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segunda-feira, novembro 27, 2017

Espaços comuns no edifício multifamiliar - Infohabitar 620

Infohabitar, Ano XIII, n.º 620

Espaços comuns no edifício multifamiliar: novo artigo e links para outros 4 artigos sobre o tema

por António Baptista Coelho

Caros leitores, nesta edição da Infohabitar, depois de uma pequena introdução encontrarão um novo artigo sobre a  temática dos espaços comuns em edifícios multifamiliares e links para outros quatro artigos sobre o mesmo tema. 

Fig-01: ao fundo edifício em Olivais Norte, Lisboa, projecto de Artur Pires Martins e Cândido Palma de Melo; um caso de referência na Arquitectura residencial portuguesa e um exemplo de protagonismo arquitectónio dos espaços comuns do edifício - neste caso galarias exteriores e torres verticais de acessos.

No início de setembro de 2017 a Infohabitar retomou as suas edições regulares, através da edição de um novo artigo em cada semana, logo à segunda-feira. Considerando que, durante um número muito significativo de semanas a Infohabitar editou artigos integrados no âmbito da série designada “Habitar e Viver Melhor”, lembrámo-nos de proporcionar uma desenvolvida e comentada revisão desta matéria, antes de prosseguirmos na edição desta série; uma revisão que inclui, sublinha-se, sistematicamente, novos artigos de reflexão e comentário sobre cada uma das matérias específicas tratadas em cada edição.

Neste sentido apresentam-se, em seguida, os títulos interactivos dos artigos da série “Habitar e Viver Melhor”, que abordam as temáticas dos espaços comuns em edifícios multifamiliares, e junta-se um novo artigo com reflexões sobre estas matérias. Em próximos artigos iremos continuar a disponibilizar reflexões sobre os diversos tipos de espaços habitacionais e domésticos, mais comuns, ou mais privados e personalizados.
Lembra-se que bastará ao leitor “clicar” no título do artigo que lhe interessa para o poder consultar.

Lembra-se, ainda, que por motivos totalmente alheios à Infohabitar, que muito lamentamos e que já apontámos, na Infohabitar, a maior parte dos artigos desta série editorial não conta, neste momento, com as respectivas ilustrações; estando, no entanto, disponíveis todos os seus textos, que se caracterizam por expressiva autonomia relativamente às referidas imagens; em tempo procuraremos ir repondo as referidas ilustrações, agora através de uma ferramenta integrada no próprio processo editorial do nosso blog/revista.

Finalmente regista-se que o processo editorial da Infohabitar, revista ligada à ação da GHabitar - Associação Portuguesa de Promoção da Qualidade Habitacional (GHabitar APPQH) – associação que tem a sede na Federação Nacional de Cooperativas de Habitação Económica (FENACHE) –, voltou a estar, desde o princípio de setembro de 2017, em boa parte, sedeado no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e nos seus Departamento de Edifícios e Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT); aproveitando-se para se agradecer todos os essenciais apoios disponibilizados por estas entidades.

São os seguintes os quatro (4) artigos disponibilizados sobre a temática dos “Espaços comuns no edifício multifamiliar” (basta clicar sobre cada um para aceder ao respectivo texto):

- Espaços comuns habitacionais conviviais (e associativos)

- Inovação nos espaços comuns habitacionais (I)

- (Urgente) inovação nos espaços comuns habitacionais (II)

- Garagens comuns habitacionais


Inovar nos espaços comuns dos edifícios multifamiliares

(novo artigo)

As temáticas associadas e associáveis à matéria geral da habitação e, designadamente, ligadas à matéria específica dos “espaços comuns nos edifícios multifamiliares” são extremamente amplas e tão sensíveis como significantes; portanto, não queremos correr o risco de dar a ideia de as irmos tratar, aqui, de forma exaustiva, iremos sim abordar, a propósito, alguns tópicos considerados talvez mais relevantes e/ou oportunos, hoje em dia, e deixar algumas reflexões e ideias como pistas para posteriores incursões teórico-práticas.

Algo de essencial quando se aborda a natureza e o potencial funcional e vivencial dos espaços comuns em multifamiliares, e talvez matéria bastante esquecida ou nem sequer reconhecida, tem a ver com o papel tão diversificado como protagonista destes espaços – entradas interiores, exteriores e de transição interior/exterior, galerias interiores e exteriores, corredores, patins, etc. – na “construção” da tipologia do edifício multifamiliar e na sua específica caracterização.

E esta matéria por si só levar-nos-ia bem longe, designadamente, quando se considera ser mais do que a altura para desenvolvermos uma tão afirmada como “revolucionária” (re)invenção tipológica no multifamiliar, largando de vez a “ditadura” funcionalista que nos apresentou, praticamente, um muito reduzido leque tipológico (ex., esquerdo/direito, distribuição por galerias interiores ou exteriores e pouco mais, como bem sabemos) e avançando, decididamente numa ampla diversificação tipológica directamente associada a várias vertentes “modificadoras”, ligadas a uma ampla diversidade projectual de soluções:

- de acesso comum;

- de acesso privado;

- mistas, com acessos comuns e privados;

- do tipo esquerdo/direito (essencialmente, através de alterações dimensionais e de configuração geral);

- de acessos por galerias exteriores e/ou exteriores;

- de acessos mistos, do tipo esquerdo/direito e por galerias exteriores e/ou exteriores;

- que integram edifícios de transição entre o uni e o multifamiliar;

- que integram e articulam edifícios multifamiliares e edifícios de transição entre o uni e o multifamiliar;

- que integram conjuntos específicos de habitações (ex., pequenos apartamentos T0 e T1);

- que integram conjuntos relativamente diversificados de tipos de habitações;

- que integram diversos espaços de actividades comuns;

- que integram diversos equipamentos colectivos que servem os habitantes dos respectivos edifícios e outros da respectiva vizinhança;

- que integram conjuntos habitacionais e urbanos com expressiva presença ao nível da(s) respectivas vizinhança(s) próxima(s).

Não tenhamos dúvidas de que, se quisermos avançar numa concepção dos espaços comuns do edifício que seja devidamente adequada a cada uma destas tipologias de soluções e a agregações, cuidadosamente diversificadas, de algumas destas tipologias, esses espaços comuns devem reflectir o melhor possível a respectiva natureza da intervenção em termos espaço-funcionais e de adequada caracterização arquitectónica, incluindo aspectos de arquitectura e imagem urbanas; e sendo o trabalho tão cuidadoso como criativo os resultados serão, sem dúvida, frequentemente, tão inovadores como extremamente estimulantes para quem habitar tais soluções.

Fig-02: ao fundo edifício em Olivais Norte, Lisboa, projecto de Artur Pires Martins e Cândido Palma de Melo; um caso de referência na Arquitectura residencial portuguesa e um exemplo de protagonismo arquitectónio dos espaços comuns do edifício - neste caso galarias exteriores e torres verticais de acessos.

E podemos, ainda, avançar que nos melhores projectos, naqueles considerados “de referência”, tais aspectos foram devidamente considerados e, mais do que isso, bem usados na caracterização do “partido” próprio e “único” de cada uma dessas intervenções; numa atitude bem distinta da doentia repetição de soluções praticamente iguais, interior e exteriormente. E assim se procurará desenvolver, nos sítios mais diversos e potencialmente suscitadores de soluções únicas, soluções de espaços comuns estimulantes e valorizadoras de cada um desses sítios e da dinâmica de vida dos respectivos moradores.

Apenas para dar alguns exemplos deste sentido de reflexão, exemplos pouco “ponderados/estruturados” no sentido de serem casos reais que nos vieram à memória com grande naturalidade enquanto escrevemos estas palavras, podemos referir:

- Um caso no Norte da Alemanha em que entre dois blocos habitacionais alongados, com acessos por pequenas galerias/varandas muito humanizada, existe um amplo espaço comum com tecto envidraçado e múltiplo pé direito, usado para muitas actividades dominantemente de lazer, repouso e convívio “contido” (em pequenos grupos).

- Vários casos europeus em que a “massa” dos quarteirões habitacionais é sensivelmente desagregada e humanizada numa orgânica mistura de soluções habitacionais com acessos comuns e outras com acessos privatizados ao espaço público.

- Vários casos europeus e norte-americanos em que as galerias exteriores de acesso às habitações se desenvolvem em termos quase de pequenas ruas elevadas; havendo soluções em que o acesso a estes espaços continua a ser restrito aos habitantes de um dado conjunto edificado, e outras soluções em que o acesso é tornado basicamente público, embora sempre pedonal.

- Um caso parisiense em que em grandes edifícios multifamiliares em altura, o acesso às respectivas habitações se faz através de grandes varandas privativas, simulando-se, assim, o carácter da habitação unifamiliar, mas no quadro de um grande multifamiliar; e em que, naturalmente, os respectivos espaços comuns verticais também se caracterizam por estratégicas e estimulantes relações com o exterior.

- Casos portugueses de habitação cooperativa, realizados nos últimos três decénios, em que a principal unidade edificada não é o edifício, mas sim o quarteirão, sendo que a acessibilidade dos habitantes se faz, em parte, directamente, entre o respectivo miolo do quarteirão, definido como espaço de uso público pedonal, e as habitações térreas contíguas.

- Ainda outros casos portugueses de habitação económica realizada nos anos 60 do século passado, em que existe um sábio manejar da concepção dimensional e formal de galerias exteriores, estrategicamente conjugadas com acessos verticais, por vezes do tipo esquerdo/direito, conseguindo-se soluções extremamente interessantes na fusão entre funcionalidade e “imagibilidade”; por vezes atribuindo-se até um certo sentido agradavelmente lúdico à organização dos respectivos acessos.

- E ainda outros casos nacionais de habitação de promoção municipal, privada e cooperativa em que acontece uma estimulante concepção de espaços interiores de acesso (patins, átrios e galerias/corredores), bem dimensionados, estrategicamente pontuados pela luz natural e agradavelmente apropriáveis pelos respectivos moradores.

E, caros leitores, praticamente todos estes casos se integram nos principais parâmetros básicos que podem e devem marcar uma construção de habitação que seja racional e económica, pois, por exemplo, os principais volumes são caracterizados por forte regularidade geral formal e não existem sinuosidades construtivas significativas.

A título de um pequeno desabafo dá vontade de dizer que o limite de tais soluções estará na imaginação razoavelmente regrada de quem as concebe; só que por vezes a regulamentação acaba por ser um relativo obstáculo ao respectivo desenvolvimento.

E neste sentido convidam-se os leitores à consulta dos artigos sobre espaços exteriores privados que são facultados acima e que abordam as seguintes matérias.

Uma das matérias e que é essencial na estruturação geral e na concepção pormenorizada dos espaços comuns de edifícios multifamiliares é o claro e geral respeito e a expressiva salvaguarda da privacidade dos espaços domésticos interiores, bem como a cuidadosa consideração da privacidade dos espaços domésticos exteriores; e esta redacção respeita situações onde, por escolha projectual e programática, se aceita que em zonas domésticas exteriores, essencialmente afectas a usos privados, haja expressiva abertura visual, quando não até eventual interpenetração espacial relativamente aos respectivos espaços comuns de circulação. E sintetizando, a regra deve ser a expressiva salvaguarda da privacidade doméstica, exceptuando-se situações específicas em que se aceitam condições diversas. 

Outro aspecto a considerar na concepção dos espaços comuns de edifícios multifamiliares é que o eventual estímulo às relações conviviais entre vizinhos, deve ser sempre submetido à referida regra de respeito pela privacidade doméstica e pelo sossego doméstico (outra importante forma de privacidade), sendo que poderá ser promovido em situações cuidadosas e sempre privilegiando condições de convívio relativamente circunscrito; podendo haver, no entanto, um potencial de convívio alargado e eventual (ex., no interior de um quarteirão), mas que, neste caso, deverá ser sempre condominialmente bem condicionado e regrado , pois nunca faria sentido que os moradores fossem “obrigados” a suportar situações de convívio incomodativo e frequentes.

Um outro aspecto que já foi, acima, aflorado refere-se à expressão que pode ter a estrutura de acessos e de espaços comuns na imagem pública dos respectivos edifícios e mesmo das respectivas vizinhanças de proximidade. E não se trata aqui de defender qualquer “obrigatoriedade” conceptual, mas sim de sublinhar o importante papel que tais elementos podem e devem ter numa positiva e afirmada caracterização local; numa opção bem distinta de paisagens urbanas idênticas, descaracterizadas e a “perder de vista”.

Relativamente ao amplo leque de “espaços comuns” possíveis num dado edifício multifamiliar o limite estará, tal como se procurou apontar, na imaginação e na capacidade de cada projectista, nos objectivos estipulados para a respectiva intervenção residencial e no orçamento que esteja previsto para a mesma intervenção, embora este último aspecto não seja determinante numa estratégia de adequada diversificação dos espaços comuns, tal como se defendeu acima.

E, finalmente, abordam-se as garagens comuns como elementos que são, cada vez mais, protagonistas na vivência diária dos edifícios multifamiliares, mas que, incrivelmente, continuam, por regra, a ser tratadas apenas como elementos funcionais – e mesmo nesta matéria muitas vezes caracterizadas por péssima funcionalidade nas manobras. E não será altura de se encarar a concepção das garagens comuns com a dignidade que merecem espaços tão intensamente usados? Fica a questão, que é razoavelmente desenvolvida no artigo acima apontado.

e a estas matérias relativas aos “espaços comuns no edifício multifamiliar”, voltaremos (mas, tal como já se apontou, nos artigos acima disponibilizados encontrarão, desde já, um conjunto interessante de reflexões).

Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados na Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico e científico, as opiniões expressas nos artigos e comentários apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores desses artigos e comentários, sendo portanto da exclusiva responsabilidade dos mesmos autores.
(ii) De acordo com o mesmo sentido, de se tentar assegurar o referido e adequado nível técnico e científico da Infohabitar e tendo em conta a ocorrência de uma quantidade muito significativa de comentários "automatizados" e/ou que nada têm a ver com a tipologia global dos conteúdos temáticos tratados na Infohabitar e pelo GHabitar, a respetiva edição da revista condiciona a edição dos comentários à respetiva moderação, pelos editores; uma moderação que se circunscreve, apenas e exclusivamente, à verificação de que o comentário é pertinente no sentido do teor editorial da revista; naturalmente , podendo ser de teor positivo ou negativo em termos de eventuais críticas, e sendo editado tal e qual foi recebido na edição.

Infohabitar, Ano XIII, n.º 620
Espaços comuns no edifício multifamiliar: 4 artigos sobre o tema e um novo artigo
Infohabitar
Editor: António Baptista Coelho
abc.infohabitar@gmail.com
Editado nas instalações do Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do Departamento de Edifícios (DED) do LNEC; Infohabitar, Revista do GHabitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional – Associação com sede na Federação Nacional de Cooperativa de Habitação Económica (FENACHE).

Apoio à Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.

segunda-feira, novembro 04, 2013

Dos átrios comuns habitacionais aos outros espaços de condomínio - Infohabitar 459



A Infohabitar inicia com esta edição uma nova fase de publicação, com uma nova imagem editorial que esperamos agrade aos nossos leitores e que integra novas funcionalidades, entre as quais a possibilidade de leitura em telemóveis e tablets.

Com as melhores saudações,

A edição da Infohabitar

Infohabitar, Ano IX, n.º 459


Artigo XXXIX da Série habitar e viver melhor


Dos átrios comuns habitacionais aos outros espaços de condomínio

António Baptista Coelho

Aprofundando-se o percurso comentado por uma adequada programação do edifício habitacional e visando-se, por regra, a solução multifamiliar mais, ou menos, "coletiva" abordam-se, sinteticamente, neste artigo, (i) os átrios e outros espaços comuns conviviais ou específicos e, depois, (ii) as salas e outros espaços ao serviço dos respetivos habitantes/condóminos e seus eventuais convidados.


Átrios e outros espaços comuns conviviais ou específicos


Muito do que se referiu, em outros artigos da presente série, para as entradas comuns se aplica a estes átrios e outros espaços comuns conviviais, espaços que existirão, eventualmente, na sequência das entradas e considerando as intenções que, eventualmente existam, de criação de um ambiente colectivo que fomente as relações de convívio entre os residentes.

Estes espaços comuns conviviais poderão também ser desenvolvidos de forma autonomizada das entradas comuns, mas, neste caso, a sua localização, relativamente aos principais acessos comuns e, muito especialmente, os seus conteúdos funcionais terão de ser suficientemente apelativos para dinamizarem o seu uso (ex., sala ampla para festas alargadas, com equipamento adequado e com excelente vista paisagística).

É importante que se sublinhe, aqui, que tais espaços devem ter uma forte justificação por servirem de acesso às habitações, podendo, até, resumir a sua utilidade a esta função principal, ainda que apoiando, simultaneamente, o convívio informal e ocasional e a instalação de alguns elementos de equipamento e apropriação destes espaços, tais como, por exemplo, a ocupação com plantas em floreiras e vasos, uma ocupação que é corrente em qualquer espaço comum de escadas e patins, mas que, ao encontrar espaços mais amplos, pode assumir uma presença muito forte e positiva de “jardim interior”.

Tal como se pode concluir do que acabou de ser referido, para que os átrios e outros espaços comuns tenham um bom potencial de uso e de ocupação com plantas e alguns equipamentos é fundamental a existência de adequadas condições de luz e ventilação naturais.

Numa perspectiva mais "radical" é, até, possível defender que tais espaços comuns só podem existir quando se verifiquem tais condições que fundamentem a espetiva sustentabilidade, pois, de outro modo, esses espaços têm muito reduzida justificação, podendo mesmo contribuir, negativamente, para a insegurança e outros problemas no interior do edifício.

Podemos facilmente imaginar, aqui, três tipos distintos de espaços com as características associáveis a espaços e conjuntos espaciais habitacionais comuns e conviviais:

(i) aqueles que constituem, essencialmente, alargamentos de espaços de circulação comum;

(ii) os que integram as circulações comuns, mas têm outros tipos de usos, habitualmente, ligados à estadia e ao convívio informal;

(iii) e, finalmente, aqueles espaços que poderão estar, relativamente, autonomizados das principais circulações e que se podem destinar a um razoavelmente amplo leque de actividades, com destaque para o lazer (ex., ginásio, sala de estar e de convívio multifuncional, sala de jogos, sala de “cinema  em casa”, terraço de convívio com churrasqueira, etc.), mas podendo também agregar, em localizações estratégicas, atividades profissionais exercidas perto de casa, mas não em casa (ex., espaços oficinais, pequenos escritórios, etc.). E esta última matéria/tipologia espacial e funcional é duplamente relevante em termos da sua presença nos espaços comuns e da sua importância funcional complementar aos espaços privados e domésticos, devendo, por isso, merecer desenvolvimentos específicos em outros artigos desta série.



Fig 01: o interior comum/coletivo de um edifício da Cooperativa Caselcoop em Caselas, Lisboa, projetado pelo Arq.º Justino de Morais (na foto).



A ideia que parece poder ficar, a título de conclusão parcial, é que só vale a pena investir em espaços que tenham, à partida, um máximo de perspetivas de poderem vir a ser usados, de outro modo além da despesa inicial infrutífera, criam-se espaços que irão ser zonas sem uso, menos seguras e que irão obrigar a inúteis despesas de manutenção.

E, a partir, destas ideias talvez que a melhor solução, quando se deseje realizar algo mais do que o conteúdo habitacional, seja avançar em espaços multifuncionais, que possam albergar diversas utilidades e que possam vir a ser, até, afetados a actividades estranhas ao condomínio, se as referidas intenções iniciais, de realização de outras actividades fora das habitações, se revelarem difíceis de pôr em prática.

E, quem sabe, talvez seja possível a instalação de algum equipamento que sirva a vizinhança, mas também, e em grande proximidade, o conjunto das habitações do condomínio; mas, para tal, há que prever todo um conjunto de adequadas condições de autonomia e de viabilidade de funcionamento, sempre numa vizinhança positiva e sem quaisquer riscos de conflito com a essencial calma residencial nas habitações integradas no edifício; e esta é matéria vital em toda este potencial de misturas funcionais: o uso residencial deve ser, sempre, estimulado e nunca prejudicado, ainda que pontualmente, por estas atividades "extra-residenciais" - por exemplo, ao nível, de acesso de estranhos, ruído excessivo, e redução do sentido de conforto, abrigo e apropriação da habitação de cada um.

Todo este amplo potencial de atividades extra-residenciais, liga-se, naturalmente aos três aspetos em seguida apontados:

(i) à dimensão social (nº de habitantes) do respetivo condomínio e mesmo à respetiva caraterização social pormenorizada (etária, cultural, etc.);~

(ii) e/ou à intensidade com que o condomínio se integra na continuidade urbana da vizinhança próxima e da própria cidade que se segue; ou, alternativamente, ao grau de isolamento urbano local que carataeriza a intervenção;

(iii) e/ou à caraterização do próprio conjunto edificado no sentido de se assumir, em alternativa, mais como um conjunto de habitações bem autonomizadas, servidas por algumas infraestruturas comuns, ou como um conjunto de células habitacionais individualizadas (pessoas sós e casais) razoavelmente autonomizadas, mas expressiva e formenete servidas por um amplomleque de infraestruturas comuns espaciais e de serviços.

E podemos comentar que se trata aqui de matéria ligada ao reinventar de novas tipologias residenciais e urbanas.

Mas de qualquer forma importa registar que mesmo a corrente “sala de condomínio” pode e deve ser tratada de uma forma que lhe confira um máximo de condições de atractividade e diversidade de usos, pois de outroo modo mais vale considerá-la de modo basicamente residual.

Em tudo isto importa não esquecer que muitos estudos destacam a importância dos espaços comuns na socialização dos vizinhos. Por exemplo, num estudo realizado, há alguns anos, sobre o Bairro de Telheiras, cerca de um quarto das respostas consideraram os espaços comuns do edifício como locais de maior frequência de contacto com os vizinhos. (1)

Mas há que sublinhar que até a regulamentação - ainda que marcada pelos melhores objetivos - tem contribuído, indirectamente, para a gradual anulação do uso de todos os espaços comuns que não aqueles usados em ligação com os elevadores, obrigando-se a um uso comum de espaços exíguos, o que não favorece, em nada, o potencial de convivialidade do edifício; mais uma matéria que importa repensar e aprofundar.

E faltará talvez falar um pouco mais dos “outros” átrios, daqueles que nos marcam, quando neles entramos, e que por vezes até são pequenos e "simples" de desenvolver, sendo essencial sublinhar que o vestíbulo doméstico deve ser um espaço de algumas funcionalidades e de um máximo de identidade(s), plasmadas de uma forma muito sensível e onde o sentido do conjunto, do comum, exista, mas se harmonize e de certa forma se subalternize relativamente ao sentido da identidade de cada habitação e, indiretamente, de cada habitante; e isto ainda que tal condição deva ser assegurada ainda razoavelmente longe da porta de entrada de cada célula/mundo doméstico; e não nos esquecendo, ainda suplementarmente, que o átrio comum tem também de ser um limiar entre vizinhança e mundo doméstico, um limiar que nos introduza à vizinhança e que apoie na privatização da nossa "casa" (e uma "casa" que é frequentemente um apartamento afastado do chão, mais uma matéria a desenvolver posteriormente).

 

Fig. 02: o interior comum/coletivo de um edifício em Hamburgo, Aufbruch in Hamm-Sud, Arq.º Czerner und Czerner, 2000.


Salas e espaços de condomínio


Aproveitando-se as conclusões de um estudo realizado, há alguns anos, (editado pela Livraria do LNEC - Informação Técnica Arquitectura n.º 2), apontam-se, em seguida, as condições que são desejáveis nos compartimentos comuns do condomínio (salas de condóminos):

·      Posicionamento estratégico no edifício, por exemplo no piso térreo, aproveitando espaços com reduzidas condições de privacidade para usos habitacionais e bem relacionados com o átrio principal de recepção. A sala de condóminos deve cumprir exigências muito rígidas quanto a condições de natural acessibilidade e comunicabilidade em relação ao principal átrio de entrada no edifício, caso contrário arrisca-se a ter uma utilidade muito duvidosa.

·      Adequação, na configuração e no dimensionamento, ao número provável de utentes.

·      Multifuncionalidade

·      Adequados equipamentos e instalações de apoio (ex., pequenas instalações sanitárias para homens e senhoras, bancada de preparação ou simples apoio e aquecimento de refeições, e arrumação espaçosa para mobiliário escamoteável).

·      Adequadas condições de funcionalidade e conforto para os fins visados, nomeadamente, pela instalação, de raiz, de mobiliário construído (ex., bancos corridos em alvenaria).

·      Fazer sentir aos utentes o interesse que há na frequente utilização do "solo" exterior/logradouro comum ou dos espaços públicos ou semi-públicos contíguos.

·      Ter utilidades diárias reais (ex., frequentar pequeno bar com recantos de estar, ver TV panorâmica, jogar bilhar e ténis de mesa, acompanhar crianças que brincam em espaço exterior contíguo ou muito próximo enquanto se lê um livro ou o jornal, estar em grande recanto com lareira, sauna, “squash”, sala de ginástica, etc.).

·      Ter utilidades periódicas e eventuais (ex., uso para festas familiares ou alargadas a ser requisitado/marcado por qualquer um dos condóminos).

A sala de condóminos pode caracterizar-se por: instalações sanitárias adequadas, mobiliário comum, TV panorâmica recebendo canais de satélite, recantos e zonas para jogos difíceis de ter em casa (exemplo: ténis de mesa e bilhar ou snooker), recantos para jogos de mesa, zona de lareira, zona de aquecimento e apoio a refeições, mesas e cadeiras guardadas para servirem em ocasiões festivas, etc.


A questão do dimensionamento e eventual inexistência de sala de condóminos tem a ver com a situação de esta sala ser mais adequada/viável quando número de fogos agregado no mesmo edifício, ou conjunto de edifícios, é significativo - entre 20 a 30 -, de modo a que a participação de cada fogo para a sala de condóminos, em termos da respectiva fracção de área bruta, seja diminuta, por exemplo cerca de 1.50m² por fogo; o que resultará numa área de cerca de 30 a 45m², muito mais eficiente para os fins em vista do que um conjunto menos numeroso de fogos (exemplo: 12 fogos = 18m²).

Segundo Patricia Tutt e David Adler, o dimensionamento de uma sala de condóminos tem a ver com os seguintes aspectos: (2)

·      Quando se deseje uma verdadeira sala de condóminos, incluindo diversos espaços de convívio e estar, a referência a usar poderá ser de cerca de 1m²/habitante; o que dará para um edifício com 20 fogos, e uma média de 3.5 pessoas/fogo, uma área total com cerca de 70m², que parece ser equilibrada para os usos pretendidos.

·      Quando se deseje uma sala de condóminos essencialmente para as reuniões periódicas da Assembleia Geral do condomínio, poderá usar-se um dimensionamento base de 20m², ao qual se juntará um suplemento de área calculado na base de 0.20m²/habitante, acima de um grupo-base de 25 pessoas; o que dará para a mesma base de cálculo (edifício com 20 fogos, e uma média de 3.5 pessoas/fogo), uma área total com cerca de 20m²+0.20m²x45p = 29.00m².


Nota final: em próximos artigos desta série iremos seguir a "estrutura" dos espaços comuns habitacionais, designadamente, através das suas escada comuns, elevadores/ascensores e patins comuns de acesso às habitações privadas.


Notas:

(1) NEUT, ISCTE, "Usos e Apropriação do Alojamento em Telheiras: Relatório Final", p. 119.

(2) Patricia Tutt; David Adler (Ed.), "New Metric Handbook", pp. 312 e 315.



Notas editoriais:
(i) Embora a edição dos artigos editados no Infohabitar seja ponderada, caso a caso, pelo corpo editorial, no sentido de se tentar assegurar uma linha de edição marcada por um significativo nível técnico, as opiniões expressas nos artigos apenas traduzem o pensamento e as posições individuais dos respectivos autores.

 

INFOHABITAR Ano IX, nº459
Artigo XXXIX da Série habitar e viver melhor

Editor: António Baptista Coelho - abc@lnec.pt
Dos átrios comuns habitacionais aos outros espaços de condomínio

Grupo Habitar (GH) Associação Portuguesa para a Promoção da Qualidade Habitacional

e  Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais (NUT) do LNEC

Edição: José Baptista Coelho - Lisboa, Encarnação - Olivais Norte.