Homem já sabe que não vence nunca a natureza pelo que só lhe resta colaborar com ela.”
Impermeabilizar leitos de rio, tornou-se normal em Portugal sendo curioso o caso de Ponte de Lima em cujo leito em anos de pouco caudal se fazem feiras, e que foi "cimentado" nos anos 90 após anos de areal a descoberto – mas que em 1991 provocou uma das piores cheias de sempre da região, e, da mesma forma, se construiu Miraflores no leito de uma das duas maiores ribeiras de Lisboa – a de Algés –, a par da segunda maior ribeira sobre a qual se construiu a avenida de Ceuta, porque foi esquecido que em 1983 houve enxurradas catastróficas na zona de Lisboa e Oeiras até Cascais, por haver construção indevida em leito de ribeiras.
A natureza é previsível e imprevisível e a única forma de minimizar as consequências está em saber decidir controlar a decisão de impermeabilização e de "parcelamento" de espaços físicos férteis e de funções múltiplas, conhecendo e respeitando as características de cada local e a sua função primordial, e podendo-se até dizer que "o que está certo está belo."

E como já se disse, cada "linha de água" é por si só uma paisagem e uma "entidade" a considerar no quadro de "ordenamento do território (urbano e rural) - é um Corredor Ecológico por excelência.
Basta pensar em como a cidade trata a água nas sua forma mais elementar e que tem a ver com a quantidade de queda pluviométrica urbana que, como é sabido, pode ser superior à da envolvente rural, já que, na cidade, a temperatura média diária pode ser superior em 6 a 7ºC devido a ser um contínuo de materiais inertes e com muito baixa relação percentual de área permeável, representada por parques e jardins, públicos e privados, que são áreas de beleza e de memória das "estações do ano", áreas de infiltração da água da chuva e regularizadores climáticos, são "natureza viva dentro da cidade", são vida.
E quando a cidade entra em crise ambiental, entra em crise, igualmente, a cultura dos seus habitantes, que mais e mais se distanciam da realidade da natureza e do que dela provém para que a cidade exista.
Creio eu bem que hoje tudo o que se passa não apenas no campo, mas também relativamente ao valor das componentes ambientais – e sobretudo à água – é, cada vez mais, um problema de cultura urbana porque os rurais já não habitam o campo e a cidade não é educada para esses valores, e talvez nem mesmo para os valores de urbanidade.

Fig. 8: Cidade e urbanidade.
Por mim, sempre me extasiei com a Terra e o que contém tanto de natureza, como feito pelos homens num diálogo de arte, que só pode ser diálogo de amor. E, por que não dizer também que, como os "antigos", vejo o Divino no rio, na árvore suporte do mundo, e na inspiração humana que faz catedrais.
Ou então dizer, como São Francisco de Assis, “a minha Irmã Terra, a minha irmã Lua, os meus irmãos peixes!” Não será tudo manifestação do mesmo? Que o homem vai descodificando?

Fig. 9: “A minha Irmã Terra, a minha irmã Lua …”
E porque os homens se divorciaram das coisas da natureza e da origem das Cidades-Civilização, agora fazem desmoronar também as cidades onde moram, sem darem conta de que já não há mais nada para destruir a não ser o próprio homem.



Maria Celeste d’Oliveira Ramos, em Outubro 2005
Colaboração e imagens de António Baptista Coelho, em Agosto de 2006

quarta-feira, novembro 23, 2005

Interpelações Virtuais ao Cidadão Comum - um artigo de Maria João Eloy - Infohabitar 54

 - Infohabitar 54

Interpelações Virtuais ao Cidadão Comum

um artigo de Maria João Eloy

O cidadão comum terá ficado subjugado pelas notícias recentes, quer do alastramento do terrorismo urbano em cidades europeias (i), quer do Congresso Internacional para a Nova Evangelização que decorreu este ano em Lisboa (ii) e ainda das referentes às canções que Paul Mc Cartney tocou ao vivo por meio da TV da NASA para o astronauta dos EUA e o cosmonauta russo que estão a bordo da Estação Espacial Internacional, uma improvável Cidade-Estação ‘que circula o planeta a uma altura de 350 quilómetros’ (iii).

A observação virtual de tais fenómenos apresentados numa disparidade de registos de difícil apreensão, poderá fazer crer que se tratou de acontecimentos de natureza diversa, porque acompanhados de discursos inconciliáveis; todavia, no primeiro caso e como foi noticiado, a partir do momento em que os canais de televisão deixaram de filmar os locais onde deflagrou maior violência, reduziram-se esses actos de violência e no segundo e terceiro casos a emissão televisiva acrescentou milhares de fiéis aos dois fenómenos de culto.

Permito-me sugerir que, através das imagens incluídas no texto (iv), se proceda a um exercício de reflexão sobre a improbabilidade de comunicação entre as diferentes crenças que são subjacentes a essas manifestações urbanas, que se assumem, hoje, como um happening global;

e a um exercício semelhante sobre a necessidade de, apesar da improbabilidade referida, apostarmos na criatividade e na diversidade das configurações da compaixão, veiculadas pelas novos meios de comunicação dos homens;

aposta que, de alguma forma, constitui sempre uma provocação aos poderes instituídos, à ‘ordem’ de qualquer PDM e ao ‘rigor’ de qualquer Orçamento de Estado;

criatividade e compaixão que parecem prometer mais ‘conhecimento’ e mais ‘justiça’ numa sociedade global que, vivendo em rede, escuta virtualmente todas as linguagens e dialectos, mas permanece impotente para acudir aos seus apelos.


Maria João Eloy
2005.11.13


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(i) http://www.7sur7.be/hln/cch/det/art_137747.html
(ii) http://www.icne-lisboa.org/
(iii)http://musica.terra.com.br/interna/0,,OI749651-EI1267,00.html
(iv) Imagens das estações de televisão RTP1, RTP2 e RTP N em 2005.11.12/13

terça-feira, maio 24, 2005

Mundos citadinos que é urgente conhecer/fazer melhor – III - Infohabitar 23

 - Infohabitar 23

“Cidade do vagar e ilhas de paragem”



(imagem: conjunto João Barbeiro, Beja, Arq. Raúl Hestnes Ferreira, Arq. Manuel Miranda)

Como se disse no primeiro número desta série de pequenos textos, estamos ainda a aprender a viver em grandes cidades e nesta aprendizagem é realmente importante assegurar uma qualidade arquitectónica dos espaços do habitar que contribua, claramente, para pedaços de cidade que induzam felicidade; os tais edifícios felizes, segundo Alcino Soutinho, as tais arquitecturas felizes e que são suporte da felicidade de quem as habita.

No segundo número desta série sobre os mundos citadinos melhor conhecidos e melhor feitos colocaram-se, muito ao de leve, questões fundamentais sobre como nos poderemos dirigir para essas perspectivas de felicidade, seja a partir de uma observação serena dos espaços citadinos e habitados onde ela parece existir, seja seguindo um caminho de rigorosa exigência de concepção e desenho, cumprindo diálogos construtivos e cultos com quem projecta e com quem habita.

Neste pequeno texto e ainda não tentando cruzamentos com o grande texto “programático” que acabou de ser editado no infohabitar sobre os desafios da cidade de hoje e de amanhã, foca-se a atenção sobre a importância que tem todo o apoio que a cidade possa dar às mais variadas formas de viver/habitar devagar; refere-se que o tema foi tratado sob outras interessantes perspectivas, há alguns dias, no jornal Público, revista xis, num artigo de Ana Vieira de Castro).

Como ponta pé de saída, ao nível urbano, desta temática do viver/habitar devagar e numa perspectiva humana, que é, cada vez mais, essencial na cidade de hoje, podemos considerar duas opções bem distintas: uma delas que sirva cegamente uma sociedade da rapidez, do stress, da ausência de convívio e da funcionalidade estrita; e outra que tudo faça pelo convite ao fruir da cidade em paz e com tempo, a pé (o flanar), que promova a calma, a protecção ambiental e a oferta de pontos de atenção e de estadia fortuita ou periódica, que providencie ocasiões e cenários naturais e quase espontâneos de convívio e que para além das funcionalidades (“a função”) ofereça realmente “a forma” e o ambiente, mas uma boa forma e um bom ambiente.

Em isto tudo e nesta perspectiva que se poderia definir como uma cidade com cariz estrutural tradicional – uma espécie de slow-city (naturalmente com muitos sítios de slow-food)– há que sublinhar que não se entenda ser esta posição uma afronta às medidas gerais que têm de garantir o melhor funcionamento da cidade, mas sim a defesa de uma das qualidades fundamentais do mundo citadino – o flanar, o estar e o convívio nos espaços públicos – que é também um complemento salutar e vital dessa funcionalidade.

Essa cidade vagarosa ou cidade do vagar, onde se pode e deve andar ao sabor de tantos motivos, baseia-se em vários aspectos qualitativos entre os quais e desde já se salienta a estratégica disponibilização de “ilhas de paragem”, o estímulo à estadia e à circulação no exterior e a qualidade da paisagem urbana.

Sobre as ilhas de paragem, há que referir que têm de ser locais de contemplação, de reflexão e, eventual ou pontualmente, de comunidade, que deverão marcar, seja as vizinhanças residenciais – provavelmente mais caracterizadas pelo sossego e pela domesticidade -, seja pólos urbanos onde se queira que o habitante e o visitante se detenham mais do que um momento, integrando-se, assim, verdadeiramente, embora por prazo curto, na vida dessa pequena parte da cidade.

É um grande e aliciante tema que se pretende desenvolver em próximos números desta série, articulando-se e aprofundando-se estas ideias com as matérias da dinamização do uso de um exterior que deverá ser muito positivamente qualificado em termos de paisagem urbana.

Lisboa, Encarnação, 24 de Maio de 2005

António Baptista Coelho

terça-feira, abril 12, 2005

Mundos citadinos que é urgente conhecer/fazer melhor – II - Infohabitar 20

 - Infohabitar 20

Mundos citadinos que é urgente conhecer/fazer melhor – II 


Será que já se perguntou aos habitantes dos bairros históricos e outros bem planeados se eles aí vivem felizes e, em caso afirmativo, que razões são capazes de apontar para essa felicidade?
Será que já se perguntou? E será que já se levou em conta tais respostas quando se projectam novas partes de cidades?
E, por outro lado, será que, de forma sistemática, se entende verdadeiramente a enorme responsabilidade e a enorme complexidade que é fazer uma parte de cidade habitada e multifuncional? Será que se entende que para tal há que desenhar muito com grande pormenor e com grande coerência e como todo o desenho é, antes de tudo, um acto de reflexão, de observação e de síntese, será que se faz realmente desenho urbano e habitacional ou será que, frequentemente, ficamos por desenhos mal traçados fisicamente e pouco ou nada sustentados em termos de coerência e reflexão?
No primeiro texto sobre os mundos citadinos que é urgente conhecer e fazer melhor falou-se, ainda que apenas ao de leve, sobre as arquitecturas felizes e que são suporte da felicidade de quem as habita, neste texto colocam-se questões fundamentais sobre como nos dirigirmos para essas perspectivas de felicidade, seja a partir de uma observação serena dos espaços citadinos e habitados onde ela parece existir, seja seguindo um caminho de rigorosa exigência de concepção e desenho.
A estes temas se voltará em próximos pequenos textos desta série, mas para já fica a ideia que talvez não seja tão difícil unir desejos e imaginários de quem habita e caminhos de concepção de quem projecta.
Talvez realmente o problema esteja em não se ligar muito a esses desejos e a esses imaginários e em não se ter a devida exigência, que tem de ser muita, para com esses projectos urbanos que vão marcar cidades e gerações.
Talvez que a boa arquitectura a tal que induz felicidade seja um caminho bom de percorrer pelos habitantes e talvez os desejos dos habitantes sejam excelentes temas de concepção.

Este é o segundo de uma série de textos curtos sobre o tema e a ilustração continua a ser a excelente pequena cidade de Alvalade, projectada, entre outros, por Faria da Costa.

Lisboa, Encarnação, 12 de Abril de 2005

António Baptista Coelho

segunda-feira, abril 11, 2005

Mundos citadinos, mundos desconhecidos que é urgente conhecer melhor e fazer melhor – I - Infohabitar 19

 - Infohabitar 19

Mundos citadinos, mundos desconhecidos que é urgente conhecer melhor e fazer melhor – I


Este é o primeiro de uma série de textos curtos sobre o tema.
Estamos ainda a aprender a viver em grandes cidades e a importância da qualidade residencial e urbana, numa perspectiva verdadeira/ampla é algo que está longe de ter sido verdadeiramente assumida, seja pelos diversos responsáveis, seja pelos próprios habitantes e, entre uns e outros, pelos respectivos projectistas.
Muitos dos problemas que, hoje em dia, fazem as primeiras páginas dos jornais, como a insegurança urbana e a desocupação dos jovens e dos outros, apenas para referir dois entre tantos que contribuem para as actuais doenças citadinas, ou melhor será dizer sociais, pois cada vez mais o universo urbano é quase tudo, são problemas de uma sociedade urbana desequilibrada seja em termos sociais, seja em aspectos físicos e ambientais, e também culturais até num sentido mais restrito e bem aplicável.
Nesta primeira volta sobre o tema fico por um pensamento que foi há pouco tempo lançado pelo presidente do RIBA – a Ordem dos arquitectos inglesa – e que afirma que boas arquitecturas, sejam elas quais forem, fazem os seus habitantes felizes.
Há cerca de dois anos num excelente artigo/entrevista Alcino Soutinho afirmava que o belíssimo e tão humano edifício por ele projectado para a Câmara Municipal de Matosinhos era um edifício feliz; e com tal edifício feliz fez-se um pedaço feliz de cidade.
Ficamos então hoje neste contraponto entre edifícios e espaços urbanos felizes que fazem e, por vezes, refazem boas partes de cidades vivas e edifícios que fazem os seus habitantes felizes, seja em habitações que além de bem desenhadas proporcionam alegria e vontade de viver, seja em partes de cidade que estimulam o seu uso, que seduzem os seus utentes, que os trazem até à rua, de dia e de noite, fazendo cidade habitada e feliz.
Talvez seja este um dos segredos que há que compreender para lutar contra as tais doenças da cidade de hoje, afinal a única cidade que tivemos possibilidade de conhecer.
E para outro texto ficará a continuação destas ideias.

Lisboa, Encarnação, 11 de Abril de 2005

António Baptista Coelho

segunda-feira, março 21, 2005

Da minha janela vejo o mundo e reconheço o meu olhar - Infohabitar 18

 - Infohabitar 18



segue-se um texto da arquitecta paisagista Celeste d'Oliveira Ramos

Da minha janela vejo o mundo e reconheço o meu olhar 


A RUA é a rainha do espaço urbanizado e é património do peão

Calcorrear a rua atravessando o espaço definido pela sucessão das fachadas que se exibem contando a sua arte, o tempo que trabalhou as pedras de que são feitas, o tipo de homem que as desenhou, permite desenrolar perante o olhar uma espécie de filme com uma história e um enredo de formas, de materiais, de funções, de objectos singulares sinalando posições específicas, de esquinas revelando outros caminhos, como uma carta geográfica enriquecida pela presença dos “habitantes” de pedra por vezes rendilhada, de azulejo, de ferro forjado, de vidros e de vitrais, de cores, trabalhando e desdobrando a luz, entretendo o nosso olhar obrigando-nos a ser espectadores activos, críticos, contentes ou descontentes, ao percorrer o museu dinâmico que é qualquer espaço habitacional onde se aprende geografia e história, ecologia e sociologia, e artes, e vida, estampada nos rostos que por nós se cruzam

Caminhar ou deambular por um espaço histórico e cultural a contar a história do tempo e da arte dos homens

Rua, fachadas, esquinas, formas, volumes, luz e escuridão, envolvendo o todo e as partes, nos passeios, nos largos e jardins, e na árvore de sombra benfazeja, de copa volumosa com folhas e pássaros, inserindo a natureza viva dentro do habitar, ou sem folhas, escultura desnudada ainda dando a beleza, a escala da rua e do próprio homem e, ainda, o ritmo das estações do ano

Que bonita e fresca é a minha rua com árvores que dão flores e frutos, cores e perfumes, e me acordam para me obrigar a olhá-las mesmo que de relance porque vou com pressa a um qualquer lugar

Vou à minha vida atravessando este espaço de vida que a rua me obriga a compreender com todos os sentidos despertos, pelo que me deixa ver e consolar o meu próprio espírito, refrescando-me o corpo com a brisa que provoca, o ouvir dos pássaros que nela poisam, o excitar do olfacto com o perfume de suas flores, mesmo olhando para o chão que vou pisando desenhado e construído com as mãos inteligentes de carinho para embelezar o meu caminhar diminuindo a percepção do meu cansaço

A CASA, a habitação, isolada ou integrada num conjunto, é o abrigo do sol e da chuva, do frio e do calor, do olhar dos outros, do nosso cansaço e desespero, é ABRIGO e refúgio do que somos, do corpo e da alma

É a nossa caverna, o nosso buraco onde não queremos partilhar-nos com mais ninguém, a não ser com aqueles que pertencem ao nosso não querer viver connosco sós

Sendo um espaço fechado é no entanto o primeiro espaço de aprendizagem de vida colectiva com a família (e/ou amigos), o primeiro espaço cultural porque casa é mais do que o lugar de habitar porque é espaço onde acontece cultura

É a segunda pele que nos separa e distingue dos outros grupos-família, dos outros moradores de cada casa e de cada rua

Opostamente, os “homeless” são os que ou nunca encontraram esse abrigo, ou os que rejeitaram o que tiveram, ou até nunca tenham tido ou ainda, tendo tido, tudo lhes foi tirado e restou-lhes a rua da cidade

Da janela da minha casa vejo a RUA e as outras habitações e delas poderei pressupor parte do que se passa dentro

Vejo a chuva, vejo o céu e o sol que logo aparece, vejo a lua e as estrelas e os aviões a cruzarem os ares, e vejo as outras casas e também quem passa e se afadiga como se as janelas fossem os OLHOS da Casa

Da janela vejo o MUNDO, e à forma e dimensão desse espaço "vazio" de olhar o mundo, poderá ser acrescentada a qualidade que cada habitante, pessoalizando-a com as cortinas feitas por amor, ou vasos de flores, para que a natureza viva não se afaste do viver, e a minha janela poderá ser mais bonita do que a do vizinho

Não será a janela de uma Catedral, mas se o arquitecto que a desenhou tiver deixado espaço e forma, algo de pessoal se poderá acrescentar que diferencia e humaniza a rua que não será apenas uma sucessão de fachadas sem calor humano, algo que o arquitecto nunca poderá fazer, mas apenas sugerir, e permitir que aconteça, desenhando como quem desenha o sagrado, porque se trata de desenhar para a “vida” de cada um

Se a rua nas suas fachadas fala do tempo e do artífice que a desenhou e construiu prédio a prédio, a janela fala de quem lá vive, da sua alegria manifestada ou mesmo grau de pobreza

A janela que permite ver de dentro para fora tem igualmente essa dimensão de deixar ver o que ela reflecte

E até uma andorinha poderá ali poisar no parapeito na primavera e dar mais uma dimensão de vida do habitar

A janela separa do exterior mas não o elimina completamente – mostra vida de ambos os lados, comunica com a VIDA, dialoga com quem vive nele e por ela passa, e a olha

Abro a minha janela e deixo entrar o Sol e o vento, os perfumes da rua e os ruídos da vida dos homens acordados, quando a cidade se levanta

Esse diálogo da janela é também perceptido pela casa ou conjunto, relativamente ao local e forma como foi implantada, na natureza bruta, fazendo com ela um diálogo também de amor e inteligência ou, pelo contrário, desprezá-lo, ficando o local desmantelado sem ética ambiental, sem estética, desumanizado e destruído e a habitação desqualificada e o habitar penoso

A minha janela como o meu olhar

A minha RUA como a Vida do mundo dos Homens

Maria Celeste d'Oliveira Ramos
Lisboa 12 março 2005
14 fevereito 2005
Maria Celeste d'Oliveira Ramos
Engªsilvicultora
Arquitecta-Paisagista
Universidade Técnica de Lisboa


Posted by Hello