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segunda-feira, abril 18, 2016

578 - Garagens comuns habitacionais - Infohabitar n.º 578

Garagens comuns habitacionais - Infohabitar n.º 578

– Infohabitar n.º 578
António Baptista Coelho
Artigo XCV da Série habitar e viver melhor

Inovação em garagens comuns habitacionais

As associações interessantes em garagens comuns podem ser feitas com a luz natural, rasante e valorizadora de paredes com texturas estimulantes – por exemplo de betão descofrado aparente ou bem liso, de tijolo aparente ou mesmo de pedra –, com lanternins superiores que inundem a garagem de luz, com amplos vãos paisagísticos pontualmente abertos no negrume da garagem e mesmo com pequenos pátios eventualmente rusticamente ajardinados que além da luz natural tragam a natureza para o espaço-caverna da garagem.

Todas estas ideias, mais adequadas ou menos adequadas às mais diversas soluções de edifícios, ajudam muito a transformar o espaço soturno, triste e tendencialmente “claustrofóbico” de uma garagem num ambiente vivo, ou mais vivo, que as pessoas usam para entrar e sair do edifício, onde a funcionalidade naturalmente tem de imperar em termos da manobra e estacionamento de veículos privados, onde é essencial a garantia da segurança das pessoas e dos próprios veículos, mas onde é possível, tal como já se apontou, garantir tudo isto, disponibilizando também um ambiente agradável em termos de alguma luz natural e adequada ventilação.

No que se refere à própria arquitectura de interiores que tem de ser cuidada – não é por se tratar de uma garagem que não se desenha o respectivo espaço, globalmente e em pormenor, afinal, não estamos a tratar de um armazém, mas sim da principal zona de entrada e saída diária dos habitantes – e, ainda nesta matéria de uma cuidada, ainda que simplificada e “rústica”/durável escolha de soluções espaciais e de acabamento, podemos libertar a nossa imaginação criadora e transformar o espaço garagem num trunfo suplementar do espaço habitacional global, através de soluções curiosas, engenhosas e estimulantes, por exemplo reforçando um certo sentido de “caverna” protectora ou, pelo contrário, desenvolvendo o espaço de garagem como um volume complementar da parte principal do edifício, que o prolonga e que lhe confere uma mais marcante expressão, propiciando-se, num e noutro casos interessantes sequências de relação entre a garagem e os acessos às habitações, sequências estas que podem acontecer, por exemplo, como percursos quase-secretos e muito marcados pela escala e pela apropriação humanas.

O contrário de tudo isto, infelizmente, faz parte do dia-a-dia de muitos de nós, e poucas palavras merece e já não é mau quando o acabamento das “garagens-armazéns” é cuidado, as suas dimensões são regulares e desafogadas e a relação com os acessos ao interior do edifício estão bem acabados e sinalizados.

E há que comentar que, mais uma vez, a questão fundamental não é haver mais dinheiro para se fazer melhor, mas sim haver mais “Arquitectura”.

Fig. 01: Uma solução também extremamente interessante para garagens comuns residenciais, que podem e devem também servir como estacionamento público, é a fusão de um conjunto de garagens de vários edifícios num único grande estacionamento, que é funcionalmente muito eficaz (e até mais económica em termos de custos) e que pode ter uma gestão igualmente muito eficaz, e que poderá funcionar praticamente como uma “rua subterrânea” proporcionando além da funcionalidade própria, uma grande eficácia, amplitude, caraterização e agradabilidade a amplas zonas pedonais que caraterizem o respetivo quarteirão urbano onde tal situação é aplicada - habitações do conjunto urbano "Bo01 City of Tomorrow", desenvolvido no âmbito da exposição que teve lugar em Malmö em 2001 (ver nota final) - Arquitetura: vários arquitetos, o edifício mais próximo, do lado direito da imagem, é de Ralph Erskine.

Fig. 02: veja-se, na imagem, de pormenor, a espaciosidade do acesso ao estacionamento (com vias de entrada e saída específicas), que deixa de ser um “buraco negro” para se tornar uma verdadeira rua subterrânea, muito mais acolhedora (visualmente vem evidenciada em termos de imagem urbana) e funcional do que a corrente disseminação de estacionamentos privativos de edifícios específicos.

Hábitos e problemas correntes em garagens comuns habitacionais

Para além dos correntes problemas associados a garagens comuns residenciais que são, apenas, depósitos de veículos, e por vezes depósitos muito pouco funcionais, não contendo nenhuma qualidade associável a um ambiente residencial suavizado, envolvente e atraentemente caracterizado, os problemas correntes em garagens comuns ligam-se a negativas condições de manobra e estacionamento, de conforto ambiental – ausência de luz natural, más condições de ventilação – e de segurança no uso, considerando especificamente, riscos de incêndio e de intrusão e roubo.
Para além deste novelo de problemas frequentes outro há, igualmente importante, e que tem a ver com a arrumação desordenada ou mesmo caótica dos mais diversos tipos de objectos e produtos, aproveitando para arrumações, no interior de cada recinto de parqueamento, todos os recantos não ocupados pelo respectivo veículo. Uma situação que só pode ter uma resposta dupla e eficaz, quer pela oferta de adequadas condições de arrumação privativas fora da habitação e preferencialmente destacadas da zona de estacionamento de veículos, quer pela proibição rigorosa de qualquer tipo de arrumação nesta zona, com eventuais e naturais excepções apenas para outros veículos que aí possam ser arrumados, como será o caso de motos e bicicletas.

E é fundamental imprimir a esta disciplina de uso uma execução rigorosa, caso contrário estaremos a contribuir para um gravíssimo risco de eclosão e propagação de incêndios.

Considerando estes aspectos não se considera aceitável em termos de segurança contra incêndio e também em termos de segurança no uso, a existência das chamadas boxes individuais de estacionamento com acesso pelo próprio estacionamento; e lembremos que quando usamos uma garagem é fundamental para nos sentirmos em segurança que aí possamos ter um máximo de visibilidade a toda a nossa volta, o que não é possível com grandes portas fechadas encerrando boxes.

E para se ter um aspecto geral digno e atraente não é possível contemporizar com pilhas caóticas de arrumações informais e bem visíveis.

Questões levantadas em garagens comuns habitacionais

Não se fazem edifícios para se alojarem veículos, mas sim para as pessoas habitarem, mas quando usamos, diariamente, o espaço de garagem comum para entramos e sairmos, como frequentemente acontece, então este espaço de garagem passa a constituir espaço de habitar e como tal deve caracterizar-se, pelo menos, por níveis mínimos de conforto, funcionalidade e atractividade.

E, naturalmente, e como se tentou apontar atrás é possível ultrapassar claramente um tal nível de habitabilidade mínimo, transformando-se a garagem comum num espaço habitacional que pode contribuir activamente para uma verdadeira satisfação com o nosso sítio de residência; e tal como se tem vindo a apontar, para um tal desígnio, muito mais do que dinheiro, conta a pertinácia e a qualidade arquitectónica da solução, aproveitando virtualidades locais, cuidando de escolhas de acabamentos e cores e assegurando que a obra seja acabada com um máximo de qualidade.

Tendências em garagens comuns habitacionais

Em termos de eventuais tendências no desenvolvimento de estacionamentos e garagens residenciais comuns apetece reafirmar alguns aspectos e apontar uma “nova” ideia.

Começando pela nova ideia ela resume-se à noção de que pode haver muitas soluções de estacionamento comum no interior do lote, que, eventualmente, até nem passem pelo corrente estacionamento em garagem e em cave, desde o simples estacionamento à superfície descoberto e reservado aos moradores, a sítios de estacionamento em pisos térreos vazados (apenas cobertos), a alpendres ou edifícios específicos de estacionamento que constituam interessantes volumetrias conjuntas com o edifício principal, ou até garagens em pisos térreos ou mesmo elevados.

Referem-se todas estas soluções porque às vezes parece que, tal como com a solução quase “única” do edifício com habitações esquerdo/direito, também a garagem em cave é a panaceia única para o estacionamento privativo, e por vezes ela ficará tão cara que até nem é economicamente viável.

Numa linha natural de abordagem destas ideias há também que sublinhar que de forma igualmente absurda não se aproveitam, por vezes, simples possibilidades de iluminação e ventilação naturais de garagens comuns e isto não faz qualquer sentido, assim como não faz qualquer sentido que não sejam usadas simples e eficazes soluções de portas e vedações em rede metálica, que proporcionam ventilação e vista e que têm uma presença visual sóbria e bem integrada.

E num sentido de consideração da possível contribuição de uma solução de garagem privativa para a própria solução global de habitar e de imagem urbana local, é perfeitamente possível imaginar soluções em que edifícios e espaços cobertos ou apenas murados que definam e delimitem as soluções de estacionamento privativo, possam contribuir com uma imagem forte, caracterizada e estimulante para uma imagem local e urbana bem identificável, de certo modo substituindo-se o frequente peso negativo da presença do automóvel por “acrescentos” edificado “intermediários”, mais abertos ou mais encerrados, que ajudem a criar relações formal e funcionalmente interessantes e diversificadas entre espaços públicos e edifícios habitacionais, podendo ser muito agradáveis em termos da definição de espaços de recepção semi-públicos ou de transição entre o mundo público, o mundo comum e mesmo alguns “traços” ou antecipações dos próprios mundos privados.

E conclui-se reforçando a ideia de que o estacionamento em garagem comum deve ser tratado como espaço habitacional, sendo portanto agradável e estimulante no seu próprio uso e que tal agradabilidade e estímulo, associada a aspectos de segurança reforçada, terão evidente aplicabilidade numa população cada vez mais idosa.

·         Nota importante sobre as imagens que ilustram o artigo:
As imagens que acompanham este artigo e que irão, também, acompanhar outros artigos desta mesma série editorial foram recolhidas pelo autor do artigo na visita que realizou à exposição habitacional "Bo01 City of Tomorrow", que teve lugar em Malmö em 2001.
Aproveita-se para lembrar o grande interesse desta exposição e para registar que a Bo01 foi organizada pelo “organismo de exposições habitacionais sueco” (Svensk Bostadsmässa), que integra o Conselho Nacional de Planeamento e Construção Habitacional (SABO), a Associação Sueca das Companhias Municipais de Habitação, a Associação Sueca das Autoridades Locais e quinze municípios suecos; salienta-se ainda que a Bo01 teve apoio financeiro da Comissão Europeia, designadamente, no que se refere ao desenvolvimento de soluções urbanas sustentáveis no campo da eficácia energética, bem como apoios técnicos por parte do da Administração Nacional Sueca da Energia e do Instituto de Ciência e Tecnologia de Lund.
A Bo01 foi o primeiro desenvolvimento/fase do novo bairro de  Malmö, designado como Västra Hamnen (O Porto Oeste) uma das principais áreas urbanas de desenvolvimento da cidade no futuro.
Mais se refere que, sempre que seja possível, as imagens recolhidas pelo autor do artigo na Bo01 serão referidas aos respetivos projetistas dos edifícios visitados; no entanto, o elevado número de imagens de interiores domésticos então recolhidas dificulta a identificação dos respetivos projetistas de Arquitetura, não havendo informação adequada sobre os respetivos designers de equipamento (mobiliário) e eventuais projetistas de arquitetura de interiores; situação pela qual se apresentam as devidas desculpas aos respetivos projetistas e designers, tendo-se em conta, quer as frequentes ausências de referências - que serão, infelizmente, regra em relação aos referidos designers -, quer os eventuais lapsos ou ausência de referências aos respetivos projetistas de arquitetura.
·        Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XII, n.º 578
Artigo XCV da Série habitar e viver melhor

Garagens comuns habitacionais - Infohabitar n.º 578

Editor: António Baptista Coelho – abc@ubi.pt, abc@lnec.pt e abc.infohabitar@gmail.com
GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.



segunda-feira, dezembro 23, 2013

465 - Do edifício comum aos mundos domésticos - Infohabitar 465


Infohabitar, Ano IX, n.º 465
Notas prévias da edição da Infohabitar:
Na proximidade da Festa do Natal, do final do ano e do início de um novo ano, que será o 10.º ano de edições da Infohabitar, o que é para nós motivo de grande alegria, referimos aos caros leitores que as nossas edições de Natal e Ano Novo serão especificamente caraterizadas por esses períodos do ano, que aliás são por muitos aproveitados para alguns dias de merecidas férias.
A Infohabitar continuará a marcar a sua presença semanal nas semanas do Natal e do Ano Novo, mas com intervenções mais ligadas a essa datas.
Anuncia-se, desde já, que a primeira edição com conteúdos tecnicos e científicos de 2014 acontecerá no dia 6 de JANEIRO de 2014, com um artigo do economista e sociólogo catalão Jordi Estivill Pascual intitulado "Pontes entre a periferia: de Barcelona a Lisboa. Notas ao redor da gentrificação", para o qual chamamos desde já a vossa atenção, pelo grande interesse de que se reveste considerando as urgentes e sensíveis ações de reabilitação social e física dos nosos centros históricos.
A edição da Infohabitar deseja um Santo Natal a todos os colaboradores e leitores desta revista,
António Baptista Coelho
editor da Infohabitar

Sobre o edifício comum, quase a entrar nos mundos domésticos

Artigo XLII da Série habitar e viver melhor

António Baptista Coelho

Este é um artigo atípico, por vezes assim acaba por acontecer, designadamente, quando estamos a seguir uma dada disciplina editorial e não queremos “queimar etapas” temáticas.
A Série “Habitar e Viver Melhor” está prestes a atravessar a porta dos mundos domésticos (a discutir e aprofundar ao longo de 2014), mas ainda havia alguns temas a considerar no que se refere ao edifício multifamiliar.
Sendo assim optou-se por editar, já de seguida, um pequeno comentário de referência à renovada importância do habitar nos nossos novos (ou renovados) quadros urbanos, marcando-se assim a referida passagem de nível físico habitacional – dos espaços comuns do edifício habitacional para os espaços privados dos mundos domésticos –, seguindo-se, depois as últimas abordagens a espaços e elementos desse edifício e tratando-se neste caso, sinteticamente, duas matérias bem distintas: as garagens dos moradores e a integração da natureza no edifício multifamiliar.
Não queríamos, no entanto, “afastarmo-nos” do edifício e das suas diversificadas e viáveis soluções multifamiliares, mais ou menos "coletivas", mais ou menos multifuncionais, mais ou menos urbanisticamente “embebidas” na continuidade das funcionalidades e das imagens urbanas locais, mais ou menos “familiares” nas suas escalas e serviços disponibilizados, etc., etc., sem esta pequena, mas dinâmica, referência às potencialidades do edifício multifamiliar em termos de um verdadeiro programa habitacional, que não se limite às funções, mas que integre a outra parte da moeda do habitar, que  vai da humanização à apropriação, levando de certa forma o sentido doméstico, mais ou menos filtrado, à própria vivência do edifício; e que pode avançar e já avançou em soluções edificadas multifamiliares estimulantemente inovadoras, designadamente, nas relações que evidenciam seja com o meio em que se integram, seja com a "dimensão" e a importância do rspetivo espaço comum/coletivo, seja com o evidenciar da contiguidade dos mundos domésticos privativos e familiares.
Aproveita-se assim esta “passagem de nível físico” do edifício à habitação para sublinhar que iremos tratar esta matéria também desta forma menos funcional, mas talvez “mais livre e verdadeira” em artigos individualizados e autonomizados desta série editorial e que a continuidade desta mesma série não pretende, de forma alguma, e naturalmente, esgotar a abordagem dos elementos constituintes de um habitar em comum, mas sim contribuir para uma discussão renovada sobre matérias que, infelizmente, parecem ser, por vezes, pouco alteráveis e previamente definidas, como se as tipologias mais correntes fossem uma espécie de fatalidade, o que evidentemente não é verdade.

Parte 1 – Algumas reflexões sobre “Habitar e Viver Melhor”, num artigo de charneira e de passagem entre as matérias comuns do edifício habitacional e as dos mundos domésticos privados.


O mundo doméstico retoma, hoje em dia, uma importância que talvez só tenha tido no mundo antigo, quando habitar e trabalhar profissionalmente se conjugavam, com frequência, nos mesmos espaços de habitar, condição que, entre outros aspetos, tinha exigências específicas de integração urbana.

Por outro lado e lembrando-nos que a cidade surgiu por necessidade civilizacional e humana, porque os homens precisaram dos outros homens para melhor viverem e prosperarem, também em termos culturais amplos, e que esta função da cidade se perdeu, em boa parte, nos desvarios dos zonamentos e da (mono)funcionalidades, geradores de periferias, pseudo-vizinhanças e também de edifícios e habitações sem vida e sem caráter/”alma”; talvez que por um amplo e diverso leque de razões, até económicas, nos seja dada, hoje em dia, uma nova oportunidade de re-habitar a cidade com vitalidade, diversidade e natural multifuncionalidade.

E é interessante ter em conta que, por outro lado, um cada vez mais amplo grupo de habitantes que vivem autonomamente, sem ser num quadro de família corrente ou alargada – até eventualmente por vontade própria -, e estamos a referir situações de pessoas que vivem sozinhas ou em casais, poderão encontrar neste renovado quadro urbano e habitacional o sentido gregário e de companhia, ou o sentido de vida urbana de vizinhança e/ou central que desejam como elemento complementar da sua autonomia doméstica.

Tudo isto implica renovados quadros de vizinhança e integração urbana, de equipamentos coletivos, de tipologias edificadas e de soluções domésticas e de serviços, que urge aprofundar e propor num quadro de essencial diversidade de ofertas e importa ter em conta que estes caminhos estão já aí a serem seguidos em casos concretos que podemos experimentar e discutir.

A Série “Habitar e Viver Melhor”, que tem vindo a ser editada na Infohabitar, desde há mais de uma ano, intercalada por outros artigos, pretende contribuir para essa discussão, ainda que seguindo uma perspetiva que está ainda muito alinhada com uma abordagem técnica e científica das áreas do habitar que, autocriticamente, pode ser considerada talvez excessivamente funcionalista e sistemática, avançando-se desde as vizinhanças urbanas, aos espaços comuns dos edifícios e, em breve, pelos espaços domésticos.

No entanto procurou-se desenvolver uma abordagem orgânica e diversificada desta matérias de como se pode habitar melhor, e pretende-se que noutros artigos se possa aprofundar um sentido de “programa habitacional mais livre e multifuncional”, que se julga ter hoje em dia grande interesse nas cidades que temos de re-habitar e re-vitalizar com as pessoas e as atividades de hoje.

Fig01: imagem da diversidade tipológica residencial e do verde urbano do bairro realizado em Malmö, quando da exposição BO01 em 2001.

Parte 2 - Das garagens habitacionais à integração da natureza no edifício multifamiliar

São, realmente, assuntos diversos e que exigem tratamento específico e a desenvolver em futuras oportunidades, mas quis-se aqui fachar o ciclo do edifício multifamiliar a que dedicámos numerosos artigos em 2013, de modo a iniciar 2014 e o 10.º ano de edições da Infohabitar com abordagem aos mundos domésticos.
E chama-se a atenção para o sentido muito sintético, “de comentário” e apenas exploratório dos dois textos temáticos que se seguem.

Garagens comuns

Sobre as garagens comuns pode muito a dizer, considerando-se, essencialmente, quatro perspectivas que devem estar na mente de quem concebe uma garagem comum que se deseje verdadeiramente satisfatória numa sua utilização frequente.
(i) Um primeiro aspeto está evidentemente ligado às condições de segurança diversificadas que têm de existir numa garagem habitacional e que aqui não serão desenvolvidas, apontando-se apenas as críticas temáticas associadas à segurança contra risco de incêndio, à adequada ventilação e qualidade do ar - com natural destaque para os aspetos associados à saúde e bem-estar dos habitantes utentes -, e a condições de boa segurança no “convívio” entre veículos e peões; e em tudo isto não devemos esquecer que estamos num quadro habitacional de contiguidade com espaços comuns e indiretamente com habitações.
(ii) O segundo aspeto tem a ver com a existência de verdadeiras condições de funcionalidade e manobralidade no arrumar dos veículos e nas suas manobras de entrada e saída e no interior da garagem.
Não se tem na mente qualquer objectivo de elevada velocidade e de espaciosidade tão desafogada que até motive a arrumação desordenada dos mais diversos “trastes” pertença dos habitantes, mas apenas que se possa entrar, arrumar e sair com verdadeira facilidade; e esta solução casa bem com aspectos pontuais de intervenção cuidada em termos de integração de equipamentos de segurança, pintura de faixas de acessibilidade e restante lettering e outros elementos relativos ao design de comunicação – que são matérias que não têm de ser “obrigatoriamente” enfadonhas, ou friamente funcionais, transformando-se a garagem comum residencial numa espécie de espaço que sobrou, quase inacabado e para o qual se encontrou uma utilidade residual – o que, evidentemente, não deveria ser o caso.
(iii) O terceiro aspeto é um pouco mais ambicioso, talvez só aparentemente, e refere-se a uma caraterização da garagem comum como espaço de uso humano e residencial, pelo menos, minimamente agradável e atraente; condições estas que muito têm a ver com a possibilidade de existir alguma penetração de luz natural, de poder existir, eventualmente, alguma presença de vegetação, e com um arranjo formal cuidado, baseado numa lógica funcional, naturalmente, mas que não “esqueça” que se está a criar uma garagem residencial e não um simples depósito de veículos.
Neste caso há soluções razoavelmente correntes de luz natural rasante, de portões gradeados (ou em rede) e que portanto deixam entrar a luz e, naturalmente, haverá uma escolha ponderada dos acabamentos, aliando funcionalidade a um eventual sentido super-racionalizado ou caraterizadamente vernáculo, isto só para apontar soluções mais frequentes. Naturalmente que, aqui, se manterão os cuidados de segurança, de funcionalidade e de uma expressiva qualidade do design de comunicação.
(iv) O quarto aspeto é, claramente, mais ambicioso e tem a ver com a criação de um espaço de garagem dos veículos dos residentes que seja caraterizado por formas e por um ambiente específico, constituindo-se num elemento funcional e formal complementar aos espaços residenciais, propriamente ditos, mas gozando de uma presença própria e marcada por aspetos específico e positivamente caraterizadores da solução urbana e residencial global, nos quais se destacarão, muito provavelmente, as ligações entre interior e exterior, os espaços de transição, a vegetação, os muros, as passagens bem marcadas, as transparências e os filtros, num jogo de formas, volumes que dê presença a uma parte edificada e construída que funcione, na prática, como um espaço ou mesmo um volume aliado do edifício principal, melhorando-lhe a escala geral, a relação com a escala humana e a transição e eventualmente a fusão com os edifícios e os espaços livres envolventes.
Como se entende nesta pequena descrição de uma das inúmeras soluções possíveis, tem-se em mente, neste caso, um espaço edificado realizado em parte, ou totalmente, à superfície (não subterrâneo portanto), e um espaço que poderá ocupar, por exemplo, zonas pouco favoráveis para usos habitacionais, desníveis de terreno, espaços cuja utilização obrigue a edifícios térreos ou muito baixos. A ideia fundamental que aqui fica é, neste caso, dar uma forma especial e bem caraterizada a uma espécie de remate de percursos urbanos, que seja simultaneamente, uma “frente avançada” dos espaços especificamente habitacionais e é possível jogar com estes espaços criando, por exemplo, outros espaços de transição (ex., pátios alongados), entremeados entre a habitação e estas soluções de estacionamento em boa parte à superfície.
Naturalmente que também aqui se manterão os cuidados funcionais e uma expressiva qualidade do design de comunicação, imaginando-se que esta opção poderá, ainda, fundir outras atividades neste corpo edificado com alguma presença própria, e pensa-se, por exemplo, em outros espaços do condomínio, mas também em pequenos equipamentos que sirvam a vizinhança.

Fig02: imagem do verde urbano "protagonista" no bairro realizado em Malmö, quando da exposição BO01 em 2001.

Elementos “verdes”

Apontarem-se, aqui, os elementos “verdes”, além da reflexão que foi sendo feita em diversos artigos desta série editorial, a propósito da sua importância no âmbito dos aspectos qualitativos a privilegiar nos espaços comuns residenciais, corresponde a uma contínua reafirmação da importância da integração da natureza nos espaços habitacionais pormenorizados.
Pode ser uma árvore preexistente que marque uma dada ocupação, pode ser um espaço exterior permeável onde as plantas entremeiam a calçada, pode ser um pátio ajardinado que funcione como rótula ou como presença suavizadora entre volumes edificados, pode ser uma opção por coberturas ajardinadas ou soluções com terraços ajardinados, pode ser, até apenas, o privilegiar de simples soluções com pequenos quintais térreos naturalizados ou, ainda, simples varandas adequadamente desenhadas para receberem bem grandes e fundas floreiras, ou até apenas grandes vasos com plantas.
Pode ser tudo isto e outras soluções imaginadas por quem projeta, mas não pode haver mais ausência de consideração de uma integração, verdadeiramente protagonista, dos elementos naturais nos edifícios residenciais; um protagonismo marcado, seja em soluções mais estruturantes, seja em pormenores naturalmente evidenciados. Não se trata apenas de ajudar a uma renaturalização do mundo, trata-se de agir em termos didáticos nesse sentido e trata-se, acima de tudo, de dar aos espaços residenciais mais naturalidade, mais afetividade, mas “suavidade”, e mais apropriação.
E é importante assumirmos a grande relação que existe entre habitar e natureza, seja numa perspetiva histórica de complementaridade e de equilíbrio que tem, provavelmente, a ver, por exemplo, com a relação entre orlas de bosques e povoados, mas também, por exemplo, com a própria noção simbólica da árvore protectora e da árvore geradora de vida.
        
         Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.


Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
INFOHABITAR Ano IX, nº465
Artigo XLII da Série habitar e viver melhor

Sobre o edifício comum, quase a entrar nos mundos domésticos

Grupo Habitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional
e  Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do LNEC
Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.