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domingo, fevereiro 06, 2011

332 - Segurança arquitectónica residencial e urbana - Parte I - Infohabitar 332

Infohabitar, Ano VII, n.º 332

Habitação e Arquitectura IX: a segurança arquitectónica residencial e urbana - Parte I

Artigo de António Baptista Coelho

Nota de divulgação

Novos comentários sobre a qualidade arquitectónica residencial: Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VIII - A segurança arquitectónica residencial e urbana - Parte I

Nota prévia: retomando uma edição cujo último “capítulo”, sobre a agradabilidade arquitectónica residencial, foi editado com o n.º 323 deste Infohabitar, há cerca de 10 semanas, publicam-se agora algumas reflexões sobre a matéria da segurança arquitectónica residencial.

Introdução geralNas páginas seguintes apontam-se alguns aspectos que têm sido constante e sistematicamente ponderados, na sequência da aplicação dos conceitos ligados aos diversos rumos de qualidade arquitectónica residencial. Não se trata, assim, da sua respectiva e clarificada estruturação, mas apenas da sua ponderação cuidada, considerando os anos de prática de análise, que já decorreram desde a sua formulação inicial.

É sempre possível entrar no Infohabitar e aceder, de imediato, ao respectivo catálogo interactivo, onde uma das categorias agrupa todos os artigos dedicados à temática da Melhor Habitação com Melhor Arquitectura (no total serão cerca de 18, sendo 15 sobre as 15 qualidade qualidades consideradas, um de introdução, um de conclusão genérica e outro de conclusão sintetizada e de temas de continuidade).

Regista-se, em seguida, o plano editorial previsto no Infohabitar, que, repete-se, será, descontínuo, alternado por outras edições e realizado à medida da elaboração dos respectivos artigos (a bold os temas já editados):

Infohabitar n.º 290 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura I: IntroduçãoA matéria da relação e do contacto entre espaços e ambientes é tratada em termos de aspectos de:

Infohabitar n.º 291 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura II: Acessibilidade - facilidade na aproximação ou no trato e desenvolvimento de continuidades naturais por prolongamentos e múltiplas ligações.

Infohabitar n.º 295 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura III: Comunicabilidade - a qualidade daquilo que está ligado ou que tem correspondência ou contacto físico ou visual.

A matéria da caracterização adequação de espaços e ambientes é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º 297 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura IV: Espaciosidade – referida, tanto aos espaços que são extensos e amplos como aos que apresentam desafogo nas suas envolventes.

Infohabitar n.º 316 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura V: Capacidade – que designa e qualifica o âmbito interior (dentro dos limites) ou a aptidão geral, espacial e ambiental, de qualquer elemento residencial.

Infohabitar n.º 318 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VI: Funcionalidade – referida ao adequado desempenho das várias funções e actividades residenciais.

A matéria do conforto espacial e ambiental é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º 319 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VII: Agradabilidade – referida ao desenvolvimento de condições de conforto, bem-estar e comodidade, nos espaços e ambientes residenciais.

Infohabitar n.º 323 - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura VIII: Durabilidade – qualidade do que dura muito ou, melhor, do que pode durar muito e em excelentes condições de manutenção.

Infohabitar n.º 332 e n.º 333 (próxima semana) - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura IX: Segurança – o acto ou efeito de tornar seguro, prevenir perigos, (tranquilizar).

A matéria da interacção social e da expressão individual é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura X: Convivialidade – referida ao viver em comum, ao ter familiaridade e camaradagem, à entreajuda natural ou sociabilidade entre vizinhos.

Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XI: Privacidade – referida à intimidade e capacidade de privança oferecida por um dado espaço num dado ambiente.

A matéria da participação, identificação e regulação é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XII: Adaptabilidade – referida à versatilidade e ao que se pode acomodar e consequentemente apropriar.
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XIII: Apropriação – referida à capacidade de identificação, à acção de "tomar de propriedade", tornando próprio e a si adaptado.

A matéria do “aspecto” e da coerência espacial e ambiental é tratada em termos de aspectos de:
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XIV: Atractividade - a capacidade de dinamizar e polarizar a atenção.
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XV: Domesticidade – referida à expressão mais pública ou doméstica do carácter residencial.
Infohabitar n.º xxx - Melhor Habitação com Melhor Arquitectura XVI: Integração – que é a integração ou integridade de um contexto, e de uma totalidade onde não falta nem um elemento de conteúdo e de relação.


Salienta-se ser possível aprofundar estas matérias num estudo editado pela livraria do LNEC - intitulado " Qualidade Arquitectónica Residencial - Rumos e factores de análise" - n.º 8 da colecção Informação Técnica Arquitectura, ITA 8 - que contém um desenvolvimento sistemático dos rumos e factores gerais de análise da qualidade arquitectónica residencial, que se devem constituir em objectivos de programa e que correspondem à definição de características funcionais, ambientais, sociais e de aspecto geral a satisfazer para que se atinja um elevado nível de qualidade nos espaços exteriores e interiores do habitat humano.






Fig. 01: capa da edição do LNEC " Qualidade Arquitectónica Residencial - Rumos e factores de análise" - ITA 8, Referindo-se, em seguida, o respectivo link para a Livraria do LNEC http://livraria.lnec.pt/php/livro_ficha.php?cod_edicao=52319.php

Sublinha-se, no entanto, que a abordagem que se faz, em seguida, às matérias da segurança, enquanto qualidade arquitectónica residencial, corresponde ao revisitar do tema, passados cerca de 15 anos do seu primeiro desenvolvimento, e numa perspectiva autónoma e razoavelmente distinta, relativamente a essa primeira abordagem.

Refere-se, ainda, que em complemento a esta abordagem qualitativa do arquitectura residencial, o autor desenvolveu uma abordagem dos diversos níveis físicos do habitat e as suas relações mais importantes: envolvente da área residencial, vizinhança alargada, vizinhança próxima, edifício residencial, habitação e espaços e compartimentos habitacionais.




Fig. 02: capa da edição do LNEC "Do bairro e da vizinhança à habitação" - ITA 2, referindo-se, em seguida, o respectivo link para a Livraria do LNEC
http://livraria.lnec.pt/php/livro_ficha.php?cod_edicao=53085.php

NOTA IMPORTANTE: POR SE TRATAR DE UM ARTIGO COM CERCA DE 18 PÁGINAS FOI DIVIDIDO EM DUAS PARTES E SERÁ EDITADO ESTA SEMANA E A PRÓXIMA, JUNTANDO-SE UM ÍNDICE PARA ORIENTAÇÃO: A BOLD A PARTE DO ARTIGO EDITADA ESTA SEMANA.Habitação e Arquitectura IX: a segurança arquitectónica residencial e urbana - Parte IÍndice
1 - Introdução à segurança arquitectónica residencial e urbana
2 - As duas faces da segurança arquitectónica residencial
3 - Aspectos estruturadores da segurança urbana e residencial
4- A segurança, do bairro/cidade, à vizinhança e à habitação
5 - Bases e estratégias da segurança arquitectónica e urbana
5.1 Bom urbanismo, gestão local e polícia de proximidade
5.2 A segurança arquitectónica residencial ao nível urbano: matéria de base da concepção
5.3 Segurança urbana para quem?
6 - A segurança nos espaços públicos (versus) a segurança nos espaços edificados

6.1 Segurança nos espaços públicos: acessibilidades e equipamentos
6.2 A segurança na vizinhança de proximidade e na relação desta com os edifícios
6.3 A segurança nos edifícios
6.4 A segurança nas habitações
7 - Carácter e importância específica da segurança
8 - Notas de reflexão e para desenvolvimento sobre a segurança arquitectónica residencial

Habitação e Arquitectura IX:
A segurança arquitectónica residencial e urbana - Parte I



Fig. 03: uma ilustração/símbolo que acompanhou o estudo original, no que se referia à segurança residencial

1. Introdução à segurança arquitectónica residencial e urbanaA segurança arquitectónica de/em espaços e ambientes urbanos habitados é uma qualidade que, numa perspectiva positivamente integrada de qualificação arquitectónica, deve liga-se a outros aspectos desta qualificação e, designadamente, ao desenvolvimento de adequadas condições de conforto (bem-estar) ambiental e espacial, articulando-se nesta ampla temática, quer com os aspectos da agradabilidade no habitar, quer com adequadas condições de durabilidade residencial e urbana, confluindo-se, assim, para a oferta de sítios de habitar expressivamente agradáveis, com boas características de uso e naturalmente protectores.

Conjuntamente com a agradabilidade e a durabilidade, a segurança residencial é, assim, responsável pelo expressivo desenvolvimento de adequadas e/ou básicas condições de conforto e bem-estar residencial.

A segurança residencial tem duas facetas essenciais: a segurança no uso corrente, que é proporcionada por adequadas condições espaciais, funcionais, de pormenorização e de equipamento dos espaços do habitar, havendo aqui que destacar, desde já os aspectos ligados ao combate às condições de ocorrência de acidentes domésticos e as condições de segurança na relação entre peões e veículos; e a segurança em ambiente urbano e residencial, à qual dedicaremos especial atenção no texto que se segue.

Destaca-se, desde já:

(i) que a segurança residencial relativa ao uso normal está muito associada ao cumprimentos de condições de projecto relativamente bem conhecidas e objectivas, embora os aspectos de insegurança no trânsito tenham significativos condicionalismos em termos de uma concepção qualitativa e portanto menos "quantitativa" e "dimensional", em matérias comportamentais que importa aprofundar e esclarecer;

(ii) enquanto que a segurança residencial urbana é uma matéria essencialmente qualitativa, que depende da boa capacidade de projecto e da sua sensibilidade para aspectos de relacionamento social, proximidades desejáveis ou críticas e condições de densidade e de mistura social; embora a segurança em ambiente urbano tenha também alguns aspectos talvez um pouco mais objectivos, consubstanciados, designadamente, em matérias que têm sido abordadas numa disciplina designada em inglês CPTED, Crime Prevention Through Environmental Design, que se pode traduzir por “Prevenção do Crime através do Espaço Construído”, uma temática que se julga deverem bastante às reflexões, provavelmente pioneiras, de Jane Jacobs, e, mais tarde, ao aprofundamento do conceito de "espaço defensável" e de matérias associadas, por parte de vários autores com destaque para Oscar Newman; e importa fazer justiça ao investigador português, na área da psicologia ambiental e especificamente nas matérias ligadas à segurança/insegurança urbana, Luís Soczka com extensa obra publicada, designadamente, no LNEC.

Neste texto sobre segurança residencial iremos tentar considerar estas duas facetas, embora, provavelmente, se acabe por privilegiar a segurança em ambiente urbano e residencial, por ser esta uma matéria ainda hoje em discussão intensa, enquanto a segurança residencial no uso normal encontra já adequados desenvolvimentos em livros e manuais, designadamente da Livraria do LNEC, embora também se considere que, mesmo nesta matéria, há um urgente caminho a fazer na área da divulgação de normas e recomendações que tornem o espaço residencial mais confiável e seguro no uso normal, designadamente, para os grupos etários mais sensíveis, que são os idosos e as crianças e visando-se as principais fontes de risco.




Fig. 04: ilustrações que acompanharam o estudo original, no que se referia à segurança residencial

2. As duas faces da segurança arquitectónica residencial
A segurança refere-se ao acto ou efeito de tornar seguro, de amparar, de livrar dos perigos, de tranquilizar e tem, como já se apontou, duas faces relativamente distintas.

Uma delas resulta de uma adequada evolução e consolidação de standards físicos e funcionais, ainda em consolidação, entre nós, e que incidem em todos os níveis físicos do habitat humano, embora de forma mais completa nos espaços púbicos funcionais (ex. rodoviários, desportivos, recreativos) e nos espaços edificados. Faz-se, no entanto, notar que mesmo a este nível há que procurar chegar a equilíbrios de bom senso, não exigindo uma cristalização do nosso habitat em modelos únicos e de hiper-segurança; para isso é fundamental procurar regulamentar exactamente aquilo que é fundamental, deixando margens de manobra e mesmo de criatividade.
A outra face da segurança arquitectónica residencial incide especialmente no espaço público, na sua globalidade, e tem relações directas com o aprofundamento das relações entre a concepção da arquitectura urbana e edificada e os usos, comportamentos e atitudes que aí são desejáveis, proporcionando-se condições adequadas nos sítios certos e pontuando, estrategicamente, os espaços públicos de dispositivos arquitectónicos que sejam "passivamente" inibidores de acções negativas; e o aprofundamento das relações entre concepção e usos é essencial, até porque parece não haver nesta temática relações de simples causa-efeito.


3. Aspectos estruturadores da segurança urbana e residencial
Há quatro grandes famílas de aspectos importantes na estruturação da segurança urbana e residencial:
(i) Ter em conta e proporcionar as condições gerais do habitat humano responsáveis pela segurança em termos de anulação ou suavização das características urbanas, de vizinhança, que são agentes de mal-estar, e insegurança física e psicológica.

(ii) Ter em conta e proporcionar as condições gerais do habitat humano responsáveis pela segurança em termos de relações e características dos tráfegos de veículos e pedonal – segurança viária e rodoviária - defendendo o peão e proporcionando-se adequadas condições de intervenção de emergência nos espaços públicos e aos edifícios.

(iii) Ter em conta e proporcionar as condições elementares e pormenorizadas do habitat humano responsáveis pela segurança no exterior e no interior, associadas aos acidentes residenciais mais frequentes, que podem ocorrer no uso normal (ex., pavimentos antiderrapantes, guardas, proximidades críticas, etc.).
(iv) Ter em conta e proporcionar adequadas condições de segurança contra incêndio, uma matéria que neste texto praticamente não será abordada, pois encontra-se já extensamente regulamentada em Portugal.




Fig. 05: segurança urbana em vizinhanças bem configuradas - o conjunto do Pinheiro, Guarda, projecto de Aires Gomes de Almeida.


4. A segurança, do bairro/cidade, à vizinhança e à habitação
Numa aproximação desde a escala macro à escala micro-urbana e edificada teremos variados tipos de aspectos a considerar, entre os quais se destacam os seguintes:

(i) Ao nível das vizinhanças alargadas e próximas: uma “quadrícula” viária tradicional, contínua e bem acompanhada em termos de habitação e outras actividades; e controlo da velocidade do veículos e sua submissão a uma natural dominância pedonal.

(ii) Ao nível da relação entre vizinhanças e edifícios: controlo da altura dos edifícios; controlo da densidade habitacional (sem excessos de sinal contrário) e da sua razoável continuidade; vitalidade urbana; sentido de definição e controlo espacial; visibilidades estratégicas no exterior e a partir dos edifícios sobre o exterior; controlo da espaciosidade, da agradabilidade e da sobreocupação; apoio duplo e mutuamente compatibilizado à convivialidade e à privacidade.

(iii) Ao nível do edificado e das habitações: controlo da espaciosidade, da agradabilidade e da sobreocupação; apoio duplo à convivialidade e à privacidade; adequada concepção de zonas de circulação, vãos, equipamentos e pavimentos; pormenorização cuidadosa e considerando, sistematicamente, aspectos de segurança no uso normal; pormenorização adequada a solitações excepcionais mas possíveis (ex., guardas de varandas resistentes a ventos e a cargas excepcionais); cumprimento da regulamentação de segurança contra incêndio.




Fig. 06: segurança urbana em vizinhanças bem configuradas e com visibilidade a partir das habitações - o conjunto do Pinheiro, Guarda, projecto de Aires Gomes de Almeida.

5. Bases e estratégias da segurança arquitectónica e urbanaQuando pensamos em segurança urbana pensamos num espaço agradável onde nos sentimos seguros e em paz, e, de certa forma, associamos esta paz ao bem-estar. Pessoalmente, acabo por integrar, assim, como habitante, a segurança e o bem-estar, pois acho que o bem-estar urbano sem segurança não existe, e a segurança, só por si, pode até criar espaços excessivamente controlados e nesse sentido desagradáveis e intrusivos da nossa privacidade e liberdade de actuação no espaço público e na proximidade directa das nossas habitações (por vezes designados como "espaços-prisão").

Neste sentido será talvez oportuno referir uma ideia de espaço público, que seja para todos, disponível e praticamente sem barreiras, permitindo-nos utilizá-lo com uma estimulante fluidez de usos e uma ampla, inesperada e estimulante diversidade de utentes, numa natural oposição a espaços públicos que sejam simples canais de circulação servindo condomínios privativos.

Os espaços urbanos facilitam, ou não facilitam o uso da cidade, do bairro e da vizinhança e, assim, ajudam ou não ajudam a uma boa cidade; e o "espaço" social (características socioculturais, mistura, concentração ou dispersão) também ele se integra melhor ou pior, também ele ajuda ou não ajuda, facilita ou não facilita uma boa/melhor cidade.

Nestas matérias a questão da escala de intervenção e da sua estruturação, proporcionando um controlo visual natural do uso do exterior a partir da envolvente edificada, é fundamental, mas há que ter cuidado para se proporcionar um uso do exterior não excessivamente "vigiado", pelo menos aparentemente, assim como há que desenvolver continuidades de espaços públicos que sejam bem "oxigenados" pela vida pública envolvente, havendo que dirigir cuidados muito especiais para a concepção de pequenas vizinhanças em que os espaços públicos contíguos possam tender a ser muito apropriados pelos respectivos vizinhos, num equilíbrio difícil, mas do qual podem resultar excelentes soluções de vizinhanças residenciais, onde se alie o sentido de habitar o exterior pelos vizinhos, a uma natural permissão do uso público desses espaços, garantindo-se assim condições óptimas de segurança, apropriação e diversificação do espaço urbano.

E em tudo isto não nos podemos esquecer da relação entre o peão e o veículo, matéria associada a um tipo de segurança específico (viária e rodoviária), mas que é aqui fundamental, nesta reflexão sobre as bases e estratégias de segurança arquitectónica e urbana, pois quer o uso de uma motorizada ou mesmo de um automóvel a velocidade elevada pode ser e é, frequentemente, factor dinamizador do crime nos espaços residenciais (por exemplo assaltos por "esticão" e acções rápidas de fuga em automóvel), quer a própria segurança ou insegurança do peão face ao veículo tem uma influência directa na criação de um espaço urbano e residencial agradavelmente "securizador", e/ou expressivamente protegido.

E é sempre salutar lembrar que não fazemos espaços urbanos para os veículos, mas sim para as pessoas e os veículos têm de ser remetidos aos seus aspectos funcionais e de apoio a uma vida urbana em segurança, e esta reflexão é facilmente provada quando circulamos a pé em zonas predominantemente pedonais ou, pelo contrário, junto a vias rápidas ou potencialmente rápidas e sentimos condições de segurança/insegurança bem diferentes. E será sempre útil lembrarmos a relação entre estas matérias e os habitantes mais sensíveis e vulneráveis, que são as crianças e os idosos, e que deveriam poder usar o exterior residencial com intensidade e um máximo de autonomia.

5.1 Bom urbanismo, gestão local e polícia de proximidade
É assim fundamental que se tenha sempre como objectivo a criação de troços de cidade acolhedores, bem projectados e bem geridos. E uma cidade mais acolhedora é, como refere Larry Ford (2000) (1), “uma cidade com fachadas permeáveis e com grande variedade de acessos ao nível da rua, que é muito mais dinamizadora da vida cívica do que uma cidade caracterizada por estruturas do tipo fortalezas com paredes cegas e portas invisíveis”, porque “a vida nas ruas é definida e guiada pelas características dos edifícios envolventes.”

Não tenhamos dúvidas de que fazer um bom urbanismo é, também, desenvolver boas condições de segurança urbana e, naturalmente, não é fácil, mas deveria ser obrigatório, fazer um bom urbanismo, para uma grande diversidade de grupos socioculturais, sem misturas sociais disparatadas, e sem criação de guetos onde se concentrem grandes números de pessoas socialmente desfavorecidas. E não é fácil, mas deveria ser também obrigatório, fazer um bom urbanismo, pormenorizando-se todo o espaço disponível, pois quando há muito espaço e o projecto urbano tem deficiências ou não é adequado aos seus habitantes, começa, frequentemente, a sobrar espaço; mas o espaço urbano não pode sobrar, deve ter limites, controlo, e não pode haver espaços esquecidos, que são espaços, logo à partida, inseguros. E no caso dos chamados bairros sociais há, frequentemente, espaços domésticos bem controlados e espaços públicos mal desenvolvidos.

Nestas matérias há regras básicas do bom urbanismo que são igualmente regras básicas da segurança, designadamente:
- a continuidade urbana a todo o custo,
- a ausência daquelas situações em que o espaço se escapa pelas esquinas, e entre blocos com grande empenas cegas,
- a previsão de uma visibilidade estratégica e contínua ao longo do espaço público e sobre este espaço a partir dos edifícios envolventes,
- o combate sem tréguas à desorientação urbana, considerando especificamente as pessoas mais sensíveis,
- a criação de um espaço público vivo e tendencialmente pedonalizado, portanto, a uma "escala" de uso que equilibre alguma vida urbana, concentrada, e um ambiente global calmo e expressivamente protegido, onde seja claramente difícil aos veículos circularem acima das velocidades legalmente permitidas.
- a responsabilização e manutenção de cada metro quadrado de espaço urbano e o seu adequado equipamento em termos de espaços e elementos extremamente duráveis,
- e a adequada previsão do cenário nocturno, em termos funcionais, de segurança e de atractividade.

Numa outra perspectiva, um pouco mais ampla, importa referir que fazer um bom ordenamento urbano nunca será continuar a apostar, quase exclusivamente, no "caminho dos automóveis", numa lógica/ilógica de vias rápidas servindo centros comerciais, mas sim num redescobrir consistente dos "caminhos das pessoas", privilegiando e acarinhando/protegendo o tráfego pedonal numa relação sinergética com bons transportes colectivos e na recuperação do melhor ambiente e das melhores relações de vizinhança e condições de segurança, proporcionadas por exemplo nas ruas e vizinhanças com limite de velocidade de 30 km/h; e aqui temos de aproveitar a extensa experiência europeia e tentar humanizar um pouco mais a cidade, e humanizando-a tornamo-la mais segura.

É fundamental que tudo isto se articule com uma eficaz e contínua gestão local de proximidade, procurando-se desenvolver uma elevada estima dos habitantes relativamente aos seus espaços de habitar, às suas vizinhanças e aos seus espaços públicos; pois espaços mal amados, sujos e abandonados são espaços mal usados, e se alguns destes espaços estiverem fora da vista e do uso dos habitantes, então serão sítios naturais de delinquência.

É sempre possível reforçar aspectos eficazes de gestão de proximidade, com um fundamental sentido de continuidade e de acção rápida em resposta a qualquer ocorrência, e já muito se escreveu (e pouco se fez neste sentido) sobre esta estratégia de "tolerância zero" relativamente a maus usos e vandalismos no espaço público, e há excelentes exemplos no País, por exemplo através da contratação de elementos das forças de segurança aposentados para vigiarem determinados bairros de forma positiva e constante, e de moradores desocupados para realizarem tarfefas correntes de limpeza e jardinagem (com vantagens triplicadas pois a manutenção é melhorada, a protecção dos arranjos exteriores é melhor assegurada e a segurança urbana é reforçada).

E há um caminho a fazer em termos de distribuição de responsabilidades na gestão do espaço público por outras entidades para além das autarquias, procurando-se erradicar todos os espaços sem manutenção e sem gestão e elevar, progressivamente, a própria fasquia da manutenção, partindo-se de aspectos básicos, mas vitais, de limpeza urbana até características de tratamento pormenorizado do espaço público, que estimulem a identidade e a apropriação dos habitantes e que, assim, contribuam para maior identidade com o sítio onde se habita e, naturalmente, para a sua mais efectiva auto-protecção.

Mas a ordem pública também precisa da polícia e aqui considera-se ser fundamental a dinamização do policiamento de proximidade, e orientado para a comunidade”, que está na continuidade natural das preocupações e das ideias que acabaram de ser aqui apontadas em termos de espaços residenciais vitalizados, “defensáveis”, responsabilizados, e com uma gestão local eficaz. Uma acção deste tipo liga-se a um agente que trata de muitas pequenas ocorrências de pouca gravidade, e que, em pouco tempo conhece muitos dos habitantes da comunidade que lhe está atribuída; e “vemos” este agente a pé, nas tais zonas urbanas mais amigáveis, vitalizadas e bem estruturadas; mas para tal há que ter meios humanos numericamente adequados e depois há que considerar o resto do problema e no resto está também a criminalidade cada vez mais organizada e com meios mais perigosos e para esta tem também de haver respostas eficazes.

5.2 A segurança arquitectónica residencial ao nível urbano: matéria de base da concepção
A segurança numa perspectiva arquitectónica e residencial é o estado do que está seguro, do que é certo, do que oferece certezas e faz "respirar confiança", do que é firme e dá amparo e esteio (que sustém), do que é garantido e acautelado, firme e inabalável, eficaz e infalível, prudente e protector. Refere-se ao que oferece amparo, que garante imunidade física e psicológica, que tranquiliza e suscita confiança e que, afinal, materializa, no meio residencial, preocupações de prudência e de adequada prevenção dos mais variados tipos de acidentes e de acções desagradáveis e perigosas.

A segurança é sinónimo de protecção, e em áreas residenciais deve concretizar "mecanismos" de protecção passiva e activa dos habitantes em todas as funções residenciais, relativamente ao meio onde agem e às suas próprias acções e actividades.

A segurança deve estudar-se, tanto relativamente ao habitat humano e urbano em geral e aos seus conteúdos específicos, como em relação às condições que suscitam sentimentos de insegurança por potenciais ocorrências de acções de vandalismo e agressão.

A segurança arquitectónica residencial, ou o bem-estar físico e psicológico relativamente a situações de segurança em ambiente urbano e residencial, refere-se ao desenvolvimento de meios residenciais livres de perigos, tranquilizadores, geradores de confiança e de amparo físico e psicológico, naturalmente "securizadores", porque, basicamente constituídos por espaços públicos e comuns estrategicamente visíveis (a partir de habitações e equipamentos vizinhos e sem recantos escondidos e sem uso), visualmente "defensáveis", porque claramente definidos, circunscritos, com acessibilidades bem estruturadas e naturalmente controladas (espacial e dimensionalmente contidas e contíguas a espaços continuamente habitados e muito usados) e caracterizados por condições de acessibilidade urbana global, evitando-se, ao máximo, espaços fora do fluxo urbano e pouco visíveis, pois estes espaços serão tendecialmente sítios de maus usos e de delinquência.

E lembremos, bem a propósito, que são os habitantes mais vulneráveis à insegurança urbana - crianças e idosos - aqueles que mais dinamizam o espaço público numa base diária, por estarem frequentemente desocupados, uma situação que pode gerar, naturalmente, um círculo vicioso de ausência de vida exterior e de crescendo de insegurança, quando não existirem condições de segurança, pelo menos, mínimas, quer nos espaços exteriores envolventes dos edifícios, quer nos espaços comuns destes mesmos edifícios.

As condições de apoio constante e adequado, garantia de protecção e tranquilização, quando evidenciadas, são factores de dinamização do uso de espaços exteriores e edifícios.

Os aspectos mais directamente de âmbito social da segurança arquitectónica residencial têm também a ver com a ideia, muito acarinhada por vários autores americanos, de se poder favorecer ou facilitar a prevenção do crime através de uma concepção específica do espaço construído urbano (edifícios e espaços públicos). E nestas matérias há que procurar entender o que se considera ser uma questão básica: será que o espaço e os diversos espaços urbanos e residenciais e as suas cracterísticas formais, funcionais e de aspecto induzem comportamentos ou não? Ou seja, será que a natureza do espaço condiciona, ou não, comportamentos?

E aqui estará em jogo o condicionamento da própria conformação pormenorizada desses espaços urbanos e haverá, provavelmente, tal como defende a Prof. Teresa Heitor, de introduzir o conceito de “affordance" (2), ligado a uma atenção sistemática para com a informações que o espaço e seus elementos compositivos emitem, e que poderão estar directamente ligadas aos aspectos orientadores dos usos mais desejáveis em determinados espaços e relativamente a certos elementos urbanos e residenciais, perspectivando-se, assim, a interactividade entre pessoa e espaço/elemento.

Naturalmente que os aspectos de concentração social excessiva de grupos populacionais sensíveis e/ou com reduzidos meios económicos, bem como o desenvolvimento de misturas socioculturais sem sentido e por vezes etnicamente críticas, assim como o alojamento destas pessoas em edifícios pouco adequados aos respectivos modos e hábitos de vida diária, são aspectos directamente associados a um crescendo de aspectos de insegurança urbana e nos grandes edifícios, iniciada, criticamente, nos respectivos patins, escadas e átrios comuns, gerando-se, por vezes, péssimas condições de habitabilidade (mau uso e vandalismo de espaços e instalações), e um sentimento global de insegurança acrescido, até por ser (visualmente) influenciado pelo mau estado do edificado e dos exteriores de vizinhança, num novo círculo vicioso de má qualidade no habitar; e o resultado será que os habitantes, e especialmente as crianças e os idosos, irão ficar reclusos das suas células domésticas, favorecendo-se o cenário mais apetecível para quem queira dedicar-se ao vandalismo e outros maus usos nos espaços comuns e públicos.

5.3 Segurança urbana para quem?Temos que ir aprofundando o saber-fazer espaços que possam ir influenciando positivamente as pessoas a utilizarem intensa e positivamente a rua e os espaços exteriores urbanos, sendo que o público-alvo nessa dinamização do uso do espaço público têm que ser os habitantes mais sensíveis, que mais frequentam os espaços, durante mais tempo; temos, assim, de visar os idosos e as crianças, os mais vulneráveis, atraindo-os à rua e possibilitando-lhes adequadas condições de conforto e segurança; e não estarmos a pensar numa pessoa no máximo das suas capacidades, que pode fugir, saltar, correr.

Julga-se que o objectivo é um espaço público que permita que os nossos filhos possam ir à rua, com alguma autonomia, podendo assim adquirir excelentes hábitos urbanos e potencialmente conviviais, e um espaço que seja agradável para os idosos, porque eles merecem tais condições e porque, muitas vezes, são eles, com a sua presença activa, que ajudam a tornar o espaço público seguro.

Notas:(1) Larry Ford, “The Spaces between Buildings”, 2000.
(2) Definição: a capacidade de um objecto ou meio permitir determinados objectivos: Possibilidades de actuação
(3) Claude Lamure, "Adaptation du logement à la vie familliale”, 1976.


Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar

Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte
Infohabitar, Ano VII, n.º 332, 6 de Fevereiro de 2011

domingo, maio 16, 2010

298 - Sobre a segurança urbana - alguns aspectos gerais de reflexão - Infohabitar 298

Infohabitar, Ano VI, n.º 298 artigo de António Baptista Coelho

O arquitecto Gonçalo Byrne referiu, não há muito tempo(2004) (1), que “A grande diferença da cidade para o edifício é que a cidade é uma obra que gera espaços compartilhados onde as pessoas estão condenadas a encontrar-se; ... O facto de ser compartilhada justifica a gestão democrática, ou seja, a gestão que não exclui.”

Ora, se considerarmos que vivemos hoje, já, numa sociedade mundial em que são mais aqueles que vivem nas cidades do que aqueles que vivem fora delas entende-se, desde já, a importância do adequado desenvolvimento desses espaços de encontro e de partilha, que terão de ser sítios de estima pública e de uma gestão democrática, que tem de respeitar todos os cidadãos, mas que tem de proteger, mais cuidadosamente, aqueles mais sensíveis em termos de exigências de bem-estar e de segurança.

E aqui é sempre fundamental salientar que um dos nossos objectivos tem de ser fazer dos espaços habitacionais e urbanos sítios amigáveis para os idosos e as crianças, estimulantes do seu uso diário e intenso, e desta forma não só teremos de volta um espaço público mais apreciado e usado por estes grupos de habitantes, que são aqueles que mais intensamente usam e podem usar a cidade, como teremos também uma cidade mais habitada, mais viva e portanto mais segura; mas não tenhamos dúvidas que este objectivo de uma cidade mais amiga dos idosos e das crianças é um objectivo tão importante, como extremamente exigente, em termos de condições de bem-estar e de relação com a segurança física e pública; e além de tudo é um objectivo urgente e vital nesta nova época das megacidades; e aliás nesta nova fase da civilização humana há que interiorizar que se não seguirmos este caminho do revitalizar das vizinhanças e da vivência do espaço público, o que nos espera é um futuro sem humanidade, de pessoas isoladas nas suas habitações e entrincheiradas em condomínios, ligadas entre si apenas pelas redes de telecomunicações e cada vez mais receosas de uma vivência directa e real de um espaço urbano, que, consequentemente, será cada vez menos usado e menos seguro.



Fig. 01

Temos, assim, de tudo fazer, para incentivar a vivência pública das mega-cidades e das grandes zonas urbanas, nelas integrando condições naturais de segurança, através da forma como planeamos, reabilitamos e gerimos uma cidade que tem de regenerar, urgentemente, em termos de vizinhanças residenciais e espaços públicos verdadeiramente amigáveis, caso contrário não haverá polícia que seja capaz de manter a ordem cívica, até porque esta não decorre apenas de qualquer conjunto de condições mínimas de segurança, mas é sim, essencialmente, consequência da possibilidade da fruição desse espaço público em excelentes condições de bem-estar e de vitalidade; e portanto quaisquer problemas, mesmo pequenos, nestas matérias, levam a uma tendência de menor uso do exterior urnano, gerando-se um nocivo círculo vicioso de menor uso e de mau uso, que resulta numa vivência do espaço público cada vez menos intensa e em comportamentos cada vez mais negativos, com os cidadãos comuns e ordeiros cada vez mais entrincheirados nas suas habitações.

Neste sentido de desenvolvimento de espaços públicos que apetece usar e compartilhar, e onde nos sentimos em companhia, porque integrados numa agradável e intensa vida urbana, há que tudo fazer para que as nossas cidades sejam amigas dos seus habitantes. Amigas no sentido da protecção e do apoio a quem nelas habita, e entre estes, privilegiando-se, naturalmente, os grupos sociais mais sensíveis e mais significativos, com um natural relevo para as crianças e os idosos, que são, aliás, aqueles grupos etários que mais contribuem para uma cidade amigável por estar viva em continuidade ao longo do dia. Mas para tal há que assegurar à cidade de hoje e às suas vizinhanças residenciais condições excelentes em termos de segurança pública, condições estas que para terem esencial viabilidade devem basear-se no desenvolvimento de um meio urbano de proximidade que seja naturalmente propiciador de segurança, considerando múltplos aspectos associados ao fazer de um bom urbanismo e que estão sistematizados nas matérias associadas ao processo/método conhecido internacionalmente como "Prevenção do Crime Através do Desenho Urbano" - Crime Prevention Through Environmental Design, e habitualmente referido pela sigla CPTED.

De certo modo podemos comentar que se houvesse uma garantia de que todas as intervenções urbanísticas novas e de reabilitação fossem realizadas com uma elevada qualidade de concepção, não seria, provavelmente, necessário este tipo de medidas de enquadramento qualitativo que visam especificamente boas condições de segurança pública nos espaços urbanos; mas como tal qualidade de concepção não é, infelizmente, regra, torna-se vital ter este tipo de cuidados designadamente quando avançamos rapidamente para um mundo super-urbanizado.

Para concluir esta reflexão apontam-se, ainda, três aspectos breves.

Um deles está bem claro numa citação daquele que é um dos mais importantes teóricos da arquitectura e do urbanismo do século XX, o Arq.º Christian Norberg-Schulz, que escreveu o seguinte: “No passado os bandidos viviam fora das muralhas, hoje estão dentro. A cidade respira brutalidade e sentimos o desejo de fugir-lhe para encontrar a paz. Por isso procuramos proteger e conservar a natureza;... com o passar do tempo não poderemos fugir mais; o arquitecto moderno deve contribuir para sanar esta situação, criando um novo ordenamento e uma nova e significativa unidade entre a paisagem e a obra do homem.” (2) - temos aqui evidente a nostalgia de uma cidade pacífica, que talvez o nunca tenha sido, mas que hoje em dia assumiu situações, por vezes, verdadeiramente desumanas e inaceitáveis para o comum dos cidadão, numa espiral de insegurança e de falta de humanidade que, continuando, colocará evidentemente em causa a própria evolução de um processo de super-urbanização marcado por adequados valores humanos, sociais e culturais.

O segundo aspecto decorre do primeiro e refere-se a estarmos no crescendo do desenvolvimento das megacidades e se não encontrarmos respostas viáveis e sustentáveis para a indegurança urbana de hoje, então o que acontecerá quando por exemplo na Ibéria tivermos a megacidade Setúbal-Lisboa-Porto-Vigo? De que forma poderemos viver bem esta mega continuidade urbana?

E o terceiro aspecto é ser fundamental interiorizarmos as duas faces de uma mesma moeda nesta matéria da insegurança urbana: é que estamos aqui a lidar com problemas novos, pois nunca houve concentrações urbanas deste tipo e com uma população tão dinâmica e com tantos e tão significativos meios de comunicação e de eventual acção criminal; e só conseguiremos encontrar respostas adequadas para estes problemas numa acção de parceria activa e prática entre as várias áreas do conhecimento, com natural destaque para a Arquitectura e o Urbanismo, a Segurança Pública e a Gestão Urbana e com uma contínua retroacção entre medidas práticas reais e reformulação e mellhoria gradual e estratégica das medidas tomadas.

Salienta-se, assim, que o caminho a seguir decorrerá de um leque diversificado de tipologias de acções: umas mais urbanísticas, outras mais sociais, outras de gestão local e de participação e outras mais policiais; acções estas que deverão ser devidamente articuladas, seja em termos de enquadramento básico das intervenções urbanas novas e de reabilitação, seja na essencial continuidade ou periodicidade do seu acompanhamento, avaliação e correcção.




Fig. 02
E nesta perspectiva é urgente dinamizar as relações téoricas e práticas entre múltiplas disciplinas e entre diversas instituições, destacando-se, naturalmente, a formação em Arquitectura e a formação dos oficiais de polícia, que é assegurada, em Portugal, pelo Instituto Superior de Ciências Policiais e de Segurança Interna (ISCPSI), no qual se têm desenvolvido excelentes trabalhos de cadetes finalistas sobre estas matérias da relação entre urbanismo e segurança pública, e no qual existe já um aprofundado conhecimento teórico e prático destes assuntos que, repete-se, é urgente disseminar e cruzar com as matérias de concepção da Arquitectura urbana; e desde já o Grupo habitar se compromete a tentar assegurar acções de divulgação e de discussão destas temáticas com destaque para a "Prevenção do Crime Através do Desenho Urbano" (Crime Prevention Through Environmental Design, CPTED), numa desejável parceria com os colegas do Instituto Superior de Ciências Policiais e de Segurança Interna.

Para concluir esta reflexão ampla sobre as relações entre urbanismo e segurança, sublinha-se que a relação da segurança pública com a dinamização de uma cidade habitada e viva é um tema que está hoje bem na linha da frente das preocupações de todos nós e que começa a conciliar o interesse aprofundado tanto das forças de segurança, como de conhecidos teóricos urbanos, como é o caso de John Abraken, recomendando-se aqui a leitura quer de uma entrevista de Habraken, traduzida pelo Prof. Norberto Corrêa (3), quer de um artigo de Luís Balula (4), que equaciona a também fundamental preocupação com os aspectos éticos das medidas securitárias que são frequentemente propostas em termos de segurança pública.

E não tenhamos quaisquer dúvidas que nesta matéria e para lá de todo o tipo de medidas relativamente "passivas" ou preventivas, baseadas nas referidas amplas parcerias técnicas, numa estratégica integração de saberes e numa intensa cooperação com a população, haverá que, por vezes, tomar decisões críticas seja em termos de eventuais demolições e reformulações urbanísticas, seja no que se refere a uma efectiva acção de policiamento, baseada na acção de proximidade, mas recorrendo também à adequada previsão de outro tipo de intervenções de emergência e estratégicas.

Notas:
(1) Inês Moreira dos Santos e Rui Barreiros Duarte (entrevistadores), “Estruturas de mudança - entrevista com Gonçalo Byrne”, Arquitectura e Vida, n.º 49, 2004, p. 51.
(2) Christian Norberg-Schulz, “A paisagem e a obra do homem”, Arquitectura, n.º 102, 1968, pp.52-58.
(3) Clinton J. Andrews, “Segurança e o ambiente construído – entrevista com John Abraken”, Urbanismo, n.º 20, trad. Manuel Norberto Corrêa, 2005, pp. 20 a 25.
(4) Luís Balula, “Aspectos formais e éticos da segurança nos espaços públicos”, Urbanismo, n.º 20, 2005, pp. 26 a 28.

Infohabitar, Ano VI, n.º 298
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 16 de Maio de 2010

domingo, janeiro 24, 2010

282 - Cidades amigas, cidades seguras - Parte II - Infohabitar 282

Infohabitar, Ano VI, n.º 282

O Infohabitar divulga:
Exmo/a leitor/a do Infohabitar
O 2º Congresso da Luz vai ter lugar no próximo dia 5 de Fevereiro.

O LNEC e o Centro Português de Iluminação apoiam o desenvolvimento desde Congresso e o Grupo Habitar tem todo o gosto em proporcionar a sua maior divulgação; e atenção à data pois está muito próxima, mas é ainda possível a inscrição.

E o GH não pode deixar de salientar ser esta uma iniciativa à qual está ligado um dos seus elementos fundadores, o Dr. António Santos, um excelente colega do LNEC actualmente a concluir a sua tese de doutoramento e com o qual realizámos e realizaremos excelentes sessões técnicas; além de termos previstos interessantes desenvolvimentos no âmbito da ligação entre o habitar, a iluminação e a Arquitectura.
E tendo-o referido não posso deixar de comentar que a luz natural, como elemento básico e essencial de projecto e a luz artificial como elemento fundamental do mesmo projecto, são aspectos verdadeiramente estruturadores de uma verdadeira qualidade do habitar - habitar num verdadeiro sentido amplo que engloba a habitação e muitas outras actividades humanas.
E está para ser devidamente salientada a importância crucial que adequadas, ou, melhor, que excelentes condições de luz natural sempre têm numa afirmada satisfação no uso de espaços comuns e espaços privativos do habitar; múltiplos estudos têm confirmado e evidenciado esta situação, mas, na prática, estamos ainda muito longe de a termos interiorizado, adequadamente. Só quando habitamos, ou trabalhamos, em sítios escuros e sem vistas, ou quando passamos semanas sob tempo encoberto e cinzento, entendemos, realmente, que precisamos de boa luz natural e, também, de adequada luz artificial, praticamente como quem precisa de alimento. E então se aliarmos este aspectos básicos às oportunas e bem actuais considerações de poupança energética, vamos ter um resultado final que bem evidencia a importância fundamental da iluminação na construção e reconstrução do nosso habitar, num sentido completo e amplo.
Por isso o Grupo Habitar se associa aos organizadores do 2º Congresso da Luz, que vai ter lugar no próximo dia 5 de Fevereiro, na sua bem merecida divulgação; e por isso se anexa um pdf com o Folheto de divulgação/inscrição no Congresso e se acrescenta, em seguida, uma breve introdução ao evento. E salienta-se que depois encontrará o habitual link para o artigo semanal do nosso Infohabitar.
António Baptista Coelho
Editor do Infohabitar, Presidente da Direcção do Grupo Habitar

II CONGRESSO DA LUZ - "Luz com Emoção"

O II Congresso da Luz vem consagrar o CPI com a sua Missão: «promoção e divulgação das boas práticas de Iluminação», contribuindo assim para que os seus objectivos se cumpram a par da evolução e desenvolvimento das novas Tecnologias e Técnicas de Iluminação.
O reconhecimento da importância da Especialidade – Luminotecnia e dos técnicos especializados que, cada vez mais, necessitam de um elevado conhecimento da arte de iluminar, na procura da excelência das boas práticas com soluções sustentáveis e o crescente envolvimento de várias sensibilidades (Arquitectura, Design, Engenharia e Marketing) são sinais claros de que a Iluminação faz parte de um conjunto de especialidades que, no futuro, terão uma contribuição muito importante para a implementação dos novos conceitos e/ou critérios de construção, baseados na sustentabilidade e protecção do meio ambiente.

As «Novas Tendências», A «Arquitectura da Luz», A «Iluminação e a Sustentabilidade» e a «Regulamentação/Normalização e Boas Práticas» são temas que, certamente, irão despertar um especial interesse pela comunidade interessada na Qualidade da Iluminação em Portugal.
A sua presença será um grande contributo para a discussão sobre os grandes desafios do futuro da Iluminação.

Contamos consigo !


Cidades amigas, cidades seguras - Parte IIAntónio Baptista Coelho

Notas introdutórias
Este texto foi desenvolvido para basear uma intervenção realizada em 20 de Janeiro de 2010 no âmbito do Seminário intitulado "Comunidades Seguras em territórios urbanos", promovido pelo Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana e pela Iniciativa "Bairros Críticos", no Auditório do Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna. Regista-se, ainda, que este texto está na continuidade de um outro maior incluído no capítulo intitulado "Habitar cidades amigas – projecto 3", integrado na Parte III, "Linhas/projectos de desenvolvimento para uma habitação humanizada", do estudo que realizei e que foi editado no Laboratório Nacional de Engenharia Civil, com o título "Habitação Humanizada" (LNEC, TPI N.º 46, 2007).

A intervenção urbana sempre visou tornar a cidade acolhedora, e esta qualidade tem a ver com o viver em conjunto, que é o assunto urbano fundamental.

É fundamental que o urbanismo vise a construção ou a reconstrução de uma cidade acolhedora, que seja expressivamente amiga das pessoas e designadamente daquelas mais sensíveis e desprotegidas. Temos de fazer tudo para que as nossas cidades sejam amigas dos seus habitantes. Amigas no sentido da protecção e do apoio a quem nelas habita, e entre estes, privilegiando-se, naturalmente, os grupos sociais mais sensíveis e mais significativos.

Na sequência do artigo editado na semana passada no Infohabitar, relativo a estas matérias de uma "cidade convivial e fisicamente acolhedora", são abordadas, em seguida, de forma breve, algumas facetas que se julga serem também essenciais para a recuperação e para a redescoberta, por todos nós, do que pode ser uma cidade amiga, uma cidade que inspire confiança a quem a habita; são elas: (II) sobre o bom projecto urbano, (III) as questões de acessibilidade; (IV) a cidade da criança e do idoso, que é afinal, a cidade de todos; (V) a importância dos aspectos de gestão local; (VI) a relação entre reabilitação urbana e segurança pública; e, para rematar, (VII) a relação entre bom urbanismo e policiamento de proximidade ou comunidade.


(II) Sobre o bom projecto urbano

Em primeiro lugar, fazer um bom urbanismo é, também, desenvolver boas condições de segurança urbana e não é fácil fazer um bom urbanismo, com cidade viva, participada por uma grande diversidade de grupos socioculturais, sem misturas sociais disparatadas, e sem criação de guetos onde se concentrem grandes números de pessoas socialmente desfavorecidas.

Em segundo lugar, não é fácil fazer um bom urbanismo tratando-se ao pormenor o espaço disponível, pois quando se tem muito espaço e quando o projecto urbano tem deficiências ou não é adequado aos seus habitantes, começa, frequentemente, a sobrar espaço; mas o espaço urbano não pode sobrar, deve ter limites, deve ter controlo, e não pode haver espaços esquecidos, que são espaços de inseguros!

De certa forma há aqui, frequentemente, uma contradição no caso da habitação de interesse social: interiormente o espaço doméstico é gerido com enorme rigor, enquanto, exteriormente, o espaço público é, frequentemente, tratado de forma residual, equipado deficientemente ou mesmo não equipado e, por vezes, deixado ao abandono, com todas as más influências daí decorrentes.




Fig. 09


Em terceiro lugar há regras básicas do bom urbanismo que são igualmente regras básicas da segurança, designadamente: a continuidade urbana a todo o custo, a ausência daquelas situações em que o espaço se escapa pelas esquinas, e entre blocos com grande sempenas cegas, a previsão de uma visibilidade estratégica e contínua ao longo do espaço público e sobre este espaço a partir dos edifícios envolventes, o combate sem tréguas à desorientação urbana, considerando especificamente as pessoas mais sensíveis, a criação de um espaço público com uma vivência pelo menos mínimas empre que possível máxima, a responsabilização e manutenção de cada metro quadrado de espaço urbano e o seu adequado equipamento em termos de espaços e elementos extremamente duráveis, e a adequada previsão do cenário nocturno, em termos funcionais, de segurança e de atractividade.

E é fundamental que tudo isto se articule com a gestão local, visando-se um desígnio essencial de criação de condições óptimas para se desenvolver uma elevada estima dos habitantes relativamente ao seu espaço de habitar, às suas vizinhanças e aos seus espaços públicos. É fundamental criar estas relações fortes de apropriação e de satisfação para com as soluções urbanas e de habitar e tratá-las muito bem em termos de limpeza, manutenção e arranjo de pormenor, pois espaços mal amados, sujos e abandonados são espaços mal usados, e se alguns destes espaços estiverem fora da vista e do uso dos habitantes, então são sítios naturais de delinquência.

E é importante ter presente que as pessoas defendem melhor os espaços que consideram como seus e neles exigem melhor qualidade de manutenção e neles estão mais prontos a reagirem contra usos menos adequados; o que não acontece quando as soluções urbanas e habitacionais são pouco adequadas e frias; e nestas matérias é importante ligar, mais fortemente, a habitação à vida urbana, não interpondo entre uma e outra extensos e frequentemente inseguros espaços comuns.



Fig. 10


O espaço urbano seguro é, como se tem defendido o espaço vivo e acolhedor, e é sempre o espaço da continuidade urbana, naturalmente visível e apropriado pela comunidade ou por cada pessoa ou família. E quando pertença da comunidade este espaço tem de ser uma espécie de sala de estar da vizinhança ou mesmo da cidade, e sendo-o , é um espaço com o qual se deve interagir naturalmente a partir das janelas que o rodeiam, desenvolvendo-se um controlo do espaço público muito natural, pela continuidade do espaço que é criada e pelas atraentes referências urbanas de orientação que povoam esta continuidade urbana, e que são elas próprias estratégicos e vitais elementos de segurança urbana, como é o caso dos acessos às habitações e às lojas.

Outro aspecto importantíssimo, que já foi aqui referido, é a questão da altura dos edifícios. Uma pessoa a partir do 5º, ou 6º andar, isola-se do que se passa no espaço público, é como se este deixasse de existir para ela, porque deixa de haver uma relação directa, deixa de haver a relação da voz, deixa de haver a possibilidade de a pessoa falar com alguém, na rua, a partir da sua janela.

Isto não quer dizer que não devam existir construções mais altas para pessoas que queiram viver mais isoladas. Mas, "por regra", obrigar boa parte das pessoas a viver isoladas do espaço público, não pode ser. Pois a altura excessiva dos edifícios, além de reduzir a escala humana da cidade, aumenta a descontinuidade urbana, pois os edifícios mais altos têm de estar mais afastados entre eles, havendo espaços públicos mais extensos, e reduz drasticamente a capacidade de interacção entre as habitações e o espaço público, abrindo-se caminho à insegurança urbana.



Fig. 11


E então quando pessoas que viviam precariamente em casas abarracadas de um único piso são realojadas nesses edifícios altos estão a juntar-se os problemas que acabaram de ser apontados, com o problemas da inadequação entre o tipo de realojamento proporcionado e os modos de vida adquiridos, ligados à terra e à vizinhança; e o resultado será mau e ainda pior quando se opta por fortes concentrações de pessoas dos mesmos grupos socioculturais desfavorecidos.

E importa ainda referir a barreira crítica que os edifícios altos constituem, frequentemente, para o uso do espaço público por idosos e crianças - que deixam de poder ir à rua sozinhas.


(III) As acessibilidades e o "eterno" conflito peão-veículo

Passando, agora, muito brevemente, às questões da acessibilidade e embora não seja esta uma reflexão sobre os conflitos entre o veículo e o peão, há que sublinhar que as matérias de insegurança urbana também se ligam a uma certa nova velocidade de vivência da cidade pouco humana e tantas vezes perigosa, que tornou o espaço público citadino muito pouco acolhedor para o peão, cujo espaço tem recuado frente ao do veículo, perdendo-se parte das funções de estadia e de diversas actividades antes aí desempenhadas.



Fig. 12


E hoje há vias citadinas que são apenas estradas, há ruas que foram totalmente conquistadas pelos veículos, há até passeios, antes espaçosos, e que estão converidos em estacionamento de veículos e, recentemente, em circuitos para bicicletas; e não podemos ter quaisquer dúvidas que este tipo de condições são e serão aproveitadas por aqueles que encaram os peões como vítimas potenciais.

Não se encare esta posição como qualquer tipo de fundamentalismo, pois as zonas exclusivamente pedonais têm riscos específicos em termos de segurança urbana, apenas como esclarecimento de que a cidade que assim se faz pouco tem a ver com um espaço urbano acolhedor, agradável em termos de conforto ambiental e globalmente amigável.

Do recreio livre e do desporto citadino, ao andar a pé como conceito essencial de deslocação e de bem-estar físico, os peões têm de recuperar, urgentemente, o seu direito de cidade, que não deverá ser exercido, especificamente, contra o automóvel privado, mas apenas e exclusivamente contra tudo aquilo que afecta negativamente o seu conforto urbano em termos de deslocações e de estada e contra a bem conhecida persistência de cenários urbanos visual, ambiental e funcionalmente agressivos e insustentáveis; afinal os territórios que nos repelem e que, portanto, ficam ao abandono, transformando-se em zonas de insegurança.

E em Lisboa Chelas é um bom exemplo deste tipo de território, pois, tal como refere o Arqº Manuel Tainha (2000) (13), é “uma zona sombria” e “um território dilacerado”, onde "as pessoas vivem nos interstícios das grandes vias e o automóvel é soberano na cidade. As áreas residenciais são áreas residuais entre os sistemas de circulação.”



Fig. 13

E nestas matérias da acessibilidade há que salientar as situações gravíssimas em que vizinhanças e mesmo pequenos bairros estão isolados fisicamente da cidade e, além disto, estão extremamente mal servidos de transportes públicos, criando-se um isolamento crítico, que além de aspecto essencial da ausência de qualidade no habitar, é também factor directo de desenvolvimento da insegurança urbana.


(III) Acidade da criança e do idoso, que é afinal, a cidade de todos

Mas, naturalmente, numa perspectiva de uma cidade mais acolhedora há que salientar as necessidades específicas de apoio físico, de vizinhança e de orientação para os os idosos e as crianças. E uma cidade mais amigável para idosos e jovens, afinal, aqueles que mais a usam, irá dinamizar mais o uso dos seus espaços públicos por estes grupos etários e também pelos outros, tornando-se, consequentemente, uma cidade mais convivial e mais segura.

Não se irá desenvolver aqui este tema, que merece abordagem específica, mas aponta-se , apenas, que o bem-estar residencial e urbano dos idosos e crianças depende, muito especificamente, de boas condições de estruturação e orientação urbana com continuidade, que estimulem o conhecimento da envolvente urbana, de conforto nas deslocações e na estadia no exterior, de proximidade a transportes colectivos e equipamentos comerciais, de protecção relativamente a veículos e de adequada integração urbana das respectivas habitações.

Sinteticamente os idosos e as crianças precisam de um ambiente urbano especialmente acolhedor e seguro, nas diversas facetas da segurança; e se esse ambiente existir eles estarão na rua, a habitar a rua e a cooperar para que a rua seja mais viva e segura - no caso contrário por vezes nem podem sair de casa, ou não vale a pena sairem de casa, com os resultados que são evidentes para a sua saúde física e mental e não podemos esquecer que, hoje em dia, são inúmeras as pessoas idosas que vivem auto-encarceradas em suas casas e, mesmo assim, numa constante inquietação por poderem ser assaltadas” (14); isto quando se geram círculos viciosos de pouco uso e de insegurança no espaço púiblico.



Fig. 14

(IV) Uma gestão de proximidade eficaz

Naturalmente, há que sublinhar que tudo isto, todos este bons e maus exemplos, são fortemente influenciados e mesmo determinados pela existência ou ausência de uma gestão de proximidade eficaz, exercida em cada metro quadrado de espaço edificado e exterior; e aqui, se entendem bem, novamente, quer os benefícios de se poder trabalhar com espaços bem definidos, claramente apropriados e delimitados, onde são visíveis as diversas zonas de responsabilidade, o que acontece na cidade com continuidade urbana, quer os malefícios de se trabalhar nos tais espaços em mancha de óleo, pouco definidos e mesmo muitas vezes perigosamente ambíguos em termos de usos aí recomendados ou permitidos - por exemplo em termos de misturas entre tráfegos de peões e veículos - em termos das essenciais acções de limpeza e manutenção.

Devido ao perfil desta intervenção, essencialmente nas matérias urbanísticas, não se desenvolverá mais esta faceta da gestão de proximidade, que se considera, no entanto, vital na relação entre urbanismo e segurança, e não quero deixar de comentar que considerao que mesmo com policiamento de proximidade, igualmente estruturante nestas matérias, me parece poder funcionar quase como um parceiro directo e fortemente integrado nesta gestão local de proximidade; julgo que com resultados finais claramente potenciados, isto até porque julgo que certas funções da gestão local urbana se podem articular muito positivamente com fortemente com essa fundamental modalidade de policiamento.


(V) Reabilitação urbana e segurança pública, um breve comentário

Quanto às matérias de ligação entre a reabilitação urbana e a segurança pública elas podem ser sintetizadas referindo-se que os aspectos urbanos mal desenvolvidos ou não desenvolvidos, como a excessiva concentração de grupos sociais sensíveis, a utilização de mega-edifícios impossíveis de gerir, o uso de tipologias habitacionais inadequadas, a ausência de equipamentos de vizinhança e conviviais, a deficiente ou ausente continuidade urbana, as acessibilidades citadinas deficientes e a ausência de vizinhanças e espaços exteriores úteis e amigáveis, são aspectos que terão de ser abordados e resolvidos, caso a caso, com especial sensibilidade humana, social e urbana, em sede de um projecto regeneração urbana com especial qualidade, feito por arquitectos, e informado e acompanhado por um amplo leque de outros técnicos, entre os quais especialistas em segurança pública.


Fig. 15


(VI) Entre bom urbanismo e policiamento de comunidade

Para terminar aponta-se que tal como refere Jane Jacobs (1961) (15), “a primeira coisa que deve ficar clara é que a ordem pública não é mantida basicamente pela polícia, sem com isso negar a sua necessidade. É mantida fundamentalmente pela rede intrincada, quase inconsciente, de controles e padrões de comportamento espontâneos… a segunda coisa é que o problema da insegurança não pode ser solucionado pela dispersão das pessoas... Numa rua movimentada consegue-se garantir a segurança; numa rua deserta não… Deve ser nítida a separação entre o espaço público e o espaço privado…; devem existir olhos para a rua…; a calçada deve ter usuários transitando ininterruptamente, para induzir olhos atentos na rua assim como observação da rua a partir dos edifícios..."

Mas a ordem pública também precisa da polícia e aqui considera-se ser fundamental a dinamização do policiamento de proximidade, pois fica evidente que a “polícia orientada para a comunidade” está na continuidade natural das preocupações e das ideias que têm vindo aqui a ser expressas, designadamente, em termos de espaços residenciais vitalizados, “defensáveis”, responsabilizados, e associados a uma gestão local eficaz.

Uma acção deste tipo estrutura-se em torno de um agente que apoia em múltiplas pequenas ocorrências, habitualmente, de muito pouca gravidade, e um agente que, provavelmente, em pouco tempo conhece muitos dos outros agentes privilegiados da vida e da gestão diária dos sítios que lhe estão atribuídos; e “vemos” este agente a pé! Nas tais zonas urbanas mais amigáveis, vitalizadas e bem estruturadas. Mas para tal há que ter meios humanos numericamente adequados e depois há que considerar o resto do problema e no resto está também a criminalidade cada vez mais organizada e com meios mais perigosos e para esta tem também de haver respostas eficazes.

E esta verdadeira “polícia de comunidade” tem de ser orientada para a defesa e o desenvolvimento de uma verdadeira qualidade de vida, tal como é defendido por William Bratton e William Andrews (2000), que referem que “o policiamento da qualidade de vida é importante por três razões. Em primeiro lugar, porque a maioria dos cidadãos é mais sensível a situações como a prostituição, o pequeno comércio de droga, os excessos de ruído, o alcoolismo juvenil e outros delitos menores do que ao grande crime… Em segundo lugar … os ambientes convulsos atraem o crime e provocam o medo. Em terceiro lugar, porque os autores de crimes graves também cometem muitas vezes outros tipos de pequenos delitos; o policiamento da qualidade de vida permite aos agentes da polícia intervir junto destes grupos e por vezes impedir a ocorrência de crimes sérios.” (16)

Notas:

(13) “O artista é o mais frio dos homens – entrevista com Manuel Tainha”, Arquitectura e Vida, 2000.
(14) Monteiro de Barros, “O imobiliário : 100 anos da vida de um imóvel – Jornadas de reflexão, Lisboa,” 2004, p.175.
(15) JACOBS, Jane, “Morte e vida das grandes cidades”, trad. Carlos Mendes Rosa, 2001 (1961), pp. 32, 35, 36 e 41.
(16) William Bratton e William Andrews, no livro organizado por Myron Magnet, Paradigma urbano – as cidades no novo milénio (The Millennial City), 2001 (2000), p.112.

Infohabitar, Ano VI, n.º 282
Infohabitar a Revista do Grupo Habitar
Editor: António Baptista Coelho
Edição de José Baptista Coelho
Lisboa, Encarnação - Olivais Norte, 24 de Janeiro de 2010